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Os serial killers à luz da psiquiatria forense

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Academic year: 2018

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

FACULDADE DE DIREITO

DEPARTAMENTO DE DIREITO PÚBLICO

MÁRCIA MELO CARONE

OS SERIAL KILLERS À LUZ DA PSIQUIATRIA FORENSE

FORTALEZA

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MÁRCIA CARONE

OS SERIAL KILLERS À LUZ DA PSIQUIATRIA FORENSE

Monografia apresentada ao Curso de Direito da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito. Área de Concentração: Medicina Legal e Direito Penal

Orientador: Prof. Dr. William Paiva Marques Júnior

FORTALEZA

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará

Biblioteca Universitária

Gerada automaticamente pelo módulo Catalog, mediante os dados fornecidos pelo(a) autor(a)

C295s Carone, Márcia Melo.

Os serial killers à luz da Psiquiatria Forense / Márcia Melo Carone. – 2016. 43 f.

Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Direito, Curso de Direito, Fortaleza, 2016.

Orientação: Prof. Dr. William Paiva Marques Júnior. 1. Serial killer. I. Título.

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MÁRCIA MELO CARONE

OS SERIAL KILLERS À LUZ DA PSIQUIATRIA FORENSE

Monografia apresentada ao Curso de Direito da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito. Área de Concentração: Medicina Legal de Direito Penal

Aprovada em: ___/___/______.

BANCA EXAMINADORA

________________________________________ Prof. Dr. William Paiva Marques Júnior (Orientador)

Universidade Federal do Ceará (UFC)

_________________________________________ Prof. Me. Victor Hugo Medeiros Alencar

Faculdade 7 de Setembro (FA7) Universidade de Fortaleza (Unifor)

_________________________________________ Bianca Berdine Martins Mendes

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A Deus.

Aos meus pais.

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AGRADECIMENTOS

A Deus, pela dádiva da vida e pelas bênçãos concedidas ao longo do meu caminho.

Aos meus pais, por todo zelo que a mim dispensaram e pelos valores compartilhados.

Ao professor e orientador William Paiva Marques Júnior, por ter me acompanhado com tanta benevolência e me instruído com perfeição ao longo do trabalho.

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RESUMO

Serial killers sempre existiram na sociedade, embora não tenham sido conhecidos por essa denominação desde logo. Portanto, o interesse em assassinatos em série subsistiu através dos tempos e continua a causar inquietude nos dias de hoje. Cumpre salientar que a identificação do modelo psicopata serve como verdadeira forma de prevenção contra o relacionamento ou envolvimento com o agente periculoso que ele significa. O presente trabalho tem o escopo de entender e estudar o perfil psicopata dos assassinos em série para que, compreendendo seu universo e modus operandi, seja possível uma identificação mais fácil do tipo. Também é objetivo desta composição, verificar o enquadramento forense dispensado aos psicopatas, como os assassinos seriais, no Brasil. A metodologia aplicada na pesquisa foi bibliográfica, valendo-se de livros, pesquisas, jurisprudência e legislação. Destaca-valendo-se que os valendo-serial killers, invalendo-sertados no tipo psicopático, são indivíduos que possuem transtorno na personalidade, que consiste em uma particularidade de suma importância, visto que, por ser algo constitucional, congênito, nato, seus males não têm cura. Desta forma, conclui-se que, se apresentam como um perfil impossível de ser regenerado, visto que além de não ser passível de cura, não possui nenhuma aptidão para viver em sociedade de forma pacífica. Sendo assim, na esfera penal, são considerados semi-imputáveis e a medida de segurança figura como tratamento mais adequado aos assassinos seriais.

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ABSTRACT

Serial killers have always existed in society, although they have not been known by that name since then. Therefore, the interest in serial killings survived through the ages and continues to cause concern nowadays. It should be noted that identifying the psychopath model serves as a true form of prevention against the relationship or involvement with the dangerous agent he means. This study has the scope to understand and study the profile of psychopathic serial killers so that, understanding their universe and modus operandi, an easier identification of the type can be possible. It is also objective of this composition, to check the forensic supervision given to psychopaths, as serial killers, in Brazil. The methodology used in the research was bibliographic, drawing on books, researches, case law and legislation. It is noteworthy that the serial killers, framed in the psychopathic type, are individuals who possesses disorder in personality, which consists of a feature of paramount importance, since, being something constitutional, congenital, inborn, his evil has no cure. Thus it follows that, if presented as an impossible to be regenerated profile, as well as not curable, the serial killers have no ability to live in society peacefully. Thus, in criminal cases, they are considered semi competent and the security measure is included as best suited to their treatment.

Keywords: SERIAL KILLERS; PSYCHOPATHS; PERSONALITY; SEMI COMPETENT;

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 9

2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA E MÉDICA: DA POSSESSÃO DEMONÍACA À DOENÇA MENTAL ... 11

2.1 A dicotomia entre o louco e o são ... 11

2.2 Construção histórica dos tratamentos psiquiátricos ... 13

2.3 A Psiquiatria Forense ... 16

3 A MENTE PSICOPATA E SUAS TIPOLOGIAS ... 22

3.1 A psicopatologia e a formação da personalidade antissocial ... 22

3.2 Perfil do psicopata ... 25

3.3 Tipologias das personalidades psicopáticas ... 28

4 OS ASSASSINOS SERIAIS ... 31

4.1 Perfil delinquente ... 31

4.2 Os assassinos seriais ante a Psiquiatria Forense ... 33

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 40

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9

1 INTRODUÇÃO

Desde os mais remotos tempos, a humanidade vem se deparando com a incidência de doenças mentais e dos mais diversos distúrbios da psique. Por não entenderem o caráter científico das anomalias, os homens costumavam excluir aqueles que não se encaixavam no tipo considerado normal em termos psíquicos. Estes eram completamente marginalizados, pois, os loucos eram considerados possuídos por entidades demoníacas. Esse entendimento místico e obscuro da loucura, permeado pela ignorância, à época, era responsável pela maneira miserável com a qual esses indivíduos eram mantidos ao longo dos anos.

Notar-se-á que, com o passar dos séculos, a compreensão do cunho científico, e não mais místico, dos transtornos e enfermidades mentais foi dando ensejo ao tratamento de seus portadores, em vez da sua alienação. Portanto, foi-se firmando a percepção de que a loucura era nada além do que o contrário da razão.

Após embasamento sobre a evolução dos tratamentos psiquiátricos e da Psiquiatria Forense, ciência que que lida com a interface entre lei e psiquiatria, passar-se-á à interpretação da psicopatia e suas tipologias.

A metodologia a ser utilizada será bibliográfica, valendo-se de consulta a livros, pesquisa legislativa e documental, publicações especializadas e artigos, além de análise jurisprudencial envolvendo a situação do psicopata.

O assassino serial configura-se como o paciente de nível mais grave abrigado dentre os tipos psicopatas. Dessa forma, é necessário o enfoque no estudo da personalidade psicopática, consistente em distúrbios nos quais há verdadeira perversão do sentimento, do temperamento, da tendência, bem como dos hábitos e da ação, sem que exista qualquer irregularidade na faculdade intelectiva, de modo a afetar diretamente a conduta desses indivíduos.

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2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA E MÉDICA: DA POSSESSÃO DEMONÍACA À DOENÇA MENTAL

A questão da loucura acompanha a evolução humana. O homem, por natureza, teme aquilo que ignora e, durante séculos, pensou-se, primordialmente, que o louco seria aquele possuído pelo demônio. Tratava-se de um “fenômeno maldito”, precisando, portanto, ser o louco alienado da humanidade, que, em verdade, tinha grande receio do contágio.

Após essa fase obscura, pode-se entender melhor o significado da loucura, gerando numerosos estudos acerca do assunto, porém, sempre foram necessários maiores aprofundamentos, na tentativa de compreender e dar tratamento adequado aos enfermos mentais.

2.1 A dicotomia entre o louco e o são

Desde os mais remotos tempos, o homem teme a loucura. Por meio de uma interpretação de cunho mágico e místico, popularmente, costumava-se pensar que o louco nada mais era que um possuído pelo diabo.

Termos como furioso (que tem o espírito em fúria e as paixões sem freios), mentecapto (mente aprisionada) e energúmeno (possuído pelo demônio) eram usados, na Grécia e na Roma Antiga para designar os endemoninhados.

Contra esses desafortunados, imprimiam-se as práticas mais ríspidas e intolerantes. Os homens ditos “normais”, com intuito claro de alheá-los, escorraçavam-lhes para fora dos muros das cidades. Outras vezes, transportavam-lhes em embarcações com destino a longínquas terras, para que se vissem livres daquela escória, pouco importando o destino que aquelas pessoas teriam.

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É acessível que o homem do passado não entendia a loucura tal qual uma doença médica como outra qualquer. O que pairava era uma natureza sagrada da doutrina utilizada para explicar tal loucura, prevalecendo, à época, esse entendimento. Porém, observou-se, ainda que de forma inexpressiva, que havia quem discordasse de todo esse misticismo.

A doutrina que imputava ao demônio a origem da loucura, entretanto preponderava, e assim foi por cerca de um mil e quinhentos anos da era cristã. Se não embarcassem o louco na sultifera nave, procediam ao exorcismo, como forma de expulsar do corpo

o anjo decaído. Muitos acabaram queimados na fogueira, com a Inquisição, página sombria da história da Igreja Católica. (PALOMBA, 2003, pag. 5)

Já Pessotti (1994, p.109) afirma que:

O caráter sagrado dado à loucura e o exorcismo tiveram ponto culminante com a edição do Malleus maleficarum, em 1484, reeditado várias vezes, que se destinava a

instruir os inquisitores e eclesiásticos a identificar casos de possessão demoníaca e a proceder eficazmente nessas situações. Em 1576, Jerônimo Menghi de Viadana (1529-1609) editou o Compêndio de arte exorcista, em cujo texto doutrinário

explicava metodicamente “as estupendas operações do demônio para dominar a mente humana e os modos de ação demoníaca sobre o cérebro”.

Dessa forma, a Idade Média, fez, de fato, jus à alcunha de “Idade das Trevas”, vez que esteve mergulhada na cognição mágico-mística da loucura. Contudo, houve diminutas exceções, como exemplo de Unhammad, médico árabe que, no século IX, produziu uma classificação de doenças mentais, na tentativa de afirmar o seu caráter orgânico, bem como o médico judeu egípcio, Isaac Judaeus, que percebeu a melancolia como doença. Dentre essas reservas, é conveniente destacar também a figura de Avicena (980-1037), médico e filósofo persa, responsável pela confecção do livro Princípios da medicina, versando sobre manias e melancolia, por exemplo. Merece destaque, ainda, seu sucessor, Averroés (1198), médico que, assim como seu mestre, abordava as questões de demonologia se utilizando de racionalismo, ao mesmo tempo em que rechaçava a ideologia mística da época. (PALOMBA, 2003, p. 6)

Convém citar o nome de Johann Weyer (1515-1588), médico holandês, oculista e demonologista que se propôs a estudar e a investigar a fundo os casos de feitiçaria, para então desmistificá-los, imprimindo a eles racionalidade com explicações de cunho naturalista. E foi dessa maneira que surgiram cada vez mais estudiosos que se empenhavam em plantar a semente da razão em época tão sombria e mística.

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hospício, servindo como uma espécie de hotel para alienados mentais. (FOUCAULT, 1986, p.3)

Nesse diapasão, foi-se firmando o entendimento de que a loucura era nada mais que o contrário da razão. Esta percepção encontrava amparo no princípio da dialética, que defende que uma ideia sai de si própria (tese) para ser uma outra coisa (antítese) e depois regressa à sua identidade, se tornando mais concreta.

Assim, formaram-se as Casas de Internação, para onde iam todos aqueles que não possuíam razão, os ditos loucos, que deveriam ficar isolados dos normais. O grande impasse dessa nova percepção da loucura era que, por mais que o louco não mais fosse associado ao demônio, por meio de interpretações misteriosas, ainda não era entendido como doente, mas como degenerado e devasso. Por conta disso, aqueles que eram levados às Casas de Internação eram submetidos a trabalhos forçados, juntamente com criminosos ou com prostitutas, por exemplo. Como se não bastasse, também costumavam ser presos a correntes e outros tipos de amarras, trancafiados e bastante maltratados nessas casas.

Ocorre que os loucos são incapazes de seguir regras coletivas e, por consequência, ineficazes para o trabalho, fato que gerou a necessidade de se criar tratamento especial para eles. A partir dessa assimilação, de forma paulatina, a loucura foi se medicalizando.

Com o advento do Iluminismo, por volta do século XVII, a Medicina ganhou grande impulso, acarretando muitos estudos e pesquisas acerca da loucura e, com isso, surgiriam explicações médicas para o entendimento do desvario, reconhecendo os aspectos morais e comportamentais, através do estudo do cérebro, a fim de distinguir e, então, classificar os vários tipos de loucura.

2.2 Construção histórica dos tratamentos psiquiátricos

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de internação passariam de meros depósitos de loucos para casas de tratamento médico de que aquelas pessoas necessitavam. (PALOMBA, 2003, p. 11)

Aliou-se a um respeitável grupo de intelectuais franceses conhecidos como “Ideólogos”, os quais, na seara médica, de maneira revolucionária e vanguardista, analisavam o paciente considerando diversos aspectos: mentais, físicos e sociais. Com isso, na década de 1790, houve grande reforma psiquiátrica, nada mais que produto da percepção dos ditos Ideólogos. Sob o prisma desses estudiosos, e por influência socrática, era importante também auferir sobre a ocupação, o histórico e a natureza, de forma geral, de cada enfermo.

A fama de Pinel se estendeu pelo mundo. Desta sorte, desenvolveu-se a humanização da loucura. Os alienados mentais iam deixando de ser vistos como figuras abomináveis e bestiais, por tantas vezes temidas e repudiadas. A partir dali, começavam a ser percebidos como meros doentes, que, na verdade, necessitavam de tratamento adequado, sendo dignos de respeito e de compaixão pelo próximo.

Com o decorrer dos anos, no início do século XIX, métodos ditos terapêuticos começaram a ser usados para fins de tratamento. Choques, banhos, sustos e técnicas de comoção física eram exemplos de meios utilizados nesse intuito.

Diversos depoimentos, como o de Esquirol, psiquiatra francês, discípulo de Pinel, um importante estudioso destas instituições no século XIX, retratam este quadro:

Eles são mais maltratados que os criminosos; eu os vi nus, ou vestidos de trapos, estirados no chão, defendidos da umidade do pavimento apenas por um pouco de palha. Eu os vi privados de ar para respirar, de água para matar a sede, e das coisas indispensáveis à vida. Eu os vi entregues às mãos de verdadeiros carcereiros, abandonados à vigilância brutal destes. Eu os vi em ambientes estreitos, sujos, com falta de ar, de luz, acorrentados em lugares nos quais se hesitaria até em guardar bestas ferozes, que os governos, por luxo e com grandes despesas, mantêm nas capitais. (UGOLOTTI, 1949 apud PESSOTTI, 1994, p. 154)

Era tudo bastante rudimentar. Para os casos mais radicais, representados pelos indivíduos mais agitados, usava-se a camisa de força, a fim de contê-los.

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encarregado de oferecer tratamento, que se desvencilhava da adoção de medidas como trabalho forçado ou cárcere.

A partir de então, o pensamento filosófico que viria dominar a ciência das alienações mentais seria a Filosofia Moderna, cujo precursor foi René Descartes, criador do dualismo entre res corporea e res cogitans. O primeiro relacionado às coisas do corpo (substância corpórea) e o último condizente às coisas da consciência, da alma (substância pensante). De forma conclusiva, as “coisas do corpo" acarretariam doenças corpóreas, somáticas. Por sua vez, as “coisas da alma" calhariam em doenças mentais. Os colaboradores desse entendimento eram chamados de idealistas.

Por volta do ano de 1841, Damerov, alemão, verteu o termo “medicina mental” para o grego, resultando em psycheiatreia (psyche: mente, iatreia: medicina), psiquiatria. A valer, grandes correntes psiquiátricas nasceram graças ao dualismo cartesiano, embasando toda a psiquiatria ocidental. (PALOMBA, 2003, p. 22)

Fazendo contraponto à percepção idealista, surgem os organicistas, preconizando que as enfermidades mentais seriam cerebrais ou doenças do organismo como um todo. Consequentemente, este grupo acabou por prover significativas contribuições para a neuropsiquiatria.

Já um outro grupo de estudiosos, conhecidos como unicistas, discordava do dualismo cartesiano, vez que considerava que corpo (soma), e alma (psyché) fossem um só, que apesar de serem duas substâncias distintas, no homem elas se fundiam. Dentre esses intelectuais, destacou-se o médico Benjamin Rush, tido como pai da psiquiatria americana.

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2.3 A Psiquiatria Forense

Ao passo que se firmava o senso de justiça entre os homens, os povos criavam suas leis. Depois de tanto tempo que o louco vivenciou sem o amparo de leis especiais para seu julgamento, leis que pudessem lhe proteger em razão de sua anormalidade, foi no século XVI que começaram a surgir questões para confrontar toda essa indiferença.

Os princípios jurídicos dos juristas italianos do século XVI mostram bom conhecimento das condições subjetivas da capacidade psicológica de imputação de ato jurídico: O infante não deve ser castigado, isso até os 12 anos para a mulher e os 14 para os homens, por presunção de falta de discernimento. Daí para a frente há limites. Os menores não podiam ser testemunhas em juízos criminais e as penas a eles aplicadas diminuíam conforme a idade fosse abaixando, desde os 25 anos, quando tornavam-se maiores. A velhice conhecia proteção análoga. (PALOMBA, 2003, p. 65)

É salutar observar que, àquela época, os juristas italianos consideravam como circunstâncias atenuantes o estado passional e também a ancianidade. E é nesse contexto que se vê surgir aquilo que seriam os primórdios da Medicina Legal, foi então que começaram a ser publicados os primeiros livros médico-jurídicos.

Merece destaque o primeiro deles, de autoria do cirurgião militar francês Amboise Paré, em 1575, elencando os princípios da perícia.

O cirurgião, quando chamado pela justiça, deve fazer um relatório bem consciencioso, sincero e com isenção, pois os juízes julgam segundo o que se lhes relatam e muitas vezes é difícil reconhecer a causa de certas doenças, mortes ou ferimentos. (PARÉ, 1840, p. 214)

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Concluiu que a hereditariedade deveria ser levada em consideração. Desta feita, para ser um criminoso, o indivíduo não seria induzido pelo meio, vez que influências externas em pouco iriam contribuir, uma vez que a patologia criminosa já se encontrava nele desde nascido, e seria questão de tempo até desencadear-se. Seu trabalho foi amplamente divulgado e ganhou diversos adeptos, inclusive no Brasil. Contudo, sua tese foi, paulatinamente, sendo rebatida e caindo em desuso.

Em um entendimento mais atual, considera-se que Medicina Legal é “a arte de aplicar os conhecimentos e os preceitos de diversos ramos principais e acessórios da Medicina à composição das leis e às diversas questões de direito, para iluminá-los e interpretá-los convenientemente”. (FRANÇA, 2011. p. 134)

Quando se fala nessa ciência, há de se reconhecer o seu precursor. Poucos médicos tiveram tanto prestígio e respaldo quando Paulo Zacchia. Sua obra entitulada Quaestionum medico-legalium, escrita de 1621 a 1627, reputada como primeira grande obra completa que versa sobre Medicina Legal, apresenta doutrina específica sobre as diversas searas da Medicina, o que inclui a chamada Psiquiatria Forense que, até então, nunca havia sido tão bem explorada e definida.

À vista disso, tem-se que a Psiquiatria Forense nada mais é que fruto da Medicina Legal, tendo em conta que os diversos tratados de Medicina Legal continham uma seção destinada a tratar da alienação mental em face da legislação.

No início do século XIX, se deu o aparecimento dos primeiros cursos de Medicina Legal nas faculdades de Medicina. Tardiamente, por volta do ano de 1836, surgiu também nas faculdades de Direito.

A Medicina Legal serve mais ao Direito, visando defender os interesses dos homens da sociedade, do que à Medicina. A designação legal emprestada a essa ciência indica que ela serve, no cumprimento de sua nobre missão, também das ciências jurídicas e sociais, com as quais guarda, portanto, íntimas relações. É a Medicina e o Direito, completando-se mutuamente, sem engalfinhamentos. (CROCE, 2010, p. 31)

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apresentavam incidentes de insanidade mental ou mesmo em questões que versavam sobre imputabilidade penal e capacidade civil.

Após esse relato histórico, analisando o panorama atual, observa-se que a Psiquiatria Forense, hoje amplamente consolidada no cenário mundial, corresponde à aplicação de conhecimentos e técnicas psiquiátricas aos processos jurídicos, dando ênfase ao estudo do comportamento do indivíduo no meio social. Vale dizer que objetiva a conexão entre psiquiatria e direito, na medida em que busca dirimir dúvidas em situações que abordam a capacidade, em seus diversos aspectos, de um indivíduo. Portanto, exerce função auxiliar do Direito, vez que é incumbida de informar ao juiz sobre essa capacidade no que tange noções de bem e de mal, em matéria de gestão de bens ou de exercício de funções parentais, como exemplo.

No entendimento de José Carlos Dias Cordeiro (2003, p.15),

O exercício ético da psiquiatria forense, à semelhança de outras áreas de atividade, começa por uma atitude rigorosamente neutra, isto é, sem qualquer tipo de preconceito alegadamente moral, religioso, rácico, na peritagem psiquiátrica de uma situação ou comportamento. Na prática, esta atitude corresponde a uma total disponibilidade para, à partida, aceitar equidistantemente, por exemplo, a responsabilidade civil ou criminal, ou a ausência dela. Isto na base do princípio universalmente aceito, teoricamente, mas não na prática, de que todas as pessoas são presumíveis inocentes,

até que seja provado o contrário.

Em poucas palavras, a Psiquiatria Forense consiste na aplicação dos conhecimentos e das técnicas psiquiátricas aos processos jurídicos dando destaque ao comportamento dos indivíduos com outros em sociedade. Chamada também de “juspsiquiatria”, requer de seus profissionais estudos específicos, técnica apropriada e treino exaustivo, a fim de que se cumpra de forma correta, vez que lavrar o laudo de sanidade mental de um réu é tarefa demasiadamente séria e que a ele trará consequências dramáticas.

O ordenamento jurídico brasileiro compreende a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Para conferir a substância do dispositivo, vale observar em especial seus dois primeiros artigos.

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cor, sexo, orientação sexual, religião, opção política, nacionalidade, idade, família, recursos econômicos e ao grau de gravidade ou tempo de evolução de seu transtorno, ou qualquer outra.

Art. 2o Nos atendimentos em saúde mental, de qualquer natureza, a pessoa e seus familiares ou responsáveis serão formalmente cientificados dos direitos enumerados no parágrafo único deste artigo.

Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental: I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades;

II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade;

III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração; IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas;

V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária;

VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis;

VII - receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento;

VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis;

IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental. (BRASIL, 2001)

A Psiquiatria Forense deve estar em consonância com o Código Penal. É conveniente dizer que, analisando o panorama mundial, essa especialidade não encontra grandes divergências entre os países, sofrendo algumas variações na abordagem da enfermidade mental e, por consequência, no tratamento legislativo acerca de suas relações com o direito. Não há uma inclinação doutrinária, nem mesmo um país com ideias psico-forenses que predominem.

Cabe, neste momento, averiguar, então, o que versa o Código Penal Brasileiro a respeito da inimputabilidade:

Art. 26 - É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

Redução de pena

Parágrafo único - A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. (BRASIL, 1940)

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conduta, por conta de uma doença mental ou de um desenvolvimento mental incompleto ou retardado, a ele é inviável a aplicação de sanção penal, sendo, dessa forma, inimputável.

Vê-se, então, que a lei isenta de pena aquele cuja debilidade mental impede a compreensão da ilicitude do fato praticado. A doença ou o desenvolvimento mental incompleto ou retardado devem ser a causa de sua total falta de compreensão da ilicitude dos fatos. Dessa maneira, se deve enfatizar que a simples existência de doença mental não é suficiente para o reconhecimento da inimputabilidade.

Por outro lado, a hipótese do parágrafo único do artigo 26 do Código Penal trata de uma imputabilidade mitigada, advinda de uma concepção reduzida da ilicitude penal, que decorre também de perturbação mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado.

Convém, neste momento, mostrar entendimento jurisprudencial sobre o assunto:

HABEAS CORPUS. WRIT SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL.DESVIRTUAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTES. SEMI-IMPUTABILIDADE. PRETENDIDO RECONHECIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. PLENA COMPREENSÃO DO CARÁTER ILÍCITO DO FATO. PORTE DE DROGAS PARA USO PRÓPRIO E TRÁFICO DE DROGAS. CONDUTAS DE NATUREZA DIVERSA. MANIFESTO CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO.

1. É imperiosa a necessidade de racionalização do habeas corpus, a fim de preservar a coerência do sistema recursal e a própria função constitucional do writ, de prevenir ou remediar ilegalidade ou abuso de poder contra a liberdade de locomoção.

2. O remédio constitucional tem suas hipóteses de cabimento restritas, não podendo ser utilizado em substituição a recursos processuais penais, a fim de discutir, na via estreita, temas afetos a apelação criminal, recurso especial, agravo em execução, tampouco em substituição a revisão criminal, de cognição mais ampla. A ilegalidade passível de justificar a impetração do habeas corpus deve ser manifesta, de constatação evidente, restringindo-se a questões de direito que não demandem incursão no acervo probatório constante de ação penal.

3. Para a aplicação da causa geral de diminuição relativa à semi-imputabilidade, faz-se necessário que, em virtude de perturbação de saúde mental ou por defaz-senvolvimento mental incompleto ou retardado, o agente, no momento da prática da ação delituosa, não seja capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

4. Mostra-se inviável a aplicação da causa geral de diminuição de pena prevista no parágrafo único do art. 26 do Código Penal, quando evidenciado que o paciente, ao tempo do delito de narcotráfico, era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

5. Não se mostra contraditória a conclusão do laudo psiquiátrico no sentido de que, em relação ao delito de tráfico de drogas, o paciente era plenamente imputável, mas, quanto ao crime de porte de drogas para uso próprio, era, à época do fato, inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do mesmo; contudo, devido à dependência, era parcialmente capaz de determinar-se de acordo com esse entendimento, uma vez que o fato de o paciente não conseguir recusar uma oferta de drogas para consumo próprio não importa, automaticamente, na sua incapacidade de evitar o exercício da traficância, tendo em vista a natureza diversa dessas condutas.

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Isto posto, conclui-se que no caput deste artigo haverá isenção de pena em razão da absoluta impossibilidade de o autor do fato compreender a ilicitude de sua conduta ou determinar-se de acordo com esse entendimento, em razão de doença mental ou de seu desenvolvimento mental incompleto ou retardado. Tem-se, nesse caso, uma condição de inimputabilidade.

Em contrapartida, no parágrafo único da mesma regra, haverá somente a redução da pena, como resultância de uma relativa impossibilidade de compreender a ilicitude de sua conduta, também em razão de perturbação mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. Nessa situação, os doutrinadores brasileiros falam em semi-imputabilidade.

O Código de Processo Penal brasileiro, em seu artigo 149, demonstra como se dá o exame de insanidade mental na persecução penal:

Art. 149. Quando houver dúvida sobre a integridade mental do acusado, o juiz ordenará, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, do defensor, do curador, do ascendente, descendente, irmão ou cônjuge do acusado, seja este submetido a exame médico-legal.

§ 1o O exame poderá ser ordenado ainda na fase do inquérito, mediante representação

da autoridade policial ao juiz competente.

§ 2o O juiz nomeará curador ao acusado, quando determinar o exame, ficando

suspenso o processo, se já iniciada a ação penal, salvo quanto às diligências que possam ser prejudicadas pelo adiamento. (BRASIL, 1941)

O exame de sanidade mental, uma vez ordenado pelo juiz, só terá validade se for procedido, impreterivelmente, por um juspsiquiatra.

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3 A MENTE PSICOPATA E SUAS TIPOLOGIAS

A psicopatologia, base da psiquiatria, se ocupa em estudar os estados psíquicos que estão relacionados ao sofrimento mental. Dentre os distúrbios de que ela trata destacam-se as personalidades psicopáticas. Psicopatas, existentes em qualquer tipo de sociedade, e dentro delas, em qualquer um dos segmentos, são indivíduos cujo tipo de conduta é extremamente peculiar. Não podem ser qualificados como loucos nem como débeis. Encontram-se em um campo intermediário.

Existe, nesse grupo de pessoas, comportamento, conduta moral e ética extremamente afetados. Desmunidos de empatia, sensibilidade e compaixão, trazem muitos transtornos para a sociedade, muitas vezes, cometendo crimes.

3.1 A psicopatologia e a formação da personalidade antissocial

A análise psiquiátrico-forense tem por escopo avaliar o psiquismo delinquencial. Para tanto, é necessário responder a uma série de indagações que levam à compreensão que se deseja. Conhecer os fatores biológicos (temperamento e patologia) ou psicossociais (histórico familiar e social) que levaram o paciente a cometer o delito, saber se ele entendia o caráter delitivo do ato no momento de sua prática e auferir se diante desse entendimento, era capaz de se comportar de acordo com ele são questionamentos que devem ser dirimidos durante o exame em questão.

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Raitzin (1949 apud CROCE, ano, p. 629) aduz que:

É a normalidade mental, com efeito, considerada simplesmente qual um conceito primacial dos conhecimentos psicológicos, e como uma realidade virtual do psiquismo, quando nele não se nota nenhum dos estigmas mórbidos ou sinais patológicos por que se diferenciam e identificam as diversas constituições psicopáticas e as síndromes características das moléstias mentais conhecidas. Destarte, todo indivíduo cujo tipo de mentalidade e comportamento não esteja incluído na nosologia psiquiátrica, fica de fato categorizado, classificado como normal.

A psicopatologia consiste no campo do saber que se destina a estudar o sofrimento da mente, ou seja, objetiva-se estudar a mente nos casos em que há alteração em seu desenvolvimento e execução. Assim, psicopatologia traduz o estudo dos transtornos mentais, que, por sua vez, significam desordens no funcionamento da mente que danificam o desempenho do indivíduo na vida pessoal, familiar e social, vez que pode prejudicar a capacidade de autocrítica.

Transtornos mentais podem causar muito sofrimento e incapacidade. De modo geral, são consequência de uma gama de fatores, como exemplo, alterações no funcionamento do cérebro, fatores genéticos, a própria personalidade do indivíduo, estresse excessivo ou até mesmo o sofrimento de agressões psicológicas ou físicas. Dessa maneira, se entende que eles não têm causa específica, resultam de condições biológicas, psicológicas e socioculturais.

Basicamente, o transtorno mental se divide em dois grupos, que são considerados a base da psiquiatria: a enfermidade mental, composta pela psicose e pela neurose; e o estado anormal, dividido entre oligofrenia e psicopatia.

Considera-se que neurose e psicose são fases sucessivas de um mesmo processo mental. No entendimento de Beca Souto (apud ALBERGARIA, 1988 p. 86), “psicose consiste na alteração patológica, mais ou menos prolongada, das funções psíquicas, a qual impede a adaptação do indivíduo às normas do meio ambiente, com perigo ou prejuízo para si próprio e para a sociedade igualmente.”

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a conhece, mas a ignora. Em contrapartida, na psicose, o paciente sequer percebe sua enfermidade. Além disso, nega a realidade e também procura substituí-la.

Examinando o segundo grupo, o do estado anormal, a oligofrenia é caracterizada pela deficiência mental, de modo a abranger aqueles que possuem detenção das faculdades psíquicas, não atingindo o nível considerado normal. Seria a escassez de inteligência, déficit intelectual, adquirido de forma congênita ou em idade precoce, se subdividindo em três subgrupos, de acordo com sua intensidade (oligofrênicos suaves, moderados e profundos).

Os oligofrênicos se diferenciam dos dementes, pois desde o nascimento ou logo nos primeiros anos de vida, já mostram retardamento mental, insuficiência de suas capacidades intelectuais. Em contrapartida, aqueles considerados dementes vêm a apresentar deficiência intelectiva somente após esses períodos. Em outras palavras, o oligofrênico, em especial o de grau profundo, nunca teve vida intelectual ativa, já o demente pode ter tido de forma intensa em algum momento, vindo a perdê-la posteriormente. No entendimento análogo de Esquirol (apud JASON, 1988, p. 104) “o demente é um rico que se tornou pobre, e o oligofrênico já nasceu pobre”. Justamente por conta dessa supressão das faculdades psíquicas, são levados à dificuldade de se adaptar ao meio social.

Ainda dentro desse segundo grupo, encontra-se a psicopatia. Para discorrer sobre ela, insta que se façam apontamentos quanto à definição de personalidade. Para Boll e Baud, a personalidade de uma pessoa é “o conjunto de suas atitudes e de seus modos ao reagir ao meio ambiente, distinguível das pulsões biológicas, manifestações das necessidades e das tendências no amplo sentido da palavra, e na organização da conduta que tende a satisfazer estas necessidades.” ( BAUD e BOLL apud CROCE, 2010, p. 673)

Cumpre entender por “tendências e necessidades” o caráter, e por “intelecto”, o conjunto de meios de se organizar um comportamento.

Considera-se como normal, média, uma personalidade que se apresente como a soma dos seguintes elementos psíquicos em harmonia: inteligência, caráter e comportamento. É esperado que essa síntese, influenciada por fatores hereditários e mesológicos (aqueles relativos ao meio ambiente) capacite o indivíduo normal a viver tranquilamente em sociedade.

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elementos que integram a psique, mostrem, ao longo de sua vida, intensos transtornos de instintos, temperamento, caráter e afetividade, desenvolvendo uma verdadeira anormalidade mental, considerada preexistente.

Mesmo com tudo isso, não se considera que eles possuam enfermidade mental exatamente. Em outras palavras, a personalidade psicopática, também chamada de antissocial, nada mais é que todo o indivíduo que apresenta instabilidade mental patológica sem, contudo, perder suas funções intelectuais.

Na verdade, se trata de uma zona fronteiriça entre a sanidade mental e a loucura. Os pacientes não apresentam delírios, confusão ou alucinações. Eles sequer perdem o senso da realidade.

Psicopatia, então, alberga aqueles indivíduos que comportam personalidades causadoras de sofrimentos a si e à sociedade, abrangendo variações de personalidades pervertidas. Observa-se que a razão etimológica da palavra “psicopatia” já não faz mais sentido, vez que anteriormente se referia simplesmente àqueles diferentes dos normais.

3.2 Perfil do psicopata

Faz-se necessário, a partir de agora, analisar com propriedade o perfil do psicopata, a

fim de compreender sua atmosfera e identificá-lo com facilidade.

A maioria dos autores contemporâneos aceita o alienista britânico Pritchard como o

pioneiro a tratar de maneira mais adequada a psicopatia, por volta do ano de 1835, época em

que disse que:

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São sinônimos contemporâneos de psicopatia: transtornos de personalidade e de comportamento, condutopatia, sociopatia, personalidades psicopáticas e personalidades antissociais, por exemplo.

Do ponto de vista clínico, convém dizer que de 1 a 4% da população apresenta

psicopatia.

Especificamente, o conceito clínico do qual nos servimos é devido a Kurt Schneider,

considerando desde logo que a sua “etiologia” é constitucional e apresenta as seguintes características:

1) Ser congênita, isto é, sua existência independente de fatores exógenos ou

psicógenos; o que se pode considerar é que seu aparecimento, por vezes, pode depender de tais fatores.

2) Ser precoce, isto é, suas manifestações surgem cedo, sendo possível reconhecê-la

precocemente em um indivíduo: normalmente começa na infância ou na adolescência, lá pelos 9, 10, 12 ou 14 anos (constituindo-se na chamada “criança

-problema”), continua pela vida adulta afora, ficando mais fácil o diagnóstico ser

elaborado em torno de 15 ou 16 anos.

3) Como se trata de uma alteração congênita o que apresentam, são influenciáveis à terapêutica, seja ela medicamentosa, seja psicoterápica. (EÇA, 2010, p. 284)

No entendimento do psiquiatra alemão Kurt Schneider, a psicopatia pode ser interpretada como uma anormalidade permanente do caráter. Essa premissa leva a concluir que não se trata propriamente de uma enfermidade, como no caso da psicose; tampouco de um defeito intelectual, o que ocorre na oligofrenia.

Considera-se que o psicopata esteja em uma zona fronteiriça entre a normalidade e a doença mental.

No caso de psicopatia, não há que se falar em insuficiência significativa de inteligência, vez que seus pacientes podem, inclusive, ser bastante inteligentes, eloquentes e influentes, tomando, por vezes, posições de liderança no trabalho ou em outra situação social.

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um ato, seguido da decisão de praticar esse ato) e a capacidade crítica. Contudo, todas as outras partes mentais são mantidas de forma íntegra.

O comprometimento da afetividade significa dizer que o paciente apresenta traços fortes de insensibilidade, egoísmo, indiferença e suas respostas emocionais são flagrantemente inadequadas. Além disso, a sua capacidade de autocrítica e de julgamento de caráter ético e moral se encontra estruturada de modo atípico, prova disso é que não há inibição do movimento voluntário, qualquer que seja sua vontade.

O condutopata se relaciona com o mundo de forma característica, cujo padrão de comportamento surge no curso do desenvolvimento individual, como fruto de fatores constitucionais e de vivências pessoais, e desvia-se dos padrões culturais, do meio social no qual se desenvolveu, com repercussões coletivas, familiares, ou em outras áreas importantes da vida em sociedade. O padrão de comportamento é estável, podendo se iniciar na adolescência ou no começo da idade adulta, isso quando não começou na infância e bem precocemente. (PALOMBA, 2003, p. 516)

Importante é frisar que não se pode falar propriamente em personalidade psicopática formada em crianças ou adolescentes. Isso porque somente após os 21 anos, a personalidade do indivíduo se encontrará sedimentada. Até lá, o paciente, com o padrão de comportamento estável, provavelmente, dará muitos indícios de que possui tendência psicopata. Nestes casos, logo em tenra idade, são comuns os maus tratos contra animais, a insensibilidade, a indiferença à dor psíquica e até mesmo física. Essas crianças ou adolescentes pouco reagem a punição dos pais, fazendo que, muitas vezes, esses desistam de insistir em mudar aquele comportamento perturbado e indesejável.

Uma característica extremamente marcante dos portadores deste distúrbio é a falta de empatia, que significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Em outras palavras, empatia é a capacidade de considerar e respeitar os sentimentos alheios. Eles não se importam com o que sente seu próximo, já que são movidos por puro egoísmo.

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Quando cometem atos criminosos, estes provêm de um raciocínio frio e calculista. Muitas vezes metódicos, os psicopatas traçam determinado objetivo e, para alcançá-lo, não medem consequências. O que de fato interessa é o resultado a se atingir e, por isso, inúmeras são as vezes em que se utilizam de outras pessoas, como meros objetos, para conquistar o objetivo, sem vestígios de arrependimento ou culpa.

Nesse diapasão, destaca-se o poder de persuasão e o talento teatral que desenvolvem. Quando descobrem que seu comportamento não está sendo aceito socialmente, tratam de escondê-lo, não por vergonha, mas por questão estratégica. Assim, desenvolvem uma dupla existência. Disfarçam suas características reais para dar lugar a um personagem, aquele que será aceito socialmente, com o único escopo de poder viver sem que seus planos sejam comprometidos.

Portadores de personalidade psicopata, em regra, são bem articulados, espirituosos e eloquentes. Com uma conversa agradável, passam uma boa imagem. São bastante egocêntricos, o que corrobora com a ideia de viver de acordo com as próprias regras em detrimento das regras de convívio social ou mesmo da lei.

Segundo Eça (2010, p. 282), estudos epidemiológicos chegaram a registrar que apenas 47% das pessoas caracterizadas com distúrbios de personalidade apresentavam histórias de processos criminais realmente significativos. Além disso, normalmente, não são capazes de aprender com a punição e de modificar seu comportamento.

3.3 Tipologias das personalidades psicopáticas

Segundo Silva (2014, p. 39):

Os psicopatas, em geral, são indivíduos frios, calculistas, inescrupulosos, dissimulados, mentirosos, sedutores e que visam apenas o próprio benefício. São incapazes de estabelecer vínculos afetivos ou de se colocarem no lugar do outro. São desprovidos de culpa ou remorso e, muitas vezes, revelam-se agressivos e violentos. Em maior ou menor nível de gravidade, e com formas diferentes de manifestar os seus atos transgressores, os psicopatas são verdadeiros predadores sociais, em cujas veias e artérias corre um sangue gélido.

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tráfico de drogas, corrupção, roubos, assaltos à mão armada, estelionatos, fraudes no sistema financeiro, agressões físicas e violência no trânsito, por exemplo. Ocorre que, na maioria das vezes, não são descobertos nem penalizados por seu comportamento ilícito. Um exemplo típico que a autora cita de tal comportamento é o abuso físico e psicológico de mulheres e crianças, o que constitui uma transgressão de difícil controle por parte da sociedade. Fato é que se existe uma “personalidadecriminosa”, ela se realiza completamente no psicopata. Ninguém estaria tão habilitado a desobedecer às leis, enganar ou ser violento como ele.

Visto isso, deve-se dizer que há uma classificação, uma tipologia, que subdivide os portadores de personalidades psicopáticas. Existem tipos mais propensos ao cometimento de crime que outros.

O tipo hipertímico é aquele que se apresenta alegre, eufórico, sempre agitado. Com um jeito muito informal, trata todos com certa familiaridade, mesmo que esta não exista de fato. Manifesta excesso de ideias e é bastante impulsivo. De maneira frequente, estará associado a brigas, disputas, infidelidade e furtos.

O psicopata depressivo se identifica como exatamente o oposto do hipertímico. Geralmente triste e desanimado, mostra pouca atividade física e intelectual.

O tipo lábil de humor já demonstra intensa instabilidade em seu temperamento, com abruptas oscilações sem motivo aparente e de maneira desproporcional, o que, geralmente, resulta em abandono de trabalho, alcoolismo e toxicomanias. Por conta desse perfil, tem a tendência de praticar roubos e agressões.

O tipo explosivo se mostra como aquele irritável. Exalta-se por qualquer motivo e tem necessidade de descarregar imediatamente suas tensões, sem qualquer tipo de filtro, de ponderação. Algo curioso neles é o fato de, em sua, maioria, serem pessoas pacatas e até dóceis, até o momento em que “explodem”. Os crimes normalmente cometidos pelo tipo explosivo são atos violentos e os crimes passionais.

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4 OS ASSASSINOS SERIAIS

Os assassinos seriais se apresentam como portadores de personalidades anormais. São caracterizados por apresentar um difícil relacionamento pessoal, podendo ser levados ao delito por motivos diversos, que, para que sejam compreendidos, devem passar pelo crivo da psicanálise criminal.

Consistem na espécie de psicopata mais danosa à sociedade, em decorrência da gravidade dos crimes que cometem. A característica basilar de um serial killer é a sequência de assassinatos que realizam, obedecendo determinado roteiro por ele estabelecido, bem como uma assinatura, que caracteriza o seu crime.

4.1 Perfil delinquente

O assassino serial caracteriza-se, basilarmente, por assassinar, de forma semelhante e repetitiva. Há três tipos: o normal mentalmente, o doente mental e o fronteiriço.

Mentalmente normal seria exatamente aquele que mata com fins lucrativos, por encomenda de terceiros. Ele é o popular assassino de aluguel, que encara essa conduta como um trabalho como qualquer outro. Na verdade, não se trata de um psicopata em absoluto.

O assassino serial doente mental, de caráter psicótico, em regra, sempre age sozinho, sua conduta surge como consequência de uma descarga de agressividade incomum. É o caso dos franco-atiradores, os quais descarregam armas em desconhecidos, em locais com grande número de pessoas, sem motivo na maioria das vezes, almejando atingir a maior quantidade possível de vítimas. Vale salientar que a ação, nesse caso, advém, por inúmeras vezes, de alucinações ou delírios, típicos do portador de psicose.

Esse tipo de assassino se difere do psicopata, pois não entende a realidade da situação, vez que cria a sua e toma atitudes de acordo com essa fantasia. Ele acredita estar agindo de forma adequada e, por isso, não há ocultação de cadáveres, fuga ou dissimulação.

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atividade homicida não se dá de uma só vez, visto que, entre um assassinato e outro, o intervalo de tempo pode ser longo.

Há uma outra forma de classificação de serial killers, que os divide em organizados e desorganizados. A primeira engloba o assassino socialmente adequado, que geralmente aponta histórico de abuso físico na família, usa frequentemente a sedução para atrair e dominar as vítimas, apresenta controle sobre a cena do crime, bem como planeja sua ação, deixando poucas ou nenhuma prova da materialidade ou autoria do delito. Como o próprio nome diz, é um serial killer extremamente organizado. Já os assassinos em série desorganizados diferem dos primeiros, pois não costumam planejar seus crimes, além de agirem sempre por impulso e não se preocuparem com os vestígios deixados.

Vamos nos ater, principalmente, à análise do assassino serial mais emblemático, do tipo psicopata e organizado.

Como psicopata que é, a falta de senso moral e ético é alarmante, não desfruta de afetividade em nenhum aspecto, a não ser o teatral, quando está vivendo um personagem a fim de mascarar seu real perfil macabro. Vez que não se encontram comprometidos os campos da inteligência, da memória, da vigilância e da sensopercepção, a frieza patológica de suas condutas sedimenta ainda mais o seu caráter antissocial.

Muitos estudos mostram que a causa dessa personalidade peculiar se deve ao fato de que esses criminosos dispõem de manifestações cerebrais diferentes de um ser humano comum. Seu sistema límbico, responsável por todas as emoções, como alegria, raiva, medo, tristeza, por exemplo, quase não possui atividade. Em compensação, a região do lobo pré-frontal, que responde pela racionalização e atitude, encontra-se em intensa atividade cerebral. Nas pessoas mentalmente sadias, essas duas regiões produzem atividades igualmente intensas.

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comportamento. Desse modo, a personalidade anormal, antissocial, do serial killer vai se sedimentando.

Eça (2010, p.318) afirma que:

Se por um lado, os doentes mentais, mesmo os criminosos, interagem com o mundo a partir de uma realidade que eles mesmos criam em suas mentes doentias, por sua vez, os indivíduos portadores de personalidades psicopáticas interferem e interagem coma realidade, a partir de sua personalidade, que se mostra desajustada aos padrões socialmente aceitos e voltada principalmente para a satisfação das suas necessidades e anseios.

Observa-se que, para este tipo de criminoso, não importam as regras sociais, a moral ou os costumes. Apesar de ter perfeita ciência sobre tudo isso, bem como sobre o ordenamento jurídico que proíbe os crimes que comete, para ele, nada é mais importante que a sua vontade, por mais desprezível que ela seja. Para satisfazer seus mais pervertidos desígnios, ele é capaz de qualquer atitude.

Costumam agir de forma natural, planejam, dissimulam e, quando fazem vítimas, se preocupam em ocultar o corpo e não deixar vestígios, pois reconhecem plenamente o caráter ilícito dos atos cometidos.

4.2 Os assassinos seriais ante a Psiquiatria Forense

O modo com o qual os psicopatas criminosos, o que inclui logicamente os assassinos seriais, vêm sendo tratados pelo ordenamento jurídico pátrio tem acarretado verdadeira celeuma jurídica. Há discussão acerca da necessidade de tratamento judicial diversificado a eles, os quais são considerados, por parte da doutrina e jurisprudência, como semi-imputáveis

De acordo com o Código Penal Brasileiro, a imputabilidade se define como a capacidade do agente de entender o caráter ilícito do fato praticado e de determinar-se de acordo com isso.

Guilherme de Souza Nucci (2013, p. 210) leciona a respeito do conceito de culpabilidade:

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possibilidade e a exigibilidade de atuar de outro modo, seguindo as regras impostas pelo direito (teoria normativa pura, proveniente do finalismo).

Ocorre que, psicopatas, incluindo os de alta periculosidade, como os serial killers, entendem perfeitamente o caráter ilícito do fato, tanto é, que quando cometem crimes, planejam, dissimulam e, geralmente, fogem e ocultam vestígios do delito. Em contrapartida, devido a sua personalidade antissocial, característica intrínseca de sua anormalidade, não conseguem se determinar diante desse entendimento, não tem a capacidade necessária de autodeterminação. Por isso, devem ser considerados semi-imputáveis.

Em outras palavras, eles possuem um transtorno de personalidade e, em decorrência disso, não detêm o controle essencial sobre seus atos, justamente por lhes faltarem os chamados “freios instintivos”. Assim, agem como se fossem normais, entendendo a realidade dos fatos, cientes da ilicitude da conduta, porém, sua ação é demasiadamente perversa, eivada de frieza e crueldade, vez que sentem um prazer anormal na prática da maldade e nada é capaz de impedi-los de realizar o que desejam.

O criminoso deve ser analisado, levando-se em conta todas as suas particularidades, e a personalidade é uma particularidade de suma importância, visto que, por ser algo constitucional e nato, seus males não têm cura.

Pode-se verificar que alguns tribunais pátrios defendem o enquadramento do psicopata como um semi-imputável, nestes termos:

Capacidade diminuída dos psicopatas –TJSP: ‘Os psicopatas são enfermos mentais,

com capacidade parcial de entender o caráter criminoso do ato praticado, enquadrando-se, portanto, na hipótese do parágrafo único do art. 22 (art. 26 vigente) do CP (Redução facultativa da pena). (RT 550/303). No mesmo sentido, TACRSP:JTACRIM 85/541. (SILVA, 2012)

No mesmo sentido, já foi decidido que, apesar de a psicopatia não ser considerada uma moléstia mental, ela pode ser compreendida como ponte de transição entre o psiquismo normal e as psicoses funcionais, com isso, os agentes psicopatas devem ser tidos como semi-imputáveis:

Capacidade diminuída da personalidade psicopática – TJSP: ‘Personalidade

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embora coloque na região fronteiriça de transição entre o psiquismo normal e as

psicoses funcionais’ (RT 495/304). TJMT: ‘A personalidade não se inclui na categoria

das moléstias mentais, acarretadoras da irresponsabilidade do agente. Inscreve-se no elenco das perturbações da saúde mental, em sentido estrito, determinantes da redução

da pena’. (RT 462/409/10). No mesmo sentido, TJ:RT 405/133,442/412,570/319). (SILVA, 2012)

Isto posto, não é algo inovador considerar os portadores de transtornos psicopáticos como indivíduos semi-imputáveis, tendo em vista que, como demonstrado, a jurisprudência nacional vem adotando esse entendimento.

Antes da reforma da parte geral do Código Penal de 1940, o Brasil adotava o sistema duplo binário de aplicação de penas, que consistia na possibilidade de ocorrer a aplicação da pena privativa de liberdade e aplicação da medida de segurança concomitantemente. Contudo, após a derrogação da parte geral do Código Penal pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984, o Brasil adotou o sistema vicariante de penas, no qual o juiz observará se ao réu deve ser aplicada pena privativa de liberdade ou medida de segurança, de forma alternativa e não mais cumulativa.

Com a marcante violência e o clima de insegurança e de impunidade que se instala no Brasil, a sociedade se encontra cada vez mais carente de satisfações quanto à punição de seus infratores. Essas satisfações acabam sendo dadas por meio da aplicação de grandes penas.

É oportuno destacar que os prazos para cumprimento de pena são consideravelmente maiores do que os de cumprimento de medida de segurança. Citando como exemplo o crime de homicídio, ele pode levar de seis a trinta anos de reclusão, enquanto a medida de segurança tem prazo de duração inicial de um a três anos apenas, o que pode acabar levando a conclusões errôneas sobre qual o melhor tratamento judicial destinado aos psicopatas de alta periculosidade, como os assassinos seriais. A ideia de que deve ser aplicada a pena de reclusão, por ser mais longa e, portanto, teoricamente, afastar por mais tempo o criminoso da sociedade, é equivocada.

O psiquiatra Antônio José Eça (2010, p. 323) elucida satisfatoriamente essa questão:

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Não é outro o posicionamento de Ana Carolina Marchetti Nader (2010):

Como já vimos o psicopata é portador de transtorno de personalidade que o torna insensível ao sentimento das outras pessoas, sem nenhum traço de compaixão nem de obediência a qualquer sistema ético. [...] A grande indagação é se as chamadas personalidades psicopáticas são portadoras de transtornos mentais propriamente ditos ou detentoras de personalidades anormais. Defendemos que sejam eles considerados semi-imputáveis, ficando sujeitos à medida de segurança por tempo determinado e a tratamento médico-psíquico. A pena privativa de liberdade não deve ser aplicada nestes casos tendo em vista seu caráter inadequado à recuperação e ressocialização do semi-imputável portador de personalidade anormal. [...] concluímos então pela efetiva necessidade de acompanhamento psiquiátrico dos presos para que se possam identificar os psicopatas e tratá-los de acordo com esta situação.

Como não são loucos, não podem ser considerados inimputáveis. De outro lado, por não serem normais, não devem ser tidos por imputáveis plenamente. Restando, assim, a conclusão pela semi-imputabilidade dos portadores de personalidade antissocial.

Nesse mesmo sentido vêm decidindo os Tribunais brasileiros, como pode-se observar:

PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. NÃO CONHECIMENTO DO WRIT. EXECUÇÃO PENAL. PROGRESSÃO INDEFERIDA EM 1º GRAU. MANUTENÇÃO DO DECISUM PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. REQUISITO SUBJETIVO NÃO PREENCHIDO. PARECER PSICOLÓGICO DESFAVORÁVEL. PSICOPATIA

COMPATÍVEL COM TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL. ELEVADO RISCO DE COMETIMENTO DE OUTROS DELITOS. FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA. ILEGALIDADE FLAGRANTE. INEXISTÊNCIA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO.

1. Ressalvada pessoal compreensão diversa, uniformizou o Superior Tribunal de Justiça ser inadequado o writ em substituição a recursos especial e ordinário, ou de revisão criminal, admitindo-se, de ofício, a concessão da ordem ante a constatação de ilegalidade flagrante, abuso de poder ou teratologia.

2. Legítima é a denegação de progressão de regime com fundamentos concretos, no caso pelo não preenchimento do requisito subjetivo em virtude, essencialmente, do conteúdo da avaliação psicológica desfavorável à concessão do benefício, com a presença de psicopatia compatível transtorno de personalidade antissocial, estando presente elevado risco de cometimento de outros delitos. Precedentes.

3. Habeas corpus não conhecido. (BRASIL, 2010)

E ainda:

PROCESSUAL CIVIL. CIVIL.RECURSO ESPECIAL. INTERDIÇÃO. CURATELA. PSICOPATA. POSSIBILIDADE.

1. Ação de interdição ajuizada pelo recorrente em outubro de 2009.

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37

18/12/2012.

2. Recurso especial no qual se discute se pessoa que praticou atos infracionais equivalentes aos crimes tipificados no art. 121, §2º, II, III e IV (homicídios triplamente qualificados), dos quais foram vítimas o padrasto, a mãe de criação e seu irmão de 03 (três) anos de idade, e que ostenta condição psiquiátrica descrita como transtorno não especificado da personalidade (CID 10 - F 60.9), está sujeito à curatela, em processo de interdição promovido pelo Ministério Público Estadual.

3. A reincidência criminal, prevista pela psiquiatria forense para as hipóteses de sociopatia, é o cerne do presente debate, que não reflete apenas a situação do interditando, mas de todos aqueles que, diagnosticados como sociopatas, já cometeram crimes violentos.

4. A psicopatia está na zona fronteiriça entre a sanidade mental e a loucura, onde os instrumentos legais disponíveis mostram-se ineficientes, tanto para a proteção social como a própria garantia de vida digna aos sociopatas, razão pela qual deve ser buscar alternativas, dentro do arcabouço legal para, de um lado, não vulnerar as liberdades e direitos constitucionalmente assegurados a todos e, de outro turno, não deixar a sociedade refém de pessoas, hoje, incontroláveis nas suas ações, que tendem à recorrência criminosa.

5. Tanto na hipótese do apenamento quanto na medida socioeducativa - ontologicamente distintas, mas intrinsecamente iguais - a repressão do Estado traduzida no encarceramento ou na internação dos sociopatas criminosos, apenas postergam a questão quanto à exposição da sociedade e do próprio sociopata à violência produzida por ele mesmo, que provavelmente, em algum outro momento, será replicada, pois na atual evolução das ciências médicas não há controle medicamentoso ou terapêutico para essas pessoas.

6. A possibilidade de interdição de sociopatas que já cometeram crimes violentos deve ser analisada sob o mesmo enfoque que a legislação dá à possibilidade de interdição - ainda que parcial - dos deficientes mentais, ébrios habituais e os viciados em tóxicos (art. 1767, III, do CC-02).

7. Em todas essas situações o indivíduo tem sua capacidade civil crispada, de maneira súbita e incontrolável, com riscos para si, que extrapolam o universo da patrimonialidade, e que podem atingir até a sua própria integridade física sendo também ratio não expressa, desse excerto legal, a segurança do grupo social, mormente na hipótese de reconhecida violência daqueles acometidos por uma das hipóteses anteriormente descritas, tanto assim, que não raras vezes, sucede à interdição, pedido de internação compulsória.

8. Com igual motivação, a medida da capacidade civil, em hipóteses excepcionais, não pode ser ditada apenas pela mediana capacidade de realizar os atos da vida civil, mas, antes disso, deve ela ser aferida pelo risco existente nos estados crepusculares de qualquer natureza, do interditando, onde é possível se avaliar, com precisão, o potencial de auto-lesividade ou de agressão aos valores sociais que o indivíduo pode manifestar, para daí se extrair sua capacidade de gerir a própria vida, isto porquê, a mente psicótica não pendula entre sanidade e demência, mas há perenidade etiológica nas ações do sociopata.

9. A apreciação da possibilidade de interdição civil, quando diz respeito à sociopatas, pede, então, medida inovadora, ação biaxial, com um eixo refletindo os interesses do interditando, suas possibilidades de inserção social e o respeito à sua dignidade pessoal, e outro com foco no coletivo - ditado pelo interesse mais primário de um grupo social: a proteção de seus componentes -, linhas que devem se entrelaçar para, na sua síntese, dizer sobre o necessário discernimento para os atos da vida civil de um sociopata que já cometeu atos de agressão que, incasu, levaram a óbito três pessoas.

10. A solução da querela, então, não vem com a completa abstração da análise da capacidade de discernimento do indivíduo, mas pela superposição a essa camada imediata da norma, da mediata proteção do próprio indivíduo e do grupo social no qual está inserido, posicionamento que encontrará, inevitavelmente, como indivíduo passível de interdição, o sociopata que já cometeu crime hediondo, pois aqui, as brumas da dúvida quanto à existência da patologia foram dissipadas pela violência já perpetrada pelo indivíduo.

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dos limites individuais e da dor e sofrimento alheio, condições que apesar de não infirmarem, per se, a capacidade do indivíduo gerenciar sua vida civil, por colocarem em cheque a própria vida do interditando e de outrem, autorizam a sua curatela para que ele possa ter efetivo acompanhamento psiquiátrico, de forma voluntária ou coercitiva, com ou sem restrições à liberdade, a depender do quadro mental constatado, da evolução - se houver - da patologia, ou de seu tratamento.

12. Recurso especial provido. (BRASIL, 2011)

Compõe-se, portanto, o psicopata, de um perfil impossível de ser regenerado, visto que além de não ser passível de cura, não possui nenhuma aptidão para viver em sociedade de forma pacífica, manifesta a baixa probabilidade de ressocialização, já que sua conduta instiga a reincidência no cometimento dos crimes. Quando preso, finge bom comportamento para obter algumas regalias, se aproxima de agentes penitenciários, pode provocar rebeliões, geralmente, liderando-as. Em outras palavras, representa, ainda por cima, grande risco para todo o setor carcerário do país, o qual, por sua vez, se torna um local de inacreditável reabilitação prisional.

São transgressores que, além de tudo isso, são incapazes de aprender com a punição e de modificar seu comportamento, vez que não sentem culpa pelo que fazem e tampouco se importam com os valores sociais, éticos e morais, os quais são totalmente desprezados em benefício do seu desejo pessoal, por mais frio, egoísta e perverso que seja.

De acordo com o texto “Máquinas do crime” de Eduardo Szklarz publicado pela Revista SUPERINTERESSANTE – Mentes psicopatas, o cérebro, a vida e os crimes das pessoas que não têm sentimento. Edição nº 267-A –, entre a população carcerária, cerca de vinte por cento (20%) dos presidiários são psicopatas. Segundo o autor, o índice de reincidência deles é altíssimo, cerca de setenta por cento (70%).

Nem todos os criminosos são psicopatas, e nem todos os psicopatas são criminosos. No entanto, a prevalência deles dentro da população carcerária é enorme: na cadeia eles são 20% – e esses 20% são responsáveis por mais de 50% dos delitos graves cometidos por presidiários. Sabe aqueles crimes com requintes de crueldade que chocam todo mundo na televisão? Provavelmente existe um psicopata por trás deles. [...] Mas o tempo na prisão não muda seu comportamento quando retorna à sociedade. Sua personalidade o compele a novos crimes: sua taxa de reincidência chega a 70%, e apenas a metade deles reduz a atividade criminosa após 40 anos de idade. (SZKLARZ, 2010, p. 12)

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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observou-se que a questão da loucura acompanha a evolução humana. O homem, por natureza, teme aquilo que ignora e, durante séculos, pensou-se, primordialmente, que o louco seria aquele possuído pelo demônio. Tratava-se de um “fenômeno maldito”, precisando, portanto, ser o louco alienado da humanidade, que, em verdade, tinha grande receio do contágio. É importante perceber, que, mesmo nos dias atuais, existem certos resquícios de preconceito contra aqueles que apresentam transtornos mentais.

O passar do tempo e o avanço da ciência, sobrepondo-se ao mero misticismo, possibilitaram ao homem uma compreensão mais verossímil da realidade das enfermidades mentais, que, com efeito, careciam de tratamento, em vez de exclusão.

Destaque-se que psicopatologia, base da psiquiatria, se ocupa em estudar os estados psíquicos que estão relacionados ao sofrimento mental. Dentre os distúrbios de que ela trata destacam-se as personalidades psicopáticas.

Psicopatas, existentes em qualquer tipo de sociedade, e dentro delas, em qualquer um dos segmentos, são indivíduos cujo tipo de conduta é extremamente peculiar. Portanto, não podem ser qualificados como loucos nem como débeis. Encontram-se em um campo intermediário. Dessa forma, os indivíduos acometidos por esse transtorno não podem ser colocados no grupo da normalidade, devido aos seus desequilíbrios psico-emocionais e comportamentais. Constatou-se que o distúrbio em foco se trata de perturbações da conduta, e não de enfermidade psíquica, visto que a inteligência se mantêm normal, porém as emoções e o caráter apresentam-se afetados.

Para o psicopata, seu “eu” encontra-se acima de tudo e de todos, demonstrando um egoísmo patológico, pois ele realmente acredita poder fazer o que quiser. Seus atos são regidos por suas próprias regras, ignorando aquelas presentes na sociedade e no ordenamento jurídico.

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Apontou-se o fato de que os assassinos seriais, geralmente, demonstram um convívio social dificultoso, iniciado desde cedo, quando crianças ou adolescentes. Geralmente, são provenientes de família desestruturada, tendo vivenciado diversos episódios de violência física e também psicológica.

Referências

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