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A CENA ENUNCIATIVA DE "B OB E SPONJA "

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C APÍTULO III – O DESENHO ANIMADO INFANTIL “B OB E SPONJA ”

3. A CENA ENUNCIATIVA DE "B OB E SPONJA "

A enunciação, momento que atribui a cada enunciado uma orientação de leitura, uma significação almejada, é diretamente ligada ao contexto no qual essa enunciação é feita. Assim, enunciados e situações vivenciadas no desenho animado “Bob Esponja” podem não “caber” em outro desenho animado. Cada texto, cada construção significativa, responde a uma estrutura interna que lhe confere sentido, que permite além de sua inteligibilidade, sua compreensão (determinada pelas construções discursivas em si, dos elementos fornecidos durante os episódios de “Bob Esponja”, por exemplo) e sua interpretação (que dependerá de outros fatores, como predisposição a aceitação do conteúdo, mediações familiares e escolares, experiências pessoais da audiência).

A análise do discurso confere a esta estrutura interna o nome de “cena de enunciação”, na qual defende-se que a enunciação acontece em um espaço instituído, que é definido de maneira mais ampla pelo gênero de discurso (desenho animado), e também pela dimensão construtiva de determinado discurso (como o específico do desenho animado infantil “Bob Esponja”). Esses espaços, o instituído e o construído, colocam-se em cena instaurando um espaço próprio de enunciação (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 95).

O desenho animado infantil “Bob Esponja Calça Quadrada” (tradução fiel do inglês “Spongebob Squarepants”) é uma produção da Nickelodeon que faz muito sucesso:

Bob Esponja é visto por 58 milhões de pessoas a cada mês nos EUA, recorde de público para o segmento infantil na televisão a cabo. O personagem deu ainda origem a uma linha de produtos licenciados que movimenta mais de US$ 700 milhões15.

Sua ambientação se dá em uma cidade chamada “Fenda do Bikini”. Em alguns episódios o desenho começa com uma narração em “off”, e nessas costuma-se dizer que a “Fenda do Bikini” está no fundo do Oceano Pacífico. O nome da cidade é uma tradução feita do original “Bikini Bottom”, que em uma tradução literal seria algo como “Fundo do Bikini”. Todos os personagens do desenho são marinhos, com exceção da Sandy, que é uma esquila e não é uma personagem fixa. Ela pode ir à “Fenda do Bikini” porque usa uma roupa especial com um “capacete” para poder respirar. Sua casa é uma espécie de “redoma”, que tem duas comportas separando o oceano da terra firme:

Casa da Sandy, episódio “Espuma”

Os personagens marinhos a visitam em poucos episódios e, para tanto, usam um capacete que costuma ser um aquário ou um vidro de pickles cheios de água. Nenhum episódio se preocupa em explicar como ou por que existe esse “espaço de terra firme” no fundo do mar, o que fica implícito é que ela, buscando por aventuras, decidiu morar nesta “redoma”. Os episódios se desenvolvem naturalmente e dentro do contexto, essa situação faz sentido, pois “a ‘verdade’ dá lugar à ‘credibilidade’ do enunciado. [...] Nos modernos mass- media, o fato (referencial descrito) não pode ser avaliado independentemente de sua veiculação. Em outras palavras, o fato é construído pelo discurso que o enuncia” (SODRÉ, 2000, p. 42, grifo nosso).

A maioria dos episódios desenvolve-se nas proximidades da casa do personagem principal “Bob Esponja”. Entende-se este “bairro” seja um pouco afastado do centro, porque não apresenta movimentação de transeuntes, sinalização de trânsito, fluxo de barcos ou “prédios”, como foi demonstrado no episódio “A lagartinha” (não selecionado para este trabalho), no qual uma borboleta “escapa” da redoma de Sandy e invade a “Fenda do Bikini” apavorando os cidadãos que acabam destruindo quase toda a cidade tentando fugir do “monstro”.

A casa do Bob Esponja fica em uma grande avenida, e ele só tem como vizinhos Lula Molusco e Patrick, como mostra este frame do episódio “Chocolate com nozes”:

Patrick mora em um buraco na areia, embaixo de uma pedra. Ele não tem móveis (são todos feitos de areia), mas tem uma televisão. E uma antena para ela, “instalada” em cima da pedra.

Lula Molusco mora em uma espécie de capacete de armadura, provavelmente caído no mar, e sua casa é um “sobrado” totalmente mobiliado, com televisão também.

Bob Esponja mora em um abacaxi que também tem dois andares. É totalmente mobiliada e é a casa mais explorada nos episódios. Muitas vezes parte dos episódios se desenvolvem dentro da casa do Bob, como por exemplo o episódio “Espuma”, considerado neste trabalho. Ele tem televisão e em alguns episódios Bob é flagrado assistindo ao “Jornal da Fenda do Bikini”, que tem um peixe como apresentador ou ainda assistindo filmes de terror, como no episódio “Siri Borg”, cujo enredo não foi considerado para este trabalho:

Deu-se destaque ao fato de que os personagens vêem televisão porque talvez essa ação sirva para aproximar a realidade fantástica do desenho animado com a realidade vivenciada por seus espectadores. É um momento no qual a criança pode “se ver” no desenho. No frame destacado acima, Bob Esponja vê TV com Gary, seu caracol de estimação, com uma expressão facial e corporal muito semelhante a que as crianças assumem quando estão fazendo isso.

A casa do Seu Siri Queijo, dono do restaurante “Siri Cascudo” é em formato de âncora de navio, porque ele se apresenta como um ex-marinheiro. São raros os episódios em que se mostra sua casa. No final da avenida onde mora Bob Esponja, fica o restaurante “Siri Cascudo” (abaixo) onde muitos episódios se desenvolvem:

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