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(2) RENATA BOUTIN. ASPECTOS PEDAGÓGICOS DO DESENHO ANIMADO INFANTIL BOB ESPONJA. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de PósGraduação em Comunicação Social, da Umesp – Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do grau de Mestre. Orientadora: Profa. Dra. Elizabeth Moraes Gonçalves.. Universidade Metodista de São Paulo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo, 2006.
(3) 2. FOLHA DE APROVAÇÃO. A dissertação de mestrado sob o título “Aspectos pedagógicos do desenho animado infantil Bob Esponja”, elaborada por Renata Boutin, foi defendida e aprovada em 27 de abril de 2006, perante a banca examinadora composta por Elizabeth Moraes Gonçalves, Liana Gotlieb e Cicília Peruzzo.. Declaro que a autora incorporou as modificações sugeridas pela banca examinadora, sob a minha anuência enquanto orientadora, nos termos do Art.34 do Regulamento dos Programas Pós-Graduação.. Assinatura da orientadora: _____________________________________________________ Nome da orientadora: Profa. Dra. Elizabeth Moraes Gonçalves. São Bernardo do Campo, 26 de junho de 2006.. Visto do Coordenador do Programa de Pós-Graduação:_______________________________. Área de concentração: Processos Comunicacionais. Linha de pesquisa: Comunicação Especializada. Projeto temático: Linguagens e Discursos Especializados na Comunicação..
(4) 3. Para meu pai, minha mãe, minha irmã e meu noivo. Amo vocês profundamente..
(5) 4. Malogramos sempre ao falar do que amamos. Roland Barthes.
(6) 5. AGRADECIMENTOS A Deus, sobre todas as coisas; A minha orientadora Beth: a gratidão e a admiração que sinto não cabem aqui e ultrapassam os limites acadêmicos; A Adriana Azevedo que lá na graduação me encantou com suas aulas, despertando em mim o desejo de ser professora. Orientando meu estágio docente me deu a oportunidade de sentir o gosto da sala de aula e definitivamente me apaixonar por ela; Ao Daniello, que já no primeiro semestre de faculdade nos propôs um projeto de pesquisa sobre programas infantis que resultou na minha primeira apresentação em congresso e no meu amor pelo tema; Ao PET (Programa Especial de Treinamento), a nossa primeira tutora, Cicília Peruzzo, e a turma de “PETianos”: com vocês experimentei momentos únicos de pesquisa e amadurecimento acadêmico e pessoal; Aos amigos Ana Lúcia, Carlos, Everton, Franz, Grego, José Augusto, Taís, Lílian, Lislei e Sara, companheiros de jornada; A Universidade Metodista de São Paulo, minha casa desde a graduação; A CAPES pela oportunidade de cursar o mestrado, realizando um sonho..
(7) 6. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 1. Metodologia 2. Quadro teórico de referência. 09 13 16. CAPÍTULO I – CONSIDERAÇÕES SOBRE O MEIO E A CRIANÇA. 31. CAPÍTULO II – O MEIO É A LINGUAGEM 1. O meio 2. A linguagem audiovisual do Bob Esponja 2.1. A imagem em movimento. 42 42 46 48. CAPÍTULO III – O DESENHO ANIMADO INFANTIL “BOB ESPONJA” 1. A televisão por assinatura 2. O canal de transmissão Nickelodeon 3. A cena enunciativa de “Bob Esponja” 4. O ethos dos personagens fixos 4.1. Bob Esponja Calça Quadrada 4.2. Patrick Estrela 4.3. Lula Molusco 4.4. Seu Siri Queijo 4.5. Exemplos do ethos dos personagens em diálogos. 55 55 57 60 63 64 65 66 67 68. CAPÍTULO IV – LEITURA DOS EPISÓDIOS SELECIONADOS. 71. CONSIDERAÇÕES FINAIS. 79. REFERÊNCIAS. 81. ANEXOS.
(8) 7. RESUMO Este estudo teve como objetivo refletir sobre a importância de se entender o desenho animado para público infantil para além do entretenimento, como rica fonte de apreensão de significados. O desenho animado escolhido para análise foi o infantil “Bob Esponja”, que apresenta elementos típicos da comédia como simplicidade, exagero, inconveniência e irreverência. O trabalho foi construído pela escolha de quatro episódios, selecionados por apresentarem enredos que tratavam dos temas família (Beijos da vovó); mentira (Chocolate com nozes); doença (Espuma) e disputa (Jogos do mestre-cuca) e sua intersecção com a fundamentação teórica oferecida pela análise do discurso; aspectos da linguagem audiovisual e considerações sobre as relações existentes entre o público infantil e a TV. Através da leitura do discurso dos episódios selecionados foi possível a verificação da presença de traços de um discurso pedagógico fundido no macro discurso do entretenimento.. Palavras-chave: Comunicação – Linguagem – Desenho animado – Discurso..
(9) 8. ABSTRACT This study had the objective of thinking about the importance to understand the cartoons for children public besides entertainment, as a rich space to learn the meanings. The cartoon chosen to analysis was “Spongebob Squarepants”, that shows typical elements of comedy as simplicity, exaggeration, inconvenience and irreverence. The work was built by the chosen of four episodes, because of their themes: family (Grandma kisses); lie (Chocolat with nuts); illness (Spume); dispute (The games of master cook) and by the dialogue between these episodes; the basis of the theory offered by the discourse analysis; aspects of media language and studys about the relations that exists between the children public and the TV media. Through the analysis of chosen episodes discourse, it was possible to verify the presence of a pedagogical discourse made in a macro speech of entertainment. Key words: Comunication – Language – Cartoons - Discourse analysis..
(10) 9. INTRODUÇÃO A televisão é um meio muito eficaz de divulgar uma mensagem a um grande número de pessoas. A dificuldade está em definir que tipo de mensagens e para quem. Na prática, é qualquer mensagem para qualquer pessoa que esteja em frente ao aparelho de TV. Considerando-se que grande parte da audiência televisiva é formada por crianças ou jovens – já que, de acordo com a ONU os menores de dezoito anos constituem 37% da população mundial (FEILITZEN, 2000, p. 54) – torna-se de extrema importância que a Comunicação, como campo científico, dê conta de pesquisar as várias abordagens do fenômeno televisivo relacionado ao público infantil. Recente pesquisa (CASTRO, 2004b) realizada pelo Instituto Ipsos em dez países afirma que as crianças e adolescentes brasileiros são provavelmente os que mais vêem televisão no mundo, e ainda, são os que têm menos hábito de leitura. Os resultados apontam que no Brasil, cerca de 57% as crianças vêem televisão por no mínimo três horas por dia. A pesquisa foi realizada em grandes centros urbanos (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre) e, apesar de não retratar todo o universo da audiência infantil, são dados preocupantes e que esquentam o debate acerca do papel social que a televisão pode (e deveria) exercer junto a este público. Atentos ao fenômeno da relação entre a televisão e as crianças diversos autores, como Joan Ferrés (1996), Ana Lúcia e Nauro de Rezende (2002), Elza Dias Pacheco (1998), Rosa M. Bueno Fischer (2003), José Manuel Moran (1991), Maria Aparecida Baccega (2003), Maria Luiza Belloni (2001), entre outros, concordam com Ulla Carlsson (2002, p.13) quando ela afirma que “não é exagero dizer que os indivíduos mais vulneráveis neste mundo da mídia globalizada são nossas crianças. As mudanças que presenciamos – atuais e futuras – influenciam profundamente suas vidas”. Assim, estes pesquisadores desenvolvem trabalhos buscando compreender os mecanismos da televisão, seus conteúdos e sua apreensão pelo público infantil principalmente porque as crianças, ao mesmo tempo que aprendem a interagir com a televisão, estão aprendendo a interagir com o mundo e formando sua identidade. A exposição ao conteúdo televisivo é entendida como um dos fatores de influência na formação da personalidade infantil, uma vez que a criança na maioria das vezes tem mais contato com a televisão que com a escola ou até mesmo com seus pais. Moran (1991, p. 61) afirma que “uma criança chega à vida adulta depois de ter assistido a 15 mil horas de televisão e mais de 350 mil comerciais, contra menos de 11 mil horas de escola”..
(11) 10. Alguns estudos produzidos, porém, buscam objetos que exemplifiquem os malefícios que a programação televisiva pode causar, ou exploram o excesso de modelos considerados “ruins” para seus receptores. Muitas vezes são privilegiados nestes estudos conteúdos de extrema violência, disputa, e maniqueísmo bem delimitado e exacerbado, por exemplo. Sérgio Macleimont, no artigo “Televisão e crianças – novas perspectivas de relação” (2002) ressalta que “diante do fenômeno social da televisão, três posturas costumam ser adotadas: aquela que considera a TV como causa de todos os males, aquela que a concebe apenas como uma fonte de entretenimento e, finalmente, a que acredita que a TV pode ser um veículo de cultura” (p. 13). Em relação a primeira postura citada, Arlindo Machado comenta em seu “A televisão levada a sério” (2003, p.20): É impressionante o esforço de tantos analistas para tentar provar que o programa de televisão não pode ter qualidades, que ele não pode elevar-se acima do nível ‘mediano’ e que, por ser um produto ‘de massa’, ele não pode ser avaliado com os mesmos critérios que se utilizam para a abordagem de outros meios.. Jesus Martín-Barbero e Germán Rey, no livro “Os exercícios do ver” (2001), dedicam o subcapítulo “O ‘mal-olhado’ dos intelectuais” para criticar este foco de análise. Dialogam com Arlindo Machado, também denunciando a crítica vazia contra a televisão e ressaltando o papel da programação televisiva na dinâmica cultural: Pois, encante-nos ou nos dê asco, a televisão constitui hoje, simultaneamente, o mais sofisticado dispositivo de moldagem e deformação do cotidiano e dos gostos populares e uma das mediações históricas mais expressivas de matrizes narrativas, gestuais e cenográficas do mundo cultural popular, entendido não como as tradições específicas de um povo, mas a hibridação de certas formas de enunciação, de certos saberes narrativos (p. 26).. Reconhecendo estas características da televisão, o público infantil como diferenciado e considerando que este tem como principal produção televisiva os desenhos animados, este trabalho realizou-se na contramão dos enfoques das pesquisas criticadas, partindo de um objeto que, em uma análise superficial, não apresentava características consideradas “negativas” para seu público alvo, como exploração da violência, desrespeito ou reforço de preconceitos, por exemplo..
(12) 11. Este estudo buscou problematizar o desenho animado infantil “Bob Esponja” enquanto capaz de transmitir mensagens que podem ser apreendidas pelo seu público, colaborando com o campo de estudos das relações entre “mídia e criança” e, especificamente, com os estudos sobre os desenhos animados para público infantil. Para tanto, pretendeu reconhecer elementos constituintes no nível da mensagem sem desconsiderar outros aspectos que constituem a enunciação, como expressões faciais, cenário, interação dos personagens, cortes de cena, entre outros. Pretendeu desvelar a unidade do discurso e, conseqüentemente, a produção de sentidos. Para tanto teve que considerar o meio televisão como interferência direta na linguagem e conseqüentemente na produção de sentidos do “Bob Esponja”. Foi destacado o seguinte problema: O desenho animado “Bob Esponja”, tratado como gênero discursivo, constitui-se apenas por um discurso de entretenimento ou permite a fusão de outros discursos, como o pedagógico? Para responder a esta questão, foi desenvolvida uma hipótese prevendo que sempre há uma mensagem subjacente ao que está explícito e que no desenho animado “Bob Esponja” isso não é diferente. Conforme as tramas são desenvolvidas, o discurso do entretenimento é fundido com outros discursos de maneira inesperada, promovendo discursos de teor pedagógico. Este discurso, de caráter implícito ou subentendido, pode ser recuperado pelo receptor porque a construção discursiva do desenho animado constrói sua verossimilhança1, ou seja, estrutura seus significados permitindo a “aparência de verdade” a despeito do gênero ficcional em si e de seu afastamento da realidade concreta vivenciada por seu público alvo. Os objetivos deste trabalho foram assim divididos: Objetivo geral: Refletir sobre a importância de se entender o desenho animado além do entretenimento puro, mas como rica fonte de apreensão de significados para o público infantil observando seu papel social na formação deste público através da análise dos discursos que emergem de sua linguagem. Objetivos específicos: a) Observar como os personagens do desenho animado infantil “Bob Esponja” se comportam e interagem; b) Observar se no desenho animado o discurso do entretenimento pode se fundir com outros, como o pedagógico, oferecendo ao receptor um produto simbólico. 1. Chama-se “verossímil” aquilo que é semelhante à verdade, que tem aparência de verdade. Por exemplo, o personagem “Super-homem” não existe na realidade e contudo é verossímil..
(13) 12. carregado de conhecimentos importantes que podem ser apreendidos e recuperados em seu cotidiano; c) Observar quais significados emergem do discurso do desenho quando são trabalhadas situações ou conceitos2 de família; mentira; doença e disputa. d) Compreender se o conteúdo das mensagens dos desenhos e a forma através da qual as situações se desenvolvem permitem que haja verossimilhança, gerando alguma referencialidade com as experiências cotidianas do receptor. O primeiro capítulo “Considerações sobre o meio e a criança” traz uma breve revisão bibliográfica que resgata considerações já feitas sobre a relação entre o público infantil e a mídia, com objetivo de atingir maior compreensão de como um produto audiovisual pode se relacionar com o público infantil e como eles podem interagir. O capítulo dois, “O meio é a linguagem”, faz uma leitura do meio televisão, ressaltando o poder que tem de encantar sua audiência. A seguir trata de sua linguagem, fazendo uma ponte entre a linguagem do cinema, da televisão, e conseqüentemente de um dos produtos da televisão, que é o desenho animado infantil “Bob Esponja”. O terceiro capítulo, “O desenho animado infantil ‘Bob Esponja’”, o contextualiza enquanto produto de uma emissora específica, de veiculação específica, para então compreender sua cena enunciativa e o “ethos” de cada um dos personagens. Isto pode ser superficialmente chamado de “características comportamentais” de cada um deles, o que implica em contratos de leitura com seu público, aceitação de comportamentos diversos e explica o modo de agir de cada um deles nos episódios selecionados para estudo. O último capítulo traz uma leitura dos episódios selecionados, ressaltando o teor das mensagens que são transmitidas para seu público e desvelando discursos considerados pedagógicos na medida em que servem de modelos ou exemplos de conduta para seus espectadores que têm uma maneira particular de se relacionar com a mídia.. 2. “O conceito é uma atividade mental que produz um conhecimento, tornando inteligível não apenas esta pessoa ou esta coisa, mas todas as pessoas e coisas da mesma espécie [...] é o meio que o indivíduo tem para reconhecer esta coisa (ou outra qualquer da mesma espécie), compreendendo-a, tornando-a inteligível para si [...] Os conceitos, que alguém atualmente possui, não apareceram de repente, de uma só vez, mas foram formados progressivamente e o processo de sua formação continua [...] Um dos pontos mais fundamentais para o desenvolvimento intelectual do ser humano consiste no alargamento, aperfeiçoamento e aprofundamento dos conceitos, dando ao indivíduo uma visão, cada vez mais precisa e adequada, de si e do mundo em que vive” (RUDIO, 2003, p.23-24)..
(14) 13. 1. METODOLOGIA Diversos autores como Luna (2002), Rudio (2003) e Santaella (2001), por exemplo, ressaltam em suas obras que uma pesquisa pesquisa pode tornar-se uma experiência frustrante caso não se saiba, desde o princípio, não só onde se quer chegar, mas principalmente como chegar. Face ao caráter exploratório da pesquisa e à definição do problema, hipótese e objetivos, a análise do discurso foi escolhida por ter como objetivo compreender como objetos simbólicos produzem sentidos, que artifícios utiliza o enunciador para que seus objetivos interpretativos sejam alcançados. Ela vai além da interpretação lexical e da construção de enunciados interdependentes, aprofundando a interpretação ao emergir mecanismos e marcas que permitiram a compreensão do fenômeno da transmissão de alguns significados. Não existe, porém, uma única maneira de aplicar os pressupostos da análise do discurso. Foram utilizadas balizas conceituais que fundamentaram o desenvolvimento da pesquisa, processo explicado por Eni Orlandi, em “Análise de discurso: princípios e procedimentos” (2003): Face ao dispositivo teórico da interpretação, há uma parte que é da responsabilidade do analista e uma parte que deriva da sua sustentação do rigor do método e no alcance teórico da Análise de Discurso. O que é de sua responsabilidade é a formulação da questão que desencadeia a análise [...] é essa responsabilidade que organiza sua relação com o discurso levando-o à construção de ‘seu’ dispositivo analítico, optando pela mobilização desses ou aqueles conceitos, esse ou aquele procedimento, com os quais ele se compromete na resolução de sua questão. Portanto, sua prática de leitura, seu trabalho com a interpretação, tem a forma de seu dispositivo analítico [...] o dispositivo teórico, que objetiva mediar o movimento entre a descrição e a interpretação, sustenta-se em princípios gerais da Análise de Discurso enquanto uma forma de conhecimento com seus conceitos e método. [...] Feita a análise, e tendo compreendido o processo discursivo, os resultados vão estar disponíveis para que o analista os interprete de acordo com os diferentes instrumentais teóricos dos campos disciplinares nos quais se inscreve e de que partiu (p. 27-28, grifo nosso).. A primeira etapa da investigação, naturalmente, constituiu-se por uma aproximação com o objeto pesquisado e investigação teórica. O desenho animado infantil “Bob Esponja” – criado por Stephen Hillenburg, um ex-professor de Biologia Marinha – é produzido e transmitido pelo canal de TV por assinatura Nickelodeon. Foi criado em 1998, nos Estados Unidos e chegou à programação da Nickelodeon Brasil no ano 2000, sendo exibido diariamente. Sua exibição, nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2005 era assim.
(15) 14. distribuída: de segunda a quarta-feira às 2h, 12h30 e 19h30; de quinta a sexta-feira às 2h e 12h30 e aos sábados e domingos às 6h e 13h30.. Horário 02h00. Segunda. Terça. Quarta. Quinta. Sexta. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. 06h00 12h30. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. Domingo. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. Bob Esponja. 13h30 19h30. Sábado. Bob Esponja. Disponível em: <http://www.mundonick.com.br>. Acesso em 05 jan. 2005.. Cada um destes blocos dura trinta minutos e são apresentados dois episódios, entrecortados por comerciais. Cada episódio do “Bob Esponja” tem aproximadamente onze minutos considerando o tempo de exibição linearmente. Nos meses de fevereiro e março de 2005 foi feita a gravação diária dos episódios: durante a semana ao meio dia e meia e aos finais de semana às treze horas e trinta minutos (sublinhados na tabela acima). Esta decisão de gravar apenas um bloco por dia deveu-se ao fato de que os mesmos episódios eram transmitidos nos diferentes horários. No total foram 59 (cinqüenta e nove) dias de gravação, que resultaram em 118 (cento e dezoito) episódios. Muitos deles, porém, eram repetidos, o que resultou em um total de 74 (setenta e quatro) episódios diferentes. Este processo permitiu que fossem observadas as características gerais do objeto e que fosse feita uma pré-análise de seu conteúdo, permitindo a seleção do material empírico. Por motivações teóricas e analíticas, optou-se por utilizar a “amostra intencional”, ou seja, para execução da pesquisa, foram selecionados quatro episódios que representassem situações que a pesquisadora julgou representativas e pertinentes ao objetivo do estudo. Procurou-se buscar enredos que tratassem de situações ou conceitos que pudessem ser vivenciadas pelo público infantil. O assunto em torno do qual o enredo se desenvolveu foi chamado de tema. Os episódios escolhidos foram: a) Beijos da vovó – tema família; b) Chocolate com nozes – tema mentira; c) Espuma – tema doença; d) Os jogos do mestre-cuca – tema disputa. Esta seleção intencional da amostra é considerada válida pela análise do discurso, uma vez que:.
(16) 15. A delimitação do corpus não segue critérios empíricos (positivistas) mas teóricos. [...] Não se objetiva, nessa forma de análise, a exaustividade que chamamos horizontal, ou seja, em extensão, nem a completude, ou exaustividade em relação ao objeto empírico.[...] A exaustividade almejada – que chamamos vertical – deve ser considerada em relação aos objetivos de análise a à sua temática. Essa exaustividade vertical, em profundidade, leva a conseqüências teóricas relevantes e não trata os ‘dados’ como meras ilustrações. Trata de ‘fatos’ da linguagem com sua memória, sua espessura semântica, sua materialidade lingüístico-discursiva. Assim, a construção do corpus e a análise estão intimamente ligadas; decidir o que faz parte do corpus já é decidir acerca de propriedades discursivas. Atualmente, considera-se que a melhor maneira de atender à constituição do corpus é construir montagens discursivas que obedeçam critérios que decorrem de princípios teóricos da análise de discurso, face aos objetivos de análise, e que permitam chegar a sua compreensão. Esses objetivos,em consonância com o método e os procedimentos, não visa a demonstração mas a mostrar como um discurso funciona produzindo (efeitos de) sentidos (ORLANDI, 2003, p. 62-63, grifo nosso).. Optou-se por utilizar no corpo do trabalho frames dos episódios que colaboravam com a compreensão de sua linguagem não-verbal e por transcrever na íntegra os diálogos dos quatro episódios selecionados. A transcrição proporcionou maior aproximação com os discursos e ilustrou etapas do trabalho, uma vez que “é na superfície dos textos que podem ser encontradas as pistas ou marcas deixadas pelos processos sociais de produção de sentidos que o analista vai interpretar” (PINTO, 2002, p. 26). Este procedimento foi importante para a compreensão do contexto interpretativo do infantil “Bob Esponja” e tornou possível observar como esse produto audiovisual apresenta seus significados e quais discursos emergem de sua linguagem. Importante ressaltar que não foram selecionados episódios que tratassem da questão escolar porque nenhum dos personagens freqüenta a escola. Bob Esponja freqüenta apenas a escola de pilotagem, mas esse mote não é freqüente, já que dos setenta e quatro episódios diferentes, apenas três eram relacionados à escola de pilotagem e neles o que se privilegia não é o contexto escolar, mas algumas confusões que o personagem causa quando está tentando pilotar um barco. Seus pais também não fazem parte da análise diretamente porque Bob Esponja mora sozinho. Seus pais apareceram apenas em um episódio, “Lar doce abacaxi”, no qual o abacaxi onde Bob Esponja mora é devorado por vermes. A tentativa de morar com o amigo Patrick foi frustrada (pois este mora sozinho em uma pedra porque é uma estrela-domar) e no instante em que seus pais estacionam o barco em frente ao que restou da casa para levá-lo (único momento em que eles aparecem) um novo abacaxi “brota”, porque havia restado uma semente que foi germinada instantaneamente com uma lágrima do Bob Esponja..
(17) 16. 2. QUADRO TEÓRICO DE REFERÊNCIA Ao abordar os temas “pesquisa” ou “conhecimento científico”, uma série de pressuposições e estereótipos vêm à mente: o cientista louco, fórmulas incríveis em uma lousa, teorias de compreensão quase impossível...Na realidade, porém, a pesquisa faz parte do dia a dia e está presente nos mais simples ensinamentos da escola e atividades domésticas até nos complexos trabalhos científicos. Cabe, então, diferenciar a pesquisa do cotidiano da que gera conhecimento científico. Rudio (2003, p.9) esclarece que: “Pesquisa”, no sentido mais amplo, é um conjunto de atividades orientadas para a busca de um determinado conhecimento. A fim de merecer o qualificativo de científica a pesquisa deve ser feita de modo sistematizado, utilizando para isto método próprio e técnicas específicas e procurando um conhecimento que se refira à realidade empírica. Os resultados, assim obtidos, devem ser apresentados de forma peculiar.. A realidade empírica é entendida como aquela que pode ser verificada através da experiência e que é revelada por meio de fatos, termo aqui entendido como qualquer coisa que exista na realidade. São considerados fenômenos empíricos, além dos físicos e fisiológicos também os psíquicos, e qualquer outro que possa ser observado direta ou indiretamente (RUDIO, 2003, p.9-12). A questão do método é determinante para a execução de uma pesquisa científica. Gil (1999, p.26) e Rudio (2003, p. 17) concordam que o método pode ser definido como o caminho que o pesquisador irá percorrer para a execução de sua pesquisa. Este caminho, mais do que um “modelo de procedimentos” a serem seguidos determinará a orientação do pensamento reflexivo do pesquisador. Metodologia é o nome normalmente dado ao conjunto de métodos e técnicas utilizadas para a realização de determinada pesquisa. Luna (2002, p. 13-14) afirma que o sentido da palavra metodologia tem mudado com o passar do tempo, juntamente com o status conferido a ela no contexto da pesquisa. O que antes era visto como uno foi desmembrado e hoje podese falar em “Métodos e Técnicas” para a disciplina instrumental e “Quadro TeóricoMetodológico” para a orientação do pensamento reflexivo do pesquisador citado no parágrafo anterior. “Em outras palavras, abandonou-se (ou vem-se abandonando) a idéia de que faça qualquer sentido discutir a metodologia fora de um quadro teórico que, por sua vez, é condicionado por pressupostos epistemológicos” (LUNA, 2002, p.14)..
(18) 17. O quadro “teórico de referência”, também chamado de “teórico-metodológico” ou “teórico-epistemológico” deve nascer das exigências que o objeto pesquisado e os objetivos pretendidos criam e não apenas da simpatia do pesquisador por determinada linha ou qualquer outra razão menos relevante. “Problemas específicos exigem soluções específicas, do mesmo modo que soluções específicas só podem ser encontradas por meio do auxílio de teorias que se adequam às soluções buscadas” (SANTAELLA, 2001, p.183). O pesquisador é um intérprete da realidade pesquisada segundo seu método e sua postura teórico-epistemológica, como caracteriza Luna (2002, p.14). A teoria orienta, restringindo a amplitude dos fatos a serem estudados; conceitualiza e classifica conceitos; resume conhecimentos existentes sobre o assunto; prevê fatos e conseqüências; indica lacunas no conhecimento do pesquisador (GOODE; HATT, 1989, p. 13-18). Para o presente estudo, o enquadramento teórico mais relevante é a análise do discurso. O interesse pelos estudos interpretativos tem suas origens na antiga cultura grega, inicialmente utilizada para a interpretação de oráculos e práticas retóricas. Pouco a pouco, estendeu-se para os textos de uma maneira geral. Uma das primeiras práticas interpretativas utilizada para os textos literários foi a hermenêutica, que era especializada na interpretação de quaisquer textos (PINTO, 2002, p. 14-15). Assim, traz algumas semelhanças conceituais e de pressupostos com a análise do discurso (que será evocada em todas as etapas da análise do objeto), especialmente na sua origem interdisciplinar e no trato com a questão da linguagem e da interpretação. Nesta etapa, se buscará compreender do que trata a hermenêutica. Paul Ricoeur, em sua coletânea de artigos publicados nos anos setenta e oitenta intitulada “Do texto à ação”, de 1986, defende que a hermenêutica, sendo uma teoria filosófica da interpretação, elaborada e desenvolvida primeiramente na sua aplicação a signos, símbolos e textos, pode revelar-se igualmente eficaz e produtiva em relação à ação humana e suas estruturas temporais (RICOEUR, 1989, p.05). Ele relaciona texto, ação e história, sem enxergar nenhum destes elementos (nem a própria hermenêutica) como estática ou imutável. Pode-se inferir que, para ele, trata-se de um processo. O discurso, aqui entendido como o texto, a fixação do acontecimento de linguagem, é autônomo e através dele é possível “descobrir” a intencionalidade do produtor deste discurso e o contexto no qual estava inserido (RICOEUR, 1989, p.04-06). [...] a linguagem mais do que descrever a realidade, revela-a e cria-a. A nossa relação como o real não é direta, mas sempre mediatizada por ‘configurações’ e ‘refigurações’. São elas que ordenam, criam congruência e dão forma, sentido e ordem à experiência humana (RICOEUR, 1989, p.09)..
(19) 18. A interpretação do receptor deste discurso é uma grande ocupação desta linha de pensamento, mas como este estudo não trata sobre a recepção e sim sobre a produção, não discorrerá sobre este aspecto. Ricoeur propõe a existência de uma “unidade funcional entre os múltiplos modos e gênero narrativos” (1989, p.24), sobre a qual trata Bakhtin (autor da análise do discurso) e também o que, com os conhecimentos de análise do discurso pode-se chamar de polifonia, quando julga importante “[...] pôr à prova a capacidade de seleção e organização da própria linguagem, quando esta se estrutura em unidades de discurso mais longas que a frase a que podemos chamar textos” (RICOEUR, 1989, p. 25). Para este estudo, a afirmação a seguir foi transportada para o campo da comunicação mediada, indo além da escrita e mais especificamente para a construção discursiva do desenho animado infantil “Bob Esponja”, embasando o caráter ideológico, contextual e passível de interpretação presentes nesta produção: “Graças a escrita, o discurso adquire uma tripla autonomia semântica: em relação à intenção do locutor, à recepção pelo auditório primitivo, às circunstâncias econômicas, sociais, culturais da sua produção” (RICOEUR, 1989, p. 42). A seguir, define a “tarefa” da hermenêutica: Uma vez liberta do primado da subjetividade, qual poderá ser a primeira tarefa da hermenêutica? É procurar, no próprio texto, por um lado, a dinâmica interna que preside à estruturação da obra, por outro lado, o poder de a obra se projetar para fora de si mesma e engendrar um mundo que seria, verdadeiramente, a ‘coisa’ do texto. Dinâmica interna e projeção externa constituem aquilo a que eu chamo o trabalho do texto. A tarefa da hermenêutica é a de reconstruir este duplo trabalho do texto (RICOEUR, 1989, p. 43).. Sua outra obra, “Interpretação e Ideologias”, de 1990, também colabora para o maior entendimento da “apropriação” da hermenêutica na orientação do pensamento reflexivo deste trabalho. Ele deixa claro a saída do nível do texto (semântico) para o nível do discurso propriamente dito, no qual a referência (entendida aqui como o contexto) de produção e recepção passa a ser considerado, e a importância deste contexto no ato interpretativo. O que interessa, na presente discussão, é que a polissemia das palavras recorre, em contrapartida, ao papel seletivo dos contextos relativamente à determinação do valor atual que adquirem as palavras numa mensagem determinada, veiculada por um locutor preciso a um ouvinte que se encontra numa situação particular. [...] Produzir um discurso relativamente unívoco com palavras polissêmicas, identificar essa intenção de univocidade na recepção das.
(20) 19. mensagens, eis o primeiro e mais elementar trabalho da interpretação (RICOEUR, 1990, p. 19). Este livro é dividido em quatro partes. A primeira, “Funções da hermenêutica”, é dividida em dois capítulos, sendo o segundo “Função hermenêutica do distanciamento”, mais relevante para este estudo e flagrante das congruências com a análise do discurso. Primeiramente ele propõe a organização da problemática da noção do texto em cinco temas: a efetuação da linguagem como discurso, a efetuação do discurso como obra estruturada, a relação da fala com a escrita no discurso, a obra do discurso como projeção de um mundo, o discurso e a obra de discurso como mediação da compreensão de si. Define que todos estes critérios juntos constituem os critérios da textualidade (RICOEUR, 1990, p.44). Apesar de num primeiro momento realizar a “lingüística imanente”, a análise do texto no texto, logo extrapola estas condições e determina, citando Austin e Searle (importantes também para a análise de discursos), os “atos de discurso”, divididos para melhor compreensão em três níveis: nível do ato locucionário (ato de dizer); nível do ato ilocucionário (aquilo que fazemos ao dizer) e nível do ato perlocucionário (aquilo que fazemos pelo ato de falar). Ricoeur levanta três questões que podem adaptar-se ao contexto cotidiano de trocas simbólicas mediadas: primeiro o “distanciamento que a ficção introduz em nossa apreensão do real”, já que “um relato, um conto ou um poema não existem sem referente. Mas esse referente estabelece uma ruptura como o da linguagem cotidiana. Pela ficção, pela poesia, abrem-se novas possibilidades de ser-no-mundo na realidade cotidiana” (RICOEUR, 1990, p.56); segundo que a apropriação faz parte do processo de comunicação e está ligada ao distanciamento citado acima. A apropriação é a “compreensão pela distância, compreensão a distância” (RICOEUR, 1990, p.58), e responde ao texto, não ao autor, ou seja, o processo de compreensão não dependerá somente das aspirações do produtor, mas do universo sóciocultural no qual está inserido o receptor e a própria mensagem. Terceiro, que é impossível distanciar a hermenêutica das ideologias presentes em todo ato discursivo. Thompson (2002, p. 355-356) discute a “Metodologia da Interpretação” e a “Hermenêutica de Profundidade”. Esta, segundo ele, é um eficiente referencial metodológico para tratar de construções simbólicas, considerando que estas construções simbólicas estão inseridas em contextos sociais e históricos variados:. [...] a HP [hermenêutica de profundidade] apresenta, não tanto uma alternativa aos métodos de análise existentes, mas um referencial.
(21) 20. metodológico geral, dentro do qual alguns desses métodos podem ser situados e ligados entre si [...] Ela nos possibilitará mostrar como diferentes enfoques da análise da cultura, ideologia e comunicação de massa podem ser inter-relacionados de uma maneira sistemática, combinados dentro de um movimento de pensamento coerente, que iluminará diferentes aspectos desses fenômenos multifacetados (THOMPSON, 2002, p.356).. A hermenêutica também define que o “campo-objeto” da investigação social é um “campo-sujeito”, que apresenta uma “lógica” própria, ou seja, os desenhos animados além de objetos são sujeitos, inseridos em determinado contexto, em determinada tradição histórica (THOMPSON, 2002, p.359-360). Thompson critica Ricoeur quando lembra que uma análise que se detém apenas aos “textos” é muito parcial, sendo indispensável a questão do contexto sócio-histórico específico no qual as formas simbólicas estão construídas “A produção, a circulação e recepção de formas simbólicas são processos que acontecem dentro de contextos ou campos historicamente específicos e socialmente estruturados” (THOMPSON, 2002, p.368). Mas pondera que a HP também trabalha com o caráter ideológico das formas simbólicas: A análise da produção e transmissão é essencial à interpretação do caráter ideológico das mensagens, pois ele lança uma luz sobre as instituições e as relações sociais dentro das quais essas mensagens são produzidas e difundidas, bem como sobre as afirmações e pressupostos dos produtores (THOMPSON, 2002, p.395).. Ao esclarecer quais são as três tradições de pensamento particularmente relevantes para seus estudos, este autor define a hermenêutica como segue: A hermenêutica ensina que a recepção das formas simbólicas – incluindo os produtos da mídia – sempre implica um processo contextualizado e criativo de interpretação, no qual os indivíduos se servem dos recursos de que dispõem, para dar sentido às mensagens que recebem. Ela também chama a nossa atenção para o fato de que a atividade de ‘apropriação’ faz parte de um processo mais extenso de formação pessoal, através do qual os indivíduos desenvolvem um sentido, para eles mesmos e para os outros, de sua história, de seu lugar no mundo e dos grupos sociais a que pertencem. Ao enfatizar o caráter criativo, construtivo e socialmente vinculado da interpretação, a hermenêutica converge com alguns estudos etnográficos sobre a recepção dos produtos da mídia, enquanto ao mesmo tempo enriquece este trabalho com os recursos de uma tradição interessada no elo de ligação entre a interpretação e a formação do eu (THOMPSON, 2004, p.17)..
(22) 21. Portanto, ela poderia ser fundamento para um estudo de recepção (que não é o caso) e para o estudo do produto audiovisual em si, como demonstra a tabela a seguir que resume as três fases do enfoque da hermenêutica de profundidade com seus diferentes tipos de análise:. Situações espaço-temporais Campos de interação Análise sócio-histórica. Instituições sociais Estrutura social Meios técnicos de transmissão. Referencial. Análise semiótica. metodológico da. Análise formal ou. Análise da conversação. hermenêutica de. discursiva. Análise sintática. profundidade. Análise narrativa Análise argumentativa Interpretação/ re-interpretação. Formas de investigação hermenêutica (THOMPSON, 2002, p.365). Este estudo tratou, portanto, de duas das etapas citadas na tabela: a Análise sóciohistórica (quando considera as particularidades da televisão como o “meio técnico de transmissão”) e a Análise formal ou discursiva. Para esta etapa, no entanto, utilizou a análise do discurso como referencial teórico, considerando-a como uma “evolução” da prática interpretativa da hermenêutica, pois de acordo com Milton José Pinto (2002, p. 15) esta, ao buscar interpretar quaisquer tipos de textos reconstituindo seu sentido semântico original buscava impor uma interpretação privilegiada. A análise do discurso é extremamente preocupada com os processos interpretativos, porém de maneira mais abrangente e sem a preocupação com literalidades: interessa o processo, o todo discursivo. Como o que se quer dizer é dito e interpretado, dentro de condições de produção, emissão e recepção bastante específicas. O sentido não é anterior à decodificação, mas constituído por ela (KOCH, 1984, p. 26). A Análise de Discurso (AD daqui para frente) restitui ao fato de linguagem sua complexidade e sua multiplicidade (aceita a existência de diferentes linguagens) e busca explicitar os caracteres que o definem em sua.
(23) 22. especificidade, procurando entender o seu funcionamento. Isto porque a AD trabalha não só com as formas abstratas, mas com as formas materiais da linguagem. E todo processo de produção de sentidos se constitui em uma materialidade que lhe é própria. Assim, a significância não se estabelece na indiferença dos materiais que as constituem, ao contrário, é na prática material significante que os sentidos se atualizam, ganham corpo, significando particularmente (ORLANDI, 1996, p. 461).. Esta perspectiva teórica tem no russo Mikhail Bakhtin seu fundador, mas suas origens remetem aos estudos da semiótica e da lingüística. Esta, inaugurada por Ferdinand de Saussure em seu “Curso de Lingüística Geral” (resultado de anotações de aulas reunidas e publicadas por dois de seus alunos) de 1916, entendia o texto como ambiente de análise que supera a gramática normativa, mas considerava como “linguagem” apenas a verbal, oral e a escrita. A linguagem era entendida como um sistema de signos, como uma estrutura sistemática, e estabeleceu-se uma dicotomia fundamental: a distinção entre “língua” (âmbito social) e “fala” (âmbito pessoal). Até a década de 60 os estudos de linguagem preocupavam-se somente com a estrutura da língua, com sua constituição, e partia-se do pressuposto de que o significado estaria no código. Era a “lingüística imanente”. Esta, porém, desconsiderava fatores importantes quando se objetiva total compreensão do processo lingüístico. As tentativas de explicar o funcionamento da linguagem somente ao nível da lingüística imanente, ou seja, condicionar os fatores de uso aos fatores internos ao sistema lingüístico, se mostram parciais e não satisfazem um olhar mais abrangente e mais explicativo sobre a linguagem (ORLANDI, 1987, p. 88).. A lingüística estava sedimentada no estruturalismo, e com o passar do tempo e a amplitude das necessidades de novas explicações para os fenômenos lingüísticos, passou a não dar conta da análise de um texto. Percebeu-se que era importante entender o processo da linguagem, já que “enquanto ‘língua’ se refere exclusivamente à linguagem verbal, ‘linguagem’ se refere a qualquer tipo possível de produção de sentido, por mais ambíguo, vago e indefinido que seja esse sentido” (SANTAELLA, 1996, p.312). Foram introduzidos outros elementos, como as características do enunciador, do enunciatário e as condições nas quais determinado discurso é emitido, ao observar-se que esses fatores interferiam diretamente no processo de significação. Porém, na lingüística e nas contribuições que recebeu de outras ciências posteriormente, a noção de estrutura não se desfez, passou-se ao chamado pós-estruturalismo, isto porque:.
(24) 23. Cada elemento do sistema, além de revelá-lo, só adquire sentido no interior do sistema e por referência a outros elementos. Nada tem significação por si só, mas sim por não ser outro. O princípio de diferenciação está na base deste tipo de pensamento. A coisa não vale pelo que ela é, mas por sua relação opositiva com outros elementos, pelo que ela não é (ARAÚJO, 1998, p.121).. Essa relação opositiva múltipla somada às interferências que a realidade social do falante causa em sua linguagem gerou um dos marcos da análise do discurso, a obra “Marxismo e filosofia da linguagem” (BAKHTIN, 1981), cuja primeira edição é de 1929, na qual são apontadas essas relações sociais como agentes transformadores dos processos de linguagem e reapresentada a questão da ideologia como inerente a qualquer processo comunicacional. O signo é ideológico por excelência e a realidade é determinada pelo signo, que reflete e refrata a transformação desta realidade (BAKHTIN, 1981, p. 32). Relaciona-se com o conceito de “língua viva”, em constante transformação e ressignificação, e quer dizer que as construções simbólicas que o homem utiliza para se expressar podem tentar espelhar uma realidade, e até refleti-la, mas não sem alterar um pouco sua angulação. A análise do discurso é, então, uma convergência de disciplinas, pois se fundamentou na Lingüística, no Marxismo e na Psicanálise. Além disso, ela praticou uma renovação de práticas de estudos e desta forma vem preencher uma lacuna representando um grande avanço nos estudos de linguagem, já que extrapola o texto, capta as diferentes significações e intencionalidades que permeiam o texto e interferem na apreensão de seu todo. Orlandi (2003, p.15) explica melhor: Há muitas maneiras de se estudar a linguagem: concentrando nossa atenção sobre a língua enquanto sistema de signos ou como sistema de regras formais, e temos então a Lingüística; ou como normas de bem dizer, por exemplo, e temos a Gramática normativa. [...] A análise de discurso, como seu próprio nome indica, não trata da língua, não trata da gramática, embora todas estas coisas lhe interessem. Ela trata do discurso. E a palavra discurso, etimologicamente, tem em si a idéia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando.. Muitos autores passaram a embasar seus estudos sobre processos de linguagem na corrente teórica da análise do discurso, escapando da citada “análise imanente” que, em um mundo em constante transformação, já não responde satisfatoriamente às necessidades dos estudos porque isola a socialização da linguagem e seu processo interno (psíquico e ideológico) de produção..
(25) 24. A fronteira que separa o lingüístico e o discursivo é sempre colocada em causa em toda prática discursiva, e é próprio da relação entre língua e discurso que as regras fonológicas, morfológicas e sintáticas – que são as condições materiais de base sobre as quais se desenvolvem os processos discursivos – sejam objeto de recobrimentos e de apagamentos parciais. Daí a proposta da AD de uma teoria não subjetiva da enunciação, pois o lingüístico e o discursivo se comunicam (ORLANDI, 1987, p. 101).. A análise do discurso configura-se, portanto, como um campo de pesquisa, uma prática metodológica e um viés epistemológico. Apresenta uma série de pressupostos, e um dos principais é a noção do discurso como prática social. Isto implica que tanto a linguagem verbal quanto outras semióticas com as quais são construídos os textos estão inseridas num contexto sócio-histórico mais amplo e não se encerram em si. O analista de discursos é uma espécie de detetive sociocultural. Sua prática é primordialmente a de procurar e interpretar vestígios que permitem a contextualização em três níveis: o contexto situacional imediato, o contexto institucional e o contexto sociocultural mais amplo, no interior dos quais se deu o evento comunicacional (PINTO, 2002, p.26).. O significado de uma palavra não estará no sistema da língua, enquanto estrutura, mas na sociedade que a criou, reelaborou seu significado, a utilizou num determinado contexto, numa determinada formação ideológica ou discursiva. A linguagem não é mero instrumento do homem, é ela que constitui o homem. As línguas carregam uma história, trazem nelas as marcas de uso anteriores, e essa carga de passado entrava a renovação do homem e as mudanças em sua história. Não basta, pois, usar a linguagem com o intuito de comunicar sentidos novos, é preciso trabalhar suas formas, libertá-la do que ela tem de estereotipado, de velho. Nenhuma linguagem é transparente ou inocente, e as que assim se propõem são suspeitas: toda linguagem que se ignora é de má fé (BARTHES, 1988, p. 19).. Barthes (1978, p. 11-12) entende o viés ideológico da linguagem como a intersecção desta com o “poder”, que estaria presente em todo e qualquer mecanismo de intercâmbio social, não sendo inerente apenas ao Estado: [...] mas ainda nas modas, nas opiniões correntes, nos espetáculos, nos jogos, nos esportes, nas informações, nas relações familiares e privadas [...] o poder é o parasita de um organismo trans-social, ligado à história inteira do homem, e não somente à sua história política, histórica. Esse objeto em que se inscreve o poder, desde toda a eternidade humana é a linguagem – ou, para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua..
(26) 25. Santaella (1996), Orlandi (1987), Koch (1984) e Pinto (2002) concordam que nenhum discurso está desvinculado de intencionalidade, mas carregado de ideologias3, havendo sempre um sentido oculto a ser desvelado, um “querer-dizer”. Este trabalho se apropria deste conceito quando pressupõe que o discurso do desenho animado, permeado pela ideologia de seus produtores, pode apresentar uma fusão de discursos e acabar incorrendo em uma mensagem final de caráter ideológico. Não há discurso neutro, não há nem postura analítica neutra, visto que a seleção dos termos utilizados, o caminho percorrido, os objetivos, a construção textual estão sempre permeados pela ideologia do produtor do enunciado. A ideologia caminha entre as interações sociais. Por outro lado, por meio do discurso – ação verbal dotada de intencionalidade – tenta influir sobre o comportamento do outro ou fazer com que compartilhe determinadas de suas opiniões. É por esta razão que se pode afirmar que o ato de argumentar constitui o ato lingüístico fundamental, pois a todo e qualquer discurso subjaz uma ideologia, na acepção mais ampla do termo. A neutralidade é apenas um mito: o discurso que se pretende ‘neutro’, ingênuo, contém também uma ideologia – a da sua própria objetividade (KOCH, 1984, p. 19).. Pinto (2002, p. 26) observa também que é na análise direta dos textos que se pode encontrar os indícios que levarão a compreender com que intenções eles foram produzidos e como eles produzem sentidos. A análise de discurso visa fazer compreender como os objetos simbólicos produzem sentidos, analisando assim os próprios gestos de interpretação que ela considera como atos no domínio simbólico, pois eles intervêm no real do sentido. A análise de discurso não estaciona na interpretação, trabalha seus limites, seus mecanismos, como parte dos processos de significação (ORLANDI, 2003, p. 26).. A principal contribuição da análise do discurso é de ser uma ferramenta metodológica que fornece balizas conceituais e fez emergir do discurso do desenho animado estudado os elementos buscados para que fosse compreendida sua linguagem, considerando as especificidades do veículo onde este é exibido, do conteúdo do desenho e do público pretendido. Não basta entender apenas o que determinado episódio do desenho “disse”.. 3. “A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar [...]. Ela é, portanto, um corpo explicativo (representações) e prático (normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador [...]” (CHAUI, 2003, p. 108)..
(27) 26. A análise do discurso não procura só compreender o que o texto diz ou mostra, mas como ele o diz ou o mostra (PINTO, 2002, p. 27). [...] a análise de discursos procura descrever, explicar e avaliar criticamente os processos de produção, circulação e consumo dos sentidos vinculados àqueles produtos na sociedade. Os produtos culturais são entendidos como textos, como formas empíricas do uso da linguagem verbal, oral ou escrita, e/ou de outros sistemas semióticos no interior de práticas sociais contextualizadas histórica e socialmente (PINTO, 2002, p. 11).. Dessa forma, a análise do discurso pode ser considerada como a análise dos processos de construção de significados. Interessa-se em observar e despreender dos textos – lembrando que, para a análise de discurso tudo que produz significado, seja verbal ou não verbal, intencional ou não é considerado um texto – sua materialidade significante e ideológica. Pretende desvelar a intencionalidade atingindo um enunciatário (receptor) e exigindo dele um esfoço de interpretação e ressignificação. A completude dos significados, como apontado em outras teorias, está em quem recebe a mensagem, não em quem a emite. Outros dois importantes aspectos que as linguagens necessariamente envolvem estão, primeiro, no seu poder de referencialidade do qual decorrem os graus de aplicabilidade da linguagem a algo que está fora dela, o chamado referente, e que ela, de modo mediato, torna presente. Segundo, o poder interpretativo da linguagem, quer dizer, os efeitos de interpretação que ela está apta a produzir no receptor (SANTAELLA, 1996, p. 316-317).. Torna-se evidente que o significado de uma palavra não se encontra inerente a ela, dependendo (no mínimo) das condições de sua produção, da intencionalidade de seu enunciador e da propensão deste receptor a apreender determinada ideologia, determinado conceito. Na prática analítica isto não é tão simples assim. A análise de discurso fornece, então, alguns conceitos e pré-determinações que sistematizam e favorecem a atividade de pesquisa do analista. Assim, apresenta alguns termos próprios, como enunciador (que emite a mensagem); enunciatário (o receptor); enunciação (o momento histórico no qual o enunciador emite a mensagem); campo discursivo (diferentes orientações discursivas que se equilibram dentro de um mesmo contexto discursivo, “oposição de ideologias”); cena de enunciação (espaço onde ocorre a enunciação e que influencia em todo o processo significativo por ser parte do contexto de produção); postos, pressupostos e subentendidos do enunciado; entre outros (PINTO, 2002; ORLANDI, 1987; KOCH, 1984, MAINGUENEAU, 2004)..
(28) 27. O termo condições de produção representa o momento histórico e social no qual determinada enunciação foi realizada. É indissociável de qualquer estudo em análise de discurso, pois determina as implicações inerentes à produção do significado e sua interpretação. “Enunciação é o ato de produção de um texto e se opõe a enunciado, que é o produto cultural produzido, o texto materialmente considerado” (PINTO, 2002, p. 32). As condições de produção determinam o terreno no qual a enunciação será realizada. A Teoria da Enunciação tem por postulado básico que não basta ao lingüista preocupado com questões de sentido descrever os enunciados efetivamente produzidos pelos falantes de uma língua: é preciso levar em conta, simultaneamente, a enunciação - ou seja, o evento único e jamais repetido de produção do enunciado. Isto porque as condições de produção (tempo, lugar, papéis representados pelos interlocutores, imagens recíprocas, relações sociais, objetivos visados na interlocução) são constitutivas do sentido do enunciado: a enunciação vai determinar a que título aquilo que se diz é dito”. (KOCH, 1995, p.14).. O texto apresenta um contexto, que é tudo que o cerca. Engloba os elementos lingüísticos da mensagem (verbais e não-verbais) e os não lingüísticos, como sua sustentação sócio-cultural, a emissora na qual é transmitido o desenho animado e o fato de ser uma produção para televisão. O contexto pode ser observado de duas maneiras: o contexto situacional imediato - mais restrito, referente às características da mensagem do produto audiovisual em si, por exemplo - e o contexto situacional ampliado - que valoriza as condições de produção, tudo o que cerca o produto e possibilita sua transmissão (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 124). Intrínseco ao conceito de condições de produção está o de contrato de comunicação, que é empregado para designar “o que faz com que o ato de comunicação seja reconhecido com válido do ponto de vista do sentido. É a condição para os parceiros de um ato de linguagem se compreenderem minimamente e poderem interagir, co-construindo o sentido [...]” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 130). Possivelmente, é o contrato de comunicação estabelecido entre os desenhos animados e as crianças que colabora na apreensão de sentidos, na fidelidade com o conteúdo, na construção da verossimilhança no caso do Bob Esponja, por exemplo. Isto pode ser chamado também de “leis do discurso”, ou seja, regras previamente estabelecidas, porém não necessariamente explicitadas que permitem a significação no processo comunicacional. O simples fato de entrar em um processo de comunicação verbal implica que se respeitem as regras do jogo. Isso não se faz por meio de um contrato.
(29) 28. explícito, mas por um acordo tácito, inseparável da atividade verbal. Entra em ação um saber mutuamente conhecido: cada um postula que seu parceiro aceita as regras e espera que o outro as respeite (MAINGUENEAU, 2001, p.31).. Essas leis são definidas por Maingueneau (2001, p. 34-37) como lei da pertinência – implica que uma enunciação deve interessar ao destinatário e estar vinculada ao contexto em que se desenvolve; lei da sinceridade – que espera o envolvimento do enunciador no ato de fala que realiza. Relaciona-se com a importância que o enunciador deve dispensar à sua mensagem para que esta possa transmitir credibilidade: A segunda fase do enunciado, que lhe determina a composição e o estilo, corresponde a necessidade de expressividade do locutor ante o objeto de seu enunciado. A importância e a intensidade desta fase expressiva variam de acordo com as esferas da comunicação verbal, mas existe em toda parte: um enunciado absolutamente neutro é impossível.A relação valorativa com o objeto do discurso (seja qual for esse objeto) também determina a escolha dos recursos lexicais, gramaticais e composicionais do enunciado (BAKHTIN, 1997, p.308).. Lei da informatividade – determina que o conteúdo das mensagens devem ter elementos novos ao destinatário. Do contrário, ele terá que realizar inferências para buscar a compreensão do tema e talvez o processo comunicacional não seja realizado com fidelidade; lei da exaustividade – o enunciador deve ser capaz de avaliar de se expressar sem que haja exagero, um excesso de informação que leve ao descaso com sua mensagem ou falta de informação, que não atende às necessidadesdo destinatário. Em ambos extremos, pode ocorrer a não-comunicação; lei da modalidade – esclarece que deve haver clareza e economia no conteúdo das mensagens e que esta, para fazer sentido, deve encarnar uma materialidade que permita ao destinatário desprender seu significado. Aprendemos a moldar nossa fala às formas do gênero e, ao ouvir a fala do outro, sabemos de imediato, bem nas primeiras palavras, pressentir-lhe o gênero, adivinhar-lhe o volume (a extensão aproximada do todo discursivo), a dada estrutura composicional, prever-lhe o fim, ou seja, desde o início, somos sensíveis ao todo discursivo que, em seguida, no processo da fala, evidenciará suas diferenciações (BAKHTIN, 1997, p.302).. A postura que o enunciador e o destinatário irão assumir em cada uma dessas leis passará pelo gênero de discurso no qual estará sendo realizada a troca de significados. Na análise de discursos, cada texto pertence a um gênero de discursos ou a uma espécie de discursos e em cada um deles, a construção da enunciação é diferente, determinada por.
(30) 29. diferentes contextos de produção, posições ideológicas ou lugares de fala (PINTO, 2002, p.32). Estes gêneros são determinados por diferentes tipos de discursos, presentes em condições sócio-históricas determinadas. Pode-se dizer, por exemplo, que o desenho animado configura-se como um gênero de discurso no interior da tipologia discursiva da televisão (MAINGUENEAU, 2004, p. 63). Este quadro favorece a manutenção do contrato comunicacional, pois enunciador e enunciatário estabelecem uma relação dialógica, ou seja, há uma interação entre enunciador e enunciatário no espaço do discurso, na qual o dialogismo representa a troca, a interação, a condição do sentido do discurso, “em outros termos, concebe-se o dialogismo como o espaço interacional entre o eu e tu, ou entre o eu e o outro no texto” (BARROS, 2003, p. 02-03). De fato, o ouvinte que recebe e compreende a significação (lingüística) de um discurso adota simultaneamente, para com este discurso, uma atitude responsiva ativa: ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, apronta-se para executar, etc., e esta atitude do ouvinte está em elaboração constante durante todo o processo de audição e de compreensão desde o início do discurso, às vezes já nas primeiras palavras emitidas pelo locutor (BAKHTIN, 1997, p.290).. Toda significação é entendida como conseqüência de um acordo entre enunciador e enunciatário, socialmente organizados em um processo de interação. Dessa forma, o processo comunicacional é condicionado tanto pela organização social dos participantes quanto pelas condições em que a interação acontece, em uma condição de produção e em um gênero discursivo específico. A linguagem instituída define um campo de compreensão. A comunicação é a relação que se estabelece entre dois sujeitos situados neste campo, fornecendo-lhes um domínio comum de referência, pano de fundo relativamente ao qual a sua relação momentânea se destaca em primeiro plano (GUSDORF, 1995, p. 56).. Em meio ao processo de interação social, ocorre um fenômeno conceituado pela análise de discurso como polifonia. Esta também acontece no cotidiano das produções artísticas, profissionais e acadêmicas, ou seja, em todos os âmbitos da produção de significado. Está acontecendo, por exemplo, na execução deste estudo quando a pesquisadora, após ler diversos textos, de diferentes autores passa a produzir enunciados que não são só dela, mas que se constituem como um emaranhado de outros discursos, apreendidos em diferentes momentos..
(31) 30. Vozes de outros enunciadores que, por aceitação ideológica e outros processos mentais de aceitação, passam a constituir uma nova voz, carregada de todos eles: [...] a compreensão de um enunciado é sempre dialógica, pois implica a participação de um terceiro que acaba penetrando o enunciado na medida em que a compreensão é um momento constitutivo do enunciado, do sistema dialógico exigido por ele. Isso significa que, de alguma maneira, esse terceiro interfere no sentido total em que se inseriu. Esse jogo dramático das vozes, denominado dialogismo ou polifonia, ou mesmo intertextualidade, é uma forma especial de interação, que torna multidimensional a representação e que, sem buscar uma síntese do conjunto, mas ao contrário uma tensão dialética, configura a arquitetura própria de todo discurso (BRAIT, 2003, p. 25).. As múltiplas vozes com as quais se preocupa a análise do discurso não dizem respeito apenas a “falas” de outras pessoas. VERÓN, apud KOCH (2002, p.47), classifica a intertextualidade profunda, que ocorre nos processos de certos universos discursivos como o dialogismo entre a TV e o cinema. Além deste exemplo claro, no processo de produção de um discurso “há uma relação intertextual com outros discursos relativamente autônomos que, embora funcionando como momentos ou etapas de produção, não aparecem na superfície do discurso ‘produzido’ ou ‘terminado’”. O estudo destes textos pode oferecer uma maior compreensão do processo de produção em si, sendo importante, por exemplo, para este estudo sobre a linguagem de um desenho animado. No decorrer do trabalho estes e outros conceitos serão retomados, de maneira mais ou menos explícitas, uma vez que “[...] a análise de discurso tem um procedimento que demanda um ir-e-vir constante entre teoria, consulta ao corpus e análise. Esse procedimento dá-se ao longo de todo o trabalho” (ORLANDI, 2003, p. 67)..
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