(...) dentro dos estudos de linguagem, o termo intertextualidade figura uma categoria de análise e esta é peculiar em cada espaço teórico, como mostramos. Logo, quando a ACD ou os Estudos de Letramento, por exemplo, referem-se à intertextualidade estão tratando possivelmente de um mesmo fenômeno observável, mas nunca de um mesmo objeto observacional, tampouco de um mesmo objeto teórico, mesmo que aparentemente o seja.
COMO
o título já dá indícios, temos neste ensaio a intenção de “matutar” acerca do termo/conceito intertextualidade, objetivando compreender seus significados nos estudos de linguagem. Ainda no título exposto acima, podemos inferir também que para o termo em estudo existem “alguns” conceitos usuais, os quais aqui nos propomos a entender. Inicialmente sobre o termo é oportuno comentar que ele é popular, e, dentre os espaços que percorre, tais como revistas de divulgação científica e informática, apenas para citar alguns, chegou à escola, tornou-se um conteúdo escolar das áreas de língua portuguesa e literatura, e, em contrapartida, chegou às provas de concursos, tal como vemos no recorte da prova de Língua Portuguesa do Vestibular Unifesp 2003, organizado pela Fundação Vunesp, exposto nesta introdução, na página que segue, com o propósito de nos ajudar na6 Ensaio apresentado para o Exame de Qualificação, em maio de 2010, no Curso de Doutorado, PGLetras/UFPE, sob a orientação da prof. Drª Judith Hoffnagel, e tendo com componentes da Bancas as professoras Drª Elizabeth Marcuschi e Drª Evandra Grigoleto.
Página | 51 explicação/apresentação dessa reflexão. Nessa popularidade, o termo assume um sentido dominante, o de que um texto sempre está
em relação com outro(s) texto(s) anterior(es). Na questão da prova de língua portuguesa, intertextualidade é a “relação de semelhança e superposição de um texto a outro”, conseguida pelos processos de “absorção e transformação” do texto bíblico.
Figura 01 – recorte de uma prova de português de concurso vestibular.
Página | 52 No espaço escolar, no livro didático “Português para Todos7”, 5ª série, os autores Terra e Cavallete ([2002]
2007: 53-54), ao abordarem a intertextualidade como “conteúdo”, tratam-na no mesmo sentido que aparece na questão antes citada, perspectiva de “criações e recriações” textuais. Sobre esse “conteúdo”, eles dão a seguinte informação,
Quando produzimos um texto, nunca partimos do nada. Ao contrário, cada texto que produzimos é resultado de vários outros que já ouvimos, que já lemos (...) Sempre fica em nós uma idéia, uma marca. E essas idéias, essas marcas, surgem quando estamos falando ou escrevendo. Muitas vezes, percebemos isso e tiramos proveito, recriando textos, fazendo referências. Outras vezes, não nos damos conta disso, mas tudo o que lemos e ouvimos está guardado dentro de nós, influenciando nossas idéias.
Em outro livro didático de língua portuguesa, de 7ª série, “Tudo é Linguagem8”, a informação dada por Borgatto et. al. ([2006] 2007: 219) segue a mesma direção. Eles apresentam que
Ocorre a intertextualidade quando há um diálogo entre textos originado pela intenção do autor de fazer referência a um outro texto já existente. A intertextualidade pode ser reconhecida pelo tema, pela construção ou pelos recursos linguísticos comuns aos dois textos.
Este sentido aqui denominado de dominante também é o que aparece no “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”, para o qual intertextualidade é um termo da literatura, que significa “superposição de um texto a outro” e “na elaboração dum texto literário, a absorção e transformação de uma multiplicidade de outros textos”. Para melhor compreendermos
7 Neste livro, a intertextualidade é apresentada através da relação entre um comunicado escrito e programas jornalísticos televisivos, a relação entre uma tirinha e um conto de fada e um ditado popular e da relação entre um editorial e uma manchete/notícia e a carta de um leitor.
8 Neste outro livro, a intertextualidade é apresentada a partir da relação entre alguns poemas com o poema “No meio do caminho”, de Drummond. Neste também a intertextualidade é mostrada a partir da pintura, através da relação entre “As meninas na Disney”, de T. F. Chen, e “As meninas”, de Velásquez.
Página | 53 o termo e seus conceitos nos estudos de linguagem, estamos partindo da ideia de que esse sentido dominante, que acreditamos que o
termo intertextualidade assume, ocorre pelo fato de que quando olhamos, por exemplo, para o trecho “Pai, afasta de mim esse cálice”, de “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil, temos acesso a um “fenômeno observável”, que é a relação do texto “Cálice”
com outro texto, a passagem bíblica em Lucas, “Pai, se queres, afasta de mim este cálice”, absorvendo-o, fazendo-lhe referência, e ao mesmo tempo transformando-o, recriando-o, ao utilizar-se do trocadilho “cale-se”; colocando os dois textos, de algum modo, em diálogo, em relação. Percebemos também o fenômeno da intertextualidade entre a questão 09 da prova citada e a acepção da palavra no Dicionário Aurélio. Assim, ao falarmos em intertextualidade em seu sentido dominante estamos tratando, com base nas ideias de Neto (2004), de um fenômeno observável, um fenômeno do “mundo das aparências”: a relação existente entre os textos.
Todavia, se queremos entender o termo e seu(s) conceito(s) nos estudos de linguagem, é salutar entendermos também a partir de Neto (2004: 36), que um fenômeno observável não está lá, no mundo, pronto para ser visto, é, ao contrário, “o resultado de um trabalho humano sobre a realidade”. Logo, se assim for, em determinado momento histórico os olhos humanos foram lançados sobre o mundo dos textos e neste as relações entre eles foram focalizadas. Nessa compreensão, devemos do mesmo modo entender que quando esse processo de focalizar uma parte do mundo, transformando-a em fenômeno observável, acontece nas disciplinas científicas, tais como nas dos estudos de linguagem, temos um objeto observacional, ou seja, uma “região que a teoria privilegia como foco de sua atenção” (Neto, 2004: 35). Aqui interessa-nos dizer que a intertextualidade como objeto observacional surge na década de 60, nos estudos literários, através de Julia Kristeva. Todavia, a relação entre os textos enquanto tal não fica restrita a essa área. Sobre isso, Seghezzi (2007) informa-nos que o termo intertextualidade é amplamente utilizado em diferentes disciplinas, passando a ser foco de estudo de diversos outros pesquisadores e outras disciplinas científicas. Reforçando essa ideia,
Página | 54 podemos afirmar que o fenômeno da intertextualidade é foco de estudos na Linguística de Texto, com Beaugrande e Dressler; na
Análise Crítica do Discurso, com Norman Fairclough; e nos Novos Estudos de Letramento, com Charles Bazerman, apenas para citar algumas áreas e alguns nomes, os quais tomamos aqui para estudo devido a sua grande importância para/nos estudos linguísticos.
Nesse raciocínio, Neto (2004) esclarece-nos que quando o objeto observacional passa a ser descrito e explicado, dentro de uma dada teoria, lhe são atribuídas propriedades e este passa a ser um objeto teórico. Nessa concepção, “a teoria cria um mundo todo seu, que não se confunde com o mundo tal como o observamos” (Neto, 2004: 38). Ou seja, estamos acreditando que ao falarmos em intertextualidade, pelo sentido dominante, estamos tratando de um objeto observacional, a relação entre os textos, mas quando falamos de intertextualidade nos estudos de linguagem estamos nos referindo a um objeto teórico, ou a diferentes objetos teóricos, visto que, de acordo com Neto (2004: 37), “teorias diferentes podem construir objetos teóricos distintos sobre um objeto observacional, que é supostamente o mesmo, bastando para isso reconhecer entidades básicas, predicados e relações diferentes no objeto observacional”. Seghezzi (2007) ainda nos auxilia nessa compreensão ao dizer que, de acordo com uma revisão bibliográfica, o conceito intertextualidade é flexível, podendo encontrar tantas definições quanto autores individuais possam escrever sobre o tema. Assim, possivelmente relações entre textos, enquanto objeto observacional, sofre extensão(ões), e desse modo diferentes objetos teóricos são construídos, passando os sentidos do termo serem outros, ou seja, os sentidos sofrem “deslizamentos”. Por isso, Seghezzi (2007) afirma que esse termo é impreciso. Entretanto, afirma também que ele é poderoso.
Sabendo como já nos informou Seghezzi (2007) que o termo intertextualidade é amplamente utilizado em diferentes disciplinas e objetivando compreender os usos conceituais que o termo intertextualidade assume nos estudos de
Página | 55 linguagem, nos estudos literários, em Kristeva; na linguística textual, em Beaugrande e Dressler; na análise crítica do discurso, em
Fairclough; e nos novos estudos de letramento, em Bazerman, refletimos nesse ensaio acerca de como a relação entre textos como fenômeno observável passa a ser objeto observacional em cada uma dessas disciplinas e quais as propriedades que cada teórico citado lhe atribui, tornando-o objeto teórico. Desse modo, apresentamos as maneiras pelas quais o termo intertextualidade vai sofrendo deslizamentos de sentidos nesses espaços teóricos específicos. E, no sentido de melhor organizar essa discussão, antes dessa abordagem, comentamos minuciosamente a respeito dos estudos de Bakhtin/Voloshínov visto que o termo intertextualidade aparece pela primeira vez cunhado por Kristeva a partir dos estudos do “Círculo Bakhtiniano”. Na conclusão, citamos a música,
“Mulher não trai, mulher se vinga”, da banda “Aviões do Forró”, para melhor apontarmos os usos conceituais que o termo em estudo assume nas disciplinas teóricas aqui elencadas para o estudo, bem como os sentidos que sobre ele vão se construindo.
Princípios da dialogicidade/plurivocalidade em Bakhtin/Voloshinov
Como já apontamos minimamente na Introdução, Julia Kristeva, uma crítica literária, propõe o termo/conceito intertextualidade, a partir dos estudos do “Círculo de Bakhtin”, isto é, em comunhão com a concepção de linguagem enquanto dialogicidade/plurivocalidade. Qual a compreensão de dialogicidade/plurivocalidade para esses pensadores russos? Inicialmente, para uma aproximação de tal compreensão, é preciso saber que a linguagem para Volochínov ([1929a] 1993) está atrelada ao processo de formação e desenvolvimento humanos e que não é de origem sobrenatural, tampouco uma invenção consciente do homem. Ele afirma que ela ao contrário surge da necessidade que o homem teve de dizer algo ao outro, devido à
Página | 56 necessidade de unirem-se em grupo, formando uma comunidade, para e através do trabalho. Esse pensador argumenta que a
linguagem nasceu da atividade coletiva, aquela na qual os homens passaram a ter objetivos comuns, inicialmente com mímicas e gestos, e mais tarde com o uso da palavra, permitindo, assim, que os homens se compreendessem reciprocamente. Desse modo, a linguagem é fruto e colabora com o processo da socialização humana. Volochínov ([1929a] 1993) esclarece ainda que a compreensão, o entendimento recíproco, apenas pode existir porque a linguagem nada mais é do que a significação da experiência compartilhada entre, no mínimo, dois homens. Ou seja, para ele, para que o significado de um gesto, por exemplo, atribuido por um homem seja compreendido por outro homem é preciso que esse gesto tenha valor social, isto é, que faça parte da experiência que esses homens dividem. Nessa compreensão, esclarece que através das experiências materializadas pela linguagem, o homem passa a interagir com o outro – “comprensión del signo y la respuesta al mismo” (Voloshinov, [1929a] 1993).
Quando Volochínov ([1929a] 1993) e Bakhtin e Volochínov ([1929b] 2004) discutem a materialização da linguagem eles estão falando do signo e do processo de compreensão; acerca do processo de interação, pois, para eles, quando um
“eu” diz algo ao “outro” ele está significando a experiência que eles têm compartilhada através de um signo. Nesse sentido, quando usamos a linguagem na interação com o “outro”, expressamo-nos por meio de signos, isto é, de algo que remete para fora de si mesmo. Assim, Volochínov e Bakhtin ([1929b] 2004: 32) levam-nos à compreensão de que, paralelo aos fenômenos naturais, aos do mundo material e aos produtos de consumo, existe um universo específico, que é o mundo dos signos – o mundo dos significados.
Também segundo eles, “onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico”, o valor que o signo assume no processo interativo, decorrente das intenções do “eu” em relação ao “outro” discursivo e da situação comunicativa.
Página | 57 No tocante à função da linguagem na vida social, esses pesquisadores questionam dois aspectos: i) o papel que
a linguagem tem no processo da vida social, a influência inversa que a linguagem tem sobre as relações sociais a que deu origem, e ii) a relação entre linguagem e pensamento, questão, por eles, considerada merecedora de uma cuidadosa observação. No que se refere à relação linguagem e consciência, esses pensadores levam-nos a entender que no processo de interação, o signo sempre é a expressão “visível” de um “eu”. Por isso, foi pensado como individual. Nesta direção, os estudos da psicologia interpretativa e funcionalista encararam toda e qualquer expressão de um “eu” como um ato de fala de criação individual; fruto do psiquismo, isto é, encararam o fato linguístico como expressão de caráter individual; fruto de uma consciência também individual. Porém, os estudos do Círculo de Bakhtin mostram-nos que a linguagem não se origina de uma consciência individual, ao contrário, de uma consciência coletiva; social, a exemplo da letra da música “Cálice” que mostra essa consciência inserida na história, a luta contra a ditadura militar. Ou seja, para esses pensadores, a consciência jamais pôde/pode ser entendida como individual, visto que os sentidos que expressamos em determinado processo de interação é fruto de, e colabora com, as relações dentro do grupo ao qual pertencemos. Para eles, é nas relações socias, através da linguagem, que a consciência de cada indivíduo é construída, formando a sua vida interior. Isto é, o conteúdo do psiquismo é elaborado fora do organismo, nos fatos sociais. Tratam de intersubjetividade.
Todavia, para o Círculo, é importante entender como o homem apreende o discurso do outro. Bakhtin ([1934-35] 1988: 146), sobre isto, traz a seguinte problemática, “como é o discurso ativamente absorvido pela consciência e qual a influência que ele tem sobre a orientação das palavras que o receptor pronunciará em seguida?” Para responder, o próprio pensador comenta que a expressão de um “eu” é fruto de sua compreensão da expressão do “outro”. Ele diz que o “eu” apreende a apreciação do
“outro”, ao mesmo tempo em que lança sua apreciação, sempre ativa, sobre o objeto de discurso, e expressa-se. Sendo assim, a
Página | 58 apreensão do discurso do “outro” perpassa pelo processo de compreensão através de duas instâncias interligadas, a réplica interior e
o comentário efetivo. De acordo com esse entendimento, é possível vislumbramos os princípios da linguagem enquanto dialogicidade/plurivocalidade, pois, não sendo a consciência individual, mas coletiva, e sendo o fundo perceptivo do “eu”
discursivo, a expressão desse “eu” (que é gerada nessa atividade mental, em constante diálogo consigo mesma e com o meio no qual vive) está impregnada de outras vozes com as quais ele estabele relação, a exemplo do texto de Chico Buarque e Gilberto Gil, que em meio a ditadura militar se vale da voz bíblica. Desta forma, o pensador russo aconselha que para entender a apreensão do dicurso do “outro” devemos observar como a voz do “eu” dialoga com a voz do “outro”, visto que, em suas palavras, “a palavra vai à palavra” (Bahktin, [1934-35] 1988: 147). Dito isso, ele afirma que as formas pelas quais o discurso do “outro” entra no discurso do “eu” revelam como as diversas vozes sociais são ativamente “absorvidas” pela consciência.
Nessa direção, é de fundamental importância compreendermos que em meio às relações sociais, as palavras do “eu” passam através da orientação social e histórica, por um processo de refratação que é ideológica. Ou seja, o sentido que uma expressão de um “eu” passa a ter nas relações sociais depende da época, do ambiente social, da posição de classe do falante e do ouvinte, e da situação real e concreta na qual a expressão surge (Volochínov, [1929a] 1993). Logo, com Bakhtin e Volochínov ([1929b] 2004; [1934-35] 1988) também entendemos que as palavras ditas, nascidas da dialogia com outros discursos sociais, podem ter duas orientações ideológicas, i) conservar a integridade e autenticidade do discurso alheio, trazendo-o explicitamente para a sua voz, ou ii) apagar as fronteiras entre essas diversas vozes e apresentar sua voz e as diferentes vozes sociais, através de um processo de infiltração, no qual essas vozes se interpenetram, sem demarcações explícitas. De modo geral, na primeira orientação, revela-se o autoritarismo do outro; da palavra do “outro”, e na segunda, o relativismo das apreciações sociais. Pelo exposto, podemos
Página | 59 entender, de forma resumida, que a linguagem surge da necessidade de socialização entre os homens e que é assim que acontece o
processo de interação humana: o processo no qual o “eu” expressa-se, sempre em diálogo com a voz do “outro”, com determinado tom, e espera resposta(s), mesmo que não sejam imediatas e visíveis (outros enunciados). Desta forma, a linguagem para o Círculo de Bakhtin é essencialmente processual, dialógica, axiológica e plurivocal.
Do dialogismo à intertextualidade – novo objeto observacional e a construção de outros sentidos Em suas pesquisas, Julia Kristeva9, crítica literária, tem como interesse de investigação os “aspectos da linguagem e do psíquico que escapam da tradição dominante do monologismo aristotélico”. Isto é, Kristeva tinha, de acordo com Nascimento (2006), o grande objetivo de formular um estudo sobre o verbal e sobre o texto literário que ultrapassasse a superfície da língua: a Semanálise como a ciência dos discursos. Nessa empreitada, os estudos de Bakhtin pareceram-lhe uma alternativa àquele momento vivido nos estudos literários, fortemente parametrizados pela análise estrutural. Nesse propósito, as ideias de Bakhtin são percebidas como passíveis de transcender o modelo de análise vigente na época, considerado limitado por essa crítica.
Assim, em seu texto “Word, Dialogue and Novel”, Kristeva ([1966] 1986) aprecia que Bakhtin propõe um modelo de estudo linguístico/literário no qual a estrutura não existe simplesmente, ao contrário, é gerada em relação à outra estrutura. Em função disso, das ideias de Bakhtin, toma dois conceitos como principais, quais sejam, o de dialogismo e o de
9 Kristeva está entre os primeiros estudiosos a introduzir o trabalho de Bakhtin no Ocidente, como resultado de suas atividades dialógicas com as obras desse filósofo russo, que é por ela tomado em sua condição de semioticista.
Página | 60 carnavalização10, entendendo-os inseridos em uma política subversiva, ao mesmo tempo dentro de uma política frente à
marginalização. No tocante ao conceito de carnavalização, essa pesquisadora compreende-o como “um espaço no qual os textos se encontram, se contradizem e se relativizam uns aos outros, através do extensivo uso de repetições, construções ilógicas e oposições não exclusivas11” ([1966] 1986: 34).
É, nesse sentido, embebida das ideias bakhtinianas, entretanto com seus próprios propósitos, como comentamos anteriormente, que, ao referir-se à palavra literária, visto que este é seu objeto de estudo, Kristeva faz alusão a um tipo de jogo textual (o novo objeto observacional), entendendo-a “como uma intersecção de superfícies textuais mais que um ponto (um significado fixo) como um diálogo entre vários escritos: o do locutor, o do Outro (ou personagem) e do contexto cultural contemporâneo ou anterior”12 (Kristeva, [1966] 1986: 36). Desse modo, Kristeva ([1966] 1986) destaca três dimensões ou coordenadas do diálogo: o “eu” da escrita, o Outro para quem se escreve e o exterior do texto. Sendo assim, evidencia que as palavras pertencem a ambos os sujeitos da escrita e que é orientada no interior de um corpus. Nessa concepção, compreende que um
10 Em “Carnavalização”, Discini (2006: 84) esclarece que na obra de Bakhtin essa noção é compreendida como “movimento de desestabilização, subversão e ruptura em relação ao ‘mundo oficial’, seja este pensado como antagônico ao grotesco (...), seja este pensado como modo de presença que aspira à transparência e à representação da realidade como sentido acabado, o que é incompatível com a polifonia”. Nesse raciocínio, a noção de carnavalização está organicamente combinada com a de polifonia e a de plurivocalidade.
11 Tradução livre de “a space where texts meet, contradict and relativize each other through extensive use of repetition, illogical constructions and non-exclusive opposition” (Kristeva, [1966] 1986: 34).
12 Tradução livre de “as an intersection of textual surfaces rather than a point (a fixed meaning), as a dialogue among several writings: that of the writer, the addressee (or the character) and the contemporary or earlier cultural context” (Kristeva, [1966] 1986: 36).
Página | 61 fato é posto à luz, o de que “cada palavra (cada texto) é uma intersecção de palavras (textos) onde pelo menos uma outra palavra
(um outro texto) pode ser lida(o)”13. Esse é o novo objeto observacional, a intersecção de textos literários.
A partir dessa “luz”, Kristeva ([1966] 1986: 37) afirma que “qualquer texto é constituído como um mosaico de citações; qualquer texto é a absorção e a transformação de um outro14”. Assim, esclarece que a noção de intersubjetividade em Bakhtin pode ser substituída pela de intertextualidade, e que, assim, a linguagem poética pode ser lida pelo menos como dupla. É assim que surge o termo intertextualidade pela primeira vez para dar conta de um novo objeto observacional, e ao mesmo tempo de
A partir dessa “luz”, Kristeva ([1966] 1986: 37) afirma que “qualquer texto é constituído como um mosaico de citações; qualquer texto é a absorção e a transformação de um outro14”. Assim, esclarece que a noção de intersubjetividade em Bakhtin pode ser substituída pela de intertextualidade, e que, assim, a linguagem poética pode ser lida pelo menos como dupla. É assim que surge o termo intertextualidade pela primeira vez para dar conta de um novo objeto observacional, e ao mesmo tempo de