Maria Lourdilene Vieira Barbosa
O PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO NA WEBNOTÍCIA
Belo Horizonte
Maria Lourdilene Vieira Barbosa
O PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO NA WEBNOTÍCIA
Belo Horizonte
Faculdade de Letras da UFMG 2015
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Doutora em Linguística do Texto e do Discurso.
Área de concentração: Linguística do Texto e do Discurso
Linha de pesquisa: Textualidade e Textualização em Língua Portuguesa
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Regina Lúcia Péret Dell’Isola
AGRADECIMENTOS
À força maior que nos mantém vivos e que nos guia da melhor forma pelos caminhos que escolhemos. Ao “Deus te proteja” ao final de cada telefonema [quase diário] da minha mãe, Dona Antonia. À memória viva e motivadora do meu pai, Seu Didico. Ao orgulho dos meus irmãos, Adauto, Toinha, Margarida, Nonato, Lorina, Lourdes, Adécio e Neto, da futura irmã Doutora deles. Às formas simples e atualizadas de dizer “eu te amo” do meu querido Emanoel Barbosa. Ao sentimento de “quero ser igual a você quando eu crescer” dos meus sobrinhos. À coragem incentivadora do meu cunhado Naldo. À gentileza da Prof.ª Regina Dell’Isola, em aceitar me orientar mesmo a distância. À amizade valiosa do Prof. Chico Filho, coorientador deste trabalho. À leitura atenciosa do texto que levei para a Qualificação feita pela Prof.ª Beatriz Décat e pela Prof.ª Janice Marinho. Às discussões quinzenais no Cataphora. À leitura paciente do meu parceiro Emanoel Barbosa, que também acompanhou todo o processo de preparação e escrita deste trabalho e contribuiu sobremaneira com pequenos e grandes incentivos todos os dias nos últimos quatro anos. Às palavras carinhosas dos meus alunos. Às mensagens de motivação dos meus amigos [inclusive os virtuais, no Facebook]. Aos encontros gastronômicos na casa da Lafi e do Chico. À boa comida acompanhada da excelente conversa com amigos. Ao tempo disponibilizado pelos jornalistas/repórteres para contribuir com a minha pesquisa. À concessão de afastamento das atividades docentes, em 2014, pela Universidade Federal do Maranhão...
Agradeço, enfim, a todos os sonhadores que acompanharam este sonho, seja com a palavra amiga, com o abraço apertado, com o aperto de mão, com a boa gargalhada, com o encontro feliz no final de semana, com os votos de “boa sorte” ou com a torcida silenciosa e, muitas vezes, distante. Ah, meus caros, muito certo estava Guimarães Rosa quando escreveu que “a coisa não está nem na chegada nem na partida, mas na travessia”!
Poema do jornal
O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia. O marido está matando a mulher. A mulher ensanguentada grita. Ladrões arrombam o cofre. A polícia dissolve o meeting. A pena escreve. Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.
RESUMO
Nesta tese, estabelecemos como objetivo geral de pesquisa analisar o processamento da informação na webnotícia, em casos cuja informação é oriunda de um texto-fonte principal e que, portanto, exemplificam o processo de retextualização. Para isso, baseamo-nos em duas vertentes teóricas principais. Na perspectiva textual, acerca do processo de Retextualização, seguimos Marcuschi (2000 [2010]), Dell’Isola (2007) e Matêncio (2002; 2003), e consideramos ainda os pressupostos de Van Dijk (1990 [1988]) e Gomes (1995), sobre o processamento da informação. Na perspectiva do gênero, fundamentamo-nos na teoria Sociorretórica, segundo Miller (2009 [1984]), Devitt (2004) e Bazerman (2005), e nos termos de Swales (1990), Askehave & Swales (2009) e Bhatia (2009). O corpus de análise foi organizado seguindo critérios de ordem qualitativa, com 21 exemplares do gênero notícia publicados em portais jornalísticos e os seus textos-fonte principais. Quanto ao processo de retextualização, foram analisadas as estratégias de eliminação, acréscimo, substituição e reordenação, na webnotícia, e quanto ao funcionamento do gênero, consideramos a fusão entre forma e substância, a situação retórica recorrente, a ação social e o propósito comunicativo. Nesta etapa, fizemos ainda a análise do conjunto de informações obtidas através de respostas de jornalistas, usuários experientes da webnotícia, ao questionário por nós elaborado. Os principais resultados mostraram que as estratégias de retextualização utilizadas pelo retor para construção da webnotícia têm em vista os condicionamentos e especificidades do gênero, o que termina por direcionar as estratégias utilizadas para uma transformação, que resulta numa adaptação da informação do texto-fonte à webnotícia. Essa adaptação define o processamento da informação na construção da webnotícia e pode ser analisada no âmbito do gênero, uma vez que acontece em função das características formais e substantivas deste. A utilização do texto-fonte na webnotícia funciona, dentre outros, para imprimir veridicidade ao que é noticiado, pois pode ser utilizado como parte ou como a própria notícia. Porém, os critérios de noticiabilidade estão atrelados à necessidade de audiência, o que contribui para que a escolha do que tenha mais ou menos relevância para ser divulgado através de webnotícias esteja mais relacionado à possibilidade de atrair a atenção dos internautas do que à importância da informação para a sociedade.
ABSTRACT
In this thesis, we aim as general objective of research at examining the information processing in web news, in cases where the information comes from one main source text and thus exemplify the process of retextualization. For this, we are based on two main theoretical strands. In textual perspective, about the process of retextualization, we followed Marcuschi (2000 [2010]), Dell'Isola (2007) and Matêncio (2002; 2003), and still consider the assumptions of Van Dijk (1990 [1988]) and Gomes (1995), on the processing of information. From the perspective of genres, we are based on the socio-rhetorical theory according to Miller (2009 [1984]), Devitt (2004) and Bazerman (2005), and in terms of Swales (1990), Askehave & Swales (2009) and Bhatia (2009). The analysis corpus was organized according to criteria of qualitative nature, with 21 examples of the news genre published in journalistic portals and their main source texts. Regarding to the retextualization process, strategies for elimination, addition, substitution and reordering in web news were analyzed, and regarding to the functioning of the genre, we consider the fusion of form and substance, the recurring rhetoric situation, the social action and the communicative purpose. At this stage, we still did the analysis of the set of information obtained from responses from journalists, experienced web news users, to the questionnaire developed by us. The main results showed that the strategies used by retextualization rhetor for construction of web news have in mind the constraints and specificities of the genre, which ends by driving the strategies used for processing, which results in an adaptation of the text information source for web news. This adjustment sets the processing of information in the construction of web news and can be examined in the genre, once it happens according to the formal and substantive features of it. The use of the source text in web news works, among others, to print truthfulness to what is reported, once it can be used as part or as the news itself. However, the criteria for newsworthiness are linked to the need for a hearing, which contributes to the choice of having more or less relevant to be publicized by web news is more related to the possibility to attract the attention of netizens than the importance of information for society.
KEYWORDS: Web news. Source text. Retextualization. Socio-rhetorical. Information
RESUMÉ
Dans cette thèse, nous avons fixé comme objectif général de recherche analyser le déroulement de l’information dans la webnotice, aux cas dont l’information vient d’un texte-source principal et qui, donc, exemplifient le procès de retextualisation. Pour cela, nous avons utilisés deux volets théoriques principales. Dans la perspective textuel, sur le procès de Retextualisation, nous suivons Marcuschi (2000 [2010]), Dell’Isola (2007), et Matêncio (2002; 2003) et nous avons considéré encore les présupposés de Van Dijk (1990 [1988]) et Gomes (1995), sur le déroulement de l’information. Dans la perspective du genre, nous avons soutenu sous la théorie Socio-rhétorique, selon Miller (2009 [1984]), Devitt (2004) et Bazerman (2005), et sous les thermes de Swales (1990), Askehave & Swales (2009) et Bhatia (2009). Le corpus d’analyse a été organisé en suivant les critères d’ordre qualitative, avec 21 exemplaires du genre notice publiés dans les sites journalistiques et leurs textes-source principaux. Pour le procès de retextualisation, ont été analysées les estratégies d’élimination, l’ajoute, la substitution et la reordenation, dans la webnotice, et pour le fonctionnement du genre, nous avons considéré la fusion parmi forme et substance, la situation rhétorique recourante, l’action sociale et le but communicatif. Dans cette étape, nous avons fait encore l’analyse de l’ensemble des informations obtenues à travers de réponses chez journalistes, utilisateurs experts de la webnotice, au questionaire élaboré par nous. Les principaux résultats ont montré qui les estratégies de retextualisation utilisées par le rhéteur pour la construction de la webnotice a, en vue, les conditionnements et spécificités du genre, ce que finit par direcioner les estratégies utilisées pour une transformation, qui résulte dans une adaptation de l’information du texte-source à webnotice. Cette adaptation défine le déroulement de l’information dans la construction de la webnotice et peut être analysée dans le contexte du genre, une fois qui se passe en fonction des caractéristiques formels et substantives de celui-ci. L’utlisation du texte-source dans la webnotice fonctionne, parmi autres, pour imprimer la vérité au ce qui est informé, car peut être utilisé comme partie ou comme la notice même. Cependant, les critères de journalisme sont attachés à la nécessité de l’audience, ce qui contribue pour que la choix de ce qui ait plus ou moins importance pour être divulgué à travers de webnotices soit plus relacioné à la possibilité d’appeler l’attention des internautes à l’importance de l’information pour la société.
MOTS-CLÉS: Webnotice. Texte-source. Retextualisation. Socio-rhétorique. Déroulement de
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1: Estrutura hipotética de um esquema informativo ... 47
Figura 2: Pirâmide invertida ... 48
Figura 3: Pirâmide deitada com níveis de informação ... 52
Figura 4: Pirâmide deitada com níveis de leitura ... 54
Figura 5: Página inicial de portal jornalístico nacional ... 64
Figura 6: Esquema do processo de retextualização ... 87
Figura 7: Sistematização do contexto de utilização de gêneros ... 137
Figura 8: Postagem feita em rede social tomada como fonte principal para webnotícia ... 186
Figura 9: Processo de retextualização na webnotícia ... 192
Figura 10: Página de portal jornalístico com notícia publicada com texto-fonte na íntegra (primeira parte) ... 199
Figura 11: Página de portal jornalístico com notícia publicada com texto-fonte na íntegra (segunda parte) ... 200
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: Estratégias de processamentos dos textos-fonte, segundo Van Dijk (1990 [1988]) 73 Quadro 2: Possibilidades de retextualização ... 90 Quadro 3: Aspectos envolvidos no processo de retextualização ... 96 Quadro 4: Estratégias de Retextualização e desdobramentos destas a partir da análise de
corpus de Gomes (1995) ... 104
Quadro 18: Trecho de notícia e de texto-fonte: substituição para adaptação ao estilo da notícia ... 176 Quadro 19: Trecho de notícia e de texto-fonte: substituição de termo técnico por expressão “equivalente” ... 178
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Relação quantitativa dos gêneros de que participam os textos-fonte das notícias do
corpus ... 221
SUMÁRIO
4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA ... 140 4.1 Problematização ... 140 4.2 Objeto, hipóteses e objetivos ... 142 4.3 Descrição do corpus ... 144 4.3.1 Coleta dos dados ... 144 4.3.2 O corpus ... 145 4.4 Procedimentos de análise dos dados ... 148
5. RETEXTUALIZAÇÃO E PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO NA
WEBNOTÍCIA ... 152 5.1 Estratégias de retextualização na webnotícia ... 154 5.1.1 Eliminação ... 154 5.1.2 Acréscimo ... 164 5.1.3 Substituição ... 174 5.1.4 Reordenação ... 181 5.2 Processamento da informação na webnotícia e retextualização: sistematização dos resultados preliminares ... 188
6. O PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO NA WEBNOTÍCIA A PARTIR DE UMA
30
INTRODUÇÃO
Uma notícia pode ser construída a partir de um texto1 ou de um conjunto de textos orais e/ou escritos, visuais, verbo-visuais etc. A fonte representa para esse gênero um fator preponderante para que o mesmo circule socialmente com credibilidade e idoneidade, haja vista que o seu funcionamento social está intimamente relacionado à crença de que as notícias são veiculadoras de fatos, de verdades. Porém, entendemos que mesmo a notícia sendo comumente caracterizada como um gênero objetivo, essa objetividade está mais ligada às estratégias linguísticas de apagamento de marcas de subjetividade no texto do que ao tratamento dado à informação em si.
A notícia produzida para circular na internet é diferente das notícias veiculadas no rádio, na televisão e no jornal impresso. A identificação dessa notícia, normalmente, está vinculada ao Jornalismo praticado no meio digital que, dentre outros, é nomeado como ciberjornalismo, jornalismo online e webjornalismo. Pesquisadores do âmbito do Jornalismo e da Comunicação Social, como Mielniczuk (2003a), estabelecem diferenças entre esses termos utilizados para o jornalismo no meio digital, considerando especificidades da prática jornalística.
Quando pensamos o projeto desta pesquisa, utilizamos, inicialmente, o termo notícia
online, para identificar o tipo específico de notícias que estudaríamos. Todavia, descobrimos,
posteriormente, que tal nomenclatura pode ser relacionada também ao jornalismo online, que, normalmente, se constitui a partir da reprodução digital do jornal impresso a que se vincula, de modo que a notícia online pode ser idêntica à notícia impressa do mesmo jornal. Porém, tínhamos em vista o jornalismo produzido especialmente para a web2 (ou webjornalismo),
1
Entendemos, segundo Marcuschi (2002, p. 24), texto como “uma entidade concreta realizada materialmente e
corporificada em algum gênero textual” e discurso como “aquilo que um texto produz ao se manifestar em alguma instância discursiva. Assim, o discurso se realiza nos textos”.
2 Somos conscientes de que os termos internet e web tecnicamente designam objetos distintos. Do ponto de vista
31 mais especificamente as notícias produzidas especialmente para circular na internet. Logo, com base nas diferenciações de nomenclatura para as práticas jornalísticas, optamos por utilizar, nesta tese, o termo webnotícia, por entendermos que este rotula melhor o tipo de notícia que estudamos3.
O webjornalismo e as webnotícias já foram estudados em várias pesquisas de âmbito acadêmico, mas a maioria dessas pesquisas está voltada para a perspectiva do Jornalismo e da Comunicação Social. No âmbito dos estudos linguísticos, sempre nos chamou a atenção, especialmente, os mecanismos linguísticos e discursivos utilizados na produção da webnotícia, que se apropriam sobremaneira das ferramentas disponíveis na internet tanto para a construção dos textos como para o atendimento da finalidade destes na sociedade.
Por outro lado, inquietava-nos a relação da notícia (webnotícia) com seus textos-fonte principais, haja vista que, em princípio, a notícia informa objetivamente para a sociedade um fato ou evento de interesse público. De modo que, nos casos de notícia em que há a utilização de um texto-fonte principal, o conteúdo informativo do texto-fonte é tratado diferenciadamente em relação ao status que tinha no gênero anterior. No plano textual/discursivo, temos aí um processo que rearticula linguisticamente informações já veiculadas.
Todavia, ao atentarmos para o funcionamento sócio-histórico dos gêneros, vemos que a mudança vai além de uma retextualização, haja vista que essas informações, sendo veiculadas por gêneros diferentes, são tratadas de forma particular, que é própria do gênero. Daí, dentre outros, teremos novos propósitos comunicativos, maneiras particulares de tratamento do tema, intimamente relacionados ao funcionamento histórico e social dos gêneros. Dessa forma, ainda num primeiro momento, estabelecemos como problema de pesquisa a seguinte indagação: “o que vira notícia?”.
No desenvolvimento da pesquisa, vimos que, se tínhamos em vista a construção da notícia, no tocante à transformação de uma fonte em matéria noticiosa, tal pergunta devia ser,
32 na verdade, outra. Nesse processo de apropriação das informações de um texto-fonte para a construção da notícia, que atende a propósitos e/ou objetivos específicos, ferramentas disponíveis no meio digital são incorporadas à produção noticiosa. Passamos então a nos indagar: “como se constrói uma notícia/webnotícia?”, e vimos que essa pergunta direcionava a nossa pesquisa para um estudo do processamento da informação na webnotícia. Decorrentes dessa questão central surgiram outras questões norteadoras: Como se caracteriza o processo de transformação de uma fonte em webnotícia? Como os padrões textuais e discursivos do gênero interferem no processo de retextualização do texto-fonte em webnotícia? Qual o papel do texto-fonte para a produção da webnotícia?
Nesse sentido, consideramos, respectivamente, quatro hipóteses de pesquisa: 1) A retextualização, na notícia, é um processo que ocorre intimamente relacionado aos condicionamentos e especificidades do gênero. Logo, a característica da notícia de “trazer informações novas e relevantes” condiciona os mecanismos linguísticos utilizados pelo jornalista para divulgar e difundir socialmente a informação como sendo de interesse público. 2) A retextualização está diretamente relacionada aos elementos composicionais da notícia, como forma e substância. Nesse sentido, as estratégias linguísticas utilizadas colaboram para o funcionamento social do gênero, havendo tratamento da informação em relação ao texto-fonte. 3) Na notícia, o texto-fonte pode ser mais que uma fonte, no sentido de que, aparecendo no portal jornalístico, na mesma página da notícia, ele pode funcionar como parte desta ou, ainda, como a própria notícia. 4) A presença do texto-fonte na mesma página da internet em que a notícia é publicada funciona como uma estratégia retórica que dá a ideia de que o internauta pode ter acesso aos fatos diretamente, imprimindo, assim, credibilidade ao portal jornalístico. Nesse sentido, ao se apropriar da informação do texto-fonte, o jornalista manipula essa informação em função de interesses determinados da instituição jornalística a qual está vinculado, de modo que a informação é divulgada seguindo um parâmetro, próprio da mídia, de despertar o interesse (chamar a atenção) do interlocutor/internauta.
Logo, organizamos nossa proposta de pesquisa, estabelecendo um objetivo geral, vinculado à primeira hipótese, que é analisar o processamento da informação na webnotícia,
em casos cuja informação é oriunda de um texto-fonte principal e que, portanto,
33
específicos, que são: 1) examinar condicionamentos e especificidades na construção da webnotícia a partir do processo de retextualização, analisando as operações de
retextualização utilizadas como estratégias linguísticas dessa construção; 2) caracterizar a
webnotícia do ponto de vista da teoria Sociorretórica, a partir da análise de casos em que o
texto noticioso se constitui fundamentalmente sobre um texto-fonte principal; 3) explicar a
relação entre o processo de retextualização e a webnotícia, examinando as inter-relações
desta com seus textos-fonte.
Optamos por analisar apenas casos em que o conteúdo da webnotícia tem por base essencialmente um texto escrito, em específico, que participa de outro gênero, e que, por sua vez, realiza uma ação social de caráter diferenciado da notícia publicada por portais jornalísticos na internet. Esse recorte de dados permitiu que realizássemos a análise do processamento da informação do ponto de vista textual/discursivo e genérico de forma comparativa, examinando como as informações se apresentavam na webnotícia e em seu texto-fonte principal.
Nossa proposta de pesquisa se fundamentou em um aporte teórico que, a nosso ver, abarca o processamento da informação na webnotícia no âmbito textual/discursivo e em relação ao funcionamento do gênero. Na perspectiva textual, fundamentamo-nos na literatura acerca do processo de Retextualização, em que partimos das considerações de base de Marcuschi (2000 [2010]), Dell’Isola (2007), Matêncio (2002; 2003), dentre outros autores, considerando ainda os pressupostos de Van Dijk (1990 [1988]) e Gomes (1995), sobre o processamento da informação. Entendemos a noção de retextualização nos termos de Marcuschi como uma transformação, que, no caso específico deste trabalho, resulta numa adaptação aos padrões formais e substantivos do gênero.
34 Askehave & Swales (2009) e Bhatia (2009), também são consideradas no âmbito da teoria Sociorretórica e no contexto desta pesquisa.
Esta tese está desenvolvida em duas partes fundamentais. A primeira é composta por três capítulos de base teórica, abordando, respectivamente, a notícia jornalística, o processo de retextualização e a Sociorretórica. A segunda parte é composta por um capítulo em que detalhamos os procedimentos metodológicos da pesquisa e dois capítulos de análise de dados: 1) examinando as estratégias de retextualização eliminação, acréscimo, substituição e reordenação na webnotícia; e 2) examinando o funcionamento sociorretórico desse gênero, em que se analisa a fusão forma e substância, a situação retórica recorrente, a ação social realizada através do gênero e o propósito comunicativo socialmente compartilhado. Na análise sociorretórica da webnotícia, levamos em conta ainda o ponto de vista do usuário4 experiente do gênero, jornalistas/repórteres vinculados a portais jornalísticos.
Nesse sentido, temos o Capítulo 1, “Considerações iniciais sobre a notícia jornalística”, que trata inicialmente de notícia jornalística, do ponto de vista do Jornalismo e da Comunicação Social e do ponto de vista Linguístico, e se organiza a partir das seções: 1.1, “Definição(ões) de notícia; 1.2, “Considerações sobre a notícia impressa e da web”; 1.3, “O jornalismo dos portais jornalísticos da internet”; e 1,4, “A notícia e o processamento dos textos-fonte”. O Capítulo 2, “O processo de Retextualização”, apresenta a definição e as características que envolvem tal processo, resgatando considerações da literatura teórica de base, e está organizado nas seções: 2.1, “A noção de retextualização”, que se desdobra em 2.1.1, “O legado de Marcuschi para o estudo da retextualização”; e 2.2, “O processo de retextualização como enfoque de pesquisas acadêmicas”. O Capítulo 3, “O gênero na perspectiva da Sociorretórica”, aborda as noções teóricas que subsidiam essa teoria e embasam a análise de dados, e se organiza nas seções: 3.1, “Estudos de gêneros em diferentes tradições”; 3.2, “O gênero como ação social”, que se desdobra em 3.2.1, “A classificação do gênero pela ação retórica”, 3.2.2, “A situação retórica recorrente”, com as subseções 3.2.2.1,
35 “Gênero e situação [retórica]” e 3.2.2.2, “A questão do suporte”, 3.2.3, “A [fusão] forma e substância, e 3.2.4, “O propósito comunicativo ou propósito retórico”.
A segunda parte é formada pelo Capítulo 4, “Procedimentos metodológicos da pesquisa”, que detalha as ações realizadas para a realização do trabalho, e é constituído pelas seções: 4.1, “Problematização”; 4.2, “Objeto, hipóteses e objetivos”; 4.3, “Descrição do
corpus”, que se desdobra em 4.3.1, “Coleta dos dados” e 4.3.2, “O corpus”; e 4.4,
“Procedimentos de análise dos dados”. O Capítulo 5, “Retextualização e processamento da informação na webnotícia”, que realiza a primeira etapa de análise de dados, é constituído pelas seções: 5.1 “Estratégias de retextualização na webnotícia”, que se desdobra em 5.1.1, “Eliminação”, 5.1.2, “Acréscimo”, 5.1.3, “Substituição”, e 5.1.4, “Reordenação”; e 5.2, “Processamento da informação na webnotícia e retextualização: discussão dos resultados preliminares”. Por fim, o Capítulo 6, “O processamento da informação na webnotícia a partir de uma análise sociorretórica do gênero”, que examina a webnotícia enquanto gênero, está organizado nas seções: 6.1, “A fusão forma e substância na construção da webnotícia”, que se desdobra em 6.1.1, “O processamento da informação e os condicionamentos da forma”, e 6.1.2, “A reprodução total ou parcial do texto-fonte”; 6.2, “A situação retórica recorrente da webnotícia”; 6.3, “A ação social realizada através da webnotícia”, que se desdobra em 6.3.1, “A ação social [retórica e recorrente]”, e 6.3.2, “O propósito comunicativo socialmente compartilhado”; 6.4, “A webnotícia sob a ótica do usuário experiente”; e 6.5, “Estratégias de retextualização e funcionamento da webnotícia: discussão dos resultados”.
36
1.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE A NOTÍCIA
JORNALÍSTICA
Neste capítulo, apresentamos algumas definições teóricas, considerando o ponto de vista prescritivo de um manual de redação e estilo, de autores do Jornalismo e da Comunicação Social, bem como da Linguística, para sistematizarmos o que entendemos, inicialmente, por notícia. Além de tecermos considerações sobre diferentes definições teóricas, tratamos ainda dos elementos composicionais e estilísticos que caracterizam esse gênero do ponto de vista estrutural, a fim de apresentarmos, posteriormente, considerações sobre a notícia produzida especialmente para a web, que se apresenta como objeto de estudo desta tese. Para relacionarmos o que consideramos neste capítulo sobre notícia e o que examinamos mais especificamente sobre esse gênero nesta pesquisa, discutimos, no final do capítulo, a questão do processamento dos textos-fonte, que é uma prática recorrente no meio jornalístico e um elemento de análise importante neste trabalho.
1.1 Definição(ões) de notícia
A notícia é um dos gêneros mais comuns da esfera jornalística, sendo muitas vezes interpretada como detentora do discurso jornalístico como um todo (SOUSA, 2004). Considerando os meios de circulação dos textos jornalísticos, bem como a importância social dada a estes, podemos também ver a notícia como um dos gêneros mais comuns da sociedade. Deparamo-nos em diversos momentos do dia a dia com notícias em diferentes suportes de informação de massa, bastante comuns e de fácil acesso à maioria da população, como é o caso das notícias veiculadas por meio impresso, como em jornais ou revistas, por meio eletrônico, como na TV ou no rádio, ou ainda por meio digital, como as notícias divulgadas nos, cada vez mais numerosos, portais jornalísticos.
37 página ou a seção do veículo de comunicação em que ele se encontra. Este aspecto determina ainda vários fatores, como os possíveis temas a serem tratados na notícia, se político, ou esportivo, ou policial, ou de coluna social etc., que já direciona a notícia, por exemplo, a um público específico.
O Manual de Redação da Folha de São Paulo (1992) define notícia como um texto que faz um registro puro dos fatos, sem a expressão de opinião. Nessa definição, a exatidão é apresentada como o elemento-chave da notícia, embora o manual reconheça que vários fatos descritos com exatidão possam ser justapostos tendenciosamente, bem como admita que a supressão ou a inserção de informações no texto possam alterar o significado da notícia.
Na definição de lide, parte constituinte do texto noticioso, o referido manual o apresenta a partir do sentido literal do vocábulo, que consiste numa forma aportuguesada do vocábulo inglês “lead”, que significa conduzir, liderar. Quanto à caracterização funcional, esse é o termo utilizado no jornalismo para resumir a função do primeiro parágrafo, que tem a dupla missão de introduzir e prender a atenção do leitor no texto. Segundo o Manual de Redação da Folha de São Paulo (1992), há dois tipos básicos de lide. O primeiro é o do tipo noticioso, e responde às questões consideradas como principais em torno de um fato: o quê, quem, quando, como, onde e por quê. O segundo é o não-factual, e, portanto, lança mão de outros artifícios para atingir a função de prender a atenção do leitor.
Do ponto de vista discursivo, a definição de notícia é ambígua (VAN DIJK, 1990 [1988]). Temos, por um lado, uma definição comum geral que concebe notícia como “informação nova”, incluindo até mesmo informações cotidianas encaradas como novidades, como quando damos informações sobre algo ou alguém para outra pessoa. Por outro lado, existem duas acepções, uma relacionada aos meios de comunicação de massa, entendida como os informes, veiculados no rádio, na TV ou no jornal impresso, e outra que se confunde com o próprio veículo de informação, como programas de rádio ou TV que contêm informações jornalísticas.
Portanto, da forma que é entendida por Van Dijk (1990 [1988]), a noção de notícia engloba, inicialmente, três situações distintas:
38 2. programas de televisão ou de rádio com informações jornalísticas;
3. informes jornalísticos, a partir de textos divulgados no rádio, na televisão ou no jornal impresso, em que são veiculadas informações novas sobre eventos recentes. A apresentação de acepções mais amplas para notícia serve como um esclarecimento inicial para o leitor de que a noção de notícia adotada no estudo de Van Dijk (1990 [1988]), embora se assemelhe a essa definição mais geral, é diferente. Nesse sentido, o autor esclarece que a notícia da qual trata em seu estudo é aquela apontada no terceiro item, em que é entendida como informação recente veiculada pelos meios jornalísticos, e rotulada, desde então, como o “discurso jornalístico” ou “discurso noticioso”5
.
Sousa (2004), que é um autor da área de Jornalismo e de Comunicação Social, define notícia ao mesmo tempo em que propõe uma “teoria do jornalismo” para o seu estudo, partindo do pressuposto de que as notícias jornalísticas existem e produzem efeitos. Assim, a “teoria do jornalismo”, segundo o autor, deve centrar-se no produto jornalístico, que é a notícia jornalística, “explicando como surge, como se difunde e quais os efeitos que gera” (p. 03).
De um modo geral, a teoria do jornalismo consubstancializa-se como uma teoria da notícia, buscando responder a duas questões centrais: Por que é que as notícias são como são e por que é que temos as notícias que temos? E quais os efeitos que as notícias geram? Para Sousa (2004), a notícia é o resultado pretendido do processo jornalístico de produção de informação, e por isso o autor entende que ela seja “o fenômeno que deve ser explicado e previsto pela teoria do jornalismo e, portanto, qualquer teoria do jornalismo deve esforçar-se por delimitar o conceito de notícia” (p. 04).
5Da forma como é entendida em Van Dijk, a noção de “notícia”, ou ainda “discurso noticioso”, não corresponde
39 Depois de apresentar e justificar a teoria do jornalismo proposta por ele, Sousa (2004) afirma que o conceito de notícia tem duas dimensões, uma tática e outra estratégica. Segundo o autor:
a dimensão táctica esgota-se na teoria dos géneros jornalísticos. Nessa dimensão, distingue-se notícia de outros géneros, como a entrevista ou a reportagem. Todavia, a dimensão estratégica encara a notícia como todo o enunciado jornalístico. Esta opção é aquela que interessa à teoria do jornalismo enquanto teoria que procura explicar as formas e os conteúdos do produto jornalístico. (p. 04)
Na concepção de Sousa, a dimensão tática da notícia se esgota na teoria dos gêneros, pelo fato de esta distinguir a notícia de outros gêneros do âmbito jornalístico, ao passo que a dimensão estratégica vê a notícia como todo o enunciado jornalístico, entendendo-o como produto de formas e conteúdos, e por isso é a dimensão abordada em sua teoria. Sousa (2004) define notícia, afirmando que a definição complementa aquela já feita em Sousa (2000; 2002):
pode dizer-se que uma notícia é um artefacto linguístico que representa determinados aspectos da realidade, resulta de um processo de construção onde interagem factores de natureza pessoal, social, ideológica, histórica e do meio físico e tecnológico, é difundida por meios jornalísticos e comporta informação com sentido compreensível num determinado momento histórico e num determinado meio sócio-cultural, embora a atribuição última de sentido dependa do consumidor da notícia. (p. 4)
Nesse sentido, notícia é entendida como artefato linguístico, que é resultado de um processo de construção pessoal, social, ideológico, histórico, físico, tecnológico, difundido pelos meios jornalísticos, apresentando informações relacionadas ao momento histórico e social com sentido parcialmente atribuído pelo leitor. Por esta definição apresentada por Sousa (2004), percebemos que, mesmo que o autor diferencie o seu estudo de outros que estejam “limitados” à notícia enquanto gênero, ele a concebe como gênero. Ainda que a sua análise não esteja voltada especialmente para a caracterização e explicação do funcionamento do gênero notícia, quando esse autor apresenta a definição de notícia como “um artefato linguístico que representa determinados aspectos da realidade” (p. 04), sendo o resultado de uma interação comunicativa, que é situada no tempo, e na qual interagem fatores de ordem social, ideológica, histórica etc., ele define e caracteriza a notícia enquanto gênero.
40 construção de sentido para uma notícia depende da interação perceptiva, cognoscitiva e até afetiva que os sujeitos com ela estabelecem” (p. 6). Assim, o autor apresenta dois resultados, que, segundo ele, são alcançados pelas pesquisas realizadas no campo dos estudos jornalísticos:
(1) a notícia jornalística é o produto da interacção histórica e presente (sincrética) de forças pessoais, sociais (organizacionais e extra-organizacionais), ideológicas,
culturais, históricas e do meio físico e dos dispositivos tecnológicos que intervêm na sua produção e através dos quais são difundidas; e (2) que as notícias têm efeitos cognitivos, afectivos e comportamentais sobre as pessoas e, através delas, sobre as
sociedades, as ideologias, as culturas e as civilizações. (SOUSA, 2004, p. 16, grifos do autor)
Pelos resultados apresentados, a notícia jornalística é vista tanto como produto da interação de sujeitos sociais (que, por serem sociais, são situados ideológica, cultural, histórica, física e tecnologicamente na produção e difusão dessas notícias) como pelos efeitos produzidos através dela nos sujeitos e na sociedade em geral. Esses efeitos surtem mudanças nos planos cognitivos, afetivos e comportamentais dos sujeitos, e a partir disso, por meio das pessoas, afetam a sociedade, as ideologias, as culturas e as civilizações.
Considerando o que apresenta sobre notícia, Sousa (2004, p. 16) propõe uma Teoria Multifatorial da Notícia, partindo de um pressuposto matemático. Isso, segundo seu ponto de vista, permite identificar, delimitar, agrupar, sistematizar e sintetizar, a partir de três equações multifatoriais interligadas num sistema, tanto “(1) os macrovetores estruturantes das notícias, ou seja, as forças em que se integram todos os microfatores que geram e conformam as notícias”, como “(2) os macrovetores estruturantes dos efeitos das notícias, ou seja, os macro -efeitos, onde se podem integrar todas as modificações observáveis que as notícias provocam ou podem provocar nas pessoas e através destas nas sociedades e nas civilizações”.
41 Diferentemente de Sousa (2004), que demonstra entender como limitada a abordagem da notícia como gênero, simplesmente pelo fato de esta fazer a distinção entre o gênero notícia e os outros gêneros produzidos pelo meio jornalístico, defendemos que a abordagem da notícia enquanto gênero não é limitada. A abordagem de estudos de gêneros da qual partimos não está centrada apenas na forma e/ou função dos produtos linguísticos das práticas retóricas dos sujeitos. Estes, apesar de apresentarem recorrências que nos fazem entender que participam de um ou de outro gênero, estão relacionados às práticas sociais e, nesse sentido, são definidos e determinados por elas.
Contudo, pode haver limitação se o gênero for abordado de forma isolada, sem que seja feita a relação existente e necessária dele com o meio social e com os sujeitos que o produzem e o colocam em circulação. No capítulo 3, destacamos as definições teóricas de gênero que embasam este trabalho, em que discutimos sobre o fato de que produzimos gêneros para agir socialmente, o que nos permite concluir que os gêneros realizam ações sociais, mas essas ações são definidas e determinadas pelas práticas sociais, que governam a comunicação.
Na configuração textual da notícia, há todo um trabalho que objetiva impor o efeito de sentido de verdade. Isso se faz por meio de estratégias que buscam ocultar o ponto de vista e as avaliações do enunciador jornalista, segundo Cavalcante (2006). Para a autora, os jornalistas sabem o que deve se tornar notícia, logo, é feita uma seleção em que se avalia o que parece ser interessante e significativo para determinada sociedade ou grupo social. Assim, a relevância eleita desde a escolha do fato noticioso acompanha todo o processo de produção, na elaboração do material da notícia, “a forma que este deve ser apresentado aos leitores, que elementos precisam ser enfatizados ou esquecidos” (p. 154).
42 Porém, mesmo que a forma (ou estrutura composicional) dos gêneros apresente recorrência, em uns mais e em outros menos, essa recorrência não corresponde a um esquema fixo, tendo em vista que os gêneros apresentam diferenças quando consideramos, por exemplo, os lugares sociais em que eles circulam. Nesse sentido, a notícia do jornal impresso pode apresentar mais recorrentemente o esquema apresentado acima, mas as condições de produção da notícia no jornal impresso são distintas das condições de produção da notícia na internet. Discutimos mais detalhadamente sobre a estrutura da notícia (impressa e da web) na seção 1.2.
1.2 Considerações sobre a estrutura da notícia impressa e da web
Mais de duas décadas após a publicação de La notícia como discurso: comprénsion,
estructura y producción de la información, de Van Dijk (1990 [1988]), a notícia e o
Jornalismo como um todo, passaram por significativas mudanças. Antes, muito comum via jornal impresso, televisão e rádio, hoje a notícia também é produzida em larga escala na internet, popularizada por meio dos portais jornalísticos, blogs de jornalistas e até de outras pessoas adeptas à prática de divulgar informações correntes e recentes na internet.
43 Em seu estudo, Van Dijk (1990 [1988]) utiliza a teoria das superestruturas e das macroestruturas textuais como fundamento teórico-metodológico na realização da análise dos dados, apontando para a necessidade de uma compreensão pautada no entendimento global dos discursos6. Nessa proposta, portanto, o discurso é analisado numa perspectiva macro e micro-estrutural. No sentido macro, conforme o autor, é preciso que haja uma macrossemântica, em que se considere os sentidos globais do discurso e permita compreender os sentidos de parágrafos separados e de discursos completos; e uma macrossintaxe, para caracterizar as formas globais do discurso, por sua vez, denominadas de esquemas ou superestruturas.
As superestruturas compreendem “modelos de organização totalizadora” (p. 48), que consistem, segundo Van Dijk, em categorias convencionais já conhecidas (o autor exemplifica essas categorias como as formas conhecidas de abertura ou fechamento nos discursos, os
scripts nas histórias, os títulos nas notícias etc.). As formas esquemáticas são entendidas como
formas vazias, que são preenchidas com um conteúdo, formando diferentes sentidos:
Essas formas esquemáticas totalizadoras são preenchidas com significados macroestruturais totais ou temas de um discurso jornalístico. A categoria de título em um discurso jornalístico, portanto, é apenas uma forma vazia, em que se pode inserir significados diferentes (podendo ser o assunto ou o resumo do texto completo). (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 487, tradução nossa8)
Numa primeira comparação, poderíamos nos indagar se o que o autor compreende como modelos de organização, formados por categorias convencionais conhecidas, pode ser comparado ao que entendemos por estruturas genéricas ou forma composicional dos gêneros, no sentido mesmo apresentado por Bakhtin (2003 [1979]), que, de alguma forma, também podem ser entendidas como categorias convencionais já conhecidas por nós e facilmente
6 Van Dijk (1990 [1988]) não utiliza o termo discurso como sinônimo de texto. Para o autor, o discurso vai além das estruturas textuais, porque, do ponto de vista pragmático, desempenha uma interação, que também é uma forma de ação. Logo, na Análise do Discurso, o discurso é analisado a partir de uma integração entre o texto e o contexto “no sentido de que o uso de um discurso em uma situação social é ao mesmo tempo uma ação social” (p. 52).
7No original: “Estas formas esquemáticas totalizadoras se llenan con los significados macroestructurales totales o temas de un discurso. La categoría de titular en un discurso periodístico, por lo tanto, es sólo una forma vacía, en la cual podemos insertar diferentes significados (mientras que este significado es un tema o resumen del significado del texto completo)” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 48).
8
44 identificadas nos textos. Porém, não entendemos a forma como sendo vazia, na qual se inserem significados (ou conteúdos) diferentes (conforme veremos no capítulo 3). A forma, o significado e a ação (desenvolvida com o discurso) estão inter-relacionados, tanto no macronível (o todo discursivo) quanto no micronível (as partes do discurso). A forma não pode ser vazia de significado.
As macroestruturas são caracterizadas pelo autor em termos de proposições, que, em linhas gerais, são formadas pelos construtos de significados menores independentes da linguagem e do pensamento. Isso porque, no nível das macroestruturas, são analisadas as categorias semânticas, e a semântica não está relacionada apenas à significação, mas ainda à referência, e do ponto de vista referencial, “proposições são também unidades semânticas menores que podem ser verdadeiras ou falsas” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 54)9
.
Já quando trata das superestruturas dos textos, Van Dijk (1990 [1988]) propõe um esquema que, segundo o autor, comporta as categorias da notícia. Nesse sentido, argumenta que a macroestrutura do discurso, que corresponde evidentemente ao seu significado total, “possui algo mais que seus princípios organizativos próprios” (p. 77)10. Logo, é necessária uma “sintaxe total” que defina as formas possíveis como os assuntos ou temas podem ser inseridos e ordenados no texto real. Para o autor, essa forma global do discurso pode se definir nos termos de um esquema baseado em regras “formado por uma série de categorias hierarquicamente ordenadas, que podem ser específicas para cada tipo de discurso, convencionadas e, portanto, diferentes em sociedades ou culturas distintas” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 78)11.
As superestruturas dos textos são estruturas globais, definidas por categorias e regras superestruturais específicas, que mantêm uma necessária relação com outras estruturas do discurso, estabelecidas pelas macroestruturas semânticas. Nesse sentido, para assinalar a forma ou o esquema global do texto, Van Dijk a relaciona com o significado global que pode
9
No original: “las proposiciones son también las unidades semánticas más pequeñas que pueden ser verdaderas
o falsas” (VAN DIJK, 1990 [1988], p 54). 10
No original: “posee algo más que sus principios organizativos propios” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 77). 11
45 preencher essa forma ou esquema: “assim, cada categoria da superestrutura se associa com uma macroproposição (tema) da macroestrutura semântica” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 80)12.
Antes de apresentar o esquema que propõe para o discurso jornalístico, Van Dijk (1990 [1988]) argumenta que nem todos os discursos possuem uma forma convencional fixa. Ademais, a priori, não pode assegurar que a notícia da imprensa mostra ou não um esquema convencional fixo. Por outro lado, propõe ver se é possível estabelecer um conjunto de categorias do discurso jornalístico e, a partir daí, formular regras e estratégias para o seu ordenamento.
Desse esquema, o autor apresenta uma série de categorias:
1. Resumo: essa categoria da notícia é formada pelas partes título e cabeçalho, de
modo que o título precede o cabeçalho, e título e cabeçalho precedem o restante do texto. Do ponto de vista estrutural, elas expressam os principais sentidos do discurso noticioso como um todo, funcionando como um resumo inicial, no qual é inserido um sentido global variável. A efetivação da categoria título, com o preenchimento dessa forma, na formulação de um conteúdo executado em uma oração formada por palavras concretas em um tipo de letra específico (por exemplo, negritada e grande), transforma a categoria de título em um título real. Este, por sua vez, pode possuir partes distintas, como, além do título principal, um sobretítulo (por exemplo, impactante, surpreendente ou chocante) e um subtítulo. Van Dijk (1990 [1988]) ainda afirma que os cabeçalhos podem aparecer separadamente e em negrito ou podem coincidir com a primeira oração temática do texto.
2. Episódio: essa categoria da notícia é formada pelos acontecimentos principais no
contexto e seus antecedentes. Para o autor, o contexto frequentemente se encontra assinalado por indicadores de tempo, como “enquanto”, “durante” ou por expressões similares indicadoras de simultaneidade. Nesse sentido, o contexto é o
12
No original: “Así, cada categoría de la superestructura se asocia con una macroproposición (tema) de la
46 acontecimento principal no texto jornalístico, sendo diferente dos antecedentes, que têm uma natureza histórica ou estrutural mais compreensiva, ainda que uma parte dos antecedentes inclua a história dos acontecimentos atuais e seu contexto. A categoria de eventos prévios, utilizada frequentemente para recordar ao leitor do que ocorreu previamente, é considerada parte das circunstâncias atuais dentro das quais também incluímos o contexto, que também tem uma dimensão histórica. 3. Consequências: essa categoria da notícia é determinada pela seriedade das
consequências do valor informativo dos acontecimentos sociais e políticos, haja vista que um discurso jornalístico pode outorgar coerência causal aos acontecimentos informativos, mediante a discussão real ou possível das consequências. Estas, às vezes, são incluídas como mais importantes que os próprios acontecimentos informativos principais, podendo, inclusive, converter-se no tema de mais alto nível e até mesmo se refletir nos títulos.
4. Reações verbais: essa categoria da notícia pode ser considerada, segundo Van
Dijk (1990 [1988]), um caso especial de consequência, porque permite aos jornalistas formular opiniões que não são necessariamente as opiniões dos jornalistas, mas aparecem como objetivas, porque são formuladas e apresentadas como sendo de um terceiro, embora saibamos que não é necessário que a seleção dos porta-vozes e das citações seja objetiva. A categoria das reações verbais normalmente vem acompanhada dos nomes e dos papéis sociais dos participantes e por citações diretas ou indiretas de declarações verbais. No texto, geralmente, essa categoria se situa no final do discurso jornalístico, apesar de as reações importantes poderem ser mencionadas anteriormente, com as restrições adicionais do ordenamento por relevância.
5. Comentário: a última categoria da notícia é constituída pelos comentários, as
47 primeira caracteriza as opiniões avaliativas sobre os acontecimentos informativos atuais; a segunda formula consequências políticas ou de outro tipo sobre os eventos atuais e a situação, podendo, por exemplo, predizer acontecimentos futuros.
Partindo dessa série de categorias do “discurso noticioso”, Van Dijk (1990 [1988]) apresenta o esquema (Figura 1) com várias categorias, mas considera que em um discurso minimamente bem construído somente o título e os eventos principais devem obrigatoriamente aparecer, podendo as demais ser opcionais:
Figura 1: Estrutura hipotética de um esquema informativo
Fonte: Van Dijk (1990 [1988], p. 86).
48 Pelo esquema apresentado em Van Dijk (1990 [1988]), em que as informações mais importantes aparecem primeiro, lembramos do clássico esquema da pirâmide invertida estabelecido e estudado por muitos estudiosos do Jornalismo e da Comunicação Social. Tal esquema é apresentado como correspondente à configuração dos elementos que constituem o
lide da notícia, já mencionado por nós, na seção 1.1, em que se seguem a ele as informações
em ordem decrescente de importância:
Figura 2: Pirâmide invertida
Fonte: GRADIM (2000, p. 62)
A denominação pirâmide invertida se deve justamente pela ordem decrescente de importância das informações. Assim, conforme observa Gradim (2000), a pirâmide invertida corresponde à técnica de construção da notícia por blocos, onde “cada parágrafo funciona na notícia como uma entidade logicamente autônoma” (p. 62). Neste sentido, os parágrafos seriam, supostamente, elaborados sem relação necessária de dependência lógica de sentido uns com os outros. Segundo a autora, essa configuração dos parágrafos é duplamente importante, já que, por um lado, o leitor não é obrigado a ler o texto inteiro para se informar sobre o fato e, na edição da notícia no jornal, os responsáveis têm mais facilidade mediante a necessidade de possíveis cortes.
49 Explicando a partir de um viés histórico, Canavilhas (2007), com base em Fontcuberta (1999), mostra que essa estrutura da notícia (com partes independentes umas das outras) surgiu durante a Guerra da Secessão, nos EUA. Na época, entre 1961 e 1965, o telégrafo era a grande invenção tecnológica, usado como instrumento que possibilitava aos jornalistas o envio diário de suas crônicas de guerra. No entanto, segundo o autor, além de o telégrafo não ser uma tecnologia que proporcionava fiabilidade técnica, os postes que suportavam os fios eram alvos das tropas da guerra, o que fazia com que o sistema ficasse muitas vezes inoperante.
Diante disso, para que se assegurasse iguais condições de envio para todos os jornalistas, foi estabelecida uma regra de funcionamento para que o trabalho dos profissionais não fosse prejudicado. Assim, “cada jornalista enviaria o primeiro parágrafo do seu texto e, após uma primeira ronda, iniciava-se uma outra volta para que todos enviassem o segundo parágrafo do texto” (CANAVILHAS, 2007, p. 06). Por causa dessa regra estabelecida, a técnica de redação mais utilizada até então foi alterada e, em vez de os acontecimentos serem apresentados em ordem cronológica, como era mais comum, começaram a ser divulgados a partir do seu valor noticioso, para que fosse garantida a chegada das informações essenciais às redações dos jornais.
Segundo Canavilhas (2007), a técnica foi batizada posteriormente como pirâmide invertida e terminou se tornando uma das mais conhecidas do Jornalismo. No entanto, embora essa técnica seja caracterizada pela não apresentação, no texto, dos fatos ou acontecimentos em ordem cronológica, acreditamos que os parágrafos da notícia mantêm uma relação semântica entre si e, dessa forma, não são interdependentes, porque, juntos, constituem o mesmo texto, ainda que cada um desses parágrafos apresente uma unidade de sentido.
50 técnica é “limitadora quando se fala de outros gêneros jornalísticos que podem tirar partido das potencialidades do hipertexto” (p. 07).
O autor, defensor da segunda visão apresentada acima, considera que a técnica da pirâmide invertida está ligada a um jornalismo limitado às características do suporte utilizado, que, no caso do jornalismo impresso, é o papel. Na internet, é possível “a adoção de uma arquitetura noticiosa aberta e de livre navegação” (p. 07). Diferentemente do papel, em que o espaço é finito, nas edições online, segundo Canavilhas, o espaço é tendencialmente infinito, já que os cortes que podem ser feitos são por razões estilísticas e não mais por questão de espaço: “em lugar de uma notícia fechada entre as quatro margens de uma página, o jornalista pode oferecer novos horizontes imediatos de leitura através de ligações entre pequenos textos e outros elementos multimídia organizados em camadas de informação” (p. 07).
Canavilhas (2007) explica que essa proposta não é inovadora e nem é exclusiva do Jornalismo, já que o hipertexto aparece com notável importância em outras áreas, como a publicação acadêmica. O autor considera que a publicação na web implica uma nova arquitetura, com base na proposta de Darnton (1999), que propõe uma estrutura em pirâmide por meio de seis camadas de informação:
uma primeira com o resumo do assunto; uma segunda com versões alargadas de alguns dos elementos dominantes, mas organizadas como elementos autônomos; um terceiro nível de informação com mais documentação de vários tipos sobre o assunto em análise; um quarto nível de enquadramento, com referências a outras investigações no campo de investigação; um quinto nível pedagógico, com propostas para discussão do tema nas aulas; por fim, a sexta e última camada com as reações dos leitores e suas discussões com o autor. (p. 08)
O modelo da pirâmide em camadas foi pensado inicialmente para a elaboração de trabalhos acadêmicos, e Canavilhas (2007), a partir de uma pesquisa empírica com leitores de notícias na web, fez uma adaptação para o Jornalismo. Segundo o autor, existem duas variáveis na ação de redigir. A primeira é a dimensão, ligada à quantidade de dados, e a segunda é a estrutura, ligada à arquitetura da notícia. Assim, na manipulação dessas variáveis, os jornalistas adotam técnicas de redação que se adequam às características do meio, e terminam por dar mais relevância a uma ou outra variável.
51 dá mais importância à dimensão do texto, pois deve recorrer às estratégias que o ajudarão a encaixar o seu texto no espaço pré-definido, e o web-jornalista dá mais atenção à estrutura da notícia, tendo em vista que o espaço disponibilizado para ela não é limitado. Considerando essa suposta diferença de produção da notícia em diferentes meios, o autor conclui que é possível pensar numa estrutura para a notícia produzida na web: “estruturar uma notícia na web implica a produção de um guião que permita visualizar a sua arquitetura, nomeadamente a organização hierárquica dos elementos multimídia e suas ligações internas” (CANAVILHAS, 2007, p. 11).
Essa estrutura deve levar em conta as notadamente diversas estruturas hipertextuais, que, segundo Canavilhas (2007), com base em Noci e Salaverria (2003), podem ser lineares, reticulares ou mistas. As estruturas lineares são as mais simples e os blocos de textos são ligados por um ou mais eixos, logo, o grau de liberdade de navegação é condicionado, não podendo o leitor saltar de um eixo para o outro. As estruturas reticulares não possuem eixos de desenvolvimento pré-definidos, já que se trata de uma rede de textos de navegação livre, deixando em aberto todas as possibilidades de leitura. As estruturas mistas possuem tanto níveis do tipo linear como reticulares, onde o leitor não tem o grau de liberdade como no modelo reticular, mas encontra “pistas de leitura” bem definidas.
Pelos resultados obtidos em sua pesquisa, Canavilhas (2007) afirma que mesmo a “notícia [tendo] sido construída numa lógica de camadas de informação, os leitores optaram por seguir determinados assuntos até ao limite da informação disponível, seguindo links embutidos e saltando de nível de informação” (p. 11-12). Ou seja, o comportamento dos leitores sugere que há uma mudança de paradigma em relação ao que se verifica na imprensa escrita e nos textos da web. Logo, para esse autor, a pirâmide invertida parece não ser tão eficaz nas notícias produzidas na web, como o é no jornalismo impresso, uma vez que a rotina de leitura dos textos na web é diferente da rotina de leitura dos textos da imprensa escrita. Por outro lado, essa posição de Canavilhas é passível de críticas, já que, mesmo no jornalismo impresso, nada garante que todos os leitores leem na sequência que o texto está escrito, numa leitura linear.
52 primeiro, a técnica baseada na organização dos fatos a partir do que o jornalista julga como importante deixaria de ter sentido, segundo Canavilhas (2007), uma vez que o jornalismo está sendo feito num meio interativo. Esse autor considera que o webjornalismo deve assentar na quantidade de informação oferecida aos leitores, e não mais na “importância” dos fatos. Portanto, no webjornalismo, ao invés da pirâmide invertida, que supõe que o topo é mais importante que a base, numa hierarquização da notícia a partir da importância dada aos fatos relatados, a proposta de Canavilhas (2007) é que a pirâmide seja mudada de posição, conforme mostra a Figura 3:
Figura 3: Pirâmide deitada com níveis de informação
53 A estrutura apresentada na Figura 3 é denominada de pirâmide deitada, pelo fato de as informações da notícia na web, conforme Canavilhas (2007), serem dispostas em níveis, partindo de um nível com menos informação e seguindo para sucessivos níveis de informação, cada vez mais aprofundados e variados sobre o tema em questão. O autor explica que, mesmo claramente definidos diferentes níveis de informação, na webnotícia, os textos não são organizados em função da importância informativa, mas a partir de “uma tentativa de assinalar pistas de leitura” (p. 14). Ou seja, na webnotícia, há diferentes entradas possíveis para o acesso à leitura, sendo que as pistas disponibilizadas permitem várias trajetórias de leitura.
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Figura 4: Pirâmide deitada com níveis de leitura
Fonte: Canavilhas (2007, p. 15).
55 Nesse sentido, pode ser precipitada a ideia de que a pirâmide invertida limita as possibilidades do leitor e perde completamente o sentido na web, haja vista que o jornalismo praticado na web não foi criado exclusivamente para esse meio. Sabemos que muito do que se fazia e que ainda é feito no jornalismo impresso, por exemplo, continua sendo feito na internet. O próprio esquema da pirâmide deitada proposto por Canavilhas (2007), a nosso ver, tem por base a técnica da pirâmide invertida. Porém, à pirâmide deitada são acrescentados os recursos do meio (a internet) que dá ao leitor a possibilidade de ampliar ou expandir a informação da notícia através de hiperlinks sugeridos pelo próprio sujeito produtor da notícia ou ainda pelo portal jornalístico.
Logo, a ideia de total autonomia dada ao leitor também é passível de críticas, na medida em que a liberdade que o internauta tem, na leitura das informações jornalísticas na web, é de certa forma semelhante a que ele tem no jornalismo impresso. Podemos ler apenas manchetes nas notícias do jornal, ler apenas as notícias às quais temos algum interesse, ler apenas parte do texto, e, ainda optar por não ler e fechar o jornal, procurando outra fonte de informação. A internet proporciona que essa escolha aconteça de outra forma, porém, esta não é radicalmente diferente da que já existia. Acreditamos ainda que essa “possibilidade de escolha” dada ao internauta é uma ilusão de liberdade, em que o leitor apenas é levado a pensar que faz seu próprio caminho de leitura na web quando, na verdade, existe uma prévia organização e escolha de conteúdos que direcionam essa leitura para diferentes caminhos já pré-definidos, fazendo com que a mesma não seja livre.
Na web, a produção noticiosa foi acrescida de recursos tecnológicos comuns a esse meio, permitindo que se construíssem notícias com links para outras notícias, para vídeos e/ou imagens, com recursos de som, movimento etc. Na verdade, a notícia produzida no meio impresso foi adaptada para a web, e nesse sentido, assim como tem apresentado mudanças, para se adaptar a esse ambiente, também mantém características fundamentais para a definição e o entendimento do gênero dentro ou fora da web. O destaque, na manchete, da informação principal e, no lide, das informações que contextualizam a notícia: o que? Onde? Quem? Como? Porque?, são exemplos disso.
56 ao navegar por uma narrativa hipertextual jornalística, o usuário faz suas escolhas – que são viabilizadas pelo paratextos – e vai construir uma trajetória própria de leitura. O texto não é mais proposto como um produto acabado, são oferecidas frações e opções. O usuário é quem termina de construir o texto, no sentido de compô-lo como uma unidade, um conjunto informativo. (p. 169)
A autora parte do princípio de que o leitor é livre e independente, sendo capaz de construir o seu caminho de leitura. Porém, é preciso considerar que qualquer um dos caminhos seguidos pelo leitor é previamente configurado pelo jornalista ao construir a notícia. Nesse sentido, concordamos que ao leitor são dadas mais de uma opção de leitura - e cabe a este escolher uma dessas opções -, porém, a trajetória de leitura que é construída não é própria do leitor, uma vez que ele apenas opta por seguir uma das trajetórias disponíveis.
Dessa forma, acreditamos que a técnica da pirâmide invertida não é, de fato, praticada na produção da webnotícia como se acredita ser ainda comum no Jornalismo impresso. Por outro lado, essa parece não ter sido (e nem está sendo) substituída por uma pirâmide deitada (CANAVILHAS, 2007), que mostraria o caminho da produção noticiosa na web, e também não é o internauta, em se tratando de texto jornalístico, que constrói sozinho sua trajetória de leitura na web (MIELNICZUK, 2003b). No capítulo 6, desta tese, em que realizamos a análise sociorretórica da webnotícia, vemos esta como um tipo específico de notícia, produzido para um meio específico, a internet.
1.3 O Jornalismo dos portais jornalísticos na internet