Cad. Saúde Púb lic a, Rio d e Jane iro , 15(Sup. 2):39-44, 1999
Reflexões sobre uma proposta de int egração
saúde-escola: o projeto saúde e educação
de Botucat u, São Paulo
Inte g ratio n o f he alth into the sc ho o l c urric ulum
in Bo tucatu, São Paulo
1 De p a rt am en to de Saú d e P ú b l i c a , Facu l d ad e d e M ed icin a d e Bo t u c a t u , Un i v ersid a d e Esta d u al d e S ão Pa u l o.
Di strit o d e R u b iã o Jr. s / no, C . P. 5 4 9 , Bo t u c a t u , S P 1 8 6 1 8 - 9 7 0 , Bra s i l . d s p a u l a @ f m b. u n e s p . b r 2 De p a rt am en to de Ed u c a ç ã o, In st it u t o d e Bio ci ên ci as d e Bo t u c a t u , U n i ve r s i d a d e Est ad u al d e Sã o Pa u l o. D ist ri t o d e R u bião Jr. s / no, C . P. 5 4 9 , Bo t u c a t u , SP 1 8 6 1 8 - 9 7 0 , Bra s i l . t o ra l l e s @ i b b. u n e s p . b r
Elia n a Go ld f a rb Cyrin o 1 M a ri a Lú cia To ra lles Pe re i ra 2
Abstract Th is st u d y focu ses on t h e d ra ft in g a n d d evelop m en t of a p u blic h ealt h p ro g ra m a im ed a t st ra t egi es t o i n t egra t e h ea lt h a ct i v i t i es a n d t h e sch o ol cu rri cu lu m . Th e p ro g ra m is ba sed on t h ree m a in lin es o f a ct i v i t y: fu ll h ea lt h ca re f o r sch o o lch i l d re n , w i t h sp eci a l e m p h a si s o n t h e p u blic sch ool syst em ; t ra in in g of p erson n el i n t h e field s of h ea lt h an d ed u ca t ion by m ea n s of in -t ern sh i p s a llow in g p a r-t icip a n -t s -t o ex p e r i e n c e , w o rk , a n d reflec-t cri -t i ca lly o n -t h e a c-t iv i-t ies w i -t h a n in t erd i s c i p l i n a ry t ea m ; a n d w o rk w i t h t ea ch ers from t h e p u b lic elem en t ary sch ool syst em t o im p lem en t a n d d ev elop i n n ova t i v e m ea su res in t h e field s of h ea lt h a n d edu ca t i on t o resp on d t o t h e d em an d b y sch ools a n d th e com m u n it y.
Key words Hea lt h Ed u c a t i o n ; Sch ool He a l t h ; Hea lt h Ca re ; St u d e n t s
Resumo Ten d o com o objet o d e estu do a cria n ça em id ad e esco la r, d i s c u t e - s e , n o p resen t e art i g o, o p rocesso d e ela bo ra çã o e d esen v o lv i m en t o d e u m a p ro g ra m a çã o em sa ú d e p ú blica a fi m d e con st ru ir u m a est ra t égia de a ções qu e in t egrem os ca m p o s d a sa ú d e e d a ed u ca çã o. Ta l p ro g ra -m a çã o a p rese n t a - se a p o ia d a e-m t rês ei x os d e a t u a çã o: a t en çã o in t e gra l à sa ú d e d a cri a n ça e-m id a d e escola r, p riori za n d o a cri a n ça qu e est á in gressa n d o n o sist em a p ú bli co esco la r; f o r m a ç ã o d e recu rsos h u m a n os n a s á rea s sa ú d e e ed u ca çã o, p or m eio d e est á gi os qu e p ossi b ili t em v iv e n -c i a r, t ra ba lh a r e reflet ir -crit i-cam en t e a açã o p ro g ra m á t i -ca j u n t o a u m a equ ip e i n t erd i s -c i p l i n a r ; t ra b a lh o co m p ro f e s s o res d a red e d e e n sin o p ú blico f u n d a m en t a l p a ra a im p la n t a çã o e d esen v olv i m en t o d e a ções in ova d o ra s n os ca m p os d a sa ú d e e da ed u ca çã o qu e resp on d a m às d em a n -d as -d a escola , -da co m u n i-d a -d e e -d e u m a a t u a çã o crítica em fa ce -d o s p ro blem as en fren t a -d os p ela s cria n ça s em p rocesso d e escola riz a çã o.
CYRINO , E. G. & PEREIRA, M . L. T.
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C ad. Saúde Púb lica, Rio de Janeiro , 15(Sup. 2):39-44, 1999
A saúde da criança em face das políticas de saúde e educação
A p re oc u p açã o d o Bra sil co m a p r oteç ão à in -fân cia e à m atern idade em ter m os form ais d ata d e 1921, qu an do, p or ocasião d a re o rg a n i z a ç ã o d os ser viços d e saú de, con hecid a com o Re f o r-m a Car lo s Cha gas, o gove rn o assu r-m iu a re sp on sa b ilid ad e d e at u ar n a área d a h igien e in -fan til. Som en te em 1975, p orém , é q ue se in trod u zem m etroditrodas con cretas p ara articu lar o a t e n -d im en to à saú -de -d a m u lh er e -d a cr ian ça en tre as três esferas d o p od er p úb lico – federal, esta-d u al e m un icip al – e o se tor p ri va esta-d o, m eesta-dian te a Lei n . 6.229, q ue d isp õe sob re a org a n i z a ç ã o d o sist em a n a cion a l d e sa ú d e e a re o rg a n i z a-ção da assistên cia à saú d e n o âm b ito da Pre v i-d ên cia Social (Yu n es et al., 1987).
Ap ós a Con stituição Fe d e ral de 1988, o g ra n -d e -d esafio p ara as a-dm in istrações m un icip ais, n a área d a saúde, tem sido a re o rgan ização dos s e rv i ç o s, ten d o em vista a con strução do Si s t e-m a Ún ico de Saú de (SUS).
Con tem p lar os p rin cíp ios d o SUS d e re g i o-n a l i z a ç ã o, desceo-n tralização com d ireção ú o-n ica e m c a d a esfe r a d e gove rn o, ac esso u n ive r s a l , a ten d im e n to in tegra l com p ri o r id a d e p ar a as ações p re ve n t i vas e p articip ação da com u n id ad e, im p lica, ta m b ém , re ver a q u estão ad a aten -çã o à saú d e d a c rian ça. Pa ra algu m as p arc e l a s d a p op u lação in fan til, com o a crian ça em id ad e esc ola r ou o aad olescen te, ch a m ase a aten -ção p ara a m argin alizção ao aten dim en to re alizad o p e lo seto r saú d e, a n ec essid a d e d e a u -m en tar a cob ert u ra e -m elhorar a qualidade dos s e rviços oferecid os a essa p op u lação.
Po d e-se d izer q u e o s a n o s 80 sign ific a ra m p a ra as ad m in istr aç õe s m u n icip ais n o Bra s i l u m m om en to de re o rd e n a ç ã o, de m aior p ossi-b ilidade de desen volvim en to de p rop ostas e de am p liação dos esp aços d em ocr áticos d e p art i-c i p a ç ã o. Assim , em Bo tu i-ca tu , i-cid ad e d o in te-rio r d e São Pa u l o, in icia-se, a p ar tir d e 1983, a o rgan ização e im p lan tação de um serviço m u -n icip al de saú de, te-n d o com o m eta de seu p la-n o d e açã o a im p lala-n taç ão d e um a red e b á sic a d e serviç os d e ate n ção p ri m á r ia com in tegra-ção aos d iversos n íveis d e com p lexidade.
Na organ ização do tra b a l h o, a p re o c u p a ç ã o d e realizar estu dos que bu scassem u m a an álise d a rea lid ad e da saú de d a p op u la ção m arcou o m om en to de im p lan tação dos serv i ç o s. To rn o u -se n e ce ssário re ver m od elo s e trab alh ar c om p rob lem as de saú de estabelecidos p elas con d i-ções de vida de grupos populacionais específicos e p or p rocessos m ais abran gen tes da sociedade. De n t ro de sse m ov i m e n t o, in icia-se, a p art i r d e 1985, um a pro g ram ação em saú de voltada à
c rian ça em idad e escolar n o m u n icíp io d e Bo-t u c a Bo-t u .
Naquele m om en to, con statava-se que, no ca-so da crian ça em idade escolar, qu e fre q ü e n t a va ou n ão a escola p ú blica de en sin o fun d am en tal (an tigo p ri m e i ro grau), havia um a gran de ausên -cia d e ser viços d e saú de voltad os às n ecessid ades adesse grup o p op ulacion al. Talvez, excetuan -do-se algu m as con d ições específicas, tal gru p o e t á ri o, qu e ap resen ta u m baixo grau d e ob jeti-vação do p on to de vista do in strum en to clássico da Medicin a, pouco utilizasse os serviços de saú-d e, p orque eram p oucas as n ecessisaú-d asaú-d es in ter-p retadas ter-p elos serviços d e saúd e (Ay re s, 1990). Re s s a l t a s e , assim , a p resen ç a d e u m q u a -d ro -d e m orbi-da-d e n ão va l o riza-d o n as estatísti-cas de saúde, com o os p roblem as p sicossoc i a i s, g ra v i d ez n a ad olescên cia, q ueixas p sicossom á-t i c a s, d oen ças sexu alm en á-te á-tra n s m i s s í ve i s, cá-ri e s, distú rb ios de visão, o p rob lem a d o u so de d ro g a s, en tre ou tro s, com o u m a d em an d a fre-qü en te d e p rob lem átic as d a cr ian ç a a os serv i-ço s d e saú d e e p a ra os q u a is as Un id ad e s d e Sa úd e n ão e sta vam o rgan iza d as p a ra d ar re s-p ostas (SMSSP, 1990).
A n ecessid ad e d e b uscar u m a visão in tegra-d o ra tegra-do p rocesso tegra-de crescim en to e tegra-desen vo l v i-m e n to d e n ossa in fâ n cia e a d ole sc ên c ia ve i-m sen d o ap on tad a, in cluin do aí a leitura socioló-gica, an trop ológica e p olítica q ue justifica seus c o m p o rt a m e n t o s, su a exp ressão n o corp o b io-lógic o e se u s p lan os d e m eta s q u e org a n i z a m um m od o d e vida sau dável ou de ri s c o. As a ç õ e s b ásic as d e saú d e, c on sagr ad as p ela Org a n i z a-ção Mu n dial da Sa ú d e, foram cap azes de re d u-zir a m ortalidade d e joven s e crian ças e têm si-d o c ap a ze s si-d e con t er at é 60% si-d as m ort es n o p ri m e i ro an o d e vid a, m as ressa lta -se q u e a c ria n ç a, vista n a su a in tegra l i d a d e, ain d a está f o ra d o sistem a de saú d e. Os m aiores d e cin co an os estão fora das p ri o ridades em saú d e, p elo m en os em su as pri o rid ad es esp ecíficas (Ce c c i n et al., 1992; Lim a, s/ d).
Por ou tro lad o, n a décad a d e 80, hou ve um c resc im en to exp re s s i vo d a ta xa d e escolari z a -ção p ara a p op u la -ção d e sete a 14 an os em to-do o p aís. Ap esa r d esse c re s c i m e n t o, a d écad a d e 90 com eç a com ap r oxim a d am en t e q u a tro m ilh ões d e cr ian ças em id ad e escolar q u e n ão f re q ü en t am a e sc ola . Dad o q u e u m a p arc e l a s i g n i f i c a t i va d estas cr ian ças já fre q ü e n t a ra, em algum p eríod o d e su as vida s, a escola, m as foram p osteri o rm en te excluíd as d ela, p od er s e -ia d izer q u e a a m p l-ia ção d e vagas d a s esco las p úb licas n o Brasil ain d a ap re sen ta p ro b l e m a s q ue p recisam ser m elh or esclare c i d o s.
Cad. Saúde Púb lic a, Rio de Janeiro , 15(Sup . 2):39-44, 1999 de m ovim en tos p ela d em ocratização d a
socie-d a socie-d e, co m p rofu n socie-d o s re f l e xo s n os c am in h os dos setores saú de e edu cação, h á de se levar em c on ta o exp re s s i vo a u m en to d e d em an d a em am b a s a s áre a s, ou seja, n os d ois re f e rid os se-t o res foi p ossível ob ser va r gran d e exse-ten são d a c o b e rt u ra , co m c on seq ü ên cias q ue p re c i s a m ser avaliadas e estu dad as.
Saúde escolar: crítica ao re c o rt e
A an á lise d os p ro g ra m a s d e saú d e esc olar d es e n volvidoes n o Braesil, ain d a h oje, p er m itiu ob -s e r va r q u e, em b or a p re ocu p a d o-s c om u m a ação am p la, de m od o geral, eles têm , n a p ráti-ca, u m a lin h a assiste n cialista com p re d o m í n i o d e sub p ro g ram as isolad os, com o a assistên cia od on tológic a, oftalm ológica e p sicológica. Ou seja, a saú d e escolar re p rod u z o p arad igm a d e c ar áter assist en c ialista d a at en ç ão e m sa úd e em geral, qu e p ri o riza o in d ivídu o e p ar tes de-l e, em d et rim en t o d a co de-letivid ad e e d o t od o ( Su c u p i ra et al., 1989).
At u a l m e n t e, existem gru p os qu e tra b a l h a m com a saú de escolar, ligan do-a a q uestões m ais esp e cíficas d o c om p o rta m en to e d as sín d ro -m es e disfun ções cere b ra i s, assi-m co-m o d as ca-rên cias n utr icio n ais e d a p ob reza . A p o ssib ili-dad e d e outros re c o rtes qu e se ap roxim em m a i s do eixo das p rin cip ais n ecessid ades d a cri a n ç a n essa faixa etá ria ju stifica a n ecessid a d e d e m aio r p ar tic ip aç ão n e sse ca m p o d o c on h ecim e n t o, coecim a criação de trabalhos qu e se con -t rapon ham , n o p lan o -técn ico-cien -tífico, é-tico e p o l í t i c o, à visão d e fe n d id a p e la p or çã o, ain d a h e ge m ô n ica n essa á rea , d e q u e a m iséria d a p op u laçã o é a cau sa d e seu s m ales e fra c a s s o s ( Fon seca, 1988). A co n se q ü ê n cia d essa visão n os esp aços escolares resulta, fre q ü e n t e m e n t e, n u m etn ocen trism o d as organ izaçõe s ed ucativa s, qu e se p reocu p am , ra p i d a m e n t e, em iden tific ar as in ú m e ras falt as n a s cr ian ç as d a s ca -m adas p op ulares: falta d e in teligên cia, falta d e um am b ien te fam iliar ad e q u ad o, fa lta d e co -n h e cim e -n tos a-n t eri o re s, fa lta d e m a tu ri d a d e p a ra sere m alfab e tizad as, falt a d e con d iç ões n u t ri c i o n a i s, falta de saúd e etc. E assim , com o s e res d e c arê n cia a b solu ta , o d estin o d e ssas c rian ças já está traçad o p ela p rofecia au to-re a-l i z á vea-l d o p ro f e s s o r, d os esp ec iaa-listas e d a so-c ied ad e q u e a n t eso-c ip am , an u n so-c iam e aso-cab am c o n t ribu in do p ara a p rod u ção d o fracasso d es-sa p op u lação (Pa t t o, 1990).
Co m m ovim en tos am b íguos e c on t ra d i t ó -ri o s, essa p rofecia ora volta-se p ara um a p ráti-ca assisten cialista, ora p ara u m a p rátiráti-ca d e d e s-c o m p rom isso e in justiça sos-cial em fas-ce d os
di-re it os d e ssa cr ia n ça , con t rib u in d o p ara q u e, m u ito ra p i d a m e n t e, ela se p erceb a cu lp ad a d e seu p rópr io fracasso n a escola e n a socied ade.
O projeto de integração saúde e educação em Bot ucatu
Nesse con texto de d iscussão e p re o c u p a ç õ e s, e com b ase n u m a visão am p lia da d e saú d e, teve i n í c i o, n o fin al d e 1985, o Pro g ra m a d e Sa ú d e Escolar (PSE) de Botucatu , a p ar tir da re i v i n d i-ca ção d e u m a esc ola esta d u al d a p eri f e ria d a c i d a d e.
A p rop osta de ação in icial ob jetiva va, basi-c a m e n t e, rea lizar u m d ia gn óstibasi-co d a situ açã o d e saú d e e d o p rocesso ed u ca cion al d os esco-l a re s, id en tificar as n ecessidad es d o corp o do-cen te d a re f e rida e scola e delin ear u m a p rop o sta d e aç ão com a p a rticip ação de tod os o s en -volvid os (p ro f e s s o re s, alu n os, fam iliare s ) .
Pa ra o d esen volvim en to d o p rojeto in ic ial, g ra d a t i vam en te form ou -se u m a equ ip e de p ro-fission ais d as áre as sa ú d e/ e d u ca çã o (p ro f i s-sion ais do Se rviço Mu n icipal d e Sa ú d e, d o De-p a rtam en to d e Saú de Pú b lica e De De-p a rt a m e n t o d e Ne u ro lo gia e Ps i q u i a t ria d a Fac u ld ad e d e Med icin a d e Botu ca tu – FMB – e d o Ce n t ro d e Sa ú d e Esco la ), co m a p reo c u p a çã o d e c om -p re e n d er os -p r oblem as q u e en vo l vem a saú d e d a crian ça in gressan te n o sistem a escolar e d e c o n s t ru ir propostas cap aze s d e resp on der a es-ses p ro b l e m a s.
Pr i o rizan d o a n ec essid ad e d e a fir m a r u m e sp aç o d e reflexã o p er m an e n t e e d e co n st ru -çã o d e co n h e cim e n tos n a áre a d a saú d e d a c rian ça em p rocesso d e escolari z a ç ã o, o tra b a-lh o exigiu p erc eber o m ovim en to en tre a ção e re f l e x ã o, o q ue trou xe n ecessid ad e d e m u d an -ç a s d e e st ra tégias p ara o en fren ta m e n to d os p rob lem as em erg e n t e s. Esse p rocesso foi tam -b ém su -b sidiad o p ela an álise crític a d e p ro g ra-m as d e saú d e escolar d esen volvid os an teri o r-m e n t e, seja n o âr-m b ito n acion al, seja n o Mu n i-cíp io de Botucatu.
CYRINO , E. G. & PEREIRA, M . L. T.
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Cad. Saúd e Públic a, Rio d e Jane iro , 15(Sup. 2):39-44, 1999
Na a valiaçã o d o tr ab a lh o in icial, foi p ossível ob servar qu e a p resen ç a d a eq u ip e n o am -b ien te escolar, tra zen do u m a leitura crítica dos p ro g ram as d e saúde escolar já d esen volvid os e, ao m esm o tem p o, acen an do p ara esta com u m a n ova p rop osta, p arece ter deflagrado um a séri e d e c on flit os e in sat isfa çõ es, d e a m b as as p ar -t e s, re ve l a n d o, d e sd e o in ício, q u e o -tra b a l h o con ju n to n ão se d e sen vo l ve ria n u m esp aço d e h a r m on ia . As ten sões e co n t ra d içõ es p re c i s a-r iam sea-r aceitas p aa-ra qu e a com u n icação en ta-re e q u i p e, esc ola, c ria n ç as e fa m ilia res p ud esse e f e t i var um p rocesso d e con str ução p art i c i p a-t i va, a-ten d o com o b ase os p rob lem as iden a- tifica-d os e p ri o r izatifica-d os p o r to tifica-d o s. Ac o stu m atifica-d o s a u m a p resen ça episódica do setor saúde, re i v i n -d ic an -d o so lu çõ es p a ra q u e st ões m é-d ica s e s-sen cia lm en te c u ra t i va s ou m esm o n ão m é d c a s, p orém in terp retad as p ela ótica “m e d i c a l i-z a d o ra”, d ireção e p ro f e s s o res dep ara r am c om u m a eq u ip e d ese josa d e rep e n sa r a saú d e e cola r p ela in t egra çã o saú d e e e d u ca ção, b u s-c an d o n ovas p rop osta s n a d et es-cção e solu ção d o s p ro b l e m a s, q u e, m u it as veze s, ext ra p o l a -vam a am b os setore s.
A con stataç ão d e q u e o setor saú d e d ep a ra c om lim it açõe s, te n d o em vist a a p ersp ectiva m e d i c a l i z a d o ra, a ssim in ter p retad a p ela esco-la , d o s p r o b lem as e d u ca cion a is d as c ri a n ç a s d as cam adas p op ulare s, dificu ltou a in tegra ç ã o in ic ial en tre eq u ip e de saú de e p ro f e s s o re s. Isso p ôd e ser ob ser va d o, Issob re t u d o, n o m om en -to em qu e se levan -tou a q u estão d a n ão-corre s-p on d ên cia d ireta en tre as d ificuldad es d o s-p ro-c esso d e ap ren d iza gem e ro-c a u sas m é d iro-ca s o u con d iç õe s ge ra is d e vid a d e algu n s esco lare s. Na m e d id a em q u e a eq u ip e e xp lic it ava su a s i d é i a s, d iscu tin do q u e, a p esa r d a p ob reza, d as con d ições extrem am en te adversas n o am b ien -te fam iliar, tan to a edu cação, com o a saúd e, tin h am u m p ap el a d esem p etin h ar p a ra o d esetin -volvim en to d as p oten cialidad es d as cr ian ças – con solid an d o a auto-estim a de cada crian ça e, ao m esm o tem p o, crian d o n ovos desafios p ara am p liar o seu con hecim en to in icial –, ob serva-vam -se ob stácu los q u e d ificu lta va m o a va n ç o d a p rop osta d e u m trabalh o con ju n to de con s-t ru ção e reflexão de con h ecim en s-tos n essa áre a . Ou t ras estratégias d e atu ação foram sen d o c o n s t ruíd as e o PSE b u scou , tam b ém , u m a n o-va form a d e in serç ã o d en tr o d as id éias gera i s d e re f o r m u laç ão d o se tor saú d e, p ro c u ra n d o t rab alhar a aten ção à saú de d a crian ça em ida-d e e sco la r, n u m p a ida-d rã o ida-d e a ssist ê n c ia cu jo e n foq u e m aior voltou -se p ara a com p re e n s ã o, o rien tação e ação am p la sob re o p rocesso saú -d e- -doen ça e seu s -d eterm i n a n t e s. Pro c u ro u - s e d e s e n vo l ver ações b aseadas n a an álise d as n
e-cessidad es detectadas n a escola, p ro p o n d o - s e u m m od elo de aten d im en to q u e, de certa m a -n eira, e-n trava em co-n flito com a solicitação d e sta , m as q u e re sp on d ia a algu m a s d e su as d e -m an das. A p reocup ação n esse -m o-m en to era t rabalh ar n a dialética con tin u id ad eru p t u ra, con -solid an d o a ç ões d e sen volvid a s n o in te rior d a escola, cri a n d o, n o en tan to, sem p re n ovos d esafios p or m eio da atuação d a equipe com gru -p os de cri a n ç a s.
Nessa etapa d o tra b a l h o, ch am ou a aten ção o fato d e a esc ola ter en cam in h ad o à con su lta m éd ica p re f e ren cialm en te escolares vistos co-m o fra ca ssad os e cr ian ça s coco-m p ro b leco-m a s d e p e l e, o u seja, n e sse gru p o, d ez c rian ç as (35%) com q u eixa d e rep et ên c ia ou m a l re n d i m e n t o escolar foram en cam in h ad as, p or serem con si-d e rasi-das p ela escola com m aior p ri o risi-dasi-de p ara aten d im en to m édic o. Quan to às d em ais q u ei-x a s, re f e r ia m -se p rin c ip a lm e n te a p ro b l e m a s de p ele, visão, com p ort a m e n t o, dore s, p ro b l e-m a s, talvez e-m ais relacion ad os à ap arên cia d os e s c o l a res (Cy ri n o, 1994:84-85).
Pro c u ran d o discu tir a d em an da d a escola, a eq u ip e d o PSE b u sc a va n ovo s esp aç os p ar a a c o n s t ru ção de con hecim en tos qu e re ve rt e s s e m em m ud an ças d e atitud e e m ud an ças m etod o-lógicas n a a tuação p rátic a com crian ças esco-l a re s. Ne sse m o m en t o, a n ec essid a d e d e u m a co n ce p ç ão in te rd isc ip lin a r p a ra e n fre n ta r a com plexid ade dos p rob lem as con cretos exigiu um trab alh o coletivo d e reflexão e estudo org an izado valean dose d e p rob lem as com u an s e ian -t e g ra d o re s, por m eio de lei-tu ra e an álise da p r ática e d e d iscu ssão d e textos (tais com o Su c u -p i ra et al.,1986; Uri b e - R i ve ra, 1989; Valla, 1989; Go n ç a l ve s et al., 1990; Sc h ra i b e r, 1990, 1992; Ca s t e l l a n o s, 1991, n o cam po d a saúde, e Pa t t o, 1990; Fe r re i ro, 1986; Vy g o t s k y, 1987; Fre i re & Fa u n d e s, 1985, n o cam po da ed ucação). Te x t o s q ue p ro p o rc i o n a vam a p roblem atização d e co-n h ecim eco-n tos co-n ecessár ios à eq uip e p ara fuco-n d a-m en tar u a-m a prática con scien te e crítica ea-m re-lação aos p ressu p ostos p olíticos, éticos e ep istem ológico s d a atua ção p ed agó gic a n o s c am -p os d a saú de e d a edu cação.
A com p osição d a eq uip e, com p ro f i s s i o n a i s vin d os d e diferen tes áreas – saú de m en tal, ed u-c a ç ã o, saú d e p ú b liu-c a – fau-c ilitou a u-c on stru ç ã o desse trabalh o coletivo voltado p ara d ifere n t e s p ráticas qu e p reten diam re n ova r-se pela in corp o ração d e um a visã o m ais am corp la dos corp ro b l e -m a s q u e en vo l ve-m a s cria n ças d a s ca -m ad as p o p u l a res em seu p rocesso de escolari z a ç ã o.
Cad . Saúde Púb lic a, Rio de Janeiro , 15(Sup. 2):39-44, 1999 n um p roc esso d e p ar ticip aç ão ativa d e t od os,
cap az de tor n ar con scien tes os lim ites de cad a u m (eq u ip e e escola ), p erce b en d o a p ró p ri a t ra n s i t o ried ad e d esses lim ites, p ara m u d a r as relações com a pop ulação: escolares e com un i-d a i-d e. Pa ra isso, er a p rec iso qu e a esc ola fosse t ra n s f o rm ad a em um esp a ço d e c om un ica ção em tod as as d ire ç õ e s, in cen tivan do o d iálogo e a leitura crítica d a p rática, resgatan d o o p ra ze r d e d escob rir e con h ecer n u m p rocesso coop era t i vo e p art i c i p a t i vo, for talecen d o a au tocon -fian ça n as p róp rias p oten cialid ad es e en cora-jan do o desafio p ara am p liar o con h ecim en to e s u p e rar os p róp rios lim ites.
Do p on to d e vista m eto do lógico, esse fo i o g ra n d e d esafio d a eq u ip e, te n d o em vist a os con flitos d essa con vivên cia com u n icativa, re-velad os já n o s p ri m e i ros en c on tros n a esc ola, n a s exp ec ta tivas d os p ro f e s s o re s e direção em relação ao trab alho d a eq uip e.
Ampliando os espaços de atuação
O c om p rom isso d a eq u ip e com a s id é ias q u e e s t ru t u ra vam a p ro p o st a favo rec eu a p er m a-n ea-n te busca de estratégias p ara a coa-n tia-n u id ad e d a m esm a . O PSE fo i, gra d a t i va m e n t e, am -p lian d o-se e in cor-p oran d o n ovas -p ro -p o s i ç õ e s, n ão sem con flitos e d ificu lda des, m as abri n d o e c on stru in do n ovas áreas d e atu ação, d elim i-tan do com m aior clareza os espaços da saú de e d a ed u cação, sem p erd er a p ersp ec tiva d e u m t rab alh o in terd i s c i p l i n a r.
To rn o u s e, assim , p ossíve l u m a efetiva in -t e g ração d a eq uip e d o PSE com as escolas, p or m eio d e u m tra b alh o sistem ático com p ro f e s-s o res-s d a red e es-stad ual d e en s-sin o fu n d am en tal. Esse tra b a l h o, voltad o p ara rep en sar a p rática p e d agó gica n a s p ri m e i ras sér i e s, b u sc ava es-t raes-tégias de aes-tuação cap azes d e m ob ilizar o de-sejo d e ap re n d e r, a au to-estim a e a au ton om ia n o p r oc esso d e ap ren d izage m d a cr ian ça . Em u m relato d o t rab alh o co m p eq u e n o s gr u p o s d e c ria n ç as re p e t e n t e s, essa p reoc u p a çã o se exp licita n a fala d e um alu n o e d a edu cadora:
“Eu qu eri a est u d a r. . . a í . . . eu v i m a qu i n a e s o l a . Pr i m e i ro. . . eu n ã o gost a v a . D e p o i s , eu fu i a c o s t u m a n d o. Da í , a gen te ficam os est u da n d o. . . Fo lh ea n d o o liv ro a ca d a d ia ...” ( Ma rc o s, d ez
a n o s ) .
“A m in h a p reocu p a çã o fo i v a loriz a r a v o z d as cria n ças – a voz qu e ex p ressa d esejos, c o m u -n ica idéia s, co-n st rói co-n h ecim e-n tos – d e-n t ro d e u m a p rá tica lú d ica , c r i a t i va e re f l ex i va” ( Pe re
i-ra, 1995:256).
O p r oc esso viven ciad o p e la eq u ip e d en tro de um a p rop osta in terdiscip lin ar perm itiu
acei-t ar o d e sa fio d e am p liar o p ro g ra m a, c on so li-dan do um esp aço de referên cia p ara estágios de p rofission ais das áreas d e saúde e ed ucação. As-sim , o PSE incorp orou à sua atuação p rática u m t rabalh o de for m ação n as d u as áreas em qu es-tão (Pe re i ra,1993; Pe re i ra et al., 1996), visan d o f o r m ar p rofission ais críticos, cap azes de p erc e-b er a com p lexidad e d os p roe-b lem as d a cri a n ç a em p rocesso de escolarização e o pap el d a equ i-p e in terdiscii-p lin ar n o trabalh o com o escolar. A avaliação d essa exp eriên cia p er m itiu obs e r var u m a relação obsign ificativa en tre o d eobsen -volvim en to d os estagiários n as escolas e a m o-b ilização destas p ara m ud an ças n a relação p ro-f e s s o r-alu n o e esc ola-com u n id ad e, n o u so d e p ropostas p edagógicas in ova d o ra s, n a va l o ri z a-ção do próprio trabalho da escola e do pro f e s s o r.
Mais re c e n t e m e n t e, n ovas dem an das e p ro-p osições vêm -se form alizan do ro-p or m eio de out ras p a rc e ria s com a com u n id ad e e com esoutu -d a n te s -d a FMB em p roje tos -d e ext en são u n i-ve r s i t á ria, voltad os p ara um a atu ação p edagó-gica n os cam p os da ed ucação e d a saúd e.
Hoje o PSE con st itu i u m a p a rc e r ia en tre a Se c re t a ria Mu n icip a l d e Sa ú d e e Me io Am -b ien te d e Botu catu e a Facu ld ade d e Me d i c i n a d e Botu catu , De p a rtam en to d e Saú d e Pú blica. Con t a co m a p a r ticip açã o d e p rofissio n ais d e d i ver sas in stitu ições: Fa c u ld ad e d e Me d i c i n a d e Botu ca tu , D e p a rt am en t o d e Ed u ca ção d o IB/ UNESP e Ce n t ro d e Saúde Escola d a UNESP, Se c re t a ria d e Saú d e e Se c re t a ria d a Ed u c a ç ã o d a Pre f e i t u ra Mu n icip al de Botu catu .
C o n s t ruindo caminhos
CYRINO , E. G. & PEREIRA, M. L. T.
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Cad. Saúde Pública, Rio d e Jane iro , 15(Sup . 2):39-44, 1999
i n t e r ven ções m ais efetiva s. Pa ra a com un id ade d e escolares e fam iliare s, o p r o g ram a tem sig-n ificad o u m a c h asig-n c e d e m aior p a rtic ip a çã o e de crédito n o desenvolvim en to dessas cri a n ç a s. A reflexão so b re essa e xp e riên cia d e a tu a-ção n as in terfaces da saúd e e da edu caa-ção p er-m itiu p erceb er a p ossib ilid ade de u er-m tra b a l h o
i n t e rd i s c i p l i n a r, ten d o c om o p on to d e p a rt i d a e d e ch egad a a p rob lem atiza ção d a re a l i d a d e, c o n s t ru in d o coletivam en te o sab er, “a o bu scar, j u n t o s , o n ovo, o risco, a d escobert a , o d iálogo, a t ro c a , o con h ecer, deix a n do qu e cad a u m a ssu -m isse a su a p róp ria p rá tica den t ro d os p róp rios l i m i t e s” ( Elias & Feldm an n , 1993:92).
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