léxico da história dos
conceitos políticos do Brasil
J o ã o F e r e s J ú n i o r
M a r i a E l i s a M ä d e r
américa/americanos
No período estudado (1750-1850), o conceito de Amé-rica varia em torno de seis significados básicos: (1) um significado geográfico, mormente descritivo, que iguala a América, ou continente americano, ao Novo Mundo; (2) a essa definição, um sentido político pode ser acrescentado para significar as possessões coloniais das metrópoles europeias; (3) América como fonte de abundância e pro-messa de um futuro mais próspero; (4) a versão política análoga da definição 3, ou seja, de América como espaço de liberdade, de novas formas políticas e sociais algumas vezes associadas aos conceitos de república, federalismo e democracia; (5) a negação de 3, isto é, a América como o continente imaturo ou degenerado, terra de animais pequenos e de homens primitivos e ferozes, de clima insa-lubre; e, por fim, (6) a negação de 4, ou seja, o avesso à vida civilizada da Europa, escravidão, instabilidade política,
violência e facciosismo, muitas vezes também associados negativamente à república, federalismo e democracia.
Os verbetes referentes aos conceitos América e ame-ricano nos principais dicionários da língua portuguesa produzidos nos últimos três séculos revelam muito pouca variação semântica. Essa observação é consoante com os usos desses termos em discursos e documentos políticos e mesmo em obras literárias. Ademais, na maioria das ve-zes em que foram usados, tais conceitos não constituíam dentro dos argumentos matéria de contenda semântica. Aplicando a categorização proposta por Reinhart Koselleck, América e americano não assumiram propriamente o papel de conceitos-chave no período estudado, pois nunca se tornaram objeto central do debate político, nem foram dotados de definições múltiplas e antagônicas, próprias do caráter polissêmico dos conceitos dessa categoria.1
Contudo, não podemos desprezar o fato de esses conceitos terem sido por vezes incorporados a discursos políticos e debates importantes para a história do Brasil no período em questão.
Devemos notar que a pouca variabilidade semântica não faz com que o estudo dos conceitos de América e americano seja destituído de interesse, pois significados que não se tornam controversos são janelas para a obser-vação do consenso social, das crenças e das ideias mais profundas de um povo, comunidade ou grupo social. Ademais, como já observado alhures, a terminologia geográfica, a despeito de sua aparente neutralidade valo-rativa, pode conter julgamentos morais fortes e ser usada como ferramenta de controle social e/ou justificação para ações de política internacional.2
O dicionário da língua portuguesa composto pelo Padre D. Rafael Bluteau, publicado em 1728, contém um longo verbete América. A definição do termo é simples: sinônimo de “mundo novo”, a quarta parte do mundo. De fato, a extensão do verbete não se deve à abundância de significados do conceito em si, mas à narrativa que se segue a sua definição. Nela Bluteau relata que essa parte do mundo empresta seu nome de Américo Vespúcio, que tomou posse dela em nome do “gloriosíssimo Rei de Portugal D. Manoel”. Ademais, o texto também informa que Christovão Colon (sic) somente se animou a empreender sua viagem de descoberta após tomar posse, na Ilha da Madeira, das cartas de navegação de um piloto português. “A um português deve este mundo o descobri-mento daquele novo mundo.” Portanto, Bluteau apresenta o significado geográfico associado àquele de pertencimento colonial. Depois de afirmar o primado português sobre o novo continente, o verbete narra a viagem de Colombo e descreve com alguns detalhes a geografia do Novo Mundo, terminando com um comentário sobre a fonética correta do termo. Logo em seguida, o continente é divido em América setentrional e América meridional. Em cada uma dessas divisões, são enumeradas as colônias e possessões das monarquias europeias e também os povos “que não tem Reis”, os indígenas, no vocabulário contemporâneo.
É interessante notar que no Dicionário de Bluteau não há o verbete americano, ao passo que, nas várias edições do Dicionário de Antonio de Moraes Silva, produzidas no período em pauta (1789, 1813, 1823, 1831, 1844 e 1858), esse verbete existe, enquanto América está ausente. Cabe lembrar que o dicionário organizado por Moraes Silva foi baseado no de Bluteau, ou seja, ele é produto de uma reforma daquele velho dicionário.
A definição de americano no Moraes é também muito simples e se repete em todas as edições do período, “Natural da América, ou pertencente à América”, seguida de uma citação do padre Antonio Vieira (1608-1697): “Não quero comparar estes meninos Malabares, com os Americanos, senão com os Romanos.” Apesar do parco interesse da citação, ela serve para demonstrar que o conceito já estava em uso no século xVII. Vieira utiliza a palavra América sete vezes nos Sermões. Em cinco delas, ela aparece junta-mente com ásia e áfrica,3 em uma somente com ásia4 e
em uma outra sem a vizinhança desses outros continentes.5
Nessa última passagem, o termo serve simplesmente como elemento retórico de uma comparação reiterada. No Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640), América aparece novamente ao lado de áfrica e ásia, entre as terras dos bárbaros conquistadas pelos portugueses a serviço de Deus. Desses usos, pode-mos perceber que o conceito pertencia à categoria das possessões coloniais portuguesas, ou seja, nomeava um dos continentes nos quais os portugueses tinham colônias, e, portanto, tinham que lidar com problemas similares: conflito com outras potências europeias, exploração colonial, controle do território e dos mares, do tráfico, administração colonial e dos povos ali residentes etc. A definição de Bluteau também expressa esse ponto de vista colonial português, pois se apressa em afirmar a primazia da Coroa lusitana sobre as terras do Novo Mundo. Deve-se notar, contudo, que o Moraes de 1789 já não faz menção a isso, optando por uma definição geográfica mais estrita do termo, ao passo que o dicionário de Eduardo de Faria, de 1849, editado em Portugal, repete de forma sintética o argumento da possessão do Novo Mundo em nome do rei lusitano.
O termo América era também utilizado no período em expressões compostas, tais como América portuguesa, espanhola, meridional e setentrional. A mais importante delas foi América portuguesa, que, até a independência, em 1822, era o termo mais usado para se denominar a totalidade da colônia portuguesa no Novo Mundo. A pala-vra Brasil até então designava somente as capitanias sob o vice-reino do Rio de Janeiro6 – também o termo brasileiro
não teve um significado estável até, pelo menos, o advento da independência.7
Ainda que os dicionários da língua portuguesa tenham se restringido à definição geográfica de América, seria ingênuo desprezar a imensa carga semântica depositada sobre o conceito desde a descoberta do Novo Mundo, mormente pela contribuição de escritores europeus como Buffon, De Pauw, Olviedo, Montesquieu, Voltaire, Hume, Hegel, Kant e tantos outros. Duas opiniões opostas se depreendem desse conjunto de reflexões, as duas formuladas de uma perspectiva marcadamente europeia: uma de abun-dância e promessa de prosperidade, e outra de imaturidade, degeneração, insalubridade e, portanto, incapacidade para a vida civilizada. A versão negativa parece ter sido de algum uso nas disputas entre portugueses e habitantes da colônia – principalmente após a mudança da Corte de Portugal para o Rio de Janeiro em 1808 – que perduraram até a consolidação da independência do Brasil. Do lado português, era comum encontrarem-se argumentos apon-tando para a ingratidão dos brasileiros para com Portugal. Na Carta do compadre de Lisboa em resposta a outra do com-padre de Belém ou juízo crítico sobre a opinião dirigida pelo “Astro da Lusitânia”, de 1821, o Brasil é descrito como “um gigante, em verdade, mas sem braços, nem pernas; não
falando do seu clima ardente e pouco sadio”, habitado por “hordas de negrinhos, pescados nas costas da áfrica”, “terra dos macacos, dos pretos e das serpentes” em oposição a Portugal, que seria “o Jardim das Hespérides, os Elísios, deste pequeno mundo chamado Europa”, “país de gente branca, dos povos civilizados e amantes de seu soberano”.8
Já a versão positiva da visão europeia de América, a terra da fartura e do futuro promissor, francamente minoritária em relação à negativa, foi recebida com entusiasmo no Brasil. Contudo, esse significado foi com o tempo se dissociando do termo América, pelo menos dentro do discurso político que se tornou hegemônico com a con-solidação do Estado nacional brasileiro.
É no contexto da Conjuração Mineira (1789) que o termo América assume um conteúdo político importante e novo. Nos Autos da Devassa, produzidos pelas autoridades portuguesas no inquérito que se seguiu ao desbaratamento do movimento, ele é muitas vezes empregado com sentido político, relacionado a conceitos como o de república, liber-dade, revolução e sedição, e identificado ao projeto político dos conjurados, tanto por parte dos inquisidores quanto por parte dos acusados. Na “1ª Inquirição do Auto de Perguntas” ao Coronel Inácio José de Alvarenga Peixoto, de novembro de 1789, perguntado se sabia a causa da sua prisão, este responde que havia sido procurado para ser informado que “nesta cidade tinham prendido a Joaquim Silvério, e ao Alferes Joaquim José, por alcunha – o Tiradentes –, que se supunha ser por alguma liberdade, com que este falava em idéias de Repúblicas, e Américas inglesas...”.9 E continua
dizendo que “não tinha sido convidado por pessoa alguma para que, faltando às obrigações de bom e leal vassalo, concorresse para que a América conseguisse a sua liberdade,
e se formasse dela uma República...”. Ao ser perguntado sobre a possível ajuda francesa aos revoltosos, declara que tinha ouvido no Rio de Janeiro “a pretensão que a França, e as mais cortes estrangeiras tinham a liberdade do negó-cio nos portos da América e que equivocando-se, con-fundia esta liberdade do negócio com a liberdade da América...”.10 Nota-se aqui não somente a associação de
liberdade e república com a América inglesa, mas também com a América em geral, ainda que o acusado se esforce para negar qualquer associação sua com tais movimentos.
Nos mesmos Autos da Devassa, encontram-se referên-cias a uma carta escrita por José Joaquim da Maia, quando estudante em Montpellier, a Thomas Jefferson, então embaixador dos Estados Unidos em Paris, com a finalidade de angariar ajuda militar daquele país para um movimento de independência do Brasil. Nesse documento, o conceito de América é central. Maia opõe a América à Europa, a liberdade americana à escravidão imposta pelos europeus, e os Estados Unidos são tomados como o exemplo a ser seguido: “...porque a natureza, fazendo-nos habitantes do mesmo continente, como que nos ligou pelas relações de uma pátria comum”.11 Ainda em sua carta, o autor usa o
termo América para se referir ao Brasil simplesmente. Em suma, por um lado, o significado aqui ainda é muito próximo ao do dicionário, Novo Mundo, continente americano, porém, a essa unidade geográfica é associada uma finalidade política comum que é a da conquista da liberdade frente à Europa.
Deve-se ressaltar, contudo, que os exemplos da Conju-ração Mineira e da carta de Maia são marginais ao debate político que se travava na capital da colônia. É somente com a intensificação da agitação política durante o período de
emancipação e construção do Estado nacional brasileiro, que vai de 1810 ao triunfo do regresso conservador no início dos anos 1840, que o termo América passa a ser empregado com mais frequência no debate público, integrado ao discurso de diferentes personagens da época. Além do termo América, a distinção entre a América do Norte, ou setentrional, referida aos Estados Unidos, e a “outra” América, chamada de América do Sul, meridional ou espanhola, também é de uso corrente.
Dependendo do lugar de onde se fala, essa América hispânica pode assumir significados diversos e, não raro, antagônicos. No discurso político dominante na Corte, que pretendia impor ao resto do país um projeto político de império centralizado e unificado, a América hispânica muitas vezes é identificada à república, à barbárie, à anar-quia e à fragmentação política, todos conceitos com forte conteúdo negativo. Já no discurso das províncias que defendiam projetos políticos divergentes e alternativos aos da Corte, como, por exemplo, Pernambuco, a América aparece com um significado positivo, identificada à repú-blica, ao federalismo e à liberdade.
Vejamos alguns exemplos desses vários lugares de enunciação. Frei Caneca, revolucionário pernambucano e um dos pensadores políticos mais combativos de seu tempo, representou, tanto pela sua atuação política intensa – parti-cipou da Revolução de 1817 e da Confederação do Equador em 1824 –, quanto pela sua escrita contundente, uma das mais importantes vozes de oposição ao projeto imperial hegemônico na Corte e ao que chamava de “absolutismo” do imperador. No Typhis Pernambucano, periódico editado por ele de dezembro de 1823 a agosto de 1824, a América aparece como a “quarta parte nova do mundo”, ou como
sinônimo de “Novo Mundo”, identificada aos interesses dos “verdadeiros patriotas brasileiros” – os pernambucanos, por exemplo –, que se diferenciavam dos “europeus trans-plantados na América”, provavelmente os brasileiros da corte identificados por ele aos interesses absolutistas portugueses.12 Caneca não só chama o continente de “mãe
amorosa”, por ter acolhido e beneficiado os europeus conquistadores, mas também identifica a América ao seu povo nativo, tratado por muitos “não como irmãos e com-patriotas”. Ao protestar veementemente contra a dissolução da Assembleia Constituinte pelo imperador, em 1823, o frei argumenta que com aquela atitude “inconstitucional e atentatória da soberania da nação” o Brasil se distanciava do resto da América.13 Ainda no Typhis, publica vários
artigos de teor similar, inclusive um no qual exalta a máxima do presidente dos Estados Unidos, James Monroe – “a América para os americanos” –, por ver nela um manifesto contra a ameaça absolutista europeia à soberania do Brasil e das Américas. O modelo político americano vislumbrado por Caneca era o do sistema federativo dos Articles of Confederation e não o da Constituição Federal norte-americana de 1787, que para ele extinguira muitos dos direitos locais.14 Ou seja, para o autor e muitos de seus
conterrâneos revolucionários, a América estava associada à liberdade local, federalismo e república, numa chave eminentemente positiva.
Se, por outro lado, focarmos os textos que circulavam no ambiente da Corte, um outro leque semântico se apre-senta. O Correio Braziliense, periódico mensal impresso em Londres de 1808 a 1822, contém outros exemplos fecundos do uso do termo. Esse impresso foi também a principal fonte de informação na América portuguesa
acerca dos processos de independência das colônias da Espanha.15 Seu editor, Hipólito da Costa, era monarquista
constitucional de influência britânica, inimigo do repu-blicanismo francês e franco defensor da independência do país. Hipólito publicava seu periódico com a firme intenção de influenciar o pensamento das elites locais da época, e foi em grande medida bem-sucedido, pois o Correio serviu de modelo para o jornalismo político que surgiu no país durante o período da independência.16 Em
artigo de 1808, denominado “América”, Hipólito saúda a independência do México e examina a situação política do novo país frente às potências europeias: à França, des-crita como influência populista e ardilosa, e à Inglaterra, potência comercial. Os Estados Unidos da América são citados de passagem, somente como possível influência sobre o México.17 Em artigo de julho de 1809, comentando
a independência do território de Buenos Aires, Hipólito faz uso abundante do termo América, sempre no sentido da totalidade do continente, do Novo Mundo, e pressagia sua independência inevitável da Europa em um curto espaço de tempo. Segundo o autor, por “prejuízos [preconceitos] e educação equivocada, os europeus erram ao tratar tais regiões como se estivessem em sua infância”.18 Em março
de 1810, no texto denominado “América – a oportunidade da América”, o autor mostra preocupação com o destino republicano que os novos países americanos estavam escolhendo, condição que, segundo ele, se assemelhava muito à anarquia.19
No artigo “Estado político da América no fim de 1822”, publicado em dezembro do mesmo ano, Hipólito da Costa diferencia os Estados Unidos da América, “uma nação que se faz conspícua no mundo por seu poderio” e
“uma potência que é inconquistável às forças européias”, das “outras seções da América”, as ex-colônias espanholas, “consideradas pelas potências européias como pequenas províncias em rebelião e não dignas de serem tratadas como nações independentes”. Ao exaltar a emancipação da América dos governos europeus a que estava sujeita, defende o seu direito à soberania e à liberdade como “um direito que sempre têm exercido todos os demais povos do mundo” e que foi reconhecido pela Europa em relação aos Estados Unidos. Ao colocar-se claramente em oposi-ção ao projeto de independência que pretendia manter a escravidão no Brasil, afirma:
Como estas revoluções da América são agora fundadas nos princípios da liberdade, claro está que fica sendo incompatível com a existência desses governos a conser-vação da escravatura. Assim vemos que todos os governos da América Espanhola, imitando o exemplo dos Estados Unidos, têm já proibido o comércio da escravatura da áfrica, como passo preliminar para a aniquilação total da escravidão; e o Brasil, pelas mesmas razões, há de necessariamente seguir a mesma linha de política; e eis aqui um bem de considerável magnitude, que procede não simplesmente da independência da América, mas dos princípios liberais em que se estribam os promotores dessa independência.20
Aqui o Brasil, apesar de vir a se tornar uma monarquia, aparece para ele identificado a uma América que representa a liberdade, a revolução, as “ideias do século” e a razão. Em suma, ainda que Hipólito rejeitasse o republicanismo da América hispânica, considerava digno de admiração seu exemplo de liberdade frente às potências europeias e sua determinação no tocante à abolição da escravidão.
Posição similar é manifestada por José Bonifácio de Andrada e Silva, político e estadista de grande influência no período da independência, e defensor do regime da monarquia constitucional, uma solução política que evitava “os planos e astúcias secretas dos governos republicanos da América, por uma parte, e os da Santa Aliança da outra”. Se por um lado, Bonifácio afirma que “o Brasil quer ser livre; e tem o exemplo de todos os nascentes Estados que o rodeiam”, também deplora a opção pelos “amargos sacrifícios [do] ideal republicano”, que na experiência de nossos vizinhos se apresentava “anárquico e violento”.21
Nos dois últimos exemplos, notamos um alargamento semântico do conceito, que passa a expressar uma tensão entre o valor positivo da liberdade e a negatividade de seu abuso, ou excesso.
Já nos escritos de Paulino José Soares de Sousa, o visconde do Uruguai, um dos mais importantes represen-tantes do projeto de Estado nacional centrado na Corte, defensor da monarquia e da centralização, a América aparece identificada a valores negativos, representando a oposição à civilização encarnada pelo Império do Brasil. Uruguai também diferencia a América hispânica dos Estados Unidos. Com relação à primeira diz: “Tais são as repúblicas hispano-americanas. Têm organização política constantemente mutável. Quase não tem organização administrativa. Tudo é precário e depende do arbítrio dos chefes das revoluções.”22 Já os Estados Unidos da América
são um “daqueles afortunados países onde o povo é homogêneo, geralmente ilustrado e moralizado, e onde a sua educação e hábitos o habilitam para se governar bem a si mesmo”.23 As duas Américas são herdeiras da Europa,
Há a Europa latina e a Europa teutônica. A Europa la-tina compreende os povos do meio-dia, entre os quais estão a França, a Espanha, a Itália e Portugal. A Europa teutônica, os povos continentais do Norte e a Inglaterra. A primeira católica, a segunda protestante. Nas línguas da primeira domina o latim, nas da segunda, o idioma germânico. Essas duas grandes diferenças, essas duas grandes divisões reproduziram-se na América descoberta e povoada pela Europa. A América meridional é, como a Europa meridional, latina e católica. A América do Norte é anglo-saxônia e protestante.24
A América meridional que vive, segundo Uruguai, na anarquia, na desordem, na instabilidade política e na barbárie, não deve ser o espelho da nação brasileira que se quer civilizada.
Como vemos nos exemplos acima, se tomado no plano aproximadamente sincrônico do momento da indepen-dência e de sua consolidação, o significado político do conceito de América variava entre a associação positiva com o conceito de liberdade à associação negativa ao exemplo de anarquia, desordem e instabilidade política das repúblicas hispano-americanas. No caso de Caneca e dos liberais exaltados, essa associação positiva se estendia a conceitos como autonomia, federalismo e, às vezes, república. Já os defensores da monarquia constitucional não raro expressavam em seu discurso as contradições decorrentes do inchaço semântico do conceito, por vezes louvando a liberdade americana e por outras deplorando o exemplo hispano-americano. Por fim, a rejeição da experiência republicana da América espanhola é domi-nante no discurso de defensores da centralização polí-tica, como Uruguai. A estigmatização das repúblicas da
América espanhola presente, por exemplo, tanto no discurso dos liberais moderados quanto no discurso do Regressso fez com que os Estados Unidos da América fossem tomados cada vez mais como um caso singular, que, devido às diferenças de língua, religião e processo de colonização, podiam até ser admirados mas não deviam ser seguidos.
Já no plano diacrônico, além do sentido puramente geográfico, que permaneceu constante, podemos dizer que o conceito de América no início do período em questão (1750-1850) porta três significados principais: o de possessão colonial portuguesa, o de abundância e pro-messa de prosperidade e o de imaturidade, degeneração, insalubridade. Como podemos perceber, os termos dos últimos dois significados denotam traços marcantes de temporalização. Esse era basicamente o mapa semântico do conceito no período colonial, que começa a se enriquecer de tons políticos com o advento das independências dos Estados Unidos da América e das colônias espanholas, e o consequente uso desses exemplos por parte de atores colo-niais descontentes com o Império português. A associação da América como o valor da liberdade tornou-se comum a partir da primeira década do século xIx, ao mesmo tempo que a depreciação das experiências políticas das novas repúblicas da América espanhola rapidamente se converteu em tropo retórico daqueles que não desejavam o governo republicano no Brasil, ou seja, da parte dominante do espectro político brasileiro por toda a primeira metade do século xIx e além.
A simultaneidade entre a fundação de uma nova nação e a adoção de uma nova forma de governo, que parece ter sido fundamental na experiência política hispano- -americana, não se verificou no Brasil. A transformação
da colônia em centro de fato do Império português, com a chegada de D. João VI em 1808, fez com que se alimentassem fortes desígnios de continuidade política, que conseguiram sufocar por muito tempo os projetos republicanos, federalistas e democráticos – esses frequentemente identificados com a América. Na verdade, o conceito de Brasil, de nação brasileira, parece ter absorvido em grande parte essa interpre-tação positiva do Novo Mundo, principalmente com o advento do romantismo, que se implanta com força a partir do Segundo Reinado (1840-1889). A imagem da nação brasileira moldada a partir daí se apresenta como um projeto civilizacional singular no Novo Mundo, que mistura elementos europeus, descartados no restante do continente, como a monarquia, com elementos nativos supostamente próprios.25
notas
1 KOSELLECK, 1996; RICHTER, 1995; LEHMANN; RICHTER, 1996. 2 FERES JÚNIOR, 2005a, 2005b.
3 VIEIRA, 1959, p. 74, 106, 132, 242. 4 VIEIRA, 1959, p. 244. 5 VIEIRA, 1959, p. 240. 6 NEVES, 2003. 7 VAINFAS, 2002. 8 MARTINS, 2003. 9 PROENçA FILHO, 1996, p. 1028. 10 PROENçA FILHO, 1996, p. 1028-1029. 11 BONAVIDES; AMARAL, 2002. 12 CANECA; MELLO, 2001, p. 59.
13 TYPHIS, 1º jan. 1824. 14 MELLO, 2004. 15 PIMENTA, 2003. 16 LUSTOSA, 2000. 17 LIMA SOBRINHO, 1977. 18 LIMA SOBRINHO, 1977. 19 LIMA SOBRINHO, 1977. 20 LIMA SOBRINHO, 1977. 21 BONIFáCIO; DOLHNIKOFF, 1998. 22 URUGUAI; CARVALHO, 2002, p. 92. 23 URUGUAI; CARVALHO, 2002, p. 491. 24 URUGUAI; CARVALHO, 2002, p. 500-501. 25 SCHWARCz, 1999. BiBliografia
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B e a t r i z C a t ã o C r u z S a n t o s
B e r n a r d o F e r r e i r a
cidadão
Na língua portuguesa, bem como na espanhola, a pa-lavra cidadão tem uma significação mui particular, ela designava o morador ou vizinho de uma cidade. Sabe-se que pelo direito feudal as povoações, segundo que eram cidades, vilas ou lugares, tinham assim diferentes direitos, gozavam certos privilégios, liberdades, isenções (...) [O cidadão], por isso, gozava diferentes direitos que não se entendiam a todos os membros da sociedade; (...) isto porém acabou.1
Este discurso de Pedro Araújo Lima na Assembleia Constituinte de 1823 faz parte do debate sobre o artigo do projeto de constituição que definia quem eram os brasilei-ros. O artigo foi objeto de uma discussão acalorada, pois, no momento em que o deputado faz o seu discurso, não só a palavra cidadão assumia um novo significado, mas a
própria ideia de brasileiro era nova. Entretanto, na edição de 1823 do Diccionario da lingua portugueza, as mudanças apontadas por Araújo Lima permaneciam ignoradas. O cidadão era “o homem que goza dos direitos de alguma cidade, das isenções, e privilégios, que se contêm no seu fo-ral, posturas”, ou “o vizinho de alguma cidade”, ou, ainda, o “homem bom”. No Novo diccionario critico e etymologico da lingua portugueza, de 1836, cidadão é alguém “apto para os cargos municipais”. Todas estas definições pertencem a um quadro de referência de fundo hierárquico, que, aos olhos de Araújo Lima, havia ficado para trás. Não por acaso, na sequência da sua fala, ele insistia que “deve ser extensa esta denominação [de cidadão] a todos os indivíduos, porque seria odioso que conservássemos uma diferença, que traz sua origem de tempos tão bárbaros”.2
Entre o final do período colonial e as décadas iniciais do Brasil independente, o vocábulo cidadão sofreu trans-formações no seu significado cujo resultado foi o estabe-lecimento de um conceito novo. Sob alguns aspectos, essas transformações são tributárias dos rumos assumidos pelo conceito de cidadão na história europeia. Isso implicou a passagem de uma compreensão hierárquica da cidadania para um entendimento igualitário. Nesse sentido, a his-tória do conceito de cidadão no Brasil, entre 1750 e 1850 acompanha e atualiza a sua trajetória no mundo europeu. No entanto, a separação que o constituinte estabelece entre dois tempos claramente distintos precisa ser matizada. Para que a natureza das transformações mencionadas possa ser apreendida na sua complexidade, é preciso associá-la a dois outros aspectos sem os quais o quadro permaneceria incompleto e simplificado. Referimo-nos ao papel que o conceito irá desempenhar na definição das fronteiras de
pertencimento à coletividade em uma sociedade marcada, por um lado, pela sua condição colonial e, por outro, pela permanência de relações escravistas.
Quando Araújo Lima fazia o seu discurso na Cons-tituinte, ele punha em evidência uma associação muito comum no Antigo Regime português. A condição de ci-dadão e a de vizinho não raro se confundiam. Em ambos os casos, estava em jogo um estatuto jurídico-político que definia o pertencimento de um indivíduo à comunidade local em termos de privilégios, deveres, isenções, costumes. Portanto, ainda que nos diferentes dicionários o cidadão e o vizinho apareçam vinculados à habitação mais ou me-nos permanente em um lugar, esta é apenas uma parte da definição. A vizinhança, como pode se ler em Ordenaçoens do Senhor Rey D. Manuel (1514-1521), estava associada ao gozo de “privilégios e liberdades de vizinho, quanto a ser isento de pagar os direitos reais, de que, por bem de alguns forais e privilégios dados a alguns lugares, os vizinhos são isentos”.3 O estatuto do vizinho é inseparável de um
“di-reito de vizinhança”,4 que distingue uma comunidade local
como um corpo privilegiado. As prerrogativas do vizinho se referem em primeiro lugar a esse corpo privilegiado e é como membro do grupo, e não a título subjetivo, que o indivíduo desfruta delas.
Segundo o jurista português Pascoal José de Melo Freire, no livro Instituições de direito civil português, de 1789, entre a cidadania e a vizinhança seria possível estabelecer uma diferença, já que os direitos do cidadão teriam um alcance maior do que os referentes aos vizinhos, fundamentalmente dirigidos ao âmbito municipal.5 A despeito dessa provável
diferença, importa salientar que os dois estatutos remetem a uma mesma lógica concreta e particularista, segundo a
qual a integração do indivíduo a res publica é concebida em termos de uma diferença baseada em privilégios. De maneira geral, o estatuto de cidadão se refere a um con-junto de prerrogativas, que está vinculado aos cargos da administração local, principalmente da câmara. O cida-dão é o “homem bom”, que se distingue dos demais por uma posição superior, garantida pela hereditariedade ou alcançada por mecanismos de enobrecimento. Assim, a definição de cidadão, embora não se confunda com a de nobreza, se aproxima dela, identificando-se a uma série de marcas que distinguem aqueles que buscavam ser reconhecidos como os “principais da terra” ou os “homens principais”.6 Na sociedade colonial, o estatuto de cidadão
tem, entre outros pré-requisitos, a ideia da “pureza de sangue” – ou seja, a ausência da mácula que contamina a descendência das “raças infectas”, judeus, mouros, negros, indígenas, ciganos7 – e a inexistência de qualquer “defeito
mecânico” – isto é, de qualquer vínculo com atividades manuais, os ofícios mecânicos.8 Nesse contexto, cidadão e
povo são noções diversas. Em uma representação de 1748 do Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro sobre a procissão de Corpus Christi, os vereadores cobram a presença dos “Cidadãos”, da “Religião” (ordens religiosas), das “Irmandades e Confrarias” e do “mais Povo”.9 O povo
aqui não se confunde com o conjunto dos cidadãos, mas designa os ofícios mecânicos (artesãos), que exerciam fun-ção simbólica relevante nas cerimônias régias e que haviam tido participação política por um certo período de tempo em algumas cidades do reino e da América portuguesa.10
Na verdade, essas noções de cidadão e de vizinho têm que ser compreendidas no horizonte das concepções
corporativas que marcaram as representações teológico- -políticas da sociedade e da monarquia portuguesa no Antigo Regime. Para tais concepções, a hierarquia social era pensada como a expressão de uma ordem mais geral do mundo, na qual cada coisa encontra a sua razão de ser no desempenho de uma função e na ocupação de um lugar que lhe são próprios. O todo é o resultado da articulação entre as suas diferentes partes, cada uma cumprindo o papel que lhe compete em vista do bem comum. Em termos das relações políticas, a perspectiva corporativa impõe o reconhecimento de uma organização da vida coletiva que precede a vontade humana e que requer a preservação da autonomia e da diferença dos corpos sociais em relação à sua cabeça, o rei. Este último tem como principal incumbência a preservação da harmonia do todo através da realização da justiça, entendida como a atribuição a cada qual daquilo que lhe compete.11 Esta compreensão de
origem medieval será reatualizada na época moderna com a difusão no mundo português das doutrinas políticas corporativas da Segunda Escolástica, cuja influência se manteve na América portuguesa até o final do século xVIII, resistindo aos esforços de reforma empreendidos pela Ilustração. Para os autores da Segunda Escolástica, a ordem política apresenta um duplo caráter: ela decorre de uma ordenação natural das coisas que escapa ao arbítrio humano; simultaneamente, é pactuada, porque resulta da transferência ao governante de direitos que residiam originariamente nos corpos da República.12
Nesse quadro, a ideia de constituição remete, em pri-meiro lugar, a uma estruturação natural da sociedade, antes de ser o resultado de um ato de vontade dos cidadãos de
um Estado. A precedência da constituição e do direito sobre a livre escolha dos membros da coletividade está na base do estatuto do cidadão. Este último é inseparável da ideia de que a comunidade política é produto da articula-ção entre corpos sociais que são por natureza diversos e desiguais em direitos. Por isso, a constituição é a condição dos pactos dos quais os cidadãos tomam parte, e não o oposto.13 Da mesma forma, as palavras nação e pátria não
eram portadoras de um significado político vinculado à ideia de direitos à cidadania. A pátria, em geral, designava o lugar de origem dentro dos domínios portugueses.14
Nação, quando compreendida em termos políticos, era, antes de tudo, a “nação portuguesa”, sinônimo de Estado português e, portanto, expressão de uma unidade que se imaginava resultante da submissão e da fidelidade de todos os súditos à monarquia.15
No contexto do Antigo Regime português e da socie-dade colonial das décadas iniciais do século xVIII, o esta-tuto de cidadão apresenta-se como o resultado de uma concepção partilhada do poder, segundo a qual o exercício do governo local é compreendido como uma prerrogativa de alguns corpos sociais e indivíduos e, ao mesmo tempo, como um serviço cuja merecida contrapartida deveria ser a ampliação dos privilégios. Sendo assim, não é de se espantar que, em 1655, os oficiais da câmara da cidade de São Luiz do Maranhão demandassem junto ao rei os mesmos privilégios que distinguiam os cidadãos da cidade do Porto desde 1490. Tampouco surpreende que o rei atendesse à reivindicação, alegando que o fazia em retri-buição aos serviços prestados pelos súditos fiéis e na expectativa de que a fidelidade já demonstrada viesse a se renovar.16 Como o estatuto do cidadão pressupõe o
reconhecimento prévio de uma determinada ordem da vida social, toda disputa em torno dele se dá dentro de limites muito precisos, que são aqueles colocados pela própria compreensão hierárquica e, por extensão corpo-rativa e estamental, da sociedade. É possível disputar sobre os critérios de acesso aos privilégios que definem a cida-dania, mas não sobre a sua condição privilegiada.
Ao longo do século xVIII, esse quadro tendeu a se transformar como resultado da incorporação de uma linguagem referida a um novo sujeito do direito: o indi-víduo. Tal fato foi o produto da difusão de duas retóricas nem sempre convergentes, ainda que ambas tributárias do jusnaturalismo moderno: a retórica igualitária dos di-reitos subjetivos e a da soberania popular. A repercussão no ultramar do ideário das Luzes, da independência das colônias inglesas e da Revolução Francesa foi a principal responsável pela assimilação dessas novas retóricas. No entanto, a acolhida das novas ideias no mundo português se deu dentro de limites muito claros, buscando conciliar a preservação de estruturas sociais e políticas do Antigo Regime e um programa de reformas modernizantes ins-pirado no racionalismo do século xVIII. Além disso, a vigilância e a censura sobre as noções que se chocavam com as instituições da monarquia e a proibição das tipografias na América portuguesa impunham limites à circulação da palavra impressa. A disseminação de novas ideias ocorria sobretudo por intermédio de alguns impressos, manus-critos e pela comunicação oral e não sob a forma de uma reflexão de cunho mais sistemático e livresco. A formação de um novo conceito de cidadania será essencialmente clandestina e ganhará a luz do dia com as vestes da sedi-ção, nos movimentos de contestação da ordem colonial
que ocorrerão nos anos finais do século xVIII e início do xIx. Portadores de projetos políticos distintos e, muitas vezes, marcados por diferenças internas, alguns desses movimentos trouxeram a público noções que punham em questão a ordem do Antigo Regime e, com ela, a concepção hierárquica e estamental da cidadania.
A Conjuração Baiana de 1798 é, nesse sentido, exem-plar. Expressão da crise do Antigo Regime, ela foi um episódio cujo alcance permaneceu pontual e localizado. No entanto, permite vislumbrar desdobramentos possí-veis da assimilação na sociedade escravista de uma ideia de cidadão como titular de direitos de caráter igualitário. Projeto abortado de revolução contra o que se designava como o “despotismo” e a “tirania” da Coroa portuguesa, a Conjuração Baiana de 1798 tem entre seus traços distinti-vos a assimilação do ideário da Revolução Francesa. Como proclamavam os pasquins afixados nas ruas da cidade de Salvador, seria chegada a hora dos “homens cidadãos”, dos “povos curvados e abandonados pelo rei” levantarem “a sagrada bandeira da liberdade”.17 Ao incorporar o ideário
francês, o discurso dos conjurados atingia as bases esta-mentais da sociedade colonial e as concepções de direito que lhe eram próprias e, ao mesmo tempo, transformava a igualdade de direitos em condição de pertencimento à comunidade política. Na nova ordem, as distinções de estatuto entre os homens livres seriam abolidas e o governo seria a expressão da soberania do povo. Como observava outro pasquim dirigido ao “poderoso e magnífico povo bahinense republicano”, “será maldito da sociedade nacio-nal todo aquele ou aquela que for inconfidente à liberdade coerente ao homem”.18 Dessa forma, em movimento similar
Norte e na Europa, a legitimidade do exercício do poder se transferia do trono para o povo. Compreendido agora como um conjunto de indivíduos juridicamente iguais, o povo deixava de ser uma das ordens da sociedade para se transformar no titular dos direitos de soberania: é o povo que, na linguagem dos pasquins, “quer”, “manda”, “ordena” fazer uma revolução, abrir os portos, elevar a remuneração dos soldados, criar um “novo código”, punir os oponentes do movimento.19 Se a nação no vocabulário político dos
insurgentes continua a ser sinônimo de Estado, ela já não se identifica mais com a unidade da Coroa, mas remete à vontade coletiva do povo.20
Na Conjuração Baiana, a noção de “liberdade coerente ao homem” e a concepção abstrata de direito que lhe é correspondente encontraram expressão em uma expecta-tiva de eliminação das distinções fundadas nas diferenças de cor. Como antecipava um pasquim: “Cada um soldado é cidadão, mormente os homens pardos e pretos que vivem escornados e abandonados, todos serão iguais, não haverá diferença, só haverá liberdade, igualdade e fraternidade.”21
A abolição da escravidão não figurava entre as reivindica-ções dos revoltosos, apesar de ter sido vocalizada por alguns deles. Ainda assim, a bandeira de uma cidadania que eliminasse as diferenças de cor trazia consigo um potencial de questionamento não só das desigualdades estamentais e dos estatutos de pureza de sangue a elas associados, mas também da própria ordem escravocrata. Esta ameaça, no final do século xVIII, ganhava contornos ainda mais nítidos em função das notícias da rebelião de escravos iniciada em 1791 na colônia espanhola de São Domingos.
A possibilidade – entrevista na Conjuração Baiana e que se reproduzirá em outras ocasiões – de que o ideal de uma cidadania igualitária se disseminasse como uma demanda pela abolição das discriminações de cor e, em último caso, como um grande conflito social imprimirá uma tônica particular aos debates políticos sobre o conceito de cidadão que se inauguram à época da independência. As controvérsias em torno da amplitude dos direitos de cidadania ocorridas na Constituinte brasileira de 1823 são um momento importante desse debate.
A discussão na Constituinte de 1823 está marcada pela necessidade que então se colocava de fundar um novo corpo político após a separação de Portugal. Dessa forma, a definição sobre o cidadão brasileiro implicou a determi-nação das fronteiras que separariam este último dos não- -cidadãos, isto é, de todos aqueles que não participariam do “pacto social” sobre o qual se fundava o Estado nascente. A linguagem é, em grandes linhas, a do jusnaturalismo moderno. A sociedade é criada pelos indivíduos tendo em vista a preservação dos seus direitos. Serão cidadãos aqueles que, por meio do seu consentimento, estabele-cerem um poder comum para a sua própria segurança e conservação. No entanto, a determinação da natureza do pacto social brasileiro se deparava com duas grandes difi-culdades. A instituição da nova ordem se dava a partir de uma secessão no interior da antiga “família portuguesa”: como diferenciar os cidadãos do Estado que se formava em relação aos membros do antigo reino português? Ou ainda: dado que até então todos eram igualmente membros da “nação portuguesa”, como distinguir a partir de agora brasileiros e portugueses? Além disso, uma outra questão
se colocava: quais dos membros da sociedade brasileira poderiam ser considerados parte efetiva do pacto social?22
Nas palavras de um dos constituintes: “Por ser heterogê-nea a (...) população” brasileira, seria preciso diferenciar aqueles que poderiam reivindicar o título de cidadão dos demais, evitando “confundir as diferentes condições de homens por uma inexata enunciação”.23
Às vésperas do rompimento com Portugal, “brasileiro” não indicava uma identidade política diferenciada. Com efeito, “até o início de 1822, nascer brasileiro significava ‘ser português’; com isto designava-se apenas o local de nascimento dentro da nação portuguesa”.24 A palavra podia
ser igualmente utilizada para apontar os que, nascidos em Portugal, tinham residência fixa ou interesses mais per-manentes no mundo americano.25 Em fevereiro de 1822,
Hipólito José da Costa, no seu jornal Correio Braziliense, ainda acreditava ser necessário diferenciar “brasiliense” (“o natural do Brasil”), “brasileiro” (“o português europeu ou o estrangeiro que lá vai negociar ou estabelecer-se”) e “brasilianos” (“os indígenas do país”).26 Em 1823, nos
debates da Constituinte, brasileiros e portugueses passam a ser concebidos como membros de nações diferentes. Em parte, essa distinção se baseará no critério da naturalidade, já que os cidadãos brasileiros se definirão, entre outras coisas, pelo fato de terem nascido no território da nova nação. Mais do que o critério da naturalidade, porém, será a adesão, tácita ou explícita, à causa da independência, isto é, o engajamento no novo pacto social, que, para os constituintes, estabelecerá a diferença entre brasileiros e portugueses. Ponto de vista semelhante fora defendido por Frei Caneca, em texto do início de 1822, publicado no
ano seguinte. Segundo ele, “pátria não é tanto o lugar em que nascemos, quanto aquele em que fazemos uma parte e somos membros da sociedade”.27 Seria preciso distinguir
a “pátria de lugar” (“efeito do puro acaso”) da “pátria de direito” (“ação do nosso arbítrio”).28 Esta, e não aquela, seria
a verdadeira “pátria do cidadão”. De modo similar, dizia José Martiniano de Alencar na Constituinte, “é cidadão brasileiro tanto o nascido em Portugal como o nascido no Brasil, contanto que entrassem de princípio no novo pacto social”.29 No momento que se desenham os contornos
do novo Estado, o que define o cidadão brasileiro é, em primeiro lugar, o seu consentimento.
O fato de que o português seja concebido como não- -cidadão, ainda que o converta em estrangeiro, não afeta o seu estatuto jurídico de homem livre. O mesmo já não se pode dizer quando foi preciso definir “para dentro”, e não mais “para fora”, as fronteiras da cidadania, separando as diferentes “condições de gente” que compunham a sociedade. Isso implicou uma tentativa de estabelecer uma distinção entre os que pactuariam para a formação da sociedade civil e os que não possuiriam títulos jurídicos para participar dela, os negros escravos e os índios. Daí a necessidade de diferenciar entre o brasileiro e o cidadão brasileiro. Nos termos do deputado Francisco Carneiro de Campos:
O nosso intento é determinar quais são os cidadãos brasileiros e, estando entendido quem eles são, os outros poder-se-iam chamar simplesmente brasileiros, a serem nascidos no país, como escravos crioulos, os indígenas, etc., mas a constituição não se encarregou desses, porque não entram no pacto social: vivem no meio da sociedade civil, mas não fazem parte dela.30
Os índios estariam excluídos, porque, embora livres e nascidos no país, sequer reconheceriam a existência da nação brasileira e de suas autoridades, vivendo inclusive em “guerra aberta” contra elas.31 Já os escravos, nascidos
ou não no Brasil, a sua situação é outra, uma vez que o seu estatuto de não-cidadão será pensado com referência a uma condição jurídica precisa: o fato de que não são donos de si mesmos, o seu estado de privação de liberdade. Os escravos, observava Francisco Gê Acaiaba Montezuma, em relação “ao exercício de direitos na sociedade, são consi-derados coisa, ou propriedade de alguém”. O seu estatuto jurídico os tornava incapazes de serem membros da socie-dade civil brasileira, pois, como insistia Montezuma, “este nome só pode competir, e só tem competido a homens livres”.32 Dessa forma, se estabelece uma clara demarcação
entre cidadãos – que por serem livres podem reivindicar a “qualidade de pessoa civil”33 – e os escravos – que, mesmo
quando naturais do país, não são livres e não são senhores da sua própria vontade, não podem tomar parte do pacto social, “não passam de habitantes no Brasil”.34
Havia, no entanto, uma condição adicional de homens em relação à qual o estatuto de cidadão precisou ser defi-nido. Uma condição ambígua, já que livre, natural do país, habitante do seu território, integrada à ordem política do Império e, no entanto, marcada pela condição servil: os escravos libertos. O lugar dos libertos no interior da sociedade política colocava no centro do debate a questão sobre a amplitude tolerável de uma noção de direitos de cidadania baseada na ideia de uma “liberdade coerente ao homem”. Em outros termos, dada a continuidade da ordem escravista, qual o grau aceitável de abstração do conceito de cidadão em relação às desigualdades que organizavam
a vida social? Ou ainda: em uma sociedade marcada por um passado recente de institucionalização de privilégios de sangue e de cor e na qual condições sociais se entrelaçam a matrizes raciais,35 até que ponto seria possível estender
a igualdade jurídica entre seus membros?
Nas outras sociedades escravistas da América, a ten-tativa de conciliar continuidade da escravidão africana e concepção universalista da cidadania levou a uma exclusão dos negros e seus descendentes, fossem eles cativos ou livres, baseada em critérios de desigualdade racial.36 Com
isso, se buscava preservar não só a escravidão, fundando-a sobre bases raciais, mas também as premissas individua-listas do conceito de cidadão, tornando a universalidade dos direitos compatível com a sua simultânea restrição. No século xIx, portanto, “raça e cidadania são duas noções construídas de forma interligada no continente america-no”.37 No Brasil, essa associação não se verificou. A noção
de raça só ganhará difusão mais ampla na segunda metade do século, em um momento posterior à definição das bases constitucionais da cidadania. Ao mesmo tempo, a ordem constitucional inaugurada em 1824 será mais inclusiva do que no restante das sociedades escravistas da América.
Na Assembleia Constituinte de 1823, foi consenso que o liberto deveria ser um cidadão do Império, já que, nas palavras de um deputado, com a liberdade se “restabelece o direito natural”.38 A divergência ficou por conta de saber
se os direitos de cidadão – mais precisamente, os direitos civis – deveriam ser estendidos aos libertos africanos e brasileiros ou exclusivamente aos nascidos no país. A Constituição outorgada de 1824 consagrou o ponto de vista mais restritivo e, além disso, impediu que os libertos participassem de uma das etapas do processo eleitoral. De
qualquer forma, a solução oferecida pela Carta permanecia comparativamente inclusiva. A defesa de uma concepção extensiva da cidadania partia do reconhecimento de que “haveria grandes ciúmes, e desgostos, se uma classe de brasileiros acreditasse que este título se queria fazer priva-tivo a outra classe”.39 Por isso, dizia Venâncio Henriques de
Resende na Constituinte, seria preciso “neutralizar (...) o veneno” da “aversão” entre libertos e brancos, assegurando que os primeiros “tivessem o interesse em ligar-se a nós pelos foros de cidadão”.40
A natureza inclusiva do conceito de cidadania consa-grado na Constituição foi, portanto, o resultado da tenta-tiva de preservação do escravismo. Até certo ponto, ela respondia a uma expectativa de equiparação jurídica e de igualdade de direitos independente da cor expressos “em todas as ocasiões em que a participação popular se fez presente no processo de independência política”.41 Dado o
peso numérico da população de negros e mestiços livres (algo em torno de 30% do total da população), ignorar essa demanda era, como reconheciam os próprios constituintes, pôr em risco a ordem escravocrata.42 Assim, na questão
dos direitos dos libertos – e, por extensão, daqueles que eram brasileiros, livres, porém negros ou mestiços –, o conceito de cidadão se viu estreitamente associado ao problema da “segurança pública”.43 Este será um tema do
debate político na década de 1830, no qual adversários aludem ao risco da desordem social, mobilizando argumentos simétricos: ou a implementação efetiva da igualdade de direitos civis estabelecida na Constituição seria capaz de conter a insatisfação com as desigualdades de cor e de raça entre os livres; ou o apego excessivo a uma noção abstrata de cidadania seria uma incitação à revolta de negros e
mestiços contra os brancos. A simetria dos pontos de vista remete, no entanto, a um mesmo pano de fundo: a tensão entre o novo conceito de cidadania consagrado na Constituição e a continuidade das relações escravistas.
No debate político dos anos 1830 e 1840, duas respos-tas oposrespos-tas e polares buscam fazer face a essa tensão. Em linhas gerais, elas foram expressão do antagonismo entre liberais e conservadores e encontraram na Constituição de 1824 o quadro de referência da sua argumentação.44 Desde
os debates da Constituinte, a discussão sobre a igualdade jurídica se restringia à esfera dos direitos civis. Como observava Pedro Araújo Lima, “a palavra cidadão não induz igualdade de direitos”.45 A Constituição outorgada
consagrará esse ponto de vista. Segundo Pimenta Bueno, principal comentador da Constituição imperial, os direi-tos políticos seriam um atributo daqueles que, além de membros da “sociedade civil ou nacional”, participariam da “ordem ou sociedade política”.46 No debate político
brasileiro do século xIx, a diferenciação entre cidadãos portadores de direitos políticos e aqueles apenas titulares de direitos civis será elaborada a partir da distinção entre cidadão ativo e passivo, originária do constitucionalismo francês. O primeiro, nos diz Pimenta Bueno, desfruta de uma liberdade relativa a “tudo quanto não lhe é proibido pela lei”; já o segundo possui a liberdade política que “decreta essa lei”.47 O exercício dos direitos políticos, diz o
mesmo autor, seria “uma importante função social”, antes de ser “um direito individual ou natural”. Para possuir tais direitos, seria preciso “oferecer à sociedade certas garantias indispensáveis”,48 sob a forma de “capacidades e
Na Constituição de 1824, a diferenciação entre cida-dão ativo e passivo foi instituída com base em critérios censitários, que também estabeleciam diferentes graus no exercício dos direitos políticos. Nos debates políticos dos anos 1830 e 1840, o princípio que sustentava os critérios censitários da Constituição – a ideia de que a propriedade é a condição para o exercício independente dos direitos políticos – não será, em linhas gerais, questionado. No entanto, duas alternativas opostas serão derivadas do texto constitucional, visando conciliar escravidão e cidadania. Do ponto de vista dos liberais, as qualificações censitárias não negariam a igualdade fundamental dos cidadãos perante a lei, apenas estabeleceriam distinções fundadas em critérios adquiridos, e não herdados. Nesse sentido, o acesso aos direitos políticos dependeria apenas dos talentos individuais. A escravidão estaria justificada pelo direito de propriedade e não por quaisquer diferenças qualitativas entre os indivíduos. Não haveria razão, portanto, para a existência de categorias intermediárias entre os cidadãos e os escravos.50 Como afirmava um jornal radical dos anos
1830, “entre nós não há mais do que povo e escravos; e quem não é povo já se sabe que é cativo”.51 Entre os
con-servadores – “partido” que se torna hegemônico a partir da década de 1840 –, prevalecerá a ideia de que seria preciso demarcar as diferenças entre os membros da sociedade, atualizando e legitimando na nova ordem as prerrogativas que haviam organizado o Antigo Regime português. A preservação da ordem escravocrata se torna sinônima da conservação e reprodução de hierarquias tradicionais, que podiam ser lidas agora à luz das exigências censitárias do texto constitucional. Dessa forma, a associação entre cidadania, liberdade e propriedade se torna a referência
das desigualdades que deveriam existir entre livres e pro-prietários (os cidadãos ativos), livres e não-propro-prietários (os cidadãos passivos) e não-livres e não-proprietários (os não-cidadãos).52
notas
1 DAC, 24/09/1823, p. 106. 2 DAC, 24/09/1823, p. 106.
3 ORDENAçOENS, Livro II, Título xxI. 4 FREIRE, 1789, Livro II, Título II, § 7. 5 Cf. FREIRE, 1789, Livro II, Título II, § 5. 6 BICALHO, 2003, p. 146. 7 CARNEIRO, 2005. 8 BICALHO, 2003, p. 143. 9 Apud SANTOS, 2005, p. 114. 10 SCHWARTz, 2004; SANTOS, 2005. 11 HESPANHA; xAVIER, [s.d.], p. 122-125.
12 HESPANHA, 2000; HESPANHA; xAVIER, [s.d.], p. 127-133. 13 HESPANHA; xAVIER, [s.d.], p. 122-125; HESPANHA, 2000. 14 BERBEL, 2003, p. 348.
15 JANCSÓ; PIMENTA, 2000; CHIARAMONTE, 2003.
16 Cf. Alvará de 15 de Abril de 1655. In: ANDRADE E SILVA, 1856,
p. 226. 17 MATTOSO, 1969, p. 149. 18 MATTOSO, 1969, p. 155-156. 19 MATTOSO, 1969, p. 158-159. 20 JANCSÓ; PIMENTA, 2000, p. 147. 21 MATTOSO, 1969, p. 157. 22 Cf. SLEMIAN, 2005. 23 DAC, 23/09/1823, p. 90.
24 RIBEIRO, 2002, p. 46. 25 RIBEIRO, 2002, p. 46. 26 Apud PIMENTA, 2006, p. 78-79. 27 CANECA, 1823, p. 98. 28 CANECA, 1823, p. 80. 29 DAC, 26/09/1823, p. 118. 30 DAC, 24/09/1823, p. 106. 31 Cf. DAC, 23/09/1823, p. 90. 32 DAC, 23/09/1823, p. 90. 33 DAC, 30/09/1823, p. 106. 34 DAC, 23/09/1823, p. 135. 35 Cf. MATTOS, 1987, p. 113; GRINBERG, 2002, p. 184. 36 Cf. MATTOS, 2000; BERBEL; MARQUESE, 2006. 37 MATTOS, 2000, p. 13.
38 DAC, 30/09/1823, p. 136. 39 DAC, 23/09/1823, p. 93. 40 DAC, 30/09/1823, p. 139. 41 MATTOS, 2000, p. 22.
42 MATTOS, 2000; MARQUESE, 2006; BERBEL; MARQUESE, 2006. 43 DAC, 30/09/2006, p. 136, 138. 44 Cf. MATTOS, 2000, p. 33-35. 45 DAC, 24/09/1823, p. 106. 46 BUENO, 1857, p. 526. 47 BUENO, 1857, p. 550. 48 BUENO, 1857, p. 553. 49 BUENO, 1857, p. 551. 50 MATTOS, 2000; GRINBERG, 2002. 51 Apud BASILE, 2004, p. 165. 52 GONçALVES; MATTOS, 1991, p. 17-18.
BiBliografia
fontes
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