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SANTOS FILHO, Ismar Inácio
Do Dialogismo Bakhtiniano: Interdiscurso e Intertextualidade/
Ismar Inácio dos Santos Filho. – Arapiraca: UNEAL, 2012.
1. Dialogismo. 2. Interdiscurso. 3. Intertextualidade. 4. Leitura Enunciativa.
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Sumário
Apresentação
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A plurivocalidade e alguns “modos de inter-relação entre discursos”
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O que é uma leitura enunciativo-discursiva?
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No mínimo - o que pensam sobre a língua
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O termo intertextualidade e alguns de seus conceitos usuais nos estudos de linguagem
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APRESENTAÇÃO
A LINGUAGEM EM SEU CARÁTER PLURIDISCURSIVO, À LUZ DO DIALOGISMO BAKHTINIANO Jane Cleide dos Santos Bezerra - UNEAL
Investigar e tecer uma linha de pensamento evocando a linguagem em seu caráter pluridiscursivo, à luz do dialogismo bakhtiniano, não é uma tarefa fácil. Os processos de interação que ocorrem entre os textos, tanto na escrita, quanto na leitura, evidenciam que não há isolamento de textos e que, portanto, não é possível vê-los dessa forma, ao contrário, devemos sempre correlacioná-los a outros discursos. Pode-se falar aqui da noção de recepção/compreensão de uma enunciação, que, por sua vez, se constrói em um espaço comum entre os interlocutores.
Com essa expectativa e com o objetivo macro de mostrar a linguagem como um movimento dialógico é que o professor doutor Ismar Inácio Santos Filho construiu um verdadeiro acervo de conhecimento que nos leva a refletir não só teoricamente, mas de modo prático, as diversas nuances que a linguagem proporciona em seu uso real.
Estes ensaios de formas distintas conduzem o leitor a um estudo acurado e necessário do que chamamos de enunciação, proporcionando um entendimento sobre o produto/processo da interação entre indivíduos, histórica e socialmente organizados, dentro de determinada ideologia.
O material não se detém como já foi dito antes, apenas a uma reflexão teórica, ao contrário, mostra a via de construção de um trabalho acessível a estudiosos e interessados na área, incluindo o pesquisador, o professor, o professor/pesquisador, uma vez
Página | 5 que nem sempre o professor está envolvido em pesquisa, apesar de ser este o melhor caminho. Nessa vertente, o trabalho do
linguista em pauta instiga essa atitude e, logicamente, clama ao aluno ou ao aprendente a perceber a necessidade de interagir com o texto. O trabalho é, sem dúvida, rico em troca de ideias que possibilitarão o avanço na identificação de ações efetivas no ensino de línguas.
O primeiro ensaio quem tem como título “A plurivocalidade e alguns ‘modos de inter-relação entre discursos’” apresenta as vozes entrelaçadas, tecidas, configuradas, no discurso, estudadas, por exemplo, a partir de uma reportagem da revista Nova Escola. Uma proposta de caráter inovador, pois mostra como é possível fazer com que os interessados lidem com o texto dentro de uma realidade que se constitui em seu meio social.
O trabalho não se prende apenas a uma exposição de conteúdos que pode ser estudada de modo superficial, ao contrário, mostra a via de construção de tarefas a serem realizadas em sala de aula ou em formações acadêmicas/profissionais. Assim, percebe-se claramente a forma como o autor se mostra íntimo com o material do qual faz uso. O modo como concebe as falas, considerando uma dada ‘situação’, o ‘tempo’, o ‘espaço’, a própria ‘enunciação’ da temática que está envolvido, bem como o ‘fato’ a ser considerado, o que dita as ‘posições dos interlocutores’. Esses são fatores que denotam o grau de conhecimento do autor e deverá promover o esforço do leitor, a fim de que se possa usufruir completamente dos achados aqui expostos.
São colocadas em discussão formas diferenciadas em relação ao entrelaçamento das variadas vozes sociais analisadas. O autor opta pela via da filosofia da linguagem, que ressalta os estudos concernentes ao homem e à sociedade, indo de encontro, inclusive, como ele próprio informa “ao objetivismo abstrato”, percebido na linguística saussuriana, que concebia a língua apenas como um “sistema”. O autor também escolhe mostrar, diferentemente da estilística que tem o estilo individual como elemento de estudo, a ‘estilística sociológica’. Busca ainda, distanciar-se do ‘psiquismo individual’.
Página | 6 A ousadia no trato com o tema é notória. O pesquisador mostra arrojo e independência no seu próprio campo do saber,
contudo, a fundamentação teórica utilizada, a precisão, a seriedade e a competência com que vai se concretizando seu estudo.
Impressiona quando chega ao momento de análise, ou seja, ao tomar o material da revista para mostrar a presença das vozes distintas nos textos. É nesse ínterim que se percebe que os discursos vão sendo desvelados paulatinamente, mostrando os
‘argumentos de autoridade’, utilizados pelo autor, que elenca elementos observáveis e passíveis de análise. O texto é rico e imprescindível para a formação do leitor crítico, sujeito de sua própria história.
O segundo ensaio traz a temática “O que é uma leitura enunciativo-discursiva” e versa sobre a necessidade de ver o texto além da palavra escrita, além de um amontoado de informações ou simplesmente de vê-lo apenas como forma ou ‘conteúdo’.
Santos Filho mais uma vez dialoga com Bakhtin ao conceber o texto como um elemento que se concretiza entre o “eu” e o “outro”, considerando, decerto, o momento histórico, social, político e ideológico, fatores que desamarram ‘os sentidos das palavras’ da estrutura da língua, e tais sentidos vão sendo produzidos, extraídos ou, como diz o autor, ‘forjados’ na relação dos diálogos estabelecidos entre os sujeitos, o que vai além da superfície textual.
Mais uma vez o autor dá um salto na qualidade do material oferecido para estudo, pois se utiliza de textos que são veiculados no meio social, como é o caso do folheto da propaganda da empresa de telefonia ‘Oi’, do qual ressalta para quem está destinado, dando importância ao gênero e ao veículo de circulação. É um ensaio leve e de fácil entendimento, o que aproxima e aguça a curiosidade de estudantes da área.
Dando continuidade em seu estilo provocador e polemizador, discute a existência ou não do vocábulo “presidenta”, mostrando mais uma vez o conhecimento acima das propostas convencionais para o ensino de línguas, dando relevância ao fato de
Página | 7 que é no ‘falar’ que as ‘palavras’ surgem e depois se dicionarizam, e não o contrário. A leitura do texto suscita várias outras
reflexões e não há como não se prender no estilo investigativo, instigante ou mesmo intrigante do autor em pauta.
O tema seguinte já confere em seu título mais uma vez o caráter que polemiza e instiga: “No mínimo - o que se pensam sobre a língua”. Neste, a análise ocorre em alguns fragmentos, mas não diminui em nada o grau de informatividade necessária à formação do bom leitor e/ou analista do discurso. O autor não deixa de prestar as informações mínimas para compreensão do texto, como o que é ‘discurso’, ‘sentido’, ‘interdiscurso’, ‘sujeito’, ‘condições de produção’, ‘formação ideológica’, ‘formação discursiva’ e ‘campo discursivo’, a fim de que os interessados possam dialogar com o texto sem grandes dificuldades.
O autor analisa os fragmentos (recortes) com detalhes imprescindíveis à compreensão do leitor, separando em classes cada fala e enfatizando em seu discurso que a gramática deverá estar como deve, a serviço da língua e não vice-versa, e que os dicionários vão incorporando os novos termos que denotam novas atividades. Mais uma vez o linguista mostra sua marca quando partilha conhecimento e não conjecturas, pois apoia-se em teóricos que seguem a mesma linha, além de apontar que ao se fazer críticas a palavras que ainda não estejam dicionarizadas pode se correr o risco de que tais palavras tornem-se alvo de preconceitos.
O último ensaio versa sobre “O termo ‘intertextualidade’ e alguns de seus conceitos usuais nos estudos de linguagem”.
Este, trata de um estudo que fornece um diálogo entre os mais variados conceitos do termo ‘intertextualidade’, culminando com exemplos do cruzamento entre textos e/ou discursos.
Posso afirmar que se tem nesse ensaio um material completo para um curso inteiro sobre a temática, por trazer uma coletânea de discursos e diálogos entre vários autores. O linguista Santos Filho, ao se expressar, não se esquece de mencionar a importância do assunto que extrapolou a simples noção de encontro de um texto com o outro e que assegurou seu lugar na escola,
Página | 8 sob a forma de conteúdos, bem como em concursos, em provas usuais, provando ter se tornado corpus de pesquisa e ocupação de
diversos estudiosos.
O autor realiza seus estudos fazendo um passeio histórico e conceitual sobre o termo em pauta, mas não se furta de exemplificar o que retrata, tal como nos demais ensaios, saindo da teoria para a prática, entre os exemplos, está a pertinente análise feita com a música “Cálice”, de Chico Buarque de Holanda e Gilberto Gil e o trecho Bíblico, (Lc, 22), retirado de exames para o vestibular, mostrando que a prova trata da intertextualidade de conteúdo. Explicita bem a temática usando outro exemplo, da revista Veja, que tem como tema a reportagem sobre o Partido dos Trabalhadores, mas traz isso no encontro da imagem da capa com as palavras que a apresentam. Desta feita mais uma vez o autor discorre com maestria sobre o tema.
Outra grande sacada do linguista, que novamente demonstra ousadia está na análise do texto da banda “Aviões do Forró”, cujo título é “Mulher não trai, mulher se vinga”. É neste ponto que, com bom humor e conhecimento, o analista mostra os discursos que se entrelaçam, sem deixar espaços para vaguidade. Ou seja, além de analisar bem o texto, aponta sugestões de trabalho em sala de aula. Creio ser esse o diferencial e o caráter mais enaltecedor do seu trabalho, mostrar que é possível a operacionalização dos conhecimentos, noutras palavras, passar da teoria para a prática.
É impressionante o estilo do autor em todos os ensaios, ou seja, a forma como ele próprio se desprende de si para aproximar-se do outro. Seu “eu” por vezes toma vida na tentativa de fazer com que o interlocutor interaja com seu texto. Isso caracteriza não somente a veia do professor/pesquisador, mas do sujeito construtor de sua própria história. A forma como redige gera esperanças de que o estudo através da leitura seja uma das necessidades fundamentais do ser humano, enquanto fonte de aquisição de conhecimento.
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A PLURIVOCALIDADE E ALGUNS “MODOS DE INTER-RELAÇÃO ENTRE DISCURSOS”
1“(...) em cada momento da sua existência histórica, a linguagem é grandemente pluridiscursiva” (Bakhtin, 1934: 35)
A REFLEXÃO
aqui desenvolvida diz respeito à diversidade de vozes presentes em um enunciado, a plurivocalidade, e aos diversos modos como essas vozes são costuradas no fio do discurso. Antes, e para a compreensão dos princípios da plurivocalidade, apresentamos a concepção de linguagem que se configura no Círculo de Bakhtin, a partir de Mikhail Bakhtin e N.Volochínov, esclarecendo as relações entre linguagem, consciência e vida social. No segundo item da discussão, delimitamos a abordagem aos conceitos de enunciado e gênero do discurso. Na segunda parte do segundo tópico, a discussão detém-se explictamente ao foco de estudo desse texto, qual seja, a diversidade de vozes no enunciado, a plurivocalidade, e os “diversos modos de inter-relação entre discursos” (Cunha, 2006: 121). Para o estudo em apresentação, tomamos como referência os textos “O
1 Ensaio escrito em 2008 e entregue à professora Drª Dóris Arruda, como conclusão da disciplina “Teorias Dialógicas da Linguagem”, no Curso de Doutorado, no PGLetras/UFPE. Em 2011, publicado na revista Linguasagem, 17ª edição.
Página | 10 discurso na vida e o discurso na arte” ([1926] 1976), “Qué es el lenguaje?” ([1929a] 1993), “Marxismo e Filosofia da Linguagem”
([1929b] 2004), “A estrutura do enunciado” ([1930] 1981), “O discurso no romance” ([1934-35] 1988) e “Gêneros do discurso” ([1952- 53] 2003), do Círculo de Bakhtin.
Para ilustrar os diversos modos de entrelaçamento das diversas vozes sociais em um enunciado, utilizamos exemplos retirados de uma reportagem publicada na revista Nova Escola em maio de 2008. Vale destacar que outros estudos que dialogam com os estudos do “Círculo” foram consultados, tais como Cunha (2006), Freitas (2006) e Santos Filho (2007).
Esclarecemos ainda que os estudos desenvolvidos por esses pensadores russos refletem acerca da relação homem e sociedade, através de uma filosofia da linguagem. Nessa intenção, estabelecem críticas à linguística saussereana, a qual, para eles, se pautava em um objetivismo abstrato, pois encarava a língua apenas como apenas um sistema. Desenvolveram em seus estudos oposição também à estilística tradicional que se fundamentava em uma concepção de estilo individual do autor, propondo uma estilística sociológica. Opuseram-se, da mesma forma, às psicologias interpretativa e funcionalista, visto que estas apenas concebiam a consciência como fruto de um psiquismo individual.
A linguagem, a consciência e a vida social – princípios da plurivocalidade
Inicialmente, na intenção de explicar o que é a linguagem, Volochínov ([1929a] 1993) diz que ela está atrelada ao processo de formação e desenvolvimento humanos e que não é de origem sobrenatural, tampouco uma invenção consciente do
Página | 11 homem. Ao contrário, afirma que ela surge da necessidade que o homem teve de dizer algo ao outro, devido à necessidade de
unirem-se em grupo, formando uma comunidade, para e através do trabalho. Esse pensador argumenta que a linguagem nasceu da atividade coletiva, aquela na qual os homens passaram a ter objetivos comuns. Seguindo esse racocínio, podemos compreender que a linguagem é a “capacidad de representarse el objetivo común” (Volochínov, [1929a] 1993: 228), inicialmente com mímicas e gestos, e mais tarde com o uso da palavra, permitindo, assim, que os homens se compreendessem reciprocamente. Logo, a linguagem é fruto e colabora com o processo da socialização humana.
Volochínov ([1929a] 1993) esclarece ainda que a compreensão, o entendimento recíproco, apenas pôde/pode existir porque a linguagem enquanto significação nada mais era/é do que a expressão da experiência compartilhada entre, no mínimo, dois homens. Ou seja, para ele, para que o significado de um gesto, por exemplo, atribuido por um homem fosse/seja compreendido por outro homem era/é preciso que esse gesto tivesse/tenha valor social, isto é, que faça parte da experiência que esses homens dividem. Nessa compreensão, através das experiências materializadas pela linguagem, o homem passa a interagir com o outro – “comprensión del signo y la respuesta al mismo” ([1929a] 1993).
Quando Volochínov ([1929a] 1993) e Bakhtin e Volochínov ([1929b] 2004) discutem a materialização da linguagem, eles estão falando do signo e do processo de compreensão; acerca do processo de interação, pois, para eles, quando um
“eu” diz algo ao “outro” ele está significando a experiência que eles têm compartilhada através de um signo. Para melhor explicar signo, esclarecem que ele é diferente de um corpo físico, que vale por si mesmo, coincidindo inteiramente com sua natureza, como um martelo ou uma foice, enquanto instrumentos de produção que desempenham apenas determinada função, sem significar outra coisa. Todavia, quando esses instrumentos são usados como emblemas da União Soviética, por exemplo, convertem-se em signos,
Página | 12 isto é, convertem-se em algo que “tem uma encarcação material, seja como som, como massa física, como cor, como movimento do
corpo ou outra coisa qualquer” (Bakhtin e Volochínov, [1929b] 2004: 33), como imagem, neste caso, a figura abaixo, e que mesmo pertencendo a essa realidade material significa uma outra realidade, como podemos entender a partir do esclarecimento encontrado na enciclopédia virtual Wikipedia.
A foice-e-martelo é um símbolo usado para representar o comunismo e os partidos políticos comunistas. O desenho apresenta uma foice sobreposta a um martelo, de forma que pareçam cruzados ou entrelaçados. As ferramentas simbolizam, respectivamente, o proletariado industrial e o campesinato — as duas classes cuja aliança é considerada fundamental pelos marxistas-leninistas para o triunfo da revolução socialista. O emblema é mais conhecido por ter sido incorporado à bandeira vermelha da União Soviética, bem como a cada uma de suas repúblicas constituintes, junto com a Estrela Vermelha. (Wikipedia virtual, 2008)
Quando usamos a linguagem na interação com o “outro”, expressamo-nos por meio de signos, isto é, de algo que remete para fora de si mesmo, como o exemplo citado acima, passa a significar “o comunismo e os partidos políticos comunistas”. Sobre signo, Volochínov e Bakhtin ([1929b] 2004: 32), levam-nos à compreensão de que, paralelo aos fenômenos naturais, aos do mundo material e aos produtos de consumo, existe um universo específico, que é o mundo dos signos – o mundo dos significados. Também segundo eles, “onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico”, o valor que o signo assume
Página | 13 no processo de interação, decorrente das intenções do “eu” em relação ao “outro” discursivo e da situação comunicativa.
Voltaremos a abordar esse aspecto mais adiante. Antes, preferimos melhor especificar a função da linguagem na vida social.
No tocante à função da linguagem na vida social, esses pesquisadores questionam dois aspectos: i) o papel que a linguagem tem no processo da vida social, a influência inversa que a linguagem tem sobre as relações sociais a que deu origem, e ii) a relação entre linguagem e pensamento, ponto, por eles, considerado merecedor de uma cuidadosa observação. Em relação aos dois primeiros itens, segundo eles, a linguagem constitui, ao lado do mundo natural, como já apontamos, o mundo da significação, que é social e histórico e que permite a interação entre grupo distintos, a qual organiza o trabalho e o pensamento (a consciência), que imprime reflexos sobre a comunidade social organizada.
No que se refere à relação linguagem e consciência, podemos entender que no processo de comunicação, o signo sempre é a expressão “visível” de um “eu”. Por isso, foi pensado como individual. Nesta direção, os estudos da psicologia interpretativa e funcionalista encararam toda e qualquer expressão de um “eu” como um enunciado de criação individual; fruto do psiquismo, isto é, encararam o fato linguístico como expressão de caráter individual; fruto de uma consciência também individual.
Porém, os estudos do Círculo de Bakhtin mostram-nos que a linguagem não é fruto de uma consciência individual, ao contrário, de uma consciência coletiva; social. Ou seja, para esses pensadores, a consciência jamais pode ser entendida como individual, visto que os sentidos que expressamos em determinado processo interativo é fruto das relações dentro do grupo ao qual pertencemos, pois, é nas relações socias, através da linguagem, que a consciência de cada indivíduo é construída, formando a sua vida interior. Isto é, o conteúdo do psiquismo é elaborado fora do organismo, nos fatos sociais. Com Santos Filho (2007), com base nos estudos do
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“Círculo”, podemos entender que é na síntese dialética processual entre as palavras exteriores e a expressão interior que a consciência se forma, formando também a vida social, sempre em comunhão. Para Santos Filho (2007),
(...) o discurso que se desenvolve nas relações estabelecidas entre os indivíduos se integra ao organismo individual e se torna fala interior (potencial expressão), podendo, em seguida, exteriorizar-se: é “texto” que, novamente nas relações sociais, é seiva para a atividade mental, para sua exteriorização e para o estabelecimento de novas relações sociais. Assim, é importante considerarmos que toda e qualquer expressão semiótica tem o psiquismo como uma instância obrigatória de passagem e que sem a exteriorização o discurso interior não existe. Em decorrência disto, entendemos que o discurso interior não está fechado em um organismo vivo, ao contrário, está subordinado às leis sócio-históricas – é forjado na relação do homem com o homem (discurso exterior) (Santos Filho, 2007: 10).
Todavia, é importante entendermos como o homem apreende o discurso do outro. Bakhtin ([1934-35] 1988:
146), sobre isto, traz a seguinte problemática, “como é o discurso ativamente absorvido pela consciência e qual a influência que ele tem sobre a orientação das palavras que o receptor pronunciará em seguida?” Para responder, o próprio pensador comenta que a expressão de um “eu” é fruto de sua compreensão da expressão do “outro”. Ele diz que o “eu” apreende a apreciação do “outro”, ao mesmo tempo em que lança sua apreciação, sempre ativa, sobre o objeto de discurso, e expressa-se. Sendo assim, a apreensão do discurso do “outro” passa pelo processo de compreensão através de duas instâncias interligadas, a réplica interior e o comentário efetivo.
Página | 15 De acordo com o entendimento anterior, é possível vislumbramos os princípios da plurivocalidade, pois, não
sendo a consciência individual, mas coletiva, e sendo o fundo perceptivo do “eu” discursivo, a expressão desse “eu” (que é gerada nessa atividade mental, em constante diálogo consigo mesma e com o meio no qual vive) está impregnada de outras vozes com as quais ele estabele relação. Desta forma, o pensador russo aconselha que para entender a apreensão do dicurso do “outro”, devemos observar como a voz do “eu” dialoga com a voz do “outro”, visto que, em suas palavras, “a palavra vai à palavra” (Bahktin, [1934- 35] 1988: 147). Dito isso, ele afirma que as formas2 pelas quais o discurso do “outro” entra no discurso do “eu” revelam como as diversas vozes sociais são ativamente absorvidas pela consciência.
É de fundamental importância compreendermos que em meio às relações sociais, as palavras do “eu” passam através da orientação social e histórica, por um processo de refratação, que é ideológica. Ou seja, o sentido que uma expressão de um “eu” passa a ter nas relações sociais depende da época, do ambiente social, da posição de classe do falante e do ouvinte, e da situação real e concreta na qual a expressão surge (Volochínov, [1929a] 1993). Logo, com Bakhtin e Volochínov ([1929b] 2004; [1934- 35] 1988) entendemos que as palavras ditas, nascidas da dialogia com outros discursos sociais, podem ter duas orientações ideológicas, i) conservar a integridade e autenticidade do discurso alheio, trazendo-o explicitamente para a sua voz, ou ii) apagar as fronteiras entre essas diversas vozes e apresentar sua voz e as diferentes vozes sociais através de um processo de infiltração, no qual essas vozes se interpenetram, sem demarcações explícitas. Na primeira orientação, revela-se o autoritarismo do outro, da palavra do “outro”, e, na segunda, o relativismo das apreciações sociais.
2 Abordaremos as formas no item 2.2, desse texto.
Página | 16 Dissemos anteriormente que onde está o signo está o ideológico. Deste modo, pelo exposto nos parágrafos
anteriores, compreendemos que o signo é ideológico porque é, a partir de um “eu”, um reflexo da realidade social, ao mesmo tempo em que é uma realaboração da realidade; uma ressignificação, aquilo que Bakhtin e Volochínov ([1929b] 2004) chamam de refratação do real. Dito de outra forma, o discurso é ideológico porque ao mesmo tempo em que aponta a realidade, ele reatualiza os sentidos, em virtude da função que aquelas palavras ocupam na comunicação: desejos, objetivos, necessidades, efeitos, etc. A palavra é ideológica visto que é uma expressão de uma idéia e, além disso, é uma tomada de posição do “eu” discursivo frente aos outros discursos sobre o objeto falado (Freitas, 2006). Nos processos interacionais, “a palavra é o fenômeno ideológico por excelência” (Volochínov e Bakhtin, [1929b] 2004: 36).
Como vemos, a linguagem enquanto significação surge da necessidade de socialização entre os homens e que é assim que acontece a interação humana: o processo no qual o “eu” expressa-se, com determinado tom, e espera resposta(s), mesmo que não sejam imediatas e visíveis. Desta forma, a linguagem para o Círculo de Bakhtin é essencialmente processual, dialógica, axiológica e plurivocal.
De acordo com o raciocínio até aqui desenvolvido, o processo interativo foi pelo “Círculo” denominado de expressão, signo, depois de discurso, discurso verbal, discurso humano, enunciação, enunciado, enunciado concreto e enunciado pragmático concreto, e finalmente apenas de enunciado. No tópico que segue, trataremos do conceito de enunciado, e das formas específicas do enunciado, as quais foram denominadas de “estruturas”, “tipos e formas de discurso”, “gêneros linguísticos”, “formas de discurso”, “modos de discurso” e, posteriormente, “gêneros do discurso”. Ainda no item que segue, especificamos a plurivocalidade, característica inerente ao enunciado, e alguns modos de sua realização.
Página | 17 A comunicação viva: suas características, suas formas particulares, os gêneros do discurso, e os modos de inter-relação entre discursos
O enunciado, suas características e formas específicas, os gêneros do discurso
Seguindo o pensamento antes exposto, compreendemos que as expressões, os enunciados, tanto as do “eu”
quanto as do “outro”, tomam formam e possuem características específicas que as constituem. Nessa etapa do texto, retomamos alguns dos fundamentos da linguagem em Bakhtin e Volochínov para explicitar as características constituintes de um discurso humano, um enunciado. Inicialmente, de acordo com os estudos do “Círculo”, podemos dizer que o discurso é biface e que possue duas partes. O enunciado é biface porque, como já evidenciamos no tópico anterior, ele nasce de um processo de interação entre um
“eu” e um “outro”, indivíduos organizados socialmente. Dessa forma, a palavra do “eu” é sempre direcionada a um “outro”, o qual é considerado co-participante do discurso. Na concepção de discurso enquanto diálogo, jamais haverá um enunciado sem o ouvinte, que pode ser real, aquele das comunicações cotidianas, normalmente face-a-face, ou pode ser um representante médio de um grupo, como em cartazes, nos quais o “outro” é apenas presumido como um representate daquele grupo de leitores, e pode ser ainda um sobredestinatário, aquele outro que está esfacelado no tempo e no espaço, aquele de enunciados do tipo emocional.
Assim, uma primeira característica de um enunciado é a dialogia estrita.
Página | 18 O discurso interior, aquele do “eu” solitário também tem caráter dialógico, pois, possui ouvinte, mesmo que
virtual; o “outro” é potencial. Para Volochínov ([1930] 1981), podemos vislumbrar a “conversa interior” em enunciados como o diário íntimo e as notas de uso privado. Nestes, escrevemos para um outro que não aparece de forma clara para o locutor; é um
“ouvinte-interlocutor invisível” ([1930] 1981: 08), que pode se comportar como aliado, testemunha simpatizante ou juiz reconhecido. Nesse caso, as vozes que ressoam na atividade mental estão também povoadas pelas vozes do outro potencial.
Os enunciados, sejam exteriores ou interiores, são dialógicos, sejam de forma estrita ou de forma ampla, pois se constituem como elos no conjunto das comunicações verbais ideológicas, visto que cada um é uma resposta a enunciados anteriores e espera por respostas, interligando-se a discursos passados e/ou contemporâneos: “responde (...), refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura apoio, etc”, como confirma Bakhtin e Volochínov ([1929b] 2004: 123). Para ilustrar a dialogia ampla, eles citam que o livro “é uma simples gota no rio da comunicação verbal” (Volochínov, [1930] 1981: 02).
Segundo eles,
O livro, isto é, o ato de fala impresso (...) é objeto de discussões ativas sob a forma de diálogo, além disso, é feito para ser apreendido de maneira ativa, para ser estudado a fundo, comentado e criticado no quadro do discurso interior, sem contar com as reações impressas, institucionalizadas, que se encontram nas diferentes esferas da comunicação verbal (críticas, resenhas, que exercem influências sobre os trabalhos posteriores, etc). Além disso, o ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as de outros autores: ele decorre portanto da situação particular de um problema científico ou de um estilo de produção literária (...) (Volochínov e Bakhtin, [1929b] 2004: 123)
Página | 19 Para o “Círculo”, outra caraterística do enunciado é o aspecto de posssuir duas partes, a parte verbal (ou em
outra materialidade) e a parte presumida, a situação pragmática extraverbal. Caso olhemos para um discurso humano apenas em sua materialide, não o enxergaremos por completo, pois, é necessário que o situemos em um dado contexto, aquele do qual ele emerge. Por isso, Volochínov ([1930] 1981) e Bakhtin ([1952-53] 2003) dizem que o enunciado é uma unidade concreta e não apenas uma palavra ou oração; é uma unidade indissolúvel, constituida por uma parte “percebida” e outra parte presumida.
Para melhor entender o presumido, é necessário compreendermos que todo e qualquer enunciado nasce da interação entre indivíduos, num contexto social, em um tipo de comunicação social e em uma dada situação imediata, “a efetiva realização, na vida concreta, de uma determinada formação, de uma determinada variação da relação de comunicação social”
(Volochínov, [1930] 1981: 03), que está em interligação com o contexto social mais amplo e que dá sustentação à comunicação.
Quando falamos em situação, estamos nos referindo ao espaço e tempo, o objeto ou tema do enunciado e à posição dos interlocutores diante do fato, isto é, a avaliação sobre o objeto do discurso. São esses aspectos da constituição do enunciado que orientam a entoação impressa na interação em direção ao auditório, ou seja, são esses aspectos que forjarão a posição que o “eu” do discurso assumirá sobre o objeto e sobre o “outro” discursivos. Logo, o enunciado aparece sempre como uma avaliação sobre e para uma dada situação; uma resolução.
Como visto no parágrafo anterior, o enunciado nasce de um contexto social e amplo e, deste, de tipos comunicacionais socias, tais como relações de produção e de negócio, relações quotidianas e nas relações ideológicas strictu sensu,
Página | 20 fator fundamental para construção de sua estrutura, para que o discurso se torne um “tipo relativamente estável de enunciado”
(Bakhtin, [1952-53] 2003). Um enunciado é sempre forjado em um tipo específico de discurso, que possue duas modalidades, pode ser primário, aquele elaborado nas interações do cotidiano, ou secundário, que emerge nos sistemas ideológicos organizados, como a ciência, a literatura, a mídia, etc., pois, cada um desses tipos de comunicação estrutura (e estrutura-se como) modos diferentes de refletir e refratar a realidade, para atender aos objetivos de cada esfera de comunicação.
Em resumo, é o tipo de comunicação social que imprime sobre o discurso a entoação e esta por sua vez define a forma da expressão, o conteúdo, o sentido e a coloração estilística desse discurso, ou seja, é no tipo de comunicação que o gênero do discurso se define. No tópico que segue, na tentativa de compreender melhor a característica plurivocal da linguagem, chamaremos a atenção para o o estilo, os recursos linguísticos que acabam por revelar as relações sociais entre as diversas vozes sociais estabelecidads através dos diálogos.
Tendências e alguns recursos estilísticos na construção do enunciado plurivocal
Todo gênero discursivo é a encarnação discursiva das relações sociais, logo, é ideologicamente impregnado.
Assim, o estilo que um determinado gênero assume é fruto (e pode revelar) o jogo das forças dentro da esfera ao qual pertence.
Sendo assim, os esquemas linguísticos apenas podem ser estudados como estilo de gênero, jamais pensados como pertences à individualidade do autor ou como a individualização da língua, na percepção saussureana.
Página | 21 Volochínov e Bakhtin, em “Para uma história das formas de enunciação nas construções sintáticas”, no livro
Marxismo e Filosofia da Linguagem ([1929b] 2004) e Bakhtin, no texto “O discurso no romance”, em Questões de Estética e Literatura ([1934-35] 1988), desenvolvem estudos sobre os esquemas linguísticos que servem para a integração das enunciações, isto é, servem de integração e materializam das diversas vozes em um enunciado. Seus estudos estão situados a partir de gêneros literários específicos, o poema e o romance. Nesse nosso trabalho, apenas apresentamos alguns modos de inter-relação entre discursos, denominados por eles de padronizados, bem como as suas variantes. Chamamos a atenção para o fato de que em nosso trabalho não fazemos referências aos fatos e/ou fatores sócio-históricos que concorreram para o surgimento/formação de tais esquemas linguísticos.
A coloração estilistica em um determinado gênero é oriunda das forças sociais que regem a comunicação.
Assim, é importante saber que em determinadas épocas, em dado tipo de comunicação, podem prevalecer as forças centrípetas, aquelas que direcionam o discurso para uma “linguagem única”, a centralização de uma concepção de mundo; de uma opinião concreta; uma concepção de mundo linguístico estatizado, no qual os elementos da linguagem, tais como vocabulário, aspectos semânticos e formas sintáticas tendem a servir a uma só orientação social. Nesse caso, tenta-se negar a plurivocalidade inerente a todo e qualquer enunciado. Essas forças estão sempre em luta com as forças centrífugas, aquelas nas quais, ao contrário, brigam por uma linguagem múltipla, pelas opiniões sociais multidiscursivas. Quando sob a direção das forças centrífugas, o estilo dos gêneros mostra em seus traços linguísticos que “o objeto [tema do discurso] está amarrado e penetrado por idéias gerais, por pontos de vista, por apreciações de outros e por entoações” (Bakhtin, [1934-35] 1988: 86).
Página | 22 Segundo os pensadores russos em estudo, quando a voz do “eu” traz a voz do “outro” para a construção do enunciado, traz mais
do que o tema, traz também o outro “em pessoa”, pois, além do tema do discurso deixa ver a integridade linguística, mesmo que apenas por rudimentos. Isso significa que “a substância do discurso do outro permanece palpável” (Volochínov e Bakhtin, [1929b]
2004: 145), mesmo que o discurso tenha a tendência de estilisticamente ser univocal.
Quando a comunicação nas relações presta-se mais às forças centrípetas, isto é, busca um uníco tom em seus discursos, prevalece nos gêneros discursivos a tendência à conservação da integridade e autenticidade do discurso do outro, para emanar uma firmeza ideológica. Com isso, explicita-se a fraqueza do fator individual interno, pois, parece não existirem réplicas e comentários desse “eu” discursivo. Esse estilo é denominado de linear. Nessa orientação, Volochínov e Bakhtin ([1929b]) apontam como modelos de esquemas linguísticos o discurso direto e o discurso indireto impessoal. No discurso direto, as palavras do outro são marcadas, semântica e sintaticamente, na tentativa de isolá-las de inflitrações de outros discursos. No indireto impessoal, a fala do outro é incorporada ao discurso sem repetição ipis verbis, pois objetiva apenas apresentar o contéudo do discurso alheio. Neste caso, não há um sujeito aparente.
Diferentemente, quando as relações estão a favor da multiestratificação da realidade, sofrendo fortes influências das forças centrífugas, o estilo dos gêneros é marcado pelo relativismo das apreciações sociais, logo, pelo enfraquecimento das fronteiras entre os discursos. Nessa orientação, o estilo predominante é chamado de pictórico. Os modelos de formas estilísticas predominantes nessa tendência são discursos indireto, indireto impressionista, discursos direto preparado, direto esvaziado e direto substituído, e por fim, o discurso indireto livre. Ainda nessa tendência, temos o discurso do gênero intercalado. Quando analisa o gênero romance, como um gênero discursivo no qual predomina o estilo pictórico, Bakhtin ([1934-35] 1988) destaca quatro
Página | 23 modelos de esquemas linguísticos, o discurso humorístico, o discurso refractante do narrador, o discurso refractante da fala dos
personagens e o discurso do gênero intercalado. Em nosso trabalho, dessas últimas quatro formas linguísticas, abordaremos apenas o discurso do gênero intercalado, visto que as demais já estão contempladas nos modelos antes mencionados, exposto em Volochínov e Bakhtin ([1929b] 2004). Vejamos o quadro:
Discurso indireto
O discurso alheio é incorporado, mas não na língua própria. Ele é demarcado, entretanto, as marcas são fracas e, assim, tem como “alma” a análise. Desta forma, “ouve” de forma diferente o discurso do outro.
Discurso indireto impressionista
Nas palavras de Bakhtin (1929b: 164), essa construção “é essencialmente utilizada para a transmissão do discurso interior (...) trata do discurso de outrem com bastante liberdade, abrevia-o, indicando frequentemente apenas seus temas e suas dominantes (...)”.
Discurso direto preparado
Nesse tipo, o discurso direto é precedido por um fundo de apreciações sobre o tema que virá. Logo, as fronteiras, antes rígidas, são enfraquecidas por fundo de entoações do “eu” do discurso.
Discurso direto esvaziado
Nesse, o contexto põe sobre o discurso do outro “espassas sombras” (Bakhtin, 1929b: 166), diminuindo o valor das palavras citadas.
Discurso direto Este esquema apresenta uma pergunta do outro em seu próprio discurso interior. Bakhtin e Volochínov (1929b: 171) dizem “O autor em pessoa fica aqui na frente da cena, substitui o seu herói,
Página | 24 substituído servindo-lhe de porta-voz”.
Discurso indireto livre Nessa forma, há uma solidariedade total entre os diversos discursos: o discurso do outro é formamente dito pelo “eu”.
Discurso do gênero intercalado
Nesse caso, um gênero discursivo entra no outro gênero como discurso de outrem, porém conserva a sua estutura, sua originalidade, estilística e linguística e sua autonomia.
Quadro 01 – Modelos de esquemas linguísticos que servem às forças centrífugas.
Como anunciamos na introdução, passamos agora a exemplificar alguns desses modos de inter-relação entre discursos. Chamamos a atenção para o fato de que os exemplos foram retirados de uma reportagem (em anexo) da revista Nova Escola, publicada em maio de 2008, que tem como título “Contos 2.0”. É importante considerarmos que a reportagem é um gênero jornalístico, gênero retórico vivo, e que esse tipo de gênero, diferentemente dos gêneros literários, pode não ser tão livre às palavras do outro, como disse Bakhtin ([1934-35]).
Sobre a reportagem em questão, é salutar comentar que ela aparece na revista sobre a rubrica “Sala de aula”, como temática de língua portuguesa. Segundo o lead, “ao apresentar diferentes versões dos contos de fadas, professora leva alunos do 5º ano a compor um livro com as próprias adaptações”: essa matéria é uma apresentação de um projeto vencedor do Prêmio
Página | 25 Victor Civita Educador Nota 10 de 2007, desenvolvido em uma escola pública. De acordo com a rubrica, possivelmente a
experiência explicitada no texto servirá de modelo aos professores-leitores do periódico.
Como já alertamos, o estilo apenas pode ter vida se pensado dentro de um gênero, que emerge na dinâmica das relações sociais, em um tipo específico de comunicação. Por isso, antes de mostramos os esquemas linguísticos que são utilizados nesse texto, é oportunos vislumbramos que apesar da assinatura de Débora Didonê na reportagem, preferimos entender a autoria desse texto, a partir de Santos Filho (2007), como uma autoria institucional, como posição axiológica da revista Nova Escola. Para argumentar a respeito da posição ideológica do periódico, tratamos acerca da relação desse media com seu interlocutor:
(...) a relação dialógica entre a revista Nova Escola e o professor-leitor orienta com grande poder as ações docentes, isto é, tem sobre essas ações (a prática pedagógica) fortes implicações, no sentido de que este media oferece ao professor-leitor estruturas para o dia, pontos de referência, pontos de parada, para a contemplação e para o engajamento e poucas oportunidades para olhar de relance e para o desengajamento (...) Entretanto, não estamos afirmando que o interlocutor dessa revista é um professor passivo, mas que, em decorrência da posição assumida pelo periódico e pela postura da interlocução docente, supostamente, sua palavra é controlada;
limitada (...) (Santos Filho, 2007: 154).
As informaçõe acima tratadas têm a intenção de fazer-nos compreender o uso dos esquemas linguísticos como fruto da relação dialógica, plurivocal e, essencialmente axiológica, da revista com seu interlocutor, e qual a orientação ideiológica
Página | 26 que se apresenta na relação do “eu” com o discurso do “outro”. Dos casos das formas linguísticas citadas por Bakhtin e Volochínov
([1929b] 2004) e Bakhtin ([1934-35] 1988) e por nós mostrados anteriormente, exibimos abaixo cinco casos presentes no gênero já comentado. Em nossa leitura da reportagem, fica evidente o uso do discurso indireto, o discurso direto, discurso direto preparado, o discurso indireto livre e o discurso do gênero intercalado. Contudo, o caso que mais se enxerga é o discurso direto preparado, aquele que é precedido de um fundo apreciativo, em nossos exemplos formado pelo discurso indireto e/ou indireto livre. Vejamos os casos:
1) (...) Afinal, nessa fase a garotada já conhece os contos clássicos, mas erra muito na ortografia, não identifica diferentes gêneros textuais e têm dificuldade para expor idéias com coerência (...) A professora priorizou a produção individual na avaliação inicial das crianças.(...) “Quando pedi que escrevessem um conto de fadas, notei que elas faziam confusão com elementos de outros tipos de textos, como os de assombração. Isso mostra que tinha pouca leitura. A solução lógica foi fazê-las ler mais”.
2) A essa altura já era difícil conter a ansiedade da turma. “No início do projeto, a sala não gostava de escrever, não expunha o que sabia nem as idéias que tinha. Na produção coletiva, os pequenos já queriam escrever sozinhos e não viam a hora de fazer o próprio texto”, lembra a professora.
3) Na avaliação dos selecionadores, a iniciativa se destacou por desenvolver os comportamentos escritores nos alunos. Isso quer dizer que, além de praticar os procedimentos de produção e revisão de textos, a turma aprendeu a pensar nos leitores aos quais esses escritores se destinam e nas histórias que serviriam para eles (...)
Página | 27 4)
Figura 01 – Recorte da reportagem “Conto 2.0”: visualização do gênero nota.
5) O.k., não é o tradicional conto de fadas (...) a história de chapeuzinho vermelho mudou de cor e ganhou roupagem atual (...) O criativo enredo faz parte de um livro de contos “modernizados”, produto final de um (...).
No exemplo 1, temos claramente, de forma sublinhada, o discurso indireto livre, pois, o que se diz é oriundo da fala da professora que desenvolveu o projeto, entretanto, em momento algum há, explicitamente, demarcações das fronteiras entre as vozes. Ao contrário, uma solidariedade total da revista com a enunciação dessa educadora. O trecho tachado se constitui como um discurso indireto, aquele no qual o outro é mencionado, mas não na língua própria. Em seguida, temos o discurso direto
Página | 28 preparado (em negrito), preparado pelos esquemas antes construídos, emergindo das entoações antes expostas, as quais enfraquece
suas fronteiras. Desta forma, à enunciação direta da professora é infliltrada pelos acentos da revista. No exemplo 2, o discurso direto preparado sofre inflitrações através apenas do discurso indireto livre.
O exemplo 3 revela-nos outra voz na reportagem, a dos selecionadores dos projetos no Concurso Professor Nota 10 de 2007, da Victor Civita. Essa voz é apresentada sob a forma de discurso indireto. No exemplo 4, a voz que surge parece ser a do editorial da revista, que é inserida na reportagem em sua totalidade, com seu conteúdo e suas características linguísticas. Sob uma forma peculiar, neste caso, a bivocalidade é engendrada com a intercalação do gênero nota, entendido com Moraes (2006) como um registro curto que objetiva transmitir informação para recordar. O último exemplo (5) faz-nos perceber uma forma de entrelaçamento de vozes bem peculiar: a inserção indireta no discurso da revista de vozes da professora Renata (e/ou possivelmente de seus alunos) através do “espalhamento”, na reportagem, de palavras e expressões, com o O.k., que de acordo com a entoação entendemos que não é a voz do periódico.
Pelo exposto, podemos comentar que é bem provável que a intenção da Nova Escola com a rubrica “Sala de aula” seja deixar falar um professor que tem uma boa experiência a contar aos professores-leitores, aos quais esta sirva de modelo.
Se assim for, temos a explicação para o fato de a reportagem “lida” ter sido construida quase em sua totalidade pela voz da professora Renata, através do uso dos discursos direto preparado, discurso indireto e indireto livre. Com os exemplos de esquemas linguísticos apontados e comentados, esperamos ter possibilitado a compreensão de que as formas da língua não nascem da intenção individual de um autor, mas, do jogo de poder entre as diversas vozes nas relações sociais. O discurso é sempre um multidiscurso.
Página | 29 Algumas considerações
Para fechar essa discussão, neste texto, preferimos (re)dizer que o Círculo de Bakhtin, através dos textos de Bakhtin e Volochínov, com a proposição da linguagem como diálógica, processual, axiológica e plurivocal, permite (e intenciona) que reflitamos sobre a relação homem e organização social, colaborando para que compreendamos que somos seres sócio-históricos e que as nossas tomadas de posição estão povoadas de muitas outras posições. Sobre essa plurivocalidade, acreditamos ser de fundamental importância o entendimento de que os esquemas linguísticos revelam como o “eu” do discurso “absorve” o discurso do “outro”, configurando, desta forma, a relação do homem no meio social, e sua luta ideológica.
De acordo com o Círculo,
(...) é importante levar em conta a posição que um discurso a ser citado ocupa na hierarquia social de valores. Quanto mais forte for o sentimento de eminência hierárquica na enunciação de outrem, mais claramente definidas serão as suas fronteiras, e menos acessível será ela à penetração por tendências exteriores de réplica e comentário (Volochínov, 1929b: 153).
Por isso, como aprendizado, acreditamos que as idéias desses pensadores russos podem nos ajudar a (re)pensar a relação que o homem contemporâneo, nessa sociedade multiletrada, multissemiótica, estabelece com as vozes do outro,
Página | 30 principalmente aquelas nos/dos textos midiáticos, visto que a todo instante somos bombardeados por informações que afetam
diretamente a nossa vida.
Bibliografia
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SANTOS FILHO, I. I. 2007. A dialogia entre a Revista Nova Escola e o professor-leitor: implicações para o trabalho docente. Dissertação (Mestrado).
Universidade Federal do Mato Grosso. Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem.
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Paris, Seuil.
Página | 32
O QUE É UMA LEITURA ENUNCIATIVO-DISCURSIVA?
3Toda enunciação envolve um tom avaliativo impresso pelo sujeito a suas atuações verbais, de com acordo com suas relações com seu interlocutor e o momento da interlocução (SOBRAL, 2009: 83-84)
DURANTE
muito tempo tivemos a ideia de que ler é apenas decifrar os sinais, os símbolos, e que, para isso, bastava apenas aprender a juntar as letras formando palavras, estas formando frases e as frases formando textos. Ou seja, bastava entendermos o funcionamento do sistema de escrita e podíamos sair lendo, isto é, “decifrando” as palavras, as frases e os textos. Entretanto, esse tipo de leitura tratava o texto como se ele fosse abstrato, morto, como se tivesse surgido do nada e, além disso, como se o sentido existisse grudado à superfície textual, preso às palavras. Essa é a leitura que entende o texto como um conteúdo.Opondo-se a essa compreensão, Mikhail Bakhtin, um filósofo russo, no início do século passado, vivendo em cidades que possuíam diversas culturas, etnias, línguas e artes, levanta outra hipótese para o funcionamento da linguagem: ao contrário de imaginar o texto como algo morto, ele é concreto, tem vida, vive na/da vida de sujeitos reais, com histórias. Isto é,
3 Explicação escrita em 2011, direcionada aos alunos do curso de Direito, Uneal, na disciplina Antropologia Jurídica, para a compreensão de uma leitura enunciativo-discursiva.
Página | 33 Bakhtin compreende o texto como um enunciado, como uma “fala” de um “eu” em direção a um “outro”, em um dado momento
histórico, que é também político e ideológico. Assim, para ele, os sentidos dos textos não estão presos às palavras ou às estruturas da língua, diferentemente, os sentidos são forjados na relação entre esses sujeitos que “dialogam” naquele texto, ao mesmo tempo em que dialogam com outros textos. E mais, os sentidos não estão fixados na superfície textual, no sistema, são sempre propostas de sentidos, são tentativas de produzir sentidos, são efeitos de sentido desejados, que podem ser alcançados ou não, quando da leitura pelo outro, o interlocutor. Entendendo assim, ler não pode ser apenas decifrar o código, imaginando que nele tem um sentido grudado, um conteúdo.
Para esta compreensão, entendamos o exemplo apresentado: recentemente, a empresa de telefonia “Oi”
lançou um folheto de propagandas de seus produtos e serviços, e, neste, chama nossa atenção o uso recorrente da preposição “pra”, como verificamos nos destaques abaixo:
Do folheto, a título de ilustração, se queremos realizar uma leitura enunciativo-discursiva, algumas questões são necessárias. Primeiro, necessitamos entender que o texto é um ENUNCIADO, ou seja, que é uma fala de um “eu”, neste caso a
1) “É grátis. É pra você. (na capa)
2) “...Internet 200 MB pra toda vida Oi” (nas primeiras páginas) 3) “Planos pra falar, acessar a internet e enviar SMS à vontade”
4) “São 10 opções de planos pra usar à vontade. Tem planos só pra você e também pra toda a sua família...”
Página | 34 empresa de telefonia “Oi”, em direção a um “outro”. Neste ponto, é necessário que nos questionemos quem é esse OUTRO, isto é,
qual seu PERFIL PSICOSSOCIAL. É importante que entendamos com quem o “eu” que fala nesse enunciado está dialogando. Por que isso é importante? Para que possamos entender as escolhas que ele faz, de palavras, de construção morfológica, como esse
“pra”, de construção sintática, bem como de voz (quando a fala do outro aparece no texto, seja explícita ou implícita). Para isso é importante que consideremos (que saibamos) qual é o GÊNERO DISCURSIVO (se uma carta, uma propaganda, um e-mail, etc.). Por quê? Porque cada texto, cada gênero realiza uma ação na sociedade, logo, sabendo qual é o texto/gênero, saberemos qual a intenção principal do “eu” que produz o texto em relação ao “outro” com quem ele fala. Com essa informação, sobre o gênero, podemos levantar inferências (hipóteses) acerca das escolhas realizadas pelo “eu” e, assim, começar a cogitar quais possíveis sentidos são ali propostos.
Para além disso, é de suma importância que consideremos o VEÍCULO DE CIRCULAÇÃO do texto/enunciado/gênero, pois isso também é de relevância para que imaginemos quais as intenções com as escolhas de palavras, construções morfossintáticas e vozes.
Assim, é salutar o questionamento: qual é o gênero que estou lendo4? Como dissemos, é um folheto de propagandas. Qual é a função de um folheto de propagandas? De acordo com Costa (2009), um folheto tem a FUNÇÃO de divulgar um produto ou um serviço ou ainda dar instruções a respeito de uso de aparelhos, por exemplo. Onde circula esse
4 Normalmente, os gêneros recebem nomes sociais, ou seja, tratamos os textos por nomes. Assim, fica fácil ao ler imaginarmos o nome que é dado socialmente aquele texto e pensar qual a sua função social, isto é, para que aquele texto serve socialmente. Se, mesmo assim, você não souber/compreender para que aquele determinado texto serve, aconselhamos que procure “gênero X”, no Google, pois, certamente alguma pesquisa já deve ter sido realizada sobre o gênero que você pretender estudar e, lá, haverá discussão sobre sua função.
Página | 35 texto/enunciado/gênero? O folheto da “Oi” tem distribuição nas lojas da empresa e, a partir deste local, circula nos mais diversos
ambientes, tais como empresas, casas, outras lojas, salas de recepção de escritórios, etc. É importante saber dessa informação por que, certamente, ao produzir o enunciado (a fala), a “Oi” tinha em mente tal função e tal circulação. Logo, as escolhas que fez de léxico, morfologia e sintaxe não são aleatórias, ao contrário, foram realizadas pensando no outro que leria esse enunciado. Ou seja, a
“Oi” está dialogando com um determinado perfil de pessoa. Podemos inferir, bem rapidamente, que a “Oi” conversa com um público generalizado, desde sujeitos com uma formação escolar alta a sujeitos de formação escolar básica. Todavia, se imaginarmos a dimensão da circulação, é possível delimitar esse perfil e inferir que a “Oi” dialogo com um homem comum, de uma formação básica, e que é um sujeito do consumo, aquele que está, na avalanche do nosso tempo, necessitado de serviços de telefonia e internet, para, assim, conectar-se ao mundo, comportamento que os sujeitos de uma formação mais elevada provavelmente já possuem. Com isso, percebemos que a HISTÓRIA é fundamental, o contexto macro no qual o texto/enunciado/gênero é produzido é relevante para entendermos as escolhas realizadas pelo “eu” do discurso na produção do folheto. Em resumo, sempre falamos dentro de nosso tempo.
Para pensarmos sobre a questão de o enunciado pertencer à história, entendamos o uso da palavra
“presidenta”, por Dilma, nossa presidente. Vejamos dois trechos de seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 21 de setembro de 2011.
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Desde que Dilma assumiu a presidência do nosso país, ela se apresenta como “presidentA”. Muitos discutem que essa palavra não existe. Claro que existe. Ela está sempre na boca da nossa presidenta. O uso desta palavra é justificado pelo fato de as palavras não nascerem dos dicionários, mas dos falantes, para a produção de determinados sentidos. Com qual intenção a presidente Dilma prefere presidentA a presidente? Ora, é simples, é a primeira mulher a governar o Brasil e, além disso, é uma mulher que tem como “carro chefe” de sua proposta de governo a defesa da mulher. Logo, ao usar o “a” ao invés de “e”, na terminação da palavra, tenta produzir os sentidos de uma mulher governando, tenta produzir os sentidos de um governo feminino.
Compreendamos que o uso da palavra por Dilma está dentro de um dado contexto macro, dentro da história.
Mas, relação ao “pra”, com que intenção de sentidos a “Oi” usa o “pra” em seu folheto de propagandas?
Sempre que realizamos a leitura enunciativo-discursiva, é importante que nos perguntemos por que “isso” e não “aquilo”. Neste caso, por que “pra” e não “para”. “Para” é uma preposição designativa de direção, fim, destino, lugar. O “pra” cumpre a mesma função, porém, é de uso recorrente na linguagem oral e de maior uso pelo homem comum, aquele com uma formação escolar
Senhoras e senhores,
Pela primeira vez, na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o Debate Geral. É a voz da democracia e da igualdade se ampliando nesta tribuna que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo.
(...)
Senhor Presidente,
É significativo que seja a presidenta de um país emergente, um país que vive praticamente um ambiente de pleno emprego, que venha falar, aqui, hoje, com cores tão vívidas, dessa tragédia que assola, em especial, os países desenvolvidos.
Página | 37 básica. Assim, podemos, bem ligeiramente, inferir que o “pra” é usado pela empresa de telefonia para produzir um efeito de
aproximação com esse homem comum, visto que ele pode se “encontrar” no folheto; ele pode se reconhecer no folheto, através do uso dessa forma de linguagem. Logo, entendemos que a escolha não foi aleatória, mas uma estratégia política/ideológica. Nessa leitura, o “pra” funciona para o leitor (O ANALISTA DO DISCURSO) como uma “pista de contextualização” (um “traço linguístico”) que proporciona inferir o “posicionamento” (footing) do sujeito que fala, ou seja, a sua ideologia acerca daquilo que fala; como enxerga determinado aspecto do mundo. Nesse tipo de leitura é importante também considerar se determinadas abordagens sobre o objeto do discurso poderiam ter sido feitas, mas não foram.
Bibliografia sugerida
BAKHTIN, Mikhail. [1929]2004. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora Hucitec.
COSTA, Sérgio Roberto. 2009. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica Editora.
FIORIN, José Luiz. 2006. Vida e Obra. In. José Luiz Fiorin. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, p. 09-17.
GOFFMAN, Erving. ([1979] 2002). Footing. In. Branca Telles Ribeiro e Pedro M. Garcez (Orgs.). Sociolinguística Interacional. São Paulo:
Edições Loyola, p. 107-148.
GUMPERZ, John J. [1982]2002. Convenções de contextualização. In. In. Branca Telles Ribeiro e Pedro M. Garcez (Orgs.). Sociolinguística Interacional. São Paulo: Edições Loyola, p.149-182.
Página | 38 RIBEIRO, Branca Telles e PEREIRA, Maria das Graças Dias. 2002. A noção de contexto na análise do discurso. In. Veredas – Ver. Est. Ling, Juiz
de Fora, v. 6, nº 2, p. 49-67, jul/dez.
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SOBRAL, Adail. 2009. Entoação avaliativa e responsividade ativa. In. Adail Sobral. Do dialogismo ao gênero – as bases do pensamento do Círculo de Bakhtin. Campinas, SP: Mercado das Letras, p. 83-88.
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NO MÍNIMO - O QUE PENSAM SOBRE A LÍNGUA
5O dizer não é propriedade particular. As palavras não são só nossas. Elas significam pela história e pela língua.
O que é dito em outro lugar também significa nas “nossas” palavras (ORLANDI, 2003:33)
ESTUDAMOS
aqui, com base na Análise de Discurso, a discursividade instaurada no material textual “no mínimo A palavra é...”, assinado por Sérgio Rodrigues, em www.nominimo.com.br. O discurso é sobre o emprego da palavra sugerimento usada pelo técnico da Seleção Brasileira, Dunga, quando questionado a respeito de seu novo estilo de roupas. Esse material de análise se constitui de 01 comentário do responsável pela “coluna” e de 24 comentários dos internautas, sobre o comentário e sobre o fato. Assim, abordamos o que pensam, no “No Mínimo”, sobre a língua. Em virtude dos fundamentos teóricos, trabalhamos com a “técnica do recorte” (ORLANDI, 1984), isto é, não apresentamos, na análise, o texto em sua íntegra, ao contrário, apenas fragmentos, visto que o nosso interesse é no discurso e não no texto.5 “Análise” apresentada, em 2006, ao professor Dr. Roberto Leiser Baronas, como requisito parcial para a conclusão da disciplina “Tópicos de Análise do Discurso”, no Curso de Mestrado em Estudos de Linguagem, IL/UFMT.
Página | 40 Um pouco de AD
Brevemente, podemos dizer que a Análise de Discurso (AD) é uma corrente teórica que surge na década de 60, na França, com Michel Pêcheux e que tem como preocupação pensar sobre a linguagem e a língua e a produção de efeitos de sentido, entendendo que a significação não é da ordem da língua, mas do sujeito clivado, logo, a significação sofre alterações de acordo com as posições ocupadas por este, ao enunciar. Assim, compreende que tanto o sujeito quanto o sentido são históricos e ideológicos e que as condições de produção de um discurso são constitutivas de suas significações. Atualmente, compreendemos como foco da AD o estudo da discursividade, ou seja, o estudo das relações entre condições de produção, os processos de constituição dos discursos e os efeitos de sentido gerados (MUSSALIM, 2001).
Alguns conceitos oriundos dessa área de estudos são necessários de explicitação para que a análise transcorra:
discurso, sentido, interdiscurso, sujeito, condições de produção, formação ideológica, formação discursiva e campo discursivo.
Aqui, esse “esclarecimento” acontecerá no desenvolvimento da “análise”.
“no mínimo A palavra é...” – a análise