A FÉ NAS COISAS QUE NÃO SE VÊ

Texto

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Santo Agostinho

A

NAS COISAS QUE NÃO SE VÊ

Tradução: Souza Campos, E. L. de Teodoro Editor

Niterói – Rio de Janeiro – Brasil

2018

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A fé nas coisas que não se vê

Santo Agostinho

Acreditar nas coisas que não vemos não é, para nós cristãos, uma imprudência censurável, mas fé digna de elogio.

Capítulo 01

Mesmo nas coisas naturais, geralmente acreditamos sem ver. Não vemos a boa vontade de um amigo e

acreditamos nela. Nós vemos a amizade?

1. Muitos acreditam que se deve rir da religião cristã, muito mais do que abraçá-la, por que, invés de colocar sob os olhos o que se pode ver, ela obriga a acreditar no que não se vê. Para refu- tar essas pessoas que se acham sábias ao não acreditarem no que não podem ver, não podemos, sem dúvida, desvelar aos olhos hu- manos os objetos divinos de nossa fé. Mas, pelo menos nós lhes demonstramos que, mesmo na ordem das coisas humanas, é preci- so acreditar em muitas coisas sem vê-las.

Primeiramente, a esses insensatos tão escravos de seus senti- dos que consideram só dever acreditar naquilo que seus sentidos lhes mostram, dizemos que eles não apenas acreditam como co-

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nhecem um número grande de coisas que os olhos do corpo não podem ver. Nossa alma reúne um grande número de objetos invi- síveis por natureza.

Só para dar um exemplo. O que há de mais simples, de mais claro, de mais certo para a visão interior da alma, do que a própria fé que nos faz acreditar, ou a segurança com que acreditamos nas coisas ou que não acreditamos, mesmo que essa segurança seja totalmente estranha à nossa visão corporal? Como então não acre- ditar em nada do que não vemos com os olhos do corpo, quando vemos com certeza que nós acreditamos ou não acreditamos, mesmo quando a visão do corpo não desempenha nenhum papel?

2. Mas, dizem, não precisamos conhecer com os olhos do corpo o que se passa na alma, já que podemos ver na própria alma.

Enquanto que o que querem nos fazer crer, não são mostradas ex- ternamente, para que vejamos com os olhos do corpo e nem dentro da alma, para que vejamos através do pensamento. É isto o que eles dizem. Como se fosse exigido fé para todo objeto que possa ser apresentado aos sentidos.

Devemos certamente acreditar em certas coisas temporais que não vemos, para merecer ver as coisas eternas que acredita-

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mos. Mas você, quem quer que seja, que só quer acreditar no que você vê, você conhece os corpos presentes aos olhos do corpo e, com seu espírito, as vontades e os pensamentos de seu espírito.

Mas, eu lhe pergunto, com quais olhos você vê as disposições do seu amigo com relação a você? Pois é impossível ver uma vontade com os olhos do corpo. É com seu espírito que você vê o que se passa no espírito do outro? Ora, se você não vê, como você res- ponde com benevolência a benevolência de um amigo, já que você não acredita em nada do que não vê?

Por acaso você dirá que vê a vontade do outro através de seus atos? Então, você verá os atos, ouvirá as palavras, mas acre- ditará somente na vontade do seu amigo, que você não pode ver e nem ouvir. Pois essa vontade não é uma cor ou uma figura que possa impressionar seus olhos e nem um som ou um canto que penetra seus ouvidos. Ela também não é a sua vontade e você não poderia senti-la em seu próprio coração.

Só resta então a você acreditar no que você não vê, no que você não ouve, no que você não sente em você mesmo, se você não quer viver no abandono e no isolamento por falta de um ami- go e deixar de retribuir o afeto que você recebe.

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Onde está agora o que você dizia há pouco, que só deve a- creditar no que você vê; ou exteriormente, com os olhos do corpo, ou interiormente, com os olhos da alma? Assim, com o seu cora- ção você acredita em um coração que não é o seu e sua fé percebe o que não podem descobrir os olhos do seu corpo e nem os olhos do seu espírito.

Você vê com seu corpo a figura do seu amigo. Você vê sua própria fidelidade com sua alma. Mas você não pode amar a fide- lidade do seu amigo, se você não tiver a fé que o faz acreditar no que você não vê nele. Afinal, uma pessoa pode enganar, fingindo o bem-querer e dissimulando sua malícia. Ou, se ela pensa em prejudicar e espera tirar de você algum proveito, ela pode dissimu- lar a amizade, por que ela não tem amor.

3. Mas, você diz que acredita no seu amigo, mesmo que não possa ver seu coração, por que o viu em ação nas provações e sen- tiu o afeto dele por você no meio dos perigos; ocasião em que ele permaneceu fiel a você.

Então, segundo você, é preciso desejar estar em desgraça, para se assegurar do comprometimento de nossos amigos? Para desfrutar com certeza da felicidade de ter amigos, é preciso então

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estar preso na adversidade? Só se gozará de uma amizade prova- da, ao preço da dor e do medo? E como não temer, muito mais do que desejar, uma felicidade que tem o infortúnio como pedra fun- damental? No entanto, é verdade que se pode ver um verdadeiro amigo na prosperidade, mas isso não é certo na adversidade.

Certamente que você não se jogará no perigo para testar um amigo, se você não tem fé. E, se você fizer isso, é por que você acredita primeiro e antes da própria prova. Com efeito, se não de- vemos acreditar nas coisas que não vemos, mesmo que acredite- mos de coração em um amigo que ainda não foi provado; mesmo quando fizemos essa prova às nossas custas, nós ainda acredita- mos no bem-querer, ainda que não o vejamos. A menos que se diga então que a fé é tão grande que imaginamos ver com os olhos o que acreditamos, invés de dizer que devemos acreditar por que não podemos ver.

Capítulo 02

Sem a fé, o que seria da família e da sociedade humana?

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4. Se essa fé desaparecer da sociedade humana, não haverá ninguém que não verá a perturbação, a horrível confusão que será a consequência disso.

Se só se deve acreditar no que se vê, o que será do afeto mú- tuo, já que o amor é invisível? O que será então da amizade, que não é outra coisa além do afeto recíproco. Com efeito, que de- monstração de afeto se pode receber de uma pessoa, quando não se acredita que ela o tenha dado? Ora, desaparecendo a amizade, os laços do casamento, do parentesco ou da afinidade desaparece- rão também, pois eles repousam igualmente sobre um afeto recí- proco.

O esposo não poderá mais amar sua esposa, já que ele não acredita ser amado por ela. Visto que o amor é invisível, nem um e nem outro desejará mais ter filhos, convencidos antecipadamen- te de que não teriam nada que esperar deles. Se filhos nascem e crescem, eles também amarão muito menos seus pais, pois eles não verão o amor escondido no fundo de seus corações, já que ele é invisível e, como dizem, não é uma fé digna de elogios, mas uma temeridade condenável acreditar no que não se vê.

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O que dizer das outras relações entre irmãos, irmãs, genros, sogros, de consanguinidade ou de afinidade, se o afeto é incerto e a boa vontade duvidosa __ dos filhos com relação aos pais e dos pais com relação aos filhos __, se não se retribui bem-querer com bem-querer, já que não se acredita ser isso um dever e visto que não se admite sua existência nos outros, já que ele não é visto?

Ora, acreditar que não se é amado, por que não se vê o amor, não retribuir a afeição com afeição, por que se acredita dispensado disso, não é um ato de sabedoria, mas uma restrição odiosa.

Se não acreditamos no que não vemos, se nos negamos as vontades das pessoas, por que elas nos escapam aos olhos, isso resultará numa perturbação tal na sociedade, que tudo desmorona- rá de cima abaixo.

Eu não falo de tudo o que acreditam aqueles que nos criti- cam por acreditar sem ver. Eles acreditam em muita coisa __ a fé na reputação, a fé na história, os lugares que eles jamais viram __

e nunca são tentados a dizer: “Não vimos, não acreditamos”. Se eles dissessem isso, seriam forçados a duvidar até mesmo de seus pais, pois eles só acreditam baseados na fé nos outros, que não poderiam lhes mostrar um fato passado e dos quais eles não pos-

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suem a menor lembrança. No entanto, eles não levantam nenhuma dúvida sobre esses testemunhos. Não fosse assim, para escapar da temeridade de acreditar sem ver, seria preciso demonstrar uma incredulidade criminosa com relação aos seus próprios pais.

Capítulo 03

Motivos para acreditar no cristianismo. Profecias relativas ao cristianismo e à Igreja.

Se então, os laços que unem as pessoas, se a própria socie- dade desaparecesse, a partir do momento em que não se acredita mais no que não se vê, com mais razão ainda devemos acreditar nas coisas diversas, embora não as vejamos, pois a ausência dessa fé destrói, não somente a amizade entre algumas pessoas, mas a nossa sublime religião e isso atrairá os maiores infortúnios.

5. Mas, você dirá, se eu não posso ver o bem-querer de uma pessoa com relação a mim, eu posso pelo menos me assegurar disso através de muitas provas, enquanto que você não pode me dar nenhuma prova das coisas que você quer me fazer acreditar sem que nós as vejamos.

Já é alguma coisa você ser forçado a convir que é preciso a- creditar, de acordo com algumas provas, no que não se vê, pois,

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resulta disso que não se pode recusar a crer em tudo o que não se vê e essa proposição que só se deve acreditar no que se vê cai sob a clareza da evidência e o peso do desprezo.

Mas é um grande erro pensar que acreditamos em Cristo sem provas. Afinal, há provas mais claras do que as previsões que vi- mos realizadas?

Você, que pensa que não há provas que o obrigue a acreditar em Cristo e em coisas que não você não viu, preste atenção, eu lhe peço, no que se passa diante de seus olhos.

É a Igreja que vai lhe falar, com sua ternura maternal:

“Eu, cujos frutos e progressos no mundo inteiro você admira, eu nem sempre fui como você me vê. Estava escrito: Todas as nações da terra desejarão ser benditas como ela1. Quando Deus abençoou Abraão, fui eu que ele prometeu, pois estou espalhada em todas as nações, pela bênção de Cristo. A sucessão das gera- ções demonstra que Cristo é a descendência de Abraão. Para pro- vá-lo em poucas palavras: Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, Jacó gerou doze filhos, que são a raiz do povo de Israel, pois Jacó

1 Gênesis 22: 18.

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recebeu o nome de Israel. Dentre esses doze filhos encontra-se Judá, que deu seu nome a Israel e dos judeus nasceu a virgem Ma- ria, que deu à luz Cristo. Você vê com espanto todas as nações abençoadas em Cristo, ou seja, na descendência de Abraão e você ainda hesita em acreditar Naquele de quem você devia tremer por não acreditar!

“Você hesita, você se recusa a acreditar que uma virgem te- nha dado à luz, quando você devia mais é acreditar que um nasci- mento assim convinha a um homem-deus? Saiba, aliás, que isso foi predito nestes termos por um profeta: Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamará Deus Conosco2.

“Você não hesitará então em acreditar na concepção de uma virgem, se você quiser acreditar no nascimento de um Deus, de um Deus que não descuida de governar o mundo e se fez carne para descer até o ser humano, que torna sua mãe fecunda sem lhe retirar sua virgindade. Foi assim que, eternamente Deus, ele devia nascer como humano, para se tornar nosso Deus, nascendo desta forma.

2 Isaías 7: 14.

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“Por isso o profeta também disse dele: Vosso trono, ó Deus, é eterno, de equidade é vosso cetro real. Amais a justiça e detes- tais o mal, pelo que o Senhor, vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria, preferindo-vos aos vossos iguais3. Essa unção é uma un- ção espiritual que um Deus consagrou a um Deus, ou seja, o Pai a seu Filho e nós sabemos que é dessa unção __ krisma __ que deri- va o nome Cristo.

“Eu sou a Igreja, da qual é dito no mesmo Salmo e prevendo o futuro: Posta-se à vossa direita a rainha, ornada de ouro de Ofir4, com vestes bordadas de ouro5, em roupagens multicores6. Ou seja, ornada com os mistérios da sabedoria e enriquecida pelo dom das línguas.

“Isto é o que me dizem: Ouve, filha, vê e presta atenção: es- quece o teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza se encantará o rei; ele é teu senhor, rende-lhe homenagens. Habitantes de Tiro virão com seus presentes, próceres do povo implorarão teu favor7.

3 Salmo 44: 7 e 8.

4 Salmo 44: 10.

5 Salmo 44: 14.

6 Salmo 44; 15.

7 Salmo 44: 11-13.

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“Toda a glória da filha do rei vem de dentro. Suas roupas são resplandecentes de ouro e bordados. Atrás dela seguem as virgens do rei. Suas companheiras lhes serão apresentadas. Elas virão com alegria e com júbilo e entrarão no templo do rei. Aos pais sucede- rão os filhos, que constituirão príncipes por toda a terra. Eles se lembrarão de seu nome na sucessão dos séculos e por isso os po- vos os glorificarão nos séculos”8.

6. Se você não vê essa rainha dando, com sua fecundidade, filhos ao rei; se ela, por sua vez, não vê a realização da promessa que lhe fez, no dia em que lhe disse: Ouve, filha, vê e presta aten- ção; se ela não deixou os antigos ritos do século, segundo a ordem dada: Esquece o teu povo e a casa de teu pai; se ela não confessa em toda parte Cristo, o Senhor; ela, a quem foi dito: De tua beleza se encantará o rei, ele é teu senhor; se ela não vê as cidades dos gentios entoarem preces, oferecer presentes ao Cristo, do qual é dito: Habitantes de Tiro virão com seus presentes; se os ricos não depositam seu orgulho, não imploram seu socorro, como está es- crito: Próceres do povo implorarão teu favor; se a filha do rei não é reconhecida, aquela que recebeu ordem de dizer: Pai nosso, que

8 Cf. Salmo 44: 14-18.

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estais no céu9; se dia a dia ela não é renovada interiormente com seus santos10, ela de quem foi dito: Toda a glória da filha do rei está dentro, em franjas de ouro11 e que impressiona os olhos dos estranhos com seus pregadores, que pregam em diversas línguas e formam como que o ouro e os bordados de suas vestes; se virgens não a seguem, para se consagrarem a Cristo, depois dela ter espa- lhado por toda parte seu bom odor, segundo o que está escrito:

Após ela vos são apresentadas as virgens, suas companheiras.12; e ainda, segundo o que está escrito, para que elas não pareçam cati- vas arrastadas para a prisão: Levadas entre alegrias e júbilos, in- gressam no palácio real13; se ela não gera filhos, dentre os quais escolhe pais a quem confia em toda parte seu próprio governo, segundo o texto: Tomarão os vossos filhos o lugar de vossos pais, vós os estabelecereis príncipes sobre toda a terra14; se em tudo, ao mesmo tempo superior e inferior, ela não se recomenda em suas preces, o que fez com que fosse acrescentado: Celebrarei

9 Mateus 6: 9.

10 Cf. 2 Coríntios 4: 16.

11 Salmo 44: 14. Omnis gloria ejus filiæ regis ab intus, in fimbriis aureis.

12 Salmo 44: 15.

13 Salmo 44: 16.

14 Salmo 44: 17.

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vosso nome através das gerações15; se a pregação desses mesmos pais, onde seu nome é sem cessar lembrado, não conduz ao seu seio grandes multidões, que lhe rendem perpétuas ações de graça em sua própria língua, sempre conforme à profecia: E os povos vos louvarão eternamente16; se tudo isso não está perfeitamente claro, a ponto de nossos inimigos, de qualquer lado que olhem, ficarem impressionados com o brilho da luz e forçados a confessar a verdade, você talvez tenha razão em dizer que não viu.

Mas, se o que você tem diante dos olhos foi previsto muito tempo antes e se foi evidentemente realizado; se a verdade mostra a você fatos passados e presentes; ó retardatário da infidelidade, envergonhe-se do que você vê, para acreditar no que você não vê!

Capítulo 04

O que vemos ser realizado deve nos fazer acreditar no que não vimos.

7. “Olhe para mim, olhe para mim, você que me vê, mesmo querendo não me ver”, diz a Igreja. Pois os judeus fiéis daquele

15 Salmo 44: 18.

16 Salmo 44: 18.

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tempo souberam, como fato atual, do maravilhoso parto de uma virgem. Eles assistiram à paixão, à ressurreição, à ascensão de Cristo. Eles ouviram suas divinas palavras. Eles foram testemu- nhas de seus atos. Você não viu tudo isso e é por isso que se recu- sa a acreditar. Pelo menos olhe, estude, reflita no que você vê, nas coisas que lhe contam como acontecidas, que não são anunciadas como futuras, mas que lhe são mostradas como presentes. É então para você coisa inútil e sem importância, ou não é um milagre ou é um milagre medíocre, que o mundo inteiro caminhe em nome de um homem crucificado?

Você não viu ser realizada a profecia feita sobre o nascimen- to humano de Cristo __ Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco17 __ mas é testemunha da reali- zação da promessa feita a Abraão: Todas as nações da terra sejam benditas em tua descendência18.

Você não viu os milagres de Cristo, que o profeta anunciou nestes termos: Vinde admirar as obras do Senhor, os prodígios

17 Isaías 7: 14.

18 Gênesis 22:18. Benedicentur in semine tuo omnes gentes terræ.

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que ele fez sobre a terra19, mas você vê o que foi predito: Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me; dar-te-ei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo20.

Você não viu o que foi predito e realizado sobre a Paixão de Cristo: Traspassaram minhas mãos e meus pés: poderia contar todos os meus ossos. Eles me olham e me observam. Com alegria, repartem entre si as minhas vestes e lançam sorte sobre a minha túnica21, mas você vê realizada a previsão que o mesmo Salmo acrescenta: Hão de se lembrar do Senhor e a ele se converter to- dos os povos da terra e diante dele se prostrarão todas as famílias das nações, porque a realeza pertence ao Senhor e ele impera sobre as nações22.

Você não viu se realizar a previsão relativa à ressurreição de Cristo. Aquela que o salmista primeiro falou assim do traidor Ju- das e dos judeus perseguidores: Saindo fora, se apressa em divul- gá-las. Todos os que me odeiam murmuram contra mim e só pro-

19 Salmo 45: 9.

20 Salmo 2: 7 e 8.

21 Salmo 21: 17 a 19.

22 Salmo 21: 28 e 29.

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curam fazer-me mal23. Em seguida é acrescentado, para provar que não ganharam nada, levando à morte aquele que devia ressus- citar: Aquele que dorme, não mais se levantará?24 Pouco depois, quando foi precisamente prevista a traição, como conta o Evange- lho25: Até o próprio amigo em que eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar26, quer dizer, pisou em mim. Em seguida é acrescentado: Ao menos vós, Senhor, tende piedade de mim; erguei-me, para eu lhes dar a paga que mere- cem27.

Tudo se cumpriu. Cristo dormiu e depois despertou, ou seja, ressuscitou como tinha sido predito pelo mesmo profeta em outro Salmo: Eu, que me tinha deitado e adormecido, levanto-me, por- que o Senhor me sustenta28.

Não, você não viu isso, mas vê o que foi dito e realizado so- bre sua Igreja: Senhor, minha força e amparo, refúgio no dia da desgraça, virão nações dos confins do mundo, exclamando: o que

23 Salmo 40: 7 e 8.

24 Salmo 40: 9. Numquid qui dormit non adjiciet ut resurgat ?

25 Cf. João 13: 18.

26 Salmo 40: 10.

27 Salmo 40: 11.

28 Salmo 3: 6.

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nossos pais receberam em partilha não passa de um nada, vaida- des que para nada poderão servir29.

Bem ou mal, é isso o que você vê e se você pensa também que os ídolos são ou que já foram de alguma utilidade, certamente você ouviu dizer que inumeráveis povos abandonaram, derruba- ram, quebraram imagens inúteis, dizendo: Poderá o homem fabri- car deuses para si? Não serão deuses, porém!30

Mas não pense que esses povos em questão devem se dirigir a um só lugar habitado pelo Senhor, por que foi dito que virão nações dos confins do mundo. Compreenda, se conseguir, que não é se deslocando, mas acreditando, que os povos chegam até o Deus dos cristãos, ao Deus soberano e verdadeiro. Foi o que outro profeta predisse, nestes termos: O Senhor lhes será um objeto de terror, porque aniquilará todos os deuses da terra e virão pros- trar-se diante dele - cada um na sua terra - todos os habitantes das ilhas das nações31. O que um diz assim: virão nações dos con- fins do mundo, outro diz da seguinte maneira: virão prostrar-se diante dele - cada um na sua terra - todos os habitantes das ilhas

29 Jeremias 16: 19.

30 Jeremias 16: 20.

31 Sofonias 2: 11.

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das nações. Os povos virão, portanto, a ele, sem sair do lugar, por que, acreditando nele, o encontrarão em seus corações.

Você não viu o que foi predito e o que se realizou na ascen- são: Resplandecei, ó Deus, nas alturas dos céus, mas você vê o que o profeta acrescenta: E brilhe a vossa glória sobre a terra inteira32.

Você não viu tudo o que se fez e se realizou na pessoa de Cristo, mas você não pode negar que vê o que se passa em sua Igreja. Nós lhe mostramos que essas duas espécies de fatos foram previstos, mas não podemos colocá-los sob seus olhos, já que não podemos tornar presente o passado.

Capítulo 05

O presente autoriza acreditar no passado e no futuro.

8. Mas, da mesma forma como, através de indícios, acredi- tamos no bem-querer dos amigos, mesmo sem vê-lo, assim tam- bém, a Igreja que vemos agora é a garantia de todas as coisas pas- sadas e futuras que não vemos e que nos são mostradas nas Escri-

32 Salmo 107: 6.

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turas, onde foram previstas. No momento da previsão, era impos- sível ver o passado que havia se tornado invisível e nem o que hoje é presente e que nem mesmo se pode ver inteiro. Mas, quan- do as previsões começaram a se realizar, a partir do que se reali- zou até os fatos que acontecem hoje em dia, então, o que havia sido previsto sobre Cristo e a Igreja aconteceu sucessivamente e em sua ordem e a essa ordem está relacionado o que foi previsto sobre do Dia do Julgamento, sobre a ressurreição dos mortos, so- bre a punição eterna dos ímpios em companhia do demônio e so- bre a recompensa eterna dos justos em sociedade com Cristo.

Por que então não acreditar no passado e no futuro que não vemos, quando temos no meio o presente que vemos e ouvimos, ou lemos que os livros proféticos anunciaram o começo, o meio e o fim?

Os infiéis pensam que essas profecias foram escritas para os cristãos para dar mais peso ao que eles já admitiam, fazendo crer que isso tinha sido anunciado antecipadamente?

Capítulo 06

O cristianismo provado pelos judeus.

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9. Se este é o pensamento de nossos adversários, que eles es- tudem os livros dos judeus nossos inimigos e que leiam ali o que vemos dizer as previsões sobre o Cristo no qual acreditamos e so- bre a Igreja que vemos sobreviver, desde o laborioso estabeleci- mento da fé até o dia da eterna beatitude no céu.

Ao ler esses livros, que eles não se espantem que aqueles que os possuem não compreendam nada do que está ali, cegos que estão por seu ódio. Aqueles mesmos profetas haviam previsto essa cegueira e, como todas as outras, essa profecia devia se realizar.

Foi preciso que, por um justo e secreto julgamento de Deus, os judeus sofressem o castigo que mereceram. Sem dúvida, aquele que eles crucificaram, a quem deram fel e vinagre, mesmo que ele estivesse suspenso no cadafalso, disse ao seu Pai, sobre aqueles que ele devia conduzir das trevas à luz: Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem33.

No entanto, com vistas aos outros que ele devia abandonar, por razões mais misteriosas, ele havia dito muito tempo antes, a- través do profeta: Puseram fel no meu alimento, na minha sede deram-me vinagre para beber. Torne-se a sua mesa um laço para

33 Lucas 23: 34.

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eles e uma armadilha para os seus amigos. Que seus olhos se es- cureçam para não mais ver, que seus passos sejam sempre vaci- lantes34. Eles erram assim por todos os lados, como cegos, como testemunhos os mais claros em favor de nossa causa, para servi- rem eles mesmo de demonstração para os profetas que eles repro- vam.

Se então, esse povo não foi destruído até a inteira extinção, mas dispersado por toda a superfície da terra, foi para nos ser ú- teis, espalhando as páginas onde os profetas anunciam o beneficio que recebemos e que serve para afirmar a fé entre os infiéis.

O que eu disse aqui também foi profetizado: Não os extermi- ne, para que não se esqueçam de vossa lei, mas dispersai-os com sua força35. Eles não foram, portanto, mortos, no sentido de que não se esqueceram das Escrituras que liam ou ouviam entre eles.

Se, no entanto, eles se esquecessem totalmente das Santas Escritu- ras, que eles não compreendem afinal, eles seriam levados à mor- te, de acordo com o próprio rito judaico, por que, não conhecendo

34 Salmo 68: 22-24.

35 Salmo 58: 12. Deus ostendet mihi super inimicos meos : ne occidas eos, nequando obliviscantur populi mei. Disperge illos in virtute tua, et depone eos, protector meus, Domine.

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a lei e os profetas, eles nos seriam inúteis. Eles não foram, portan- to, exterminados, mas espalhados, para que, mesmo não tendo a fé que poderia salvá-los, nem por isso eles deixassem de nos ser úteis com suas lembranças. Nossos inimigos em seus corações, eles são, com seus livros, nossos apoios e nossas testemunhas.

Capítulo 07

A maravilhosa conversão do mundo inteiro à fé do Cristo.

10. Mas, se não houvesse nenhuma profecia sobre o Cristo e sobre a Igreja, quem não seria levado a acreditar que uma luz do alto iluminou subitamente o gênero humano, ao ver os falsos deu- ses abandonados, suas imagens quebradas em toda parte, seus templos derrubados ou adaptados para outros usos, tantos ritos supersticiosos abolidos, apesar do poder de um hábito inveterado e somente o verdadeiro bem invocado por todos?

E dizer que tudo isso aconteceu por causa de um único ho- mem, joguete de seus semelhantes. Preso, garroteado, flagelado, despido, coberto de humilhações, crucificado e levado à morte.

Sua ressurreição e sua ascensão são anunciadas por seus dis- cípulos; homens obscuros, ignorantes, pescadores, publicanos, que

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ele escolheu para ensinar sua doutrina e que afirmam terem teste- munhado esses fatos e que, cheios do Espírito Santo, fazem reper- cutir o Evangelho em línguas que eles não aprenderam.

Quando, dentre aqueles que os ouvem, uns fazem aos prega- dores uma cruel oposição e estes, fiéis e combatendo pela verdade até à morte, não retribuem o mal, mas o sofrem, estes não levam a vitoria, não provocando a morte, mas recebendo-a?

Foi assim que o mundo adotou essa religião. Todos se con- verteram a esse Evangelho; homens e mulheres, fortes e fracos, nobres e plebeus, grandes e pequenos. E a Igreja se estendeu para todas as nações a tal ponto que não há nenhuma seita perversa, nenhum gênero de erro que seja tão hostil à verdade cristã, que não queira usurpar e gloriar-se do nome de Cristo. Ora, o cristia- nismo conseguiria se difundir assim sobre a terra, se a própria contradição não fizesse ressaltar a pureza da verdadeira doutrina?

Como esse crucificado conseguiria tanto poder, se ele não fosse um Deus encarnado e esse futuro não tivesse sido previsto por seus profetas?

Mas, como esse grande mistério teve seus profetas e seus a- rautos, que o previram por inspiração divina e que se realizou co-

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mo foi previsto, quem será tão insensato para dizer que os apósto- los mentiram, ao pregarem o Cristo cuja vinda eles anunciaram como os profetas haviam previsto?

E esses próprios apóstolos, os profetas falaram deles com an- tecipação, conforme a verdade, pois é deles que se fala: Não é uma língua nem são palavras, cujo sentido não se perceba, por- que por toda a terra se espalha o seu ruído e até os confins do mundo a sua voz36.

Isto é o que vemos realizado no mundo, mesmo que ainda não tenhamos visto ainda Cristo em seu trono. Que estranha lou- cura seria preciso para cegar, que incrível obstinação, que alma de ferro seria preciso ter para se recusar a acreditar nas Santas Escri- turas que previram essa conversão do mundo inteiro?

Capítulo 08

Exortação à perseverança na fé.

11. Quanto a vocês, meus bem amados, que possuem essa fé ou que venham a recebê-la, que ela passe a se desenvolver e cres-

36 Salmo 18: 4 e 5.

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cer em vocês. Como os eventos previstos para o tempo se realiza- ram, assim se realizarão as promessas eternas. Não se deixem en- ganar pelas superstições pagãs, pelos judeus pagãos, pelos pérfi- dos heréticos e nem pelos maus cristãos que vivem no seio da I- greja Católica e que são muito mais culpados, por que são inimi- gos domésticos.

Afinal, para não deixar os fracos se abalarem, a profecia di- vina não ficou muda sobre esse ponto, pois, no Cântico dos Cânti- cos, o esposo fala à esposa __ ou seja, Cristo à Igreja __ e lhe diz:

Como o lírio entre os espinhos, assim é minha amiga entre as jo- vens37. Ele não diz “no meio das estranhas”, mas “no meio das jovens”.

Ouça aquele que tem ouvidos para ouvir38: quando se tira na praia __ ou seja, no fim dos séculos __ a rede que foi jogada no mar e que recolhe toda espécie de peixes, que se tenha o cuidado de afastar os peixes ruins; de separá-los, não fisicamente, mas no coração, não rasgando as santas redes, mas reformando seus cos- tumes. Para que os justos, que agora estão misturados com os ím-

37 Cânticos 2: 2.

38 Cf. Mateus 13: 9.

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pios, não consigam os castigos eternos, invés da eterna vida, quando a separação última acontecer na praia39.

39 Cf. Mateus 13: 49 e 50.

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Créditos

De fide rerum quae non videntur

© 400 Aurelius Augustinus Hipponensis

© 2018: Teodoro Editor – Niterói – Rio de Janeiro – Brasil.

Traduzido por Souza Campos, E. L. de, de De la foi aux choses qu'on ne voit pas.

Tradução do latim de M. l'abbé DEVOILLE in Œuvres complètes de Saint Augustin, Bar-Le-Duc: L. Guérins & Cie éditeurs, 1867.

Cotejado com De la fe en lo que no se ve Traductor: P. Herminio Rodríguez, OSA

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Conteúdo

A fé nas coisas que não se vê --- 2

Capítulo 01--- 2

Mesmo nas coisas naturais, geralmente acreditamos sem ver. Não vemos a boa vontade de um amigo e acreditamos nela. Nós vemos a amizade? --- 2

Capítulo 02--- 6

Sem a fé, o que seria da família e da sociedade humana? --- 6

Capítulo 03--- 9

Motivos para acreditar no cristianismo. Profecias relativas ao cristianismo e à Igreja. --- 9

Capítulo 04--- 15

O que vemos ser realizado deve nos fazer acreditar no que não vimos.--- 15

Capítulo 05--- 20

O presente autoriza acreditar no passado e no futuro. --- 20

Capítulo 06--- 21

O cristianismo provado pelos judeus. --- 21

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Capítulo 07--- 24

A maravilhosa conversão do mundo inteiro à fé do Cristo. ---- 24

Capítulo 08--- 26

Exortação à perseverança na fé. --- 26

Créditos --- 29

Conteúdo --- 30

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Referências

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