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Introdução. 1. Apresentação

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Academic year: 2021

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1.

Apresentação

O tema deste trabalho é “Jesus um Messias Profeta no Evangelho de Lucas”, especialmente no interlucano Lc 9.51-19.48, e isto da perspectiva de uma leitura da História da Redação. Nela se mostrará que Lucas escolheu priorizar para Jesus, como perfil messiânico, o de um Messias-Profeta.

A escolha do termo interlucano, em detrimento da usual viagem a Jerusalém, deve-se ao fato de ser ali onde temos um corpo redacional, com ruptura clara com a unidade anterior, pois a expressão: “...manifestou no semblante a intrépida resolução de viajar-marchar (poreu,esthai) a Jerusalém (Lc 9.51)”, junta-se com a chegada nas expressões: “..Kai. w`j h;ggijunta-sen ivdw.n th.n po,lin - ...e quando ia chegando vendo a cidade (Lc 19.41)”. Entre partida para Jerusalém e chegada na cidade, há uma reconhecida unidade, onde está a maioria do material típico da fonte Lucas, material não encontrado no restante da tradição sinótica, o caso mais emblemático é a frequência do uso do poreu,omai como ponto de partida de cada seção da viagem. Aqui Lucas é mais Lucas, por isso interlucano.

A relevância e novidade do tema está não só no messianismo profético mas na proposta redacional de Lucas, o qual privilegia para esta leitura o interlucano (Lc 9.51-19.48), ali centrando em seis seções regidas pelo verbo poreu,omai, o qual dá o ritmo a toda a viagem. Junto ao verbo, cumpre também um papel de eixo redacional Jerusalém e os pobres. Ambos sujeitos decisivos na narrativa do Evangelho de Lucas. Estes elementos redacionais favorecem o

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surgimento do perfil de Jesus como um Messias-Profeta. Outros elementos unem a redação do Evangelho e vão aparecer no decorrer do trabalho.

Mas, para que a viagem fique devidamente enquadrada literariamente, será feita uma abordagem inicial resumida do quadro que antecede o interlucano, porém ordenada, desde o prólogo (Lc 1.1-4), passando pelo evangelho da infância (Lc 1.5-2.52), do ministério de João Batista (Lc 3.1-38), ao ministério galileu de Jesus (Lc 4.1-9.50). Tendo por base o material que já nesta primeira parte do Evangelho oferece elementos literários para se compor um perfil messiânico e profético, com vista a mostrar desde a abordagem histórico redacional, a intencionalidade de Lucas ao dar este enquadramento cristológico à pessoa de Jesus.

Amparado neste quadro amplo do Evangelho de Lucas, o trabalho desce ao interlucano (Lc 9.51-19.48), no qual através de investigação exegética será mostrado que a viagem, mais que uma caminhada sem rumo, é de fato uma marcha profética, messiânica e libertadora. Da periferia, Galileia, rumo ao centro de poder que é Jerusalém, com desvios intencionais em Samaria e Jericó.

Tendo esta estrutura do interlucano tomamos a perícope de Lucas 13.31-35, na qual Jesus se assume como messias e profeta, construindo-se a partir dela um estudo exegético, que é o capítulo final com o título: A Morte do Messias e Profeta – Lc 13.31-35.

2.

Desenvolvimento e metodologia

Este trabalho exegético busca acompanhar a redação do Evangelho de Lucas1, especialmente da leitura que ele faz do Jesus Histórico2.

Para isto o método a ser usado é o histórico-crítico3, especialmente a História da Redação4. Mas no caso de perícopes-chave ao desenvolvimento da

1

TANNEHILL, R. C. The Narrative Unity of Luke–Acts – A Literary Interpretation. Minneapolis: Fortress Press, 1994.

2

SCHWEITZER, A. Geschichte der Leben – Jesu - Forschung. Tubingen: J.C.B. Mohr, 1984; BULTMANN, R. Teologia del Nuevo Testamento. Salamanca: Sigueme, 1980; THEISSEN, G.; MERZ, A. O Jesus Histórico. São Paulo: Loyola, 2002.

3

ZIMMERMANN, H. Los Metodos Historico–Criticos en el Nuevo Testamento. Madrid: Católica, 1969; STENGER, W. Los Metodos de la Exegesis Biblica. Barcelona: Herder, 1990; LOHFINK, N. Exegesis Biblica y Teología. Salamanca: Sigueme, 1969; EGGER, W. Metodología do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1994; WEGNER, U. Exegese do Novo

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pesquisa, como Lc 9.51-56; 13.31-35; 19.41-48, são trabalhados os diferentes momentos do método histórico-crítico, como crítica textual, crítica literária (enquanto crítica das fontes), história das formas, história da tradição e por fim a história da redação, sempre que o gênero do texto pedir.

Sabendo que a abordagem permanente é a História da Redação, aqui trabalhada para mostrar o escritor Lucas, e a maneira como ele trabalha o material recebido. Assim no desenvolvimento do trabalho será mostrado como ele usa o material da fonte Marcos, ou da fonte Q, e nesta confrontação literária a maneira própria de Lucas em relação a Mateus, nela se poderá notar as intensões teológicas do autor. Não só isto mas acima de tudo desde uma “ apurada investigação ,” a qual lhe concede outras fontes, que são favoráveis à sua intensão de mostrar Jesus como um Messias Profeta . Tal fonte ( ou fontes ), tem seu uso maiormente no interlucano. Veremos que as intensões juntamente com o Sitz im Leben de Lucas explicam as diferenças em relação a Marcos e a Q.

O trabalho considera a discussão pelos principais autores sobre importância dos métodos histórico-crítico para o estudo que é proposto em Lucas, as melhores abordagens exegéticas de Lucas. Assim desde o enfoque de Jesus como Messias-Profeta, é sublinhado que embora o tema seja conhecido, nunca foi trabalhado simultaneamente à luz dos eixos: (1) o conflito social – os pobres5; (2) - a regência verbal do verbo πορεύομαι no interlucano6, (3) - autoproclamação de Jesus na perícope central da viagem a Jerusalém7, Lc 13.31-35; (4) a cidade de Jerusalém.

O trabalho abordará de modo básico, o mundo do texto, o autor, sua igreja, elementos da estrutura do Evangelho, isto sem alongar-se nas discussões de autoria e data, que a pesquisa histórica do Evangelho de Lucas tem apontado e, assim, poder considerar mais detidamente, o que o texto tem a oferecer ao tema objeto desta pesquisa.

Testamento. São Leopoldo/ão Paulo: Sinodal/Paulus, 1998; KNIGHT, D. A. Methods of Biblical Interpretation. Nashville: Abingdon Press, 2004.

4

CONZELMANN, H. El Centro del Tiempo. Madrid: Fax, 1974; MADOX, R. The Purpose of Luke–Acts. Edinburgh: T. and T. Clark, 1982; TIEDE, D. L. Prophecy and History in Luke– Acts. Philadelphia: Fortress Press, 1980; ELBERT, P. An Observation on Luke’s Composition an Narrative Stile of Questions. The catholic Biblical Quartely 66, nº 1, 2004.

5

KINGSBURY, J. D. Conflito en Lucas. Cordoba: Almendro, 1992.

6

JEREMIAS, J. Die Sprache des Lukas Evangelium. Göttingen: Vandenhoeck Ruprecht, 1980.

7

SELLIN, G. Komposition, Quelen und Funktion des Lukanische Reiseberichtes, Lk IX.51 – XIX.28. Brill: Novum Testamentum 20, v. 2, 1978.

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Além do enfoque histórico-redacional, o desenvolvimento do trabalho contempla a leitura diacrônica8, cuja a natureza é apontada pelo próprio processo histórico-crítico. Esta se estabelece, primeiro na confrontação através do texto considerado, frente aos outros momentos do Evangelho de Lucas (a crítica literária e a história das formas); em seguida, através dos Evangelhos Sinóticos e suas fontes (Q, Marcos, Mateus, Lucas etc)9, mas também frente a outras tradições literárias do Novo e do Antigo Testamentos; por exemplo, na perícope de seguimento a Jesus, que segue a abertura da unidade do interlucano (Lc 9.57-62). Ali, Jesus desafia os que queriam segui-lo; de modo que a análise começa com a verificação do ritmo sincrônico do texto, que, contudo, parte logo em seguida à diacronia, frente às perícopes de seguimento, em Lucas, na tradição sinótica, e especialmente na chamada de Elias a Eliseu10 (I Re 19.19-21), enfatizando-se ali o elemento da crítica da tradição, e tendo em consideração o elemento hermenêutico como a tipologia muito usada por Lucas, ou seja, a de um profeta.

Deste modo, visa-se apontar o quanto para Lucas foi decisivo, ao mostrar o caráter de um Messias-Profeta, diante do horizonte histórico do ministério de Jesus, mas também do quadro existencial (Sitz im Leben) da comunidade de Lucas.

Sob o título Jesus um Messias-Profeta no Interlucano (Lc 9.51-19-48), será apresentada uma sequência no trabalho, na qual, se apontará o desenvolvimento da redação do Evangelho, e como ela privilegia o perfil messiânico-profético de Jesus, ainda que sem desconsiderar as tradições messiânicas recebidas. Isto se dará na ordem que segue.

À luz da metodologia proposta, serão apresentados no capítulo 1 sobre o

Status Quaestionis, diferentes enfoques históricos e exegéticos que o tema teve,

mostrando a ausência nos estudos em Lucas (especialmente no interlucano) de um tratamento adequado a este perfil profético-messiânico dado a Jesus por Lucas.

8

EGGER, W. Op. Cit., p. 155-179.

9

KNIGHT, D. A. Methods of Biblical Interpretation. Nashville: Abingdon Press, 2004, p. 121-146.

10

CROATO, S. Jesus, Prophet Like Elijah, and Prophet – Teacher Like Moses in Luke–Acts. Atlanta: Journal of Biblical Literature. 124, 2005; CROATO, S. Jesus morre como profeta em Jerusalém. A construção lucana do Jesus profeta. In: RIBLA (44). Petrópolis: Vozes, 2003.

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No capítulo 2, será tomado em conta, começando pelo prólogo, passando pelo Evangelho da Infância e João Batista como profeta precursor, aspectos do ministério galileu de Jesus que identificam e fortalecem a figura de um Messias-Profeta, como por exemplo o discurso na sinagoga de Nazaré, mas também o trabalho redacional de Lucas , nas bem-aventuranças ao redigir tendo o pobre como eixo hermenêutico ( Lc 6.20-24 ).

No Capítulo 3, será tratada a unidade na qual está a maior quantidade de material da fonte Lucas, onde marca-se a viagem a Jerusalém como a marcha, caminhada do Profeta-Messias rumo a Jerusalém, numa tipologia típica do conflito campo (Galileia) e cidade (Jerusalém) elemento que será devidamente exposto. Este capítulo está estruturado sobre o verbo poreu,omai, viajar, marchar, que encarna o clima de marcha do Êxodo, termo que, por sinal, é usado na perícope de passagem entre as viagens na Galileia, para a grande viagem a Jerusalém, a qual é a narrativa da transfiguração (Lc 9.28-36). Cooperando na integração e ritmo redacional será mostrado também o papel de Jerusalém e dos pobres com tratamento típico na teologia de Lucas11.

Por fim, no capítulo 4 será analisada exegeticamente a perícope, considerada central no interlucano Lucas 13.31-35, na qual Jesus se apresenta como profeta, e lança oráculo profético contra Jerusalém v. 34-35. Na sequência, se desenvolverá de modo objetivo temas teológicos como sequencia natural da exegese do texto proposto, e que são os seguintes: a) - Jerusalém lugar da morte de Jesus e dos profetas; b) - Jesus Messias e Profeta; c) - a morte do profeta Jesus; d) - a parusia do Filho do Homem: a volta do Messias-Profeta.

Encerrando, é necessário sublinhar o que se entende por: Crítica Literária, Crítica da Tradição e Crítica da Redação; isto porque há entre os especialistas diferenças conceituais.

A Crítica Literária considera o texto a partir de suas fontes literárias conhecidas.

A Crítica da Tradição considera e investiga a pré-história dos textos, utiliza-se de conceitos como o Sitz im Leben, visando retroceder às tradições orais,

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GREEN, J. B. The Theology of the Gospel of Luke. Cambridge: Cambridge University Press, 2007, p. 1 a 22 e 76 a 102.

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e depende de um estudo apurado do contexto histórico, das formas e gêneros literários.

E Crítica da Redação, ou História da Redação, como apregoa a exegese alemã, cuida de como o redator criou sua obra neste caso o Evangelho de Lucas -, de como trabalhou o material recebido e ao seu alcance; ela é por natureza diacrônica.

Cabe ainda dizer que aqui se trabalha com conceitos já consagrados na exegese bíblica, como ao tratar das fontes da tradição sinótica, se usa o conceito de fonte Marcos ( M ), e fonte Q. Mesmo sabendo de que há controvércia sobre o tema, mas não é objetivo deste trabalho entrar em tal controvérsia. Até porque não há como negar que Mateus e Lucas usaram Marcos, e usaram também uma fonte que lhes foi comum ( Q ). Ademais de fontes próprias .

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