Ana Maria Rodrigues
UACS – União de Associações do Comércio e
Serviços
28 de Novembro de 2012
Estrutura da apresentação
1. O conceito de PME – breve análise 1.1. Critérios qualitativos
1.2. Critérios quantitativos
1.3. A Estrutura Empresarial em Portugal 2. A Fiscalidade e as PME
2.1. A influência do fator fiscal na escolha da forma jurídica;
2.2. Justificação da atribuição de regimes fiscais especiais e política
fiscal das PME - Um novo modelo de tributação para as PME?
2.2.1. Alguns constrangimentos e limitações que podem/devem
condicionar uma diferente tributação das PME;
2.2.2. Desafios para o legislador fiscal na definição de um novo
Estrutura da apresentação
2.2.3. Na Fiscalidade: Regime caixa (cash accounting) – O nosso
amanhã?
2.2.3.1. IRC 2.2.3.2. IVA
1. O conceito de PME
Não existe uma definição única e precisa de PME: Critérios qualitativos
Critérios quantitativos
Algumas ideias assumem relevância particular quando se pensa nas
PME:
As PME são fonte de criação de emprego e reconhecidas como
fonte de dinamismo, inovação e flexibilidade (OCDE, 2009; Comissão Europeia, 2010);
As PME constituem uma grande percentagem da população de
empresas no mundo, variando desde 95% a 99% (em 2011, em Portugal, são 99,8%, INE) do total de empresas (OCDE, 2009). Os principais sectores de actividade onde se localiza a actividade da generalidade das PME são o comércio e os serviços;
1. O conceito de PME
Confirmando a relevância dessas entidades várias têm sido as
iniciativas da CE/UE para favorecimento das PME: Ano Europeu das PME (1983); Task Force Independent PME (1983); Política Europeia PME (Tratado Maastricht) (1992); Task Force Best – Melhorar ambiente empresarial PME (1997); Tratado Lisboa sublinha preocupação com internacionalização e crescimento PME (2001); Projecto piloto PME: Home State Taxation (2005); Carta Europeia às PME – Selecção de boas práticas (2009); entre muitas
1.1. Definição de PME: critérios qualitativos
Podem ser várias as asserções a utilizar para efeitos da definição destes critérios:
1. Entidades independentes; 2. Com uma estrutura familiar;
3. Operam, normalmente, em mercado locais;
4. Gestão assumida pelo proprietário da empresa, personalizada e normalmente pouco técnica;
5. A propriedade e a gestão geralmente coincidem e os conflitos de agência tendem a não ocorrer (Ball e Shivakumar, 2005);
6. O financiamento das empresas é primordialmente de origem bancária, de curto prazo, e tende a não estar ligado à existência formal de contratos de dívida. São, por isso, altamente dependentes das Instituições Financeiras, particularmente da Banca;
1.1. Definição de PME: critérios qualitativos
7. Forte ligação entre a contabilidade e a fiscalidade;8. Em geral as empresas de menor dimensão tendem a não utilizar a informação contabilística no apoio à tomada de decisões por parte dos seus órgãos de gestão. Normalmente subcontratam a terceiros essa função, por razões societárias e fiscais, e a contabilidade é vista como uma obrigação legal para apoiar o cálculo dos impostos.
1.2. Definição de PME: critérios quantitativos
O conceito e a definição de PME varia consoante os países e os objectivos em causa.
Critérios, normalmente, utilizados para definir os diferentes tipos de entidades:
N.º de empregados;
Volume de negócios (DR);
Dimensão dos activos (Balanço). Na Europa;
Em Portugal:
Perspectiva económica; Perspectiva jurídica :
Direito Societário: 262.º CSC – só para efeitos da obrigatoriedade da revisão das contas nas SQ;
Direito do Trabalho: 91.º CT;
Direito Económico: Anexo ao DL 372/2007; Direito contabilístico (PE e ME);
1.2. Definição europeia de PME (Rec. 2003/361/CE)
PME Número Efectivos Volume Negócios (milhões de euros) Balanço Total (milhões de euros) Média 50 - 250 10 - 50 < 43 Pequena 10 - 50 2 - 10 < 10 Micro < 10 < 2 < 21.2. Definição de PME: critérios quantitativos
Definição nacional de PME (Despachos Normativos nº 52/87, nº 38/88 e Aviso constante do DR nº 102/93, Série III) – Perspetiva económica Três critérios:
i) até 500 trabalhadores (600, no caso de trabalho por turnos regulares);
ii) não ultrapassem 11 971 149 euros de vendas anuais;
iii) e não possuam nem sejam possuídas em mais de 50% por outra empresa que ultrapasse qualquer dos limites definidos nos pontos anteriores.
1.2. Definição de PME na Contabilidade
Definição de PE no Decreto-Lei n.º 158/2009, de 13 de Julho
Total de balanço: 500.000 €;
Total de vendas líquidas e outros rendimentos: 1.000.000 €;
Número de trabalhadores empregados em média durante o exercício: 20.
PE depois da Lei n.º 20/2010, de 23 de Agosto
Total de balanço: 1.500.000 €; Total de vendas líquidas e outros rendimentos: 3.000.000 €;
Número de trabalhadores: 50.
ME depois da Lei n.º 35/2010, de 2 de Setembro
1.3. Estrutura empresarial em Portugal
Fonte: INE (2011)
Empresas Número Percentagem
Micro 1 051 195 95,4%
Pequena 43 443 3,9%
Média 6 124 0,5%
Grande 919 0,2%
Para efeitos fiscais existe um elevado grau de heterogeneidade no entendimento de PME:
O actual regime fiscal no que respeita ao rendimento tributável e aos
seus métodos de determinação não permite distinguir as diferentes entidades empresariais (GE; ME; PE e M);
Regime fiscal das empresas é diverso, conforme sejam ou não
constituídas em sociedades: emp. singulares vs. emp. societárias – necessidade de aproximar a tributação deste dois tipos de entidades;
2.
A Fiscalidade e as PME
2.1. Influência do fator fiscal na escolha da forma jurídica?
É uma das primeira questão que se coloca a um empresário que
pretende iniciar uma atividade económica;
Abundante investigação internacional sobre a influência da variável
fiscal na forma de organização da atividade económica, particularmente, quando se trata do caso das PME (Lopes (2011); Crawford e Freedman (2010); Mooij e Nicodeme (2007); Sanger (2005); Goolsbee (2004); Mackie-Mason e Gordon (1997); Freedman e Godwin (1992).
2.
2. A Fiscalidade e as PME
21 ,0 44 ,0 26 ,0 21 ,0 48 ,0 79 ,0 85 ,0 89,0 88,0 56 ,0 74 ,0 79 ,0 52 ,0 30 40 50 60 70 80 902.
2. A Fiscalidade e as PME
2.2.1. Alguns constrangimentos e limitações que podem/devem condicionar uma diferente tributação das PME:
falta de acesso a meios de financiamento ou o seu acesso a taxas de
juro e garantias elevadas (assimetria da informação);
procedimentos burocráticos complexos, acompanhados, por vezes,
de níveis de incerteza e arbitrariedade significativos;
Complexidade e desadequação das normas fiscais, cujo
cumprimento implica significativos custos de cumprimento, constituindo por isso um forte “incentivo” à evasão fiscal;
Manifestação de vontade política (n.º 1 do art. 86.º da CRP e
Recomendação n.º 2003/361/CE, de 20/5/2003) como consequência da sua importância para o crescimento económico.
2.2. A Fiscalidade e as PME
.
Veja-se o impacto da fiscalidade sobre o desenvolvimento das PME segundo a Comissão Europeia (Recomendação n.º 2003/361/CE)
“O regime fiscal que incide sobre as empresas em nome individual e sobre as sociedades de pessoas, geralmente sujeitas ao IPR constitui, dada a progressividade desse imposto em especial face ao IS, um entrave ao desenvolvimento da capacidade de autofinanciamento dessas empresas e limita consequentemente a sua capacidade de investimento.
A actual estrutura das taxas do IPR e do IS constitui uma fonte de distorção da concorrência entre empresas consoante a sua forma jurídica, em detrimento das empresas individuais.
2.2. A Fiscalidade e as PME
.
2.2.2. Desafios para o legislador fiscal na definição de um novo modelo de tributação para as PME
Principais QUESTÕES a que a sociedade em geral e o poder político em particular deve responder para a escolha de um determinada política fiscal para as PME (Santos, 2009):
Será que a fiscalidade é, realmente, um factor importante na criação,
afirmação e desenvolvimento das PME?
Será, então, que se justifica o uso do sistema fiscal para impulsionar o
crescimento, emprego e inovação nas PME?
Devem definir-se regimes tributários especiais para as PME? E quais os seus
efeitos sobre os princípios e qualidade do sistema fiscal como um todo?
Em caso afirmativo, quais as modalidades técnicas mais adoptadas ou mais
2.
2. A Fiscalidade e as PME
Casalta Nabais (2011) partindo do princípio da liberdade de gestão fiscal das empresas, e das suas diversas concretizações e limitações defende uma tributação mais simples e coerente das empresas, baseada em 3 ideias centrais:
1.Uma clara diferenciação entre PME e grandes empresas, tanto no
que respeita ao rendimento tributável como aos seus métodos de determinação;
2.O reconhecimento de que a atual consideração fiscal das PME é
manifestamente insuficiente e, por isso, a necessidade de diferenciação;
3.E, a necessidade de, em sede da tributação das empresas, se ter
em conta não apenas as manifestações de capacidade contributiva revelada nos lucros que anualmente realizam, nas quais deve
2. 2. A Fiscalidade e as PME
2.2.3. Regimes simplificados (Amaral Tomaz, 2009):
a)Baseados em métodos indiretos de aplicação automática em que,
partindo das características técnicas da exploração (número de trabalhadores, número de viaturas utilizadas, consumo de água ou energia, área ocupada na atividade, etc.), se estime um rendimento presumivelmente obtido em condições de exploração normal, vulgarmente designado por “rendimento normal” ;
b)Baseados na procura uniforme para um segmento de contribuintes ou
sectores de atividade (imposto mínimo, patentes e licenças) ;
c)Baseados em variáveis reais de rendimentos ou gastos que utilizem
coeficientes técnicos ou simplificações para determinar o rendimento a tributar .
2.
2. A Fiscalidade e as PME
2.2.3. Na Fiscalidade: Regime caixa (cash accounting) – O nosso amanhã?
2.2.3.1. REGIME CAIXA EM IRC?
A contabilidade será efectuada num sistema simplificado de base de caixa
(Simplified Cash Basis Accounting);
E como se tratarão fiscalmente os activos fixos adquiridos? Deve admitir-se a
sua dedução imediata (expensing), à semelhança das actuais tendências nos EUA, Reino Unido e Austrália?
Em IRC:
O objectivo a atingir poderia ser outro, permitindo ao sistema fiscal discriminar positivamente as PE e as ME, permitindo a sua diferenciação face às outras entidades empresariais de maior dimensão.
Tributação baseada numa simplificação das formalidades
fiscais, com a aplicação de métodos simplificados de cálculo
do resultado ou do pagamento de imposto do tipo.
2.
2. A Fiscalidade e as PME
2.2.3.2. Em IVA:
Artigo 227.º - Autorização legislativa no âmbito do Imposto sobre o Valor
Acrescentado
Fica o Governo autorizado a alterar o Código do IVA, tendo em vista a introdução
Porquê não adotar um regime mais geral para as PE e ME
de natureza do tipo reverse charge (faculdade concedida
pelo art. 27.º da Directiva 77/388/CEE)?
2.
2. A Fiscalidade e as PME
2 - O sentido e a extensão do regime previsto no número anterior são os seguintes:
a) Implementação de um regime facultativo de contabilidade de caixa do IVA, tendo em vista a sua aplicação a sujeitos passivos da alínea a) do n.º 1 do artigo 2.º do Código do IVA com um volume de negócios anual até € 500 000;
b) Definição de um regime aplicável à globalidade das operações realizadas por esses sujeitos passivos no território nacional, com exceção das seguintes operações:
i)Importação, exportação e atividades conexas;
ii) Transmissões e aquisições intracomunitárias de bens e operações assimiladas; iii) Prestações intracomunitárias de serviços;
iv) Operações em que o destinatário ou adquirente seja o devedor do imposto; c) Estabelecimento de um período mínimo de permanência no regime de dois anos;
d) Estabelecimento da obrigação de liquidar o imposto devido pelas faturas não pagas, no último período de cada ano civil;
e) Definição de mecanismos aptos a permitir a verificação do cumprimento dos requisitos do novo regime pela Autoridade Tributária e Aduaneira, incluindo as normas anti-abuso específicas consideradas
necessárias para o efeito;
f) Estabelecimento de que o exercício pela opção de aplicação deste regime implica a autorização por parte do sujeito passivo para levantamento do sigilo bancário, nos termos do artigo 63.º-B da Lei Geral Tributária; g) Determinação dos registos contabilísticos adequados a controlar os pagamentos recebidos e efetuados, associando-os com as faturas emitidas ou recebidas;
h) Definição de um regime sancionatório próprio para a utilização indevida ou fraudulenta do regime de exigibilidade de caixa;
i) Revogação dos regimes especiais de exigibilidade aprovados pelo Decreto-Lei n.º 204/97, de 9 de agosto, pelo Decreto-Lei n.º 418/99, de 21 de outubro, e pelo Decreto-Lei n.º 15/2009, de 1 de abril.
2.
2. A Fiscalidade e as PME
Na União Europeia alguns Estados-membros (Eslovénia, Estónia, Reino Unido e Suécia e Itália) optaram por instituir um regime simplificado para as PME baseado na denominada “contabilidade de caixa”;
O regime de contabilidade de caixa implica um registo contabilístico para efeitos de IVA autónomo da contabilidade efetuada para efeitos dos impostos sobre o rendimento e do direito comercial;
Para a aplicação desse regime, a contabilidade não atende às faturas recebidas e emitidas, mas considera exclusivamente os pagamentos a fornecedores para exercício do direito à dedução e os recebimentos de clientes para liquidação do IVA;
Tal circunstância torna o regime de difícil implantação e controlo pelas empresas, acarretando-lhes custos adicionais e ónus financeiros não sentidos com a regra geral de dedução, por impor o diferimento da dedução
3. Nótulas conclusivas
As PME absorvem mais de 99% do tecido empresarial nacional e cerca
de 90% do da União Europeia;
Essas entidades são hoje consideradas como um filão importante numa
economia em crise, dada a sua flexibilidade, capacidades para a inovação e empreendedorismo e ainda as maiores geradoras de emprego;
Invocando, ainda que de modo falacioso, essas particulares capacidades
deste ente empresarial, o discurso institucional e político tem apontado no sentido de libertar as PE do peso de preparar e divulgar informações contabilísticas, na mira de reduzir os custos administrativos ou de contexto dessas entidades;
3. Nótulas conclusivas
Situação da qual discordamos, pois em nossa opinião, a exigência de
contabilidade não deve ser entendida como um mero custo administrativo, mas acima de tudo como um sistema de informação indispensável à gestão, tanto das pequenas como das médias e grandes entidades. Entendemos, no entanto, que a prestação da informação financeira deve depender, no essencial, da dimensão da entidade e das necessidades dos seus destinatários.
3. Nótulas conclusivas
É urgente diferenciar com o objetivo de simplificar a vida das mais
pequenas unidades empresariais, mais especificamente, as micro e as pequenas empresas;
Impõe-se uma consideração empenhada e séria das PME em geral e,
muito em particular, em sede de tributação;
Mas, será o modelo caixa adequado para uma tributação mais simples e
mais justa, permitindo uma discriminação fiscal positiva das PME?
Ana Maria Rodrigues [email protected]
UACS – União de Associações do Comércio e Serviços
28 de Novembro de 2012