RE-LEITURAS DE UM PAPEL: UM NOVO OLHAR
Fernanda PINTO (FCBA/UFGD; PPG/FCA/UFGD)1
RESUMO: Neste artigo apresentamos um relato das técnicas utilizadas durante o minicurso “Re-leituras de um papel: um novo olhar”, ministrado na edição de 2013 do PROLER – Ler o Mundo, promovido pela Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PROEX) da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). O minicurso teve como objetivo sensibilizar os estudantes sobre a utilização consciente do papel, sobre a reutilização deste material e sua reciclagem. O papel, por ser um material orgânico, é biodegradável e leva de três a seis meses para se decompor na natureza. Porém, na fabricação de uma resma de papel ofício é necessário, em média processar cerca de 7% de uma árvore, ou seja, uma árvore completa produz cerca de quinze resmas de papel ofício. Obviamente, a reciclagem artesanal não pode mudar esse histórico, mas pode contribuir para repensarmos os processos de reciclagem e reuso em nossas atividades cotidianas. Realizado na tarde do dia 21 de novembro de 2013, o minicurso contou com a participação da comunidade acadêmica, discentes de graduação da UFGD, alunos principalmente dos cursos de Letras e Ciências Biológicas, mas também de outras áreas do conhecimento. Foram apresentados e discutidos os processos de produção e reciclagem do papel em escala industrial e de maneira artesanal, além de novos paradigmas de uso racional e reciclagem, provenientes das ciências ambientais e mesmo da literatura (novos olhares).
PALAVRAS-CHAVE: Minicurso; Reciclagem Artesanal, Produção de Papel, Uso racional, Novos olhares
Introdução
O papel, por ser um material orgânico, é biodegradável e leva de 3 a 6 meses para se decompor na natureza. Porém, na fabricação de 1 resma com 500 folhas de papel ofício é necessário, em média processar 7% de uma árvore, ou seja, 1 árvore completa produz cerca de 15 resmas de papel ofício.
O impacto da produção de papel no ambiente é constante fonte de preocupação não apenas nos meios acadêmicos, mas em toda a sociedade, sobretudo a partir do século XX quando seu uso se intensificou, bem como a produção em escala industrial. Mesmo com o surgimento de novas tecnologias que reduzem o uso do papel, sua produção ainda figura entre as mais impactantes para o meio ambiente, não somente pela quantidade de árvores utilizada no processo, mas também pela produção de resíduos tóxicos, consumo de recursos e energia.
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Professora temporária da Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais (FCBA). Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Produção Vegetal da Faculdade de Ciências Agrárias (FCA) da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação (MEC). [email protected]
Para produzir 1 tonelada de papel são necessárias 2 a 3 toneladas de madeira, uma grande quantidade de água (mais do que qualquer outra atividade industrial), e muita energia (está em quinto lugar na lista das que mais consomem energia). O uso de produtos químicos altamente tóxicos na separação e no branqueamento da celulose também representa um sério risco para a saúde humana e para o meio ambiente - comprometendo a qualidade da água, do solo e dos alimentos (ROCHA FILHO, 2013, p.1)
De acordo com dados publicados no manual de 2005 do programa “Desperdício Zero” da SEMA - Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná, “os benefícios da substituição dos recursos virgens – os principais fatores de incentivo à reciclagem de papel, além de econômicos, são: a preservação dos recursos naturais (matéria prima, água e energia), a minimização da poluição e a diminuição da quantidade de resíduos que vão para os aterros” (SECRETARIA DE ESTADO DO MEIO AMBIENTE E RECURSOS HÍDRICOS DO PARANÁ, 2005).
O manual cita ainda Corson (1993) ao apresentar dados relevantes de redução na poluição do ar (74%), no uso de água (58%), no uso de energia (48,5%) e na poluição da água (35%) e descreve o processo de produção industrial do papel que envolve uma série de processos bastante onerosos do ponto de vista ambiental que vão desde a extração e estocagem de madeira (cavacos) até o acabamento com a utilização de produtos químicos responsáveis pelo branqueamento do papel, passando pela fabricação da polpa termo-químio-mecânica a partir de fibras celulosas por meio de moagem mecânica na presença de água, além de processos químicos que geram resíduos por vezes lançados no ar ou em rios sem o devido tratamento.
Ao pensarmos o reflorestamento (monocultura de eucalipto ou pinus) e a reciclagem industrial, normalmente vistos como solução, percebemos ainda mais o impacto do uso indiscriminado de papel em nossos processos da vida diária:
O alto consumo de papel e seus métodos de produção insustentáveis endossam o rol das atividades humanas mais nocivas ao planeta. O consumo mundial cresceu mais de seis vezes desde a metade do século XX, segundo dados do Worldwatch Institute, podendo chegar a mais de 300 kg per capita ao ano em alguns países. E na esteira do consumo, cresce também o volume de lixo, que é outro sério problema em todos os centros urbanos (ROCHA FILHO, 2013, p.1)
Novas rotinas desburocratizadas e projetos logísticos mais preocupados com o uso consciente do papel podem contribuir para a redução do uso do material virgem ao passo que estratégias de reutilização e reciclagem artesanal podem ser uma forma de evitar o reciclo industrial (em grande escala) além de servir a fins pedagógicos, estéticos e sociais, visto que a reciclagem de papel de forma tradicional ou “caseira” pode inclusive gerar renda ao agregar valor aos materiais geralmente descartados como papelão, por exemplo.
A redução do desperdício, porém tem seus limites e, apesar do título do manual da SEMA, dificilmente chega a “zero” já que a demanda pelo papel continua existindo, mesmo com todo o desenvolvimento tecnológico e a adoção de processos racionais de uso e reuso.
O trabalho de reciclagem artesanal desenvolvido por cooperativas de catadores de papel ou em núcleos de economia solidária têm melhorado a renda de trabalhadores em diversas regiões, seja por iniciativa própria de trabalhadores informais que resolvem desenvolver essa atividades e formar cooperativas, seja em projetos institucionais voltados à comunidade provenientes de instituições públicas, do terceiro setor ou de empresas privadas.
Obviamente, a reciclagem de materiais de forma artesanal não basta para resolver o problema do consumo e desperdício ou mesmo para dirimir as diferenças sociais, trata-se, porém de uma iniciativa dentre as muitas no sentido da racionalidade necessária para nossa adaptação em um mundo em transformação (ASSADOURIAN & PRUGH, 2013).
Contexto Pedagógico
O minicurso realizado na tarde do dia 21 de novembro, na edição 2013 do Proler – Ler o Mundo, promovido pela Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PROEX) da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) contou com a participação da comunidade acadêmica, discentes de graduação da UFGD, alunos principalmente dos cursos de Letras e Ciências Biológicas, mas também de outras áreas do conhecimento.
Pensado com o objetivo de conscientizar e sensibilizar a comunidade acadêmica sobre a importância do uso racional, da reutilização e reciclagem de materiais, em especial o papel, o minicurso previa apenas uma tarde para a discussão teórica e a prática da reciclagem, o que, inicialmente parecia pouquíssimo tempo, porém, a própria
administração do tempo para as práticas também representaria um desafio para a noção de uso racional de energia e materiais.
Durante o minicurso foram repassadas técnicas de reciclagem artesanal de papel e utilização de papel reciclado para confecção de objetos decorativos, sacolas, broches, papéis de presente, além de outras possibilidades decorrentes da criatividade dos participantes.
Como material para a realização do minicurso, foi disponibilizado, aos participantes, régua, revistas, jornais, papeis inservíveis, bandeja, água, luva, cola branca, bem como acesso a um liquidificador, moldes de madeira (telas) e materiais orgânicos como pétalas de flores, sementes, corantes naturais, etc.
Na primeira parte do curso, uma breve introdução sobre a importância da reciclagem artesanal de papel e suas dimensões histórica, econômica, ambiental e social foi necessária para que os alunos tomassem ciência das implicações do trabalho a ser desenvolvido durante a segunda e terceira parte do curso, na qual foram explicadas e praticadas as etapas do processo de reciclagem artesanal de papel a partir de aparas de materiais recicláveis, além de atividades manuais como dobradura, colagem e confecção de materiais decorativos.
Metodologia
Primeiramente os participantes do minicurso aprenderam a selecionar e separar o material a ser utilizado. A separação do material (aparas provenientes de materiais de escritório, jornais, revistas, preferencialmente com baixo teor de tinta) deve levar em conta características como resistência do papel, gramatura, textura, se o papel possui camadas de verniz ou plástico ou se é poroso, entre outras especificidades. Além disso, o material selecionado deve estar livre de substâncias contaminantes como mofo, sujeira ou gordura.
Após a separação do material, os estudantes experimentaram a etapa de picote de fibras utilizando o procedimento manual, no qual o papel deve ser rasgado com as mãos em pedaços (tiras) no sentido do comprimento da folha. Esse procedimento permite que a celulose presente no papel conserve suas características sem que sejam rompidas ligações de hidrogênio das moléculas.
Em seguida, foi explicada a próxima etapa, na qual o papel deve ficar de molho em água, em uma bacia, por aproximadamente de 24 horas. Evidentemente, pela própria
limitação do minicurso, planejado para acontecer em uma única tarde, essa etapa foi apenas sugerida, utilizando-se a seguir materiais previamente preparados para a produção da polpa.
O material retirado do molho foi, então, triturado em um liquidificador por cerca de 5 minutos, com a participação dos estudantes, buscando como resultado uma pasta homogênea com uma consistência levemente cremosa.
A polpa pronta foi vertida bandejas e aplicada em formas (molduras de madeira no tamanho do papel desejado com telas de nylon com fios de 0,27mm do tipo mosquiteiro ou das utilizadas em serigrafia). O procedimento consiste em mergulhar a moldura com a tela no recipiente (bandeja) contendo a polpa processada retirá-la na posição horizontal, evitando que fiquem partes mais espessas na superfície da tela. A água, em seguida é escorrida e o material permanece secando.
A secagem, normalmente feita ao sol, por cerca de uma hora, foi substituída por material previamente preparado para o minicurso. Os estudantes exercitaram também a etapa de retirada do material seco da tela.
Diferentes produtos artesanais produzidos com papel reciclado foram apresentados aos alunos durante a oficina para servirem de modelo para o trabalho realizado a terceira parte do minicurso no qual os estudantes puderam praticar também praticar a produção de papel com aparas decorados com elementos orgânicos, como fibras vegetais, pétalas, sementes, entre outros.
Dobraduras com o tema “re-leituras de um papel” foram feitas pelos estudantes com o material disponível, papéis reciclados previamente preparados. Nessa parte do minicurso surgiram embalagens, caixas de presente, cartões confeccionados com papeis coloridos ou com temas natalinos.
Os papéis com sementes de flores entre suas fibras despertaram o interesse dos participantes tanto pela estética “verde” quanto pelo apelo metafórico ou pelo aparente contrassenso: “um papel que, após utilizado, pode ser descartado na natureza e germinar”.
Um ovo olhar
O minicurso propiciou, além da prática da reciclagem a reflexão sobre a importância da reciclagem de materiais, em especial de papel, para a conservação ou utilização racional dos recursos naturais.
Não apenas na primeira parte (teórica) mas também ao longo das atividades práticas, os estudantes foram estimulados à refletir e contribuir com suas opiniões ou “olhares” a respeito da reciclagem artesanal de papel.
O conceito de “novo olhar” que encontra paralelo nos processos de releitura, adaptação (HUTCHEON, 2011), apropriação e desconstrução (DERRIDA, 2006) da teoria literária serviu de impulso para a discussão da reciclagem propriamente dita.
O conceito de palimpsesto, por exemplo, que na literatura encontra repercussão na obra de Genette (2010) e Eco (2001), entre outros, serviu para apresentar a reciclagem como um fenômeno muito mais amplo e ressaltar a interdisciplinaridade do pensamento.
Um palimpsesto é um pergaminho cuja primeira inscrição foi raspada para se traçar outra, que não a esconde de fato, de modo que se pode lê-la por transparência, o antigo sob o novo. Assim, no sentido figurado, entenderemos por palimpsestos (mais literalmente: hipertextos) todas as obras derivadas de uma obra anterior, por transformação ou por imitação. Dessa literatura de segunda mão, que se escreve através de leitura, o lugar e a ação no campo literário geralmente, e lamentavelmente, não são reconhecidos. Tentamos aqui explorar esse território. Um texto pode sempre ler um outro, e assim por diante, até o fim dos textos (GENETTE, 2010, p. 5).
Na literatura é comum encontrarmos novas obras de autores contemporâneos que estabelecem um diálogo com autores e obras do passado, nessa relação tem-se um processo de “reciclagem” de textos e ideias que garante a sobrevivência de uma tradição literária e sua renovação, revitalização, mesmo entre rupturas.
A relação entre a reciclagem do papel propriamente dita e a reciclagem de ideias ou conceitos já arraigados na cultura ou nas tradições foi explorada em um debate livre no qual os alunos podiam contribuir com falas e sugestões. Os estudantes, após experimentarem a reciclagem artesanal do papel propriamente dito, terminaram por conceber a reciclagem como um fenômeno mais amplo e tradicional do que o simples reaproveitamento de matérias usualmente descartados.
Outro tema que despertou bastante o interesse dos estudantes foi o avanço tecnológico, normalmente visto como vilão do ponto de vista ambiental pelo senso comum, mas que também pode ser encarado como ferramenta responsável pela mudança de postura sócio-ambiental com profundas consequências.
Os estudantes foram estimulados a compartilhar os conhecimentos e práticas vivenciados no minicurso aos colegas, familiares, em casa, no trabalho, nos ambientes de estudo, pessoalmente ou de forma virtual, as redes sociais, por meio de imagens, vídeos, em conversas ou, de forma mais ativa, promovendo campanhas, organizando associações, ou por quaisquer outros meios, ressaltado o caráter multiplicador do pensamento da reciclagem e do uso racional de materiais.
As redes sociais, vistas como meio de divulgação de ideias ou “novos olhares” seriam espaços próprios para o debate de ideias ambientalmente responsáveis como a diminuição do uso indiscriminado de papel ou a substituição de produtos ou processos tradicionais por outros mais “limpos”.
Referências
ASSADOURIAN, Erik & PRUGH, Tom (orgs.) Estado do mundo 2013: A
Sustentabilidade Ainda é Possível? /Worldwatch Institute. Disponível em:
http://www.akatu.org.br/ Acesso em 25/04/2014.
CORSON, W.H. (ed.) Manual global de ecologia: o que você pode fazer a respeito da crise do meio ambiente. Tradução de Alexandre G. Camaru. São Paulo, SP: Augustus, 1993.
ECO, Umberto. Obra aberta. Trad. Giovganni Cutolo. São Paulo: Perspectiva, 2001. DERRIDA, J. Torres de Babel. Trad. Junia Barreto. Belo Horizonte: UFMG, 2006. GENETTE, Gérard. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Trad. Cibele Braga et al. Belo horizonte: Edições Viva Voz, 2010.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Trad. André Cechinel. Florianópolis: UFSC, 2011.
ROCHA FILHO, Edgar. (ed.) O papel e os impactos de sua produção no ambiente.
Ecomensagem Sistema Editorial, 2013. Disponível em:
http://www.ecolnews.com.br/papel.htm. Acesso em 25/04/2014.
SECRETARIA DE ESTADO DO MEIO AMBIENTE E RECURSOS HÍDRICOS DO PARANÁ. Desperdício zero. Curitiba: Governo do Estado do Paraná, 2005.