UFRRJ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS – ICHS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS EM
DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E SOCIEDADE – CPDA
TESE DE DOUTORADO
Linha de Pesquisa: Políticas Públicas, Estado, Atores Sociais
Razões da sustentabilidade do Governo da Floresta: uma releitura do
processo de desenvolvimento do Estado do Acre
Mauro César Rocha da Silva
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO – UFRRJ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS – ICHS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS EM
DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E SOCIEDADE – CPDA
Razões da sustentabilidade do Governo da Floresta: uma releitura do
processo de desenvolvimento do Estado do Acre
Mauro César Rocha da Silva
SOB A ORIENTAÇÃO DA PROFESSORA
ELI DE FÁTIMA NAPOLEÃO DE LIMA
TESE DE DOUTORADO SUBMETIDA COMO REQUISITO PARCIAL PARA APROVAÇÃO DO GRAU DE DOUTOR NO CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS EM DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E
SOCIEDADE
SEROPÉDICA,RJ
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO – UFRRJ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS – ICHS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS EM
DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E SOCIEDADE – CPDA
MAURO CÉSAR ROCHA DA SILVA
Tese submetida como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Ciências no Curso de Pós-graduação em Ciências Sociais, na área de concentração em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade.
TESE APROVADA EM: / / 2011
______________________________________________ (ELI DE FÁTIMA NAPOLEÃO DE LIMA,DRA.,CPDA/UFRRJ)
ORIENTADORA
______________________________________________ (LEONILDE SÉRVOLO DE MEDEIROS,DRA.,CPDA/UFRRJ)
_____________________________________________ (NELSON GIORDANO DELGADO,DR.,CPDA/UFRRJ)
______________________________________________ (NAZIRA CAMELY,DRA.UFAC-UFRJ)
______________________________________________ (MARIA DO SOCORRO BEZERRA DE LIMA,DRA.UENF)
333.108112 S586r T
Silva, Mauro César Rocha da.
Razões da sustentabilidade do Governo da floresta: uma releitura do processo de desenvolvimento do Estado do Acre / Mauro César Rocha da Silva, 2011.
350 f.
Orientadora: Eli de Fátima Napoleão de Lima Tese (doutorado) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Bibliografia: f. 334-350
1. Estado - Teses. 2. Mercado – Teses. 3. Desenvolvimento sustentável – Teses. 4. Legitimidade de poder – Teses. I. Lima, Eli de Fátima Napoleão de. II. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Instituto de Ciências Humanas e Sociais. III. Título.
Dedico este trabalho àquelas pessoas que, embora distantes, me mostraram que a colheita próspera decorre de um dedicado caminho de semeadura que lhe antecedeu: Suzet Gonzalez, Jane Ramirez, Zola, Itza Marion.
AGRADECIMENTOS
Na consecução de todas as etapas de elaboração deste trabalho que, agora, apresentamos em formato de Tese muitas pessoas e Instituições públicas ou particulares contribuíram para a sua conformação, as quais sou sinceramente grato a todas elas pelo empenho a mim confiado. O trabalho individual de elaboração e pesquisa que realizei, na verdade, foi fruto de um processo coletivo, sem o qual esse empreendimento não poderia ter sido alcançado. Meus agradecimentos, portanto, à Universidade Federal do Acre – UFAC que me concedeu autorização para a realização do Curso de Pós-Graduação na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ, no Centro de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade – CPDA.
À UFRRJ-CPDA meu reconhecimento indelével pelo acolhimento austero como discente e, sobretudo, por me proporcionar oportunidade de um ensino de qualidade, um conhecimento científico a altura dos desafios do desenvolvimento brasileiro, com elementos teóricos e metodológicos eficazes para a compreensão da realidade social sob a luz da temática do desenvolvimento. O meu agradecimento ao CPDA enquanto Instituição Pública de excelência em Ciência Social se entrelaça com o engajamento e afeto humano com que os\as professores\as realizam seu trabalho acadêmico cujo zelo não poderia deixar de mencionar na pessoa dos seguintes docentes: Leonilde Medeiros, Nelson Delgado, Jorge Romano, Roberto Moreira, Peter May, Fátima Portilho. Em especial, a minha orientadora Eli de Fátima Napoleão de Lima que, com paciência e presteza, me acompanhou durante as fases de pesquisa e elaboração final da Tese. Os servidores da Secretaria Acadêmica na pessoa de Henrique Santos pelo profissionalismo com que atendeu as minhas solicitações acadêmicas e encaminhamentos burocráticos, tornando a distância irrelevante e minimizando as dificuldades do afastamento geográfico, quando passei a residir no Acre para a realização da pesquisa.
Aos meus colegas de Curso e de Turma que, apesar de distantes, me deixaram a lembrança das boas recordações partilhadas nos momentos de estudos e na convivência mútua das recreações e festividades: Elaine Lacerda, Paulo Nierdele, Laetícia, Dora, Everton ...
Meu reconhecimento a todas as Instituições governamentais do Acre, na cidade de Rio Branco e Cruzeiro do Sul, pelas informações repassadas e material disponível. Ainda, pelas pessoas que tão gentilmente me concederam entrevistas e disponibilizaram material estatístico relevante para a composição deste trabalho.
Meu cumprimento particular a Marta Antunes que aceitou gentilmente fazer a tradução do resumo para o inglês.
Talvez na impossibilidade de mais uma vez cumprimentar a todos\as, gostaria de deixar meu registro e de dizer que foi através do empenho deles que encontrei entusiasmo para oferecê-los esta humilde contribuição acadêmica como sinal dessa disposição coletiva, um esforço científico de contribuir com o processo de desenvolvimento humano do Acre.
Simultaneamente, essa possibilidade de realização profissional que tive destaca a importância inestimável de valorização de uma das muitas Universidades Públicas de qualidade que tem contribuído para a promoção da abertura das oportunidades educacionais no país, bem como se empenhado para a elevação da consciência social necessárias à qualificação do desenvolvimento científico e tecnológico e, sobretudo, à emancipação humana do Brasil.
RESUMO
SILVA, Mauro César Rocha da. Razões da sustentabilidade do Governo da Floresta: uma releitura dos aspectos políticos e econômicos do desenvolvimento do Estado do Acre. Rio de Janeiro, ICHS/CPDA/UFRRJ, 2011. (Tese doutorado, Doctor Scientiae em Ciências Sociais, em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade)
Razões da sustentabilidade do Governo da Floresta: uma releitura sobre o processo de desenvolvimento do Estado do Acre
RESUMO
Na década de 1990 que antecedeu o início do século XXI uma máxima político-econômica de dupla significação entrou na moda mundial e figurou como premissa irrepreensível de interpretação da sociabilidade humana devido seu amplo respaldo no círculo acadêmico, a saber: i) a promulgação da extinção da política e, portanto, do Estado enquanto instância reguladora do ordenamento social; ii) e a reafirmação da predominância do mercado barganhador expresso pelo receituário neoliberal, como a principal orientação da existência social entre os homens. Confrontado por esse pressuposto genérico, este trabalho de pesquisa procura investigar, a partir do tema do desenvolvimento, como se poderia explicar a crescente importância da ação do Estado do Acre na condução do desenvolvimento regional durante o período em que se prescrevia o desaparecimento da esfera estatal? Ademais, como teria sido possível o Governo da Floresta promover melhoras relativas das condições materiais de vida social quando se advogava em alto e bom tom o domínio do interesse estritamente econômico diante dos objetivos sociais de suprir as demandas coletivas dos ordenamentos humanos? Enfim, diante de tanto descrédito do caráter político da vida social e da precarização das condições materiais de vida em escalada planetária, o que teria justificado a enorme legitimidade do Governo da Floresta face ao visível desvirtuamento do poder político enquanto instrumento essencial de orientação das sociedades para superação das suas necessidades? A experiência de constituição do Acre, ao contrário do que se tem dito, tem demonstrado a persistente coexistência das instâncias da economia e da política na formação do Estado e do mercado acreano, de modo que se durante todo o concurso da história do Acre tenha ocorrido prosperidade material para atender as necessidades crescentes do conjunto da população local, foi em razão do contínuo e tenso condicionamento do duplo movimento do qual fala Karl Polanyi: de um lado, a ação política voltada para a proteção social, e de outro, o impulso do desenvolvimento econômico. O Governo da Floresta, objeto deste estudo, corresponde ao resultado de um desses momentos em que o poder político esteve bastante entrelaçado ao interesse econômico, ao passo, que se houve a restauração da dinâmica econômica assim como conquistas sociais isso ocorreu devido o grau da combinação com que esses interesses se enfrentaram e\ou ajustaram-se por dentro do tabuleiro de forças da política econômica do Estado do Acre.
Palavras chaves: poder político (Estado); interesses econômicos (mercado); desenvolvimento sustentável; legitimidade de poder.
ABSTRACT
SILVA, Mauro César Rocha da. Reasons for the Forest’s Government Sustainability: a rereading of the political and social dimensions of the Acre State’s development. Rio de Janeiro, ICHS/CPDA/UFRRJ, 2011. (PhD, Doctor Scientiae in Social Sciences, in Development, Agriculture and Society)
Reasons for the Forest’s Government Sustainability: a rereading of the political and social dimensions of the Acre State’s development.
ABSTRACT
During the 1990s, preceding the beginning of the XXI century, a political and economic
maxima of double meaning entered the mainstream and become a faultless premise of
human sociability interpretation due to its broad support from academic circles, namely: i) the enactment of policy extinction and thus of the state as regulator of social organization; and ii) the reassertion of the bargaining market primacy expressed by the neoliberal tenet, as the main orientation of social existence among men. Confronted with this general assumption, this research investigates, within the development field, how one could explain the growing importance of the Acre State’s actions in the direction of regional development within the period that prescribed state sphere disappearance? Furthermore, how was it possible for the Forest’s Government to promote virtual improvements in the material conditions of social life; while it was loudly and clearly advocated the prominence of purely economic interest in relation to the social goals of meeting the collective demands of human orderings? Finally, considering both the discrediting of the political character of social life and the precariousness of the material conditions of life on a planetary scale; what would have justified the enormous legitimacy of the Forest’s Government in face of the visible distortion of political power as an essential tool to guide societies towards overcoming their needs? On the contrary of what has been stated, the experience of Acre establishment has shown the persistent coexistence of the economic and political realms in the Acre state and market formation. At the point that, if throughout all of Acre’s historic pathway we can find material prosperity able to meet the growing needs of the entire local population, it was because of the continuous tense and conditioning double movement described by Karl Polanyi: on the one side, there is the political action towards social protection; and, on the other side, the impulse towards economic development. The Forest’s Government – the subject of the present study, corresponds to the output of one of those moments in which the political power was closely intertwined with the economic interest. If there was a simultaneous restoring of economical dynamic and social conquests, it was due to the degree in which these interests clashed, and\or adjusted from within the forces relation of the economic politics of the Acre State.
Key words: political power (state); economic interests (market); sustainable development; power legitimacy.
Lista de Tabelas, Figuras e Gráficos
Tabela 1 População do Acre, Urbana-Rural, 2007. p. 54 Tabela 2 População do Estado do Acre, Municípios de Cruzeiro do Sul Rio Branco
p. 54 Tabela 3 População do Estado do Acre, Municípios de Cruzeiro do Sul Rio Branco,
por zona rural e urbana p. 54
Tabela 4 Direitos de exportação da borracha acreana cobrados pela União p. 84 Tabela 5 Exportação de borracha silvestre amazônica, 1821-1947 p. 85 Tabela 6 Produção Total do Setor Primário (Agricultura) do Acre – série 1970\1996 p. 107 Tabela 7 Produção do Setor Primário do Município de Rio Branco e sua
participação relativa no Acre p. 108
Tabela 8 Produção do Setor Primário do Município de Cruzeiro do Sul e sua
participação relativa no Acre p. 108
Tabela 9 Segmento Pecuário – Bovinos, produção em número de cabeças – e percentual de participação dos municípios (%) p. 111 Tabela 10 Segmento Extrativista do Acre – Borracha (tonelada) p. 113 Tabela 11 Beneficiamento e Renda dos Conjuntos Mecânicos das Colônias Agrícolas
de Rio Branco, 1952 p. 131
Tabela 12 População total do Estado do Acre, série temporal 1970-2000 p. 136 Tabela 13 Valor em R$ atribuído pela Secretaria de Estado da Fazenda – SEFAZ por
m³ de madeira serrada no Estado do Acre para referenciar a base de cálculo
do imposto do ICMS (ano referência 2000). p. 223
Tabela 14 População do Acre, Urbana-Rural, 1920-2007. p. 232 Tabela 15 População total do Estado do Acre, 1970-2007, Municípios, Região Norte p. 232 Tabela 16 Pessoa Ocupadas de 10 anos ou mais de idade, segundo os ramos de
atividade, a posição na ocupação do trabalho principal, Acre, 1999-2006. p. 237 Tabela 17 População em idade ativa, economicamente ativa e não economicamente
ativa no Acre. p. 238
Tabela 18 Quantidade produzida e valor da produção dos principais produtos agrícolas do Acre (2002-2006) (Continuação Tabela 18b) p. 243 Tabela 18b Quantidade produzida e valor da produção dos principais produtos
agrícolas do Acre (2002-2006) p. 243
Tabela 19 Produto Interno Bruto – PIB do Acre e participação dos setores produtivos p. 246 Tabela 20 Confronto dos resultados dos dados estruturais dos Censos Agropecuários.
Acre – 1970\2006. p. 248
Tabela 21 Dinâmica do rebanho bovino nos estados da Amazônia Legal entre 1975 e
2007. p. 249
Tabela 22 Dinâmica da área de pastagens nos estados da Amazônia Legal entre 1975
e 2006. p. 251
Tabela 23 Evolução da taxa de lotação das pastagens nas regiões do Brasil e nos
estados da Amazônia Legal entre 1974 e 2006. p. 252 Tabela 24 Receita Tributária Comparativo 2002-2003 P.258
Tabela 25 Receita Tributária Comparativo 2005-2006 P.258
Tabela 26 Demonstrativo do PIB do Brasil e das Grandes Regiões da Federação –
1995-2007. p. 260
posição na ocupação do trabalho principal – Acre. p. 269 Tabela 28 Pessoas de 10 anos ou mais, ocupadas na semana de referência, por classe
de Rendimento mensal de todos os trabalhos, no Acre, 1999-2006. p. 271 Tabela 29 Pessoas residentes em domicílios particulares, total e respectiva
distribuição percentual, Por classes de rendimento mensal familiar per capita, segundo as Grande Regiões, Unidades da Federal e Regiões
Metropolitanas – 2008. p. 272
Tabela 30 Número de Matrículas da Educação Básica, do Acre. 1999-2006. p. 378 Tabela 31 Médias do Enem por Município e por Escolas dos Alunos Concluintes do
Ensino Médio em 2008 (Acre). p. 284
Tabela 32 Notas Médias do Enem por Município e por Escolas dos Alunos
Concluintes do Ensino Médio em 2008. p. 285
Tabela 33 Escala do IDH-M do Acre (1991-2000). p. 287 Tabela 34 As áreas desmatadas na Amazônia Legal nos últimos três períodos (Km²). p. 320 Tabela 35 A participação dos Estados no desmatamento anual da Amazônia Legal
(Km²). p. 321
Tabelas, Figuras, Gráficos e Mapas Compilados
Tabela 1 Ano de criação, responsabilidade institucional da presidência, estrutura dos
5 espaços de participação e número de membros (MENESES, 2008). p. 314 Tabela 2 Esperança de vida ao nascer, por sexo, segundo as Grandes Regiões –
1980\2005. (IBGE, 2009) p. 273
Tabela 3 Organizações da sociedade civil que têm assento nos espaços analisados.
(MENESES, 2008) p. 318
Tabela 4 Número de membros dos 5 espaços e porcentagens da Sociedade e da Sociedade Civil, dos Órgãos Governamentais e dos Governos Estaduais e
Federais (MENESES, 2008). p. 325
Tabela 44 Desflorestamento bruto da Amazônia Legal, segundo Unidades da Federação – 1992\1999. (IBGE, 2002, p. 89) p. 321 Figura 1 Composição do CEMACT por Tipo Institucional (MENESES, 2008) p. 315 Figura 2 Composição do CDRFS por Tipo Institucional (MENESES, 2008) p. 316 Figura 3 Composição da CEAA-BID por Tipo Institucional (MENESES, 2008) p. 316 Figura 4 Composição do CFE por Tipo Institucional. (MENESES, 2008) p. 317 Gráfico 1.6 Esperança de vida ao nascer, segundo as Grandes Regiões e Unidades da
Federação (IBGE, 2009) p. 274
Gráfico 2.5 Proporção de pessoas com 18 a 24 anos de idade com 11 anos de estudo
segundo as Grandes Regiões – 1998\2008 (IBGE, 2009a) p. 277 Gráfico 13 Taxa de mortalidade em jovens do sexo masculino de 15 a 29 anos de
idade, em ordem crescente de 2005, por homicídio, segundo as Grandes
Regiões e Unidades da Federação – 2000-2005 p. 275 Gráfico 4. Desmatamento evitado no Brasil e nos estados da Amazônia Legal entre
1975 e 2006, em função do aumento da atividade de pecuária (Valentim e
Andrade, 2009) p. 253
Mapa 1 Mapa de localização do Estado do Acre p. 19
Quadro 2 Configuração da Estrutura Fundiária do Acre p. 201 Quadro 1 Terras Cadastradas do Acre (1970-1980) p. 202 Quadro 3 Terras Cadastradas do Acre (1970-2004) p. 202
Quadro 4 Índice de Gine (1992-2003) p. 203
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 01 1.1. APORTE CONCEITUAL. AS ORIGENS ASSOCIATIVAS DA RELAÇÃO ENTRE A
GESTÃO ECONÔMICA E O PODER POLÍTICO: A FORMAÇÃO DOS MERCADOS INTERNOS E DO PODER POLÍTICO (ESTADO)... 08
SECÇÃO I: RAZÕES HISTÓRICAS ENDÓGENAS DO PROJETO POLÍTICO DO GOVERNO DA
FLORESTA ... 19 1.1. AS MOTIVAÇÕES POLÍTICO-ECONÔMICAS DA FORMAÇÃO HISTÓRICA DO
ACRE – A REVOLUÇÃO ACREANA... 23 1.2.AS RAZÕES POLÍTICAS E ECONÔMICAS DO MOVIMENTO AUTONOMISTA E AS
SUAS DISSIDÊNCIAS REGIONAIS... 45 1.2.1. OS PRIMEIROS VIAJANTES E O POVOAMENTO DOS RIOS ACRE E
JURUÁ... 47
1.2.2. A CIDADE COMERCIAL E POLÍTICA DE RIO
BRANCO... 50
1.2.3. A CIDADE COMERCIAL E POLÍTICA DE CRUZEIRO DO
SUL... 58 1.3. AS MOTIVAÇÕES ECONÔMICAS E POLÍTICAS QUE SUSTENTARAM O
MOVIMENTO AUTONOMISTA DO ACRE... 65
SECÇÃO II: O MERCADO E A EXPANSÃO DA POLÍTICA ECONÔMICA GOVERNAMENTAL DE
DESENVOLVIMENTO DO ACRE... 77 2.1.AS BASES MATERIAIS DA POLÍTICA ECONÔMICA E A AS PRIMEIRAS MEDIDAS
PARA A FORMAÇÃO DO MERCADO INTERNO... 78 2.2. AS COLÔNIAS AGRÍCOLAS, DIVERSIFICAÇÃO PRODUTIVA E CONFIGURAÇÃO
POPULACIONAL DO MERCADO DO ACRE ... 101 2.3. ELEMENTOS DA RELAÇÃO ASSOCIATIVA DO MERCADO DO ACRE COM OS
SEUS ORDENAMENTOS POLÍTICOS A PARTIR DA POLÍTICA ECONÔMICA GOVERNAMENTAL DE DESENVOLVIMENTO...
123
SECÇÃO III A EMERGÊNCIA DA PROBLEMÁTICA AMBIENTAL E A RELAÇÃO DO
CAMPESINATO COM A NATUREZA... 140 3.1. AS PRÁTICAS E MENTALIDADES DOS PATRÕES E SERINGUEIROS NO
ORDENAMENTO SÓCIO-ECONÔMICO DO SERINGAL... 144 3.2. AS RAÍZES DO ENTRELAÇAMENTO AMBIENTAL COM AS PRÁTICAS
PRODUTIVAS DE DESENVOLVIMENTO DOS SERINGUEIROS... 153 3.3. MAPEAMENTO EXPLORATÓRIO DA RELAÇÃO DO CAMPESINATO ACREANO –
OS SERINGUEIROS – COM A NATUREZA... 165 3.4.OS CONTEXTOS DE INSTITUCIONALIZAÇÃO DA NATUREZA NAS ESTRATÉGIAS
DAS POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS... 173
3.5. O DESENVOLVIMENTO COMO PROCESSO SOCIAL RESULTADO DA COEXISTÊNCIA DO PRINCÍPIO DA ECONOMIA E DA POLÍTICA NO ÂMBITO DA DETERMINAÇÃO DO MERCADO CAPITALISTA... 178
SECÇÃO IV OGOVERNO DA FLORESTA E O PROJETO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO ACRE,1999-2006... 187
4.1 SITUANDO A POLÊMICA SOBRE O GOVERNO DA FLORESTA FRENTE ÀS PESQUISAS ACADÊMICAS MAIS RECENTES... 191
4.2. O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO ACRE: MENSURAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE PROTEÇÃO SOCIAL DA VIDA MATERIAL... 227
4.2.1.DINÂMICA POPULACIONAL... 229
4.2.2.AGRICULTURA... 238
4.2.3.INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS... 253
4.3. DESENVOLVIMENTO HUMANO: RENDA, EDUCAÇÃO, LONGEVIDADE, SAÚDE, SANEAMENTO, HABITAÇÃO... 253
4.3.1.TRABALHO E RENDA... 266
4.3.2.LONGEVIDADE,SAÚDE E SANEAMENTO... 272
4.3.3.EDUCAÇÃO... 276
4.3.4.ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO –IDH DO ACRE... 286
SECÇÃO V POLÍTICA E SUSTENTABILIDADE: DA DESGOVERNABILIDADE À LEGITIMIDADE DO PODER POLÍTICO NO ACRE ... 293
5.1. O DESENVOLVIMENTO COMO PROJETO POLÍTICO-SOCIAL DE COMPATIBILIZAÇÃO DOS INTERESSES DE DETERMINADA FORMAÇÃO SOCIAL ... 296
5.2.A REPRESENTAÇÃO POLÍTICA NO GOVERNO DA FLORESTA: DO DESGOVERNO À GOVERNABILIDADE... 304
5.3. AS RAZÕES DA ESTABILIDADE SOCIAL E LEGITIMIDADE POLÍTICA DO GOVERNO DA FLORESTA DO ACRE... 328
CONCLUSÃO... 341
1. INTRODUÇÃO
O questionamento fundamental que orientou os objetivos da presente tese foi a indagação sobre que razões empíricas permitem explicar a possibilidade de ascensão do Governo da Floresta, em outubro de 1999, considerado progressista frente às causas sociais dos trabalhadores, dado o caráter contextual em voga, naquela década, extremamente excludente, motivado pela racionalidade neoliberal com o seu viés econômico exclusivamente calculista. Nos perguntamos ainda como pode tal Governo promover transformações sócio-econômicas significativas se o mesmo estava enredado pelo ranço do processo de modernização conservadora em curso no país e emparedado pela expansão do ‘capital’ em escalada planetária, que os eufóricos diziam, havia aniquilado e desintegrado toda a estrutura do aparelho de Estado, e como um “moinho satânico”, parafraseando Karl Polanyi (2000) havia colocado este, ao seu serviço exclusivo de deterioração das necessidades humanas de proteção social. E finalmente, procuramos saber como pode o Governo dispor de tamanha legitimidade política a ponto de ter sido reeleito, tido a capacidade de garantir a sucessão de sua gestão depois de oito anos de mandato, justo no período em que se anunciava a morte do Estado, a deslegitimação do poder, e, por pressuposto, o fim da política como direção primaz da sociedade1?
Desse modo, para procurar contestar estas indagações o objetivo da pesquisa foi constituído por dois propósitos mútuos: i) em primeiro lugar, investigar a formação histórica do Acre, a gênese do Estado do Acre (Unidade da Federação do Brasil) e a formação do mercado (interno local) na sua relação correspondente com o intuito de delinear as principais lacunas e os fatores subestimados historicamente que foram identificados e recuperados pelos propagadores da FPA por meio dos quais conseguiram o estabelecimento de um “pacto social” que garantiu a ascensão e consolidação do Governo da Floresta na direção do poder do Estado do Acre; ii) em segundo lugar, definidos estes fatores que em convergência deram legitimidade de poder ao referido Governo, analisamos se esse encontro dos interesses tem resultado, ao alcançar a ordem política institucionalizada do Estado, em melhoria do bem-estar material de vida da população residente.
No caso do Acre, a formação do projeto de política de desenvolvimento local deu-se simultaneamente ao processo que desembocou na definição das fronteiras estaduais, na configuração mental de sua gente, na criação da administração publica (da política fiscal, impostos, créditos, controle das atividades econômicas), da regulamentação da economia e conseqüentemente do mercado. O entrelaçamento e a correspondência de funções econômicas e políticas protagonizadas pelos mesmos agentes prefiguraram essa condição do desenvolvimento como o encontro das variáveis da economia e da política.
Buscamos apreender estes questionamentos tomando a temática do desenvolvimento, principalmente na versão do desenvolvimento sustentável que passou a dominar os discursos e\ou as ações dos governos de praticamente todos os países a partir de meados dos anos de 1990, quando as questões ambientais entram no debate político. Em particular abordaremos o processo de desenvolvimento tratando a problemática do mercado e da sua relação associativa com a política econômica governamental como recorte específico para caracterizar a formação e desenvolvimento do circuito político-econômico
1 Cf. Ignácio SACHS (2000); Perry ANDERSON (2004); Boaventura de Souza SANTOS (2002); Istvan MESZAROS (2004); Slavoj ZIZEK e Glyn DALY (2006).
do Acre. Sob este ângulo de investigação, a noção de desenvolvimento que adotamos vincula-se a motivações éticas e regulamentos sociais das trocas econômicas de maneira que o processo de desenvolvimento consiste na superação das privações econômicas e sociais (como a escassez de recursos naturais, fome, deseducação, desemprego, enfermidades, liberdades) que limitam a expansão das liberdades substantivas interditando a possibilidade do bem-viver sob condições básicas de existência social (SEN, 1999; SEN, 2000) que atendam ao usufruto das gerações atuais e futuras. O lugar de mercado mais do que o espaço de produção de valores econômicos que ocorrem através da produção, oferta e do consumo de mercadorias responsáveis pelo crescimento da renda per capita e do Produto Interno Bruto – PIB define-se por atributos de eficiência normativa que salvaguardem o intercâmbio mercantil contra “a exploração e em favor do bem-estar público” (BRANDT, 1979, p. 12)
Procedendo desse modo, referenciamos o trabalho, do ponto de vista teórico, situando-o por dentro da tradição sociológica que estuda as relações sociais como resultante de múltiplas interações humanas, em que no caso particular elegemos as dimensões da economia e da política. Esta opção se justifica porque segundo nos advertem Fernand Braudel (1985\1986), José Fiori (1999), Karl Polanyi (1944\2000), Max Weber (1972\2000), Antônio Gramsci (1987) e Gramsci (por SEMERARO, 1999), Amartia Sen (1999; 2000) dentre outros, os processos de desenvolvimento social assim como os mercados desenvolvem-se enredados em ramificações éticas e às motivações políticas dos ordenamentos sociais.
Nesse sentido é que Max Weber (2000) define a metodologia específica da sociologia para a compreensão empírica e explicação das causas e dos efeitos das relações sociais concebendo o princípio primaz de que a ação social entre os homens é carregada de sentidos constituídos, às vezes, por múltiplas motivações. Uma linha de sua exposição, por exemplo, procura estabelecer as conexões entre as ações2 associativas da economia e das ordens sociais. O significado sociológico dessa abordagem implica concretamente “(...) que as relações mais gerais entre economia e sociedade [guardam] uma relação de princípio entre economia e as ordens sociais que explicam a relação de dependência mútua e os efeitos empíricos destas” (p. xxiii).
Nesse sentido, pensar o modo como ocorre o processo de socialização do mercado significa considerar a sua vinculação com as comunidades políticas instituídas, porque segundo Sen (1999) existem razões empíricas suficientes que indicam o afastamento sistemático da motivação social baseada somente no auto-interesse, como exemplifica o caso de êxito da indústria japonesa em que os comportamentos aproximam-se de valores como dever, lealdade e a boa vontade. Esses mesmos aspectos têm sido
2 Max Weber entende por “ação” “um comportamento humano (tanto faz tratar de um fazer externo ou interno de omitir ou permitir) sempre e na medida em que o agente ou os agentes o relacionem com um sentido subjetivo. Ação social, por sua vez, significa uma ação que, quanto a seu sentido visado pelo agente ou os agentes, se refere ao comportamento de outros, orientando-se por este em seu curso (...). O sentido, é o sentido subjetivamente visado: a) na realidade ‘a’ ou num caso historicamente dado, por um agente, ou em ‘b’ média e aproximadamente, numa quantidade dada de casos, pelos agentes ou; b) num tipo puro conceitualmente, construído pelo agente ou pelos agentes concebidos como típicos. Não se trata, de modo algum, de um sentido objetivamente ‘correto’ ou de um sentido ‘verdadeiro’ obtido por indagação metafísica. Nisso reside a diferença entre as ciências empíricas da ação, a Sociologia e a História, e todas as ciências dogmáticas, a Jurisprudência, a Lógica, a Ética e a Estética, que pretendem investigar em seus objetos o sentido ‘correto’ e ‘válido’ ” (WEBER, 2000, p. 3-4).
identificados por Giovanni Arrighi e Beverly Silver (2001) como as respostas asiáticas da Índia, Japão e China a dominação do Ocidente.
Nesse expediente, a análise de tal processo de dependência mútua e seus efeitos práticos deve ser vislumbrada através do sentido da ação dos grupos sociais (em última instância dos indivíduos), princípio primário objetivo-empírico inicial para o estudo de qualquer objetivação da sociedade, mediante o qual é possível alcançar o entendimento do entrelaçamento da socialização estabelecida pela identificação da evidência do sentido visado da ação social. O sentido da ação, portanto, embora não esteja determinado antecipadamente, ou pré-definido por realidades objetivas dadas como se originasse pronto, orienta-se por condições concretas referenciadas na conduta dos outros agentes participantes da ação social e subordina-se na sua forma de realização, ao processo de socialização que lhe enreda, isto é, a ação social desenvolve-se como resultado da ação conjunta da sociedade, pois “é da essência do ‘processo de socialização’ e de todo o enredamento do indivíduo nele que intenções e ações sejam levadas a operar no conjunto das circunstâncias sociais e do processo permanente de societarização” (WEBER, ibid, p. xxvii).
Max Weber exemplifica a evidência do sentido da ação social compreensivelmente possível fazendo referência à produção, ao uso e função dos artefatos utilizados socialmente:
...Todo artefato, uma máquina, por exemplo, somente pode ser interpretado e compreendido a partir do sentido da ação humana (com finalidade possivelmente muito diversa) proporcionou (ou pretende proporcionar) à sua produção e utilização; sem o recurso a esse sentido permanecerá inteiramente incompreensível. O compreensível nele é, portanto, sua referência à ação humana, seja como meio, seja como fim concebido pelo agente ou pelos agentes e que orienta suas ações. Somente nessas categorias orienta-se a compreensão dessa classe de objetos (...) Compreendemos as ações de tirar lenha ou de apontar com um fuzil não apenas de maneira atual, mas também pelos motivos, quando sabemos que o lenhador executa essa ação para ganhar um salário ou para consumo próprio, ou para recrear-se (...) ou quando sabemos que o atirador age assim obedecendo a uma ordem de executar alguém, ou combatendo um inimigo (racional) ou por vingança (de maneira afetiva, e nesse sentido, irracional) (...) todas essas são conexões de sentido compreensíveis, cuja compreensão consideramos uma explicação do curso efetivo da ação (WEBER, id, p. 5-6).
Em síntese, os fundamentos da sociologia compreensiva de Max Weber, portanto, constituídos na relação da ação social em interação com as formações sociais em que ela é desenvolvida, permitem apreender as conexões de sentido estabelecidas – os interesses representados – entre as ordens institucionais das associações políticas, como o Estado, em correspondência com as motivações das associações econômicas, como o mercado, e seus distintos agentes envolvidos, assim como compreender os efeitos práticos mútuos que são decorrentes dessa relação, em termos da orientação e funcionamento da política econômica. As orientações dos agentes nas escolhas dos meios disponíveis para satisfazer suas necessidades diante dos recursos escassos moldam-se também pelas ações de terceiros que têm os mesmos meios, de modo que, a escolha das medidas econômicas associam-se aos regulamentos estabelecidos e as convenções em vigor através das quais os
agentes sabem que quaisquer transgressões acerca da apropriação dos presumíveis recursos para a satisfação de suas necessidades, podem acarretar reações de terceiros (WEBER, 2000).
Com efeito, a experiência do Acre se mostra bastante eloqüente, pelas razões que exploramos sinteticamente para consideração, nessa unidade da federação, de como se estabelece a relação entre as trocas econômicas e os estatutos normativos ao longo da sua formação estatal, tornando possível a averiguação do entrelaçamento das motivações econômicas com os dispositivos e convenções políticas dos agentes produtivos que operaram na constituição da política econômica governamental de desenvolvimento acreano.
Embora o Estado do Acre corresponda do ponto de vista do seu estatuto político-jurídico a uma Unidade da Federação do Brasil, seria um equívoco designá-lo como um Estado-Nação propriamente dito. Ainda que possua Constituição própria, suas diretrizes normativas não podem ser contraditórias com os princípios constitucionais da Carta Magna brasileira a qual ela se submete. Nesses termos não poderíamos adequar o referencial teórico concernente à formação dos Estados nacionais e aplicá-los descontextualizados, forçando uma utilização conceitual para uma explicação da situação do Acre, enquanto Estado autônomo, mesmo que ele usufrua de relativa independência política frente ao poder da União. A esse respeito Paulo Bonavides (2007) nos adverte. Segundo o autor, as unidades políticas federadas podem estatuir livremente “uma ordem constitucional própria, estabelecer as competências dos três poderes que habitualmente integram o Estado (executivo, legislativo e judiciário) e exercer desembaraçadamente todos aqueles poderes que correm da natureza do sistema federado, desde que tudo se faça na estrita observância dos princípios constitucionais básicos da Constituição Federal” (BONAVIDES, p. 195-196).
No entanto, continua o cientista jurídico, com exceção da absoluta independência de que goza o Estado Federal, da sua soberania diante das coletividades associadas, o poder dos estados membros é “...da mesma natureza, da mesma espécie, da mesma substância daquele de que se compõe o poder do Estado” (ibid, p. 197). Nesse caso, conferimos que o processo histórico de formação do Acre desencadeou-se semelhante às experiências dos Estados nacionais, feitas às devidas ressalvas do espaço, tempo e demografia. Ademais, as teorias sobre o Estado pelo seu alcance e abrangência permitem uma adequação interpretativa sobre esse ordenamento político dotado da mesma natureza estatal.
O território ao qual pertenciam as terras acreanas era uma área ‘desconhecida’, politicamente encravada na confluência de uma tríplice fronteira internacional (Brasil-Bolívia-Peru) cujos países limítrofes ainda não haviam atentado para a sua existência, efetivamente. O motor industrial das fábricas européias e norte-americanas que entrou em funcionamento nas principais cidades mundiais elevou à importância do mercado da borracha e despertou a ‘questão do Acre’ perante os olhos dos países da tríplice fronteira, embora nessa época, os brasileiros já andassem por elas. As insurreições armadas e diplomáticas que se estabeleceram entre os três países que, ao término delas, deram os direitos às terras acreanas de serem anexadas ao Brasil, foram antecipadas pela proclamação da constituição do Estado Independente do Acre por duas vezes consecutivas, sendo a primeira proclamada por Luiz Galvez, em 14 de julho de 1899, e a segunda, por José Plácido de Castro, em 06 de agosto de 1902, as quais o governo do Brasil tratou energicamente de dissolver por razões inerentes à política diplomática entre os países. Em
1903, com o Tratado de Petrópolis entre o Brasil e a Bolívia, em 1909, com o ajuste de fronteiras com o Peru, as terras acreanas passaram a ser legalmente brasileiras, com a anexação definitiva à nação brasileira na condição de Território Federal do Acre, passando somente a usufruir do título de Estado do Acre, em 1962, com a aprovação do Projeto de Lei Nº 4.070, no Congresso Nacional, apresentado por José Guiomard dos Santos, desde 1957.
Estes acontecimentos históricos, por esses motivos correlacionados, nos dão subsídios suficientes para abordarmos o Acre a partir da ótica das teorias sobre o Estado, não obstante, estejamos cientes de que se trata de uma unidade federada do Brasil e de que o Acre não é uma nação ou país e as implicações disso3, segundo referenciamos. Mas o fato da história acreana ter-se sucedido nesses termos, isso implica pensar principalmente como ocorreram a demarcação de seu território, a criação do sistema de impostos, a formação das bases de uma economia local, a assimilação dos diferentes grupos sociais, a criação do sentido do pertencimento simbólico do grupo originário, tudo isso que marca indelevelmente o caráter próprio de uma dada formação social (no caso aqui, o de “ser acreano”). Ademais, enquanto federação, o Estado do Acre detém relativo poder discricionário administrativo sobre sua economia e sua política de modo que pode politicamente definir o rumo do seu desenvolvimento, não obstante possa haver forte interferência nacional, nomeadamente, devido à dependência econômica e\ou política a que ele está sujeito.
A explanação insistindo na referência teórica sobre o Estado para assinalar a experiência do Acre, mesmo com estatuto de Federação em sentido estrito, explica-se pelo fato do Governo da Floresta que propomos analisar, por um lado, obviamente ter ascendido à direção executiva do Estado Acre, e em segundo, instrumentalizar-se do aparato estatal para implementar sua política de desenvolvimento sustentável aparentemente na contra-mão da história em virtude da figura do Estado nacional haver sido considerado em fase de
3 O cuidado da pesquisa em descriminar as características políticas do Acre situando-o como uma unidade política federada vinculada a um Estado Nacional, a fim de pedir licença acadêmica para utilizar o arcabouço conceitual das teorias do Estado não é de tudo um despropósito porque essa condição acarretará implicações de ordem prática e metodológica para o estudo proposto. Um primeiro aspecto dessa situação diz respeito às influências emanadas do poder central diante das unidades federadas e das políticas nacionais de desenvolvimento que muitas vezes são contraditórias com as federações que por determinantes de tempo, espaço e geografia podem apresentar dinâmicas sociais muitos distintas. No caso do Acre essas ressalvas são relevantes porque, por exemplo, é bastante discutível se todas as implementações do Governo da Floresta se dariam sem o suporte financeiro da União, basta olharmos a questão da resolução dos conflitos fundiários. A maioria dos projetos de assentamentos foram constituídos por instituições da esfera federal como o INCRA ou IBAMA, as Reservas Extrativistas e os Projetos de Assentamentos Extrativistas são um bom exemplo disso, bem como os assentamentos de colonização. Os Pólos Agroflorestais e algumas áreas de assentamentos (Naris, Colônias Agrícolas), um percentual bastante ínfimo se comparado a estas outras mencionadas, é que foram criados pela competência dos governos estaduais. Ora, embora as instituições federais sediadas no âmbito do governo estadual compatibilizem suas ações executivas localmente, elas obedecem em grande parte condicionamentos nacionais. O mesmo poderíamos estender para ações nas áreas de meio ambiente, saúde, educação, e infra-estrutura que costumam responder as políticas da União. Nessas condições, seria bem mais complicado aferir ou mesmo atribuir as ações executadas pelo mérito, stricto sensu, único e exclusivamente do Governo da Floresta. Por essas razões, e cientes desses limites, referenciando as abordagens sobre o Estado e concebendo o Acre como tal, isso implica em última instância que ao tratarmos do Estado do Acre, de algum modo, a nossa análise respinga sobre o Estado do Brasil. E esse certo desconforto que assumimos antecipadamente pode ser minimizado porque tomamos o Acre como Estado apenas por uma razão metodológica para entender a partir de um estudo de caso como o desenvolvimento sustentável, a política e economia, operam nesses tempos tão difíceis.
desaparecimento (SANTOS, 2001), e finalmente, porque no Acre, toda a pulsão da dinâmica econômica e social deriva da ação estatal. Isso nos leva a concordar com Michael Mann (2000) de que o Estado está mais vivo do que nunca, principalmente se levarmos em conta a situação periférica do Acre, com enormes debilidades sócio-econômicas, embora a análise do autor refira-se ao caso Europeu e o impacto da Comunidade Européia para os Estados dos países membros.
O segundo ponto essencial para a utilização conceitual do Estado, conforme já indicamos acima, consiste em compreender que não existem historicamente mercados e, portanto, desenvolvimento material sem os ordenamentos políticos e econômicos aos quais eles estão incrustados. Giovanni Semeraro (1999, p. 88) traduzindo Antonio Gramsci assinala que em seu conceito de sociedade civil a idéia do “‘homo oeconômicus’ e o mercado ‘determinado’ da sociedade civil não são separáveis do Estado e do seu complexo superestrutural”. Na visão de Gramsci, segundo este autor, a dicotomia que o liberalismo introduziu com a associação da livre iniciativa econômico ligada à sociedade civil e as atividades jurídico-governamentais vinculadas à sociedade política parte de um grande erro metodológico que precisa ser sempre desmascarado, pois segundo ele “todo liberismo (...) é uma regulamentação do Estado; a privatização como a nacionalização sempre são intervenções do Estado. O Estado é a condição preliminar de qualquer atividade econômica coletiva, é o elemento do mercado, é até o próprio mercado, a própria expressão político-jurídica pela qual uma mercadoria (o trabalho) é preliminarmente desvalorizada” (SEMERARO, 1999, p. 88). Nesse sentido não existe separação entre Estado e economia, sendo que o ordenamento político consiste em estabelecer o padrão das trocas econômicas, de regular os distúrbios mercantis (DAHRENDORF, 1997; SEMERARO, 1999; POLANYI, 2000).
A pesquisa limita-se a estudar o Estado do Acre considerando a experiência de desenvolvimento sustentável durante a gestão executiva do Governo da Floresta realizada entre 1999-2006. A base de dados que utilizamos procurou recobrir o território do Acre como um todo, mas deliberadamente buscou-se enfatizar os resultados e impactos das políticas governamentais, bem como os fatores explicativos da ascensão do referido Governo elegendo as cidades de Rio Branco, capital estadual, e Cruzeiro do Sul, o segundo pólo mais dinâmico depois de Rio Branco. Essa escolha foi motivada, em primeiro lugar, pelo fato do volume das pesquisas sobre a historiografia acreana ser predominantemente escrita considerando, estritamente, as regionais do Alto e Baixo Acre, a qual a cidade de Rio Branco corresponde ao seu principal centro comercial e político. A região do vale do Juruá tem sido pouco abordada nas pesquisas acadêmicas estaduais. A dificuldade geográfica da localização do Juruá que obstaculiza a interação mais efetiva com a cidade de Rio Branco e os vales do Alto e Baixo Acre influi para que estas duas regiões guardassem e desenvolvessem processos sócio-econômicos muito distintos. Ademais a profusão com que o Governo da Floresta anuncia seu projeto político de desenvolvimento, certamente, ficaria pouco inteligível se não fosse tomado em consideração o entendimento da participação do Juruá em tudo isso. No entanto, convém sublinhar que por indisponibilidade das informações não foi possível apresentar os dados de maneira proporcional cobrindo as duas municipalidades das duas principais regionais, em todas as cinco secções da Tese, devido as fontes estatísticas estarem agregadas para o Acre como um todo, com exceção das três primeiras secções onde pudemos dispor os dados de forma paralela, em virtude da natureza das informações diferenciadas que elas exigiram.
Igualmente, pretendíamos mostrar os impactos empíricos na vida material da população subjacente ao desenvolvimento sustentável do Governo, a fim de termos uma noção sobre a distribuição espacial dos resultados de suas políticas. Convém sublinhar que tivemos muitas dificuldades para conseguir lograr esse objetivo e se em todas as temáticas tratadas não o realizamos, isso se deveu às várias ordens de dificuldades encontradas: i) informações que pudessem gerar bases comparativas entre as duas cidades, ii) que os dados fossem seriados temporalmente derivado das mesmas fontes de pesquisa, iii) ausência de informações acerca de certos temas, iv) dificuldade de acesso à informações em algumas instituições pesquisadas que fossem desagregadas regionalmente; v) falta de tempo.
O procedimento metodológico da pesquisa baseou-se nas seguintes etapas: i) elaboração dos objetivos da pesquisa; ii) levantamento do material empírico, fontes bibliográficas, documentos, obras literárias regionais; iii) catalogação de dados estatísticos em instituições públicas (IBGE, SEPLAM, SEBRAE, Secretarias Estaduais e Municipais das cidades de Rio Branco e Cruzeiro do Sul), com pesquisa pela internet; iv) realização de entrevistas; v) sistematização das informações coletadas; vi) elaboração preliminar da tese por secções temáticas; v) e por fim, redação conclusiva da tese.
O trabalho está organizado em cinco secções, com divisões em subseções. A primeira Secção: Razões históricas do Projeto Político do Governo do Acre, procurou rastrear por dentro do contexto histórico de formação do Acre os sentidos ou significados sociais que ficaram ausentes da agenda política e econômica depois da Revolução Acreana e Movimento Autonomista, e que estrategicamente foram adensados ao Projeto do Governo da Floresta. Na segunda Secção: “A dinâmica sócio-econômica e o poder governamental ao redor dos conflitos do desenvolvimento” considerou a expansão da política econômica governamental de integração das atividades produtivas, a medida que a indústria da borracha dava sinais de desvalorização econômica. Nela, se enfatizou a disseminação das atividades agrícolas e criatória de ampliação da diversificação produtiva de ocupação daqueles espaços que o declínio da borracha ia deixando em aberto.
Na terceira Secção: O cenário da década de 1970-1980, o reposicionamento dos agentes sociais, o meio ambiente. Tratou-se de descrever a conjuntura em que os conflitos sócio-ambientais eclodiram no campo, o surgimento do Movimento dos Seringueiros e Indígenas, organizado pelos sindicatos rurais, a mudança na correlação das forças sociais e a emergência da questão ambiental em decorrência da luta em defesa pelas florestas acreanas. Daí foram extraídos os últimos recursos simbólicos apropriados pelo Governo, esta Secção teve como foco deixá-los em evidência. A quarta Secção: O Governo da Floresta e os resultados materiais do Projeto de Desenvolvimento Sustentável, 1999-2006, situa o debate crítico sobre o Governo da Floresta e apresenta ao mesmo tempo que dialoga com uma base de informações empíricas dos resultados gerados pelas políticas governamentais do referido Governo.
Por fim, na última Secção: Política e Desenvolvimento Sustentável, abrem-se conjecturas sobre os fundamentos políticos e culturais que deram legitimidade de poder ao Governo da Floresta, suspeitando que eles ultrapassam o nível da realidade material, da dinâmica econômica, e se escondem por detrás dos recalcamentos sociais, ressentimentos históricos que, desde tempos pretéritos, têm empalidecido a vontade de identificação do seu corpo social com as ramificações com a terra\lugar em que tal tecido social se incrusta. Muito além das transformações de ordem econômica, a legitimidade política do Governo da Floresta afigura-se como a possibilidade de valorização de um sentimento simbólico de identificação social de sua gente, de estima do lugar, de dizer, um lugar que aqui tem gente,
que tem consciência política, direção da organização social. Talvez um sentimento ainda não adensado na devida espessura que a identidade social exige, em virtude das contradições e incompletudes que o projeto político do Governo da Floresta, todavia, não respondeu localmente para a emancipação de sua gente. Esta última Secção procurou responder a esse desenlace mais simbólico que opera de forma entremeada, mas por cima da camada material, e lhe dá sustentação.
Convém dizer, para finalizar esta parte da Introdução, que em todas as cinco Secções esforçamo-nos por apresentar os seus respectivos assuntos, mantendo, minimamente, a autonomia de uma em relação à outra, embora todas estejam interligadas por um fio condutor principal que lhes dá organicidade, ele caminha como uma sombra pela camada superficial do texto e o seu ponto essencial concentrou-se em dar visibilidade à formação da política econômica governamental e ao mercado interno localizado, pois foi dessa convergência e, por dentro dela, que se encontram as razões explicativas da possibilidade do Governo da Floresta e de seus feitos.
1.1. Aporte conceitual. As origens associativas entre a gestão econômica e o poder político relativas à formação dos mercados internos e do poder político (Estado)4.
Como anunciamos no início desta Introdução, as realizações do Governo da Floresta (1999-2006) se sucederam num contexto (mundial-nacional) de muitas controvérsias político-econômicas as quais podemos sintetizá-las tomando o seu principal paradoxo, o de que o debate sobre o desenvolvimento sustentável ganha importância política no momento em que está em pleno curso histórico políticas econômicas de corte neoliberal responsáveis pelo aprofundamento da deteriorização humana e ambiental do período contemporâneo. Essa batalha das idéias foi enfraquecida desastrosamente em favor da voracidade do capital barganhador expresso na noção-comum de Francis Fukuyama de negação da política em referência a queda das experiências socialistas do leste-europeu, rezando finalisticamente que o mercado capitalista se colocava como único caminho possível da história.
A indefinição retórica dessa controvérsia e de defensiva da política – mesmo em escaladas planetária de desigualdades, desintegração social, e financeirização da riqueza – promoveu, por mais de uma década, um debate especulativo que esterilizava inclusive a investigação científica. A experiência do Governo da Floresta para além do mérito ou demérito, segundo dissemos, sofreu de partidarismo, de tal modo, que tornou fantasmagórica a realidade acreana, a ponto de dificultar inclusive a validade de qualquer prognóstico sobre os avanços ou retrocessos, até mesmo no sentido de se procurar gerar subsídios materiais que dessem sustentação para propor, talvez, mudanças de curso da gestão governamental.
Essas razões foram motivos suficientes para recuperarmos neste trabalho de pesquisa as lições fundamentais dos pilares da ciência sociológica, em que merece ser
4 Convém sublinhar que os fundamentos teóricos que embasam o presente trabalho, bem como esse prefácio, se referenciam principalmente nas contribuições de conteúdo político-econômico de José Fiori, Ferdinand Braudel, Max Weber, Karl Polanyi. Apesar de ciente das diferentes abordagens e perspectivas destes autores, nos utilizamos daquilo que os aproximam, isto é, nos argumentos de que os mercados e os ordenamentos políticos desenvolvem-se entrelaçados.
sublinhado para os motivos que nos interessam, em primeiro lugar, a premissa de que a sociologia é uma ciência precipuamente empírica que estuda os fatos sociais, à luz obviamente de uma teoria interpretativa da sociabilidade humana, extraindo a inteligibilidade contida neles e que, independentemente, do observador e\ou da posição que se encontra os fatos empíricos, resultados da ação humana têm caracteres exteriores que se impõem ao pesquisador enquanto manifestação de sua materialidade social tangível, segundo nos advertiu desde tempos remotos, Emile Durkheim (1987) em seu trabalho As
regras do método sociológico.
Portanto, o segundo aspecto derivado desta verificável imparcialidade do conhecimento sociológico postula a razão como sendo o principal atributo da ciência social na medida em que as práticas humanas são dotadas de sentido, de que há uma razão para os agentes fazerem aquilo que eles fazem, de tal modo, que em sendo assim, estas motivações podem ser racionalmente decifradas pela instrumentalização do conhecimento, mesmo considerando que esse sentido é variável no tempo e lugar. O sociólogo francês Pierre BOURDIEU (1997) formula de maneira bastante precisa essa reflexão sobre a pesquisa social,
...a sociologia postula que há uma razão para os agentes fazerem o que fazem (no sentido em que falamos de razão de uma série), razão que se deve descobrir para transformar uma série de condutas aparentemente incoerentes, arbitrárias, em uma série coerente, em algo que se possa compreender a partir de um princípio único ou de um conjunto coerente de princípios. Nesse sentido, a sociologia postula que os agentes sociais não realizam atos gratuitos. A palavra gratuito remete, em parte, à idéia de não-motivado, de arbitrário: um ato gratuito é um ato do qual não podemos fazer sentido, um ato loco, absurdo, pouco importa, diante do qual a ciência social nada tem a dizer, do qual só pode se omitir (BOURDIEU, p. 138-139).
Sob outro ângulo, a abordagem de Ernst Cassirer (2005) tem constatado que o principal elemento que caracteriza a existência dos homens refere-se à sua capacidade de utilização da linguagem, do símbolo, “o conhecimento humano é por sua própria natureza um conhecimento simbólico” (p. 96). Mas o seu conhecimento está intrinsecamente relacionado com o mundo físico que o rodeia, para todas as suas necessidades imediatas e interesses práticos. No entanto, o conhecimento social, embora possa ser estudado com as mesmas regras dos conhecimentos biológicos, contém conhecimento de estatuto diferenciado, porque por mais que mantenha interface com o mundo físico que o rodeia, ele diz respeito precisamente à influência dos indivíduos, uns sobre os outros, em sociabilidade, portanto, isso implica considerar que apesar dos fatos sociais portarem significados simbólicos, sentidos sociais, eles não podem dispensar de um processo de descrição empírica dos eventos aos quais ele se inscreve. A experiência específica do conflito acreano que estrangulou o frágil ordenamento social e trouxe à tona a problemática de sua auto-determinação através do problema ambiental como variável de identificação dos interesses divergentes, pode ser empiricamente decifrável em seus significados simbólicos tangíveis: os fazendeiros e madeireiros, recém-chegados às terras acreanas, viam a floresta como empecilho ao desenvolvimento da pecuária e, portanto, queriam devastá-la para transformar suas áreas em pasto; ao contrário, os seringueiros e indígenas que tinham na floresta a fonte de existência econômico-produtiva de suas comunidades, entendiam-na como parte de sua sobrevivência social, e portanto, a queriam manter em pé.
Em resumo, os fazendeiros queriam transformar as florestas em pastagens e os seringueiros e indígenas resistiam para que elas permanecessem. O sentido simbólico desses conflitos ambientais encontra evidência descritivo-empírica nas florestas e na forma de seu uso produtivo.
Segundo Braudel (1986\1989) as relações de trocas constituem o traço primordial da existência das sociedades, possivelmente porque sem o substrato da vida material não haveria a possibilidade de qualquer sobrevivência social, visto que é basicamente por meio das relações de trocas econômicas que se permite a liberação do isolamento dos indivíduos e o suprimento de suas necessidades. Nesse sentido foi que no amplo dorso da vida social o comércio e a ação econômica voltadas para atender às necessidades primárias, ligando todos a todos, tornaram-se a própria referência sobre a qual as bases da sociedade se desenvolvem (WEBER, 2000). Mas o caráter histórico das trocas econômicas nem sempre significou a preponderância dos mercados na orientação da vida social, voltada para aquisição de rentabilidade, barganha ou lucro. Em muitos casos, a relação de mercado provavelmente assumiu papel diferenciado, às vezes, até acidental em muitas das formações sociais (POLANYI, 2000).
De tal modo que se tem bastante motivos para considerar que a simples presença da economia na vida social não significa razão suficiente para deduzir daí a premissa de que dela decorre uma relação necessariamente de ganho. Max Weber (2000) considerou que a ação econômica orienta-se pela busca de satisfação das necessidades mais elementares de existência social, visto que a disponibilidade dos meios disponíveis, os recursos, para satisfazê-las é limitada, o que pode implicar, talvez, em restrições de satisfação das necessidades de terceiros. Nesse sentido, a ação economicamente orientada para apropriação imediata dos recursos para satisfação de necessidades materiais utiliza-se de outras modalidades de meios não-econômicos, como fórmulas políticas, religiosas, constelações éticas e morais, tendo em vista assegurar pela coação física ou de forma pacífica, a garantia de subsistência e reprodução social de seus membros.
Observa-se, portanto, nesse caso, que nem todas as sociedades humanas desenvolveram formas de associação econômicas racionalmente dirigidas para aquisição utilitária de ganhos materiais, de lucro. Dentro da economia de troca, propensa à rentabilidade via mercado, somente a sociedade do ocidente conheceu um tipo particular de gestão econômica especificamente orientada para a aquisição do lucro, com a criação do mercado auto-regulado, que teremos oportunidade de conhecê-lo, um pouco, mais adiante. No momento convém mencionar que suas origens históricas, segundo Weber (2000) vieram prosperando através da intensificação e extensão das relações de mercado desde o século XVI, e isso, “em virtude da superioridade absoluta e indispensavelmente efetiva de uma direção cujas disposições se orientam individualmente pela situação de mercado, por um lado, e de puras constelações de poder, por outro” (ibid. p. 90), uma vez que os interesses mais facilmente conciliáveis consistem naqueles interesses puramente orientados pela renda, isso tem gerado pressão do interesse econômico por dentro do aparelho estatal.
Todas as formações sociais, portanto, historicamente anteriores a esse período, praticamente, desconheceram a absoluta orientação do mercado no processo de organização social. Uma típica economia de mercado, segundo Karl Polanyi (2000) significa um sistema de mercados, em que os preços são definidos exclusivamente sem nenhuma interferência de orientação extra-econômica, provindo dele a direção máxima do princípio pela preponderância do lucro que subordina todo o ordenamento social, transformando à sua disposição os recursos necessários (terra, trabalho e dinheiro) em mercadorias conversíveis
monetariamente para o seu funcionamento ininterrupto e expansivo. Contudo, mesmo depois da hegemonia do capitalismo ocidental ascendente, Giovanni Arrighi e Bervely J. Silver (2001), procurando explicação para a prosperidade das economias asiáticas emergentes, dirigidas por fora da modernização dominante, sustentaram que o mercado auto-regulado não conseguiu submeter seu domínio sobre estas sociedades orientais (Índia, China, por exemplo) porque não reconheceram o princípio fundamental desses povos de conciliação dos seus interesses econômicos e políticos com os aspectos religiosos da cultura local. Na Ásia Meridional, comentam os autores,
(...) a durabilidade e força do poder central dependiam do grau em que as diversas correntes de civilização nativa fossem conciliadas, não eliminadas (...). Na esfera crucial de tributação, as fontes de renda de que dependiam a autoridade central [dos Mughal] eram predominantemente controladas por uma miríade de grupos e redes pessoais em torno dos mercados locais e regionais, bem como dos cinturões agrários (...). Esse difuso sistema de dominação não implicava desorganização ou fragmentação, como afirmava a historiografia colonial. A economia e a cultura uniam o corpo político. Múltiplas culturas, comunidades e territórios ligavam-se em uma civilização integrada, mediante amplas e densas redes de comércio, que ligavam inúmeros mercados entre si e eram essenciais para converter o excedente, extraído da terra e do trabalho, em dinheiro e mercadorias (...). A proteção era o dever mais importante dos governantes. Por exemplo, a venerável epopéia Mahabharata afirmava que ‘o rei que diz a seu povo ser seu protetor, mas não o protege ou é incapaz de protegê-lo, deve ser morto pela massa dos súditos, como um cão contaminado pela raiva e que enlouqueceu’ (ARRIGHI e SILVER, p. 251-252).
Portanto, a constatação de Polanyi de que nem todas as sociedades foram sociedades de mercados, tem sua validade mesmo para os tempos contemporâneos. Em termos retrospectivos Max Weber (2000) tem demonstrado uma variedade de formas associativas, como as comunidades domésticas5, os clãs, comunidades de aldeias, comunidades camponesas, senhorios territoriais, que desenvolveram relações econômicas alheias ao cálculo restrito para obtenção máxima do lucro, típicas de economia de oikos6. Todas elas, apesar de não significarem tipos puros de economia doméstica, exclusivas para
5 Max Weber (2000) define comunidade doméstica como uma associação que busca suprir suas necessidades de bens e trabalhos da vida cotidiana, onde prevalece uma economia basicamente fechada para fora. Mas em situações extraordinárias, emergências, ou dificuldade parte da suplementação das necessidades podem ser completadas pela relação comunitária, para além da sua associação, pela ajuda da vizinhança. A noção de vizinhança não somente remete ao grau de proximidade geográfica das moradias em relação uma às outras, mas refere-se também à conciliação de interesses estabelecidos com outros grupos fora da comunidade. 6 “Um oikos, em sentido técnico, não é simplesmente toda grande comunidade doméstica ou toda aquela que fabrica, por si mesma, produtos variados, por exemplo, artesanais ou agrícolas, mas a economia doméstica extensa, autoritariamente dirigida, de um príncipe, senhor de terra ou patrício cujo motivo último não é a aquisição capitalista de dinheiro, mas a provisão organizada, em espécie, das necessidades do senhor. Para esse fim, ele pode servir de todos os meios, também da troca com o exterior, em maior escala. O decisivo é que seu princípio é a valorização do patrimônio e não a valorização do capital. Em sua natureza essencial, oikos significa: provisão organizada de necessidades, ainda que lhe possam estar agregadas com economia aquisitiva. Entre os dois princípios há naturalmente uma escala de transições imperceptíveis e também mudanças graduais ou abruptas de um para o outro” (WEBER, p. 262-263).
subsistência associativa, e dispensarem partes de suas produções para transações comerciais no mercado, à base das trocas comerciais que estabeleceram, obedeceram primordialmente motivações extra-econômicas e certo sentimento de solidariedade e reciprocidade. Típicas dessa situação são também os exemplos do comunismo doméstico de família, com fundamentos tradicionais e afetivos; comunismo de camaradas; comunismo de amor da comunidade religiosa com fundamentos explicitamente emocionais. Em todos esses casos, a troca servia, no limite, como simples dispositivo para “desfazer-se de excedentes ocasionais ou para obter coisas que a produção própria simplesmente não pode fornecer” (ibid., p. 263).
Nesse sentido, o espírito do homem barganhador, com inclinação psicológica para auferir resultados de renda, através das relações de permuta de uma coisa pela outra, atribuído ao pensamento econômico de Adam Smith, como o ‘homo economicus’, que foi formulada, considerando-se que a divisão social do trabalho apurava a propensão dos homens para ocupações lucrativas é, simplesmente, bastante questionável, na medida em que à divisão do trabalho, concorrem fatores como sexo, geografia e capacidade individual. Polanyi (2000) lembra que a história das sociedades primitivas confirma que, ao contrário, da psicologia capitalista, a psicologia primitiva era extremamente comunitária. O estudo de tais comunidades tem sido muito importante para confirmar que os mecanismos econômicos, na verdade, estão incrustados nas relações sociais: o homem das sociedades primitivas, diz ele, “...não age desta forma para salvaguardar seu interesse individual na posse de bens materiais, ele age assim para salvaguardar sua situação social, suas exigências, seu patrimônio social. Ele valoriza os bens materiais na medida em que eles servem a seus propósitos” (ibid., p. 65).
Segundo ele, o exemplo das sociedades tribais é ilustrativo perante do fato de que só raramente o interesse econômico prevalece. No maior número de caso, predomina a primazia dos laços sociais, primeiro porque infringindo os códigos coletivos o indivíduo pode ser marginalizado, segundo, porque as relações de reciprocidades são obrigações partilhadas que melhor atendem aos interesses dos indivíduos na relação de dar e receber. Todo prestígio social exalta o desprendimento dos indivíduos em favor do grupo, assim como o indivíduo não existe sem a cobertura do vínculo social. Mesmo os atos de troca são mediados eminentemente por obrigações mútuas de compromisso social, de tal modo que não subsiste qualquer noção de lucro ou riqueza, a não ser aquela que esteja, tradicionalmente, ajustada ao prestigio social. (POLANYI, 2000). Nos seringais da Amazônia acreana, igualmente, desde os tempos mais antigos era comum a partilha de alimentos (caça, pescado, produtos extrativos como açaí, buriti), sem intermediação da lucratividade, em que as relações de vizinhança, amizade e parentesco constituía o princípio da reciprocidade, o motivo da doação, tendo o beneficiário do alimento que retribuir o mesmo ato quando tivesse êxito numa empreitada abundante. É bastante provável que esse comportamento continue a vigorar até os dias atuais, principalmente, naquelas áreas mais remotas dos seringais em que o uso da moeda ainda é uma realidade praticamente superficial nas relações da comunidade.
Exemplos das tribos dos ilhéus de Trombriand da Melanésia, estudadas por Malinowski, dão conta da negação do princípio do lucro, da troca e do regateio para a barganha. Tomando em consideração somente o aspecto econômico com o objetivo de enfatizar melhor como as motivações econômicas enraízam-se na constelação da vida social, Karl Polanyi observou o predomínio do princípio da reciprocidade e redistribuição nas práticas indígenas. O princípio da reciprocidade valorizava as relações de parentesco
mediadas pela divisão sexual (nucleadas na família e parentesco), enquanto o princípio da redistribuição dizia respeito ao ordenamento político territorial. A reciprocidade atuava como mecanismo para assegurar o provimento para a reprodução familiar, ao passo, que a redistribuição prevenia, do ponto de vista do grupo extenso, a proteção de suprimentos contra a escassez através de um sistema de armazenamento da produção de alimentos, provisões de defesa, funções públicas, trocas comerciais, que, ao seu tempo, eram redistribuídos, segundo as normas vigentes de divisão do trabalho. Nesse sentido, o principio da reciprocidade e redistribuição ajustava-se num sistema de poder organicamente centralizado no território, na figura do chefe local, e, mutuamente, asseguravam a reprodução social. Tais mecanismos sócio-econômicos7 ocorreram em muitas outras comunidades antigas, como no reinado de Hammurabi, na Babilônia, nas sociedades das pirâmides, no Novo Império do Egito (POLANYI, 2000).
O terceiro princípio que influenciou a orientação econômica foi o da domesticidade voltado para a produção de subsistência para o abastecimento próprio, conforme citamos acima, com a descrição das comunidades domésticas, a partir das análises de Max Weber. O aspecto geral que interessa reter dessa orientação econômica é que ela só raramente ou esporadicamente em momentos de crises ou catástrofes, atuou como meio de troca, no mais das vezes, sua realização não guardou nenhuma vinculação com a criação de mercados, pois o seu padrão de funcionamento era dirigido para atender o provimento do grupo fechado. Nesse caso do princípio de domesticidade, Karl Polanyi argumenta que é indiferente à natureza institucional de sua formação político-social: o seu núcleo normativo pode ser dado pela predominância do “sexo, como na família patriarcal; localidade, como nas aldeias; ou poder político, como no castelo senhorial. E também não importa a organização interna do grupo. Pode ser tão despótica como a família romana ou não democrática como a zadruga sul-eslava; tão grande como os imensos domínios dos magnatas Carolíngios ou tão pequenas como a propriedade camponesa média da Europa Ocidental” (ibid., p. 73). Na Ásia Meridional, Giovanni Arrighi e Bervely Silver (2001, p. 253) se depararam com a mesma situação concebendo não haver dúvida “de que os sistemas pré-coloniais de governos eram exploradores e opressivos. Mas a opressão e a exploração estavam inseridas em uma ordem civilizacional que tornava sua lógica flexível, compreensível e até aceitável, para o camponês, assim como para outros grupos e classes subalternas da sociedade indiana”. No essencial, era importante que os recursos disponíveis chegassem para o sustento de todos.
No Livro I, da Política (Elementos da Cidade), Aristóteles, de posse do conhecimento das cidades gregas de sua época, considerou que a atividade comercial daquele tempo não pertencia naturalmente à ciência de enriquecer, pois “primitivamente as permutas só podiam ser feitas na proporção exata das necessidades de cada um (p. 19)”. Embora ciente de que o uso intensivo da moeda, com o aumento da população, tenha
7 Karl Polanyi comenta que “esses exemplos mostram que a redistribuição também tende a enredar o sistema econômico propriamente dito em relações sociais. Como regra, encontramos o processo de redistribuição como parte do regime político vigente, seja ele o de uma tribo, de uma cidade-estado, do despotismo ou do feudalismo, do gado ou da terra. A produção e a distribuição de mercadorias são organizadas principalmente através da arrecadação, do armazenamento e da redistribuição, sendo o padrão focalizado o chefe, o templo, o déspota ou o senhor. Uma vez que as relações do grupo dominante com os dominados são diferentes, de acordo com os fundamentos em que repousa o poder político, o princípio da redistribuição envolverá motivações individuais tão diferentes como a partilha voluntária da caça pelos caçadores e o medo do castigo que impulsiona os fellaheen a pagarem seu impostos em espécies” (ibid., p. 72).