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A influência do turno de trabalho em pacientes com diabetes mellitus tipo 2.

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Rev Assoc Med Bras 2008; 54(2): 160-2

160

FATORESASSO C IAD O SÀIN TERRU PÇÃOD ETRATAM EN TOAN TI-RETRO VIRAL TS

Artigo Original

RATAM EN TOARN I RO S ETDE ALCRIAN ÇAS. D ESN U TRID ASH OSPITALIZ ADAS

*Correspondência:

Serviço de Medicina O cupacional, Hospital de Clínicas de Porto Alegre Rua Ramiro Barcelos, 2350 - subsolo - Porto Alegre - RS Cep 90035-003

Tel: (51)2101-8222 [email protected]

RESUMO

O

BJETIVOS. O objetivo deste estudo foi investigar a relação entre trabalho em turnos e pacientes diabéticos tipo 2.

M

ÉTODOS

.

Um estudo transversal foi realizado em uma coorte de 95 pacientes diabéticos que trabalham no Hospital de Clínica s de Porto Alegre. O s pa cientes fora m divididos em dois grupos de a cordo com o turno de tra ba lho noturno e diurno. O s pacientes foram submetidos à avaliação clínica e laboratorial.

R

ESULTADOS

.

Não houve diferença significativa em relação à idade, sexo, duração do diabetes, índice de massa corporal, glicemia de jejum, teste A1c,triglicerídeos, colesterol total, LDL colesterol, H DL colesterol, creatinina sérica e ácido úrico. Maior média de circunferência abdominal foi encontrada no grupo de trabalhadores noturnos.

C

ONCLUSÃO

.

A circunferência abdominal foi mais elevada no grupo de trabalhadores noturnos. Isto pode ser um indicativo de maior resistência insulínica neste grupo de pacientes. Nossa pesquisa indica que o trabalho em turnos não esta associado com piora no controle metabólico em indivíduos diabéticos, nem com a presença de nefropatia diabética.

UN ITERM O S: Diabetes m ellitus. Turno de tra ba lho. Controle m eta bólico.

A

INFLUÊNCIA

DO

TURNO

DE

TRABALHO

EM

PACIENTES

COM

DIABETES

MELLITUS

TIPO

2

TICIANA C. RODRIGUES*, LUIS HENRIQUE S. CANANI

Trabalho realizado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Universidade Federal do Rio G rande do Sul, Porto Alegre, RS

I

NTRODUÇÃO

O Diabetes m ellitus (DM) tipo 2 é uma doença com eleva da e crescente preva lência , incluindo pa cientes ca da vez ma is jovens1, o que

determina um a umento da doença em uma popula çã o de pa cientes em fa ixa etá ria produtiva2. O s custos a ssocia dos a o tra ta mento do DM e

sua s complica ções produzem uma eleva da ca rga econômica pa ra os pacientes, familiares e para toda a sociedade2. Indivíduos com DM

possuem ma ior risco de inca pa cida de pa ra o tra ba lho3,4,5 e taxas mais

eleva da s de a bsenteísmo6. As causas dessas incapacidades funcionais

são diversa s, entre ela s: a s complica ções crônica s decorrentes da doença , a s comorbida des a ssocia da s, o excesso de peso, o desprepa ro físico, os sintoma s de descompensa çã o a guda e depressã o7,8. Pa cientes

com DM re ce be m m e nor re m une ração quando compa ra dos a indiví-duos sem a doença7,9, em funçã o de discrimina çã o por possível menor

produtivida de e, especia lmente, pela possibilida de de hipoglicemia s, o que restringe a s a tivida des a a lguns empregos.

O tra ba lho em turnos, especia lmente o tra ba lho noturno está a ssocia do a a lguns distúrbios ca ra cterísticos, entre eles: fa diga crônica , a ltera çã o do pa drã o do sono e a ltera çã o no funciona mento intestina l10.

O tra ba lho em turnos é um fa tor de risco pa ra o início de DM e existe diferente risco de a cordo com os diferentes turnos de tra ba lho11,12, e m

especia l a a lternâ ncia de turnos é um fa tor independente de risco pa ra o de se nvolvim e nt o de DM5. Indivíduos jovens, com a té 5 0 a nos de

ida de, que tra ba lha m em turno da noite possuem níveis ma is eleva dos de triglicerídeos e de glicemia , a ssim como níveis ma is ba ixos de H DL colesterol, qua ndo compa ra dos a os indivíduos que tra ba lha m a pena s dura nte o dia13. Ma s, pouco é conhecido sobre o efeito do tra ba lho

not urno no cont role glicêm ico de pa cientes porta dores de DM. O objetivo deste estudo foi a na lisa r se o controle meta bólico do DM está rela ciona do com o turno de tra ba lho.

M

ÉTODOS

Delineamento e pacientes

Foi realizado um estudo tra nsversa l em 1 0 0 pa cientes com DM tipo 2 funcioná rios do H ospita l de Clínica s de Porto Alegre em diferentes funções. Todos os pa cientes fora m a tendidos no a mbula tório de Medicina Interna do Serviço de Medicina O cupa ciona l do mesmo hospita l no período de ja neiro de 2 0 0 4 a julho de 2 0 0 6 . O proje t o foi a provado pelo comitê de ética em pesquisa do H ospita l de Clínica s de Porto Alegre. Todos os pa cientes pa rticipa ntes concorda ra m com a rea liza çã o do estudo e a ssina ra m termo de consentimento informa do. C inco pa cientes fora m excluídos por rea liza rem a lternâ ncia de turno. Dos 9 5 pa cientes resta ntes, 6 7 tra ba lha va m no turno diurno e 2 8 no turno noturno. O dia gnóstico de DM tipo 2 foi definido segundo os critérios da Orga niza çã o Mundia l de Sa úde14. Todos e st a va m há pelo

m enos seis m eses no m esm o t urno de t rabalho .

Avaliação dos pacientes

(2)

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A IN FLUÊN CIAD OTU RN OD ETRABALH OEMPACIEN TESC O MDIABETESM ELLITUSTIPO 2

e 6 % ), crea tinina sérica (método de Ja ffé) e dosa gem de a lbumina em urina estéril de 2 4 h (m étodo de im unoturbidim etria ). A nefropa tia dia bética foi definida qua ndo os pa cientes a presenta ra m excreçã o uriná ria de a lbumina (EUA) > 3 0 mg/2 4 h15, confirm a da e m pe lo m e

-nos dua s m edida s com um interva lo de três a seis m eses. As ca ra cte-rística s clínica s e la bora toria is correspondem à primeira a va lia çã o do pa ciente feita a mbula toria lmente. Pa ra o cá lculo do índice de ma ssa corpora l (IMC) utiliza mos a ra zã o peso/ a ltura a o qua dra do (kg/m2).

Pa ra a cla ssifica çã o de Síndrome Meta bólica fora m utiliza dos os crit é rios do N ation al Cholest erol Educat ion Program (N C EP)16. O s

pa cientes fora m cla ssifica dos de a cordo com o seu turno de tra ba lho e m not urno ou d iurno.

Estatística

As va riá veis contínua s fora m compa ra da s por meio do teste t de Student e a s va riá veis ca tegórica s por meio do teste do Q ui qua dra do. Variá veis qua ntita tiva s sem distribuiçã o norma l fora m submetida s à transformação logarítmica. O s da dos fora m expressos como média s ± desvio-pa drã o, exceto pa ra triglicerídeos e excreçã o uriná ria de a lbumina , os qua is fora m expressos como media na s e interva lo mínimo e m á ximo. Va lores de P < 0,05 na a ná lise univa ria da bica uda l fora m considera dos significa tivos.

R

ESULTADOS

Descrição da amostra

Entre os 9 5 pa cientes a va lia dos, 7 1 era m do sexo fem inino (7 4 ,7 % ) com média de ida de de 4 7 ± 8 ,3 7 a nos, dura çã o do DM de 4 ± 3 ,9 0 a nos, peso de 7 9 ,8 3 ± 1 5 ,7 6 kg e o controle glicêm ico (A1 c) de 7 ,5 8 % ± 1 ,8 5 % .

Descrição clínica e laboratorial de acordo com o turno de

trabalho

As ca ra cterística s clínica s e la bora toria is estã o descrita s na Ta bela 1 . N ã o houve dife re nça s e nt re os t urnos de t ra ba lho e os da dos dem ográ ficos (ida de, dura çã o do DM, dist ribuiçã o de gênero e étnica ) e ta mbém em rela çã o a os da dos pressóricos. Em rela çã o a os da dos a ntropom étricos, o índice de m a ssa corpora l foi sem elha nte nos dois grupos (3 0 ,5 2 ± 5 ,4 2 x 3 2 ,9 7 ± 6 ,2 5 kg/m2; P = 0,09),

entreta nto a circunferência a bdomina l foi ma ior nos tra ba lha dores noturnos (1 0 3 ,5 7 ± 1 3 ,7 2 x 9 5 ,9 3 ± 1 1 ,5 8 cm, P = 0 ,0 1 ). Da m esm a form a , os resulta dos la bora toria is nã o fora m diferentes nos grupos, em rela çã o a o controle glicêm ico (glicem ia sérica de jejum e t est e A1 c), pe rfil lipídico (t riglice ríde os, cole st e rol t ot a l, LDL

colest erol, H DL colest erol) crea t inina sérica e á cido úrico. Ta m bém nã o houve diferença s em rela çã o à presença de nefropa tia dia bética e de síndrom e m eta bólica .

D

ISCUSSÃO

N o presente estudo nã o fora m encontra da s diferença s entre con-trole meta bólico e complica ções rena is em rela çã o a o turno de tra ba lho em pa cientes com DM tipo 2 funcioná rios de um hospita l universitá rio. A única diferença encontra da entre os grupos foi ma ior obesida de a bdomina l nos pa cientes que tra ba lha va m à noite.

Um estudo recente avaliou a relação entre turnos de trabalho e marcadores de resistência insulínica em pacientes sem DM. O s a utores observa ra m que níveis eleva dos de pressã o a rteria l, hipertrigliceridemia e hiperglicemia fora m ma is preva lentes em tra ba lha dores noturnos com menos que 50 a nos de ida de13. Entretanto, os achados são diversos.

O utros a utores que investiga ra m distúrbios meta bólicos em homens com turnos rotativos de trabalho não encontraram qualquer associação com hiperglicemia6. Da mesma forma , em um outro leva nta mento que incluiu

pa cientes com DM, nenhuma rela çã o direta foi observa da entre o controle glicêmico e variáveis ambientais do trabalho5.

No presente estudo, a circunferência da cintura foi diferente entre os grupos. O significa do desta ma ior obesida de a bdomina l nã o é cla ro, isto pode representa r ma ior RI neste grupo de pa cientes. Entreta nto, out ros m arca dores de resistência insulínica , entre eles triglicerídeos, níveis de pressã o a rteria l, microa lbuminúria e síndrome meta bólica nã o fora m diferentes entre os grupos. Apesa r de outros fa tores da resistên-cia insulínica nã o esta rem presentes, a obesida de a bdomina l é um fa tor de risco independente pa ra leta lida de em pa cientes com DM17 e t e m

sido sugerida que seja tra ta da a gressiva mente18.

Um a possível lim ita çã o do nosso estudo é o fa to de que os pa cientes a va lia dos sã o funcioná rios de um hospita l terciá rio, referência no tra ta mento do DM, e que ta lvez possa m representa r uma popula çã o diferencia da e com eleva do gra u de informa ções sobre sua doença , o que pode contribuir pa ra um m elhor controle m eta bólico.

Tabela 1 - Características clínicas e laboratoriais de pacientes com Diabetes mellitus tipo 2 de acordo com o turno de trabalho realizado

Diurno Noturno P (n= 67) (n= 28)

Idade (anos) 46,55 ± 9,0 48,42 ± 6,6 0,32

Duração do DM (anos) 4,44 ± 4,1 3,45 ± 3,5 0,32

Sexo masculino - n (% ) 18 (26,86) 6 (21,42) 0,69

Caucasianos – n (% ) 41 (61,20) 16 (57,14) 0,93

Hipertensos – n (% ) 33 (49,25) 12 (42,85) 0,56

Pressão arterial sistólica (mmHg) 124,38 ± 13,56 127,60 ± 12,67 0,29

Pressão arterial diastólica (mmHg) 79,00 ± 14,12 83,80 ± 8,32 0,05

IMC (kg/m2) 30,52 ± 5,42 32,97 ± 6,25 0,09

Circunferência abdominal (cm) 95,93 ± 11,58 103,57 ± 13,72 0,01

Glicemia de jejum (mg/dl) 148,90 ± 60,4 153,2 ± 58,1 0,75

Teste A1c (% ) 7,72 ± 1,92 7,29 ± 1,72 0,30

Colesterol total (mg/dl) 193,00 ± 35,42 195,32 ± 35,32 0,78

Colesterol H DL (mg/dl) 48,11 ± 11,35 49,52 ± 9,90 0,58

Triglicerídeos (mg/dl) 149 (107-496) 130 (34-302) 0,36

Creatinina sérica (mg/dl) 0,97 ± 0,34 0,86 ± 0,14 0,30

Excreção urinária de 7,60 (0,00-138,80) 29,95 (0,00-327,60) 0,15

albumina (mg/24h)

Nefropatia (% ) 47,8/20,8/1,5 17,9/10,4/1,5 0,72

(normo/micro/macroalbuminúria)

Síndrome metabólica – n (% ) 36 (54,5) 17 (61,5) 0,64

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RODRIGU ES TC ETAL.

C

ONCLUSÃO

O pre se nt e e st ud o nã o suge re que o t urno d e t ra ba lho piore o cont role m e t a b ólico e m ind ivíd uos com DM e ne m fa vore ça a pre se nça de ne fropa t ia . O a um e nt o da obe sida de a bdom ina l nos t ra ba lha dore s not urnos pode ide nt ifica r um grupo e m risco pa ra e ve nt os c ard iova scula re s. M e dida s pre ve nt iva s de ve m se r e st im u-la da s, t a is com o a prom oçã o da sa úde pa ra indivíduos com DM, a ssim com o e sforços pa ra t orna r o a m bie nt e de t ra ba lho m a is se nsíve l à s ne ce ssida de s de st e s t ra ba lha dore s. Est udos clínicos de se guim e nt o de st e s pa cie nt e s de ve m se r re a liz a dos pa ra obse rva r o surgim e nt o de com plica çõe s crônica s m icro e m a crova scula re s de corre nt e s do DM , a ssim com o a m e lhor a va lia çã o da re sist ê ncia insulínica . Progra m a s e duca ciona is sobre a doe nça e pre ve nçã o de sua s com plica çõe s pode m fa vore ce r nã o só a a de sã o do pa cie nt e ao seu tra ta m ento, m a s ta m bém a um enta r a ca pa cida de la bora l de st e s pa cie nt e s, um a ve z que os m e sm os re pre se nt a m um a força a t iva de t ra ba lho.

Conflito de interesse:

não há

S

UMMARY

T

HE INFLUENCE OF THE WORK SHIFT IN PATIEN TS WITH TYPE

2

D I ABET ES

OBJECTIVE. This study aim ed to investigate the relationship between t he

work shift and diabetic patients.

METH ODS. A cross-section study was perform ed in a cohort of 9 5 type

2 diabetic patients that work in t he H ospit al de Clinicas de Port o Alegre. Patients w ere divided into 2 groups according to the shift, day or night work. Patients underw ent clinical and laboratory evaluations.

RESULTS. There were no significant differences in age, gender, diabetes

duration, body m ass index, blood pressure, fasting glucose, A

1c (1% ),

triglycerides, total cholesterol, LDL cholesterol, H DL cholesterol, serum creatinine and uric acid. A higher average of w aist circum ference w as found in the group of night worke rs.

CO N C LU SIO N. W aist circum ference was greater in the group of night

worke rs; which m ay be indicative of insulin resistance in this group of patients. O ur re se arch indicates that the shift is not associated w ith a worsening of m et abolic cont rol in subject s or presence of diabet ic ne phropathy. [Rev Assoc Med Bra s 2008; 54(2): 160-2]

KEYW O RD S: Diabetes mellitu s. Shift work. Meta bolic control.

R

EFERÊNCIAS

1 . Ce nt e rs for Dise a se Cont rol a nd Pre ve nt ion. Dia b e t e s pre va le nce a m ong Am e rica n India ns a nd Ala ska N a t ive s a nd t he Ove ra ll Popula t ion: Unit e d St a t e s, 1 9 9 4 -2 0 0 2 . M M W R M orb M ort a l W kly Re p. 2 0 0 3 ;5 2 :7 0 2 -0 4 . 2 . Tunce li K, Bra dle y CJ, N e re nz D, W illia m s LK, Pla de va li M , La fa t a JE. The

im pa ct of d ia be t e s on e m ploym e nt a nd work prod uc t ivit y. Dia b e t e s Ca re . 2 0 0 5 ;2 8 :2 6 6 2 -7 .

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C a re . 1 9 9 9 ;2 2 :1 1 0 5 -9 .

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W ork d isa b ilit y a m ong ind ivid ua ls w it h d ia be t e s. D ia b e t e s Ca re .

2 0 0 5 ;2 8 :1 3 2 6 -3 2 .

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Referências

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