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Da Poesia e dos Diálogos Interartes

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Academic year: 2021

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Texto

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Abreu Castelo Vieira dos Paxe**

INTERARTES*

Resumo: estudam-se, neste texto, as estratégias de elaboração da poética de

Ser-guilha que comportam um grande suporte visual extraído no plano da significação por meio de recursos lexicais que se combinam e recombinam, favorecidos pela elasticidade sintática da língua portuguesa, bem como a relação de suas obras com o plano visual, que ao entrelaçar-se com a visualidade, faz-nos recordar o desenho e a pintura como elementos de comunicação.

Palavras-chave: Estratégia poética. Visualidade. Literatura e pintura

* Recebido em 03.06.2014. Aprovado em: 23.06.2014.

** Especialista em Língua Portuguesa pelo Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda. Docente de Literatura Angolana nesta instituição e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), onde é secretário para as atividades culturais.

A

bordar um texto artístico na dimensão a que Luís Serguilha o propõe remete-nos sempre a muitas cautelas, entrecortadas entre avanços e recuos, certezas e incer-tezas, atenção e desatenção, paciência e impaciência e, por fim, entre finitude, memória estática e infinitude, visão de futuro. Para assim permitir que façamos, neste turbilhão, as seguintes perguntas: a de saber, por um lado, se o que estamos a ler é poesia? E, por outro, se é, por que causa estranheza?

Como sabemos que uma das funções da poesia, entre outras, é a de permitir o alargamento dos horizontes de percepção e de imaginação do leitor, então, em nosso entender, afirmamos que o texto que estamos a analisar cabe no que chamaríamos de

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poesia, pelo fato de verificarmos que os elementos que organizam as suas estruturas ampliam as dimensões estéticas pela percepção.

Por outro lado, esse texto causa estranheza pelo fato de fundar-se, pensamos, nas origens remotas da poesia, nas quais ainda se questiona entre ela e a linguagem o que terá surgido primeiro. Aqui a língua e as suas formas convencionais e imediatas são dis-pensadas em detrimento da linguagem, vista no seu processo interno, �s vezes aleatór-�s vezes aleatór- aleatór-io, de organização das imagens. O mesmo pode acontecer com a poesia no seu processo, ou de criação ou de leitura. Ao olhar para a poesia neste âmbito, torna-se forçoso vigiar-mos, como leitores, a nossa condição de criadores e também de construtores do poema. Vamos no texto que segue e nesta condição, discutir e mostrar, no limite das nos-sas percepções, como é que se organizam os elementos que estruturam o texto poético de que estamos a falar e as suas mais remotas relações com a arte, vigiadas na díade entre o verbal e o não-verbal (visual), numa dimensão em que as imagens que capta-mos pela percepção podem vir a funcionar em suportes artísticos diferentes, embora o mote para Luís Serguilha seja as palavras, ou melhor, o suporte escrito.

Um livro de poesia, ou qualquer outro, pensamos, pode começar-se a ler tam-bém a partir da capa. A partir mesmo daí podemos construir os sentidos de leitura e estruturá-los de forma coerente de modo a definirmos possíveis horizontes de leitura. Ao olharmos, depois de termos lido a capa dos livros de Serguilha, notamos que todos são ilustrados como a seguir os descrevemos; o Lorosa’e - Boca de sandálo (2001), com o quadro de José Passos; o Externo tatuado da visão, com desenhos e pintura de Sara Rodrigues; Embarcações (2004), com a pintura de Passos da Silva;

A singradura do capinador, capa de Kata design, a partir da pintura de Ana Viana e, por fim, Hangares do Vendaval (2007), capa de Infopoema de E. M. de Melo e Castro. Pode-se ver, pelas ilustrações das capas, que é ponto de partida, e de forma explícita, como primeira impressão de leitura uma relação entre poesia e pintura.

Outro indicador de leitura para esta relação entre pintura ou desenho e poesia pode ser verificado nos livros: O externo tatuado da visão, onde as seis partes de que este se compõem são ilustradas com retratos; Embarcações, em que as três partes de que este se compõe, são ilustradas com desenhos, e Hangares do vendaval, que realiza um diálogo in-tertextual, como se pode ler na ficha técnica, com dezesseis infopoemas de E. M. de Melo e Castro. Por outro lado, no livro Lorosa’e - Boca de sandálo as palavras e as frases são distri-buídas, anunciando quebras sintáticas próprias de textos, cujas palavras e frases e os inter-valos que se constroem entre elas recuperarem imagens, nomeadamente, imagens visuais, sonoras, táteis, olfativas, sugestões básicas ligadas � nossa percepção. Em A singradura do

capinador, a leitura não é feita a partir da capa pela ordem do título, mas sim pelo nome do autor; neste livro, fazemos, ao folheá-lo, um exercício de leitura não habitual.

Mas, ao tomarmos contato para além da primeira impressão de leitura na re-lação entre as artes plásticas e não só com os poemas, vemos que esta rere-lação, este diálogo vem expresso em alguns dos seus poemas. A estratégia de construção poéti-ca de Serguilha comporta na sua comunipoéti-cação um grande suporte visual, extraído no

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plano da significação por meio de recursos lexicais que se combinam e recombinam, favorecidos pela elasticidade sintática da língua portuguesa. Os efeitos semânticos sobrepõem-se no plano do conteúdo. Por meio das figuras semânticas, o seu texto atenua, amplia, disfarça e simula, entre outras estratégias, a mensagem:

é o sangue das espáduas que resiste ao muro sucessivo dos globos/à ferida sonora à secura a descobrir caprichosamente as partículas/na transição muda das mandíbulas dos acentos fúnebres//É a artéria caiada que iden-tifica o óleo de palma no couro das chagas (…) (SERGUILHA, 2001, p. 35). ou ainda,

também cisterna peninsular na ondeação Angolana/no enjoo das formigas carnívoras toalhas exaltando os caixões de/ fogo/terror dos metais solúveis no zoo humano apoteoses da cavalgada/amável/onde o sítio do cenário é um gorro apodrecido (…) Serguilha, (2001, p. 125)

ou também,

anonimato deslizar na ninfa ocasional da incansável serra onde o sol/é a fêmea que mistura minuciosamente as vidas (…) Serguilha (2001, p. 151).

Trata-se de expressões de conteúdo metafórico, por isso passível de estimular imagens mentais que a representariam como se fosse uma foto, ou uma gravura, como ainda se pode ver:

(…) ao azul crepitante das pálpebras/que corre insistentemente/como um dilúvio de refúgios comprometidos(…) a cauda incompleta das mariposas,

(SERGUILHA, 2004, p. 18). ou ainda,

(…) como um turbilhão ancestral da sede a compor/delicadamente/os golpes cinematográficos da florescência/uniformemente desmantelada/pela mecânica suprema das línguas (SERGUILHA, 2004, p. 20).

ou também,

(…) e o hexágono táctil da lágrima empurra o naufrágio/transparente do lábio silencioso (SERGUILHA, 2004, p. 138).

Não é só esta relação de diálogo visto nas capas e nos poemas que sustenta o que descrevemos. A disposição gráfica dos poemas nas páginas, a organização das palavras

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e das frases se faz pela intensificação e ampliação, as rupturas sintáticas, os recortes devolvem-nos a viva imagem de que, como dizia Castro, “(…) todo livro constitui uma só unidade poética que o leitor poderá fragmentar, conforme o ritmo da sua leitura. Este fato aponta mesmo para um texto único que poderá ser lido recombinadamente, construindo o leitor as suas próprias sequências, as suas próprias pausas, e os seus próprios sentidos de leitura” (MELO; CASTRO, 2004, p. 10).

A forma como as palavras e as frases se distribuem na páginas, �s vezes de modo aleatório, fazem-nos recordar, por um lado, as propostas da poesia visual ou ainda as formulações concretistas e/ou exprimentalistas construídas no plano visual, e tam-bém as imagens que apelam e estruturam o provérbio em algumas práticas patrimoni-ais angolanas. Por outro lado, a forma como o poeta organiza os seus textos assemelha-se � arte fractal africana pelo caos, no qual as linhas que constroem a desprogramação das estruturas frásicas e textual também organizam sentidos de leitura. Aqui não só passamos a vigiar as palavras, assim como os outros elementos que se anunciam pela ruptura sintáctica, para explorarmos grafismos, desenhos ou a virtualidade artísti-ca da própria página. Todos estes elementos ajudam a construir o poema. É daí que nasceu o esforço de levar a nossa atenção a retomar, porque assim se evoca, ao nível das imagens primordiais, as que revelam ao mesmo tempo um raciocínio metafórico, uma composição visual e um repertório de sons organicamente espalhados pela man-cha gráfica ou pelas redes neuronais.

Esta poesia, a de Luís Serguilha, liga-se no plano visual a essas formulações, entre-laçando-se a tal ponto a visualidade e a verbalidade que se torna difícil vê-las separadas; ele explora e extrapola as possibilidades da verdade convencional na virtualidade artísti-ca da página, fazendo-nos recordar o desenho ou mesmo a pintura como elementos de comunicação. Como dizia Soares, “aquele mito modernista, estruturalista, pós-estrutu-ralista, contemporâneo e globalizado, aquele que nos fala da desmultiplicação de senti-dos do poema, realiza-se aqui” (SOARES, 2007, p. 39). Isto é, como se lê em Castro, “um texto que comporta intermitências, descontinuidades e saltos, assim só se enriquecen-do em termos de fruição e de significaenriquecen-dos recorrentes (…). Ou seja, um texto que está indo na direcção do chamado hipertexto, embora construído e lido apenas no formato livro e no suporte papel. Mas com ele se podia construir facilmente um hipertexto em suporte informático interactivo” (MELO E CASTRO, 2004, p. 10). Ou ainda quanto ao processo criativo, é possível estabelecer relações e afirmar que Serguilha transforma o

action painting de Jackson Pollock em action writing, que explora as técnicas do poema automático mecânico dadaísta e a escritura automática dos surrealistas (…) essa procu-ra de significado toma rumos diversos, tiprocu-ra o chão do leitor e o remete a uma espécie de linguagem onírica, primitiva, inaugural, uma volta no tempo.

Na verdade, este texto poético discute modos de ver, de perceber, de represen-tação, verdade e ficção, e ainda explora a tensão provocada pelos embates com os senti-dos, podendo desencadear discussões importantes sobre estética, a técnica e ainda a simulação das novas tecnologias.

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Em suma, constatamos que todos os elementos que vão desde as ilustrações nas capas, assim como no interior dos livros, � própria disposição gráfica e � semântica dos poemas comunicam interligados pela imagem. A visualidade também orienta o sentido de leitura dos próprios poemas pela mediação das artes plásticas e não só, para formar uma totalidade poética num todo coeso e coerente. Aqui o exercício de leitura não é feito só como convencionada, da esquerda para a direita ou de cima para baixo, mas sim os poemas que temos em presença podem ser lidos também como uma gravura, uma escultura, ou uma peça fílmica, dando �s palavras ou �s frases uma ne-cessária densidade simbólica. O olhar distribui-se pela mancha tipográfica do papel ou pelos resíduos da fragmentação dos poemas.

Este texto teve como objetivo trazer uma pequena amostra de resultados parci-ais de um trabalho que se quer amplo e aprofundado. O que se pretendeu na verda-de foi analisar as funções da linguagem na perspectiva semiótica para promover uma reflexão sobre a expressão poética de Luís Serguilha, bem como os mecanismos co-gnitivos que levam o leitor a compreendê-la, num princípio de vigiar o lado icônico (representativo, analógico, similar) e indicial (indutivo sugestivo) alicerçados na imagem (visualidade), para a compreensão das funções da linguagem na construção de imagens estilísticas.

ON POETRY AND INTERART DIALOGUES

Abstract: are studied in this text, Serguilha of poetic elaboration of strategies that

in-volve a great visual support drawn into the significance of the plan through lexical fea-tures that combine and recombine, favored by syntactic elasticity of the portuguese lan-guage and the relationship of his works with the visual level, which intertwine with the visuality, reminds us of the drawing and painting as communication elements.

Keywords: Poetic Strategy. Visuality. Literature and Painting.

Referências

MELO E CASTRO, Ernesto Manuel Geraldes de. Embarcações. Vila Nova de Gaia, Portugal:

Ausência, 2004.

SERGUILHA, Luis. Embarcações. Vila Nova de Gaia: Ausencia, 2004.

SERGUILHA, Luis. Lorosa’e - Boca de sandálo. Porto: Campo das Letras, 2001. SOARES, Ovi-Sungo. Hangares do vendaval. Évora: Intensidez, 2007, p. 39.

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