ASSISTÊNCIA
.JURÍDICA
À POPULAÇÃO CARENTE
CONSTITUIÇÃO
E
DIREITOS
SONEGADOS
FLORIANÓPOLIS
(SC)
Ass1sTÊNc1A
JURÍDICA
À POPULAÇÃO
cARENTEz
CONSTITUIÇÃO
E DIREITOS
SONEGADOS
MARIA
APARECIDA
LUCCA
CAOVILLA
DISSERTAÇÃO
APRESENTADA
AO
CURSO DE
PÓS-
GRADUAÇÃO
EM
DIREITO
DA
UNIVERSIDADE
FEDERAL
DE
SANTA
CATARINA,
COMO
REQUISITO
À
OBTENÇÃO
DO
TÍTULO
DE
MESTRE
EM
DIREITO.
ORIENTADOR:
PROF. DR.
HORÁCIO
WANDERLEI
RODRIGUES
FLORIANÓPOLIS
(sc),UNIVERSIDADE
FEDERAL
DE SANTA CATARINA
-UFSC
CENTRO
DE
CIÊNCIAS JURÍDICAS
-
CCJ
DEPARTAMENTO
DE
DIREITO
-DIR
CURSO
DE
POS-GRADUAÇAO
EM
DIREITO
TURMA
ESPECIAL
-
UNOESC/CHAPECÓ
A
PRESENTE
DISSERTAÇÃO,
INTITULADA ASSISTÊNCIA JURÍDICA
À
POPULAÇÃO
CARENTEz
CONSTITUIÇÃO
E
DIREITOS
SONEGADOS,
ELABORADA
POR
MARIA
APARECIDA
LUCCA
CAOVILLA
E
APROVADA
PELA
BANCA EXAMINADORA COMPOSTA
PELOS
PROFESSORES
ABAIXO
ASSINADOS,
POI
JULGADA
ADEQUADA
PARA
A OBTENÇÃO DO
TÍTULO
DE
MESTRE
EM
DIREITO.
FLORIANÓPOLIS
(SC
) ,JUNHO DE
2001
BANCA
EXAMINAD
L
\\
O»
PROFESSOR ORIENTADOR:
DR.
HORÁfi
'LEI
RODRIGUES
MEMBRO
DA
BANCA:
PROF. DR.
ÁI9'I'Õ
ARIA
ISERHARDT
MEMBRO
DA
BANCA:
PROF. DR.
JSEL
ACHADO
CORRÊA
PROF. DR.
CHRISTIAN
Y'CAUBET
COORDENADOR DO
CPGD
/UFSC
Ao
Ivar eaos nossos
filhos
Isadora
e Gabriel,pelo amor.
AGRADECIMENTOS
Agradeço
àUniversidade do Oeste de Santa
Catarina(UNOESC), Campus
de Chapecó,
na
pessoa
do
Diretordo
Centro de
Ciências Sociais e Jurídicas, ProfessorMestre
Idir Canzi,que não
mediu
esforços paraque
se concretizasseo convênio
com
aUniversidade
Federalde Santa
Catarina, parao
oferecimentodo
Curso de Mestrado
em
Direito -
Turma
Especialde
Chapecó
-SC, proporcionando oportunidade ímpar para
aperfeiçoamento
do
quadro
docentedo
Curso de
Direitoda
UNOESC-
Chapecó.
Agradeço
àUniversidade
Federalde
Santa Catarina(UFSC), na
pessoa
do
Coordenador do
Curso de Pós-Graduação
em
Direito, ProfessorDoutor
Christian G.Caubet
e aoCoordenador
da
Turma
Especialdo
Campus
Chapecó,
ProfessorDoutor
Luiz
Otávio
Pimentel.Agradeço
ao Professor Orientador,Doutor Horácio Wanderlei
Rodrigues, pela paciência, apoio e efetiva orientação recebidos.Agradeço
àamiga
ProfessoraMestre Helenice
da Aparecida
Dambrós
Braum,
pelosmomentos
de
angústia compartilhados, pela força e incentivoao longo
dessacaminhada.
Agradeço
a todos os brasileiros e brasileiras carentesde dignidade
e justiça,especialmente os usuários
do
Escritório Sócio-Jurídico,da
UNOESC
-Campus
Chapecó,
5
SUMÁRIO
RESUMO
... .. 8RESUMEN
... .. 9INTRODUÇAO
... _. 10CAPÍTULO
I 1.DIREITO
DE
ACESSO
À
JUSTIÇA
... .. 131.1.
A
Concepção
de
Mauro
Cappelletti ... .. 171.1.1.
A
“PrimeiraOnda”
-A
Assistência Judiciária ... .. 181.1.2.
A
“Segunda
Onda”
-Representação
para os InteressesDifusos
... ._22
1.1.3.A
“TerceiraOnda”
-Enfoque
de
Acesso
à Justiça ... ..23
2.
A
INSTRUMENTALIDADE
DO
SISTEMA
PROCESSUAL
EM
CÂNDIDO
RANGEL
DINAMARCO
... ... ..24
2.1.
A
Abrangência
do Acesso
à Justiça ... ..24
2.2.
A
Efetividadedo
Processo
... ..27
2.3.
A
Instrumentalidadedo Processo
... ..30
3.
O
ACESSO
À
JUSTIÇA
NA
VISÃO
DE
OUTROS
JURISTAS
... ._ 33 3.1.Poder
Judiciário eTransformação
Social ... ../. ... ..37
3.2.
Acesso
à Justiça e Justiça Social ... ..39
3.3.
Acesso
à Justiça e aPobreza
... .. 413.4.
Acesso
à Justiça eDesigualdade
Social ... ..43
3.5.
Acesso
à Justiça e aDignidade da Pessoa
Humana
... ..44
3.6.
Acesso
à Justiça e os DireitosHumanos
... ..46
CAPITULO
II 1.ASSISTÊNCIA
JUDICIÁRIA
GRATUITA
NO
BRASIL
... ..49
1.1.
A
Assistência Judiciáriano
Brasil ... ..50
1.1.1.
Origens
-Onde
eComo
Nasceu
... ..50
1.2.
A
Proposta
de Implantação de
um
Sistema de
Proteção aosNecessitados
... .. 511.3.
A
Consolidação da
Assistência Judiciária ... .. 531.4.
Novas
Posturas Sociais Frente aos Direitos ... ..54
2.
DA
ASSISTÊNCIA
JUDICIÁRIA
À
ASSISTÊNCIA
JURÍDICA
... ..55
2.1.
A
Lei n. 1.060de 1950
... _.56
2.2.Antigo
Estatutoda
Ordem
dos
Advogados
Brasil - Lei n. 4.215/63 ... ..57
2.3.
A
Constituição Federal Brasileirade 1988
... ..57
2.4.
A
Defensoria
Pública - Essencial àFunção
Jurisdicionaldo
Estado
... ..60
2.5.
Novo
Estatutoda
Ordem
dos
Advogados do
Brasil - Lei n. 8.906/94 ... ..60
2.6. Assistência Jurídica, Justiça Gratuita e Assistência Judiciária ... .. 61
3.
A
IMPLEMENTAÇÃO
DO
ACESSO
A
JUSTIÇA
NO
BRASIL
... ..64
3.1.
Defensoria Dativa
e Assistência Judiciária Gratuita ... ..67
3.2.
Advogado
Estatal ... ..68
3.3.
Acesso
à Justiça a partirda
Constituição Federal Brasileirade 1988
... ..70
3.4.
A
Assistência Judiciária Gratuitaem
Santa
Catarina ... ..73
3.5. Assistência Jurídica e
Advocacia
... ..75
CAPITULO
III 1.DEFENSORIAS
PÚBLICAS
... ..77
1.1.
Conceito de
Defensoria Pública ... ..78
1.1.1. Assistência Jurídica Preventiva ... ..
79
1.1.2. Assistência Jurídica Curativa ... ..
80
1.2. Previsão
Normativa
de Implantação
das Defensorias Públicas ... .. 811.3.
Funcionamento
das Defensorias Públicas ... .. 831.4.
A
Defensoria
Públicacomo
Instrumentode Cidadania
... .. 852.
A
FARSA
DA
DEFENSORIA PÚBLICA
NO
ESTADO DE
SANTA
CATARINA...
86
2.1.
A
Ordem
dos
Advogados do
Brasil-Seçãode
Santa Catarina ea
Trajetóriada
Defensoria Dativa
... ..89
2.2.
Os
ReiteradosDescumprimentos
dos
Pagamentos
da Defensoria Dativa por
partedo
Estado
-o
Retrocessono Acesso
à Justiçaem
Santa
Catarina ... ..94
3.
A
OMISSÃO
DO
MINISTÉRIO
PÚBLICO
NO
ESTADO DE
SANTA
CATARINA
... ..98
4.
O
MODELO
DE
DEFENSORIA PÚBLICA
DO
ESTADO
DO
RIO
DE
JANEIRO.
101CAPÍTULO
iv
1.OUTRAS FORMAS
(ALTERNATIVAS)
DE GARANTIA
DO
ACESSO
À
JUSTIÇA
... ..104
1.1.
Núcleos de
Apoio
Jurídicoem
Municípios
... ._ 105 1.2.Os
Fóruns
Universitários ... ..106
1.3.
Os
Juizados Especiais ... ... ..108
1.4.
Os
Juizados Itinerantes ... ..108
1.5. Juizados
de
Paz
... .. 1111.6. Tribunais
de
ConciliaçãoComunitários
... ..112
1.7.
Formas
Alternativasde Solução de Conflitos
... .. 1137
2.1.
A
Importância
do
Estágio parao
Acadêmico
... ..115
2.2. Contribuição
dos
Estágiosde
Prática Jurídica ... ..116
2.3.
Formação
e Estruturade
um
EscritórioModelo
... ..120
2.4.
A
Idéiade
Criaçãode
uma
Parceria entreo
Govemo
do Estado
eCursos de
Direito ... ..
122
3.
PROJETO
SOCIAL
DO
CURSO DE
DIREITO
DA
UNOESC
-CHAPECÓ
-SC
122
3.1. Escritório Sócio-Jurídico-1992/2001 -
Nove Anos
de
Prestaçãode
Serviços àComunidade
... .. 1233.2.
A
Consolidação
do
Atendimento
àPopulação
Carente ... ..127
3.3.
A
Efetividade eConsolidação
do
Atendimento
àPopulação Através
do
EstágioCurricular ... ..
128
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
... _.132
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
... ..139
ANEXOS
... ..147
ANEXO
I - LeiComplementar
n.80 de
12de
janeirode 1994
ANEXO
II - LeiComplementar
n. 155de
15de
abrilde 1997
ANEXO
III - RelatórioAnual
das Atividadesdo
Escritório Sócio-Jurídico -1999
RESUMO
O
presente trabalhotem
como
objetivo analisarde
forma
crítica a questãoda não implantação da
Defensoria Públicano
Estado de
Santa Catarina e aconseqüente
sonegação
do
direitode
assistência jurídica àpopulação de baixa
renda,o que
impede
os indivíduospobres de
exercerem
seu direitode
acesso à justiça.Enfoca-se
aconcepção
do
acesso à justiça
com
a introduçãode
um
pequeno
histórico desse direitodesde o
seu surgimento. Analisa-se aconcepção
sobreo
tema do
jurista italianoMauro
Cappelletti,uma
dasmaiores
autoridades sobre o assunto, eo entendimento de
outros estudiososbrasileiros a respeito
do
acesso à justiçana
atualidade,buscando demonstrar
a importânciado
assuntocomo
fonna
de
garantiado
exercícioda
cidadania. Relata-se a trajetóriada
assistência judiciária gratuita
no
Brasil,com
destaque principal para amudança
inseridano
artigo 5°, inciso
LXXIV,
da
Constituição Federalde
1988,no
tocante à assistência jurídicaintegral e gratuita e à subtração desse direito
da população de
pequeno
poder
aquisitivo.É
analisado
o
institutoda Defensoria
Públicano
Brasil, suaimplantação
efuncionamento,
através
da
previsão inseridana
Constituição Federal Brasileirade
1988,a
LeiComplementar
n.80/94
e aforma
como
é oferecida a assistência jurídicano
Estado de
Santa
Catarina,que
até omomento
não implantou
aDefensoria
Pública,em
flagrante
desrespeito aos
mais
elementares direitosdo
cidadão catarinense.São
apontadas formas
altemativas
de
acesso à justiça, atravésda
assistência jurídica integral e gratuita,com
ênfase para o
Estado de Santa
Catarina, atravésda
vinculaçãodos
Estágiosde
Prática Jurídicados
Cursos de
Direito,envolvendo
projetos universitários e outras áreas afins.9
RESUMEN
El presente trabajo tiene
como
objetivo analizarde
forma
crítica la cuestiónde
lano
implantaciónde
la“Defensoria Pública” en
la Provinciade Santa
Catarina,y
laconsecuente sonegación
delderecho de
asistencia jurídica a lapoblación de
baja renta loque impide
los individuos pobresde
ejercer suderecho de
acceso a la justicia.Se
enfoca
elacceso a la justicia
con
la introducciónde
un pequeño
históricode
estederecho desde
su surgimiento.Se
analiza laconcepción
sobre eltema
del jurista italianoMauro
Cappeletti,una
de
lasmayores
autoridades sobre el asunto,y
elentendimiento de
otros estudiososbrasileros a respecto del acceso a la justicia
en
la actualidad,buscando
demostrar
laimportancia del asunto
como
forma
de
garantía del ejerciciode
la ciudadanía.Se
relata latrajetória
de
la asistencia judicial gratuitaen
Brasil,con
destaque principalpara
lamudanza
inserida
en
el artigo 5°, incisoLXXXIV,
de
la Constitución Federalde
1988,en
loque
serefiere a la asistencia judicial integral
y
gratuitay
a la subtraciónde
estederecho de
lapoblación
de
pequeño
poder
adquisitivo.Es
analizado el institutode
la“Defensoria
Pública” en
Brasil, su implantacióny
fiincionamiento, atravésde
la previsión insertaen
laConstitución Federal Brasilera
de
1988 y
Ley Complementar
n. 80/94,y
laforma
como
esofrecida la asistencia judicial
en
la Provinciade Santa
Catarina,que
hasta elmomento
no
ha
implantado
la“Defensoria
Pública”,en flagrante
desacato a losmás
elementalesderechos
delciudadano
catarinense.Son
apuntadas
altemativasde
acceso a la justicia,através
de
la asistencia judicial integraly
gratuita,con
énfasispara
la Provinciade Santa
Catarina, a través
de
la vinculaciónde
los estudiosde
Práctica Jurídicade
losCursos de
Derecho, envolviendo
proyectos universitariosy
otras áreas afines.O
presente estudo surgiuda
ansiedadepor
respostasmais
concretasem
relação
à
responsabilidadedo Estado
no cumprimento
de
suas obrigações constitucionais,notadamente
no
que
diz respeitoao dever de
prestaçãode
assistência jurídica integral egratuita à
população de
baixa renda,em
faceda
norma
estatuídano
artigo 134,da
Carta Constitucional Brasileirade
1988.A
dissertaçao objetiva entender a abrangênciada
assistência jurídica integrale gratuita,
em
razãode
que
no
Brasil osprocedimentos
judiciaistêm
custo elevados, eque
grande
parteda população
brasileiranão
tem
condições de
arcarcom
essas despesas,dificultando
o
acesso à justiça pelas pessoasde
baixa renda.Aborda
se,com
ênfase, aopçao
brasileira pelaDefensoria
Públicacomo
forma
de
possibilitar0
acesso à justiça,buscando
compreender
qualo
motivo
da não
implantação da Defensoria
Públicano
Estado de Santa
Catarina, sepor
_,__í;í..í.._mí_,
faltade vontade
política
/,fa
ou
ausênciade preocupação
com
os direitos fL¿n¿:lan1entais_do cidadão,indagando-
_ __
__
-.-... V _...___.M
___,se, ainda, a respeito
da
constitucionalidadedo
modelo
de
assistência jurídica oferecidospor
esse Estado.
Analisa-se,
de que
forma
os estágiosde
prática jurídica oferecidos pelos cursosde
Direito,podem
contribuir para garantiro
acesso à justiça aosmenos
favorecidoseconomicamente.
A
dissertaçãotem
como
embasamento
teóricoo
tema
relativo asonegação
do
direitode
acesso à justiça, especialmente pelapopulação de baixo poder de
renda,apontando fonnas
alternativasde
acesso à justiça,com
areflexão
críticade
autoresll
bem como
reportagens e artigos atinentes ao tema. Importante ressaltarque
estudiososcomo
o
jurista italianoMauro
Cappelletti e os brasileirosCândido
Rangel Dinamarco, Luiz
Guilherme Marinoni, Horácio Wanderlei
Rodrigues,Antonio
CarlosWolkmer,
entreoutros,
foram
consultadoscom
maior
interesseem
razao das pesquisasque
elesvêm
realizando
com
maior profundidade
a respeitodo
tema.Para
desenvolvero
objetivo proposto, a pesquisa foi divididaem
quatroetapas.
A
primeira etapa refere-se aconcepção do
acesso à justiça, seusdesdobramentos
e entraves,abordando
opensamento
de
Mauro
Cappelletti sobre o acesso à justiçano
mundo.
Cita-se, ainda,o
conceito sobreo
tema
em
vários autores nacionaiscontemporâneos.
Enfoca-se,também,
a instrumentalidade e a efetividadedo
processo
como
princípios norteadoresde
uma
nova
ótica sobre a questãodo
acesso à justiçana
atualidade.\
No
segundo
capitulo, analisa-se osurgimento
da
assistência judiciáriagratuita
no
Brasildesde
a sua implantação, e anova
concepção
inseridana
Constituiçãoda
República
Federativado
Brasilde
1988,que outorgou ao
cidadão brasileiroum
direito àassistência jurídica integral e gratuita,
o
que
significa dizer'que
apessoa
carentede
recursos
tem
assegurado
o pleno
exercíciode
seus direitosde
acesso à justiça.No
terceiro capítulo, verifica-se a legislaçãoque regulamenta a implantação
das Defensorias Públicas
nos
Estados,que
são responsáveis pelooferecimento
do
serviçode
assistência jurídica integral, enfocando, especialmente, anão implantação
da
Defensoria
Pública
no
Estado de
Santa Catarina. Observa-se,também,
os transtornosque
vêm
ocorrendo
com
ospagamentos
da
defensoria dativapara
osadvogados
catarinensesque
No
decorrerdo
trabalho, constata-seque
no
Estado de Santa
Catarinao
cidadão
de baixa renda
é credorde
um
direitohumano
fundamental
que
estásendo
negado
pelo Estado, que,
sob
a farsade
uma
Defensoria Dativa (equivocadamente
denominada
de
Pública),
que não
existe, inibe o direito de acesso à justiça àpopulação de baixo poder de
renda,
em
flagrante
desrepeito à satisfaçãode
suas obrigaçoes constitucionais.No
capítulo quarto, analisa-se outrasformas que
podem
garantiro
acesso àjustiça
à população de
baixa renda,mostrando meios
alternativosde
acessoà
justiçaque
seencontram
em
funcionamento
em
outros Estados.Na
seqüência, mostra-se a experiênciado
Escritório Sócio-Jurídico
da Universidade do Oeste de Santa
Catarina -UNOESC
-Campus
de Chapecó,
nas atividadesde
estágio desenvolvidas,que proporcionam
àpopulação
carenteo
acesso à justiça, atravésda
assistência judiciária, hojedenominada
pela Constituição Federal
de
assistência jurídica integral e gratuita.Para
a realização deste trabalho, utilizou-seo
método
dedutivode
análise,uma
vez que
parte-sedo
pressupostoda não
garantiado
acessoà
justiça pelo conjuntoda
população
carente e a técnicada
pesquisa bibliográfica edocumental.
Muitas
foram
asdificuldades encontradas,
como
faltade
material, bibliografias e textos a respeitodo
assunto.Contudo,
mesmo com
limitações,houve
aprofundamento
do tema
escolhidopor
entender tratar-se
de
um
assmitode
extrema
importância social,porque
a populaçao,especialmente os cidadãos pobres, está desinformada, sujeita a
inúmeras
injustiças.Quanto
menor
o poder de
renda,menor
éo
conhecimento
sobre direitos e aconseqüente
CAPÍTULO
I1.
DIREITO
DE ACESSO
À
JUSTIÇA
O
objetivo deste capítulo inicial é abordar a questãodo
direitode
acesso àjustiça e resgatar alguns
dados
que
marcaram
as suas origensdesde o
período antigo até aatualidade.
Enfoca
a pesquisado
jurista italianoMauro
Cappelletti sobreo
acesso à justiçano
mundo,
contemplando o
pensamento
de
outros juristasque
apontam
algumas
soluções parao
problema
com
baseem
critérios políticos,econômicos,
sociais ede
justiça.O
acesso à justiça está presentedesde
a antigüidade, garantindo defensores para os pobres.No
Código
de
Hamurabi, encontram-se
as primeiras garantiasque
regulamentavam
eimpediam
a opressãodo
fraco pelo forte, incentivando-o a procurar ainstância judicial
quando
se sentia oprimidol.Na
expressãohamurábica, o
direitonasce da
inspiração divina epor
essemotivo
o acesso à justiçadepende do
acesso à religião.Na
Grécia
antiga,nasceram
asprimeiras discussões
filosóficas
sobreo
direitoem
que
várias correntesde pensamentos
surgiram
no
decorrerda
históriaz.Ressalta-se
que
aEscola
Pitagórica representava,por
meio
da
figura'
CARNEIRO,
Paulo Cezar Pinheiro. Acesso à justiça. Juizados especiais cíveis e ação civil pública. Rio de Janeiro:Forense, 1999. p. 4.
2
CARNEIRO,
geométrica
do
quadrado, a justiça,em
faceda
igualdadede
seus lados,bem
como
pelautilizaçao
de
algarismos. Aristóteles inventou a teoriada
justiça e foitambém
o
primeiro adizer
que o
juizdeve
adaptar a leiao
caso concreto3.No
modelo
democrático adotado por
algumas
cidades-estados gregas,o
poder-dever de
julgarnão competia
aos juízes especializadoscomo
acontece atualmente,mas
aos cidadãos,que
sereuniam
em
assembléias, restando aos juízesapenas
aexecução
das decisões.
Nesse
período,o
acessoà
justiça éamplo,
issoporque
aquantidade
de
pessoas era
pequena
em
relação à totalidade delas4.Sócrates era seguidor
de
uma
doutrina positivista.Segundo
ele, adesobediência à lei era ato
de
injustiça.Ao
sercondenado
injustamentea
beber
sícuta,sob
a
alegação de
que corrompia
a
juventude,com
alusão
a
novos
deuses, Sócratesnegou
a sua
fuga
aos
amigos, dizendo-lhesque
'era precisoque
oshomens
bons cumprissem
as leis más,para
que
oshomens maus
respeitassem as leis sábias”.No
conflito entre os valores justiça esegurança,
optou pela
segurança5.Para
Aristóteles, havia diferença entreo
justo eo
legal (lei escrita).A
leido
eqüitativo era superior, pois poderia corrigir a própria lei escritaó.
O
pensamento
grego influenciou
fortemente a culturaromana, nascendo
daío primeiro sistema jurídico,
que redundou
em
outros sistemas, especialmenteo
romano-
germânico.
O
direitoromano
desencadeou o desenvolvimento de
diversos institutosjurídicos.
De
início o resultado foiuma
justiça privada,que não
prosperou.A
partir daí,com
a infuênciada
igreja, criou-seum
modelo
de
resoluçãode
conflitos,por
meio
da
3
CARNEIRO,
P. c. P. Op. zzzz., p. 5.
4
CARNEIRO,
P. c. P. idem, Ibiúem.
5
cARNE1Ro
apud
NADER,
P. Idem, ibióem.6
CARNEIRO
apudNADER,
15
indicação
de
árbitros,que
eram
escolhidosem
razãode convicções
religiosas,que
deveriam
decidir, traduzindo avontade dos
deuses,além
de serem
imparciais7.Religião e
Estado desenvolvem-se,
assumindo
este a resoluçãodos
conflitosintersubjetivos.
Primeiramente
era necessárioque 0 cidadão comparecesse
diantedo
magistrado
- pretorÚá
aqui
diferentedo
sacerdote) - eaceitasse
a
decisao.O
pretorelaborava
a
regra
a
seraplicada
(..)e indicava
um
árbitro, 0qual
decidiriaa
questão.Com
0
tempo
0
pretor
não
apenas elaborava a regra a
ser aplicada,mas
assume
também
a
função
de
julgar,de
aplicaro
direito e vai além,submete
0
cidadão
ao
seu poder,0
poder
estatal.E
a
Justiça Pública.Falamos
de
jurisdiçãasNo
período medieval, evoluiu a idéiade
acesso à justiça.Os
direitos sociais e deveres sociaispassaram
a serrepensados
e respeitados pelas diversascamadas da
sociedade,
emergindo
reivindicações coletivasde
novos
direitos,que
podem
serdenominados
novos
direitoshumanosg.
Até o
iníciodo
séculoXX
apreocupação
do
sistema judicial era indiferente às realidades sociais. Buscava-se, apenas,o
estudo e a soluçãodogmática
e formalistapara
os
problemas da
sociedade,de forma
individual enão
coletiva, favorecendo,com
isso, as categoriasmais
abastadas.As
decisõeseram
apartadasdos
direitoshumanos,
distanciandoo
cidadãoda
justiça.A
visao individualista, típicados
séculosXVIII
eXIX,
aospoucos
foideixada
para trás.Segundo
VERONESE:
7CARNEIRO.
P. c. P. op. cri., p. 7. 8CARNEIRO.
P. c. P. 1‹1¢m,p. 7-s.9 CAPPELLETTI, Mauro., GARTI-I, Bryant. Acesso à justiça. Trad. Ellen Gracie Noxthflcet. Porto Alegre: Fabris, 1988.
Nesse
contexto, 0 direitode acesso
à
proteção
jurisdicional tinhauma
conotação tão-somente
formal do
indivíduoque
se sentisselesado e, portanto,
propunha
uma
ação, ea
do
indivíduoque
a
contestava.Tinha-se
firmado
ateoriade
que,sendo o acesso
à
justiçaum
direito natural, este,por
ser anteriorao
Estado,não
estava
a
exigir dele proteçãolo.Portanto, as pessoas
que não
tivessem recursos para custear as despesasprocessuais,
estavam impedidas de exercerem
seus direitos.À
medida
que
as sociedadescresciam
em
tamanho
ecomplexidade, a
valorização
dos
direitoshumanos
sofriauma
transformação
radical.A
partir daí, iniciou-seLuna
nova
erana
busca de
um
efetivo acesso à justiça.Atualmente, 0 que
sebusca
éuma
mudança
de comportamento,
ou,mais
propriamente
falando,uma
nova
postura mental, social e,acima
de
tudo,humana, que
atinja toda a
ordem
jurídica.Para
GRINOVER,
citando Cappelletti,a
ordem
jurídica e asrespectivas instituições
hão
de
ser vistasnão
mais a
partirda
perspectivado
Estado,que
administra
a
justiça,mas
da
perspectivados
consumidores,ou
seja,dos
destinatáriosda
justiça,
de
modo
que a problemática
não
trazà
tonaapenas
um
programa
de
reformas,mas também
um
método
de
pensamenton.
Mauro
Cappelletti, consideradouma
dasmaiores
autoridadesem
acesso àjustiça
no
mundo,
aborda o
tema
dentrode
uma
ampla
perspectiva, inserindo aeconomia,
amoral
e a políticacomo
partes integrantesdo
complexo
ordenamento
social.A
seguir, enfocar-se-ão algunsposicionamentos
do
jurista italiano sobre a questãodo
acesso à justiça.'°
VERONESE,
Josiane Rose Petry. Interesses difusos e direitos da criança e do adolescente. Belo Horizonte: Del17
1.1.
A
Concepção
de
Mauro
CappellettiCAPPELLETTI
afirma
que
Direitoao
acesso
à
proteção
judicialsignificava essencialmente
o
direitoformal do
indivíduoagravado
de
propor ou
contestaruma
ação”.
'É
de
extrema
importânciao
estudo eampliação da pesquisa
sobreo
acesso àjustiça,
com
a inserçãode
outrosmeios
denominados
multidisciplinares,como:
asociologia, a política, a psicologia, a
economia,
para aprender atravésde
outras culturas”.Ainda, na
visãode
CAPPELLETTI,
0 acesso
à
justiça pode, portanto, serencarado
como
0
requisitofundamental
- omais
básicodos
direitos humanos...que pretenda
garantir e
não
apenas
proclamar
o
direitode
todos (..)o acesso
não
éapenas
um
direito socialfundamental, crescentemente
reconhecido; ele é,
também,
necessariamente,o
ponto
centralda
moderna
processualistica.Seu
estudopressupõe
um
alargamento
eaprofundamento dos
objetivos emétodos
da
moderna
ciência”.O
movimento
em
busca
do
efetivo acesso à justiçacomeçou
a se consolidar,de
forma
mais
consistente, a partirda década de
sessenta.Três
momentos
foram desencadeados, concentrando
esforçospara
realizarpropostas
de
reestruturaçãoao
efetivo acesso à justiça,em
forma
de
soluções práticas,assim
divididos: a “PrimeiraOnda”-
A
Assistência Judiciária; a“Segunda Onda”-
Representação para
os interesses difusos; e a “TerceiraOnda”
-Enfoque
de
Acesso
àJustiça.
Sobre
eles passar-se-áa
discorrer agora.H
GRINOVER,
Ada Pelegrini.O
Processo em evolução.O
acesso àjustiça e o código do consumidor. 2. ed. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 1998. p. 115-16.
'2 CAPPBLLBTTI,
M.,
GARTH,
Bryant. np. ctz., p. 09.'3 CAPPBLLBTTI,
M.,
GARTH,
Bryant. idem, p. 13. "'1.1.1.
A
“Primeira
onda”
-A
AssistênciaJudiciária”
O
Objetivo principal dessa “PrimeiraOnda”
de reformas
foibuscar
métodos
para proporcionar
o
acesso à justiça àquelesque
não
podem
pagar
um
advogado, porque o
que
sepercebeu
éque
osesquemas
de
assistência judiciáriada maior
partedos
paíseseram
inadequados,
tendo
em
vistaque
osadvogados,
especialmente osmais
experientes ecompetentes,
tendem
a devotar seutempo
para trabalhosremunerados.
Esse
primeiromomento,
concentra-sena
prestaçaode
serviços jurídicospara os pobres. Essas
reformas foram
realizadaspor
meio
de
dois sistemasde
atuação,o
sistema judicare e os
advogados
públicos.O
Sistema Judicare:
Trata-se
de
um
sistema pormeio do
quala
assistência judiciária éestabelecida
como
um
direito para todas as pessoasque
seenquadram
nos termos da
lei.Os
advogados
particulares sãopagos
pelo Estado,com
o
objetivode
proporcionar aoslitigantes
de
baixarenda
amesma
representaçãoque
teriam sepudessem
pagar
um
advogadolõ.
No
entanto,segundo
CAPPELLETTI,
o
sistemajudicare
desfaz a barreirade
custo,mas
fazpouco
para atacar outrosproblemas
encontrados pelos pobres,como,
por
exemplo,
adesinformação
jurídica pessoal das pessoasmenos
favorecidas- 17
economicamente
.Problemas de
cunho
organizacionalsurgem
após
a reestruturaçãodo
serviçode
assistência judiciária.Antes de
explorar outrasdimensões
do movimento,
passou-se a*S
CAPPELLETTI, M.z
GARTH,
Bryant. np. rn. P. 31/49.*Õ
cAPPELLETT1,M.;
GARTH,
Bryant. np. rir., p. 35.19
acompanhar
as principais realizações dessa primeiraonda
de
refonnas,com
ênfaseno
sistema judicare,
como
um
dos
aspectos destacadosda
assistência judiciária.O
Advogado
Público:Esse
sistema é diferentedo
judicare, pois tende a ser caracterizadopor
grandes esforços para tornar as pessoas
pobres
conscientesde
seus direitos e desejosasde
se utilizarem
dos
serviçosde
advogados
para obtê-los.Os
serviços jurídicosdeveriam
ser prestadospor
advogados
públicos,sendo
responsáveis pela representação
dos pobres enquanto
classe, conscientizando as pessoascarentes
de
seus direitos e interessadasem
vê-los restabelecidos.O
trabalho deveria serdesenvolvido
em
escritórios,denominados
“de
vizinhança”, estabelecidos
em
localidades pobres, para facilitaro
acesso das pessoas aosserviços prestados pelo Estado.
As
vantagens
são muitas, entre elas,o pobre
éinformado de
seus direitos edefendido
enquanto
classe.Contudo,
essemodelo
também
encontra limitaçoes,ou
seja, amanutenção
de
equipesde advogados,
senão
forcombinada
com
outras soluções,passa por
um
problema
extremamente complexo.
Não
é possívelmanter
advogados
estataisem
número
suficiente para dar
atendimento
individualde
primeira categoriapara
todas as pessoascom
problemas
jurídicos,ao
contráriodo
sistema judicare,que
utilizaa advocacia
privada.Os
EstadosUnidos
da
América
foi o primeiro país a implantaro
sistemade
assistência judiciária
com
advogados remunerados
pelos cofres públicos. Caracterizou-sepor
oferecernão somente
a prestaçãode
serviçosde
assistência judiciária,mas
também
jurídica,ou
seja, auxílio judicial e informativo/preventivo aos pobres,buscando
realizaro
verdadeiro sentido
do
acesso à justiça,tomando
aspessoas
pobres
conscientesde
seusnovos
direitos e desejosasde
utilizaradvogados para
obtê-los”.“* CAPPELLETTI,
21
Modelos Combinados:
Trata-se
da
combinação
entre o sistemajudicare
e o sistemados
advogados
públicos.
Esse
modelo
permiteque
os indivíduosescolham
entre os serviçospersonalizados
de
um
advogado
particular e a capacitação especialdos
advogados
de
equipe,
mais
sintonizadoscom
osproblemas dos
pobres.Dessa
fomia, tanto as pessoasmenos
favorecidas individualmente,como
ospobres
enquanto
grupos,podem
ser beneficiados. Paísescomo
a Suécia e a ProvínciaCanadense
de
Quebec
aderiram ao
sistema”.
Depreende-se que
a assistência judiciária sofreu grandes avanços, facilitouo
acesso à justiça das
populações
com
menores
recursoseconômicos. Contudo, não
pode
serreconhecida
como
único recursode
acesso à justiça.Para
que o
sistemade
assistência jurídica seja eficiente,apontaram-se
algumas
necessidades:em
primeiro lugar,que
hajaum
grande
número
de advogados, que
possa exceder
até a oferta, especialmenteem
paísesem
desenvolvimento.
Em
segundo
lugar, é preciso
que
esses profissionais setomem
disponíveis para auxiliar aquelesque não
podem
pagar
pelos serviços, jáque
os honorários são relativamente caros.Em
terceirolugar, a assistência judiciária
não
pode
solucionar oproblema
daspequenas
causasindividuais. Finalmente,
o
modelo
de
advogados de
equipe dirige-se à necessidadede
reivindicar os interesses
dos
pobres,enquanto
classe,ao passo que
outros importantesinteresses difusos
continuam sendo
ignorados.'9
1.1.2.
A
“Segunda
Onda”
-Representação para
os InteressesDifusos”
A
“Segunda
Onda”
surgiuda
necessidadede
criaçãode
um
sistemaque
cuidasse
dos
interesses das pessoasnão somente de
fonna
individual.Coube,
então, à“Segunda
Onda”
a
solução e representaçãodos
interesses difusos, coletivos e individuaishomogêneos
da
população,denominados
direitosnovos
e “natimortos”em
faceda
ausência
de
forma
procedimental
que
os efetivassezl.O
objetivo principalda
“Segunda
Onda”
era refletir sobreo
papeldos
tribunais e
noções
tradicionaisdo
processo civil,que não tinham
previsãopara
defesados
direitos difusos. Eis
que
o estabelecimentode
proteção para os direitos individuais feria,fortemente,
o
restabelecimentodos
direitos das pessoasenquanto grupos”.
Várias
foram
as açõestomadas
na
tentativade
encontraruma
soluçãopara
a representaçaodos
interesses difusos,algumas
bem
sucedidas, outrasnem
tanto.Para
Mauro
Cappelletti,É
precisoque haja
uma
solução
mistaou
pluralistapara
o
problema
de representação dos
interesses difusos. Tal solução,naturalmente,
não
precisa serincorporada
numa
única
proposta
de
reforma.O
importante éreconhecer
e enfrentaro
problema
básico
nessa
área: resumindo, esses interessesexigem
uma
eficiente
ação
de grupos
particulares,sempre
que
possível;mas
grupos
particularesnem
sempre
estão disponíveis ecostumam
serdifíceis
de
organizar.A
combinação
de
recursos, taiscomo
ações
coletivas, as sociedades
de
advogados do
interesse público,a
assessoria
pública
eo
advogado
público
podem
auxiliara
superar
2° CAPPELLETTI,
M.z
GARTH,
Bryant. idem, p. 49/67.2'
O
segundo grande movimento no esforço de melhorar o acesso à justiça enfrentou o problema da representação dos
interesses difusos, assim chamados os interesses coletivos ou grupais, diversos daqueles dos pobres. Nos Estados Unidos,
onde esse mais novo movimento de reforma é ainda provavelmente mais avançado, as modificações acompanharam o
grande qüinqüênio de preocupações e providências na área da assistência jurídica (1965-1970). Centrando seu foco de
preocupação especificamente nos interesses difusos, esta Segunda Onda de reformas forçou a reflexão sobre noções
tradicionais muito básicas do processo civil e sobre o papel dos tribunais. (CAPPELLETTI, M.;
GARTH,
Bryant. op. cit.,p. 49).
22
A
visão individualista do devido processo judicial está cedendo lugar rapidamente, ou melhor, está se fundindo comuma concepção social, coletiva. Apenas tal transformação pode assegurar a realização dos “direitos públicos” relativosa
23
este
problema
e conduzirà
reivindicação eficientedos
interessesdifusos23.
Essa
idéia representauma
mudança
de
postura sobre a temática assistênciajurídica,
envolvendo
outros setoresda
sociedade,com
o objetivode
inseri-losno
enfrentamento
dos
problemas
ligados a essa área.1.1.3.
A
“Terceira
onda”
-Enfoque
de
Acesso
àJustiça”
Os
mecanismos
anteriormente citadoseram
insuficientespara
concretizaçaodos
objetivos propostos, isto é, proporcionar àpopulação o
efetivo acesso à justiça.Novas
alternativas para solução
dos
conflitos sãopensadas
e colocadasem
práticapara
dirimir os conflitos existentes.No
entendimento de
Cappelletti,essa 'terceira
onda' de reforma
incluia
advocacia, judicialou
extrajudicial, seja
por meio
de
advogados
particularesou
públicos.Mas
vai além.Ela
centrasua atenção
no
conjunto
geralde
instituições e
mecanismos, pessoas
eprocedimentos
utilizadospara
processar
emesmo
prevenir
disputasnas sociedades modernas.
Seu
método não
consisteem
abandonar
as técnicasdas
duas
primeiras
ondas de
reforma,mas
em
tratá-lasapenas
como
algumas
de
uma
sériede
possibilidadespara
melhorar o
acesso”.A
“TerceiraOnda”
busca
tornarmais
acessível a justiça,por
meio
de
procedimentos
simplificados eformas
alternativasde
acesso à justiça,como
a justiçaconciliatória,
de
composição
de
litígios,ou
como
denomina
Cappelletti,uma
justiçacoexistencial26.
O
que
sequer
é a consolidaçãode
uma
justiça igualitária,que
outorgue, efetivamente, o direito à representação legal para indivíduos egrupos
de
pessoas.É
23 CAPPELLETTI,
M.;
GARTH,
Bryant. op. cn., p. óó-7.24 CAPPELLETTI, M.z
GARTH,
Bryant. idem, p. 67/73.
25 CAPPELLETTI, M.,
GARTH,
Bryzm. 1‹1zm,p. 67-8.2° CAPPELLETTI, M.
O
acesso à justiça e a função do jurista
em
nossa época. Revista de Processo, Atualidadesnecessário, portanto, desenvolver
meios
efetivosde enfrentamento de
situações e buscaralternativas
para
soluçãodo
problema,
na
qual oenfoque de
acesso à justiça está à frente.O
movimento
por
acesso à justiçatem
representado,nos
últimos decênios,uma
importante, talvez amais
importante, expressãode
uma
radicaltransformação
do
pensamento
jurídico e dasreformas normativas
e institucionaisem
um
número
crescentede
países.No
Brasil,o
acesso à justiça está aindamuito
centradono
Poder
Judiciário,uma
vez que
é através deleque
tradicionalmente seresolvem
os conflitos.A
população
brasileira
desconhece
a real abrangênciado termo
acesso à justiça e,conseqüentemente
desconhece
seus direitos,como
constanos
capítulos seguintes27.2.
A
INSTRUMENTALIDADE
DO
SISTEMA
PROCESSUAL
EM
CÂNDIDO
RANGEL
DINAMARCO
2.1.
A
Abrangência do Acesso
à JustiçaO
termo
acesso à justiçatem
por
objetivo alcançar a justiça social, atravésda
conscientizaçãoda população de
seu real significado,que não
pode
resumir-seapenas
no
acessoao
Poder
Judiciário.Por
serum
valor absoluto, a justiça éum
princípioque
pretende ser válidosempre
eem
todas as partes,independente
do espaço
edo
tempo.
Os
juristas e os autores27 Se procedermos
a uma análise histórica do que, eventualmente, possa ser entendido como acesso à justiça, verificar-se-
á que num primeiro momento, seu significado restringia-se à acanhada idéia de possibilidade de acesso aos órgãos
judiciais, idéia essa, aliás, que deita raízes no laíssez - fizire que acabou por legitimar todo o pensamento liberal
emergente no século XVIII.
O
individualismo surgia para alforriar a sociedade civil do onipotente poder exercido peloEstado. Pensava-se que quanto menor fosse a ingerência do Estado na vida do indivíduo melhor seriam as chances
proporcionadas pela realidade. Dessa forma, bastava a garantia de simplesmente ser possível o acesso aos órgãos judiciais
- palco para a resolução de eventuais conflitos de interesses - para que se entendesse como viabilizado o pleno acessoà
justiça. Vale dizer, acesso à justiça seria a mera possibilidade de ter os problemas resolvidos na seara judicial, nada mais. (RAMOS, Glauco Gumerato. Realidade e perspectivas da assistência jurídica ao necessitado no Brasil. Revista do Advogado, São Paulo, n. 59, p. 76, Jun. 2000).
25
que refletiram
sobreo
assunto estãode
acordo,independentemente
dasconclusoes que
obtiveram.
Cada
pessoa,conforme amadurece
e adquireum
pouco
de capacidade
intelectual,
desenvolve
um
sensode
justiça,que induz
a julgar as coisascomo
justasou
injustas”.
Na
verdade,o que
sequer
éum
tratamento igual,humano,
justopara
todasas pessoas.
Para
que
isso aconteça é necessário fazercom
que
a igualdade saiado
papel epasse a fazer parte
da
realidadedos
brasileiros, afim
de
exercê-la efetivamente,ou
seja,que
ela deixe oplano
utópico evenha
a existir, a ser verdadeira,definitivamente”.
O
Estado
é responsável pelocumprimento do
direitode
acesso à justiça;no
entanto,
não
garante, efetivamente,uma
existênciadigna
ehumana
para a população.O
homem, chamado
de
cidadão, está preso nasmãos
do
Estado,sem
condições de
exercer a cidadania plenamente.A
propósitodo
tema,RODRIGUES
ensina que:espera-se
que
um
dia todos os estados existentesgarantam
eficazmente
a
plena
liberdade deexpressão
e ação, dentrodos
limites estabelecidos
pela própria
sociedade,ou
por
elareferendados -
não
encobrindo,dessa forma,
as contradições ea
pluralidade inerentesa
qualquer
agrupamento humano.
Que
estejam estruturadossegundo
um
modelo
de organização
socialque assegure
a
todos osmembros
uma
existênciadigna
e saudável, caracterizadapelo suprimento das suas necessidades
básicas epela
existênciade condições
concretas desua
realizaçãoenquanto
pessoa
humana.
E
que seu
ordenamento
jurídicocontenha
instrumentos efetivos
de
tutela desses valores.Essa
realidadeem
~ 30
termos
concretos,contemporaneamente nao passa
de
um
sonho
.28
O
queé justo?
O
que é injusto? Independentemente de estarmos ou não exercitados como homens de lei, temos atendência a emitir juízos sobre as coisas que nos chegam ao conhecimento, mesmo que não nos digam respeito. É como
se tivéssemos uma voz interior que pretendesse saber: isto é justo? Aquilo é injusto?
(BARBOSA,
Julio Cesar Tadeu.O
que é justiça? 3. ed. São Paulo: LTR, 1983. p. 13).
29 Por
isso, a igualdade a que ser dinâmica e não estática, real e não apenas formal, no sentido de que o Estado deve
fornecer os instrumentos para suprir as situações de desigualdade, para, superando a desigualdade de fato, chegar-se à
igualdade de direito.
GRINOVER,
A. P. Novas tendências do direito processual. Assistência judiciária. Rio deJaneiro: Forense Universitária, 1990. p. 244.
3°
RODRIGUES,
Horácio Wanderlei. Acesso à justiça no direito processual brasileiro. São Paulo: Acadêmica, 1994. p.
Para que
essessonhos
setomem
realidade, éfundamental aprofundar o
entrelaçamento
da
justiça socialcom
o acesso à justiça.Uma
é a idéiade
justiça tal qual a entende a classe dirigente.Outro
éo
idealde
justiça das classesoprimidas
edominadas.
Tais idéias, decorrentesda
situaçãoda
classe,
fomecem
justificativas parao
comportamento
eposicionamento
social dessasclasses
em
tomo
dos
quais gira suas concepções.Falar sobre
abrangência
do
acessoà
justiça é falarde
uma
imensurável
gama
de
garantiasque
estão à disposiçãodos
cidadãos.No
entanto, falta àpopulaçao
a informação,0 conhecimento
desses direitos e a descobertado
caminho
de
como
chegar
aeles.
Ainda,
conforme
o entendimento de
RODRIGUES,
istodepende de
decisão política,com
investimentosna
educação.É
um
dos pressupostos
básicospara
o
efetivoacesso
à
. . f , . . . , 31
Justiça.
E
necessarioprimeiro conhecer
os direitospara
depois reclama-los .O
nívelde desinformação
sobre os próprios direitos émuito grande
e,em
conseqüência
disso,desconhece-se
até os instrumentos legítimos para garantia dessesdireitos.
Para
esse autor, é imprescindível considerar trêselementos que justifiquem
essa conclusão:
o
sistema educacional, osmeios de
comunicação
ea
quase
inexistênciade
instituições
encarregadas de
prestar assistência jurídica preventiva e extrajudicial”.Precisa a
colocação
do
autor, poisno
Brasil aeducação
é precária,especialmente
no
que
se refere àeducaçao
para a cidadania.A
televisãopreocupa
seem
passar telenovelas
que
desviam
apopulação
paraum
mundo
imaginário e forada
realidadeem
que
vive,sendo
rara a apresentaçãode programas
culturais.Na
verdade,o
papelda
3*
RODRIGUES,
H. W. Op. ctz., p. 130.
27
televisão brasileira é deixar a
população
ignorante, alienada, pelomenos
é issoque
tem
acontecido.
A
assistência jurídica,compreendendo
ainformação
e assistência para a população, praticamentenão
existe. Portanto,o
cidadão brasileiro é privadodo
exercíciode
suas garantias constitucionais.Nessa
direção,MARINONI
também
entende
que:na
sociedade contemporânea,
assim, torna-semuito
difícil,principalmente
para
os pobres,a percepção
da
existênciade
um
direito. Tal dificuldadepoderia
sercontornada
se osmais humildes
tivessemacesso
à
orientação eà
informação
jurídicas.Porém,
sea
assistência judiciáriatem suas
deficiências,
a
assistência jurídica éum
sonho
ainda muito
distante”.A
seguir, destaca-se a questãoda
efetividadedo
processo, assuntode
importância
no
tema
acesso à justiça.2.2.
A
Efetividade
do
Processo
A
função
do
processo é servir aordem
constitucional e legal,atuando
como
meio
para a prestaçãoda
tutela jurisdicional.Através
do
processo, as partesdeveriam
terum
acessoà
justiça rápido eeficaz.
No
entanto, verifica-seque
no
cotidiano issonão
ocorre.O
tema
sobreo
acesso à justiça, especialmenteno
que
se refereao
descompasso
do
processo atualcom
as exigênciasda
sociedadecontemporânea,
vem
sendo
discutido
amplamente, buscando-se novas
alternativasque ofereçam eficientemente o
restabelecimento
dos
direitos das pessoas.Para
DINAMARCO,
o
processotem
uma
função
sócio-político-jurídica,que não
vem
sendo cumprido,
poistamanhas
são asdecepções
das pessoas envolvidasem
demandas
judiciais, aliadasao
tempo
de duração
e custosde
um
processo,bem como
outros fatores,que
acabam
por
distanciar o processoda
justiça e a justiçado
direitodos
cidadãos34.
De
acordo
com
o autor:A
força das
tendênciasmetodológicas
do
direitoprocessual
civilna
atualidade dirige-secom
grande
intensidadepara
a
efetividadedo
processo,a qual
constituiexpressão
resumida
da
idéiade
que
oprocesso deve
ser aptoa
cumprir
integralmentetoda
a
sua
função
sócio-politico-jurídica, atingindo
em
toda
plenitude todos os seusescopos
institucionais.Essa
constituia
dimensão
moderna
de
uma
preocupação
que
não
énova
eque
já
veioexpressa nas palavras
muito
autorizadasde
antigo doutrinador:na medida do
que for
praticamente
possivel,o
processo deve
proporcionar
a
quem
tem
um
direito tudo aquilo eprecisamente
aquiloque
eletem o
direitode
obter35.Para
DINAMARCO,
essa advertência é portadorade
certas limitações.Aqui
está inserida
num
conceitomuito
individualista,com
vistassomente para o escopo
do
processo,
sem
preocupação
com
o social.A
propostaformulada por
DINAMARCO
possibilitaa eliminação
dasinsatisfações
por
parteda
população,convocando-a
a participardos
destinosda
sociedade, pois a efetividadedo
processo, entendidacomo
se propõe, significa asua
almejada
aptidão a eliminar insatisfações,com
justiça efazendo
cumprir
o direito,além
de
valercomo
meio
de educação
geral parao
exercício e respeito aos direitos e canalde
participaçãodos
indivíduos
nos
destinosda
sociedade e assegurar-lhes a liberdade36.Segundo
esse entendimento, a efetividadedo
processo sepropõe
a eliminar34
DINAMARCO,
Cândido Rangel.A
instrumentalidade do processo. São Paulo: Malheiros, 1999. p. 270.”
DINAMARCO,
c. R. Idem, Ibiàem.3°