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O contributo da educação física para o combate ao insucesso escolar – representações de alunos de uma turma do ensino secundário do concelho de Vila Real

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UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO

O

CONTRIBUTO DA EDUCAÇÃO FÍSICA PARA O COMBATE AO INSUCESSO ESCOLAR

R

EPRESENTAÇÕES DE ALUNOS DE UMA TURMA DO ENSINO

SECUNDÁRIO DO CONCELHO DE VILA REAL

Mestrado em Ensino da Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário

ORIENTADOR: PROFESSOR DOUTOR ARMANDO LOUREIRO

LUÍS CARLOS CARNEIRO SARAIVA

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2 UNIVERSIDADE DE TRÁS OS MONTES E ALTO DOURO

O CONTRIBUTO DA EDUCAÇÃO FÍSICA PARA O COMBATE AO INSUCESSO ESCOLAR – REPRESENTAÇÕES DE ALUNOS DE UMA TURMA DO ENSINO SECUNDÁRIO DO CONCELHO

DE VILA REAL

Dissertação de Mestrado em Ensino de Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário, no ano lectivo 20011/2012, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

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“Educação é aquilo que fica depois de esquecer aquilo que a escola lhe ensinou”.

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A

GRADECIMENTOS

Ao concretizar um trabalho desta natureza, que culmina um caminho importante na nossa vida académica, é impossível esquecermo-nos que este não poderia ser concretizado sem a preciosa ajuda e colaboração de várias pessoas.

A elas, exprimo agora o meu profundo agradecimento e reconhecimento:

Antes de mais, ao Professor Doutor Armando Loureiro, pelo apoio demonstrado desde o momento do pedido para me orientar nesta tese, pelos esclarecimentos e sugestões, pelos oportunos conselhos, pela acessibilidade e confiança demonstradas que se tornaram decisivas em determinados momentos da realização deste trabalho.

À minha família, que sempre me apoiou e acreditou em mim. Sem o seu apoio incondicional a vários níveis, o culminar deste percurso não seria possível.

À minha namorada, que esteve presente em todos os momentos e que me apoiou e motivou de forma incansável.

Aos meus amigos, cujas conversas e discussões se revelaram fundamentais para aumentar os meus conhecimentos ao longo do percurso académico

A todos os professores que me marcaram e influenciaram no percurso académico, mas especialmente ao professor Jorge Costa, que pela sua dedicação à profissão e exemplo, foi uma enorme referência e um dos motivos pelo qual, há uns anos atrás optei por seguir este percurso profissional.

Aos alunos que preencheram os questionários, pelo tempo e disponibilidade que demonstraram.

A todos, deixo o meu sincero obrigado e a promessa de puderem contar comigo sempre que necessitarem.

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RESUMO

O insucesso escolar é um tema que tem vindo a ser alvo de um crescente interesse por parte da comunidade científica. Surgindo nos últimos anos, inúmeros estudos académicos que relacionam a percepção quer de professores quer de alunos sobre o grau de importância da educação física no combate ao insucesso escolar.

Como professores, ao observarmos o estado actual da educação, ao verificarmos as dificuldades que os alunos experienciam no seu percurso educativo, interrogamo-nos sobre aquilo que poderemos fazer para tentar resolver, ou pelo menos para tentar minimizar os efeitos deste problema.

Sob este prisma, encontramos a motivação para realizar o nosso estudo, e através de vários trabalhos e estudos empíricos desenvolvidos por diversos autores, pudemos constatar quais os principais indicadores e factores explicativos do insucesso escolar, assim como, possíveis estratégias para o contrariar, entre elas o papel da disciplina de educação física.

Atendendo ao referido anteriormente, este estudo organiza-se em duas partes essenciais. A primeira parte, refere-se a uma pesquisa bibliográfica sobre os aspectos acima mencionados. Na segunda parte, procedeu-se á investigação empírica acerca de um conjunto de factores que 25 alunos do 12º ano de escolaridade, relacionaram com um grau de importância, verificando-se assim a relevância que atribuíam à educação física para o seu sucesso escolar. Para tal, adoptou-se uma metodologia que recorreu a questionários aplicados confidencialmente a alunos de uma escola de Vila Real.

O estudo revelou que grande parte das representações dos inquiridos são de natureza positiva. Os alunos consideram que a educação física contribui para o seu sucesso escolar, afirmando que a disciplina os auxilia a integrarem-se melhor na escola e a ficarem mais relaxados, tendo como consequência uma maior concentração e motivação para as outras disciplinas.

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ABSTRACT

Failure at school is an issue that has been the target of a growing interest from the scientific community. Emerged in recent years, numerous academic studies that relate the perception of teachers or students, with the importance of physical education in the struggle against academic failure.

As teachers, we observe the current state of education, to study the difficulties that students experience in their education, we ask ourselves about what we can do to try to solve it, or at least attempt to minimize the effects of this problem.

From that perspective, we find the motivation to realize our survey, and through various papers and empirical studies developed by several authors, we found that the main explanatory factors and indicators of school failure as well as possible strategies to counter it, including the role of physical education.

Given the previously stated, this survey is organized into two main parts. The first part, referred to the document retrieval of the above aspects. The second part will be conducted research on a number of factors that 25 students from twelfth grade, related to a degree of importance, thus verifying the relevance they attributed to physical education for their academic success. To this end it adopted a qualitative methodology, through the use of confidential questionnaires applied to students in a school of Vila Real.

The survey revealed that most representations of respondents are positive. Students believe that physical education contributes to their academic success, claiming that the discipline helps them integrate better in school and become more relaxed, resulting in a greater concentration and motivation to other disciplines.

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ÍNDICE

GERAL

Agradecimentos ... 4

Resumo ... 5

Abstract ... 6

Introdução... Erro! Indicador não definido. 1. Revisão da literatura ... Erro! Indicador não definido. 1.1. A problemática do Insucesso Escolar: considerações gerais ... Erro! Indicador não definido. 1.2. Definir Insucesso Escolar ... Erro! Indicador não definido. 1.3. Indicadores do Insucesso Escolar ... Erro! Indicador não definido. 1.4. Principais Factores Explicativos do Insucesso Escolar... Erro! Indicador não definido. 1.4.1. Factores relativos aos alunos e teoria dos dons ... Erro! Indicador não definido. 1.4.2. Factores relativos à família e teoria do handicap sóciocultural ... 22

1.4.2.1. Nível sócioeconómico... 23

1.4.2.2. Código linguístico ... Erro! Indicador não definido. 1.4.2.3. Espectativas familiares ... Erro! Indicador não definido. 1.4.2.4. Clima afectivo ... Erro! Indicador não definido. 1.4.2.5. Distância entre a casa e a escola ... Erro! Indicador não definido. 1.4.3. Factores relativos à teoria sócioinstituicional ... 27

1.4.4. Factores relativos ao professor ... 29

1.5. Insucesso Escolar: na procura de soluções ... 30

1.6. A disciplina de Educação Física ... 33

1.7. A Educação Física como medida de combate ao Insucesso Escolar... 36

2. Objectivos e Hipótese ... 41

2.1. Delimitação do problema ... 41

2.2. Objectivo geral ... 42

2.3. Formulação de Hipótese ... 42

3. Metodologia ... 43

3.1. Procedimentos da recolha de dados ... 43

3.2. Tratamento e análise de dados ... 43

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8 4. Apresentação e discusão dos resultados ... Erro! Indicador não definido. I. Dados Pessoais ... Erro! Indicador não definido. 1.1. Género dos inquiridos: ... Erro! Indicador não definido. 1.2. Idade dos inquiridos: ... Erro! Indicador não definido. 1.3. Concelho de habitação: ... 45 1.4. Constituição do agregado familiar:... Erro! Indicador não definido. II. A Educação Física e o Sucesso Escolar ... Erro! Indicador não definido. A. A Educação Física como forma de integração e socialização...49 B. A Educação Física como medida de aumentar o interesse pela escola...51 C. A Educação Física como meio de desenvolver as capacidades motoras e potenciar aprendizagens úteis para outras disciplinas...54 D. A Educação Física como forma de aumentar o sucesso escolar...56 5. Conclusão ... 62 6. Referências Bibliográficas ... Erro! Indicador não definido. Anexos... Erro! Indicador não definido.

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9

ÍNDICE

DE

GRÁFICOS

E

TABELAS

Gráfico 1- Género dos inquiridos ... 45

Gráfico 2 – Idade dos inquiridos... 45

Gráfico 3 – Concelho de habitação... 46

Gráfico 4 – Constituição do agregado familiar ... 47

Gráfico 5 - Passam a conhecer melhor os colegas... 50

Gráfico 6 - Aprendem regras de comportamento social ... 51

Gráfico 7- Passam a gostar mais da escola ... 52

Gráfico 8 - Passam a gostar mais dos professores em geral ... 53

Gráfico 9 - Passam a gostar e a estar mais motivados para as outras disciplinas ... 54

Gráfico 10 - Desenvolvem capacidades motoras ... 56

Gráfico 11 - Desenvolvem e aplicam aprendizagens úteis para outras disciplinas ... 57

Gráfico 12 - Aumenta a probabilidade de Sucesso Escolar... 58

Gráfico 13 – Posição dos alunos relativamente ao contributo da Educação Física no combate ao Insucesso Escolar...59

Tabela 1 – Efeitos da actividade física no bem-estar e saúde ... 38

Tabela 2 – Representações dos alunos acerca daEducação Física como estratégia de Sucesso Escolar ... 48

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10

INTRODUÇÃO

Temos assistido ao longo dos anos a uma mudança no panorama educativo nacional. Se há trinta anos atrás, grande parte dos alunos abandonavam a escola por volta dos 10 anos de idade, nos últimos anos, os jovens passaram a permanecer na instituição escolar até por volta dos 16 anos de idade. Actualmente, sabemos que a tendência é que esta permanência na escola se alargue até aos 18 anos de idade. Esta situação parece afigurar-se como favorável para os jovens de hoje, no entanto, muitos alunos não veem esta hipótese como uma oportunidade de aumentarem os seus conhecimentos, mas sim como uma imposição. Este facto, associado a um ensino que nem sempre é de qualidade, pode levar a casos de insucesso escolar.

O sucesso escolar significa uma das maiores e mais importantes conquistas na história de vida de cada criança e adolescente. No entanto, uma percentagem elevada de alunos experiencia, ao longo do seu percurso escolar, momentos de insucesso (Corte - Real, 2004).

Sabemos que o insucesso é um problema real, estando presente de forma incontornável no dia-a-dia das escolas portuguesas e que nem sempre são casos de simples resolução, pois como já se ouviu muitos professores dizerem “cada aluno é único”, sendo por vezes difícil intervir consoante o factor que está a perturbar a aprendizagem do aluno.

Porém, acreditamos que o insucesso escolar não deve ser visto como um problema insolúvel, mas sim como um desafio que faz parte do próprio processo de ensino. E que, com um esforço suplementar de todos os agentes envolvidos no processo, o problema poderá ser ultrapassado.

Deste modo, como professores, é do nosso interesse aprofundar conhecimentos nesta área e perceber quais os factores que levam os alunos a não obterem os desejados desempenhos escolares positivos.

A actividade física é uma ferramenta importante para o desenvolvimento físico, psicológico e social do ser humano. E, desde há alguns anos tem vindo a ocupar lugar de destaque quer na reforma educativa, quer na transmissão de valores considerados socialmente positivos. A literatura actual é pródiga em investigações que sugerem a actividade física como uma importante ferramenta para as crianças e jovens obterem melhores desempenhos escolares (Sallis & Owen, 1999; Shepard,

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11 1997; Shepard et al.; Byrd, 2007; Kolbe, Green e Forey, 1986; Symons et al.,1997 e Franklin, 2007; cit. Salgado, 2009).

As aulas de educação física proporcionam aos alunos situações de aprendizagem únicas, ao mobilizar diferentes aspectos de ordem física, social e afectiva. A aquisição de hábitos de vida saudável, assim como a própria consciencialização da sua importância são outras das vantagens presentes na disciplina.

O Ministério da Educação Português refere a importância de “assumir claramente a Educação Física e o Desporto Escolar como meio educativo privilegiado para desenvolver pessoal e socialmente as crianças e os jovens portugueses” (Ministério da Educação, 2003; cit. Freire, 2010).

Neste estudo, a problemática em análise é precisamente a do insucesso escolar, tentando perceber se a disciplina de Educação Física, poderá ou não constituir um meio de combate a este facto negativo que tem vindo a preocupar políticos, professores, pais e alunos. Ressaltando aqui as seguintes questões: Poderá a educação física constituir-se uma estratégia de forma a combater o insucesso escolar ? De que forma? Quais os principais factores apontados para justificar as consequências positivas da educação física no sucesso escolar dos alunos?

Para tal, foram inquiridos os alunos de uma escola, cujas representações procuram dar resposta às questões acima colocadas e, mais concretamente, chegar às suas opiniões relativamente à educação física como: (A) forma de integração e socialização; (B) medida de aumento de interesse pela escola; (C) meio de desenvolver capacidades motoras; e (D) como forma de aumentar o sucesso escolar.

Esta investigação é composta de seis partes: uma primeira parte teórica, onde será efectuada uma revisão da literatura referente ao (In) sucesso Escolar. Na segunda parte é delimitado o problema em questão, é definido o objectivo e formulada a hipótese do estudo. Na terceira parte é descrita a metodologia pela qual se orientou este trabalho, isto é, os procedimentos, as técnicas e os instrumentos de pesquisa, assim como a descrição de como foi desenvolvida a análise de dados. Na quarta parte são apresentados, analisados e discutidos os resultados relativos ao trabalho empírico realizado. Na quinta parte são expostas as principais conclusões que retiramos com este trabalho, assim como algumas sugestões para estudos futuros. Por último, na sexta parte, são enunciadas as fontes pelas quais se apoiou este trabalho de investigação.

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1. REVISÃO

DA

LITERATURA

1.1. A problemática do Insucesso Escolar: considerações gerais

“Dispomos, actualmente, de um conhecimento aprofundado e empiricamente testado sobre a miríade de factores que estão na génese e no desenvolvimento da aprendizagem escolar e, sobretudo, das suas dificuldades” (Almeida et al, 2005, p.1).

O insucesso escolar é uma temática que tem vindo a despertar, ao longo dos tempos, o interesse de variadíssimos pedagogos, sociólogos e até mesmo políticos. São inúmeros os casos de alunos que por vários motivos ficam retidos, acabando alguns por abandonar a escola, sendo que estes factos podem vir a ter consequências marcantes na sua vida futura. Um aluno que revela dificuldades constantes e se confronta perante repetições, corre o elevado risco de ser colocado em desvantagem relativamente ao seu sucesso económico e social futuro (Pelsser, 1989).

Apenas há algumas décadas atrás, com a entrada do conceito da escola obrigatória, a problemática do insucesso escolar assumiu contornos de maior relevância. Há alguns anos atrás, a escola só era acessível a determinadas populações, havendo desde logo uma selecção de alunos, sendo no meio escolar “escassa a quantidade de crianças e jovens estudantes” (Martí & Guerra, 1997, p.72), desta forma, era natural não se ouvir falar em insucesso escolar. Com o passar dos anos, e com o aumento do número de alunos, o insucesso escolar passou a ser visto como um problema mais sério.

Em Portugal, o insucesso escolar foi um fenómeno mais visível a partir da massificação e democratização do ensino na década de 70 (Leal, 2007), começando a ganhar proporções de maior relevo a partir de 1987 (Benavente, 1990). Hoje em dia, trata-se de uma situação que é tida como complexa com implicações sociais e económicas. Sendo o problema encarado como um fenómeno individual, mas afectando igualmente a família, a própria escola e a sociedade em geral. O jovem sem as aquisições escolares fica impedido de participar eficientemente no progresso da sociedade (Fonseca, 2004).

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13 Da escola, escuta-se muitas vezes que esta deve ser igual para todos, mas acontece que os alunos não são todos iguais, chegando cada aluno à escola com uma “bagagem” diferente, levando assim a inúmeras problemáticas relacionadas com a dificuldade da instituição escolar em conseguir educar os jovens, conduzindo os alunos a casos de insucesso escolar.

Estes casos de insucesso levaram vários investigadores, principalmente das áreas da educação, psicologia e sociologia, a tentar encontrar as causas da origem do problema, dando origem ao longo dos tempos a várias teorias. As quais serão explicadas mais à frente neste capítulo e que, se podem agrupar em três grandes categorias: as teorias que se centram nas características dos alunos; as que enfatizam o papel do meio social e familiar nos resultados escolares e as que nos remetem para a importância dos agentes escolares e políticas lá existentes.

Seja o insucesso escolar derivado do aluno, do meio familiar/social ou da instituição escolar, é inquestionável que é um fenómeno consensualmente reconhecido nos tempos que correm. Assumindo diferentes configurações consoante o sistema educativo em análise e as respectivas práticas de certificação e avaliação dos alunos (Montagner, 1998). Comecemos então por tentar clarificar o referido conceito, tentando explorar os diferentes paradigmas do referido fenómeno, encontrando um suporte para a interpretação de toda a temática que envolve o presente estudo.

1.2. Definir Insucesso Escolar

“Não existe esta definição, porque não pode existir! Não existe um, mas vários insucessos escolares…Depende tudo da perspectiva em que nos colocarmos” (Pires,1987,p.11).

Hoje em dia, o insucesso escolar tem sido alvo de várias reflexões e investigações por parte da sociedade, sendo um problema que preocupa os governantes, mas também os pais e os professores. Mas o que se entende afinal por insucesso escolar?

Antes de mais, importa realçar que são referidas na literatura duas formas de insucesso. Em primeiro lugar, o insucesso escolar que se traduz nos

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14 resultados/classificações escolares e que no final do ano se reflecte na não obtenção de certificado e, em segundo lugar, o insucesso académico que consiste na aquisição efectiva de competências cognitivas e metacognitivas e conhecimentos para o desempenho futuro de certas actividades (Alaiz & Barbosa 1995).

Na visão de Pires, Fernandes e Formosinho (1991) a expressão insucesso escolar é utilizada por professores, educadores, responsáveis de administração e políticos para caracterizar as elevadas percentagens de reprovações escolares verificadas no final dos anos lectivos. Já Muniz (1993, p.9) afirma que o insucesso escolar é a “dificuldade que pode experimentar uma criança com um nível de inteligência normal ou superior para acompanhar a formação escolar correspondente á sua idade”.

A este respeito, Iturra (1990) dá-nos uma visão bastante abrangente, referindo-se ao insucesso escolar como sendo a dificuldade que as crianças têm em aprender, em completar a escolaridade no tempo previsto, em obter notas altas ou pelo menos satisfatórias pelo seu trabalho escolar para poderem continuar os seus estudos. O mesmo autor (1990, p.104) salienta ainda que o “insucesso escolar é um fenómeno de falhanço na escola”, e que uma das soluções deve passar por colocar “as crianças no caminho da interrogação” (“ibidem” 1990, p. 129).

Apesar de as classificações terem uma grande implicação no futuro escolar de cada aluno, dado que vão ser as classificações que vão determinar a continuação ou a exclusão dos alunos no sistema de ensino, estas não têm, segundo Saavedra (2001), uma relação directa com o sucesso ou insucesso escolar. Assim sendo, uma definição de insucesso escolar que se restringe apenas às classificações, ou de uma forma mais simples na reprovação ou na não reprovação, parece-nos algo redutora.

Há uns anos atrás, segundo Martins (2007) perspectiva-se o insucesso escolar como um problema isolado, no caso de um aluno que não conseguia transitar de ano, passando a ser visto como um fenómeno social onde estão implicados, não só os alunos mas também os outros intervenientes no sistema educativo. Hoje em dia, a escola representa ainda uma dificuldade para determinados alunos, revelando um desempenho escolar que não vai de encontro às espectativas dos próprios alunos, mas também dos seus pais e professores. Utilizando-se a expressão insucesso escolar para definir este fenómeno.

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15 De acordo com Pires, Fernandes e Formosinho (1991, pp. 187/188) a escola tem como finalidade a “aquisição de determinados comportamentos e técnicas”, que definimos como instrução, mas também o “ desenvolvimento equilibrado do aluno” que denominamos de estimulação, e ainda a “interiorização de determinadas condutas e valores com vista à integração na sociedade” que designamos como socialização. Assim sendo, o sucesso escolar do aluno teria que se exprimir nas diferentes dimensões referidas, de um modo abrangente.

No entanto, na visão dos mesmos autores (p.188) “na escola é valorizada a instrução em detrimento de uma concepção mais ampla da educação”. Não dando assim relevância à dimensão socializadora (intervenção no sentido de estimular a cooperação, espirito de grupo, participação em decisões comuns), nem à dimensão personalista (contributo para a construção da personalidade do aluno e estimulação das capacidades individuais).

Nesse sentido, Varelas (2010) refere que para haver uma clara eficácia do sistema educativo, teria que existir uma valorização equiparada de todas as dimensões, avaliando assim o insucesso real dos alunos e em que dimensões se manifestavam. No entanto, acontece que, frequentemente estas dimensões não são tidas em conta num juízo global sobre o insucesso escolar.

Desta forma, os dados que dizem respeito às reprovações não são, por si só, suficientes para caracterizar o insucesso escolar, pois estes dados referem-se apenas à dimensão da instrução, não nos permitindo tirar conclusões relativamente às outras dimensões educativas.

Ainda sobre esta temática, Fernandes (1991) considera que a apesar da definição de insucesso escolar se reportar unicamente às elevadas taxas de reprovações escolares, também podem ser considerados casos de insucesso escolar, situações em que a socialização ou a personalidade do aluno não foram desenvolvidas apropriadamente.

Por seu turno, Marchezi e Pérez (2004) são bastante críticos em relação à expressão “insucesso escolar”, referindo que o termo sugere que o aluno não teve qualquer progresso, quer a nível escolar, mas também pessoal e social, o que nem sempre corresponde à realidade. Além disso, o termo promove uma imagem negativa no aluno, atribuindo a este, toda a responsabilidade do insucesso, ignorando a

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16 importância dos outros agentes, como a família, meio social e escola no processo de aprendizagem do aluno. Os mesmos autores indicam ainda que, a problemática resultante desta terminologia deu origem à substituição do termo, por expressões como “alunos com baixo rendimento escolar” ou “alunos que abandonam o sistema educacional sem preparação suficiente”. No entanto, a substituição do termo “insucesso escolar” parece impraticável.

Em Portugal, foi apresentada pelos políticos portugueses uma definição de insucesso escolar à União Europeia, sendo definido como a “incapacidade que o aluno revela de atingir os objectivos globais definidos para cada ciclo de estudos “ (Eurydice,1995, p.47).

De uma forma geral, a expressão insucesso escolar é o termo utilizado quando nos referimos à falta de êxito dos alunos relativamente ao seu processo de aprendizagem, ou seja, o seu baixo desempenho/rendimento escolar. Contudo, são várias as interpretações manifestadas relativamente ao referido conceito, assim como os indicadores seleccionados para o qualificar.

1.3. Indicadores de insucesso escolar

Para além do abandono escolar prematuro (antes do fim do ensino obrigatório) e das reprovações, que só por si são indicadores de insucesso escolar (Cortesão e Torres,1990, pp.35-38), há um conjunto de sintomas que podem significar que estamos perante um caso de insucesso, tais como: a agressividade, desinteresse, delinquência, violência e a incapacidade de mobilizar os conhecimentos obtidos no meio escolar após o seu término.

Na ideia de Muñiz (1993), as crianças com insucesso escolar costumam ser consideradas na própria família como ociosas, desordenadas, distraídas, incapazes de se concentrarem nas tarefas escolares, sem interesse nem responsabilidade.

Na perspectiva de Alexandre (1999), existem um conjunto de sinais que podem indicar uma situação de insucesso escolar temporário ou permanente. Segundo o autor, são indicadores que estamos perante uma situação passageira quando o aluno revela desgosto e sofrimento pelo seu fraco rendimento escolar, quando este assume um estado depressivo, mas tenta rapidamente contornar o problema, pedindo ajuda e

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17 mostrando-se desejoso de a aproveitar. É também um indicador positivo o facto de haver mudanças no seu rendimento escolar, pequenas melhorias seguidas de recaídas, o que significa que o sintoma não está estruturado de uma forma rígida, pelo contrário, cede em certos momentos.

Por outro lado, são indicadores de que estamos perante uma situação que se pode tornar permanente, quando o aluno para ocultar o seu baixo rendimento escolar, não expressa sofrimento ou desgosto, mas procura sim, dar um conjunto de desculpas e justificações, geralmente não ajustadas à realidade. Além disso parece não ter consciência das suas dificuldades e limitações, não sabendo que trabalhos há-de realizar, nem como realizá-los, sendo incapaz de informar acerca das actividades do dia-a-dia escolar. Não se notando indícios de que o aluno poderá melhorar, mas sim pequenas oscilações numa situação de rendimento fraco permanente (Alexandre, 1999).

Para além destes indicadores, segundo Munsterberg, citado por Alexandre (1999), os alunos típicos de insucesso escolar possuem algum dos seguintes comportamentos, revelando, geralmente, dois ou três em simultâneo: Desassossego (hiperactividade, distracção); Pouca tolerância à frustração (incapacidade de aceitar um insucesso ou uma critica, hipersensibilidade); Irritabilidade (pouco controlo interior, impulsividade, birras); Ansiedade (tensão, constrangimento); Retraimento (passividade, apatia, depressão); Agressividade (comportamento destrutivo, murros, mordidelas, pontapés); Procura constante de atenção (absorvente, controlador, impertinente); Rebeldia (desafio à autoridade, falta de cooperação): Distúrbios somáticos (gestos nervosos, dores de cabeça, dores de estômago, tiques, chupar o dedo, tamborilar com os dedos, bater com os pés, puxar ou enrolar o cabelo); Comportamento delinquente (roubar, provocar incêndios); Autismo (incapacidade de relacionar-se com os outros, inconformista em último grau, procura da satisfação dos impulsos interiores chegando mesmo à rejeição do mundo exterior, inflexibilidade extrema, inadaptação, incapacidade de aprender pela experiência, falta de afecto, incapacidade de comunicar verbalmente); Comportamento esquizoide (passar despercebido, falar sozinho, contacto com a realidade desorganizado e fraco, comportamento estranho).

Por norma, estas crianças sofrem de uma pressão exagerada por parte dos pais e dentro do ambiente familiar costumam ser considerados como confusos, preguiçosos,

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18 distraídos, incapazes de se concentrarem nas actividades e tarefas que têm que realizar, em suma, sem interesse nem responsabilidade (Muñiz, 1993). Por conseguinte, estas mesmas crianças no meio escolar vão reproduzir alguns das características verificadas em casa, juntando muitas vezes comportamentos de indisciplina.

Os indicadores do insucesso escolar podem ser divididos em indicadores internos e externos, conforme se localizem intrinsecamente ou extrinsecamente em relação ao aluno (Lopes, 2010).

Nesta óptica, Alexandre (1999) considera as repetências, os resultados dos exames, a distribuição dos alunos por diversas vias, o atraso escolar, o absentismo, o abandono e o sentimento pessoal como indicadores de ordem interna.

Segundo este mesmo autor, a distribuição dos alunos pós-escolaridade obrigatória, as dificuldades de inserção na vida activa, o desemprego dos jovens, o trabalho precoce dos jovens, o analfabetismo e iletrismo e a delinquência e o abuso das drogas são tidos como indicadores externos.

1.4. Principais factores explicativos de Insucesso Escolar

Uma das preocupações fundamentais do sistema educativo actual tem sido a procura de explicações e causas que possam, de alguma forma, justificar o insucesso escolar e perceber quais as fontes que originam este problema.

Através do estudo das diferentes interpretações do insucesso escolar, torna-se perceptível a existência de um conjunto de variáveis e circunstâncias que de forma, mais ou menos directa, influenciam o sucesso e rendimento escolar dos alunos.

Para alguns autores, o sucesso/insucesso escolar é explicado pelas características dos alunos, nomeadamente a inteligência, motivações e atitudes pessoais em relação à escola de cada um dos alunos.

Por outro lado, há quem indique os factores sociais e estilos de vida no seio da família como a raiz do insucesso escolar do aluno. Se por um ponto de vista o excesso de espectativas impostas pelo seio familiar do aluno pode suscitar desmotivação e fracasso, num plano oposto, famílias com um nível cultural baixo e

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19 com um interesse reduzido no trajecto escolar do aluno podem levar também ao mesmo fracasso escolar.

Existem também autores, que nos remetem para a importância da instituição escolar e das políticas educativas existentes, como por exemplo, o nível de instrução dos profissionais envolvidos no processo educativo, as exigências curriculares, os métodos de orientação e avaliação do processo, a qualidade dos espaços e equipamentos escolares, as dimensões das escolas e das turmas e ainda a heterogeneidade dos alunos (diferenças cognitivas e sociais dos alunos) e o ajustamento da escola a essas diferenças.

Por último, são os professores e respectivos métodos de ensino, técnicas de comunicação utilizadas, entre outros aspectos da relação pedagógica professor aluno, apontados como determinantes nos resultados escolares negativos dos alunos.

A problemática do insucesso escolar tem exigido à sociedade um estudo amplo e exaustivo que procure dar soluções e diferentes perspectivas para resolver este problema. Neste âmbito, cada uma das teorias debruça-se sobre factores diferentes que procuram justificar o insucesso escolar.

Alguns autores, tais como Benavente (1990), Pires, Fernandes e Formosinho (1991) e Iturra (1990), concluíram através dos seus estudos que o insucesso escolar pode resultar de uma diversidade de factores. Todas essas causas estão relacionadas com factores ligados ao próprio aluno, ao meio familiar em que ele se inclui e ainda a factores relacionados com o meio escolar e seus intervenientes educativos.

Da mesma opinião é Sil (2004) que refere que, a situação de insucesso escolar pode centrar-se ao nível do aluno e do seu ambiente restrito, ao nível da sociedade à qual pertence ou ao nível da própria escola.

Estes factores são considerados os mais importantes para a obtenção do sucesso escolar, sendo abordados seguidamente cada um dos factores de uma forma pormenorizada.

1.4.1. Factores relativos aos alunos e teoria dos dons

“ O aluno é o actor principal em todo o processo sendo, por esta via,

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cada um terão de, inevitavelmente, afectar os resultados finais quaisquer que eles sejam” (Leal, 2007. p.27).

Desde o final da 2º guerra mundial até ao final dos anos 60 prevaleceu uma teoria que se baseava em explicações psicológicas individuais para justificar o insucesso do aluno, esta teoria denominava-se de teoria dos “dotes”. (Benavente, 1990). Assim, segundo o mesmo autor, o sucesso ou insucesso escolar era resultado das maiores ou menores capacidades dos alunos, da sua inteligência, através dos seus dons naturais.

Segundo Fernandes e Silva (s/d), o fracasso das crianças na escola era resultado dos seus genes, não do contexto, ou do conteúdo ou práticas pedagógicas. Argumenta-se então que a inteligência da criança é hereditária e que os factores genéticos têm uma importância fundamental para se compreender as diferenças entre classes sociais (Martins, 2007).

Sob esta perspectiva, era dada primazia ao aspecto inapto do individuo, sendo a inteligência hereditária a única causa das disparidades intelectuais. Le Gall (1978), na mesma linha de pensamento, aponta o “quociente intelectual” do aluno como a causa do seu insucesso escolar.

Pires, Fernandes e Formosinho (1991) acrescentam que a inexistência de aptidões de um aluno pode ser de origem psicossomática (alunos deficientes) ou de origem intelectual (determinada através do quociente de inteligência).

A teoria em causa, segundo Fernandes, Silva (s/d), associa as dificuldades escolares às dificuldades cognitivas das crianças, com a constatação de que o QI médio é nas classes baixas inferior ao QI médio das classes média e alta, explicando assim, as baixas percentagens de filhos das classes baixas que acediam ao ensino superior.

Assim, ao apresentar o aluno como o “culpado” pelo insucesso, referindo que o aluno vem mal preparado ou simplesmente não tem interesse na escola, é ocultado o papel do sistema educativo no processo de aprendizagem do aluno.

Reforçando sempre a componente individual no processo de aprendizagem e na ideia de que tem que ser o próprio aluno a possuir todas as capacidades, ou seja, utilizando o tal “dom”, esta teoria parece menosprezar também o papel dos docentes na motivação dos alunos. Sendo a motivação dos alunos e as suas atitudes em relação

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21 à escola, aspectos referenciados na literatura como importantes para o rendimento escolar dos estudantes (Freire, 2010; Martins, 2007).

A falta de motivação dos alunos pode ser resultado da inexistência de interesse do aluno relativamente a muitas das tarefas que lhe são propostas ou, por vezes, é uma espécie de refúgio que os alunos encontram perante as exigências que vão aumentando ao longo do seu percurso escolar.

O conjunto dos comportamentos e atitudes que o aluno revela face ao contexto escolar, vai também influenciar o seu sucesso escolar. Desta forma, encontramos o desinteresse, a falta de participação e de confiança, a ansiedade durante a avaliação, a fraca assiduidade escolar, uma precária alimentação, a falta de cuidados de saúde e higiene, sobretudo no que se refere aos olhos, dentes e ouvidos, e ainda a presença de determinadas deficiências congénitas e mentais como sendo elementos referenciados que interferem no rendimento escolar (Martins, 2007).

A personalidade do aluno é, segundo LeGall (1978) outro dos aspectos a ter em conta no desempenho escolar. Na visão do autor, a inadaptação da personalidade da criança aos requisitos escolares pode contribuir para o insucesso escolar, referindo o desajustamento das instituições de ensino com os aspectos psicológicos e sociológicos da população escolar como factor preponderante de incremento do insucesso.

Mencionando ainda que, para o ajustamento desta situação, dever-se-ia apostar mais na relação professor-aluno, indo a um ao encontro do outro e sendo o professor o principal elo de ligação entre o aluno e a instituição escolar.

Por outro lado, deficiências a nível dos sentidos, fraca memória visual e dislexias variadas podem também explicar dificuldades de aprendizagem que podem vir a motivar o insucesso escolar (Fernandes e Silva, s/d).

Sendo que, alguns destes factores vão influenciar, naturalmente, o aluno mesmo antes do início da escolaridade, prolongado a sua influência ao longo do seu percurso escolar.

Outro dos aspectos interessantes é a ideia, difundida na opinião pública, que as raparigas são melhores alunas do que os rapazes (Saavedra, 2001). Num estado levado a cabo pela autora (2001), analisou-se a relação entre o género e as

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22 respectivas classificações escolares nas disciplinas de português, história, matemática, físico-química e educação física. Verificando-se que na globalidade das disciplinas as raparigas obtiveram melhores resultados, destacando-se as disciplinas de português, história e matemática onde essas diferenças foram mais significativas. Os rapazes superaram as raparigas apenas na disciplina de educação física.

Como vimos, as características dos alunos podem ter influência no seu rendimento escolar. No entanto, sabemos que cada aluno não é “uma ilha”, isto é, não está permanentemente isolado, interage com tudo o que o rodeia, influenciando e sendo influenciado, o que nos leva à importância do próximo capitulo - família e teoria sociocultural.

1.4.2. Factores relativos à família e teoria do handicap sociocultural “ O sucesso/ insucesso dos alunos é justificado pela sua pertença social, pela maior ou menor bagagem cultural que dispõem á entrada na escola” (Benavente, 1990, p.716).

A escola não é o único meio de educação de um aluno, não detém todo o conjunto de saberes e influências que são transmitidas a um indivíduo em processo de desenvolvimento e aprendizagem. Assim se percebe a importância da família proporcionando ao aluno toda uma educação, transmissão de valores e atitudes além da realidade social envolvente.

Naturalmente, a classe cultural e social dos membros que compõem a família mais próxima do aluno vão influenciar o seu sucesso escolar. Pois, a falta de meios, estímulos, motivações e condições de estudo à aprendizagem dos jovens podem funcionar como barreiras para um bom funcionamento do processo de aprendizagem dos alunos.

Com base na investigação desenvolvida no final da década de 60 nas áreas da psicologia e sociologia surgiu uma nova teoria que apontava os factores de ordem cultural e social para explicar insucesso escolar, designada a teoria do handicap sociocultural (Benavente,1990; Martins & Cabrita, 1991).

O cruzamento entre origem social/resultados escolares revela a existência de mecanismos mais amplos na produção do sucesso/insucesso, que não pode ser atribuído apenas a causas psicológicas individuais (Benavente, 1990). Tratando-se de

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23 uma teoria que encara o insucesso escolar como um fenómeno de origem social e explicando-o através da maior ou menor bagagem que cada aluno apresenta antes da entrada na escola.

As várias investigações centradas na origem social dos alunos convergem para um conjunto de aspectos que se relacionam de forma mais ou mais indirecta com o insucesso escolar. Os factores mais encontrados na literatura são: nível socioeconómico familiar do aluno, as formas de linguagem (código linguístico), as espectativas da família, clima afectivo familiar e distância entre a casa e a escola (Benavente, 1990; Martins & Cabrita, 1991; Martins, 2007; Pires, Fernandes e Formosinho, 1991; Muñiz, 1993; Rangel, 1994; Saavedra, 2001).

1.4.2.1. Nível socioeconómico

A relação entre os alunos mais desfavorecidos a nível económico e o insucesso escolar não é novidade. É reconhecido, de uma forma geral, que os alunos de classes sociais mais desfavorecidas têm atitudes negativas face à escola, revelando pouca motivação e dificuldades em realizar com sucesso as tarefas as propostas (Saavedra, 2001).

De acordo com Martins & Cabrita (1991) as diferentes classes sociais têm formas distintas de satisfazerem as necessidades básicas, bem como, possibilidades distintas de acesso a bens de cultura, influenciando quer o nível de desenvolvimento cognitivo, quer as opções escolares e profissionais e o próprio sucesso escolar. Pires, Fernandes e Formosinho (1991) acrescentam que o facto de as crianças viverem num meio social pobre, não recebendo estímulos por parte da família em relação ao acesso à informação, como livros e filmes educativos, vai criar nestas crianças determinadas carências e desvantagens em relação a crianças de meios sociais mais ricos.

Neste contexto, uma família com um nível socioeconómico baixo terá um reduzido poder de compra de bens e cultura. E, embora alguns encargos económicos sejam cobertos pelos apoios sociais, tais como material, transporte e alimentação, é um facto que a família não deixa de fazer um esforço económico para manter o aluno a estudar.

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24 Podendo um rendimento económico familiar fraco conduzir ao abandono escolar dada a necessidade de reduzir as despesas e aumentar o rendimento per capita (Martins, 2007). Verificamos então que, o abandono escolar precoce pode estar relacionado com a necessidade dos jovens entrarem no mercado de trabalho, auxiliando assim as respectivas famílias.

Segundo a perspectiva de Monteiro (2009, p.56), muitas famílias de reduzido extracto socioeconómico “transferem para os alunos a ideia que na escola não se aprende nada que tenha utilidade imediata, nada que vá privilegiar o aluno”. Antunes (1989) refere que é das famílias mais desfavorecidas que provêm grande parte dos alunos que ficam retidos ou abandonam o meio escolar. Assim, podemos concluir que o rendimento económico das famílias condiciona o percurso escolar dos alunos.

1.4.2.2. Código linguístico

O domínio da linguagem assume um papel importante nas aprendizagens relativas ao meio escolar. Rangel (1994) refere que as crianças do meio rural têm vivências e experiências diferentes daquelas que caracterizam a classe média e alta dos meios urbanos. Destacando que as formas de linguagem são as responsáveis pela possibilidade ou impossibilidade das crianças adquirirem conhecimentos que lhes possibilitem o sucesso escolar.

A linguagem é um meio fundamental e indispensável para a criança aceder à comunicação, condicionando a forma com a criança se vai inserir na escola e influenciando o seu processo de ensino-aprendizagem. Tendo em conta esta ideia, Freire (2010) salienta que uma criança inserida num meio social pobre, pode revelar um nível de linguagem pouco desenvolvido, principalmente devido à pobre herança cultural e social que o envolvem. Tendo dificuldades em compatibilizar a sua linguagem com a que é promovida na escola.

A criança desfavorecida ou com um handicap sociocultural e linguístico é aquela que advém de um meio distinto e que ao entrar na educação formal é deparada com a linguagem utilizada pelo professor, o que a pode perturbar, na medida em que se pode tratar de uma linguagem diferente daquela que é usada no seu meio familiar e social (Silva, 2004).

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25 Os alunos de grupos sociais mais desfavorecidos são portadores de códigos linguísticos que não são valorizados no meio escolar, o que pode levar a algum desajustamento entre a linguagem dos alunos e a linguagem utilizada na escola. Esta “barreira linguística” pode, por vezes, gerar nos alunos algum desinteresse na escola, conduzindo a situações de insucesso escolar.

1.4.2.3. Espectativas familiares

As espectativas do seio familiar em relação ao jovem possuem um papel importante no seu rendimento escolar. Na óptica de Fernandes & Silva (s./d.) as classes média e alta tendem a incutir espectativas mais elevadas orientando-os para profissões mais valorizadas, enquanto as classes mais baixas procuram objectivos mais imediatos em profissões com uma remuneração mais baixa e menos prestigiadas a nível social.

Na perspectiva de Avanzini (s/d) o ambiente cultural familiar é mais importante para o sucesso escolar do que o próprio estatuto socioeconómico da família. Numa criança proveniente de uma família na qual a cultura e o “saber” não são valorizados, não estão criadas as condições necessárias para a criança ter sucesso pois, por norma, os seus resultados escolares são ignorados, quer eles sejam bons ou maus. Por outro lado, numa família onde a cultura é valorizada, são promovidas as condições necessárias para que as crianças obtenham os melhores resultados possíveis, independentemente de serem ricas ou pobres. Convém, no entanto, relembrar que quanto maior o extracto socioeconómico da família, maior é a facilidade de acesso a bens culturais.

Assim, o posicionamento de cada família, face à importância que os conhecimentos facultados pela escola escolar vão representar no futuro do jovem, é decisivo no percurso escolar do aluno.

1.4.2.4. Clima afectivo

O clima afectivo familiar constitui também um factor importante para um bom aproveitamento escolar (Avanzini, s/d). A este respeito, Martins (2007) refere que os

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26 problemas familiares como desentendimentos conjugais, ciúmes, comportamentos de agressividade e de infantilidade, podem potenciar situações de insucesso escolar.

No mesmo sentido, Muñiz (1993) explica-nos que quando o casal não funciona de uma forma saudável os interesses da criança são neutralizados pelos demais problemas familiares. Ficando desta forma diminuída a capacidade da família em enfrentar e solucionar determinadas dificuldades escolares que possam surgir por parte do seu educando.

1.4.2.5. Distância entre a casa e a escola

Martins & Cabrita (1991) referem a distância entre a casa e a escola como um factor a ter em conta na problemática do insucesso escolar. No caso de a distância entre o local da habitação do aluno e a escola for longa, poderá fazer com que as crianças acordem mais cedo, que cheguem a casa mais tarde, perdendo tempo de estudo e por vezes, fazendo o percurso a pé e ficando cansados, diminuindo assim, a sua vontade de estudar.

Outro aspecto a ter em conta é que muitas vezes a espera dos transportes, faz com que os alunos saiam da escola, enquanto aguardam os transportes. E, acontece que, os alunos perdem-se em actividades que prejudicam o rendimento escolar, através de companhias que em nada os ajudam, surgindo vícios, como o álcool, o tabaco e a droga (Monteiro,2009).

Por outro lado, a zona da residência pode também influenciar o aproveitamento escolar. Uma vez que pode ser mais vantajoso para o aluno residir numa zona saudável com boas condições habitacionais, ao invés de habitar num bairro social ou numa zona problemática, geralmente locais pouco propícios à aquisição de hábitos culturais e de estudo.

Numa visão geral, esta teoria deixa de apontar a criança como culpada do insucesso, centrando-se as causas na origem sociocultural dos alunos. Por outro lado, a instituição escolar e políticas educativas existentes são também postas em causas, aspectos que serão expostos seguidamente.

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27 1.4.3. Factores relativos à escola e teoria socioinstitucional

“A corrente socioinstitucional sublinha a necessidade da diferenciação pedagógica, pondo em evidência o carácter activo da escola na produção do insucesso” (Benavente, 1990, p. 717).

Os alunos e o respectivo contexto social em que estão inseridos, não podem ser indicados como factores exclusivos responsáveis pelo insucesso escolar. A partir dos anos 70, começou-se a atribuir importância às condições de ensino e mecanismos que operam no seu interior como possível causa do insucesso, surgindo então a teoria socioinstitucional.

Desta nova teoria, destaca-se o papel institucional na compreensão do insucesso dos alunos. Assentando, segundo Martins (2007) em investigações ligadas a um conjunto de dimensões como “condições de aprendizagem, ritmos de progressão dos alunos, estruturas cognitivas, complexidade das tarefas e métodos de ensino” (p.29).

Pires, Fernandes e Formosinho (1991) referenciam também um conjunto de dimensões escolares que podem estar na origem do insucesso, tais como currículos, preparação científica e pedagógica dos professores, métodos de avaliação e formas de agrupar de alunos.

Por sua vez, Florin (1989) salienta que esta teoria tem em conta o percurso individual de cada aluno, procurando as melhores soluções educativas possíveis, favorecendo assim o processo de ensino-aprendizagem.

A utilização de um método de ensino tradicional pode contribuir para o insucesso escolar. No entender de Avanzini (s/d), este método não tem em conta a individualidade de cada aluno, baseando- se em factores extrínsecos aos alunos, não os envolvendo e motivando e para o ensino.

A escola desempenha um importante papel como difusora de um modelo cultural de classes (Lurçat, 1978; Rangel 1994). Na visão dos autores, um modelo dominante transmitido pela escola é um factor de insucesso para algumas crianças, nomeadamente as crianças do meio rural, dado a haver uma ruptura com os seus hábitos e costumes. As práticas escolares têm então por base o “aluno ideal”, prejudicando as classes mais desfavorecidas.

Na mesma linha de pensamento, o currículo escolar coloca também em desvantagem os alunos mais desfavorecidos. Na ideia de Jacinto (1991), a construção

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28 dos currículos vai de encontro à cultura, às vivências e meio ambiente do aluno modelo, não tendo em conta os interesses de outras classes de alunos.

Os programas e planificações são também aspectos que importam reflectir, influenciando as práticas pedagógicas aplicadas nas aulas. Martins (2007, p.31) a este propósito refere que “ as planificações são meramente formais e concebidas a partir do programa e não das necessidades reais dos alunos. Os programas não deverão ser rígidos mas adaptáveis às constantes mudanças e necessidades dos alunos”. Os programas foram criados com o intuito de serem documentos de orientação e apoio, não entraves às necessidades reais dos alunos.

A problemática da avaliação e a questão das reprovações são também aspectos centrais na análise do insucesso escolar. Aranha (2004. p.45) sintetiza o que é a avaliação na definição seguinte:

“A avaliação refere-se à recolha de informações necessárias para um (mais) correcto desempenho. É um regulador por excelência de todo o processo ensino-aprendizagem. É a consciência do próprio sistema educativo”.

A escola continua a centrar a avaliação numa lógica de certificação de aquisição e avaliação de competências, dando mais importância ao produto final do que ao processo. (Crahay, 1999). No entanto, a mudança desta perspectiva tem vindo a defender-se de uma forma mais vincada nos últimos tempos, sendo apontada a necessidade de dar à avaliação um carácter de continuidade (avaliação formativa) e não de apenas de avaliação final de período (avaliação sumativa).

No que se refere à questão das retenções no contexto escolar, estas são tidas como um indicador de insucesso. Crahay (1999) menciona que algumas investigações têm vindo a procurar verificar a fidelidade dos critérios da reprovação. Num estudo realizado com 72 turmas do 4º ano de escolaridade, em que a ferramenta utilizada foi um teste de competência de Francês, a análise dos resultados, revelou a relatividade das decisões de retenção. Os alunos escolares indicados para retenção numas turmas, poderiam noutras transitar de ano. Assim, segundo este estudo, os alunos são avaliados em função da turma onde se encontram podendo, por vezes, sofrer outra avaliação quando colocados em turmas diferentes, o que por si só coloca em causa os critérios de reprovação utilizados nas escolas. O mesmo autor refere ainda que,

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29 apesar das recomendações para que as reprovações sejam evitadas nos primeiros anos escolares, estas ocorrem precisamente nos anos iniciais de escolaridade.

1.4.4. Factores relativos ao professor

O professor assume um papel fundamental no processo de ensino-aprendizagem, transmitindo conhecimentos aos alunos e influenciando de forma incontestável o seu rendimento escolar. Sendo variadíssimas as causas pedagógicas que podem levar aos maus resultados.

Como refere Martins (2007) o professor tem por função tomar a iniciativa na organização e programação das actividades escolares. Assim, a forma como planeia as actividades, os métodos de ensino, os recursos didácticos e as técnicas de comunicação a que recorre, acabam por influenciar o desempenho escolar dos alunos.

A este propósito, Benavente (1990) alerta para o sentimento de instabilidade dos professores devido às constantes alterações dos programas, não sendo acompanhadas de estruturas de apoio que auxiliem a ultrapassar as dificuldades inerentes às alterações.

É essencial que pertença ao professor a responsabilidade no planeamento curricular, sendo benéfica para os alunos a flexibilidade dos currículos, respondendo assim às suas reais necessidades. No entanto, como realça Costa (2004, p.23) “a acção do professor não pode ser isolada, sendo urgente a participação da escola como um todo”.

A gestão da disciplina da sala de aula é outro factor que poderá determinar o rendimento dos alunos. O professor é também o agente de ensino que tem oportunidade de observar o comportamento do aluno, assim é necessário que o professor domine os modelos de observação sistemática, dinâmica, individualizada e colectiva na sala de aula (ibidem, 2004).

As espectativas que os professores têm em relação aos alunos vão também condicionar o sucesso escolar. Segundo Lurçat (1978), alguns professores no início do ano, classificam os alunos em bons ou maus, estes “rótulos” vão então influenciar as espectativas do professor em relação aos alunos. Isto pode também acontecer em

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30 relação a alunos que o professor conheça antecipadamente de anos anteriores, condicionando assim os seus resultados.

Garcia et al., (1998) a este respeito, acrescentam que as espectativas são influenciadas por factores tais como o género, a raças, aspecto físico, o estatuto socioeconómico, a linguagem e resultados escolares.

Destaque-se ainda a função de director de turma, pois é um dos cargos que o professor pode assumir, sendo importantíssima no que se refere à ligação dos encarregados de educação com a escola. Muñiz (1993) realça que através desta função se pode promover um clima favorável para a aprendizagem, através de uma ligação educativa entre os alunos, professores, pais, auxiliares educativos e estruturas de orientação. Assim, caso o director de turma não concretize esta “ponte” os alunos podem sair prejudicados.

1.5. Insucesso escolar: na procura de soluções

É tão importante perceber o fenómeno do insucesso escolar, como descobrir meios para o combater. A busca do sucesso escolar é uma condição inerente à sociedade actual, é ela que aumenta as espectativas dos políticos, professores e famílias.

Devido à abrangência e à complexidade que está em causa nesta problemática, torna-se extremamente complicado focar em todas as soluções propostas para dar fim ao insucesso escolar. No entanto, a importância destas medidas é inquestionável, e como tal, apresentamos de seguida algumas das ideias propostas por diferentes autores.

A prevenção é um dos caminhos a seguir, apresentando-se como uma tarefa urgente e crucial no combate ao insucesso escolar. Mineiro (2000), citado por Monteiro (2010), indica um conjunto de medidas de carácter preventivo a serem aplicadas no meio escolar, através de factores sociais, escolares, psicológicos e pedagógicos.

 Factores Sociais: Neste campo a prevenção deverá focar em acções de integração e participação dos pais no meio escolar, tentando envolver o mais possível os pais na vida escolar dos filhos.

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31  Factores Escolares: Torna-se importante que o professor aplique com critério o reforço e o fortalecimento dos factores da personalidade, sem esquecer os níveis de curiosidade e motivação dos alunos. Além disso, é também necessário a criação de centros de recursos pedagógicos com a supervisão de professores especializados com o intuito de diagnostica e ultrapassar eventuais dificuldades de aprendizagem.

 Factores Psicológicos: De modo a auxiliar o professor na recolha de informações que possam alertar para eventuais problemas dos alunos, revela-se de carácter fundamental a presença de um psicólogo escolar em acções de orientação pedagógica.

 Factores Pedagógicos: É crucial que o professor, como principal interveniente na evolução do processo de ensino-aprendizagem dos alunos, domine modelos de observação sistemática, dinâmica, individualizada e colectiva, de forma a identificar e superar os problemas dos mesmos.

Martins (1993) sugere também um conjunto de medidas que visam ultrapassar os elevados índices de sucesso insucesso escolar, passando esta alteração pelos seguintes pressupostos fundamentais:

 Alteração da mentalidade dos que tomam conta das políticas educativas;  Adequação dos programas às diferentes populações escolares;

 Articular as necessidades que a sociedade dispõe com o que cada aluno procura na escola;

 Ajustar os processos de avaliação;

 Esquecer a ideia que a escola está apta para democratizar a sociedade, o mesmo é dizer que a escola a reproduz;

 Melhoria da organização escolar e processos pedagógicos;  Maior participação dos professores na escola.

Com a crescente mundialização e a competitividade económica que assenta cada vez mais numa mão-de-obra especializada e qualificada, capaz de se adequar as novas tecnologias, é necessária uma mudança das práticas educativas escolares (Eurydice, 1995). Segundo esta perspectiva, existem alguns factores determinantes no sentido de contrariar o fenómeno do insucesso escolar massivo. Este conjunto de factores divide-se em dois grandes grupos, referindo-se um primeiro grupo às variáveis de estrutura:

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32 gestão centrada na escola, a direcção da escola, a estabilidade do pessoal, a gestão dos programas curriculares, a imagem da escola de sucesso e a optimização do tempo dedicado às actividades de apoio. E, um segundo grupo, que integra as variáveis do processo: auscultação e a relação com o pessoal, sentido comunitário e clareza de objectivos (Eurydice, 1995).

No mesmo âmbito, Fonseca (2004) refere um rol de estratégias determinantes para uma escola de sucesso. Alertando para a necessidade de criação de centros de recursos especializados, com o intuito de diagnosticar e superar os problemas de aprendizagem, assim como o estabelecer por parte da escola, objectivos curriculares, métodos de ensino alternativos e a introdução de mudanças na organização pedagógica, através de horários que facilitem acções e recursos de intervenções pedagógicas a tempo parcial.

Grande parte das medidas apresentadas pelos diferentes autores, centram-se em estratégias de intervenção no âmbito escolar (instituição e agentes de ensino) família e aluno, destacando-se as estratégias relativas a uma melhor articulação dos diferentes intervenientes no processo de ensino-aprendizagem do aluno, ao aumento da autonomia da escola no que se refere à aplicação dos programas e métodos de estudo e à utilização de novos equipamentos no sentido de responder à individualidade de cada aluno, tendo em conta as necessidades da sociedade actual.

Monteiro (2010), num estudo em que verificou quais os factores que os alunos consideravam como mais importantes para o seu rendimento académico, obteve as conclusões seguintes:

 É essencial que exista dentro do seio familiar um clima familiar harmonioso, uma vez que quando este clima favorável não se verificar, os problemas familiares poderão ser transferidos para o aluno, influenciando negativamente os seus resultados escolares;

 Os alunos defendem a ideia de que todos os conhecimentos adquiridos na escolar deveriam ter aplicabilidade em futuras profissões, assegurando que dessa forma os resultados escolares seriam mais positivos. Uma vez que algumas matérias não são do seu interesse, pode despertar uma maior apatia e desmotivação e consequentemente um menor empenho pelos conteúdos dessas disciplinas;

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33  A motivação é um factor preponderante para se obter o sucesso académico, pois determina se o aluno vai, ou não, adquirir o conhecimento, a compreensão ou a capacidade para efectuar determinada actividade ou tarefa;

 Os alunos consideram que se os objectivos foram estipulados conjuntamente, entre aluno e pais, a sua motivação para aprender será maior, apontando sempre os objectivos a serem alcançados. Desta forma, os pais demonstram um maior interesse e proximidade na vida escolar do aluno. Para que os objectivos sejam atingidos é necessário haver uma concordância entre os objectivos definidos pelos pais e aluno;

 O auxílio da escola na preparação para os exames é classificado pelos alunos como essencial. Assim sendo, é preponderante que as escolas criem condições que assegurem um apoio eficaz aos alunos, nomeadamente a criação de salões de estudo e aulas de apoio às diferentes disciplinas, esclarecendo eventuais duvidas dos alunos e ajudando-os a superar as suas principais dificuldades.

1.6. A disciplina de Educação Física

A educação física apenas há algumas décadas vem conquistando um espaço importante no panorama educativo educacional. Ao longo dos tempos, a disciplina foi por muitas vezes confundida e apelidada de Motricidade, Ginástica ou Educação Motora, entre outras terminologias. E, mesmo a designação actual (Educação Física) é alvo de alguma contestação, dado o termo “físico” ser algo redutor, não contemplando outras vertentes que a disciplina abrange, tais como a psicológica e social.

Hoje em dia, as potencialidades da disciplina são já mais respeitadas pela comunidade educativa, entre as suas faculdades, destacam-se a sua forte componente lúdica, a expressão de sentimentos e emoções e ainda a possibilidade de manutenção e promoção da saúde física e mental (Secretaria da Educação do Brasil, 1997).

Nesse sentido, a educação física é uma disciplina de carácter peculiar, sendo actualmente em Portugal, de carácter obrigatório, a partir do Ensino Básico até ao Ensino Secundário (de acordo com o decreto de lei nº 85/ 2009 de 17 de Agosto de 2009). Tendo como objectivos fundamentais o desenvolvimento do aluno no domínio psicomotor, cognitivo e sócio-afectivo. O domínio psicomotor refere-se às

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34 habilidades de execução das tarefas envolvendo para isso o sistema neuromuscular, por sua vez, o domínio cognitivo abrange a aprendizagem intelectual e por fim, o domínio afectivo que se relaciona com as questões de sensibilização e gradação dos valores presentes no desporto. Desta forma, todas as actividades promovidas têm a intenção de facilitar o desenvolvimento físico, psicológico e social de cada um dos alunos.

A este respeito, Rosado (1998) refere que a Educação Física, para além dos objectivos dos aspectos psicomotores e cognitivos, tem como objectivos o desenvolvimento sócio-afectivo, contribuindo assim para o desenvolvimento pessoal e social dos alunos, quer num contexto particular da educação física, quer num âmbito mais geral de formação social, daí a relação inequívoca da educação física com as outras disciplinas.

O mesmo autor referencia ainda que a contribuição da educação física no desenvolvimento pessoal e social dos jovens é relativamente aceite pela comunidade educativa. Salientando contudo que, os seus efeitos também podem ser neutros ou mesmo negativos. Os seus resultados vão estar dependentes da natureza das interacções que se desenvolveram nas aulas e ambientes desportivos, dependendo sempre da qualidade da orientação pedagógica. Destacando também o papel da educação física na interiorização de valores morais, nomeadamente desportivos, isto através da transmissão de um determinado capital ético-cultural, das gerações precedentes para as novas gerações.

Além do contributo da educação física no que se refere à transmissão de valores morais e num melhor desenvolvimento integral da criança/jovem, a prática de actividade física desportiva constitui um dos eixos centrais da disciplina, o que não significa que esta “se restringe ao simples exercício de certas habilidades e destrezas, mas sim de capacitar o individuo a reflectir sobre suas possibilidades corporais e, com autonomia exercê-las de maneira adequada” (Secretaria da Educação do Brasil, 1997, pág.27).

Tendo sempre em conta que a execução dos diferentes gestos técnicos que constituem cada uma das variadas modalidades da disciplina, deve ser exigida apenas pelo mínimo necessário, para que o objectivo principal possa ser atingido. Cabendo ao Desporto Escolar ou aos Clubes Desportivos a melhoria dessa execução. Importa,

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35 pois, que o aluno consiga jogar, ou realizar qualquer outra actividade física, colaborando e socializando com os respectivos colegas (Aranha, 2004).

No que se refere à questão do género, as aulas de educação física podem também representar um papel importante no que diz respeito ao compreender das diferenças de cada género, sem recurso á discriminações. A Secretaria da Educação do Brasil (1997) afirma que por razões de natureza sociocultural, os rapazes tiveram mais experiências corporais, principalmente no que se refere ao manuseio de bolas e em actividades que solicitem a força e a velocidade. As meninas, por seu turno, têm mais experiências em actividades que solicitem o equilíbrio e ritmo. Por norma, a disciplina de educação física valoriza mais as habilidades relacionadas com os jogos, nas quais os rapazes se mostram mais competentes, podendo assim surgir desequilíbrios entre os dois sexos. Para contrariar este cenário, devem ser dadas oportunidades às raparigas para se apropriarem dessas habilidades em situações em que não se sintam pressionadas, e ainda com a incorporação nas aulas de actividades rítmicas e expressivas. Assim, a disciplina pode actuar como instrumento tolerante de inclusão, não reproduzindo estereotipadamente relações sociais autoritárias.

Outra função importante da disciplina passa por dar oportunidades a todos os alunos para que desenvolvam todas as suas potencialidades. Desta forma, importa realçar que os alunos portadores de deficiência física ou mental devem ser incluídos nas aulas, explorando as suas capacidades, de forma democrática e não selectiva, visando o seu aprimoramento como seres humanos. (ibidem, 1997).

A maioria dos alunos que frequentam a escola podem, através da educação física, aceder a várias actividades físicas e desportivas desenvolvidas nas aulas da disciplina. Sendo que, para uns alunos a educação física alunos significa um momento de lazer, diversão, descontracção, para outros significa, desporto, competição, actividade física. (Deon & Fonseca, 2010). Assim, independentemente do significado que a disciplina tem na vida escolar de cada aluno, importa realçar a importância da educação física, que dada a sua natureza propícia experiências únicas aos alunos.

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Tabela 1- Efeitos da actividade física no bem-estar e saúde (adaptado de Marquez, 1995)
Gráfico 1- Género dos inquiridos
Gráfico 2- Idade dos inquiridos
Gráfico 4- Constituição do agregado familiar
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