Industrias madeireias de Manaus, Amazonas, Brasil.

Texto

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INDÚSTRIAS MADEIREIRAS DE M A N A U S , A M A Z O N A S , BRASIL

Ceci SALES-CAMPOS*, Raimunda Liége Souza de ABREU*, Bazílio Frasco VIANEZ*

RESUMOzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA - Este trabalho é resultante de uma pesquisa realizada em indústrias madeireiras da cidade de Manaus, envolvendo 20 movelarias, onze serrarias e seis fábricas de compensados, onde foram focalizados, principalmente, o uso de produtos preservantes de madeira, estocagem, secagem da madeira e aproveitamento da matéria-prima. Desse universo, constatou-se que apenas 4 movelarias utilizam preservantes e que as seis fábricas de compensados usam este produto, misturando-o ao adesivo, restringindo o seu uso à linha de cola. Constatou-se também que a estocagem das toras é feita dentro da água e/ou no pátio. Neste caso, são empilhadas umas sobre as outras e em contato direto com o solo. A maioria das indústrias não utiliza uma secagem adequada, sendo que a secagem artificial, a alta temperatura, é restrita às indústrias de compensado e à duas serrarias. No setor moveleiro apenas duas fábricas fazem uso do secador solar. Verificou-se também um desperdício muito grande da matéria prima, havendo pouco aproveitamento dos resíduos da madeira, que em geral são utilizados na geração de energia em caldeira e em fornos de olarias e padarias.

Palavras-Chave: Amazônia, indústrias madeireiras, preservantes, secagem, estocagem, resíduo

Conditions of Use and Processing of Wood in Wood Industries of Manaus, Amazonas, Brazil

ABSTRACT - A survey was carried out in the wood industries of Manaus, Amazonas, Brazil,

where 20 furniture factories, eleven sawmills and six plywood mills were investigated, mainly

to evaluate the use of wood preservatives, storage, drying and utilisation efficiency of raw material, including waste. Only four furniture factories used wood preservatives and all the plywood mills used the preservatives added to the resin-glue, thus restricting this product to the glue line.

Log storage is in water and/or log yards, in which case, the logs arc piled up in direct contact

with the ground. The majority of the industries do not use correct drying procedures, with artificial drying restricted to the plywood mills and two sawmills. Only two furniture factories used solar dryers. There is an enormous wastage of raw material and almost no use of residues, which are normally used in power generation and pottery and bakery ovens.

Key words: Amazonian, wood industries, wood preservatives, dry wood, log storage, wood waste

* Coordenação de Pesquisas em Produtos Florestais/Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Av. André Araújo, 1756, Caixa Postal 478, CEP 69.011-970, Manaus, AM, Brasil I N T R O D U Ç Ã O

A p ó s o a b a t e , as á r v o r e s apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento de insetos e fungos xilófagos, por causa do alto teor de umidade, temperatura, volatilização de substâncias atrativas, pH, oxigênio e

outros (CadezyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA et aL, 1970; Samaniego & Gara, 1970; Mendes & A l v e s ,

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Vários processos de tratamento são usados no sentido de proteger a m a d e i r a da b i o d e t e r i o r a ç ã o , especialmente a utilização de produtos preservantes. O tratamento preservante depende do tipo de agente degradador, do risco de a t a q u e , da p r o t e ç ã o d e s e j a d a , dos p r o d u t o s q u í m i c o s utilizados, da condição final em que as m a d e i r a s serão e x p o s t a s , d e n t r e o u t r o s . Ε i m p o r t a n t e t a m b é m considerar a relação custo-benefício do tratamento, uma vez que madeiras suscetíveis à biodegradação, mas que ao m e s m o t e m p o são de fácil tratabilidade, justificam a importância de se utilizar madeiras preservadas, levando-se em consideração desde o fator reposição até o custo final do

material preservado (BarbosazyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA et aL, 1991).

Entre os processos de tratamento químico da madeira e n c o n t r a m o s d e s d e os m a i s s i m p l e s c o m o pincelamento, imersão, aspersão ou borrifação, substituição de seiva, tratamento com banho quente-frio, até os mais sofisticados, que utilizam vácuo e pressão, dentre os quais o mais importante é o método de célula cheia ou Bethell ( C T F T , 1970; Cockroft, 1971; Déon, 1978).

A secagem da madeira, seja ar-tificial ou natural, é um dos requisitos importantes para obtenção de um produto de boa qualidade, pois além de promover a redução do teor de umidade, permite isolamento térmico, e l é t r i c o e m e l h o r t r a t a b i l i d a d e , proporciona boa trabalhabilidade no acabamento de superfícies, colagens, fixação de pregos e parafusos, além de

restringir o ataque de organismos xilófagos (Mendes, 1984). Nos países tropicais são desenvolvidos dois tipos de secagem artificial: a clássica à alta temperatura, e a secagem à baixa temperatura (Déon, 1989), onde são utilizados secadores convencionais, sendo que o método preferencialmente utilizado é o de alta temperatura, em função da otimização do tempo. Neste caso, para se obter uma boa secagem é preciso que ela seja conduzida de forma cautelosa, com utilização de s e p a r a d o r e s , para p r o m o v e r boa ventilação entre as peças. As espécies devem ter densidades similares, e devem obedecer a um programa de secagem adequado (Jankowsky, 1990), propiciando desta forma uma secagem mais homogênea da carga, evitando assim, deformações como rachaduras, empenamentos e ataque de fungos (Déon, 1989).

A secagem natural, que é mais u t i l i z a d a nos p a í s e s em v i a s de d e s e n v o l v i m e n t o , é de g r a n d e relevância para a pequena empresa e não n e c e s s i t a de g r a n d e s c u s t o s , também precisa ser feita de maneira adequada (em condições de abrigo, com utilização de separadores). Para ser eficiente, deve ser acompanhada de uma boa e s t o c a g e m , a qual d e v e seguir as mesmas condições utilizadas na secagem natural.

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Este trabalho teve como objetivo fazer um levantamento sobre alguns aspectos das condições de manuseio e de processamento da matéria-prima nas indústrias madeireiras de Manaus, onde foram enfatizados origem e transporte da matéria-prima, uso de produtos preservantes, secagem e estocagem da madeira e aproveitamento dos resíduos. Estas informações poderão servir como subsídios para que as empresas melhorem a qualidade do seu produto final e possam aproveitar adequadamente a matéria-prima e, ao mesmo tempo, atingir a classe estudantil com interesses voltados ao setor

madeireiro. zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

M A T E R I A L Ε M É T O D O S

Este trabalho foi executado em indústrias madeireiras de Manaus, b a s e a d o n u m a lista de e m p r e s a s existentes, fornecida pelo SEBRAE/ AM, lendo sido abordadas aquelas em atividade: 20 movelarias, 11 serrarias c 6 fábricas de chapas de madeira compensada.

A metodologia utilizada neste l e v a n t a m e n t o consistiu no

preenchimento de um questionáriozyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA in loco, onde foram focalizados aspectos

como o uso de produtos preservantes de madeira, armazenamento, métodos de preservação utilizados e processos de secagem da madeira ( A n e x o l ) . Além d e s s a s q u e s t õ e s , foram r e g i s t r a d a s o u t r a s o b s e r v a ç õ e s inerentes ao uso da matéria-prima, c o m o p e r d a s por b i o d e g r a d a ç ã o , o b s o l e s c ê n c i a do e q u i p a m e n t o e ineficiência no processamento.

R E S U L T A D O S Ε D I S C U S S Ã O O r i g e m e transporte da

matéria-prima

Na Amazônia, as atividades do setor florestal diferenciam-se do resto do país d e v i d o a c a r a c t e r í s t i c a s inerentes à região como: a localização geográfica e enchente dos rios. As espécies madeireiras beneficiadas pelas indústrias estão muito distantes do local de beneficiamento. Cerca de 9 0 % do v o l u m e das m a d e i r a s utilizadas encontram-se em área de várzea, terras periodicamente alagadas em função dos períodos de cheia e v a z a n t e ( C r u z , 1991). Tal peculiaridade, associada a longos períodos de transporte, constituem fatores que propiciam o ataque de organismos degradadores de madeira. Na várzea, a extração da madeira é r e a l i z a d a nos m e s e s de a g o s t o a novembro, por ocasião da vazante dos rios. A retirada e transporte fluvial das t o r a s é e x e c u t a d a nos m e s e s de fevereiro a julho, época das cheias (Hummel et ai, 1994), ocasionando g r a n d e d e l o n g a até o pátio das indústrias, permitindo maiores ataques de fungos e insetos.

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p a r a serem t r a n s p o r t a d a s . Neste período, as toras apresentam um teor de umidade elevado, o que favorece o a t a q u e de o r g a n i s m o s x i l ó f a g o s , p r i n c i p a l m e n t e i n s e t o s e fungos (Mendes & Alves, 1988).

N o transporte, que é feito na forma de jangada, observou-se que a parte imersa da tora encontrava-se protegida, porém a parte emersa, que sofria ação direta do sol, possuía geralmente rachaduras, além de ataque de organismos xilófagos. Verificou-se também que na maioria das empresas de beneficiamento, quando as toras encontravam-se armazenadas dentro d'água, ficavam protegidas, porém quando eram levadas ao pátio de estocagem tornavam-se suscetíveis ao ataque de insetos, fungos e bactérias. A perda ocasionada por insetos e fungos em algumas serrarias era em torno de 40%. Em algumas empresas de compensado observou-se perdas estimadas em até 60%, em espécies como virola e muiratinga, pois o a t a q u e dos b e s o u r o s , c o m o os p e r t e n c e n t e s às famílias C e r a m b y c i d a e , S c o l y t i d a e e Platypodidae, em muitos casos, atingia

até o centro da tora. zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Espécies mais utilizadas

A s e s p é c i e s m a d e i r e i r a s beneficicadas pelas indústrias de c o m p e n s a d o são, p r i n c i p a l m e n t e , virola, copaiba, muiratinga, sumauma, e caucho. Nas serrarias e movelarias, em regra geral, são: cerejeira, cedro, mogno, angelim-pedra, louro-gamela, inhamuí, preto,

louro-puchuri e sucupira (Tab. 1).

Aspectos gerais das empresas

As empresas que exploram o setor madeireiro de Manaus estão divididas de acordo com seu produto final em: m o v e l a r i a s , s e r r a r i a s e fábricas de c o m p e n s a d o s . A s m o v e l a r i a s são e s p e c i a l i z a d a s principalmente na fabricação de ca-mas, armários, cômodas e reparos de móveis, com produção final abaixo de lOmVmês. As serrarias trabalham com beneficiamento de madeiras em geral, fornecendo madeira em forma de pranchas, pranchões, lambris, tábuas, a z i m b r e , r i p a s , m a d e i r a s p a r a a c o n s t r u ç ã o em g e r a l , p a l e t e s e embalagens. A produção efetiva varia de 200 a 1.200m3

/mês. As fábricas de c h a p a s de m a d e i r a c o m p e n s a d a fornecem este p r o d u t o p a r a o c o m é r c i o l o c a l , n a c i o n a l e internacional, e sua produção efetiva varia de 500 a 1500m3

/mês.

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Tabela 1.zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Principais espécies florestais utilizadas pelas indústrias madeireiras dc Manaus, Amazonas, Brasil.

Nome vulgar Nome científico Família

Açacu zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAHura crepitans L. Euphorbiaceae Andiroba Carapa guianensis Aubl. Meliaceae

Angelim-pedra Hymenolobium pulcherrimum Ducke Fabaceae Angelim Hymenolobium spp. Fabaceae Angelim-rajado Marmaraxylon racemosum (Ducke) Killip. Mimosaceae Caucho Castilloa ulei Warb. Moraceae Cedro Cedrella odorata L. Meliaceae Copaiba Copaifera multijuga Hayne Caesalpinaceae Cerejeira Torresea acreana Ducke Fabaceae Jacareúba Calophyllum brasiliensis Camb. Clusiaceae Louro-inhamui Ocotea cymbarum H.B.K. Lauraceae Louro-gamela Nectandra rubra (Mez.) C. K. Allen Lauraceae

Louro Ocotea spp. Lauraceae

Macacarecuia Couroupita guianensis Aubl. Lecythidaceae Maçaranduba Manilkara spp. Sapotaceae Mogno Swetenia macrophylla King. Meliaceae

Muiratinga Maquira coriacea (Karsten) C. C. Berg. Moraceae Sucupira Bowdichia nítida Spruce ex Benth. Fabaceae Sumaúma Ceiba pentandra Gaertn. Bombacaceae Ucuúba branca Virola surinamensis Warb. Myristicaceae

também não são registradas como empresas.

Uso d e preservantes de madeira

Todas as fábricas de compensados usam preservantes de madeira, conforme mostra a Tabela 2, geralmente de ação inseticida. Sua aplicação é sempre feita na linha de cola, através da adição destes produtos durante a preparação do adesivo, permitindo penetração limitada do

preservante na lâmina do compensado, o q u e p o s s i b i l i t a o a t a q u e de organismos xilófagos.

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preservação inadequada. Muitas das peças de madeira já vêm atacadas das s e r r a r i a s ou m e s m o do ponto de origem, onde também não receberam qualquer tratamento. Em certos casos foram aplicados produtos oleosos em m a d e i r a ú m i d a , assim c o m o fungicidas em peças atacadas por insetos. De maneira geral, não há preocupação em utilizar o produto preservante correto e a técnica de aplicação adequada ao uso do produto final da madeira.

M u i t o s dos p r o d u t o s preservantes utilizados nas movelarias são o r g a n o c l o r a d o s , fungicidas tóxicos, hidrossolúveis, à base de c l o r o f e n a t o s de sódio e que g e r a l m e n t e são m a n u s e a d o s de maneira inadequada, sem qualquer e q u i p a m e n t o de proteção. Outros produtos utilizados são os oleosos à

base de clorofenóis, de ação fungicida e inseticida, aplicados através de pincelamento, após o corte das peças, ou pulverização antes do acabamento (Tab. 2).

D a s s e r r a r i a s p e s q u i s a d a s , n e n h u m a d i s p u n h a de q u a l q u e r tratamento preservante (Fig. 1), sendo q u e em m u i t o s c a s o s o r i s c o de i n f e s t a ç ã o por o r g a n i s m o s d e t e r i o r a d o r e s era m a i o r em d e c o r r ê n c i a do e m p i l h a m e n t o incorreto durante a estocagem da m a t é r i a - p r i m a , o n d e não eram utilizados, por exemplo, separadores entre as peças de madeira (Tab. 2). Os dados levantados estão próximos aos

a p r e s e n t a d o s por H u m m e lzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA et al. (1994), quando relatam que apenas

4 , 3 % das s e r r a r i a s de t o d o o Amazonas utilizam algum tipo de

preservante. zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

o zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

1

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

o-zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA < Λ

O 5

Figura 1

Brasil.

100%

7 5 %

50%

2 5 %

0%

m

Compensado Movelaria Serraria INDÚSTRIAS MADEIREIRAS

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Tabela 2.zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Uso de preservantes c condições dc estocagem cm indústrias madeireiras de Manaus, Amazonas, Brasil. zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Movelarias/Marcenarias Serrarias Compensados

Tipo do produto quanlo ao solvente 0

• Hdrossolúvel 1 0 6

* Oleossolúvel zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA- 0 zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

-• Oleoso 3 0

-Método d e aplicação do preservante

• Pulverização 2 0 •

* Pincelamento 1 0

-' Adição do produto na cola 1 0 6

Peça tratada

• Prancha/Tábua 1 0

-• Lâmina 0 6

• Produto acabado 3 0

-Estocagem do preservante

" S o b abrigo à temperatura ambiente 4 0 5

' Ao a r livre 0 1

Estocagem da madeira antes d o processamento

' Dentro do rio - 11 6

* E m pátio a o a r livre em contato direto c o m o solo 4 11

" S o b abrigo, s e m uso d e separadores no empilhamento - 4

Estocagem da madeira após o processamento

* A o ar livre, c o m uso d e separadores 1 3

-• A o ar livre, s e m uso d e separadores 1 8 zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

-• Sob abrigo, c o m uso d e separadores 2 0

-' Sob abrigo, s e m uso d e separadores 2 0

-' Empacotamento das chapas compensadas com lonas plásticas - 0 4

O extrativismo vegetal na região Amazônia é considerado empírico

(Homma, 1989; HummelzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA et ai, 1994). A precária condição de tratabilidade da

m a d e i r a p o s s i v e l m e n t e t a m b é m contribui para tal fato, onde nota-se uma correlação com as observações de Fougerousse (1969), referindo-se a p a í s e s t r o p i c a i s , d e s t a c a n d o os africanos. Em seu trabalho, o autor enfatiza a necessidade de tratamento da tora logo após a derrubada da árvore na floresta. Este fato ainda está muito aquém de nossa realidade, onde sabe-se que a exploração madeireira

da região não envolve qualquer tipo de preservante aplicado na tora ainda na floresta e, segundo Jansen & Alencar ( 1 9 9 1 ) , a e x p l o r a ç ã o o c o r r e de maneira predatória e em muitos casos o v o l u m e de e x t r a ç ã o s u p e r a a c a p a c i d a d e de r e c u p e r a ç ã o , caracterizando o extrativismo por aniquilamento, definido por Homma (1989).

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ser t o m a d a s d e s d e a o r i g e m da m a t é r i a - p r i m a até o t r a t a m e n t o q u í m i c o d e f i n i t i v o da madeira beneficiada, o que contribuiria para o aumento de sua vida útil, minimizando a exploração predatória. Para isto entretanto, teria que haver melhor c o n s c i e n t i z a ç ã o das p e s s o a s envolvidas nesse tipo de atividade.

S e g u n d o Déon ( 1 9 8 9 ) , em algumas indústrias madeireiras da África são realizados tratamentos por p u l v e r i z a ç ã o nas t o r a s a n t e s do beneficiamento, porém muitas das vezes de maneira precária, pois o produto não atinge toda a superfície da tora, particularmente a zona de contato com o solo ou com outra tora. Muitas serrarias de países tropicais como o Zaire e outros países africanos vêm utilizando tratamento de proteção temporária em peças recém-serradas, onde são introduzidas em um tanque de solução preservante através de e s t e i r a s r o l a n t e s . Este s i s t e m a é simples e seria bastante interessante para adaptação em serrarias locais. Em que pese a tecnologia não seria tão difícil, caso existisse o interesse empresarial, bem como o político das pessoas envolvidas neste contexto.

A alternativa para as madeiras da Amazônia de difícil tratabilidade provavelmente seria o tratamento das peças por difusão segundo Sales-Cam-pos (1998) em função de permitir a impregnação da parede celular através dos capilares, penetrando portanto mais profundamente na madeira. Através deste processo de tratamento pode-se obter boa penetração, mesmo em e s p é c i e s refratárias

(Richardson, 1978; Wilkinson, 1979) Q u a n t o à e s t o c a g e m dos produtos preservantes, observou-se que na m a i o r i a das v e z e s são e s t o c a d o s dentro de g a l p õ e s , à

temperatura ambiente (Tab. 2). zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Secagem e estocagem da madeira

A e s t o c a g e m d a s t o r a s n a s serrarias e indústrias de compensado antes do b e n e f i c i a m e n t o e da preservação em geral é feita dentro d'agua ou em pátio ao ar livre, em contato direto com o solo. Nas fábricas de compensado/laminado, as chapas compensadas e as lâminas destinadas a exportação ficam estocadas sob abrigo, sendo empacotadas com lonas plásticas (Tab. 2). Nas movelarias/ c a r p i n t a r i a s , a m a d e i r a após preservada fica ao ar livre ou sob abrigo, sendo que algumas utilizam separadores no empilhamento das peças.

A s e c a g e m da m a d e i r a desdobrada na forma de tábuas, ripas, ripões e t c , é feita de forma inadequada, em pátio ao ar livre, ou em galpão, onde nem sempre são usados separadores no empilhamento das peças, ficando geralmente em contato com o solo, propiciando assim condições para ataque, principalmente de fungos, por causa da falta de ventilação e excesso de u m i d a d e . O b s e r v o u - s e t a m b é m , que na exportação de compensados para o m e r c a d o i n t e r n a c i o n a l , d e v i d o a exigência dos compradores, o produto é melhor estocado.

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apenas duas fazem uso de secador so-lar, os quais foram desenvolvidos conforme as especificações do INPA (Vetter, 1995) e duas das 11 serrarias utilizam o processo de secagem em estufa. Nos dois processos observou-se a mistura de espécies de densidades muito diferentes; produzindo deste m o d o uma secagem desuniforme. Q u a n d o da secagem em estufa, observou-se também defeitos como e m p e n a m e n t o , e n c a n o a m e n t o e rachaduras.

Sabe-se que a secagem é um dos fatores primordiais na qualidade do p r o d u t o final. U m a m a d e i r a a d e q u a d a m e n t e seca oferece mais r e s i s t ê n c i a à ação de agentes deterioradores, principalmente de fungos (Déon, 1989). Por este motivo se faz necessário que seja feita dentro de certos padrões, como por exemplo, quando da secagem artificial, deve-se fazer a separação das espécies de a c o r d o com um e s c a l o n a m e n t o adequado de temperatura e umidade de a c o r d o com cada e s p é c i e (Jankowisky, 1990). Estes critérios ajudam a m i n i m i z a r os defeitos provenientes da secagem.

Em muitos países tropicais a s e c a g e m natural é u t i l i z a d a pela m a i o r i a das i n d ú s t r i a s s e g u i n d o padrões de secagem que proporcionam p r o d u t o s finais de boa qualidade (Déon, 1989). O autor ressalta que nos países em vias de desenvolvimento a secagem artificial é restrita a poucas indústrias. As observações obtidas neste levantamento respaldam as afirmações de Deon (1989), uma vez

que, apenas 1% das 20 movelarias de Manaus utilizam a secagem solar, 18 % das serrarias fazem uso da secagem artificial e 36% usam a secagem

natu-ral. Ainda sobre secagem, HummelzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA et al. (1994) relatam que apenas 2 6 , 1 %

das serrarias de todo o Estado do Amazonas fazem uso de processos de secagem, envolvendo a secagem

natu-ral e a artificial. zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

A p r o v e i t a m e n t o da matéria-prima

Constatou-se que as serrarias e fábricas de c o m p e n s a d o s , q u e trabalham com beneficiamento de toras, não têm qualquer preocupação em p r e s e r v á - l a s , pois não u s a m produto químico para prevenir ataque de organismos xilófagos, ocasionando consequentemente, perdas de até 60% da matéria-prima devido ao ataque d e s s e s o r g a n i s m o s , que são principalmente os fungos e insetos, conforme mencionado no item origem e transporte de matéria-prima.

Nas indústrias madeireiras há um desperdício muito grande de matéria-p r i m a , matéria-p o i s , além das matéria-p e r d a s p r o v o c a d a s p e l o s o r g a n i s m o s xilófagos, também ocorrem perdas por d e s g a s t e m e c â n i c o , r a c h a d u r a s , costaneiras, aparas, rolos-resto, etc. As perdas, nestes casos, variam de 15% a 50% do volume da tora, de acordo com as o b s e r v a ç õ e s o b t i d a s nas indústrias.

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t a m b é m u t i l i z a os r e s í d u o s para confecção de tábuas e grades e outra na f a b r i c a ç ã o de sarrafeado e caixotaria. A maioria das serrarias não a p r o v e i t a os r e s í d u o s , mas os r e p a s s a m , para as fábricas de compensados, olarias e padarias, para serem utilizados na geração de energia, em caldeiras e fornos. Esse repasse muitas vezes é feito gratuitamente, apenas como forma de se livrarem do " e n t u l h o " . Destas serrarias, uma também utiliza o resíduo na fabricação de cabo de vassoura, e duas o destinam para queima ou simplesmente descarte (Tab. 3). No que se refere ao aproveitamento para fins energéticos (caldeira, cerâmicas, olarias e padarias), estes dados estão de acordo com os

observados por HummelzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA et al. (1994). A serragem e pequenos pedaços

de madeira também são considerados " e n t u l h o " , sendo a m o n t o a d o s ou simplesmente queimados nos fundos das empresas ou jogados nos rios ou igarapés próximos, concordando com as observações de H u m m e l et al. (1994). Nas movelarias, as perdas são

menores em função destas receberem as peças já desdobradas e selecionadas das s e r r a r i a s . M e s m o a s s i m , os resíduos são simplesmente queimados ou descartados (Tabela 3). Se houvesse melhor conscientização e um estudo e c o n ô m i c o viável para a r e g i ã o , provavelmente essa matéria-prima desperdiçada poderia ser aproveitada na confecção de móveis, na construção civil, na confecção de artefatos de madeira, e outros, porque na maioria das vezes são espécies consideradas

nobres, de alto valor comercial. zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Considerações Finais

O desperdício da madeira na região Norte ainda é muito grande. Os principais fatores que contribuem para tal d e s p e r d í c i o s ã o : g r a n d e disponibilidade e pouca valorização da m a t é r i a - p r i m a , falta de c o n s c i e n t i z a ç ã o por parte do empresariado local, ausência de uma legislação que determine o uso de preservantes para madeira e u m a secagem correta, o que reduziria consideravelmente esta perda. Além

Tabela 3. Categoria de utilização dc resíduos por indústrias madeireiras de Manaus, Amazonas,

Brasil.

Utilização do resíduo

Indústrias Energia Cabo de Tábuas e Sarrafeado e Fogo Lixo vassoura grades caixotaria

Compensado 6 1 1

Serrarias 11 1 1 1

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dos fatores mencionados, a falta de tradição no uso adequado da madeira bem como a falta de conhecimento dos g a n h o s q u e a r e l a ç ã o c u s t o / benefício da madeira devidamente tratada poderia proporcionar, levam os empresários do ramo a não investirem na aplicação de produtos preservantes de madeira.

A preservação da madeira visa dar a esta m a t é r i a - p r i m a m a i o r r e s i s t ê n c i a e c o n s e q u e n t e m e n t e c o n t r i b u i r p a r a u t i l i z a ç ã o m a i s racional da floresta, uma vez que r e d u z i r á b a s t a n t e sua d e m a n d a , levando-se em consideração que uma espécie devidamente preservada terá sua vida útil prolongada. Para que um t r a t a m e n t o seja e c o n o m i c a m e n t e viável, é imprescindível que a vida útil da m a d e i r a tratada seja significativamente aumentada.

Para reverter este quadro é necessário uma legislação florestal coerente com a região e principalmente a conscientização dos madeireiros, acerca do uso correto da matéria-prima, desde a exploração, desdobramento até o produto final. Porém, esses fatores ainda levarão alguns anos para serem i m p l e m e n t a d o s . Provavelmente, pressões externas de uma política ambientalista, conjuntamente com a conscientização de fato da necessidade de um desenvolvimento sustentado, podem levar a utilização mais adequada do potencial madeireiro da região

amazônica. zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

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(13)

A n e x o 1

Ficha para preenchimento nas

indústrias madeireiras zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Nome da Indústria: Responsável/Cargo: Natureza:

Produto final:

Espécies de madeira que trabalham: Origem da matéria-prima:

Tempo aproximado entre o corte das árvores e estocagem da tora:

Volume total de tora por espécie e o volume aproveitável:

A p r o v e i t a m e n t o de a p a r a s , costaneiras, rolos-resto, e t c :

Capacidade produtiva:

Usa algum produto preservante: ( ) S i m

( ) N â o

Tipo de produto: ( ) oleossolúvel ( ) Oleoso ( ) hidrossolúvel ( ) outros

Especificar:

Composição química:

Método de preservação: ( ) imersão

( ) aspersão ou borrifação ( ) pincelamento

( ) banho quente/frio ( ) difusão

( ) lâmina

( ) produto acabado

Estocagem do preservante: ( ) temperatura ambiente

( ) ar condicionado ( ) outros

Especificar:

E s t o c a g e m d a m a d e i r a a n t e s da preservação

) e m pátio, ao ar livre ) na água

) e m contato c o m o solo ) sem contato com o solo ) empilhada c o m

separadores ( ) empilhada sem

separadores

E s t o c a g e m d a m a d e i r a a p ó s a preservação:

( ) e m pátio ao ar livre ( ) e m contato c o m o solo ( ) empilhada c o m

separadores

( ) empacotada com lona plástica

Secagem da madeira ( ) ao ar livre ( ) e m estufa ( ) secador solar

OBS:

Imagem

Tabela 1. zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA  Principais espécies florestais utilizadas pelas indústrias madeireiras dc Manaus,  Amazonas, Brasil

Tabela 1.

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Principais espécies florestais utilizadas pelas indústrias madeireiras dc Manaus, Amazonas, Brasil p.5
Tabela 2. zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA  Uso de preservantes c condições dc estocagem cm indústrias madeireiras de Manaus,  Amazonas, Brasil

Tabela 2.

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Uso de preservantes c condições dc estocagem cm indústrias madeireiras de Manaus, Amazonas, Brasil p.7
Tabela 3. Categoria de utilização dc resíduos por indústrias madeireiras de Manaus, Amazonas,

Tabela 3.

Categoria de utilização dc resíduos por indústrias madeireiras de Manaus, Amazonas, p.10

Referências