Mulheres e CAPS ad: Uma Revisão da Literatura
Uberlândia 2019
Mulheres e CAPS ad: Uma Revisão Da Literatura
Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia, como requisito parcial à obtenção do Título de Bacharel em Psicologia. Orientador/a: Neftali Beatriz Centurion
Uberlândia 2019
Raquel Rodrigues dos Santos
Mulheres e Caps ad: Uma Revisão da Literatura
Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia, como requisito parcial à obtenção do Título de Bacharel em Psicologia.
Orientador/a: Neftali Beatriz Centurion
Banca Examinadora
Uberlândia, 03 de julho de 2019
__________________________________________________________ Profa. Ma. Neftali Beatriz Centurion (Orientador)
Universidade Federal de Uberlândia – Uberlândia, MG __________________________________________________________
Profa. Dra. Marciana Gonçalves Farinha Universidade Federal de Uberlândia – Uberlândia, MG __________________________________________________________
Profa. Dra. Tatiana Benevides Magalhães Braga Universidade Federal de Uberlândia – Uberlândia, MG
Uberlândia 2019
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente à essa força Divina que nos rege e me rege a cada dia da minha vida e a cada respiração que dou, bem como todas as forças e vibrações positivas que o Universo me proporcionou no decorrer desta graduação e até então desta jornada aqui na Terra.
À esta instituição, todo seu corpo docente e funcionários que oportunizaram a minha passagem pela graduação e me proporcionaram o conhecimento que tenho hoje e minha visão de mundo.
À minha orientadora, Neftali, pela paciência e pelo cuidado e principalmente por ter propiciado a execução deste presente trabalho, com todas as correções e incentivos.
Aos meus pais, que com todo esforço, preocupação e dificuldades ainda sim, com o amor incondicional, acreditaram em mim e no meu potencial. À minha mãe Francisca que com suas palavras me acalmaram nos dias mais angustiantes e à meu pai Natal que batalhou muito e ainda batalha para me oferecer uma melhor qualidade de vida.
Às minhas irmãs, Rebeca e Sara que me fizeram acreditar que as intrigas da vida podem ser superadas e compreendidas transcendentalmente.
À minha companheira, amiga e namorada Bruna, que foi de crucial importância para que eu voltasse a acreditar na minha capacidade e na minha concretização deste curso. Com toda sua paciência em meus dias de estresse e minhas ausências, esteve presente ao meu lado sem hesitar.
E por fim, agradeço meus amigos e colegas e fizeram parte diretamente e indiretamente desta troca de conhecimentos e expansão da consciência.
RESUMO
Santos, R. , R,. Mulheres e CAPSad: Uma revisão da Literatura. 2019. 36p. Trabalho de Conclusão de Curso, Instituto de Psicologia, Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais.
Com o intuito de analisar em produções científicas o tema mulheres nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), foi feito uma revisão da literatura utilizando os descritores mulheres, caps, caps ad e Centro de Atenção Psicossocial. Após realizar tal consulta nas bases de dados, retirar os artigos duplicados e decidir sobre os estudos mais viáveis para a utilização desta pesquisa em específico, restou-se 19 artigos. Para compor a análise deste estudo qualitativo, foi determinado alguns critérios, o que possibilitou uma visão aprofundada dos resultados e das discussões. Seu norte se baseia em 1) fonte; (2) amostra; (3) abordagem metodológica; (4) delineamento de pesquisa; (5) instrumentos; (6) objetivos; (7) principais achados e artigos situados nas datas de 2009 a 2018. Para o ponto de partida, inicia-se com um arcabouço teórico, passando por pontos principais da Reforma Sanitarista e Psiquiátrica do mundo e em como se viam os “loucos” e os ditos “normais”, as políticas de implementação dos Caps, bem como o seu objetivo principal, até os números atualizados de todos os Centros de Atenção existentes no Brasil, com todas as suas peculiaridades, o Projeto Terapêutico Singular e as oficinas oferecidas nesses espaços, além de citar algumas visões da sociedade patriarcal acerca do papel da mulher, envolvidos na questão de gênero e fatores sociodemográficos. Como principal achado, é importante ressaltar que no decorrer da análise dos resultados, houve uma predominância maior de artigos referentes a temática gênero, consoante com o tema violência, casamento, vida afetiva, dependência emocional e papel da mulher na sociedade, bem como a visão dos profissionais que atuam nos Caps. De acordo com esta pesquisa, é de se pensar e refletir sobre os motivos que levam as mulheres portadoras de doença mental ou não, a procurarem atendimento e acolhimento na rede e o quanto cada mulher, seja usuária ou não, sofre psiquicamente e fisicamente com o estereótipo de gênero, em todos os âmbitos da vida.
ABSTRACT
Santos, R. , R,. Mulheres e CAPSad: Uma revisão da Literatura. 2019. 30p. Trabalho de Conclusão de Curso, Instituto de Psicologia, Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais.
With the aim of analyzing the women theme in the Psychosocial Care Centers (CAPS) in scientific productions, a literature review was made using the descriptors women, caps, caps ad and Psychosocial Attention Center. After carrying out such consultation in the databases, withdrawing the duplicate articles and deciding on the most viable studies for the use of this specific research, we have left 19 articles. To compose the analysis of this qualitative study, it was determined some criteria, which allowed an in-depth view of the results and the discussions. Its north is based on 1) source; (2) sample; (3) methodological approach; (4) research design; (5) instruments; (6) objectives; (7) main findings and articles from the dates of 2009 to 2018. From the starting point, it starts with a theoretical framework, passing through the main points of the Sanitary and Psychiatric Reform of the world and how the "madmen" and the "normal" ones, the policies of implementation of Caps, as well as its main objective, to the updated numbers of all the Attention Centers existing in Brazil, with all its peculiarities, the Unique Therapeutic Project and the workshops offered in these spaces , in addition to citing some views of the patriarchal society about the role of women, involved in the issue of gender and sociodemographic factors. As a main finding, it is important to highlight that, during the analysis of the results, there was a greater predominance of articles related to gender, depending on the theme of violence, marriage, affective life, emotional dependence and the role of women in society, as well as the vision of the professionals who work in the Caps. According to this research, it is necessary to think about and reflect on the reasons that lead women with mental illness or not, to seek care and shelter in the network and how much each woman, whether user or not, suffers psychically and physically with the stereotype of gender in all areas of life.
SUMÁRIO APRESENTAÇÃO...8 1.INTRODUÇÃO...10 2.MÉTODO... 17 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO...19 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS...31 5. REFERÊNCIAS ...33
APRESENTAÇÃO
No decorrer de minha graduação, me deparei com alguns empecilhos que impossibilitaram que a minha jornada no curso fosse excepcional em termos de integração com o mesmo. Em um curto período de tempo, percebi-me um afastamento e ausências em algumas disciplinas, ocorrido assim, sem que eu trancasse ou solicitasse um pedido de regime especial. Estava paralisada e triste, não pelo curso, mas sim por problemas familiares, em especial minha mãe, e pela decisão de mudar para outra cidade, afim de estar mais perto da Universidade. Era preciso tomar uma decisão, e este fato me desestabilizou no sentido de que eu teria que deixar minha mãe, na época, consumindo abusivamente o álcool e com fibromialgia, sem a minha supervisão, sem os meus cuidados.
Com a mudança real e oficial para perto da faculdade, novos pensamentos fizeram com que eu repensasse as formas de relações interpessoais e uma forma de cuidado, mesmo que distante, para com minha mãe. Ao fim, o que parecia angustiante e desesperador, foi o que me proporcionou mais força para a continuação e a conclusão do curso. Tais reflexões e implicações pessoais fizeram com que o tema mulher alcoolista fosse um assunto que gostaria de abordar no meu trabalho de conclusão de curso. Conversando com a minha orientadora, chegamos à conclusão de que um estudo apropriado e abrangente seria as mulheres e os CAPS, abarcando também o CAPS ad.
Para tanto, tal estudo foi delineado afim de reaver, nas produções literárias, o tema mulheres e CAPS. Sendo um estudo de cunho especialmente qualitativo, na primeira parte faz-se uma introdução de como o CAPS, de modo amplo, foi faz-se institucionalizando no que hoje é definido como Centro de Atenção Psicossocial, tendo suas próprias leis e objetivos, bem como
sua singularidade, desde a Reforma Psiquiátrica, até o momento atual e a visão da sociedade acerca do papel da mulher nesses espaços.
1. INTRODUÇÃO
Desde os primórdios da civilização, qualquer indivíduo que buscasse escapar do padrão das condutas morais perante a sociedade, poderia ser rotulado como louco, uma aberração, algo sujo que poluía o corpo social dito “normal” (Amstalden & Passos, 2009). Exemplos dessa fuga da moralidade, seriam as pessoas que praticavam atos considerados libidinosos. Desde a idade clássica, sujeitos com tal comportamento deveriam estar distantes da sociedade, sendo então, enclausurados, e punidos, afim de não contaminar a civilização. Nesses ambientes, eles viviam totalmente excluídos, sem nenhum tipo de direito, vivendo ao acaso (Amstalden & Passos, 2009).
Contudo, foi então a partir do século XVIII, que o psiquiatra Phillippe Pinel propôs a construção de instituições, destinadas a esses indivíduos com o intuito de repensar as formas de tratamento e olhá-los de uma maneira mais humanizada, o que deu espaço para o que posteriormente seria denominado de asilo ou manicômio. Porém, tal instituição apresentavam ainda inúmeras limitações e excessos no que se refere aos cuidados em saúde, se tornando um dispositivo disciplinar, com imposições de poder, ordem e práticas opressoras e subversivas perante os doentes (Amstalden & Passos, 2009).
Para além apenas dos sujeitos desviantes da conduta, os que não eram “normais” havia aqueles ainda em que o “mal”, a anormalidade se localizava em seu organismo humano. “Mal” esse que poderia ser visto naqueles seres onde não havia deficiências visíveis, ou não eram moradores de rua e nem pobres. Seriam, portanto, aquelas pessoas acometidas de uma doença mental, os que seria anteriormente considerado uma doença moral. Tal conhecimento foi possibilitado pelas análises da neuroanatomia e neurofisiologia (Amstalden & Passos, 2009). Porém vale salientar que a ideia de doença mental como fenômeno biológico é a base do pensamento manicomial.
Foi então que no final dos anos 70 no Brasil, no intuito de propor a desinstitucionalização e humanização no tratamento e reinserção social dos indivíduos hospitalizados, vem à tona o que seria chamado de Reforma Sanitária (Berlinck, Magtaz, & Teixeira, 2008 apud Prado & Queiroz, 2012); Amstalden & Passos (2009). Destrinchando e refletindo sobre as práticas médicas vigentes na época, o autoritarismo, o estado sanitário da população e a prestação de serviços de saúde.
É importante ressaltar que a Reforma Sanitária auxiliou no surgimento da Reforma Psiquiátrica no Brasil, pois, de um lado havia as violências no âmbito dos hospitais psiquiátricos para com os pacientes e por outro lado, o desejo de trazer à tona os direitos desses pacientes de forma mais humanizada, o que levou à criação de políticas que buscassem reconfigurar a estrutura de atendimento hospitalar (Brasil, 2005). De acordo com o documento apresentado à Conferência Regional de Reforma dos Serviços de Saúde Mental do Ministério da Saúde de 2005:
“[...]A Reforma Psiquiátrica é um processo político e social complexo, composto de atores, instituições e forças de diferentes origens, e que incide em territórios diversos, nos governos federal, estadual e municipal, nas universidades, no mercado dos serviços de saúde, nos conselhos profissionais, nas associações de pessoas com transtornos mentais e de seus familiares, nos movimentos sociais, e nos territórios do imaginário social e da opinião pública. Compreendida como um conjunto de transformações de práticas, saberes, valores culturais e sociais, é no cotidiano da vida das instituições, dos serviços e das relações interpessoais que o processo da Reforma Psiquiátrica avança, marcado por impasses, tensões, conflitos e desafios. [...] (Brasil, 2005. p.6)
No contexto da Reforma Psiquiátrica com as críticas sobre o modelo manicomial de tratamento às pessoas com transtornos mentais, rodeado por movimentos de lutas em prol de uma mudança específica nesse sentido, surgiam as propostas e ações para uma sociedade sem manicômios (Brasil, 2005). Dentro desse período, que havia iniciado em meados de 1978 e que se estendia até 1987, a intervenção na forma de assistência aos indivíduos, aqui no Brasil,
possibilitou a incorporação de redes de cuidados substituindo o antigo modelo hospitalocentrico, o que deu inicio a criação dos NAPS – Núcleos de Atenção Psicossocial, onde atendem 24horas indivíduos vindos dos hospitais e outros núcleos de saúde mental, e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Esses atuam em várias modalidades e tem seus pontos de atenção estrategicamente pensados, sendo serviços de saúde abertos e comunitários, compostos de uma equipe multiprofissional (Brasil, 2011) (Brasil, 2015).
“Os CAPS têm papel estratégico [...], tanto no que se refere à atenção direta visando à promoção da vida comunitária e da autonomia dos usuários, quanto na ordenação do cuidado, trabalhando em conjunto com as equipes de Saúde da Família e agentes comunitários de saúde, articulando e ativando os recursos existentes em outras redes, assim como nos territórios. ” (Brasil, 2015. p.10)
Um dos primeiros Centros de Atenção Psicossocial, foi criado em 1987, em São Paulo, devido aos movimentos sociais para a desconstrução do tratamento nos hospitais psiquiátricos assim como dar início a uma rede de atenção à saúde mental na proposta de ser uma alternativa para o antigo modelo hospitalar e de ser um novo lugar social para tais pessoas (Brasil, 2005). Conforme o Ministro da Saúde Humberto Costa, os CAPS têm por finalidade reinserir o portador de transtorno psíquico severo e\ou persistente, e dependentes químicos, no seu cotidiano, tornando possível sua interação com a família e grupos sociais. Os CAPS oferecem atenção gratuita e diária, para crianças e adultos, funcionamento regulamentado pela portaria ministerial GM nº 336, de 19 de fevereiro de 2002 (Brasil, 2004).
Os Centros de Atenção Psicossocial, funcionam como um dispositivo extra-hospitalar (Santos, 2015), possuem uma equipe com vários profissionais, sendo esses: médico psiquiatra ou com especialização em saúde mental, profissional de nível superior de enfermagem, profissionais de nível superior em psicologia, profissionais da assistência social, e\ou pedagogia, psicólogo, profissionais em nível médio, técnicos em administração, enfermagem e
educação, promovendo atendimentos grupais e individuais, domiciliares ou não, com diversas atividades que vão para além do tratamento medicamentoso, o qual era anteriormente o principal recurso utilizado (Santos, 2015).
O cuidado é desenvolvido com base no Projeto Terapêutico Singular (PTS) e está sob responsabilidade do CAPS. O PTS envolve diretrizes terapêuticas que oferece acolhimento e acompanhamento ao usuário e sua família, contemplando sua história de vida, projeção de futuro, vida cotidiana. Tem em seu escopo o objetivo de pensar estrategicamente e intervir, juntamente com a equipe, onde tais atividades articuladas são oferecidas individualmente ou em grupos terapêuticos, dependendo da necessidade do próprio CAPS e do sujeito que se encontra na rede (Brasil, 2015).
Dentro do PTS, além dos acolhimentos e atendimentos, há as oficinas terapêuticas, com práticas corporais, expressivas e comunicativas, que promovem sociabilidade, favorecem a percepção do próprio usuário frente a ele mesmo e aos outros, construção de autonomia, expressões de sentimentos e emoções e principalmente o exercício da cidadania. As oficinas se constituem como uma forma alternativa de acolhimento e de mediação de diálogos e conflitos, sendo a maior responsável pela produção de subjetividade e da reconstrução de vínculos dos usuários (Brasil, 2015) (Ribeiro apud, 2008).
No Brasil, os CAPS são divididos em categorias de acordo com sua população, organizando e direcionando quanto à sua função e precisam de um ambiente físico e apropriado para cada demanda que lhe é posta (Brasil, 2005). Conforme o Ministério da Saúde, com dados de 2017, haviam no Brasil 1191 CAPS tipo I o qual se caracteriza por abranger entre 20 mil e 70 mil habitantes na cidade, atendendo diariamente adultos com transtornos mentais graves e persistentes; 505 CAPS tipo II, com sua abrangência entre 70 mil e 200 mil habitantes, atendendo diariamente adultos com transtornos mentais graves e persistentes; 100 CAPS tipo III, com sua abrangência entre 200 mil ou mais habitantes, atendendo diariamente adultos com
transtornos mentais graves e persistentes; 229 CAPSi, com sua área de abrangência acima de 200 mil habitantes, atendendo crianças, adolescentes e jovens com transtornos mentais até 25 anos; 324 CAPS tipo AD (álcool e outras drogas), com sua área de abrangência entre 70 mil e 200 mil habitantes, atendendo diariamente indivíduos com transtornos dependentes do uso de álcool e outras drogas, especificamente, sendo que alguns possuem leitos para os pacientes terem o tratamento de desintoxicação, estes seriam os CAPSad III, com 106 existentes (Brasil, 2017).
A única diferença entre os CAPS I, II e III é sua abrangência populacional que se dá de forma crescente e que consequentemente, aumenta o número de profissionais, mas que atendem pessoas com transtornos mentais severos e persistentes e dependentes de álcool e drogas. Ademais, o CAPSi foca sua atenção psicossocial para crianças e adolescentes e o CAPSad volta sua atenção principalmente para indivíduos que decorrem do uso e da dependência de substâncias psicoativas. O Ministério da Saúde não estipulou a definição e o encaminhamento exato dos CAPS para os dependentes psicotrópicos, por isso, qualquer individuo acometido por tal dependência, pode ser atendido em qualquer dispositivo citado acima, não importando necessariamente sua função (Brasil, 2011).
Em particular, o CAPSad foi instituído pelo Ministério da Saúde, focado na política de Redução de Danos, seguindo o mesmo modelo dos outros CAPS, com o diferencial de que a perspectiva seria a minimização do uso e dos danos provocados pelo consumo de álcool e outras drogas (Brasil, 2004). É apontado como um dos recursos principais para a prevenção e promoção da saúde para as múltiplas facetas dos problemas de álcool e outras drogas na rede de atenção básica (Amarante, 2007).
Segundo o Ministério da Saúde (2004), diferentemente de uma lógica manicomial em que a autonomia do paciente se perdia, no CAPS o indivíduo que necessite ou queira a assistência deve ter sido encaminhado pelo Programa Social de Saúde da Família ou por outro
serviço de saúde, podendo ir de livre e espontânea vontade sozinho ou com outrem. O primeiro contato do paciente seria o acolhimento, para assim, conseguir estabelecer algum tipo de vínculo com os profissionais de tal dispositivo e assim, em conjunto, ver qual a melhor forma de prosseguir com o atendimento (Brasil, 2004).
O consumo de álcool e outras substâncias psicotrópicas, que alteram a percepção e o funcionamento cerebral cognitivo, esteve presente em todas as culturas desde os tempos antigos, em específico no Brasil, foram os índios quem iniciaram esse processo, e logo após, os portugueses (Silveira, 2006 apud Aguiar, 2014).
Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) em consonância com os pareceres dos profissionais de saúde salientam que o número de casos de “dependência do álcool” em mulheres aumentou significativamente a nível global nos últimos dez anos (Silva, 2015). Conforme Nóbrega e Oliveira (2005) a visão dada pela medicina a respeito do uso abusivo de álcool, que em consequência, progride para o alcoolismo, evidencia-se a partir dos aspectos fisiológicos e metabólicos. No entanto, analisando amplamente fatores que desencadeiam o alcoolismo e fatores de risco, percebe-se que os aspectos biológicos, não explicam o fenômeno de utilização de álcool e outras drogas, há aspectos ambientais e aspectos socioculturais que também o influenciam (Brasil, 2011). A realidade construída acerca do papel feminino nas sociedades se relaciona principalmente à maternagem e seu mero papel de reprodução, em contrapartida com o papel social do homem, visto como viril, forte e provedor da família (Lima et al, 2010). Tais concepções concebiam a ideia de mulher sendo um indivíduo inferior ao homem. O papel social materno da mulher incide no fato de responsabilidades sobre o cuidar dos filhos, a ausência de alguém com quem deixar o filho, e até mesmo a perda de sua guarda, trazendo à tona a incapacidade das mesmas procurarem o acolhimento nos CAPSad (Rasch, 2015).
É um paradigma natural a liberdade que o homem tem dentro da nossa sociedade patriarcal, como por exemplo o uso de bebidas e substâncias psicoativas, que na realidade nada mais é do que uma necessidade de corresponder a um padrão de poder e dominação. É permitido socialmente que ele se deleite sobre o que seria extremamente feio e proibido para a mulher, e isso seria um dos fatores desencadeadores sobre o qual, os homens procuram a assistência da rede CAPSad mais do que as mulheres, por essas se sentirem envergonhadas pelo fato de serem dependentes químicas. Como se fosse imposto subliminarmente que a mulher não pudesse ater aos prazeres da vida e também as mazelas de sua própria história. (França, 2014). Não obstante, uma mulher com comportamentos imorais ou inapropriados para seu papel, sofre extremo preconceito de uma sociedade marcada com o estigma de que a mulher necessite resguardar a todo tempo sua autoimagem (Aguiar, 2014).
Vista como sexo frágil, a mulher está predisposto a um maior sofrimento psíquico em comparação com os homens. Uma pesquisa sobre a concepção de profissionais de saúde a respeito do uso de substâncias psicoativas em mulheres, revelou que os médicos afirmam acreditar que essa mulher seria mais doente comparada ao homem, com um mesmo diagnóstico. Como aponta CEBRID (2006) e UNODC (2004), levantamentos a respeito das crenças contemporâneas sobre o feminino, denota que há uma busca constante nas formas de encontrar sentidos para a solução dos sofrimentos e das incertezas da vida. Para contemplar esta proposição, o UNODC em 2005 recenseou um elevado número de mulheres envolvidas com o consumo de drogas de 15 a 64 anos, identificando cerca de 15 milhões de pessoas, no qual as mulheres tinham preponderância. (Prado e Queiroz, 2012).
De acordo com Edwards., Marshall., Cook (2005), a persistência da aprovação social, consoante com o sentimento de culpa, traz à tona as drogadições femininas, que leva em
consideração o esquecimento, a fuga da realidade. O fato de sofrerem pressão social desencadearia a ausência de reconhecimento e práticas de investigações para o uso.
Os motivos que levam as mulheres para começar o tratamento psicossocial e suas dependências começa desde demandas espontâneas pelas próprias mulheres, até tentativas de suicídio. O álcool seria a porta de entrada para outras substâncias, visto que muitas delas utilizam outras drogas, sendo lícitas ou ilícitas. Segundo Lancetti (2008), os dispositivos CAPS ad não competem totalmente à gama de solicitações para completar o tratamento, dado que em muitos casos é necessária a internação nos hospitais para a densintoxicação. Os Centros de Atenção Psicossocial deveriam disponibilizar atividades que reconhecessem as diferenças de gênero e principalmente, a realização de projetos terapêuticos dando ênfase para as mulheres que necessitem de tal atendimento. E é nesse sentido que este estudo tem como objetivo encontrar nos achados da revisão da literatura como a mulher é vista dentro do CAPS, perceber sua condição social, sua própria percepção acerca deste lugar e as visões que cerceiam seu envolvimento para tal, resumidamente, o que é dito das mulheres nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas com base nos escritos empirícos.
2. MÉTODO
Segundo Lima e Mioto (2007), uma pesquisa do tipo bibliográfica origina de um grupo ordenado de procedimentos com a finalidade de buscar soluções acerca de um problema investigado, atentando para o objetivo do estudo, especificamente. Esta pesquisa se trata de uma revisão bibliográfica, de cunho qualitativo.
Para amparar a revisão bibliográfica, as referências foram localizadas em duas bases de dados, sendo Periódicos Eletrônicos de Psicologia (PePSIC) e Literatura Latino- Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), além da Biblioteca Eletrônica
Cientifica Online (Scientific Electronic Library Online, SciELO). Contemplando assim, publicações cientificas nacionais com ênfase em Psicologia, não extinguindo artigos de outras áreas da ciência da saúde, visto que o assunto do qual trata-se este artigo possui multidisplinariedade.
As consultas dos artigos finalizaram em novembro de 2018 com o uso de descritores em português: “mulheres” e “CAPS”, “mulheres” e “CAPS ad” e “mulheres” e “Centro de Atenção Psicossocial”, a escolha dos mesmos se deu por se mostrarem mais produtivos viabilizando resultados mais precisos. Cumpre assinalar que o levantamento bibliográfico envolveu a utilização de limites em relação à data de publicação de artigos científicos do ano de “2009” até “2018”.
Para a seleção dos artigos recuperados foram examinados os títulos de todas as referências obtidas através das bases de dados e da biblioteca eletrônica afim de eliminar eventuais duplicidades. O crivo de 10 anos para a pesquisa foi escolhido afim de rever literaturas mais atuais. Posteriormente foi realizada uma leitura preliminar, com o propósito de determinar quais materiais viriam a construir o escopo do artigo, sendo realizada de modo independente pelos autores do estudo. Por fim, a pesquisa teve como norte alguns critérios de inclusão básicos: (1) publicação no período compreendido entre 2009 e 2018, (2) redação em português ou inglês, (3) publicação no formato de artigo empírico e (4) temática referente a mulheres em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Os resultados decorrentes desses critérios foram organizados em um crivo de avaliações de acordo com os escritos acerca das mulheres nos CAPSad, nos quais foram (1) fonte; (2) amostra; (3) abordagem metodológica; (4) delineamento de pesquisa; (5) instrumentos; (6) objetivos e (7) principais achados.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Localização de referências
Foram localizadas um total de 55 referências, sendo 4 na PEPSIC, 17 na SciELO e 34 na LILACS. Após a seleção em função dos critérios anteriormente estabelecidos e a eliminação das duplicidades, restando 19 referências, sendo estas: Rasch et al (2015), Campos et al (2017), Zanello et al (2015), Cedaro et al (2013), Prado e Queiroz (2012), Meinhardt e Maia (2015), Moura et al (2012), Lima, Braga, Carvalho e Morais (2010), Silveira, Oliveira, Correio, Santos e Rodrigues (2016), Silva (2014), Aguiar (2014), Beck (2009), Mororo, Colvero e Machado (2011), Costa (2011), Burlin et al (2016), Adamoli e Azevedo (2009), Nascimento, Breda e Albuquerque (2015), Santos (2009) e Silva (2012).
Avaliação das referências: Fonte
Quanto ao primeiro enfoque de análise (fonte), os resultados obtidos revelam que encontravam-se em seis ênfases, nos quais: (1) Psicologia, onde foram encontradas seis referências, postadas em cinco periódicos científicos diferentes (Revista de Psicologia em Pesquisa, Estudos de Psicologia, Fractal Revista de Psicologia, Revista Psicologia Universidade de São Paulo, Revista do Departamento de Ciências Humanas – Barbarói); (2) Enfermagem, em que pode ser encontrados sete artigos, publicados em quatro periódicos distintos (Revista da Escola de Enfermagem – USP, Dissertação Universidade Federal do Ceará, Revista de Pesquisa (Online): cuidado é fundamental, Biblioteca Biomédica – Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro); (3) Medicina/Psiquiatria, encontrado apenas um (Jornal Brasileiro de Psiquiatria); (4) Nutrição, encontrado apenas um Braspen Journal/
Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral); (6) Educação Física, encontrado em apenas um (Ciência e Saúde Coletiva) e (6) Saúde Coletiva, encontrado três artigos, postados em três periódicos diferentes, com um semelhante ao de Educação Física (Ciência da Saúde (Interface Botucatu), Ciência e Saúde Coletiva, Biblioteca do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães - Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz). É possível observar tais achados na tabela abaixo.
Área Fonte Referências
Psicologia Revista de Psicologia em
Pesquisa
Rasch et al (2015),
Estudos de Psicologia (Natal) Campos et al (2017), Prado e Queiroz (2012)
Fractal Revista de Psicologia Zanello et al (2015)
Revista Psicologia
Universidade de São Paulo
Cedaro et al (2013)
Revista do Departamento de Ciências Humanas - Barbarói
Meinhardt e Maia (2015),
Enfermagem Revista da Escola de
Enfermagem - USP
Moura et al (2012), Mororo, Colvero e Machado (2011)
Dissertação Universidade
Federal do Ceará
Lima, Braga, Carvalho e Morais (2010),
Revista de Pesquisa (Online): cuidado é fundamental
Silveira, Oliveira, Correio, Santos e Rodrigues (2016)
Biblioteca Biomédica – Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Silva (2014), Aguiar (2014), Beck (2009)
Medicina/Psiquiatria Jornal Brasileiro de
Psiquiatria
Costa (2011)
Nutrição Braspen Journal/ Sociedade
Brasileira de Nutrição
Parenteral e Enteral
Burlin et al (2016)
Educação Física Ciência e Saúde Coletiva Adamoli e Azevedo (2009)
Saúde Coletiva Ciência da Saúde (Interface
Botucatu)
Nascimento, Breda e
Albuquerque (2015)
Ciência e Saúde Coletiva Santos (2009)
Biblioteca do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães - Centro de Pesquisas Aggeu
Magalhães, Fundação
Oswaldo Cruz
Silva (2012)
A escolha dos periódicos por parte dos pesquisadores/autores, é determinada por diversos fatores. Uma observação importante, foi de que os periódicos de Saúde Coletiva se baseavam em áreas apenas da Psicologia e Enfermagem. Não obstante, áreas como nutrição, psiquiatria e educação física, demonstram as peculiaridades destes campos, porém seria extremamente interessante que não apenas as várias áreas que compõem o âmbito dos centros de atenção, como também outras áreas da saúde se difundissem e criassem pesquisas permitindo
maior multidisciplinariedade e a multiprofissionalidade de percepções e modos diferentes de pensar acerca de um mesmo assunto.
Amostra
Nos desfechos relativos à segunda dimensão de análise (amostra), podemos notar que a quantidade de participantes das pesquisas variou de três participantes a aproximadamente 185 participantes por estudo, dentre eles homens e mulheres usuários dos Centros de Atenção e profissionais.
Aprofundando um pouco mais, de 19 referências, houve apenas 7 estudos que incluíram exclusivamente e explicitamente mulheres em sua amostra, sendo quatro na área de Psicologia (Rasch et al (2015), Cedaro et al (2013), Prado e Queiroz (2012), Meinhardt e Maia (2015)/, um na área de Enfermagem (Aguiar (2014)/ e dois na área de Saúde Coletiva (Nascimento, Breda e Albuquerque (2015), Silva (2012). Todas as outras pesquisas tiveram como escopo de amostra ambos os sexos, usuários e funcionários, demonstrando uma forma de comparação das diferenças de gênero existentes.
A faixa etária das mulheres encontradas nos estudos variou entre 15 e 80 anos, com classe socioeconômica de baixa renda, raramente sendo de classe média, e em sua maioria donas de casa e com filhos. Algumas trabalham como empregadas domésticas, tendo dupla jornada de trabalho, sendo em casa e no emprego, e outras estão desempregadas. Uma observação das amostras que incluem os homens, evidencia serem mais jovens do que as mulheres, relatam não terem filhos e a maior parte, desempregados. Dentre os indivíduos estudados, destaca-se mulheres e homens usuários e dependentes de álcool e outras drogas, com sofrimento psíquico, portadores de doenças crônicas transmissíveis ou não-transmissíveis. É importante ressaltar,
que o fato de terem havido homens nas publicações, foi apenas um modo de comparação para exemplificar as mulheres nesses espaços.
Abordagem Metodológica e Delineamento de Pesquisa
Para a terceira análise (abordagem metodológica) houve maior recorrência de estudos qualitativos, precisamente em dezesseis, havendo um único trabalho quantitativo (Burlin et al. 2016), e dois quanti-qualitativos na área de Psicologia (Campos et al., 2017) e na área de Psiquiatria (Costa, 2011). Entende-se que por se tratar de uma revisão bibliográfica com tal temática, que envolve a compreensão e interpretações sobre os motivos que cerceiam o envolvimento das mulheres nos centros de atenção psicossociais, faz sentido o predomínio de pesquisas qualitativas, pela importância em apreender experiências individuais dos usuários dos Centros de Atenção em diferentes perspectivas, bem como seus sentimentos, intenções e comportamentos. Para tanto, recomenda-se a realização de mais trabalhos qualitativos.
Sobre o delineamento de pesquisa, como podemos ver na tabela abaixo, os estudos encontram-se no patamar de pesquisas exploratórias e transversais com análises descritivas, documental e de conteúdo. Definindo como pesquisas que fornecem uma investigação mais precisa, descobrindo ideias ou pensamentos (Documental Exploratória), descrevendo minuciosamente as características e funções, levantando os dados achados e respectivamente seu conteúdo (Análise Descritiva e Análise de Conteúdo), analisando determinados dados e amostras por um longo período de tempo, ou em um mesmo momento histórico com indivíduos distintos (Estudo Transversal), além das observações nos CAPSad e nos grupos terapêuticos.
Psicologia Documental Exploratória, Estudo Transversal, Análise Descritiva, Análise de Conteúdo, Relatos de casos, Referencial Teórico, Análise institucional, Observação, Projetos Terapêuticos
Enfermagem Análise de Conteúdo, Análise Documental,
Referencial Teórico, Método Cartográfico, Grupo Focal
Medicina/Psiquiatria Estudo Transversal e Análise Descritiva
Saúde Coletiva Análise Temática por Goffman, Análise de
Narrativas, Investigação, Pesquisa empírica, Teórico Exploratório
Educação Física Estudo Descritivo
Nutrição Estudo Transversal e Estudo Exploratório
Descritivo
Instrumentos
Avaliando à quinta dimensão (instrumentos), e entendendo o CAPSad como um ambiente de acolhimento com diversos indivíduos, alguns utilizando o serviço da rede no presente, alguns que já utilizaram e ainda continuam em tratamento e outros que se perderam nesse caminho de reinserção social, já que a rede não é algo fixo, é construída de acordo com a singularidade de cada um, utilizou-se como ponto de referência para abarcar as pesquisas, prontuários físicos e eletrônicos existentes nas redes, fichas de acolhimento, além de entrevistas
com histórias orais de vida e questionários semiestruturados. Em casos específicos, como na área de nutrição, usou-se uma avaliação nutricional dos pacientes em tratamento.
Objetivos
De acordo com os resultados em relação à dimensão (objetivos), observa-se que das seis referências em Psicologia, destacam-se objetivos referentes à temática “gênero”, como pensar em estratégias de intervenções em saúde mental, levando em conta as especificidades das diferenças de gênero no adoecimento psíquico, bem como analisar e comparar os perfis sociodemográficos e discutir fundamentações sexistas nos modelos de tratamento dos CAPSad e da comunidade terapêutica. Em Enfermagem, os objetivos perpassam em analisar e verificar as demandas que são levadas até os Centros de Atenção, e em como o cuidado psicossocial está contribuindo com as necessidades individuais dos dependentes químicos, de modo geral. Não obstante, fala-se muito na “mulher alcoolista”, os significados do feminino na relação com a saúde mental, e em como ela se percebe frente à sua dependência e ao mundo. Ademais, encontram-se duas referências em Enfermagem com o objetivo de conhecer a vivência dos próprios profissionais da rede de atenção e os desafios ocorrentes frente a construção de projetos e modos de trabalho. Na Saúde Coletiva, percebe-se que o assunto “gênero” também foi mencionado explicitamente.
Pensando nos escopos dos artigos encontrados, nota-se que apesar de haver pesquisas referentes somente à mulher, precisou-se investigar, entrevistar e analisar perspectivas sobre o homem para construir a análise, mesmo os trabalhos que tratam de experiências apenas sob o significado feminino. Estes, por sua vez submeteu-se a comparações sobre o adoecimento psíquico, experiências nos Centros de Atenção, singularidades, perfis e modelos de tratamento para homens e mulheres, para a compreensão das mulheres neste espaço.
Principais Achados
Na área de Psicologia, os principais achados decorreram desde os fatores sociodemográficos de mulheres e homens, perpassando por questões que envolvem o sofrimento psíquico da mulher usuária do CAPS até os embates e problemas envolvendo os próprios profissionais que trabalham na rede. É encontrado nos artigos relacionados temas bastantes recorrentes no que tange ao assunto gênero, condições femininas acerca de seu papel na sociedade patriarcal e as causas do seu envolvimento com substâncias psicotrópicas. De acordo com os fatores sociodemográficos a maioria das mulheres atendidas nos CAPS se encontram afastadas do ensino escolar, estando no ensino fundamental, mais da metade dessas mulheres estão desempregadas, solteiras e mães, sendo exigida ainda que faça seu papel de dona de casa. (Rasch et al, 2015)
A procura pelo tratamento geralmente é de mulheres com problemas associados a ansiedade e/ou depressão, dores crônicas, lesões físicas e outros distúrbios, além de tentativas de suicídio, todas essas demandas são trazidas pelos pólos de serviços de saúde como usuárias que se queixam de tudo (Meinhardt & Maia, 2015). Porém, as causas do sofrimento psíquico destas, seriam os maiores agravantes pelo qual elas se encontrariam usufruindo dos serviços dos CAPS, e que na maioria das ocorrências, se dão por uma fragilidade emocional advindos de relações conturbadas na família, principalmente com suas próprias mães e filhos, seja em relação a morte dos filhos prematuramente ou brigas e morte da mãe (Rasch et al, 2015), no entanto, o que mais aflige a mulher usuária, encontrados nos artigos de Psicologia, seria o seu cônjuge e seu “pseudo-casamento” (Campos et al, 2017). Estes por sua vez denotam uma importância significativa na vida da mulher, vista em relatos e prontuários, sendo um dos principais achados que requer um grau de atenção mais delicado, a violência contra a mulher. É necessário antes que seja esclarecido que não seria apenas a violência física causada pelo
namorado/marido, mas sim, todos os tipos de violência que acomete a mulher no geral, são situações variadas e subjetivas que enunciam diversas formas de violência (Campos et al, 2017). Com tais agravantes, elas se defrontam com o desejo de uma fuga da realidade, o que explicaria o uso das drogas, começando com o álcool e o tabaco, partindo para a maconha, cocaína e crack. “De um modo geral, nas mulheres o uso de drogas está associado à gravidez, responsabilidades nos cuidados com crianças, trabalho com sexo, traumas decorrentes de abuso físico e sexual experienciados na infância e/ou adolescência e, ainda, a níveis mais altos de problemas de saúde mental e crônica em relação aos homens.” (Prado e Queiroz, 2012.p.308-309)
Sendo o assunto de mais ênfase nas pesquisas, o casamento como, anteriormente citado, seria um dos papeis tradicionais de gênero. As mulheres apontam o casamento como sendo uma salvação dos problemas de casa, podendo assim, sair da casa dos pais para ter sua própria independência, aliado ao quesito virgindade, pois com o ato de casar, poderiam ser uma mulher respeitável (Zanello et al, 2015). O gênero foi amplamente citado em todos os artigos da área, pois defronta com a realidade de que há diferenças no tratamento de mulheres e homens, não apenas nos Centros de Atenção Psicossocial, mas em todos os outros ambientes em que a mulher é vista como mãe, cuidadora do lar, dos filhos e do marido, trabalhadora em sua própria casa e fora dela, frágil e cheia de amor, na verdade, impõe se a elas o dever de amar a todos e ser capaz de viver para isso (Rasch et al, 2015) (Campos et al, 2017). Tais diferenças na assistência para com as mulheres usuárias se encontram no próprio olhar a que são dirigidos à elas, no sentido de que não há o reconhecimento de todo o histórico de lutas e pré conceitos que a mulher, em seu significado amplo, enfrentou e que ainda existe. É como se não percebessem todas as singularidades da condição social da mulher e do que determinadas individualidades necessitam no momento. Nesse sentido, toda a visão da mulher nos CAPS e todo o seu sofrimento psíquico é estigmatizado por essas preconcepções e invisíveis a olhos da psiquiatria e do adoecimento psíquico.
Há o que se dizer dos atendimentos e dos Projetos Terapêuticos oferecidos nos CAPS para as mulheres e para os homens. Os profissionais que trabalham nas redes não estão aptos a trabalharem com as demandas apresentadas pelas mulheres nesses contextos, pois não foram ensinados a olhar para a condição social da mulher plenamente, colocando as dificuldades alheias a um ponto crítico de reflexão. Homens e mulheres usuários, não tem suas individualidades abarcadas nos Centros de Atenção, todos são tratados de formas iguais, o que na verdade não deveria ser assim, já que cada individuo ali presente se encontra em sofrimento psíquico particular. Assuntos como a violência, que até então é invisível nas práticas e falas dos profissionais, não abarcam as peculiaridades de atenção do profissional para a usuária, fazendo com que a real compreensão dos sofrimentos ali presentes, não sejam entendidos. Reforçam a ideia do estereotipo de gênero no tratamento, já que o serviço de saúde é fomentado numa versão masculinizada e psiquiatrizante, aliados ainda a concepção dos manicômios antigos, da Reforma Sanitarista Psiquiátrica, onde os indivíduos estão perdidos em seus anonimatos, sem sequer ter sua história de vida contata e compreendida (Rasch et al, 2015).
A dificuldade de os profissionais abarcarem as subjetividades inerentes ao campo do adoecimento psíquico feminino, também surgiu nas pesquisas realizadas na área de Enfermagem. Há a identificação de que tais mulheres necessitam de uma maior atenção no plano assistencial ofertado pelo serviço de saúde, como nos acolhimentos, atendimentos e em planejamentos de Projetos de cunho terapêutico, como planejamentos familiares, aliados à um olhar centrado no quesito medicalização. Questionam a ausência de atividades voltadas para as usuárias e os próprios profissionais que não tem arcabouço teórico-prático para lidarem com os problemas diversos que estão dispostos nos CAPS diariamente, mesmo com uma graduação completa. Dentro da rede não existe capacitações para os profissionais conseguirem abarcar as demandas. No artigo de Moura et al (2012), aponta que nenhum dos profissionais realizam
ações voltadas ao planejamento familiar de mulheres portadoras de transtorno mental e não existe, por parte destes, uma atenção individualizada tanto para ela, quanto para o parceiro e/ou família.
Há aqui, da mesma forma que na área de Psicologia, a queixa na maneira como os usuários, de forma geral homens e mulheres são tratados nas redes, como se reproduzissem a ótica dos hospitais psiquiátricos antes da Reforma Psiquiátrica, de uma outra maneira, subliminarmente. Os pacientes são encaminhados para o CAPS sem o real motivo e sem nem mesmo eles saberem o porquê estão precisando daquele atendimento, totalmente abandonados e desassistidos, e o objetivo do CAPS se perde juntamente com os usuários. Não existe a reabilitação e a reinserção do paciente na sociedade, muito menos existe uma infraestrutura capaz de proporcionar também ao profissional um espaço para que atue em suas demandas de forma coerente com o que os usuários necessitem, ou seja, ambos os lados, usuários e profissionais estão/são desassistidos. Falta capacitação para os profissionais até porque ninguém teve orientação na graduação, a maioria não teve sequer nenhuma matéria e principalmente pratica.
“Infelizmente, o que se vê no dia a dia é que, muitas vezes, esses profissionais mantêm práticas tradicionais, baseadas na assistência rotineira; situação essa não condizente com as Reforma Psiquiátrica, que propõe a transformação da assistência psiquiátrica em um modo de atenção que privilegie as atividades que favoreçam o processo de inserção social do portador de transtorno psíquico.” (Silveira et al, 2016.p.4352)
Não obstante, os artigos pautam a questão de o saber compreender a sexualidade dessas mulheres e as causas para a ocorrência do tratamento e do uso de álcool. As questões de gênero foram abordadas como determinante de saúde, já que todo o entendimento de saúde se dá pelo modo de como a sociedade está organizada e como ela se desenrola, portanto, a saúde da mulher mais uma vez é permeada pelas condições sociais a ela imposta. Tal condição social é reforçada pela visão da mulher, nos achados, de sensível, delicada, dependente e frágil, sendo o fator:
dependência emocional, o de maior enfoque para os estudos, pois seria uma característica inerente à mulher e justificaria seu vício e sua entrada na rede.
“As mulheres foram percebidas pelos profissionais como mais sensíveis, dependentes afetivamente dos homens e mais envolvidas com o ambiente doméstico e com a família. ” (Silva, 2014.p.90)
Na área de Educação Física e Nutrição, o que foi encontrado nas discrepâncias de sexo, foi que houve um maior envolvimento nas atividades físicas pelos homens, do que pelas mulheres, já que por conta das relações de gênero existentes desde sempre, os homens tinham/têm total apoio da sociedade para estarem longe de casa praticando esportes, ao passo que a mulher deveria/deve estar em casa cuidando dos filhos e do lar. Então na pesquisa houve um menor envolvimento dos homens em atividades domésticas, enquanto que as mulheres demonstraram um baixo percentual nas atividades físicas oferecidas no CAPS. Essas atividades oferecidas por conta das oficinas terapêuticas, aliam-se à ideia dos estereótipos de gênero, já que as mulheres realizam atividades como bordado, pintura, crochê, raros alongamentos e horários de relaxamento, diante do futebol, para os homens. No artigo de nutrição, foi constatado que as mulheres teriam uma maior chance de desenvolver doenças cardiometabólicas, que englobam a obesidade, problemas de hipertensão e enfarte, por conta do tabagismo e do uso abusivo de álcool (Burlin et al, 2016).
No âmbito da saúde, a trama gênero foi abordada nos três artigos, reafirmando os estudos anteriores acima com o mesmo enfoque. Traz a questão de que o sofrimento psíquico da mulher é construído com bases nos valores e nos padrões da sociedade em que ela se insere e sendo homem ou sendo mulher, tais normas seriam fatores condicionais para se desenvolver pensamentos e ações para a vida. A violência se torna um assunto novamente dito aqui, sendo um problema circunstancial para o agravamento do sofrimento das mulheres, de todas as idades. A tristeza vem conjuntamente com o uso de substâncias, o que gera a dependência.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Observou-se nos artigos selecionados que houve maior referências de cunho qualitativo, narrativo, transversal e exploratório, desenvolvidos por estudantes e profissionais da área de psicologia e enfermagem, juntamente com entrevistas semiestruturadas e análises de prontuários para e com as mulheres e homens pacientes dos Centros de Atenção Psicossociais de todo o Brasil.
Constatou-se nos artigos que denotam o assunto gênero, os motivos que levam às mulheres a aderir tal comportamento de dependência ou ser usuária dos CAPSad, o que leva em consideração um histórico da mulher e a preconcepção do seu papel na sociedade, acarretando um sofrimento psíquico grave. Trazendo a reflexão de que muitas vezes, o problema não seria somente o agravo da doença mental, mas sim, a correlação do uso abusivo de substâncias psicotrópicas com o seu existir na sociedade patriarcal, marcada de visões estereotipadas para com elas e os preconceitos inerentes às atitudes, perfil comportamental, etc. A partir disto, se vê a necessidade de estudos qualificados para tal, profissionais que atuam nos CAPS, e até mesmo a sociedade como um todo, principalmente as políticas públicas seria a violência contra a mulher. Esse assunto é difundido nos artigos selecionados como um fator importante no quesito da saúde mental da mulher e que até então, não existe uma lei de amparo realmente eficiente e eficaz, que faça jus ao que ela compete. Ações públicas, em ambientes sociais ou não, não enxerga a carência das demandas trazidas até a rede, muito menos as mulheres que sofrem com a violência cotidianamente em seu ambiente familiar.
O existir da mulher diante todos os estigmas se defronta com a subjetividade social, econômica e politica de cada ser ali presente, tanto a usuária, o usuário homem e o profissional, além do próprio CAPS. Cada indivíduo que compõe a rede demanda algum cuidado, um olhar atento, que é essencial para o desenvolver da reabilitação e reinserção social do paciente. Não
existe práticas singulares para homens e mulheres, tudo é visto como um corpo só, como um só problema a ser destituído, e é como se voltasse a nossa reflexão para a época passada, onde os doentes e loucos eram jogados e abandonados sem nenhum tipo de assistência individualizada. Será que os Centros de Atenção se preocupam realmente com o sujeito que procura o atendimento? Ou será que tal interrogativa deveria ser reformulada e reestruturada para o suporte que o governo oferece para todos? Vale ressaltar que há a necessidade de um maior suporte para os profissionais que atuam diretamente com as singularidades da rede.
É importante, para tanto, não somente mais estudos que repensem as formas de tratamento para as mulheres e os homens dentro dos CAPS, mas também, leis de amparo à mulher e suas especificidades de modo geral, para além dos muros das redes. É imprescindível que os estereótipos de gênero que as mulheres sofrem diariamente seja falado, reformulado, repensado e acima de tudo, desconstruído, em todas as esferas da vida humana. As diferenças de gênero existentes são uma problemática de cunho mundial.
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