5
— Esperas aqui, Quinas. Lindo menino — disse a Bé, afagando a cabeça do cão, que a olhava com uns olhos brilhantes e esperan-çados. Havia cheirinhos tentadores por ali, e ele estava com apetite.
Aliás, ele estava sempre com apetite, e o de-licioso aroma a pão quente que lhe chegava através da porta do supermercado estava a dar-lhe a volta à cabeça. A Bé seguiu atrás da mãe, olhando-o por cima do ombro.
— Não vamos demorar muito — disse para o cão, esperando que ele ficasse tranquilo.
Capitulo
Um
Dois
Tres
Quatro
Cinco
Seis
Sete
Oito
Nove
Dez
O Quinas
vai às compras
6
Ele não estava habituado a ser deixado sozi-nho, mas a mãe quis passar na loja quando voltavam do passeio no parque.
— Talvez seja melhor eu ficar com ele — disse a Bé, ansiosa.
A mãe sorriu.
— Ele fica bem, Bé. É só uma voltinha rá-pida, e eu preciso que venhas comigo. Têm ali, em exposição, uns adoráveis bolos de aniver-sário e pensei que tu pudesses escolher um, para que o encomendássemos com antece-dência para o teu dia de anos.
Animada, a Bé aceitou. — Voltamos já, Quinas!
O pequeno cão ficou a olhar para a dona e soltou um ligeiro ganido. Onde é que ela ia? Puxou a trela, tentando segui-la, mas a Bé tinha-o amarrado a uma argola de metal presa na parede.
A Bé e a mãe entraram na loja, e dirigi-ram-se para os bolos que estavam lá ao fundo.
— Oh! Olha-me para isto! — disse a Bé, admirando os bolos expostos, apontando para um com uma sereia no topo e com a cauda a rodeá-lo. — E há ali um, lindo, com um cão, mas é um dálmata. Achas que fariam um bolo com um jack russell parecido com o Quinas?
A mãe pareceu duvidar.
— Não sei, mas podemos perguntar. — Um bolo de chocolate, com uma cober-tura castanha e branca — acrescentou a Bé, esperançada.
Subitamente, a mãe franziu o sobrolho. — Mas o que é que está a acontecer ali? Dois assistentes da loja, seguidos por um segurança que falava pelo walkie-talkie, pas-saram a correr para o final do corredor. Cu-riosa, a Bé virou-se, tentando ver para onde se dirigiam.
— Não, aparentemente ele não é muito feroz, mas nunca se sabe… — dizia o guarda através do walkie-talkie.
Horrorizada, a Bé olhou para a mãe, com os olhos arregalados. Tinha um terrível pres-sentimento de que sabia quem era aquele «ele».
— Tu prendeste bem o Quinas, não foi, Bé? — perguntou a mãe.
9
— Sim, claro! — disse a pequena rapida-mente. — Mas tu bem sabes como ele é… — acrescentou.
A mãe anuiu sombriamente. Sabia, e bem. O Quinas só estava com a família há três meses, mas, mesmo em tão pouco tempo, já tinha conseguido causar uma enorme quan-tidade de problemas.
Apesar de tudo, a Bé ainda esperava que todo aquele alarido não tivesse que ver com eles, e que o seu cãozinho estivesse sentado onde o deixara, quieto, calado e ansioso pela chegada da dona. Mas, de repente, um latido agudo ecoou na loja, e o Quinas atravessou o corredor, com a trela a arrastar-se atrás dele, e com os restos de um pacote de biscoitos, aparentemente caros, na boca.
O pequeno cão largou o pacote e saltou para os braços da dona, lambuzando-lhe, de-liciado, a cara toda: estava muito feliz por revê-la.
10
— Temos de tirá-lo daqui, Bé — murmurou a mãe, pegando no que restava do pacote.
Entretanto, o segurança aproximou-se. — O cão é vosso? — perguntou, com cara de poucos amigos.
— Desculpe! — disse a Bé afogueada. — Eu deixei-o amarrado lá fora, deixei mesmo, juro! Só que ele deve ter conseguido desprender a trela e veio à minha procura.
— É que nós ainda mal tínhamos acabado de entrar, e queríamos demorar-nos muito pouco tempo — murmurou a mãe. — Vamos já levá-lo para casa… e é claro que vou pagar pelos biscoitos.
— Vejam se isto não volta a acontecer! — disse o segurança severamente e, como a Bé e a mãe se apressavam a sair, acrescen-tou: — E comprem um livro que vos ensine a dar nós!
— Francamente, Bé! Nunca me senti tão envergonhada — disse a mãe, corada, pa-gando rapidamente pelos biscoitos. — Acho que nunca mais conseguirei entrar aqui!
O Quinas inclinou-se sobre o ombro da Bé, olhando tristemente para trás, despedindo-se daquele lugar com tantos cheiros bons. Estava
12
feliz por ter encontrado a Bé, mas não conse-guia perceber porque tinham de ir-se embora assim tão de repente.
A Bé e a mãe voltaram para casa o mais depressa que puderam, com o Quinas a cor-rer a seu lado.
A cara da mãe ainda estava avermelhada, do constrangimento, e a Bé pensava se o que acontecera iria fazer com que ela não tivesse um bolo de aniversário. Certamente que a mãe iria superar aquilo, não é?
Agora, provavelmente, não era a melhor altura para falar da festa. Estava desejosa de ter uma festa do pijama, mas a mãe não lhe parecera muito interessada nessa ideia.
Quando a Bé lhe falou no assunto, ela disse que iria pensar, e ainda não tinha decidido nem que sim nem que não. A mãe da Bé não tinha a certeza se havia espaço no pequeno quarto da filha para mais alguém, embora a Bé tivesse calculado que chegava bem para a
13
Tina, a sua melhor amiga, assim como para as suas amigas Liliana e Lídia, nem que ficas-sem todas apertadas no chão.
— Mas eu prendi-o mesmo, mamã — disse a Bé, em voz baixa.
A mãe olhou para ela e suspirou.
— Eu sei, Bé. A culpa não foi tua. Não devia ter sugerido deixá-lo sozinho à porta da loja. Ele ainda é pequeno e não entendeu o que estava a acontecer.
A Bé olhou para o Quinas. O cão olhava--a, com aqueles olhos brilhantes, e ela não conseguiu deixar de sorrir. Por vezes suspei-tava que o Quinas adorava ser traquinas, mas gostava dele na mesma.
14