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A satilidade temática em Moreira Campos

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A VERSATILIDADE TEMÁTICA EM

MOREIRA CAMPOS

Antônia Lucineide de Pessoa Albuquerque

01 - INTRODUÇÃO

Estudar a obra de Moreira Campos constitui, para mim, 11111 prazer intelectual imenso.

A emoção que sinto é muito forte. A palavra se esvai um pensam entos dilacerados pela força inevitável do carinho do aluna para com o mestre, e a dificuldade de expressão ornorge confusa sobre emaranhadas idéias que procuro, neste rrromento, coordenar.

O contista e o homem se integram num só corpo e alma, lmn smitindo-nos ensinamentos através do poder da palavra. nuus contos são escolas de vida, experiências sempre vivas e vividas no dia-a-dia de cada ser.

Ler Moreira Campos é aprender a caminhar, encontrar-se lltl beleza das verdades que atingem a essência do homem.

Cearense de nascimento e de coração, Moreira Campos dolxa transparecer, nos seus contos, retalhos de dramas,

an-Jt'rslias, vivências e a gama infinita de atos e fatos que ani-rn nm o homem e a sociedade nordestina em que vivemos.

Fez seus estudos primários no interior .e ingressou no 111ligo Liceu do Ceará em 1930. Após uma interrupção de ois anos, concluiu, finalmente, os estudos secundários,

in-ssando na Faculdade de Direito em 1946. Posteriormente, nciou-se em Letras Neolatinas em 1967.

(2)

de Letras Vernáculas e foi membro do Conselho Departamen-tal da mesma Faculdade. Como Decano do Centro de Huma-nidades (1970-1971), implantou e coordenou o Primeiro Ciclo Universitári o. Foi Pró-Reitor de Graduação (1974-1978), e, por força das circunstâncias, exerceu, em caráter eventual, o car-go de Reitor, em várias oportunidades.

Em 1972, esteve na Alemanha, onde pronunciou confe-rências sobre Machado de Assis e Guimarães Rosa, na Uni-v.ersidade de Colônia.

Pertence ao Grupo CLÃ, do qual é um dos mais ilustres ·rundadores e ocupa a cadeira n9 32 da Academia Cearense de Letras .e a cadeira n9 17 da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

Atualmente, afastado do ambiente das salas de aula, co-ordena grupos literários e Encontros Culturais no Curso de Letras da UFC.

Lançará, possivelmente este ano, o seu mais recente li-vro de contos A grande mosca no copo de leite a ser editado pela editora Nova Fronteira.

Moreira Campos figura em várias antologias nacionais e .estrangeiras. Seus contos, além de publicados em várias

re-vistas e jornais do país, foram traduzidos em inglês, francês, italiano, alemão e na língua hebraica.

Tem, até hoje, publicado as seguintes obras: Vidas

Mar-ginais (1947), Portas Fechadas (1957), As Vozes do Morto

(1963), O Puxador de Terço (1969), Contos Escolhidos (1971 ),

Momentos (1976), Contos (1978), Os Doze Parafusos (1978).

02 - PRIMEIRA PARTE

2.1 - MOREIRA CAMPOS: Linguagem e estilo Uma das peculiaridades dominant.es de Moreira Campos consiste na sua maneira sutil de instilar nos seus tipos e per-sonagens centrais a desilusão, a angústia, a dor,

.o

sofrimento, o amor, a paixão e a crueldade.

O absurdo da vida acha-se ironicamente enfocado nas injustiças sociais em que se encontram tantos seres humanos marginalizados ..

Expressivos momentos da realidade, o contista deixa que transpareçam pelas sensações íntimas magistralmente descri-152 Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan./jun. 1985

lns o estruturados numa linguagem curta, direta, concisa e di-n(\mica.

As vezes, a linguagem por ele empregada apresenta-se r opleta de adjetivos comedidos, construções nominais e si-nostesias. Os contos, narrados no imperfeito, expressam idéia do continuidade e du rativi dade. Os enfoques descritivos ser-vorn de pano-de-fundo para a composição.

Observa-se já nos seus primeiros livros que os contos ,,.o narrados em H pessoa e os dois últimos, O Puxador de

1 orço e Os Doze Parafusos, caracterizam-se pela ausência de

norn os das personagens, possivelmente tendo em vista "atin-tlr o universal humano". (1)

Observa-se, por vezes, "o excesso de minúcias" (2) no doncrover e analisar dos fatos assim como no enfocar as

per-onngens que constituem a trama dos seus contos.

Percebe-se, ademais, a ânsia do autor na busca da per-lol,;rto do caráter e da personalidade de seus tipos, que ele (Hl descreve numa linguag.em singela, desprovida de floreios

n

セLッ イョ@ que o narrador pareça interferir.

1\ abordagem objetiva e detalhada de qualquer assunto

1111 do um tipo qualquer suscita no leitor a verossimilhança

c.tllll mais vigor e maior rapidez.

O ambiente rural ou urbano rev.ela-nos que o autor tem,

jエョ￧ョZ セ@ à experiência de vida, um conhecimento apurado do

1111 110.

I nmbém, no contista Moreira Campos, é constante a

pre-BB G セヲャ@ da dramaticidade, do místico e do erótico.

Nos livros Vidas Marginais e Portas Fechadas, encon-ltfttll

·m

os contos mais descritivos, minuciosos e abrangen-100 diiD diversas formas da vida. Eles caracterizam

a

Qセ@ fase

ilu

produção literária do autor. O conto sintético surge com ;, llvt() As Vozes do Morto que j untamente com os livros

con-ldnt.t<los de Rセ@ fase se concretiza num .estllo mais apurado, itvüh tlnclo, naturalmente, pela estrutura formal do conto mo-d Otttn, q11e fotografa o homem em seu cotidiano, nos momen-lüõ d o so lidão, não conseguindo, porém, sobrepujar os blo-ljii11IO! > Internos.

< > 11niv·erso nordestino assemelha-se muito às vid as resse-quldn·• el o Graciliano Ramos e, embora aplicando a arte

sin-I i Mt ti'J li In O, José Lemos . O discurso literário de More!ra C2mpos.

lt nlnlntn, Edições UFC, 1980.

') llildtllll.

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de Letras Vernáculas e foi membro do Conselho Departamen-tal da mesma Faculdade. Como Decano do Centro de Huma-nidades (1970-1971), implantou e coordenou o Primeiro Ciclo Universitário. Foi Pró-Reitor de Graduação (1974-1978), e, por força das circunstâncias, exerceu, em caráter eventual, o car-go de Reitor, em várias oportunidades.

Em 1972, esteve na Alemanha, onde pronunciou confe-rências sobre Machado de Assis e Guimarães Rosa, na Uni-v.ersidade de Colônia.

Pertence ao Grupo CLÃ, do qual é um dos mais ilustres ·fundadores e ocupa a cadeira n9 32 da Academia Cearense de Letras .e a cadeira n9 17 da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

Atualmente, afastado do ambiente das salas de aula, co-ordena grupos literários e Encontros Culturais no Curso de Letras da UFC.

Lançará, possivelmente este ano, o seu mais recente li-vro de contos A grande mosca no copo de leite a ser editado pela editora Nova Fronteira.

Moreira Campos figura em vá ri as antologias nacionais e .estrangeiras. Seus contos, além de publicados em várias re-vistas e jornais do país, foram traduzidos em inglês, francês, italiano, alemão e na língua hebraica.

Tem, até hoje, publicado as seguintes obras: Vidas

Mar-ginais (1947), Portas Fechadas (1957), As Vozes do Morto

(1963), O Puxador de Terço (1969), Contos Escolhidos (1971 ),

Momentos (1976), Contos (1978), Os Doze Parafusos (1978).

02 - PRIMEIRA PARTE

2 .1 - MOREIRA CAMPOS: Linguagem e estilo Uma das peculiaridades dominant.es de Moreira Campos consiste na sua maneira sutil de instilar nos seus tipos e per-sonagens centrais a desilusão, a angústia, a dor, o sofrimento, o amor, a paixão e a crueldade.

O absurdo da vida acha-se ironicamente enfocado nas injustiças sociais em que se encontram tantos seres humanos marginalizados.

Expressivos momentos da realidade, o contista deixa que transpareçam pelas sensações íntimas magistralmente descri-152 Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan./jun. 1985

lrm o estruturados numa linguagem curta, direta, concisa e di-llt\rnica.

As vezes, a linguagem por ele empregada apresenta-se t uplcta de adjetivos comedidos, construções nominais e si-llostesias. Os contos, narrados no imperfeito, expressam idéia do continuidade e duratividade. Os enfoques descritivos ser-vurn de pano-de-fundo para a composição.

Observa-se já nos seus primeiros livros que os contos narrados em H pessoa e os dois últimos, O Puxador de

/orço e Os Doze Parafusos, caracterizam-se pela ausência de

llornes das personagens, possivelmente tendo em vista "atin-qlr o universal humano''. (1)

Observa-se, por vezes, "o excesso de minúcias" (2) no cluscrever e analisar d os fatos assim como no enfocar as per-''onagens que constituem a trama dos seus contos.

Percebe-se, ademais, a ânsia do autor na busca da per-lnlção do caráter e da personalidade de seus tipos, que ele <Hl descreve numa linguag.em singela, desprovida de floreios

11 nem que o narrador pareça interferir .

A abordagem objetiva e detalhada de qualquer assunto nu de um tipo qualquer suscita no leitor a verossimilhança com mais vigor e maior rapidez.

O ambiente rural ou urbano revela-nos que o autor tem, rrnças à experiência de vida, um conhecimento apurado do lllOiO.

Também, no contista Moreira Campos, é constante a pre-•·nnça da dramaticidade, do místico e do erótico.

Nos livros Vidas Marginais e Portas Fechadas, encon-lttun-se os contos mais descritivos, minuciosos e

abrangen-l fJh das diversas formas da vida. Eles caracterizam a 1 セ@ fase d11 produção literária do autor. O conto sintético surge com o livro As Vozes do Morto que juntamente com os livros

con-lclorodos de Rセ@ fase se concretiza num .estilo mais apurado, nvn llllndo, naturalmente, pela estrutura formal do conto mo-dllmo, que fotografa o homem em seu cotidiano, nos momen-lo" do solidão, não conseguindo, porém, sobrepujar os blo-アエセッゥッウ@ internos.

O univ.erso nordestino assemelha-se muito às vidas resse-アエセャ、ョ ウ@ de Gracili ano Ramos e, embora aplicando a arte

sin-1) MONTEIRO, José Lemos. O discurso literário de Moreira cZセューッウN@

l occot oza, Edições UFC, 1980. ') IIJidom.

(4)

tética, o conto, percebe-se nele a emotividade latente e de-nunciadora da miséria física e moral de certas vidas repre-sentativas de vastos segmentos da sociedade.

A multiplicidade de temas que ele explora envolve o lei-tor em momentos de amor e ód io, de "suspense" e medo, assim como desvenda a obsessão do sexo med iante o poder e mistério das palavras, que mostram as mudanças do mundo atual e "possibilitam uma reflexão séria sobre a própria es-sência do homem", (3) que vive num " mundo cheio de su-gestões, de buscas e de coisas inexplicáveis". (4)

O uso da H Pessoa não só intensifica o clima de angús-tia como aproxima leitor e personag.em, envoltos no emara-nhado e no desenrolar de uma narrativa viva, fluente e ali-ciante.

O tempo parece transcorrer com durabilidade intrínseca de tempo e espaço. O tempo ve rdadeiramente humano e psi-cológico se adequa à maravilha, ao espaço físico e social.

2 .2 - CONSTANTES TEMÁTICAS

2 . 2 . 1 - A infidelidade

2 . 2 . 1 . 1 - "O Banho de Bica" e outros A infidelidade conjugal, presente no conto "O Banho de Bica", do livro Os Doze Parafusos (1978), gera uma mensa-gem que mostra os filhos, a princípio, vítimas do mau イ・ャ。」ゥッセ@

namento entre os pais, e, posteriormente, o elo qu.e devolve ao lar a paz e a reconciliação.

A criança desempenhou, no caso, um pap.el importan-tíssimo porque serviu de elo para a reconciliação entre ma-rido e mulher. Um ser inocente é vítima indefesa de um desa-justamento social.

Pela educação que a mulher recebera de seus pais, .era inadmissível uma situação como esta. Considerava toda aque-la atitude do marido um desrespeito inominável. Faque-lagrados

pela esposa, diz o contista que os cúmplices se apresenta-vam: "ele em cuecas e ela com o próprio vestido do corpo, os fortes pêlos espalhados e grudados ao pano molhado".

3) Ibidem 4) Ibidem

154

Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan./jun. 1985

A mulher ficou possessa. No momento, todo amor que ontln polo marido se transformou em desprezo e revolta: " Cnn alha!" A mulher não quis explicação com a empre-OfHIII . Demitiu-a logo em seguida. Era difícil acreditar que seu rn culdo so tornasse tão insensív.el, tão irracional e, apenas por 11111 momento de fraqueza, faltasse com respeito e

considera-o pelconsidera-os anconsidera-os em que viveram juntconsidera-os, dedicadconsidera-os um aconsidera-o considera- ou-tro, numa amizade sólida.

/\pós três meses, o marido foi procurar a mulher para

tunn

reconciliação. Ela não aceitava as suas justificativas e, " trancada no quarto, como não o recebeu nas v.ezes que se ogulram, ele insistente, queria apenas uma palavra". A mãe dolo procurava ajeitar aquela situação, mostrando que tinha nld o apenas um momento de fraqueza e que, apesar de tudo, olo era uma boa pessoa: "- Mas é menino bom, minha

fi--1110. Uma fraqueza apenas".

A mãe e sogra tinham atitudes conciliadoras porque de-fendiam os prec-eitos de uma sociedade tradicional: "- Ho-mem é assim mesmo, minha filha".

A separação de poucos meses fora suficiente para des-cobrir que seu marido era um cínico, cheio de cavilações .

O pai era revoltado com o filho, devido à irresponsabili-dade dele. No escritório atarefado, cheio de s.erviços e ele, o filho, nos bares, bebendo, andando cambaleando pelas ruas, sem nenhuma responsabilidade, faltando à fábrica e às ou-tras obrigações.

A criança era uma esperança para a mãe. Cuidava dela com carinho, preocupava-se muito com a saúde dela, encon-trando "forças para tel.efonar ao médico e receber instruções sobre o coqueluche (a ida para a casa dos pais dela na serra era uma tentativa de cura), e esperou o pai como haviam combinado".

O marido, com remorsos, procurava desculpas, justifica-tivas, criando situações que amenizassem um erro do passa-do; o medo de perdê-la para sempre fez com que .ele

recor-resse às mais estranhas situações.

(5)

tética, o conto, percebe-se nele a emotividade latente e de-nunciadora da miséria física e moral de certas vidas repr.e-sentativas de vastos segmentos da sociedade.

A multiplicidade de temas qu.e ele explora envolve o lei-tor em momentos de amor e ódio, de "suspense" e medo, assim como desvenda a obsessão do sexo mediante o poder e mistério das palavras, que mostram as mudanças do mundo atual e "possibilitam uma reflexão séria sobre a própria es-sência do homem", (3) que vive num "mundo cheio de su-gestões, de buscas e de coisas inexplicáveis". (4)

O uso da H Pessoa não só intensifica o clima de angús-tia como aproxima leitor e personag.em, envoltos no emara-nhado e no desenrolar de uma narrativa viva, fluente e ali-ciante.

O tempo parece transcorrer com durabilidade intrínseca de tempo e espaço. O tempo verdadeiramente humano e psi-cológico se adequa à maravilha, ao espaço físico e social.

2 . 2 - CONSTANTES TEMÁTICAS

2. 2. 1 - A infidelidade

2 . 2. 1 . 1 - "O Banho de Bica" e outros A infidelidade conjugal, presente no conto "O Banho de Bica", do livro Os Doze Parafusos (1978), gera uma mensa-gem que mostra os filhos, a princípio, vítimas do mau relacio-namento entre os pais, e, posteriormente, o elo qu.e devolve ao lar a paz e a reconciliação.

A criança desempenhou, no caso, um papel importan-tíssimo porque serviu de elo para a reconciliação entre ma-rido e mulher. Um ser inocente é vítima indefesa de um desa-justamento social.

Pela educação que a mulher recebera de seus pais, .era inadmissível uma situação como esta. Considerava toda aque-la atitude do marido um desrespeito inominável. Faque-lagrados pela esposa, diz o contista que os cúmplices se apresenta-vam: "ele em cuecas e ela com o próprio vestido do corpo, os fortes pêlos espalhados e grudados ao pano molhado".

3) Ibidem 4·) Ibidem

154 Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan.jjun. 1985

A mulher ficou possessa. No momento, todo amor que uontia pelo marido se transformou em desprezo e revolta: "- Canalha!" A mulher não quis explicação com a empre-onda. Demitiu-a logo em seguida. Era difícil acreditar que seu rn orldo se tornasse tão insensív.el, tão irracional e, apenas por urn momento de fraqueza, faltasse com respeito e considera-çflo pelos anos em qu.e viveram juntos, dedicados um ao

ou-tro, numa amizad13 sólida.

Após três meses, o marido foi procurar a mulher para uma reconciliação. Ela não aceitava as suas justificativas e, " trancada no quarto, como não o recebeu nas v.ezes que se Aog uiram, ele insistente, queria apenas uma palavra". A mãe doia procurava ajeitar aquela situação, mostrando que tinha llld o apenas um momento de fraqueza e que, apesar de tudo, lo era uma boa pessoa: "- Mas é menino bom, minha fi--lha. Uma fraqueza apenas".

A mãe e sogra tinham atitudes conciliadoras porque de-re ndiam os pde-rec.eitos de uma sociedade tradicional: "- Ho-mem é assim mesmo, minha filha".

A separação de poucos meses fora suficiente para des-obrir que seu marido era um cínico, cheio de cavilações.

O pai era revoltado com o filho, devido à irresponsabili-dade dele. No escritório atarefado, cheio de s.erviços e ele, o

filho, nos bares, bebendo, andando cambaleando pelas ruas, ;om nenhuma responsabilidade, faltando à fábrica e às ou-1 ras obrigações.

A criança era uma esperança para a mãe. Cuidava dela om carinho, preocupava-se muito com a saúde dela, encon-trando "forças para tel.efonar ao médico e receber instruções sobre o coqueluche (a ida para a casa dos pais dela na serra ra uma tentativa de cura), e esperou o pai como haviam ombinado".

O marido, com remorsos, procurava desculpas, justifica-tivas, criando situações que amenizassem um erro do passa-do; o medo de perdê-la para sempre fez com que .ele

recor-resse às mais estranhas situações.

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solvem fazer amor e, à noite, ela se aborreceu "quando o

na-morado chegou do int.erior".

A temática da infidelidade está patente no conto

"A

flor e a madrugada" do livro Portas Fechadas (1957), quando o autor relata que um jovem atraente, cheio de ímpetos sensu-ais, chamado Luciano, trabalhava na portaria do hotel para aj udar o seu pai . Certo dia, uma mulher com o marido hos-pedaram-se no hotel, porém Luciano e ela fizeram amor pela

madrugada . Uma cena em que a temática da infidelidade conjugal é focalizada com simplicidade, clar-eza e concisão.

O conto "O amigo da casa", do livro O Puxador de Terço (1969), é mais um exemplo de infidelidade que culmina com um casamento que se desfaz. O narrador enfatiza que "ela e seu Feldmann dormem em quartos separados", denunci-ando porém que uma amizade muito ínt,ma s.e interpõe entre ela e o alemão, acontecendo, ademais que ela e o alemão, depois do jantar, passeiam "pelo caminho de pedra do jar-dim: as duas cabeças - a loura e a preta, de cabelos apa-rados - vão e vêm, a dêle já com as entradas da calva".

Idêntica denúncia faz o contista quando fala do "sítio na serra, de onde ela, desce aos domingos em companhia do outro, que é o amigo da casa".

2 . 2 .2 - O amor

2. 2. 2 .1 - ';O Grande Cipreste" e outros "O grande cipreste", do livro Os Doze Parafusos - 1978, , mostra uma ligação muito estreita entre a vida e a morte.

O marido com alguns momentos de vida, porque a morte já lhe estava destinada; a mulher sentia-se morta como de-corrência da r-enúncia de vida que adotara. Quando ela quis enterrar-se com o marido, simbolizava abnegação, desinteres-se por uma vida existencial; o marido, para ela, era sua vida

e sem ele não saberia sobreviver.

Na vida estamos semp re morrendo um pouco. Esta morte se encontra nas decepções diárias, nas renúncias, na luta por uma cond ição de vida melhor.

A mulher, rompendo barreiras para chegar ao casarão onde se encontrava o marido, demonstra a força do amor pois o essencial era ficar ao lado del.e e a lepra não a

atemori-156

Rev._ de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan./jun. 1985

zava,

ap-esar de o hospital de leprosos ser um lugar que a

to-dos causa aversão.

Quando o marido e a mulher morreram, .eles se fecharam para o mundo, assim como o casarão, simbolizado por um Penedo, era uma grande rocha isolada.

Cipreste é o nome comum a diversas árvores pináceas, uma das quais s.e planta em cemitérios.

O título "O Grande Cipreste" simboliza o luto, o respeito pela morte.

A mesma temática encontramos no conto "O Beijo", do mesmo livro.

O amor puro, inocente, ingênuo desperta instintivamente num garoto no momento de curiosidade. 'É isto o que nos mostra o conto "Infância", do livro Vozes do Morto (1963).

A inexistência da maldade de par com um ligeiro senti-mento de desejo confunde seus pensasenti-mentos "e foi então, no Isolamento do parado, que as tais idéias outras foram che-gando em tumulto, tomando conta e fazendo sujeira na minha Inocência, que se espiçava pela adv.ertência idiota de Paula". A inocência do narrador-personagem, enfatizada neste pensamento: "Fiquei, e, de tão puro, até fiquei de costas, olhando para um céu que não via, acredito que limpo de nuvens, no corpo e nos sentidos", revela qu.e a emoção ab-sorveu totalmente aquele ser pequenino.

Há ansi.edade pela descoberta do sexo neste diálogo: "-Paula .. . tu me mostra?" " .. Me mostra o que?" "- ... O teu. . . bibiu."

Finalmente a inquietude do pai diante daquela realidade, qual, no entanto, encara a situação com simplicidade e empreende o filho nesta fase de ctransição.

2 . 2.3 . - A solidão

2. 2. 3 .1 - "O Peregrino" e outros

O conto "O Peregrino", do livro Os Doze Parafusos (1978), põe em destaque o sofrimento e a solidão de pessoas de uma omunidade, morando afastadas uma das outras, em case-lHos que ficam "em distâncias de légLtas". Estes "seres em farrapos", vivem mergulhados na pobreza e na iniqüidade

so-la!, estigmatizados por uma situação opressora e inevitável quo os inferioriza e os humilha como pessoas humanas que rn orecem respeito.

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solvem fazer amor e, à noite, ela se aborreceu "quando o na-morado chegou do int.erior".

A temática da infidelidade está patente no conto "fl. flor e a madrugada" do livro Portas Fechadas (1957), quando o autor relata que um jovem atraente, cheio de ímpetos sensu-ais, chamado Luciano, trabalhava na portaria do hotel para ajudar o seu pai . Certo dia, uma mulher com o marido hos-pedaram-se no hotel, porém Luciano e ela fizeram amor pela madrugada. Uma cena em que a temática da infidelidade conjugal é focalizada com simplicidade, clar.eza e concisão.

O conto "O amigo da casa", do livro O Puxador de Terço (1969), é mais um exemplo de infidelidade que culmina com um casamento que se desfaz. O narrador .enfatiza que "ela e seu Feldmann dormem em quartos separados", denunci-ando porém que uma amizade muito ínHma s.e interpõe entre ela e o alemão, acontecendo, ademais que ela e o alemão, depois do jantar, passeiam "pelo caminho de pedra do jar-dim: as duas cabeças - a loura e a preta, de cabelos apa-rados - vão e vêm, a dêle já com as entradas da calva". Idêntica denCmcia faz o contista quando fala do "sítio na serra, de onde ela, desce aos domingos em companhia do outro, que é o amigo da casa".

2.2 . 2 - O amor

2. 2. 2.1 - "O Grande Cipreste" e outros "O grande cipreste", do livro Os Doze Parafusos - 1978, -, mostra uma ligação muito estreita entre a vida e a morte.

O marido com alguns momentos de vida, porque a morte já lhe estava destinada; a mulher sentia-se morta como de-corrência da renúncia de vida que adotara. Quando ela quis enterrar-se com · o marido, simbolizava abnegação, desinteres-se por uma vida existencial; o marido, para ela, era sua vida e s.em ele não saberia sobreviver.

Na vida estamos semp re morrendo um pouco. Esta morte se encontra nas decepções diárias, nas renúncias, na luta por uma cond ição de vida melhor.

A mulher, rompendo barreiras para chegar ao casarão onde se encontrava o marido, demonstra a força do amor pois o essencial era ficar ao lado dele e a lepra não a atemori-156 Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan./jun. 1985

va, ap-esar de o hospital de leprosos ser um lugar que a to-dos causa aversão.

Quando o marido e a mulher morreram, .eles se fecharam pora o mundo, assim como o casarão, simbolizado por um Penedo, era uma grande rocha isolada.

Cipreste é o nome comum a diversas árvores pináceas, Ltma das quais s.e planta em cemitérios.

O título "O Grande Cipreste" simboliza o luto, o respeito pe la morte.

A mesma temática encontramos no conto "O Beijo", do mesmo livro.

O amor puro, inocente, ingênuo desperta instintivamente num garoto no momento de curiosidade. 'É isto o que nos mostra o conto "Infância", do livro Vozes do Morto (1963}.

A inexistência da maldade de par com um ligeiro senti-mento de desejo confunde seus pensasenti-mentos "e foi então, no Isolamento do parado, que as tais idéias outras foram che-gando em tumulto, tomando conta e fazendo sujeira na minha Inocência, que se espiçava pela adv.ertência idiota de Paula". A inocência do narrador-personagem, enfatizada neste pensamento: "Fiquei, e, de tão puro, até fiquei de costas, olhando para um céu que não via, acredito que limpo de nuvens, no corpo e nos sentidos", revela que a emoção ab-sorveu totalmente aquele ser pequenino.

Há ansi.edade pela descoberta do sexo neste diálogo: "- Paula ... tu me mostra?" " .. Me mostra o que?" "- ... O teu ... bibiu."

Finalmente a inquietude do pai diante daquela realidade, o qual, no entanto, encara a situação com simplicidade e com preende o filho nesta fase de transição.

2 . 2 .3 . - A solidão

2. 2. 3.1 - "O Peregrino" e outros

O conto "O Peregrino", do livro Os Doze Parafusos (1978), põe em destaque o sofrimento e a solidão de pessoas de uma comunidade, morando afastadas uma das outras, em

case-bres que ficam "em distâncias de léguas". Estes "seres em farrapos", vivem mergulhados na pobreza e na iniqüidade so-cial, estigmatizados por uma situação opressora e inevitável que os inferioriza e os humilha como pessoas humanas que merecem respeito.

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"O verão maior", enrijecendo músculos "por baixo da pele engelhada" engrandece a luta que .eles enfrentam pela sobrevivência "no mundo de cinzas" e sem esperanças.

O delírio maior em que se encontra um personagem se esvai numa palavra forte. O pedido de água representa vida, a vida que não veio, apenas "muitas lições de renúncia" e "a solidão da noite e dos seres"; resta a "viúva-menina, sem lágrimas" porque o sofrimento as tinha consumido.

A beleza de palavras objetivas, reais, verdadeiras reflete situações duras, porém literariamente belas.

Detectamos o desejo sexual e a concretização do ato envolvidos por momentos de carências e necessidade afetiva, neste magnífico parágrafo: "Palavras poucas. Mais os pres-sentimentos e compreensão das duas coisas do mundo. Tanto que ela não se assustou quando ele um dia pousou a mão àspera, de muitos calos, um casco, sobre ' a sua coxa magra. Antes deu-se, sem espantos. Um objeto. Sabia que os olhos del-e já lhe varavam c vestido ralo à luz da trempe ou do dia. Entregou-se à sombra do oitizeiro, forrando-se com o próprio pano em que envolvia o prato" .

Outrossim, tendo havido um incesto, não caberia a nin-guém recriminações, porque "cessaram ali as chamas do pe-cado, das condenações eternas" e "a palavra de Deus era pequena ou grande demais para compreender a necessidade e a solidão".

Muitos outros contos, como "Frustração", "A Ceia", do citado livro, sugerem a mesma temática.

2.2 . 4 - A tentação

2 . 2.4 . 1 - "O Quadro" e outros-·

O conto "O Quadro", do livro Portas Fechadas (1957), re-trata a história do vigia de um grande armazém, que, todos os dias, na grande porta, "monologava, soltava cusparadas de fumo mascado", "repetia bocejos, tornava a examinar a por-ta dos fundos" e "com o porrete dava cacepor-tadas na cabeça

dos fardos de algodão".

No decorrer daqueles dias, interessou-se . por uma meni-na de treze anos, de " feminilidade adolescente", que se insi-nuava por aqueles ambientes a fim de adquirir dinheiro, pe-dindo esmola. Aquela figurinha despertou-lhe o desejo se-' 158 Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan./jun. 1985

uni, corHijuvado, além do mais, pela idéia do armazém per· dld11, dunotnndo uma atmosfera de sensualidade no seu mun du llll 11rlor onde " o saco de lã avolumava-se, enchia os sen·

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(9)

"O verão maior", enrijecendo músculos "por baixo da pele engelhada" engrandece a luta que .eles enfrentam pela sobrevivência "no mundo de cinzas'' e sem esperanças.

O delírio maior em que se encontra um personagem se esvai numa palavra forte. O pedido de água representa vida, a vida que não veio, apenas "muitas lições de renúncia" e "a solidão da noite e dos seres"; resta a "viúva-menina, sem lágrimas" porque o sofrimento as tinha consumido.

A beleza de palavras objetivas, reais, v.erdadeiras reflete situações duras, porém literariamente belas.

Detectamos c desejo sexual e a concretização do ato envolvidos por momentos de carências e necessidade afetiva, neste magnífico parágrafo: "Palavras poucas. Mais os pres-sentimentos e compreensão das duas coisas do mundo. Tanto que ela não se assustou quando ele um dia pousou a mão àspera, de muitos calos, um casco, sobre ' a sua coxa magra. Antes deu-se, sem espantos . Um objeto. Sabia que os olhos del.e já lhe varavam o vestido ralo à luz da trempe ou do dia. Entregou-se à sombra do oitizeiro, forrando-se com o próprio pano em que envolvia o prato".

Outrossim, tendo havido um incesto, não caberia a nin-guém recriminações, porque "cessaram ali as chamas do pe-cado, das condenações eternas" e "a palavra de Deus era pequena ou grande demais para compreender a necessidade e a solidão".

Muitos outros contos, como "Frustração", "A Ceia", do citado livro, sugerem a mesma temática.

2.2.4 - A t:mtação

2. 2.4 . 1 - "O Quadro" e

outros--O conto "outros--O Quadro", do livro Portas Fechadas (1957), re-trata a história do vigia de um grande armazém, que, todos os dias, na grande porta, "monologava, soltava cusparadas de fumo mascado", "repetia bocejos, tornava a examinar a por-ta dos fundos" e "com o porrete dava cacepor-tadas na cabeça

dos fardos de algodão".

No decorrer daqueles dias, interessou-se . por uma meni-na de treze anos, de "feminilidade adolescente", que se insi-nuava por aqueles ambientes a fim de adquirir dinheiro, pe-dindo esmola. Aquela figurinha despertou-lhe o desejo se-' 158 Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan.jjun. 1985

11 ·11,

1 on<lj uvado, além do mais, pela idéia do armazém

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Os Doze Parafusos (1978).

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O medo

2 . 2 . 5 . 1 - "O grande Medo" e outros

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1969). Com efeito, na afirmação da mulher: "mas IO!i lí! lllt (t ntodo da morte não", "tenho medo nenhum de

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(10)

criados? não cumpri minha tarefa, ora?!": "Nem ouço nem enxergo mais, nem posso andar direito. Que é que eu

espe-ro?"; "criei meus filhos. As filhas estão todas casadas. óti-mos genros".

A pobre mulher, com estes questionamentos reflexivos sobre uma tarefa aparentemente cumprida e realizada, quer apenas enganar-se, pois o seu sorriso é triste. Além disso, como uma constante ela "volta a chorar, enxuga os olhos com o lenço, os lábios tremem".

Outra faceta do mesmo tema consiste no seguinte: o medo da traição leva, muitas vezes, as pessoas a cometerem gran-des tragédias como a que o autor narra no conto "A tragé-dia maior", do livro Os Doze Parafusos (1978).

Um aposentado, servente de Banco, pede ajuda ao ge-rente para transferir sua filha, casada, com dois filhos peque-nos, da Faculdade de Direito da Paraíba para a de Fortaleza. O marido com ciúmes de colegas da faculdade, dera-lhe vá-rios tiros, mas, num momento de desvario, de desespero, co-meteu o suicídio, pensando que tiv.esse matado a mulher.

Os contos "A Sepultura" e "O Pulso", do livro em refe-rência, sugerem o mesmo tema.

2. 2. 6 - O homossexualismo

2 . 2 . 8.1 -"Irmã Cibele e a Menina" e outros Outro tema muito discutido atualmente é o homossexua-lismo. Moreira Campos, no conto "Irmã Cibele e a Menina", do livro Os Doze Parafusos (1978), aborda o tema com certa crueza e muita força sugestiva nas ações e convivência das personagens.

Quando a menina chegou ao colégio, Irmã Cibele empol-gou-se com os cabelos dela. Então, "alisa-os com as próprias mãos, enquanto a menina se aplica no bastidor". Além disso, "teve a idéia do laço de fita, para compor o rabo de cavalo". Em certa ocasião, percebe-se, de imediato, a perturba-ção de Irmã Cibele, pois "apressou-se, sem muita necessi-dade, em atender a velha milionária". E, apesar da vigilância, ela "encontra meio de pegar a menina pela mão e correr com ela até o jardim".

Ao entardecer, o inevitável acontece. O desejo de ver os seios da menina, acariciá-los e a hora oportuna, sem vigia,

100

Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan./jun. 1985

lhllltmtun-lho o encontro, alcançando a menina no cor-IIHittl " Ir nl•t Cibele também tremia e ofegava, as narinas

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I) conflito interior da menina, o seu receio denota-se na I li.\ IIJIIoxfto pois seus "pensamentos são contraditórios" .

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< >hwrva-se a gradação de emoções fortes por parte de Muti'IIJIIhor quando fez elogios ao moço: primeiramente, diz c Htlttt, "olo então corou muito"; depois, ainda acrescenta: "c 1 "'''" 1111 dto quente", ficou "vermelho", insistindo "no se L lttnt,.n 1noc;o e forte o calor da palma da mão".

0 [1, til GUNDA PARTE

ENTREVISTA

I' , Como surgiu o interesse pela literatura e por que esco IIH lll o conto como sua principal forma de expressão?

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"E ainda mais triste se tornando o instante, na esguia torre da matriz distante,

o sino plange o funeral do dia".

(11)

criados? não cumpri minha tarefa, ora?!" : "Nem ouço nem enxergo mais, nem posso andar direito. Que é que eu

espe-ro?" ; "criei meus filhos. As filhas estão todas casadas. óti-mos genros".

A pobre mulher, com estes questionamentos reflexivos sobre uma tarefa aparentemente cumprida e realizada, quer apenas enganar-se, pois o seu sorriso é triste. Além disso, como uma constante ela "volta a chorar, enxuga os olhos com o lenço, os lábios tremem".

Outra faceta do mesmo tema consiste no seguihte: o medo da traição leva, muitas vezes, as pessoas a cometerem gran-des tragédias como a que o autor narra no conto "A tragé-dia maior", do livro Os Doze Parafusos (1978).

Um aposentado, servente de Banco, pede ajuda ao ge-rente para transferir sua filha, casada, com dois filhos peque-nos, da Faculdade de Direito da Paraíba para a de Fortaleza. O marido com ciúmes de colegas da faculdade, dera-lhe vá-rios tiros, mas, num momento de desvario, de desespero, co-meteu o suicídio, pensando que tiv.esse matado a mulher.

Os contos "A Sepultura" e "O Pulso", do livro em refe-rência, sugerem o mesmo tema.

2 . 2.6-

O homossexualismo

2 .2.6 .1

-"Irmã Cibele e a Menina" e outros

Outro tema muito discutido atualmente é o homossexua-lismo. Moreira Campos, no conto "Irmã Cibele e a Menina", do livro Os Doze Parafusos (1978), aborda o tema com certa crueza e muita força sugestiva nas ações e convivência das

personagens.

Quando a menina chegou ao colégio, Irmã Cibele empol-gou-se com os cabelos dela. Então, "alisa-os com as próprias mãos, enquanto a menina se aplica no bastidor". Além disso, "teve a idéia do laço de fita, para compor o rabo de cavalo" . Em certa ocasião, percebe-se, de imediato, a perturba-ção de Irmã Cibele, pois "apressou-se, sem muita necessi-dade, em atender a velha milionária". E, apesar da vigilância, ela "encontra meio de pegar a menina pela mão e correr com ela até o jardim".

Ao entardecer, o inevitável acontece. O desejo de ver os seios da menina, acariciá-los e a hora oportuna, sem vigia,

100

Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan,Jjun. 1985

IJOilOihlll tnram-lhe o encontro, alcançando a menina no cor-lü(iltl "l1mã Cibele também tremia e ofegava, as narinas ace-10 1.11tln ver-lhe os seios, e ela mesma os procurava, as ヲゥエャォエ セセ@ ltlltlto ágeis. Perdia a cabeça. Beijou-os, e agora os

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u セ ャ N@ SEGUNDA PARTE

ENTREVISTA

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" E ainda mais triste se tornando o instante, na esguia torre da matriz distante,

o sino plange o funeral do dia".

(12)

Não sei sinceramente como .encontrei então tantas pala-vras bonitas e raras, como planger, esguia, funeral, etc.

Mas a estória (assim mesmo, com e) sempre foi a minha sedução. Achava os romancistas seres simples-mente admiráveis.

Quanto à preferência pelo conto·, sou, por natureza, dinâmico, direto, sintético. E aí já estão alguns valores do gênero, que preferi a todos. Tanto assim que não te-nho nenhum romance, novela ou peça de teatro. Exceção de um livro de poesias, até hoje só tenho escrito con-tos, mais de cem, enfeixados em seis livros.

P. Os seus contos nascem a partir de uma realidade inte-rior ou realidade exteinte-rior? Recebe influências de outros escritores ou pura fantasia?

R. A partir de uma realidade exterior. Em todos eles há uma "pitada" de real. Sobre essa verdade procuro re-criar, fazer obra de arte, na medida das minhas possi-bilidades. Os contos virão do que vi e vivi na infância e adolescência; às vezes, de um caso lido nos jornais (no comum, a página policial), ouvido de alguém. A minha lição é esta: "A literatura se nutre do real".

Influências? Sim. Eça de Queirós, Machado de Assis, com quem aprendi a descobrir a precariedade, a vulne-rabilidade do ser e o que ele tem de abissal. Graciliano Ra-mos, por uma ordem de identidade (meio, biótipo, iguais fontes de leitura) também me influenciou bastante. Ele é muito presente nos contos da minha primeira fase.

Todo autor sofre influências. O importante é procu-rar os seus próprios caminhos.

P . Existe alguma identificação com o autor e o narrador-personag.em no conto CORAÇÃO ALADO?

R . Sim. Entendo que todo autor realista transmite à sua obra muito da sua própria visão, cosmovisão, sentimen-tos e experiência. O narrador-personagem no meu conto CORAÇÃO ALADO (não confundir com uma medíocre

te-lenovela que tem o mesmo título. O meu conto data de 1949) seria eu, na timidez, no desejo contido, na lucidez diante da vida, no desencanto das impossibilidades. 162 Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan,fjun. 1985

8CH-PER10[

Nos primeiros livros, os contos eram narrados em H punsoa e nos últimos estão em 31il pessoa com omissão do nomes. Como aconteceu este processo de mudança?

n

I

o

conto na primeira pessoa (eul tem um andamento mais

ou menos autobiográfico, uma identificação. A terceira ponsoa (ele) aproxima-se mais da verdadeira arte literá-tlll. Cancela identidades, faz-se mais universal, que

é

lliTlO exigência básica da grande literatura: a universali-dade é a sua meta maior.

A omissão de nomes, quMto às personagens, decor-do mesmo fenômeno. Vale mais cuidar decor-do ser (cabí-vol em qualquer parte do mundo) do que retratar o indi-viduo, dar-lhe uma carteira de identidade, um número . Do resto, esse comportamento é uma exigência do pró-prio conto moderno, considerada a sua força de síntese o do impessoalidade.

P I Qual o segredo da versatilidade dos temas?

n

Nfio há segredo. Quanto mais versatilidade temática, me· lhor, parece-me. Quebra a monotonia. Insistir nos mes-mos temas talvez seja falta de imaginação ou de criati· vldade.

r· .

Qual a sua opinião sobre o homossexualismo?

n

Urna palavra terrív.el, constrangedora e abrangente, pois lnnto alcança o homem como a mulher (e como alcan· ; nl) , e abrangente ainda em termos de quantidade, nos <Iins que correm.

Um desvio lamentável, que, contudo, tem dado ai· Juns gênios, sem que a afirmação sirva de ゥョ」セョエゥカッ N@

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o

vorso é lapidar, na sua ambigüidade entre o deseje 11 oog undo, a intemporalidade, segundo a definição de :1flo Paulo: "O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espe·

1 rt, lu do suporta: é eterno".

(13)

Não sei sinceramente como .encontrei então tantas pala-vras bonitas e raras, como planger, esguia, funeral, etc.

Mas a estória (assim mesmo, com e) semp r.e foi a minha sedução. Achava os romancistas seres simples-mente admiráveis.

Quanto à preferência pelo conto, sou, por natureza, dinâmico, direto, sintético. E aí já estão alguns valores do gênero, que preferi a todos. Tanto assim que não te-nho nenhum romance, novela ou peça de teatro. Exceção de um livro de poesias, até hoje só tenho escrito con-tos, mais de cem, enfeixados em seis livros.

P. Os seus contos nascem a partir de uma realidade inte-rior ou realidade exteinte-rior? Recebe influências de outros escritores ou pura fantasia?

R. A partir de uma realidade exterior. Em todos eles há uma "pitada" de real. Sobre essa verdade procuro re-criar, fazer obra de arte, na medida das minhas possi-bilidades. Os contos virão do que vi e vivi na infância e adolescência; às vezes, de um caso lido nos jornais (no comum, a página policial), ouvido de alguém. A minha lição é esta: " A literatura se nutre do real" .

Influências? Sim. Eça de Queirós, Machado de Assis, com quem aprendi a descobrir a precariedade, a vulne-rabilidade do ser e o que ele tem de abissal. Graciliano Ra-mos, por uma ordem de identidade (meio, biótipo, iguais fontes de leitura) também me influenciou bastante. Ele é muito presente nos contos da minha primeira fase.

Todo autor sofre influências. O importante é procu-rar os seus próprios caminhos.

P . Existe alguma identificação com o autor e o narrador-personag.em no conto CORAÇÃO ALADO?

R . Sim . Entendo que todo autor realista transmite à sua obra muito da sua própria visão, cosmovisão, sentimen-tos e experiência. O narrador-personagem no meu conto CORAÇÃO ALADO (não confundir com uma medíocre te-lenovela que tem o mesmo título. O meu conto data de 1949) seria eu, na timidez, no desejo contido, na lucidez

diante da vida, no desencanto das impossibilidades. 162 Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan,fjun. 1985

BCH-PERIODICO,

primeiros livros, os contos eram narrados em

H

pt1•1•1on e nos últi mos estão em 31;1 pessoa com omissão

tl11 nomes. Como aconteceu este processo de mudança?

li I < > c:onto na primeira pessoa (eu) tem um andamento mais

n11 rnonos autobiográfico, uma identificação. A terceira pwmoo (ele) aproxima-se mais da verdadeira arte literá-1111. Cancela identidades, faz-se mais universal, que é 11111rt exigência básica da grande literatura: a

universali-c In elo 6 a sua meta maior.

A omissão de nomes, qua:'lto às personagens, decor-111 elo mesmo fenômeno. Vale mais cuidar do ser (cabí-vul om qualquer parte do mundo) do que retratar o indi-viduo, dar-lhe uma carteira de identidade, um número.

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rosto, esse comportamento é uma exigência do pró-pilo conto moderno, considerada a sua força de síntese

lo impessoalidade.

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I Qual o segredo da versatilidade dos temas?

li Nl\o há segredo. Quanto mais versatilidade temática, me-lllor, parece-me. Quebra a monotonia. Insistir nos m.es-lllOS temas talvez seja falta de imaginação ou de criati-vidade.

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Qual a sua opinião sobre o homossexualismo?

1"1 .

Uma palavra terrív.el, constrangedora e abrangente, pois lnnto alcança o homem como a mulher (e como alcán-çnl), e abrangente ainda em termos de quantidade, nos cllos que correm.

Um desvio lamentável, que, contudo, tem dado al-quns gênios, sem que a afirmação sirva de incE;lntivo.

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I O amor é eterno enquanto dura?

(Hoxo) e a afeição profunda. O primeiro terá um tempo;

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O verso é lapidar, na sua ambigüidade entre o desejo o seg undo, a intemporalidade, segundo a definição de セIヲ|ッ@ Paulo: " O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espe-111, tudo suporta: é eterno" .

(14)

P. Qual a relação entre a morte e a vida?

R. íntima. Não há vida sem morte. Onde aquela surge, esta aparece. Vizinhas, unas, indivisíveis, companheiras, den-tro de um processo dialético de transformação. Do pon-to de vista humano, a vida é a alegria, a plenitude; a morte, o fantasma sinistro.

P. Como se sente aos 70 anos?

R. Lúcido, confiante e ainda acalentado r de esperanças, principalmente pela minha crença nos valores do espí-rito ou da inteligência. Felizmente, ainda não perdi de todo o jogo lúdico, o reencontro com a infância.

Uma mensagem para um escritor iniciante.

M. Acreditar no humanismo. Amar efetivamente a literatu-ra, ser-lhe fiel, jamais desvirtuá-la ou falsificá-la, pois que somente a arte contempla a verdadeira realidade, que é aquela que se confunde com o eterno. No terreno prático, l.er muito, escrever sempre, praticar, só publi-car quando tiver amadurecimento. Colher nos grandes autores a lição maior da vida.

04 - CONCLUSÃO

No decorrer deste estudo, observei as temáticas cons-tantes que integram os contos de 1 セ@ fase com os de Rセ@ fase.

Os temas sempre atuais constatam que a obra de Morei-ra Campos geMorei-rada em bases sólidas, edifica-se com galhar-dismo e permanece viva no meio literário.

Moreira Campos afirma, em entrevista anexa, que "quan-to mais versatilidade temática, melhor parece-me. Quebra a

monotonia. Insistir nos mesmos temas talvez seja falta de imaginação ou de criatividade".

Os depoimentos críticos são testemunhas de um caminho percorrido com segurança, perseverança, sapiência e, acima de tudo, uma consciência critica profissional e intelectual.

A fortaleza de suas palavras desperta novos valores lite-rários que influenciados pelo seu estilo, procuram dar evasão aos anseios da alma humana.

164 Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan./jun. 1985

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(15)

P . Qual a relação entre a morte e a vida?

R . íntima. Não há vida sem morte. Onde aquela surge, esta aparece. Vizinhas, unas, indivisíveis, companheiras, den-tro de um processo dialético de transformação. Do pon-to de vista humano, a vida é a àlegria, a plenitude; a morte, o fantasma sinistro.

P. Como se sente aos 70 anos?

R. Lúcido, confiante e ainda acalentado r de esperanças, principalmente pela minha crença nos valores do espí-rito ou da inteligência. Felizmente, ainda não perdi de todo o jogo lúdico, o reencontro com a infância.

Uma mensagem para um escritor iniciante.

M . Acreditar no humanismo. Amar efetivamente a lit.eratu-ra, ser-lhe fiel, jamais desvirtuá-la ou falsificá-la, pois que somente a arte contempla a verdadelra realidade, que é aquela que se confunde com o eterno. No terreno prático, セ・イ@ muito, escrever sempre, praticar, só publi-car quando tiver amadurecimento. Colher nos grandes autores a lição maior da vida.

04 - CONCLUSÃO

No decorrer deste estudo, observei as t.emáticas cons-tantes que integram os contos de H fase com os de Rセ@ fas.e.

Os temas semp re atuais constatam que a obra de Morei-ra Campos geMorei-rada em bases sólidas, edifica-se com galhar-dismo e permanece viva no meio literário.

Moreira Campos afirma, em entrevista anexa, que "quan-to mais versatilidade temática, melhor parece-me. Quebra a monotonia. Insistir nos mesmos temas talvez seja falta de imaginação ou de criatividade" .

Os depoimentos críticos são testemunhas de um caminho percorrido com segurança, perseverança, sapiência e, acima de tudo, uma consciência crítica profissional e intelectual.

A fortaleza de suas palavras desperta novos valores lite-rários que influenciados pelo seu estilo, procuram dar evasão aos anseios da alma humana.

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Rev. de Letras, Fortaleza, 8 (1) - jan./jun. 1985

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Referências

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