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A cidade comercial e política de Rio Branco.

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SEÇÃO I. RAZÕES HISTÓRICAS ENDÓGENAS DO PROJETO POLITICO DO GOVERNO DA FLORESTA

1.2. As razões políticas e econômicas do Movimento Autonomista e as suas dissidências regionais.

1.2.2. A cidade comercial e política de Rio Branco.

O processo de povoamento, colonização e fundação política das primeiras cidades acreanas respondeu pela necessidade de braços que a indústria extrativista exigia para o trabalho de produção da borracha, nos seringais das terras recém conquistadas, no extremo oeste da região amazônica. Após a resolução dos conflitos entre os países da tríplice fronteira, as autoridades nacionais deram início à implementação de medidas para a institucionalização política do território acreano, com o objetivo político de guarnecer suas

20 O Acre foi ocupado principalmente por nordestinos que se deslocaram para esta região, dentre outros motivos mormente, em função das fortes secas que assolaram os sertões do Nordeste. No entanto, na década de 40, por exemplo, principalmente a partir de 1943, um grande contingente de trabalhadores deslocou-se para a região, influenciado pelas autoridades governamentais que precisavam aumentar a produção de borracha na Amazônia para suprir as exigências firmadas nos acordos com os americanos, em decorrência da guerra. Nesse sentido, foram criadas instituições especializadas e organismos específicos responsáveis para financiar, transportar, abastecer, dar assistência médico-sanitária e garantir os equipamentos aos trabalhadores que fossem “combater” numa frente diferente: a produção de borracha na Amazônia. As principais instituições criadas foram o Departamento Nacional de Imigração – DNI, Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia – SEMTA, Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia – CAETA, Superintendência de Abastecimento de Trabalhadores para o Vale Amazônico – SAVA, Serviço Especial de Saúde Pública – SESP, Banco de Crédito da Borracha. Nas décadas de 70/80 com a “expansão da fronteira agrícola”, também muitos colonos e trabalhadores rurais, do centro-sul do país foram deslocados para o Acre como assentados nos projetos de colonização. O Projeto de Colonização Pedro Peixoto foi um dos projetos que agregou trabalhadores de vários estados do país. Para maior aprofundamento sobre as migrações para o Acre conferir, dentre outros, Oliveira, 1982; Martinello, 1988.

fronteiras geográficas, estabelecer instalações de administração, fiscalização, controle econômico de exercer sua ação governamental de tributação, fomento e organização das atividades produtivas, o que resultaria na constituição de um espaço de mercado para a sustentação do desenvolvimento de suas cidades. A trajetória de construção política das duas principais cidades acreanas, Rio Branco e Cruzeiro do Sul, revela do mesmo modo, o processo de institucionalização do mercado interno acreano através da política econômica governamental. A criação das cidades acreanas, portanto, confunde-se com história de integração das atividades econômicas, no âmbito do mercado local, por meio da ação governamental.

O antigo seringal Empresa, fundado em 28 de dezembro de 1882 pelo cearense Neutel Maia, foi o lugar onde a cidade de Rio Branco se estabeleceu, local geograficamente estratégico para as atividades de navegação devido o seu posicionamento na parte mais alta de terra das duas margens do rio Acre que permitia tráfego fluvial o ano inteiro inclusive durante a estação seca (TOCANTINS, 1998; CORDEIRO & SCHMINK, 2008). De acordo com Schmink e Cordeiro (2008), o desenvolvimento comercial e populacional da cidade de Rio Branco, com o florescimento do comércio e a constituição dos primeiros aglomerados de moradores, pode ser classificado em três fases consecutivas, que vai desde a fundação do seringal Empresa, formação dos primeiros bairros, casas comerciais até a consolidação de Rio Branco como sede do Departamento do Alto Acre:

Neutel Maia, em 1884 abriu uma casa comercial, Nemaia e Cia., para atender as embarcações a vapor e aos seringalistas, além de servir como intermediário no abastecimento da região de carne de gado da Bolívia. O comércio estabelecido na Gameleira foi seguido por outros prédios (hotéis, restaurantes, casas comerciais e residências) na beira do rio, constituindo-se na primeira rua da cidade, hoje denominada de Eduardo Assmar. Outros dois bairros incipientes da cidade neste primeiro momento incluíram Canudos, uma aglomeração de casas de trabalhadores acima da Gameleira, e a Rua África, uma extensão da rua na direção do igarapé Judia, onde moravam trabalhadores afrodescendentes. Desde este começo até 1908, a cidade passou por três fases: i) a formação do povoado e centro comercial, 1882-1898; ii) centro político no vale do rio Acre, com a Revolução Acreana, 1899-1903; consolidação da liderança política e econômica como sede de Departamento, 1904-1908 (RIO BRANCO, 2006, p. 11 apud SCHMINK & CORDEIRO, 2008, p. 31).

Os primeiros acontecimentos que levaram à consolidação política e econômica da cidade de Rio Branco ocorreram, em 1903, com a designação do antigo seringal Empresa como centro do Vale do rio Acre, e em 1904, com a sua elevação à condição de sede da prefeitura do Departamento do Alto Acre, sob o comando do Cel. Raphael Augusto da Cunha Mattos. Na condição de sede da prefeitura departamental, localizada na área conhecida como Volta da Empresa, recebe suas primeiras instalações públicas, alterando a sua fisionomia de antigo povoado, é construída a Delegacia de Polícia, a sede da Prefeitura, e uma escola primária. Neste mesmo ano, a sede da prefeitura passa a se chamar Villa Rio Branco. Em seus arredores se prolifera o primeiro bairro, chamado Bairro 15, cujo nome foi influenciado pela presença do 15º Batalhão de Infantaria do Exército, que esteve acampado na área, onde o bairro se formou (CORDEIRO & SCHMINK, 2008).

Em 1909, o prefeito do Departamento do Alto Acre, Cel. Gabino Besouro Cintra preocupado em centralizar o poder político-administrativo e pressionado pelo crescimento

da Villa Rio Branco, e dos problemas de cheias durante os períodos de fortes chuvas, transfere a sede do poder político para a margem esquerda do rio Acre, local que ficou conhecido como Penápolis (em homenagem ao Presidente Afonso Pena), pois aí seria o local mais favorável para construção das instalações dos poderes públicos, assim como para realizar as futuras obras da cidade.

No dia 23 de outubro de 1912, a Villa Rio Branco é denominada cidade de Rio Branco, e no ano seguinte, 1913, torna-se sede do município de mesmo nome, unificando as duas margens do rio Acre, antiga Villa Rio Branco, sede do seringal Empresa, na margem direita, e a antiga Vila Penápolis, na margem esquerda. Seu nome foi tributário ao trabalho de diplomacia do Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Barão do Rio Branco, durante a Presidência de Rodrigues Alves, que negociou a resolução dos conflitos de fronteira entre Brasil e Bolívia, finalizados, como vimos, com a criação do Território Federal do Acre.

Na condição de sede municipal, a partir de 1913, Rio Branco recebe novas instalações públicas: uma estação de Rádio e Telegrafia (em 1913), grupo escolar (em 1915), serviço de luz elétrica (em 1916). Não obstante, Rio Branco ainda não se configurava como um centro administrativo, proeminente, se comparado as outras cidades acreanas, devido suas deficiências em infra-estrutura de serviços. Sena Madureira, por exemplo, já possuía luz elétrica, hospital e sistema de transporte urbano, com bondes puxados à tração animal. Mas essa situação mudaria nos tempos vindouros. Quando, em 1º de outubro de 1920, Rio Branco é elevada à capital territorial, e com a extinção dos demais departamentos, a cidade é novamente beneficiada com obras de melhoramento. Os serviços de Correios, Tribunal de Apelação, hospital, agência fiscalização federal, uma fábrica de tijolos estadual, estádio de futebol são instalados (SCHMINK & CORDEIRO, 2008).

Hugo Carneiro, entre 1927-1930, construiria o Palácio do Governador (1929), o Quartel da Polícia Militar, o Mercado Municipal e uma Penitenciária, onde hoje funciona a prefeitura municipal. Nesta década de 1930 se consolidaria a imagem de Rio Branco como centro comercial e político do Território acreano. Na condição de sede oficial do Território, funcionavam as principais instituições dos três poderes estatais (legislativo, executivo e judiciário). No centro político da cidade estava localizado o Palácio do Governo, levantado em 15 de junho de 1929 como a obra de maior relevo da Capital, pelo seu estilo clássico e arquitetura em traços barrocos, ao modo europeu. O Palácio procurou referenciar a fase inicial do processo modernizador da cidade que buscava romper com os traços tradicionais e se posicionar como centro de referência econômico-político na região, representado pelas novas instalações de pedra. As palavras do próprio governador Hugo Carneiro, ao procurar estabelecer um paralelo entre o antigo prédio que sediava a base do governo estadual com o novo Palácio construído, chamavam atenção para essa ruptura que se pretendia estabelecer no Território Federal do Acre com a instauração do processo de modernização:

Esta casa, o Palácio do Governo, reflete o lastimável estado em que se encontra todo o Território. Efetivamente, o velho barracão de madeira, o desconfortável pardieiro, ameaçadora ruína, desguarnecido de forro, com o telhado mal seguro (...) paredes externas e internas de tábuas apodrecidas, soalho sem fixidez, tudo na eminência de desabamento. (...) O novo Palácio do Governo Territorial assenta em uma elevação que domina a praça principal da cidade de Rio Branco e o que a atravessa. É ladeado por duas ruas que vão até o porto, tendo à sua frente um jardim moderno com a extensão de 160 metros, formando, assim, um conjunto

harmonioso de grande beleza, que mais realça as sóbrias linhas do imponente edifício. O arquiteto inspirou-se na arquitetura grega, buscando principalmente seguir o estilo grave e majestoso da ordem jônica. A elegante fachada do prédio tem as alas salientes, com as janelas dos dois pavimentos em um apurado conjunto de riquezas e simplicidade de estilos e a parte central apoiada em quatro majestosas colunas, terminando em capitéis de finos traçados (TOCANTINS, 1998, p. 60-61).

No contexto da modernização da capital do Território, em sintonia com a industrialização do país, dos anos 1930, período do Presidente Getúlio Vargas no comando nacional, foram abertas, em Rio Branco, as vias Epaminondas Jacome, Benjamim Constant, Marechal Deodoro e Getúlio Vargas que definiram o eixo central do transporte, no centro da cidade, que ainda hoje se mantém (SCHMINK & CORDEIRO, 2008). Na margem direita, denominada 2º Distrito, antigo Bairro Beirute, mantiveram-se as casas comerciais de propriedade dos descendentes sírios, libaneses, principais empreendedores das atividades de comércio da região (TOCANTINS, 1998).

Nesta década de 1930, vivenciava-se a mais profunda crise da economia da borracha devido à concorrência dos seringais da Malásia, Tailândia, Sry Lanka, Indonésia que vinham se desenvolvendo desde 1905 com formas de cultivos mais adequadas às escalas industriais, onde o processo produtivo realizava-se em fazendas, com as seringueiras posicionadas próximas uma das outras, reduzindo o tempo de deslocamento para o corte, facilitando o controle sobre as plantações e barateando os custos produtivos e sociais, além do aumento da produtividade. No decorrer deste período de desvalorização da borracha ocorre, com maior intensidade, o fenômeno do êxodo rural, forçando muitos seringueiros a buscarem melhores condições de vida e trabalho nos centros urbanos que se formavam. Muitos deles se dirigiram para as principais cidades como Rio Branco, que oferecia melhores perspectivas de trabalho e serviços; outros buscaram abrigo nos seringais da Bolívia; os poucos afortunados que haviam conseguido poupar algum recurso com o saldo da borracha, aproveitaram a oportunidade para regressar com suas famílias para os locais de onde vieram21

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No entanto, esse vínculo da atividade de produção de borracha com a densidade demográfica regional é bastante representativo na historiografia acreana. O número de habitantes costuma variar na proporção do desempenho da borracha. No Acre, em 1920, por exemplo, habitavam 92.379 pessoas, mas com a tendência declinante da indústria extrativa, os anos que se seguiram foram acompanhados pela diminuição da população estadual, que chegou a 79.768 moradores, em 1940. Essa evasão de pessoas do Acre para outras regiões do país ou mesmo internamente em direção aos centros urbanos das cidades acreanas em decorrência das oscilações econômicas do extrativismo, manteve-se até a década de 1970 quando a dinâmica populacional ainda permaneceu fortemente influenciada pela atividade de produção de borracha sendo o nomadismo, migração e o êxodo as principais características desse sistema econômico em atividade.

No pós-1970 a tendência será de estabilidade e crescimento da população estadual, sendo os movimentos migratórios, agora, ligados a interesses contrários aos da borracha, como os dos empresários, fazendeiros, latifundiários do centro-sul do país, interessados na

21 Os impactos sociais desse processo apareceram nas análises de diversos autores como Costa Sobrinho (1992), Leandro Tocantins (2001), Luís Antônio Pinto de Oliveira (1982), Adalberto Ferreira da Silva (1982); Silvio Simeoni Silva (2003).

atividade agropecuária e exploração madeireira. No âmbito interno, essa variação da população, a partir da década de 1940, aos poucos, iria modificar a configuração rural- urbano do estado, resultado de processo de migração inter-municipal e fluxos externos em direção à região de contingentes populacionais com o conseqüente esvaziamento do campo e urbanização das cidades acreanas, conforme podemos observar a inclinação dessa dinâmica na tabela 1.

Tabela 1. População do Acre, Urbana-Rural, 2007.

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