Em Portugal a situação é muito difícil. O especialista Francisco Melro sustenta
(página 9) que a economia portuguesa vai reemergir após a pandemia muito
mais fraca e dependente. Em seu entender, “será, das economias da União
Europeia, a mais duramente e estruturalmente atingida”.
Embora a realidade justifique o pessimismo – com a maioria dos sectores em
dificuldade – há, por outro lado, razões para um cauteloso optimismo, tendo
em conta a resiliência que se observa em diversas áreas de actividade – e não
apenas as ligadas às novas tecnologias. Até na agricultura há cada vez mais
casos de sucesso.
Realmente, 2020 foi, está a ser, o pior ano das nossas vidas – em termos
sanitários, económicos e sociais. Mas também esta pandemia será vencida,
pelo que, agora, temos de alimentar uma esperança lúcida, olhando os
casos bem-sucedidos. E procurando replicá-los.
Q
O pior ano
das nossas vidas
Deixando de parte umas quantas “profecias” – algumas verosímeis, é certo –
pode dizer-se que quase ninguém previu a pandemia de 2020 e muito menos o
seu grau de destruição.
Investigadores, virologistas, infecciologistas, já para não falar dos
vigilantes “radares permanentes”, todos foram surpreendidos pelo modo
de aparecimento e pela força da COVID-19. E, como se sabe, ainda
hoje o comportamento do vírus está longe de gerar unanimidade por
parte da comunidade científica, o que torna a situação particularmente
complicada.
Os efeitos da COVID-19 na economia são incalculáveis. Como refere João César
das Neves (página 22 desta edição), “ninguém podia antever a dimensão da
terrível tempestade que subitamente se abateu sobre todo o mundo”. Trata-se
de uma colossal calamidade sanitária que gerou uma crise económica sem
precedentes. Na verdade, lembra o académico, “o mundo enfrenta em 2020
uma quebra do produto que não sentia desde a guerra de 1939-1945”.
Assim é, de facto. Os dirigentes mundiais procuram medidas visando o
equilíbrio entre o controlo da doença e o resgate da economia. Os problemas
adensam-se, a situação social em muitas zonas do globo é explosiva.
O E C O N O M I S T A 2 0 2 0
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Rui Leão Martinho
Coordenador-Geral
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Alto da Bela Vista, 68 - Pavilhão 8, R/C São Marcos
2735-336 Agualva-Cacém Ano XXXIII – Número 33 – 2020
O Economista é uma realização conjunta da Polimeios e da Ordem dos Economistas Portugueses.
Embora
a realidade
justifique
o pessimismo,
há, por outro
lado, razões
para um
cauteloso
optimismo,
tendo em conta
a resiliência
que se observa
em diversas
áreas de
actividade.
Estatuto EditorialA revista O ECONOMISTA é um órgão de análise das questões económicas, financeiras e sociais. A revista O ECONOMISTA é uma publicação independente do poder político e dos interesses económicos. A revista O ECONOMISTA assume o compromisso de não utilizar as informações a que tenha acesso para outros fins que não a elaboração de análises e comentários a publicar nas suas páginas.
O E C O N O M I S T A
S U M Á R I O
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O ECONOMISTA 2020
.
7 A pandemia apenas agravou Rui Leão Martinho
9 A economia portuguesa vai reemergir mais dependente Francisco Melro
21 E tudo o vírus levou... João César das Neves
25 O controlo orçamental e o atraso da economia Teodora Cardoso
28 A economia portuguesa no pré e pós-COVID-19 Joaquim Miranda Sarmento
32 As duas faces da Saúde Pública Constantino Sakellarides
36 COVID-19 e o sistema de saúde português Pedro Pita Barros
42 Economia e pandemia Dieter Dellinger
45 Crises, desemprego e políticas Mário Caldeira Dias
53 Emprego e o programa de estabilização económica e social Glória Rebelo
58 A Banca como chave para a recuperação da economia
e os impactos da reputação Fernando Faria de Oliveira
64 O novo Banco de Fomento José A. da Silva Peneda
67 Setor segurador: como reagiu José Galamba de Oliveira
71 Seguir em frente José Gomes
73 A educação em tempos de COVID-19 José Ferreira Gomes
76 Da ética à deontologia Jorge Rodrigues
79 Política fiscal em tempos de COVID-19 M. H. Freitas Pereira
84 Uma agenda de confiança para a economia portuguesa Francisco Jaime Quesado
87 O turismo e a COVID-19 Licínio Cunha
91 Uma reforma da PAC em tempo de pandemia Francisco Avillez
95 Agricultura: novos desafios ao seu financiamento Licínio Prata Pina
99 O Corporate Governance e as empresas familiares Pedro Fontes Falcão
103 Contra o unanimismo acrítico Francisco Assis
106 A resiliência da China Fernanda Ilhéu
RUI LEÃO MARTINHO
DIRECTOR
O E C O N O M I S T A
E D I T O R I A L
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O ECONOMISTA 2020
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O que Portugal está a atravessar em matéria da pandemia não deixa muitas dúvidas sobre o não controlo da situação sanitária do País.
Tal como no resto do mundo, e especialmente na Europa, esta situação está a prolongar-se sem ainda um horizonte previsível de resolução, pelo que as consequências na economia são de uma importância extrema. Na realidade, as contas públicas portuguesas irão atingir, no final de 2020, um défice que oscilará entre os 8 e os 10%, enquanto o PIB poderá sofrer uma variação entre 9 e 12%.
O vírus SARS-CoV-2, com as consequências que estamos a viver, trouxe uma crise económica muito profunda, pois para além das despesas derivadas desta inesperada pandemia pôs a nu as muitas debilidades que já tínhamos e que tinham sido ignoradas e não resolvidas ao longo dos últimos anos.
Este século tem-se caracterizado, em Portugal, por uma estagnação económica, por um fraco crescimento e por uma ausência de reformas estruturais. Mesmo as medidas tomadas durante o período de intervenção externa de 2011 a 2015 acabaram por ser, na sua maioria, revertidas nos anos seguintes, logo conjunturais.
Assim, é fácil percebermos que sem reformas estruturais e tendo já atingido receitas fiscais em valores máximos difíceis de superar, a que se junta uma elevada dívida pública, a pandemia veio simplesmente agravar a débil situação da nossa economia.
Internacionalmente, há uma expectativa da recuperação da pandemia e das suas consequências de uma forma longa, desigual e incerta. Daí, a importância extrema do aproveitamento dos fundos europeus que nos estão destinados e do Plano de Recuperação e Resiliência, o qual deve estar articulado com o que está pensado a nível da União Europeia, participando assim verdadeiramente num projecto europeu de relançamento e modernidade. Temos de pôr termo à incapacidade que Portugal tem tido de crescer a um ritmo razoável, optando firmemente por tomar as decisões que nos permitam um crescimento sustentado e robusto.
Estes temas estão patentes em cada um e em todos os trabalhos que constam desta edição do Anuário.
Tentámos abordar os mais diversos sectores da economia, nas perspectivas diferentes de especialistas de várias áreas e aguardamos que da sua leitura se possam retirar elementos que nos ajudem a compreender melhor a situação que estamos a viver e a preparar melhor o nosso futuro colectivo. Q