PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC - SP
Karla Somogyi
Malícia e humor: leitura das manchetes de capa do
Meia Hora
Mestrado em Língua Portuguesa
São Paulo
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC - SP
Karla Somogyi
Malícia e humor: leitura das manchetes de capa do
Meia Hora
Mestrado em Língua Portuguesa
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Língua Portuguesa, sob a orientação da Professora Doutora Ana Rosa Ferreira Dias.
São Paulo
Ao meu filho e ao meu marido,
meus companheiros na jornada
AGRADECIMENTOS
À Professora Doutora Ana Rosa Ferreira Dias, por quem tenho o mais sincero respeito e admiração, agradeço a orientação dedicada, a compreensão e as
críticas que me conduziram à reflexão e ao aperfeiçoamento, assim como o exemplo de conduta ética e humana que me legou.
Ao Professor Doutor Dino Preti, a quem admiro profundamente e com quem aprendi muito no curso do mestrado, tanto pelo contato com seu vasto conhecimento teórico, como pelos relatos de experiência de uma vida profissional e acadêmica admirável, agradeço o cuidado e a consideração em suas contribuições e comentários críticos no Exame de Qualificação, que me conduziram ao aprimoramento do trabalho.
Ao Professor Doutor Paulo Ramos, agradeço imensamente as generosas e valiosas contribuições críticas na qualificação do trabalho, a leitura cuidadosa e os questionamentos pertinentes que colaboraram oportunamente para a pesquisa.
À Professora Doutora Vanda Maria da Silva Elias e ao Professor Doutor Márcio Rogério de Oliveira Cano, agradeço a participação como suplentes da banca examinadora.
In memoriam, agradeço aos meus pais, Alice e Karl Konecny, o exemplo e o contínuo estímulo aos estudos que sempre me deram em vida e que me acompanha mesmo após sua morte.
A Richard Steven Somogyi, agradeço o amor, a compreensão, o incentivo e o privilégio de tê-lo sempre ao meu lado. A Viktor Somogyi, nosso filho, a quem dedico meu amor, agradeço o carinho e a paciência.
Agradeço ainda a todos os meus amigos, colegas e familiares que, de alguma forma, direta ou indiretamente, colaboraram com a pesquisa, por seu suporte intelectual ou emocional.
RESUMO
SOMOGYI, Karla (2014). Malícia e humor: leitura das manchetes de capa do Meia Hora. Dissertação de mestrado (Língua Portuguesa). São Paulo: PUC-SP.
A presente dissertação tem por objetivo principal o estudo dos mecanismos
linguístico-discursivos envolvidos na instauração do discurso da malícia e do humor nas manchetes jornalísticas, para a compreensão mais profunda do mecanismo de construção de sentido desses textos. Para tanto, foram selecionadas, como corpus
de análise, as manchetes maliciosas do jornal popular sensacionalista Meia Hora,
veiculadas no período dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012.
A pesquisa fundamenta-se no estudo de Preti (2010) sobre o discurso da malícia; nos princípios da metodologia da Análise do Discurso de linha francesa desenvolvidos por Maingueneau (2010, 2013), apoiado em Bakhtin (1992, 1997) e nos estudos sobre interação humana de Grice (1982), Goffman (1967) e Brown e Levinson (1987); na Semântica Linguística dos estudos de Ducrot (1977, 1987) e na teoria desenvolvida por Raskin (1985, 1991), inserida em uma perspectiva sociocognitiva interacional da Linguística Textual, que formula o mecanismo semântico-linguístico do humor.
No presente trabalho observamos que o discurso da malícia dispõe de um expediente semântico-linguístico que, ao mesmo tempo, leva ao riso e baseia-se na cumplicidade entre leitor e jornal, de forma que a malícia e o humor são explorados na elaboração das manchetes sensacionalistas para recriar os fatos noticiados, como uma estratégia para produzir empatia, aproximação e agradar a um determinado público leitor, que partilha dos mesmos valores sociais e que tem competência linguística e cômica para participar de um jogo lúdico com a linguagem.
ABSTRACT
Somogyi, Karla (2014). Veiled eroticism or obscenity and humor: reading the cover
headlines of newspaper Meia Hora. Master’s thesis (Portuguese Language). São Paulo: PUC-SP.
The present thesis has as main objective the study of linguistic-discursive mechanisms involved in establishing the discourse based on veiled sexualization of referents as well as humor in newspapers headlines, to understand more deeply the mechanism of construction of meaning in such texts. To this end, headlines expressing veiled eroticism or obscenity from the popular sensationalist newspaper
Meia Hora, published during the Olympic Games of London 2012, were selected as
corpus of analysis.
The research is founded on the study of Preti (2010) about the discourse based on veiled sexualization and obscenities; on the methodology principles of the French school of Discourse Analysis developed by Maingueneau (2010, 2013), supported by Bakhtin (1992, 1997) and on the studies about human interaction by Grice (1982), Goffman (1967) Brown and Levinson (1987); on Ducrot's (1977, 1987) studies of Linguistic Semantics and on the theory developed by Raskin (1985, 1992) inserted into a new interactional social-cognitive perspective of Text Linguistics, that formulates the semantic-linguistic mechanism of humor.
In the present work, we observe that the discourse of veiled sexualization and obscenities explores a semantic-linguistic resource that, at the same time, leads to laughter. This resource is based on the partnership between reader and newspaper, in a way that veiled obscenity and humor are explored in the elaboration of sensationalist headlines to recreate the notified facts, as a strategy to produce empathy and closeness, to please a particular readership who shares the same
social values and has linguistic competence to take part in a playful usage of language.
SUMÁRIO
CONSIDERAÇÕES INICIAIS ... 08
CAPÍTULO I : O CORPUS ... 11
1.1 – O jornal Meia Hora ... 13
1.2 – O sensacionalismo na imprensa ... 19
CAPÍTULO II: A NOTÍCIA SENSACIONALISTA E O PAPEL DA MANCHETE .... 27
CAPÍTULO III: MALÍCIA, HUMOR E DISCURSO ... 41
3.1 – O discurso da malícia: obscenidade e erotismo em jogo ... 41
3.2 – Discurso e interação ... 50
3.3 – O mecanismo linguístico do humor ... 58
CAPÍTULO IV: ANÁLISE DO CORPUS ... 69
4.1 – Capa do jornal Meia Hora de 1.o de agosto de 2012 ... 71
4.2 – Capa do jornal Meia Hora de 03 de agosto de 2012 ... 78
4.3 – Capa do jornal Meia Hora de 05 de agosto de 2012 ... 85
4.4 – Capa do jornal Meia Hora de 07 de agosto de 2012 ... 91
4.5 – Capa do jornal Meia Hora de 08 de agosto de 2012 ... 96
4.6 – Capa do jornal Meia Hora de 12 de agosto de 2012 ... 104
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 112
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 115
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A presente pesquisa tem como tema o estudo da malícia e do humor nas manchetes do jornal sensacionalista e seu objetivo principal é refletir sobre os mecanismos linguístico-discursivos envolvidos nesse jogo lúdico da linguagem, assim como buscar compreender de que maneira se instauram o discurso da malícia e o humor. Para tanto, foram selecionadas as manchetes de capa do periódico popular sensacionalista carioca Meia Hora, que exploram a malícia para tratar de notícias relacionadas, direta ou indiretamente, aos Jogos Olímpicos da edição de 2012, em Londres.
Chamou-nos atenção a repercussão dessas manchetes, o interesse que a malícia suscita, independentemente do teor da notícia que é anunciada. Mesmo que possam ser consideradas grosseiras, ofensivas, machistas, as manchetes maliciosas parecem atrair um público leitor significativo. Com esta pesquisa, ademais, procuramos compreender em que medida a malícia e o humor são explorados na elaboração das manchetes como uma estratégia para conquistar um determinado público leitor, que partilha dos mesmos valores sociais, e garantir não só a venda do jornal popular, como também sua projeção no mercado de periódicos.
No decorrer de nossas pesquisas, especialmente por meio de Preti (2010), sobre o discurso da malícia, fomos estimulados a investigar por que, em termos linguístico-discursivos, a malícia vem, normalmente, acompanhada pelo riso, o que norteou nossa pesquisa sobre o humor.
Uma vez que a manchete maliciosa está inserida no jornalismo sensacionalista, consideramos relevante identificar as características desse tipo de jornalismo, bem como a estrutura da notícia que veicula, para levantar o papel da manchete em seu discurso.
Dessa forma, o presente trabalho apresenta-se em quatro capítulos. No primeiro, fazemos a apresentação do jornal Meia Hora, com uma descrição de sua estrutura e de seu perfil, assim como traçamos um breve histórico de sua trajetória no mercado jornalístico. Consideramos necessário também tratar brevemente da história da imprensa sensacionalista, das origens e características desse tipo de atividade jornalística, especialmente por meio dos estudos de Angrimani (1995); Pedroso (2001); Proença (1992); e Bucci (2000) como uma forma de determinar o contexto histórico e social de produção dos enunciados em questão.
No segundo capítulo, tratamos da estrutura da notícia sensacionalista e, nesse contexto, identificamos o papel da manchete, objeto de nossas análises. O primeiro contato do público com o jornal e com a notícia anunciada ocorre por meio da manchete na capa, de forma que esse gênero textual – que, como veremos na análise do corpus desta pesquisa, frequentemente, apoia-se em elementos da linguagem não verbal, dialoga ou articula-se com eles para compor o sentido implícito dos enunciados maliciosos – parece estar diretamente ligado à estratégia, desenvolvida pelo jornal, de sedução do leitor para garantir sua venda e projeção.
O terceiro capítulo apresenta a base teórica que sustenta esta pesquisa. Apoiamo-nos no estudo de Preti (2010) sobre o discurso da malícia, assim como procuramos em Maingueneau (2010) a definição de obscenidade, erotismo e pornografia, tanto quanto a diferença entre esses três tipos de expressão de referência sexualizada.
Foram levantados, sobretudo em Ducrot (1977, 1987) e Maingueneau (2013), este apoiado em Bakhtin (1992, 1997), Grice (1982), Goffman (1967) e Brown e Levinson (1987), os princípios teóricos elementares da metodologia da Análise do Discurso, interessantes para os objetivos da pesquisa. A teoria desenvolvida por Raskin (1985, 1991), inserida em uma perspectiva sociocognitiva interacional da Linguística Textual, formula o mecanismo semântico-linguístico do humor, pelo qual igualmente orientamos nossa análise.
produzidos, com vistas a uma compreensão mais profunda do mecanismo de construção de sentido de textos que se utilizam de linguagem maliciosa e de humor.
CAPÍTULO I
O JORNAL MEIA HORA E SUA RELAÇÃO COM O SENSACIONALISMO
Durante o período das Olimpíadas de Londres em 2012, cuja abertura ocorreu no dia 27 de julho e o encerramento em 12 de agosto, a imprensa brasileira deu
ampla cobertura aos jogos, colocando em foco os resultados de competições que envolviam as equipes nacionais, assim como o desempenho de atletas brasileiros. Nesse contexto, o jornal sensacionalista Meia Hora, produzido no Rio de Janeiro, ultrapassou as fronteiras da cidade fluminense por meio de sua página virtual e seu perfil público na rede social Facebook e, assim, chamou a atenção dos internautas brasileiros de modo geral, por causa de sua abordagem peculiar em certas manchetes sobre o evento esportivo.
As capas em que figuravam manchetes sobre os resultados das competições olímpicas, na época, espalharam-se pela internet, fossem como alvo de comentários depreciativos e críticos em relação ao veículo, fossem como objeto de divertimento compartilhado entre amigos e/ou pessoas conectadas virtualmente pela conhecida rede social. A causa do alvoroço estava na malícia que as manchetes evidentemente exploravam ao tratar do desempenho de atletas brasileiros nas provas olímpicas.
O perfil público do jornal Meia Hora, na rede social Facebook, tem mais de 260 mil seguidores1. No período das Olimpíadas de Londres, as capas do jornal ali publicadas apresentaram uma média de quatrocentos compartilhamentos e mais de uma centena de comentários na rede social. Entretanto, aquelas que exploraram a malícia tiveram repercussão significativamente maior, o que chamou nossa atenção.
A capa do dia 1.º de agosto, por exemplo, que fazia uma crítica às equipes olímpicas brasileiras por não ganharem medalhas após três dias de competições, foi
compartilhada por quase duas mil pessoas e mais de duzentas pessoas comentaram a imagem da capa publicada2, enquanto a capa do dia 08 de agosto,
1Cf. <https://www.facebook.com/meiahora?fref=ts>. Acesso em: 19 jun. 2014.
2
sobre a vitória da seleção feminina de voleibol, alcançou mais de 7.200 compartilhamentos e foi alvo de quase quatrocentos comentários3, e a capa de 12 de agosto, sobre a derrota da seleção olímpica masculina de futebol, teve mais de dois mil compartilhamentos e aproximadamente cento e cinquenta comentários4.
O alcance disso é praticamente imensurável, uma vez que, ao compartilhar, um usuário da rede social disponibiliza a imagem para seus contatos, sejam estes dezenas, centenas ou milhares. Se esses contatos, os chamados amigos no
Facebook, “curtirem”5 ou comentarem a imagem compartilhada, seus respectivos contatos também podem ver o que foi compartilhado e, como num efeito cascata, a disseminação da imagem é potencialmente ampliada.
O interesse pelo material de pesquisa advém primordialmente dessa repercussão, em meio eletrônico, das manchetes de capa, em que a malícia, explorada nos enunciados, produz humor e, desse modo, atrai leitores, promovendo a venda e a projeção do jornal.
Tendo em vista nossos objetivos, das capas produzidas no período das Olimpíadas de 2012, foram selecionadas apenas as que exploram a malícia. Desse modo, serão analisadas as manchetes maliciosas das capas do jornal Meia Hora, veiculadas nos dias 1.º, 03, 05, 07, 08 e 12 de agosto de 2012.
Como forma de contextualização desse corpus, primeiramente, levantaremos um histórico do jornal carioca, descrevendo-o. Em seguida, faremos um histórico do jornalismo sensacionalista, identificando suas características, de modo a entender a classificação do Meia Hora como um periódico popular sensacionalista.
3 Vide Anexo II. 4 Vide Anexo III. 5
1.1 O jornal Meia Hora
Segundo informações presentes no site da Empresa Jornalística Econômico S.A (Ejesa) 6, o jornal Meia Hora de Notícias, reconhecido apenas por Meia Hora, foi
lançado em 2005, no Rio de Janeiro, em formato quadróide (38,1cm de altura X 24,8cm de largura), com foco no leitor pertencente à classe C7, e é “conhecido por
suas capas irreverentes, histórias exclusivas e pelo conteúdo diversificado e rápida leitura”. Ainda de acordo com a mesma fonte, “o jornal é focado em notícias gerais”, abordando temas de maior interesse do público, como noticiário policial, guia de empregos, transporte público e trânsito, tecnologia, saúde, televisão, variedades, entretenimento e “fofoca”, além de proporcionar um espaço participativo, no qual publicam-se cartas e opiniões.
A Ejesa foi fundada em 08 de setembro de 2009 e lançou, um mês depois, o jornal Brasil Econômico. No ano seguinte, adquiriu a editora O Dia, quando passou a editar o jornal de variedades O Dia, o popular Meia Hora e Marca Brasil, um diário esportivo.
No site da Associação Paulista de Jornais8 (APJ), noticiou-se o lançamento da versão paulistana do Meia Hora em 19 de junho de 2010, entretanto, em março de 2011, a sede de sua redação na cidade de São Paulo encerrou as atividades e seus dez funcionários foram desligados, conforme informação veiculada numa publicação no blog do jornalista Anderson Cheni9.
O popular carioca Meia Hora continua a ser produzido no Rio de Janeiro, onde é comercializado na versão impressa, em bancas de jornais, pelo preço de R$0,7010. No site oficial11 do jornal na internet, algumas matérias são veiculadas – aparentemente, somente aquelas que causam mais impacto ou que atribuem maior
6
<https://www.ejesa. com.br/meia_hora.html#>. Acesso em: 11 out. 2013.
7Segundo informações presentes na página virtual da Secretaria de Assuntos Estratégicos do
Governo Federal (<http://www.sae.gov.br/site/?p=17711#ixzz34REOtxcj>. Acesso em: 12 jun. 2014), com dados de agosto de 2013, a classe C era definida pela renda média entre R$ R1.147,00 e R$ 1.685,00.
8 <http://www.apj.inf.br/detalhe_noticia.php?codigo=13441>. Acesso em: 11 out. 2013.
9 <http://cheninocampo.blogspot.com.br/2011/03/meia-hora-sao-paulo-e-extinto-e-empresa.html>.
Acesso em: 11 out. 2013.
10Preço vigente no período da pesquisa, de fev. 2012 a jun. 2014.
11
interesse ao público leitor –, sendo disponibilizadas ao público em geral somente no dia da publicação, ou seja, não se forma um arquivo histórico das notícias ou reportagens. Já as capas, digitalizadas como imagem, de tal forma que reproduzem com exatidão a versão original impressa, podem ser acessadas por um mês no meio
eletrônico.
Ainda por meio do referido perfil virtual que o Meia Hora mantém na rede social Facebook, tanto o link para o site oficial, como as capas e algumas notícias de
última hora circulam e atingem qualquer internauta membro da rede social que tenha interesse na publicação, além dos seguidores do perfil na rede.
O assinante do jornal Meia Hora não só obtém os exemplares impressos,
como também em acesso irrestrito à versão digitalizada, em arquivo do tipo pdf, por meio da inscrição de um login e senha no site.
As capas do jornal chamam a atenção e a elas é atribuído o sucesso do Meia
Hora, especificamente pela irreverência de suas manchetes. Os temas de interesse do público leitor a quem o jornal é dirigido são abordados nas seções que constituem atualmente o jornal: “Serviços”, “Polícia”, “Geral”, “Voz do Povo”, “Saúde”, “Mundo”, “Alto Astral”, “Jornal da FM O Dia” e “Televisão”. Existem ainda dois cadernos: “Esportes” e “Classificados”.
Na seção “Serviços”, há vagas de emprego, indicadores econômicos e resultados da loteria. A seção “Polícia” é uma das mais longas do jornal, tomando-lhe entre quatro e seis páginas, e trata de casos policiais das comunidades locais na cidade do Rio de Janeiro. Na seção “Geral”, figuram notícias de interesse geral da população carioca, tais como casos de enchente, desmoronamentos, ou ainda figura alguma notícia de âmbito nacional que se sobressaiu naquele dia.
Em “Voz do Povo”, a editoria abre o espaço para os leitores e reproduz em pequenas notas reclamações e/ou manifestações de protesto, assim como publica fotos, enviadas pelos leitores, de pessoas desaparecidas e há também anúncios de
As seções “Saúde” e “Mundo” são breves e trazem, em geral, uma notícia em destaque relacionada aos assuntos apontados pelos respectivos títulos. Já “Alto Astral” se desenvolve em duas páginas do jornal e apresenta atividades de entretenimento, palavras cruzadas, jogo dos sete erros e sudoku, numa delas; na
outra, há uma coluna com piadas, ao lado da que trata do santo do dia, da que traz uma simpatia (receita de uma ação praticada supersticiosamente com finalidade de
conseguir algo que se deseja) e da que explica o sentido dos sonhos; e a página completa-se, abaixo, com o horóscopo do dia.
As seções “Jornal da FM O Dia” e “Televisão” trazem as notícias dos respectivos veículos e comentários especulativos a respeito da vida de famosos. O caderno de “Classificados” é normalmente extenso, já que contém inúmeros anúncios de imóveis, carros, serviços e diversos.
Por essa constituição apresentada, conclui-se que “Esportes” tem significativa relevância no jornal, já que compõe um caderno destacável. O futebol normalmente predomina, tomando a maior parte do espaço do caderno, em número de páginas, com notícias sobre resultados de jogos em campeonatos locais e em nível federal, assim como com comentários sobre partidas e sobre algum jogador que tenha se sobressaído. No final do caderno, a seção “De Primeira” põe em evidência a “Gata da Hora” com a fotografia de uma modelo feminina em trajes mínimos.
Como se poderá constatar no capítulo de análise do corpus, as imagens ganham destaque na capa e no interior do jornal e, quanto à linguagem, o Meia Hora
explora o registro informal, o exagero, faz uso de expressões vulgares e maliciosas, principalmente nas manchetes de capa e em alguns títulos. No corpo das notícias, prevalece a linguagem formal; entretanto, dependendo do caderno ou da notícia, verifica-se o emprego de linguagem coloquial não vulgar12.
Trata-se de um jornal pertencente ao segmento popular de uma grande empresa jornalística, o qual, conforme indicado pela própria empresa em seu site13,
é voltado às classes C. A publicação de um dicionário das palavras difíceis da
12No Anexo IV, há um recorte, em que se pode verificar a ocorrência da expressão coloquial “Então,
se liga na dica” no corpo da notícia, cujo título é “Que maravilha!”, sobre um evento musical e a promoção da emissora de rádio para os ouvintes ganharem convites para o referido evento.
edição, para garantir a perfeita compreensão dos textos publicados, sugere que os editores do Meia Hora têm em foco um público leitor que não possui um nível de escolaridade elevado. No dia 26 de outubro de 201314, por exemplo, o referido dicionário do jornal apresentava o sentido das palavras “priorizar”, “inusitado” e
“êxito”, empregadas em diferentes matérias, respectivamente, nas páginas 12, 17 e 31 da edição desse dia.
Vale ressaltar que, segundo os mais recentes dados publicados no site da Associação Nacional de Jornais15 (ANJ), referentes a 2013, o Meia Hora figura na
décima primeira posição entre os cinquenta maiores jornais de circulação paga do Brasil, conforme mostra a Tabela 1 reproduzida a seguir:
14
Vide Anexo V.
15
Tabela 1: Os maiores jornais do Brasil de circulação paga, por ano (2013)
Rank Título UF Média da Circulação
Variação 2012-2013
01 Super Notícia MG 302.472 1,91%
02 Folha de S.Paulo SP 294.811 -0,95%
03 O Globo RJ 267.542 -3,72%
04 O Estado de S.Paulo SP 234.863 -0,15%
05 Extra RJ 225.622 7,67%
06 Zero Hora RS 183.839 -0,45%
07 Daqui GO 162.013 1,88%
08 Diário Gaúcho RS 159.485 -4,05%
09 Correio do Povo RS 140.189 -6,27%
10 Aqui (consolidado das edições de
MG, MA, DF e PE) MG 129.455 10,91%
11 Meia Hora RJ 125.225 5,89%
12 Agora São Paulo SP 95.913 4,2%
13 Dez Minutos AM 89.826 -1,83%
14 Lance! RJ 77.658 -3,22%
15 Estado de Minas MG 74.453 -11,14%
16 Expresso da Informação RJ 70.529 4,98%
17 O tempo MG 63.083 12,55%
18 Valor Econôminco SP 58.539 -5,37%
19 Correio BA 56.318 -9,27%
20 A Tribuna ES 56.079 -7,55%
21 Correio Braziliense DF 55.138 0,06%
22 Folha de S.Paulo – edição digital SP 54.931 40,34%
23 Diário de S.Paulo SP 47.414 20,96%
24 O Dia RJ 47.380 5,82%
25 O Estado de S.Paulo – edição digital SP 46.054 69,94%
26 Jornal NH RS 42.778 -5,46%
27 Aqui PE PE 42.729 9,35%
28 Jornal do Commercio PE 42.949 4,15%
29 Gazeta do Povo PR 41.235 -3,63%
30 Aqui DF DF 40.013 21,89%
31 O Globo – edição digital RJ 39.375 21,02%
32 Diário Catarinense SC 38.741 -4,86%
33 A Tarde BA 36.822 -7,99%
34 Aqui MG MG 33.944 2,51%
35 Diário do Nordeste CE 32.052 1,5%
36 Correio Popular SP 31.928 1,41%
37 Na Hora H DF 31.849 -9,03%
38 O Popular GO 31.487 1,62%
39 Folha de Londrina PR 30.817 -4,87%
40 Pioneiro RS 27.828 1,93%
41 Diário do Pará PA 26.795 4,99%
42 Hora de Santa Catarina SC 25.633 -20,05%
43 Notícia Agora ES 25.151 -0,69%
44 Diário de Pernambuco PE 24.976 3,02%
45 Extra – edição digital RJ 24.808 -0,08%
46 Gazeta de Piracicaba SP 24.593 0,14%
47 Massa! BA 24.528 11,71%
48 A Gazeta ES 24.283 -9,29%
49 Cruzeiro do Sul SP 24.067 -2,85%
Fonte: Instituto Verificador de Circulação (IVC) – circulação média diária no período de jan. a dez. de cada ano correspondente. Disponível em:
<http://www.anj.org.br/a-industria-jornalistica/jornais-no-brasil/ maiores- jornais-do-brasil>. Acesso em: 19 jun. 2014.
Ainda segundo dados divulgados no referido site da ANJ, a venda avulsa
compete em nível de igualdade com as assinaturas dos jornais diários brasileiros, já que cada forma de comercialização corresponde a praticamente a metade do total das vendas, conforme Tabela 2:
Tabela 2: Perfil de vendas dos jornais diários por ano (%)
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Venda
Avulsa 41,3 39,1 39,1 41,3 44,8 48,5 49,4 50,82 50,5 51,1 49,9 48,7 Assinatura 58,7 60,9 60,9 58,7 55,2 51,5 50,6 49,18 49,5 48,9 50,1 51,3
Fonte: IVC - Instituto Verificador de Circulação. Disponível em: <http://www.anj.org.br/a-industria-jornalistica/jornais-no-brasil/perfil-de-vendas-dos-jornais-diarios>. Acesso em: 19 jun. 2014.
Dessa forma, chamar a atenção do leitor pela capa e pelas manchetes sensacionalistas, que produzem humor, seja por meio da exposição nas bancas de jornais, seja pela publicação na internet, pode representar não só uma estratégia de promoção da venda avulsa, mas também de fixação da marca, ou do nome do jornal, associando-o à irreverência na maneira de anunciar os fatos que são noticiados.
Nessa busca pela adesão de leitores a esse modo de introdução dos acontecimentos, ao tratar das mesmas notícias que os outros jornais concorrentes, o
Meia Hora não só promove uma quebra da monotonia na maneira de relatar essas mesmas informações, assim como garante uma forma de entretenimento também, uma possibilidade de fuga das tensões diárias pela irrisão e pela experimentação de sensações eróticas que a malícia pode proporcionar ao leitor.
e à manutenção de sua estabilidade no mercado jornalístico, conforme veremos a seguir.
1.2 O sensacionalismo na imprensa
Angrimani Sobrinho (1995) adverte que o surgimento do jornalismo impresso
sensacionalista é incerto, mas a implantação desse estilo jornalístico é normalmente atribuída aos editores Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst, no final do século XIX. A concorrência acirrada entre os jornais norte-americanos veiculados na cidade de Nova Iorque, o New York World, de Pulitzer, e o New York Journal, de Hearst,
teria criado condições suficientes para o desenvolvimento de técnicas que caracterizaram o modo de edição sensacionalista de sua época:
1) manchetes escandalosas sem corpo tipográfico excessivamente largo, “garrafais”, impressas em preto ou vermelho, espalhando excitação, frequentemente sobre notícias sem importância, com distorções e falsidades sobre os fatos; 2) o uso abusivo de ilustrações, muitas delas inadequadas ou inventadas; 3) impostura e fraudes de vários tipos, com falsas entrevistas e histórias, títulos enganosos, pseudociência; 4) quadrinhos coloridos e artigos superficiais; 5) campanhas contra os abusos sofridos contra “pessoas comuns”, tornando o repórter um cruzado a serviço do consumidor. (ANGRIMANI SOBRINHO, 1995, p. 22)
De acordo com Lage (2006), o jornalismo americano, já no início do século XX, com o intuito de superar esse sensacionalismo vigente, cujas técnicas foram anteriormente descritas, desenvolveu um rigor técnico de apuração e tratamento das informações, influenciado pelo espírito científico. Disso também surgiu o ideal de imparcialidade, como contraponto à exploração emocional sensacionalista. E assim, consequentemente, surgiu o jornal-empresa, com a divisão de trabalho nas redações e a tomada de decisão sobre o que devia ou não ser publicado, seguindo a lógica empresarial: “O jornal-empresa pode, assim, abarcar vasta gama de opiniões,
bens materiais e ideológicos por entidades de características semelhante.” (LAGE, 2006, p. 13)
Nesse sentido, o autor relata que os editores desses jornais-empresa “se orientam ora por leis de mercado, ora por conveniências que traduzem o jogo de grupos de pressão ou entidades abstratas como o ‘interesse nacional’” (LAGE, 2006, p. 15), desse modo, evidenciando que, desde a gênese da imprensa empresarial, os produtores de jornais estão submetidos às estruturas de poder.
Segundo Pedroso (2001, p. 18), no Brasil, os primeiros jornais surgiram no Rio de Janeiro, no século XIX. Na época, nos centros urbanos, esses periódicos eram elaborados de forma artesanal ou semiartesanal e tinham caráter “opinativo, político, doutrinário, partidário, polêmico, panfletário”. Na fase industrial da imprensa, especialmente a partir de 1945, o jornalismo tornou-se “apolítico, objetivo, informativo, atomizado, descomprometido, desarticulado, não-reflexivo, despolitizador, unidirecional”.
Para ela, o jornalismo deixou de ser “uma atividade político-literária, de segmentos da classe dominante, para tornar-se uma atividade empresarial exclusiva de grupos econômicos dominantes” (PEDROSO, 2001, p. 18). E essa passagem de
uma prática jornalística a outra conduziu a duas formas de manifestação: o sensacionalismo – da necessidade de despertar emoções para vender a notícia – e a atomização – pela fragmentação do real em segmentos, como política, esportes, economia, ciência etc.
Por conta de sua pesquisa de mestrado, na década de 1980, que originou a obra referenciada no presente trabalho, Pedroso entrevistou o proprietário do jornal sensacionalista carioca Luta, Olympio Campos. A ideia de que o jornalismo deixou de apresentar caráter político-literário fica evidente, uma vez que, para ele,
De acordo com Pedroso (2001), a partir da década de 1950, a preocupação com a imparcialidade e objetividade surge como reflexo da transformação da imprensa em indústria, com a pretensão de atingir a todos indistintamente. Nessa época, começaram a formar-se as concentrações de empresas de informação, corporações complexas de jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, pela absorção de empresas menores, o que levou ao desaparecimento dos pequenos jornais.
Segundo essa pesquisadora, com a concentração empresarial, a atividade jornalística passa a ser controlada pelo poder público, por meio de empréstimos, financiamentos, isenção de impostos e mesmo pela censura propriamente, entre outros; pelos proprietários, com suas ligações políticas e interesses de negócios;
pelas agências de notícias, por causa da dependência da distribuição do noticiário do exterior, e pelas agências de publicidade. E esse controle tem reflexo no conteúdo da mensagem e em sua forma de apresentação:
Dessa forma, a imprensa corporativa apresenta um discurso próprio do imperialismo cultural, da indústria cultural, do sistema econômico excludente e desigual. Utiliza a linguagem do poder e do saber, recorrendo à vulgarização do conteúdo e da forma de abordagem (para multiplicar seu consumo em faixas cada vez mais extensas da população) e à padronização (sob a forma de uma pseudo-objetividade, que leva a marca do proprietário, apresentando uma mensagem vertical, superficial e desvinculada do contexto sócio-político-econômico-cultural da atualidade). É o discurso que recorta o real em diferentes editorias, que fragmenta a realidade social, resultando em um jornalismo não preocupado com processos, mas com acontecimentos isolados (às vezes, até insignificantes, diante da problemática cultural, econômica e política do país, oportunizando a transferência de ideias e tecnologias sob o mito de objetividade jornalística). (PEDROSO, 2001, p. 22)
Com o golpe de estado em 1964, a imprensa sofreu com a censura e disso surgiu a imprensa alternativa, que retomava valores do jornalismo opinativo, investigativo e interpretativo, num movimento de resistência às restrições de liberdade de expressão. A atividade quase artesanal desses pequenos jornais
configura o verdadeiro jornalismo popular, entendido como um “instrumento político acessível e adequado aos trabalhadores e às populações marginalizadas pelo
sistema social dominante”. (PEDROSO, 2001, p. 57)
Porém, no início dos anos 1980, a pesquisadora relata que a imprensa alternativa, de noticiário político, caracterizava-se pela instabilidade editorial e financeira, por reflexo do desenvolvimento industrial e urbano do país, da censura, entre outros fatores. Dessa forma, aos poucos, esse tipo de jornalismo foi definhando, favorecendo a consolidação das grandes corporações empresariais e, consequentemente, da grande imprensa.
A grande imprensa é o que a autora considera “moderna empresa racional-capitalista de produção de bens simbólicos” (PEDROSO, 2001, p. 19), ou seja, essa grande imprensa empresarial, cujos jornais enquadram-se no grupo dos que produzem informações dirigidas a determinados segmentos sociais, com propostas editoriais que nada mais fazem do que circular a ideologia dominante. A diferença está no tratamento dado à mensagem, na adequação de sua forma e conteúdo ao nível sociocultural do público-alvo:
Os jornais produzidos para as classes populares, como são realizados, em termos de produção, também se apresentam subservientes aos propósitos das elites políticas, econômicas e culturais, apesar de serem rotulados como populares. Pois, igualmente aos jornais para as classes dominantes, possuem leitores indiferentes ao tipo de produção de informações, realizando uma comunicação vertical [...]. (PEDROSO, 2001, p. 47)
inferior, utilizam uma linguagem mais próxima da oralidade, incluindo-se gírias e expressões vulgares, buscam chamar a atenção do público e desprezam a sobriedade, a seriedade e não se importam se lhes é atribuída credibilidade, explorando a violência e o sexo na produção de notícias que dramatizam ou
humanizam o acontecimento:
Os produtores desses jornais são os mesmos grupos associados às estruturas de poder. O que, então, os diferencia é a pertinência da produção social dos discursos ou a circulação diferencial do discurso da informação para as classes A e B, e para consumo na classe C para baixo. Ou melhor, discursos produzidos para as classes pertencentes ou atuantes na organização do saber e para as classes marginalizadas do acesso ao saber.[...] Esse tratamento discursivo do acontecimento de atualidade é que faz com que um mesmo fato seja reconhecido como político no jornal para as classes alta e média e como fait divers no jornal para classe baixa. (PEDROSO, 2001, p. 53)
A pesquisadora postula que, em geral, os jornais que se dirigem às classes sociais desprivilegiadas têm dificuldade para manter um vínculo estável com os leitores e por isso apelam para o exagero gráfico da capa e/ou para o sensacionalismo nas manchetes. Vigora, nesse modo operacional, a ideia de que a melhor notícia é a que desperta o interesse do público, que vende, como um produto que dissemina valores, conceitos, estilos de vida e estereótipos da sociedade, sem vínculo com a realidade:
O jornalismo sensacionalista, pela maneira própria de engendramento discursivo, estrutura, representa e permite o acesso ao mundo da liberdade pela exploração de temas agressivos, homicidas e aventureiros, que não podendo realizar-se na vida cotidiana, submetida à lei e à censura, tende a realizar-se projetivamente na leitura. Isto é, na realização da construção da representação dessa realidade pelo jornal. (PEDROSO, 2001, p. 51)
deturpação, entre outros, levando a uma visão negativa do meio que faz uso do sensacionalismo como modo de produção do texto jornalístico.
Com base no seu estudo das definições apresentadas para “sensacionalismo” na literatura jornalística, o autor propõe:
Sensacionalismo é tornar sensacional um fato jornalístico que, em outras circunstâncias editoriais, não mereceria esse tratamento. Como o adjetivo indica, trata-se de sensacionalizar aquilo que não é necessariamente sensacional, utilizando-se para isso do tom escandaloso, espalhafatoso. Sensacionalismo é produção do noticiário que extrapola o real, que superdimensiona o fato. (ANGRIMANI SOBRINHO, 1995, p. 16)
Para o estudioso, a credibilidade do meio sensacionalista é colocada em dúvida, especialmente pela falta de harmonia, ou desacordo em termos estilísticos, entre manchete e texto, manchete e foto, título e texto etc., já que a manchete, por exemplo, é elaborada com vistas a provocar reações no leitor, despertar emoções, pulsões, elementos que não se mantêm na notícia geralmente.
Segundo Angrimani Sobrinho (1995, p. 16), o jornal sensacionalista procura envolver o leitor emocionalmente, de modo que privilegia o registro informal e o estilo hiperbólico, com emprego de gírias e termos chulos. “É uma linguagem que obriga o leitor a se envolver emocionalmente com o texto, uma linguagem editorial ‘clichê’.”
A compreensão do sensacionalismo depende, de acordo com Angrimani
Sobrinho (1995, p. 17), de uma perspectiva psicanalítica sobre os estudos de comunicação, pois “é na exploração das perversões, fantasias, na descarga de
recalques e instintos que o sensacionalismo se instala e mexe com as pessoas”. Ele argumenta que a prática do jornalismo sensacionalista pode ser comparada a um “neurótico obsessivo” que, por um lado, tem pulsões transgressoras, de busca da satisfação pelo fetichismo, sadomasoquismo, pedofilia e outros, e por outro sofre a repressão dessas pulsões por um superego moralista e implacável.
de jornalismo. Ao final da década de 1960, também foi organizada, pela Universidade de São Paulo, uma semana de estudos cujo tema foi o sensacionalismo. Entretanto, o evento acadêmico teve como principal objetivo condenar essa forma de divulgação de informação.
Ainda segundo a autora, mesmo nas décadas mais recentes, ações judiciais foram movidas para censurar jornais sensacionalistas, como ocorreu com o Notícias
Populares, em São Paulo, com a proposta de que seus exemplares fossem vendidos em envelopes fechados; entretanto, tais ações não obtiveram êxito.
Para Angrimani Sobrinho (1995, p. 17), apesar do temor, por parte de intelectuais e de determinados segmentos da sociedade, de uma possível influência negativa sobre o comportamento ou a conduta da sociedade, o jornal sensacionalista funciona, na verdade, como “agente catártico das instâncias psíquicas, determinadas pela psicanálise. Meio, como artifício de realização, por procuração, do inconsciente”.
A imprensa sensacionalista não tem por finalidade primordial transmitir informações relevantes que estimulem o senso crítico-reflexivo a respeito de fatos. O modo de produção das notícias parece mais servir como uma reconstrução do real, uma forma de desviar a atenção do leitor de sua realidade imediata por meio da ridicularização de pessoas e situações, do sadismo, do exagero. A essência da notícia, o contexto histórico dos fatos, suas motivações e circunstâncias pouco importam.
Assim, conclui-se que o Meia Hora é classificado como um jornal sensacionalista, segmento popular da grande imprensa empresarial, porque realiza um modo de comunicação de massa que tem por objetivo atingir o leitor e conquistar sua atenção por meio do exagero, do excepcional, do grotesco, da sexualização dos referentes e da violência, explorados nas capas e nas manchetes, de forma a superdimensionar os fatos noticiados.
Como veremos na análise do corpus, o Meia Hora vende a aparência, extrai
do fato uma carga emocional e apelativa, enaltecendo-o, de tal forma que fabrica uma nova notícia, aparentemente mais interessante e atraente. As repercussões das
posicionamento entre os grandes jornais brasileiros colocam em evidência esse caráter catártico do meio de comunicação sensacionalista de que Meia Hora é exemplar, uma vez que, seja como alvo de crítica quanto à sua conduta ou objeto de divertimento e irrisão, é fato que o jornal se projeta e que provavelmente disso
CAPÍTULO II
A ESTRUTURA DA NOTÍCIA SENSACIONALISTA E O PAPEL DA MANCHETE
Segundo Barthes (1999), em seu ensaio crítico que trata da estrutura da notícia, quando tem cunho político, um fato é assumido como informação; não sendo
político, considera-se uma notícia geral. Mas postula que a diferença entre os dois, na verdade, reside na estrutura do relato de um acontecimento.
Se o acontecimento relatado remete a uma situação ampla, abrangente, na qual está inserido, ou seja, se pertence a um mundo conhecido, trata-se de informação. Nesse caso, o fato não tem estrutura própria, pelo contrário, figura como manifestação de uma estrutura implícita de que faz parte e que tem duração, de tal modo que se pode percebê-lo como uma informação parcial. Demanda do leitor, portanto, competência enciclopédica para relacionar os fatos da realidade preexistente ao que está sendo noticiado e, assim, que esse interlocutor apresente uma postura crítica e reflexiva.
Já o fait divers, a notícia geral, ou “notícia monstruosa” é um relato de acontecimentos sem interferência de outras esferas da vida social e que contém em si todas as informações necessárias para o seu entendimento. Não tem um histórico ou relação com a realidade preexistente, não se insere num contexto e não tem duração: “Certos fait divers se desenvolvem por vários dias: isso não rompe com sua imanência constitutiva, pois eles implicam sempre uma memória extremamente curta.” (BARTHES, 1999, p. 58-59)
A imprensa sensacionalista envolve sua temática no fait divers, cujo caráter imanente leva à conclusão de que é voltado para o consumo imediato, não demandando reflexão ou senso crítico acerca do que é noticiado: “no nível da leitura, tudo é dado num fait divers; suas circunstâncias, suas causas, seu passado, seu
desenlace; sem duração e sem contexto, ele constitui um ser imediato, total, que não remete, pelo menos formalmente, a nada implícito [...]” (BARTHES, 1999, p. 59)
divers expressivo, interessante, que chama a atenção e o define é menos seu conteúdo do que a maneira de engendramento linguístico resultante da relação que une ou aproxima as duas notações.
A causalidade que constitui o fait divers pode repousar no inexplicável, de
forma que a causa do fato apresentado não pode ser percebida imediatamente; ou pode ser “perturbada”, i.e., a causa revelada não é a naturalmente esperada. Nesses dois casos, o fait divers privilegia o espanto, a surpresa, uma quebra de
expectativa.
A coincidência, por sua vez, pode ser verificada não só na repetição de um acontecimento, geralmente banal, corriqueiro – repetição que, ainda que não diretamente relacionada a uma interpretação sobrenatural, aguça a curiosidade –, como também na aproximação de contrários, configurando antítese ou paradoxo, de tal forma que levanta no imaginário popular a ideia de destino, de fatalidade, já que “toda contrariedade pertence a um mundo deliberadamente construído: um deus ronda por detrás do fait divers”. (BARTHES, 1999, p. 66)
Entretanto, o autor ressalta que os dois movimentos não são necessariamente estanques na constituição de um fait divers:
Causalidade aleatória, coincidência ordenada, é na junção desses dois movimentos que se constitui o fait divers: ambos acabam com efeito por recobrir uma zona ambígua onde o acontecimento é plenamente vivido como um signo cujo conteúdo é no entanto incerto. Estamos aqui, se se quiser, não no mundo do sentido, mas num mundo da significação. (BARTHES, 1999, p. 66)
O fait divers, portanto, é considerado por Barthes uma breve história retirada do cotidiano, sem grande alcance, ou seja, delimitado num espaço de significação menos global, próximo da realidade das pessoas comuns, que chama a atenção pelo caráter de excepcionalidade, de novidade, de inusitado que atribui a fatos corriqueiros, normalmente sem importância.
tipos sociais, dramatizados narrativamente, que representam o lugar de evasão e o ritmo da informação angulados pelo nível massa”.
Para essa autora, o jornalismo sensacionalista está contido no noticiário do
fait divers e opera com uma projeção que o leitor realiza, de tal forma a liberar seus instintos e desejos reprimidos ou censurados, como numa catarse:
Na leitura da notícia excepcional, grotesca, erótica, violenta, o leitor libera a fisionomia própria dos seus sonhos, desejos, temores e horrores. A projeção do sósia, personagem do fato, permite a expulsão fora de si dos sentimentos de medo, mal, fatalidade, violação de tabus e leis, que estão obscuros em si. A leitura, participação nesse universo de faz-de-conta, permite: uma fuga, mesmo que passageira, da monotonia do cotidiano, sem emoções trágicas ou fortes; uma trégua nas preocupações; um relaxamento das tensões e opressões do dia-a-dia; uma experimentação de emoções sádicas ou eróticas. (PEDROSO, 2001, p. 51)
Para a pesquisadora, o sensacionalismo, pela forma como constrói a realidade, propõe um mundo de liberdade que se realiza nos submundos da sociedade, na subversão das leis ou de regras de comportamento por meio de personagens as quais desempenham papéis estigmatizados, desviantes e/ou rebeldes, relacionados à violência, ao crime, à depravação, à perversão. No processo de leitura do jornal sensacionalista, é possível projetar-se nos atos dessas personagens e dessa forma experimentar a liberdade de quem se permite tudo, como uma forma de atenuar conflitos interiores entre deveres e satisfação, pulsões e leis, desejo e moralidade.
Assim, o jornalismo sensacionalista explora o fascínio pelo extraordinário, pela aberração, pois “é no distanciamento entre leitura e realidade que a informação sensacional se instala como cômica ou trágica, chocante ou atraente”. (PEDROSO, 2001, p. 52) E a manchete, normalmente atrativa e apelativa, configura uma espécie de porta de entrada na comunicação entre o jornal e o seu público leitor, já que não se fixa na memória, nem funciona como referência ou indicador de algum assunto, o
que a caracteriza como volátil e superficial.
De acordo com a autora, a manchete sensacionalista articula-se com os
Esses três elementos articulados têm por função não somente prenunciar a notícia, mas também classificar os fatos apresentados pela perspectiva ou angulação que o jornal pretende valorizar:
O superinvestimento de sentido na manchete a responsabiliza pelo consumo das representações construídas pelo enunciador. É o recurso de publicidade da edição do dia, o primeiro elemento que estabelece (ou não) uma comunicação do jornal com o leitor, a qual se materializa na leitura (o jornal exposto na banca consegue parar o passante) ou na compra do exemplar. (PEDROSO, 2001, p. 80)
No jornal sensacionalista, a manchete – frequentemente apoiada em elementos visuais, ou com os quais muitas vezes dialoga, articula-se –, é a porta de entrada e um convite ao leitor para que reconheça o tipo de abordagem que a notícia vai apresentar, ou seja, se é explorada a malícia, o erotismo, o grotesco, a violência, entre outros. E é esse o primeiro índice da cumplicidade entre os interlocutores de que se vale o jornal para conquistar seu público-leitor, já que revela a aceitação por parte deste da perspectiva oferecida.
Para Pedroso (2001), o uso de linguagem criptográfica ou enigmática é comum na manchete sensacionalista como parte do processo de construção dessa cumplicidade entre jornal e público-alvo. Em geral, o enunciador emprega gírias, termos chulos e cria jogos de palavras e ambiguidades típicos de linguagem marginal, ou que foge ao padrão culto para se aproximar das classes populares a
que se dirige:
Ao publicar ou registrar as ações próprias do submundo, consideradas criminosas e pervertidas pela sociedade oficial, o jornal legaliza simbolicamente essa informação que é preterida nos jornais para as classes alta e média, tornando-se o lugar legítimo de representação da vida de pessoas que vivem e agem nas margens e periferias do sistema ideológico dominante. (PEDROSO, 2001, p. 81-82)
É interessante contrapor Lage (1986), que, em sua obra, trata da linguagem jornalística num discurso voltado para a formação de jornalistas. Ele explica que o texto jornalístico é regulado por restrições do código linguístico, de maneira que as variáveis formais correspondam aos interesses em jogo, no caso, uma comunicação
eficiente e a aceitação social. Para tanto, devem-se levar em conta, especialmente, três tipos de restrições: a do registro de linguagem, a do processo de comunicação e
a dos compromissos ideológicos.
No que tange ao registro linguístico, “o registro formal é uma imposição de ordem política, esteja ou não em lei. A pressão social valoriza seu emprego e qualifica como erro todo desvio.” (LAGE, 1986, p. 37-38). Não que as mudanças não ocorram ao longo do tempo, mas a imposição de um padrão dito culto determina o ritmo lento das inovações que, primeiro, são testadas antes de serem incorporadas aos dicionários e manuais de estilo e/ou gramaticais.
Entretanto, a linguagem jornalística pode apresentar marcas de registro coloquial ou desvios do registro formal com o objetivo de combinar a eficiência da comunicação com a aceitação do público-alvo do jornal:
A conciliação entre esses dois interesses – de uma comunicação eficiente e da aceitação social – resulta na restrição fundamental a que está sujeita a linguagem jornalística: ela é basicamente constituída de palavras, expressões e regras combinatórias que são possíveis no registro coloquial e aceitas no registro formal. (LAGE, 1986, p. 38, grifo do autor)
Podemos concluir que, no caso do sensacionalismo, o uso da linguagem vulgar, com termos chulos, gírias e referências sexualizadas, é possível devido à aceitação pelo público a que se dirige o jornal, pela cumplicidade estabelecida entre jornal e leitor.
Em relação ao processo de comunicação, Lage (1986, p. 40) ressalta a valorização, na notícia, de uma linguagem impessoal, marcada pelo emprego da terceira pessoa, já que o enunciador se dirige a um conjunto disperso e não identificado de leitores. “Por isso, os adjetivos testemunhais e as aferições subjetivas
a avaliar por si mesmo as informações. Veremos a seguir, com Dias (2008), que essa diretriz não é estrita.
Lage (1986, p. 42) considera compromisso ideológico uma forma de restrição da linguagem jornalística que repousa nas relações entre cultura e identidade,
cultura e sociedade e nas relações de poder. “As grandes e pequenas questões da ideologia estão presentes na linguagem jornalística, porque não se faz jornalismo
fora da sociedade e do tempo histórico.” Para ele ainda, “a língua é a mais importante articulação da cultura”.
Em outras palavras, a escolha lexical no uso da língua implica uma perspectiva da realidade, um posicionamento do enunciador, inserido em determinada cultura e ideologia dominante, e isso constitui uma restrição para a linguagem jornalística. Entretanto, o jornalista, produtor da notícia, deve estar alerta e consciente a fim de prever as consequências de suas escolhas e, desse modo, não gerar conflitos de interesse ou ideológicos. Segundo o autor, por exemplo, trocar “latifundiário” por “grande fazendeiro” é “preferível”. (LAGE, 1986, p. 45)
Embora trate das restrições à linguagem jornalística que a definem, Lage (1986) destaca a peculiaridade do fait divers quanto a sua estrutura, normalmente baseada em contradições, antíteses. E explica que a interpretação psicanalítica ou sociológica feita sobre um fait divers deve ser inteiramente desligada do consumo da notícia. Não interessam os dados concretos envolvidos, apenas suas contradições imanentes. A finalidade é conquistar a cumplicidade do leitor, conclamando-o a resolver o enigma, solucionar a contradição e encontrar o equilíbrio, ao aceitar a perspectiva da realidade como lhe é apresentada.
Do que se expôs até o momento, entendemos que a retórica do jornalismo fundamenta-se primordialmente na articulação entre a comunicação eficiente e a aceitação do público leitor. Dessa forma, além de convidar o leitor a resolver o enigma de contradições, a linguagem jornalística também explora a relação de
“Como construção retórica do mundo, a notícia trata das aparências do mundo.” Ela deve apresentar um caráter de verdade. Assim sendo, o autor acredita que “a notícia não é avaliada por seu conteúdo moral, ético e político; o que importa é se de fato aconteceu aquilo ou, no caso de uma entrevista, se o entrevistado disse
realmente aquilo”. (LAGE, 1986, p. 26, grifos do autor):
A notícia pode comover, motivar revolta ou conformismo, agredir ou gratificar alguns de seus consumidores. Esses efeitos são apreciados e muitas vezes exagerados por quem se ocupa de política de comunicação ou de psicologia social. Trata-se de um mecanismo de poder em que o veículo está inserido ou, na prática, para os gatekeepers, aqueles que decidem o que vai ou não ser publicado. Quem escreve a notícia tem postura ética distinta: sua preocupação é saber se a informação tem importância ou desperta interesse bastante para ser publicada e como ressaltar essa importância ou interesse, mantendo a conformidade com os fatos. (LAGE, 1986, p. 26)
Em relação a essa ideia de uma “postura ética distinta”, Frias Filho (1984), em artigo ao jornal Folha de S.Paulo, defende que a estratégia de mercado é a
lógica da imprensa e essa estratégia ancora-se na própria estrutura ideológica da notícia. Dessa forma, o jornalista refuta a acusação de que a imprensa atende a interesses políticos e por isso manipula a notícia e o público:
Em outras palavras, que não é a imprensa burguesa quem institui um público sujeito à estratégia de mercado e às manipulações que dela decorrem, mas que é o caráter mercadológico da notícia que institui, numa ponta, a imprensa burguesa, na outra, o público burguês, e entre ambos uma simbiose de interesses complementares. (FRIAS FILHO, 1984, p. 03)
De acordo com esse princípio, num jornal, o que merece destaque e pode tornar-se manchete é aquilo que, pela sensibilidade do jornalista, estimula a curiosidade do leitor, que pode suscitar o interesse da sociedade, e não mera propaganda ideológica.
Quando trata das manchetes sensacionalistas em seu artigo, o autor ressalta que elas são constituídas pela técnica simples do contrastamento, de oposições tais como “o familiar e o hediondo, o rotineiro e o inesperado, o acaso e a coincidência, o público e o privado, o próximo e o distante” (FRIAS FILHO, 1984, p. 04).
Para ele, o conteúdo sensacionalista baseado em crime e sexo, em sua forma exagerada de apresentação, estrutura-se fundamentalmente por meio do contraste.
E quanto mais amplo se estabelece esse contraste, mais eficiente é o efeito que produz sobre o público, já que estimula a curiosidade humana.
Entretanto, o autor esclarece que, ainda que a técnica do contrastamento seja escancarada no sensacionalismo, que a amplia e exagera, trata-se de característica presente também no jornalismo considerado “sério”, nos jornais prestigiados:
A mesma estrutura de contraste está lá nos prestige-papers, embora dissimulada sob a elegância do estilo naturalista e sob o manto da sobriedade de propósitos. Em ambos os casos trata-se invariavelmente de contrastar dois polos (próximo e distante, secreto e devassável etc.) e ampliar ao máximo a separação entre eles. É dessa ampliação que vive a imprensa posto que a curiosidade do leitor, como de resto qualquer curiosidade, se alimenta na e da distância. [...] Ainda que o jornalismo seja uma técnica ideológica, como toda técnica, ele possui uma lógica interna que ultrapassa ideologias e que se impõe a elas. (FRIAS FILHO, 1984, p. 04)
Frias Filho (1984, p. 04), como editor de um jornal sensacionalista, no caso, o
Notícias Populares, e diretor de redação do jornal Folha de S. Paulo, destaca ainda o outro fator da estrutura da notícia que é a relação de cumplicidade entre leitor e jornal, ao explicar a metáfora que criou no título de seu artigo, “Vampiros de papel”. Assim como no mito em que o vampiro só pode entrar na casa da pessoa se for convidado, o público deve aceitar ou não o que o jornal oferece. “Só é possível iludir quem manifesta o anseio de ser iludido, só é possível manipular quem desejou ardentemente ser manipulado. [...] Estendido diante dos olhos do leitor, o texto jornalístico é um contrato entre cúmplices."
curiosidade, seguindo a estratégia de mercado, conforme a qual a melhor notícia é aquela que vende.
Proença (1992, p. 56), em sua tese de doutorado, reforça em parte os argumentos de Frias Filho, já que afirma que na rotina de um jornal sensacionalista, no caso, o Notícias Populares, objeto de sua pesquisa, o foco da atenção é o desejo do leitor. “É nesse tipo de veículo que o peso do leitor é tão mais significativo que,
de certa forma, o leitor ‘faz’ a notícia.”
De acordo com o autor, o jornalismo sensacionalista cria o acontecimento,
não o inventa.
“
A maioria dos trabalhos realizados nos estudos dos meios decomunicação de massa enxerga a notícia como um elemento de reflexo da realidade, já que ela é passiva. Porém, as ‘realidades’ são feitas e a notícia é parte de um sistema que a constrói.” (PROENÇA, 1992, p. 56)
Neste ponto, cabe levar em consideração o estudo de van Dijk (1998), por meio do qual o linguista revela como a imprensa holandesa indispôs a opinião pública contra refugiados do Sri Lanka, os tamils, de 1984 a 1985. Em seu trabalho, ficou evidente o papel das manchetes, em especial, as sensacionalistas, que direcionam a leitura para determinada interpretação dos fatos com sua força expressiva e persuasiva.
Dessa forma, contradizendo Frias Filho (1984), evidencia-se que há um processo de manipulação da notícia e este não é exclusividade dos jornais
populares, já que “é muito difícil o jornalista conseguir isenção total do jogo político que existe por trás de um grande número de interesses particulares que permeiam as mais diversas atividades humanas”. (PROENÇA, 1992, p. 57).
Entretanto, o autor afirma que os jornalistas, no exercício da profissão, baseiam-se em “prática honesta, transparente, consistente e ética” e que “obedecem a padrão de procedimento determinado pela organização onde atuam e por sua profissão”. (PROENÇA, 1992, p. 57)
em forma determinada, mas porque o jornal utiliza um método específico na tentativa de tornar o mundo caótico em alguma coisa ordenada e coerente".
Bucci (2000, p. 12), entretanto, acredita que “a ética jornalística não se resume a uma normatização do comportamento de repórteres e editores; encarna
valores que só fazem sentido se forem seguidos tanto por empregados da mídia como por empregadores – e se tiverem como seus vigilantes os cidadãos do
público”.
Citando a filósofa Marilena Chauí, Bucci (2000, p. 15) ressalta a dupla face do comportamento ético, a individual e a social. Grosso modo, isso significa que a conduta ética é de responsabilidade individual, contudo, está vinculada a valores sociais. Agindo eticamente, o indivíduo forma seu próprio caráter e interfere na sociedade de que participa.
Contudo, Bucci (2000, p. 19) pondera que os jornalistas passam por dilemas éticos no exercício da profissão, por exemplo, “entre o valor da verdade e a responsabilidade sobre as consequências do que será publicado”. Segundo ele, disso resultaria, por exemplo, a necessidade de escolha entre revelar ou não fatos considerados importantes para a sociedade, quando implica investigar a intimidade das pessoas envolvidas nesses fatos.
Assim, o dilema típico no jornalismo, segundo Bucci, deveria ser aquele que trata da oposição entre dois valores, a princípio, igualmente bons e justos, porém a responsabilidade pelas consequências da ação de um jornalista deve ser levada em consideração e, dessa forma, os dilemas éticos tornam-se mais complexos e extrapolam o universo interno da redação de um jornal: “É preciso ver que novas questões se apresentam dentro de uma comunicação social marcada pela presença dos grandes conglomerados da mídia e pela crescente aproximação entre jornalismo e entretenimento, perfazendo a lógica do espetáculo.” (BUCCI, 2000, p. 26)
Nesse contexto dos grandes conglomerados da mídia, Bucci (2000, 142)
para outro (entretenimento com base na ficção), é a realidade espetacular, uma realidade que se confecciona para seduzir e emocionar a plateia.”
E essa “confecção da realidade espetacular”, em sua forma mais exagerada, remete ao sensacionalismo. O autor critica a prática do jornalismo a serviço do
espetáculo, porque, segundo ele, “quando o jornalismo emociona mais do que informa, tem-se aí um problema ético, que é a negação de sua função de promover
o debate de ideias no espaço público”. (BUCCI, 2000, p. 144-145)
Para Bucci (2000, p. 184-185), a manipulação da notícia ocorre por meio de “manchetes maliciosas, enfoques tendenciosos, além de omissões deliberadas”, afora o processo industrial que transforma os jornalistas em “promotores (os intelectuais orgânicos cibernéticos) não mais dos interesses dos patrões, tampouco do público entendido como opinião pública, mas da ideologia desse negócio, que é a ideologia que idolatra o consumidor”.
Bucci (2000, p. 185-186) defende uma ética específica para a imprensa que “pode contribuir para elevar o jornalismo à altura de sua função crítica contemporânea”, ou seja, o jornalismo deve estar a serviço do público e cumprir sua função social de “noticiar e interpretar os fatos, assim como dar espaço às ideias e aos debates de interesse público”.
Em seu trabalho, Proença (1992) propôs sua visão particular de um determinado veículo sensacionalista, o Notícias Populares, uma vez inserido na equipe de redação do jornal, com o objetivo de colaborar para a compreensão dos procedimentos da imprensa popular atuante em São Paulo na época, i.e., na década de 1980, E o pesquisador concentrou-se nas manchetes, segundo ele, “na tentativa de manter a neutralidade e não se deixar levar pela empolgação do desempenho profissional individual”. (PROENÇA, 1992, p. 61)
Segundo seu estudo, “o jornalismo de título constitui uma ruptura brusca na atenção passiva do leitor”. (PROENÇA, 1992, p. 61) No sensacionalismo, a
Na organização do veículo jornal, ela [a manchete] assume a forma mais importante para a classificação do real. (...) Do ponto de vista do leitor, ele entra no jogo e não se preocupa em consumir a informação total. Ele é capaz de identificar claramente o lá do real da atualidade e o aqui do discurso da imprensa. Ele consegue separar o voo do jornalista e aceita que o tema, por mais absurdo que pareça, tenha o ar de coisa séria, sem qualquer resquício de que o jornal pode estar “brincando”. (PROENÇA, 1992, p. 62, grifos do autor)
Proença (1992) considera que o fato de a manchete reproduzir a estrutura imanente do fait divers, com sua impossibilidade de relação com outros contextos,
colabora para o efeito de proximidade entre o leitor e as personagens envolvidas, o que satisfaz as necessidades desse leitor em relação às suas expectativas fantasiosas.
Esse investimento extraordinário na manchete sensacionalista do jornal popular tem por objetivo, portanto, estabelecer o contato, a comunicação entre leitor e veículo, assim como garantir a venda avulsa em banca, especialmente.
Quando trata do público leitor do jornal popular, Proença (1992, p. 63) chama de “público volátil” aquele que não vê suas expectativas satisfeitas pelos outros veículos não sensacionalistas. Segundo ele, embora não ignore os índices de analfabetismo, o baixo nível cultural e de leitura no país, a grande imprensa brasileira “realiza-se pelos caminhos do elitismo cultural”, praticando um jornalismo que despreza a tradição oral do povo. “Sem dúvida, o jornal sensacionalista desenvolveu um mecanismo particular e especial para captar um tipo de ansiedade existente no interior de seu leitor.” (PROENÇA, 1992, p. 65)