Impresso
99129-5/2002-DR/SC UFSC CORREIOSJornal
Universitário
Intervenção fora
Saneamento das fundações de apoio à pesquisa da UFSC é
marcado pelo fim da intervenção abusiva na Feesc. p. 3 e 10
Foto: Cláudia R
eis
Inclusão e evasão
p. 9
O balanço das cotas
p. 3 e 5
Cadáveres de estrelas
p. 10
Semeando pólos e três campi, a atual Gestão da UFSC, liderada por Lucio Botelho e Ariovaldo Bolzan,
se despede com a marca da interiorização, desafio herdado pela nova Administração que assume
prometendo uma universidade acadêmica. O lançamento da pedra fundamental do Campus de Joinville
foi prestigiado pelo Ministro Fernando Haddad.
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atarina - Maio de 2008 - Nº 390
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Com a palavra, a criatura
O discípulo Gelci José Coelho, o Peninha, se emociona ao falar da obra
de Franklin Cascaes, que em 2008 completaria cem anos de vida. O
acervo de Cascaes se mantém preservado no Museu Universitário.
p. 6 e 7
p. 2, 4 e 5
Saúde. A Unimed venceu o pregão para o Plano de
Saúde.
Trabalho. Cerca de 10.480 candidatos disputam, no
dia 18 de maio, as 148 vagas do Concurso Público da UFSC.
A lógica do demo. “Então, hoje, são muito mais
diabólicas as estrtutras de dominação que se usam para dizimar as culturas que não se submetem à lógica do mercado vigente. É a matemática do diabo” (Miro Mo-rais, no livro Diálogos com a literatura brasileira, volu-me II, EdUFSC e Movivolu-mento).
Sem ofender. O que o Governo está esperando para criar
a Rede Dengue?
Agenciamento de idéias. À esteira do PAC da Ciência, da
Lei do Bem e da Lei da Inovação, surge, na Ilha, uma empresa que pode preencher um vazio no campo da consultoria: a Projectur, vizinha do Campus da UFSC, nasce da experiência adquirida nas fundações de apoio à pesquisa e da convivência com a comunidade científica. Apostando na parceria entre academia, governos e setor produtivo, joga as suas fichas na gestão de projetos, na gestão pública, no agronegócio, nas novas tecnologias, e, pretensioso, esse pessoal quer abarcar empresas e instituições de todos os tamanhos.
Suando pela cultura. Folder serviu para dar uma idéia
clara do trabalho realizado pelo Departamento Artístico Cultu-ral (DAC/PRCE).
Efeito UnB. Ministro Haddad quer excluir os reitores do
privilégio de usar cartões corporativos.
Pauta para assembléia. Na lista de reivindicações,
trans-porte de helicóptero até a UFSC para quem mora no Continen-te! Balões não servem?
Do Editor
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Caiu na cesta
A comunicação cuida da saúde da instituiçãoMoacir Loth
“A ética é uma espécie de cimento da sociedade”
Herbert de Souza, Betinho, Dr. Honoris Causa da UFSC
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tos: Jones Bastos
Mudança sem descontinuidade
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Frase
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João Pedro Tavares Filho (Coord.) Beatriz S. Prado (Expediente) Romilda de Assis (Apoio)
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O estudado. Funcionário da UFSC voltou às origens
no interior, lá pras bandas do Contestado. Comentário de um dos amigos de infância presentes na festa da Igre-ja: “esse é um cara estudado”. E um sacana, ao lado, não perdeu tempo: “Sim, é praticamente um fóssil; deve ser muito útil no laboratório de Arqueologia na Capital”...
Ibope explicado. Com mais de 252 edições, o programa Café com o Presidente é retransmitido por 1300 emissoras do
País. A NBR – a TV do Governo Federal – está 24 horas no ar; a TV
Integración (integração sul americana) envolve 54 entidades; o
Bom Dia, ministro é reproduzido por cem emissoras, e a Voz do Brasil completa 70 anos em 2008. A fonte das
informa-ções é a recém-criada Empresa Brasil de Comunicação
(EBC), que, entre outras, toca a TV Brasil, a Agência e o
sistema público de rádio.
Política Pública. Nessa parceria com a EBC e o Repórter Brasil, entraremos, principalmente, com a pauta! Talvez fosse o
caso de priorizar no noticiário pesquisas financiadas com dinheiro público e que costumam ser ignoradas pela mídia privada.
A vida. Decálogo do perfeito contista (Horácio Quiroga). “ – Ao escrever, não penses em teus amigos,
nem na impressão que tua história causará. Conta, como se teu relato não tivesse interesse senão para o pequeno mundo de teus personagens e como se tu fosse um deles, pois somente assim obterás a vida num conto”. O livro O
novo conto catarina, organizado por Regina Carvalho e ora
lança-do pela EdUFSC, é um pouco isso.
Apagando incêndios. O assessor de comunicação
deixou para trás o equivocado papel de bombeiro, passan-do a atuar preventivamente. Na foto, participamos, com a equipe da Agecom, em 1993, do combate a um incêndio simulado no campus. Já em 2008...
A UFSC saiu na frente, ainda nos anos 80, na busca de recursos não-orçamentários para a pesquisa, incluindo o CNPq e outras instituições de fomento, e está entre as universidades que mais desenvolvem projetos na área tecnólogica no Brasil. (Ariovaldo Bolzan, vice-reitor da UFSC)
“Cavaleiro da Esperança”. Com um discurso
carre-gado de esperança na redemocratização do País, o líder da Intentona Comunista, Luís Carlos Prestes, lotou, em 1980, o ginásio do Centro de Desportos da UFSC.
A lição não aprendida. O caso Isabella, a exemplo de
episódios como a Escola de Base, independentemente dos culpados, denunciou a fraqueza moral da mídia, atirando pelo sexto andar uma parcela da credibilidade. Nada justi-fica tanta histeria em tempos de dengue.
Ética: comece lendo o Código - Profissionais da Agência de Comunicação da UFSC (Agecom) partici-param recentemente do Curso Ética na Universidade Pública, ministrado pelo professor Erni José Seibel, e integrado ao Plano de Capacitação implementado pela Pró-Reitoria de Desenvolvimento Humano e Social, atra-vés do Departamento de Desenvolvimento e Potenciali-zação de Pessoas. Atendendo a sugestões, a Agecom está empenhada em difundir conceitos e informações que possam melhorar a conduta ética e profissional da comunidade universitária. Uma delas é estimular a lei-tura e o respeito ao Código de Ética do Servidor Público, que já integra o Portal da UFSC.
Para camelo dormir. A Declaração Universal dos
Direitos da Água, aprovada pela ONU em 22 de março de 1992, possui dez artigos. O sétimo artigo diz o se-guinte: “A água não deve ser desperdiçada, nem polu-ída, nem envenenada. De maneira geral, sua utiliza-ção deve ser feita com a consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgota-mento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis” (22 de março é o Dia Mundial da Água. Os diários esbanjaram cadernos especiais). A transição de poder em ambientes democráticos
costuma transcorrer sem traumas nem atropelos. É nes-se clima favorável, proporcionado pela Gestão Lucio José Botelho-Ariovaldo Bolzan, que os professores Alvaro Toubes Prata e Carlos Alberto Justo da Silva (Paraná) assumem, respectivamente, a Reitoria e a Vice-Reitoria da UFSC.
A Gestão Azul deixa, entre outras marcas, a interiorização, a inclusão social (ações afirmativas, pré-vestibular etc), a descentralização administrativa, a polí-tica de desenvolvimento humano, os avanços na pes-quisa, cultura e extensão, a consolidação do nível de excelência do ensino e da pós-graduação, a recente reva-lorização da comunicação pública, a assistência ao estu-dante, a cultura da avaliação e a melhoria das condições de atendimento do Hospital Universitário (HU), conside-rado o elo principal dessa universidade com o povo.
A Gestão “A UFSC do século XXI”, eleita de forma direta e representativa no dia 13 de novembro de 2007, acena com uma universidade acadêmica, capaz de apro-ximar mais ainda a instituição pública da sociedade, res-pondendo, ao mesmo tempo, aos desafios inadiáveis de um País carente de pesquisa científica e tecnológica em tempos de globalização e recessão.
A nova gestão da UFSC vem, evidentemente, para mudar e não para desmantelar o que funciona. Tem, portanto, clareza da missão de inovar, aperfeiçoar, avan-çar, transformar e continuar sem continuísmo!
Memória
Memória
Memória
Memória
Memória
A Universidade explica. O “terremoto” acordou a mídia
para as pesquisas desenvolvidas na universidade pública.
Presteza. A Segurança do Campus atende prontamente
O s a r t i g o s s ã o d e i n t e i r a r e s p o n s a b i l i d a d e d e s e u s a u t o r e s
As Fundações de apoio àsuniversida-de públicas retornam à ribalta da mídia nacional num contexto mais abrangente de denúncias e escândalos de toda ordem, cenário que engendra análises e julgamen-tos pouco rigorosos e, mesmo, precipita-dos sobre o tema, que está a merecer uma maior reflexão, menos sensacionalista e mais isenta, por parte da sociedade e de seus representantes institucionais.
Historicamente, a razão principal da criação desses organismos – a maioria data da década de 1980 – decorreu da perda progressiva da autonomia das instituições públicas de educação superior que, cerce-adas por leis inadequcerce-adas e emaranhcerce-adas na complexidade da burocracia estatal, deixavam de cumprir, com eficácia, as suas finalidades sociais e constitucionais.
Tratadas como qualquer órgão público – e, portanto, sujeitas às normas e regula-mentações emanadas de Portarias e De-cretos dirigidos indistintamente a todos os setores do Poder Executivo –, as universi-dades passaram a padecer, com o tempo, de limitações legais que foram desfiguran-do sua autonomia e dizimandesfiguran-do suas prer-rogativas mais essenciais, que devem sem-pre estar voltadas à criatividade, à desco-berta, à inovação. Não se percebeu que uma universidade, para cumprir suas fun-ções sociais mais relevantes e significati-vas, necessita, sempre, ter tratamento ex-cepcional e específico, a exemplo do que ocorre em outras nações desenvolvidas, nos horizontes da modernidade.
Foi na moldura desse quadro de irracionalidade e esquizofrenia burocráti-cas que emergiram as fundações. Não para substituirem as universidades, mas para contornarem as suas lacunas e limites. O desvirtuamento que alguns desses órgãos passaram a sofrer, seja por desvio de fina-lidade, seja por má gestão – e que exige
As fundações de apoio e as universidades públicas
correção! –, não justifica a sua condena-ção peremptória, salvo num contexto em que às instituições universitárias fosse res-tituída e ampliada a sua autonomia de ges-tão administrativa e financeira.
Há, no mínimo, dois impedimentos es-truturais para a extinção das Fundações de apoio: 1) o limite orçamentário, extre-mamente reduzido, imposto pelo Estado às universidades públicas para execução de recursos próprios captados no sistema; 2) o volume significativo de recursos pú-blicos, do orçamento da União (Tesouro), repassados ao final de cada exercício fi-nanceiro. No primeiro caso, a ausência de Fundações impediria a execução de cerca de 95% dos recursos de contratos e con-vênios, inviabilizando a massa das pesqui-sas e dos investimentos institucionais; no segundo caso, a obrigatoriedade legal de empenho no mesmo exercício constrange que ele seja feito diretamente às Funda-ções, sob pena de sua devolução, já que não restaria tempo hábil para o procedi-mento das licitações públicas, conforme exigências da Lei 8666/1993.
Sem as Fundações, as universidades públicas iriam fechar no Brasil. Ou restrin-gir tanto as suas atividades que não resta-riam que escolões de terceiro grau, sem maior contribuição no campo da produção do conhecimento de ponta, com perda pro-gressiva das condições materiais de tra-balho – por falta de investimentos – em suas dependências.
É paradoxal e um contra-senso, para uma universidade, ter rubricas extrema-mente rígidas em seu orçamento para gerenciar; impedimentos de contratação de pessoal, ainda que dentro de seus limi-tes orçamentários; proibição à criação de cargos, quando necessário; limitação de passagens e diárias, quando a atualização científica de seus quadros supõe a
partici-pação contínua e ininterrupta em congres-sos acadêmicos nacionais e internacionais. É a natureza da instituição que exige maior flexibilidade e autonomia de ges-tão; leis e regulamentações específicas e distintas do restante do funcionalismo pú-blico, coerentes com o princípio da auto-nomia universitária previsto pela própria Constituição Federal, em seu art. 207, mas ignorado na prática pelos três Poderes.
A Universidade Pública brasileira con-tinua vítima de incompreensões e formalis-mos; encapsulada no atraso e obsolescên-cia da legislação brasileira; supervisiona-da por mentalisupervisiona-dades burocráticas e insen-síveis às suas peculiaridades e finalida-des; aprisionada por amarras inadequa-das e desnecessárias.
A defesa do fim das Fundações de apoio, nesse contexto, sem as modifica-ções legais que resgatem às universida-des uma maior autonomia de gestão, re-presenta a condenação da academia bra-sileira ao lixo da história. Pois um país sem universidades eficientes e progressistas, como exige a dinâmica do mundo con-temporâneo, é um país sem perspectiva e sem futuro. Portanto, todo cuidado é pouco no tratamento do tema.
Sim, há de se ter maior clarividência, responsabilidade e seriedade na condu-ção de todo esse processo, antes de qual-quer condenação precipitada. É muito fá-cil ser do contra, sem se apresentar uma solução plausível para os impasses da ad-ministração pública. Todos almejam efici-ência dos serviços públicos, mas estes vi-vem sob as amarras da esquizofrenia le-gal. Que sejam punidos os desvios e a corrupção, mas para sanear e salvar a ins-tituição, não para a sua extinção. Ou se reinvente o Brasil.
Alex Fiúza de Mello
Reitor da Universidade Federal do Pará Pesquisas de vital importância para
o aprimoramento de incontáveis pro-dutos exportados e vendidos no mer-cado nacional por indústrias catarinen-ses foram desenvolvidas por profes-sores e estudantes do Centro Tecnoló-gico da Universidade Federal de San-ta CaSan-tarina desde a década de 1960. Líder mundial na fabricação de com-pressores, a Embraco, de Joinville, constitui-se num dos exemplos sobre os benefícios dessa parceria entre a instituição federal de ensino e a inicia-tiva privada.
Mas há casos igualmente emblemá-ticos de descobertas científicas que aju-daram a impulsionar a indústria catari-nense pela qualidade do produto, como a Weg, de Jaraguá do Sul, e a Perdi-gão, de Videira. Até a Petrobras enca-beça a lista das empresas enriquecidas com contribuições inovadoras ao de-senvolvimento nacional.
A existência da Fundação do Ensi-no da Engenharia de Santa Catarina, primeira das entidades do gênero a funcionar na UFSC, desde 1966, garan-tiu ao Estado outra vantagem coleti-va: evitou a evasão de cérebros ou a sua contratação por outras universi-dades ou por fundações nacionais e estrangeiras. Foram estes contratos de pesquisas aplicadas com empresas que permitiram complementação sa-larial justa e seguraram os docentes aqui em Florianópolis. Com isto, as áreas de engenharia e similares con-seguiram manter ensino de qualida-de, colocando a UFSC entre as melho-res do Brasil.
A visão estreita de alguns segmen-tos esquerdistas tenta, até hoje, ex-tinguir este instrumento precioso de melhoria dos vencimentos dos profes-sores e contribuição técnico-científica às indústrias aqui instaladas, na defe-sa cega de uma política de exclusiva dependência do poder público, semifalido, lerdo e burocrático.
A campanha destes setores e su-postas irregularidades apontadas pelo Ministério Público submeteu a Funda-ção do Ensino da Engenharia a um penoso processo de intervenção, a partir de 2007. A Reitoria anuncia ago-ra esta boa notícia: a Justiça decretou o fim da intervenção e a fundação vol-ta a atuar em plena carga.
Na tecnologia ou na saúde, as fun-dações têm prestado serviços relevan-tes à sociedade. Trata-se de uma par-ceria eficaz e produtiva que tem pos-sibilitado ações em benefício de toda a sociedade.
O paralelo com a saúde, neste momento, é inevitável. Médicos e es-pecialistas que trabalham há anos na Fundação de Apoio ao Hemosc e Cepon (Fahece) garantem que a crise exis-tente no Hospital do Centro de Pes-quisas Oncológicas é conseqüência de restrições impostas pelo Ministério Público, limitando a destinação de re-cursos extra-orçamentários, exata-mente o mesmo argumento usado na Feesc da UFSC.
A experiência já comprovou que, em áreas sensíveis, a estatização pode ser mais perniciosa do que a privatização.
Moacir Pereira
Jornalista
(publicado originalmente no Diário Cata-rinense, em 09/04/08)
O fim da intervenção
A Universidade Federal de Santa Catarina juntou-se em 2007 a cerca de 50% das universidades federais e 40% das estaduais, ao aprovar o Programa de Ações Afirmativas, com a duração de cinco anos. Uma das metas desse programa é a abertura de acesso a pes-soas de baixa renda, negras e indíge-nas aos cursos da UFSC, particularmen-te os mais concorridos. Foram destina-das 20% destina-das vagas do vestibular para candidatos do ensino fundamental e médio público, 10% para candidatos negros (prioritariamente aqueles com ensino fundamental e médio público) e abertas 5 vagas para indígenas. 2/3 dos cursos teve mais concorrência nas va-gas para escola pública que na classifi-cação geral.
Das vagas para escola pública so-mente uma não foi preenchida. Das vagas para negros 75% foram preen-chidas, mostrando necessidade de mai-or divulgação do programa. Ainda as-sim é uma taxa de preenchimento mai-or que da Universidade Federal do Paraná (cerca de 50%) ou da UFRGS (45%). Duas das vagas indígenas fo-ram ocupadas.
Esses primeiros resultados são ani-madores. O vestibular UFSC, que até 2007 selecionava socioeconomicamen-te os candidatos de escola pública e os
Mais diversidade na UFSC: O bom começo das ações afirmativas em 2008
pretos, mudou seu perfil em 2008.An-tes do Programa de Ações Afirmativas, 35% dos candidatos e 25% dos ingressantes eram do ensino médio público. Agora, são 35% dos ingres-santes que são do ensino médio públi-co (aumento de 40%). Antes, 25% dos candidatos e 18% dos ingressantes eram do ensino fundamental e médio público. Agora, são 30% dos ingres-santes do ensino fundamental e médio público (aumento de 67%). Antes, 10% dos candidatos e 8,5% dos ingressantes eram pretos e pardos (negros). Agora, 15,9% dos ingressantes são pretos e pardos (negros). A grande mudança se deu nos cursos de maior concorrência, como medicina, direito, odonto, biolo-gia, entre outros. Cursos em que 4% dos alunos eram de baixa renda ou ne-gros, como medicina e odonto, agora tem 20% de baixa renda e 10% ne-gros. Cursos onde não entravam estu-dantes do ensino fundamental e médio público (como os casos de Jornalismo e Cinema em 2006) agora têm maior diversidade socioeconômica.
Há desafios novos para a UFSC! Eles estão relacionados à permanência e conclusão com sucesso dos ingres-santes. Apoio econômico através de ali-mentação, transporte, moradia, bolsas de permanência, material didático é um
deles. Reforço em disciplinas básicas através de apoio didático é outro. For-mação universitária ampla e cidadã, para contribuir para uma sociedade mais justa, é outra tarefa da Universi-dade.
Esses desafios do Programa de Ações Afirmativas. aprovado pelo Con-selho Universitário em 10/07/2008, estão sendo enfrentados pela UFSC. Foi nomeada uma comissao de acompa-nhamento e assessoramento da implan-tação do Programa, que conta com do-centes de vários centros e representa-ção estudantil. Tal comissão já está or-ganizando seus trabalhos em várias frentes: assistência estudantil, pesqui-sa, apoio pedagógico, divulgação, cul-tura. Alguns grupos de apoio para es-tudantes de ação afirmativa já estão se formando em centros e cursos.
Para contribuir com sugestões para esse processo de democratização do acesso à Universidade Pública e Gra-tuita de Qualidade, nosso contato é
[email protected] Vania Beatriz Monteiro da Silva e Marcelo Henrique Romano Tragtenberg
Membros da Comissão Institucional de Acompanhamento do Programa de Ações Afirmativas da UFSC
“Com a descentralização
orçamentária as resoluções ficaram
mais rápidas e os Centros de Ensino
puderam gastar sem uma rubrica
fixa” (Lucio José Botelho)
Gestão compartilhada: reitor e vice administraram a quatro mãos
Foto: Jones Bastos
A UFSC mais perto das pessoas e do mundo
Expansão, interiorização, políticas afirmativas, transparência administrativa, descentralização orçamentária e a valorização das pessoas foram algumas das marcas da Administração Lucio/Ariovaldo
O bem-sucedido processo de interiorização, a experiên-cia pioneira das ações afirmativas, a consolidação do Cursi-nho Pré-Vestibular, a adesão ao Reuni, a solução para o plano de saúde dos servidores, a descentralização dos re-cursos e o entendimento de que a Universidade pode ser dirigida de forma profissional a partir da valorização do ta-lento e do esforço dos trabalhadores técnico-administrati-vos foram alguns dos pontos que marcaram a gestão de Lucio José Botelho e Ariovaldo Bolzan à frente da UFSC – período que se encerra no dia 10 de maio com a posse de Alvaro Toubes Prata e Carlos Alberto Justo da Silva, o Paraná, que administrarão a instituição nos próximos quatro anos. De um lado, o reitor destaca a participação ativa e perma-nente dos servidores no staff que o acompanhou, “usando sua competência para dar conta do processo de gestão da Universidade”. A profissionalização dos critérios de ocupação de cargos evitou que muitos professores deixassem as salas de aula para responder por atribuições de ordem burocrática e, de quebra, tomassem o lugar de profissionais mais talha-dos para boa parte das funções técnicas na instituição.
De outra parte, a profissionalização das atividades-meio permitiu que a Prefeitura do Campus, por exemplo, execu-tasse as obras e melhorias necessárias sem precisar se re-portar à Administração Central. “Com a descentralização or-çamentária, medida sugerida pelo próprio corpo docente, as resoluções ficaram mais rápidas e os Centros de Ensino pu-deram gastar sem uma rubrica fixa”, destaca Lucio Botelho. Ele diz que na gestão que chega ao fim houve uma perda de importância do reitor, e acha que este fato “foi positivo”.
No âmbito das obras físicas e da expansão da Universidade,
o destaque foi o início do processo de implantação dos campi de Curitibanos, Araranguá e Joinville, ancorado no projeto de am-pliação das universidades do Governo Federal. De qualquer for-ma, antes de Brasília pensar no assunto, a UFSC já estava se preparando para sair da Ilha. Nas duas primeiras cidades, as obras físicas já começaram, e em Joinville – última entre as escolhidas – o projeto se encontra em fase de elaboração. A definição dos cursos levará em conta as especificidades locais, já que as três regiões têm perfis econômicos bem distintos.
Em relação à suspensão do pagamento do terreno de 1,25 milhão de metros quadrados adquirido para abrigar o campus da UFSC, por conta de improváveis superfaturamentos na compra do terreno pela Prefeitura e pelo Estado, o reitor Lucio Botelho acredita que haverá uma solução em breve e que não há risco de atraso nas obras. “O projeto está caminhando”, disse ele à imprensa no dia do lançamento da pedra funda-mental do novo campus, em evento que teve a presença do ministro da Educação, Fernando Haddad.
Hoje, além desses postos avançados, a UFSC mantém 16 pólos de educação a distância espalhados pelo Estado. “A soci-edade cobrava essa interiorização”, admite o vice-reitor Ariovaldo Bolzan, lembrando que no caso do ensino a distância houve um grande avanço na oferta de cursos e um número recorde de
alunos foi beneficiado. Os cursos de licenciatura a distância vêm formando professores e suprindo a carência de mestres existente no ensino médio em todas as regiões catarinenses.
A educação a distância da UFSC já oferece 5.670 vagas, em 33 municípios de oito estados brasileiros. A Universidade é hoje referência neste campo, tanto que, segundo pesquisa da Capes, possui 80 teses e dissertações registradas em seu banco de dados, contra 66 da Universidade de São Paulo (USP) e 62 da UFRGS. Na linha de frente, há cursos EaD destinados à educação de jovens e adultos, educação especial, educação profissional em nível tecnológico superior, educação superior em cursos seqüenciais, graduação e pós-graduação latu sen-so e strictu sensen-so. Um dos programas é o Pró-Licenciatura, com 2.000 vagas, voltado para a formação de professores da educação básica, com quatro cursos e 14 pólos, que desde 2004 vem permitindo o processo de interiorização da UFSC. Há ainda o Projeto Piloto, com 1.020 alunos, que dá formação a funcionários públicos e do Banco do Brasil, e o programa Universidade Aberta (UAB), com 2.650 vagas em cursos de graduação e pós-graduação em diferentes áreas.
Ainda em termos de obras físicas, encontram-se em fase adiantada de construção os prédios do Centro de Ciên-cias da Saúde, da Engenharia Química e Sanitária, do Cen-tro de Desportos e do CenCen-tro de Ciências Físicas e Matemá-ticas, além de uma nova etapa da Arquitetura.
A Universidade também investiu nos colégios agrícolas de Camboriú e Araquari. Em 2007, o destaque foram as obras de reforma e ampliação da infra-estrutura do colégio de Camboriú, que recebeu recursos de R$ 1,1 milhão para aumen-tar suas instalações físicas e ter salas de aula em melhores
con-dições de uso, laboratório de informática adequado às necessi-dades dos alunos e mais conforto em instalações como cozinha e refeitório. Foram também pavimentadas as ruas internas do colégio, contemplado ainda com a construção de novos galpões para a suinocultura e o aviário de postura. O Colégio Agrícola de Camboriú conta com mais de mil alunos, que vêm, na maioria dos casos, dos municípios da região da foz do rio Itajaí-Açu.
Uma das conquistas do período foi a construção do Centro de Miscroscopia, que permite o uso comum – e não apenas por um departamento ou um número limitado de professores – de um laboratório de microscopia eletrônica que deverá se mostrar muito útil para a Universidade ao longo dos próximos anos. “Existia uma disputa para ver em que centro ficaria o prédio, mas encontramos a alternativa de compartilhar o la-boratório, através da coordenação de um colegiado formado por diversos Centros”, destaca o reitor Lucio Botelho.
O Laboratório Central de Microscopia Eletrônica, inaugu-rado em novembro de 2007, envolveu a participação de pro-fessores dos Centros Tecnológico, de Ciências Físicas e Mate-máticas, de Ciências da Saúde, de Ciências Agrárias e de Ciências Biológicas. Funciona num prédio de 450 metros qua-drados e abriga quatro supermicroscópios com alta capacida-de capacida-de ampliação e resolução, que possibilitarão avanços nos
estudos de pesquisadores nas áreas de física, química, biolo-gia, agronomia, farmácia, farmacolobiolo-gia, odontolobiolo-gia, engenharia de materiais e engenharia química. Os potentes microscópios do laboratório permitirão o aprofundamento das pesquisas no campo da nanotecnologia, porque são eletrônicos e podem aumentar uma amostra em até um milhão de vezes – contra cerca de duas mil vezes do modelo ótico tradicional.
Além disso, a Universidade aceitou o desafio de criar novos cursos que atendessem a demandas que também são novas na Região Sul, como Zootecnia e Oceanografia, por conta do imenso potencial das florestas e do litoral dos três estados. Já a implantação do Curso de Artes Cênicas sinaliza a intenção da UFSC de se aproximar mais da área artística, o que é inédito na história da instituição. No total, são 160 novos alunos, o que
elevou para 4.095 o número de vagas na universidade. Não menos relevante é a entrada da UFSC no programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), projeto que provocará um grande crescimento no orçamento da instituição. O aumento das verbas destinadas à Universidade foi superior a 100% nos últimos quatro anos, de acordo com o vice-reitor Ariovaldo Bolzan, passando de R$ 20 milhões para cerca de R$ 43 milhões/ano, relativos aos recursos do Tesouro, ou seja, do orçamento federal. O projeto do Ministério da Educação permitirá que a UFSC eleve em perto de 1.000 o número de vagas nos cursos de graduação da Universidade.
Nesse período que se encerra, a universidade também plan-tou a semente das ações afirmativas, que abriram vagas para estudantes que dificilmente teriam condições de acessar o en-sino superior concorrendo com colegas melhor preparados. No Vestibular 2008, ingressaram na UFSC 1.211 alunos oriundos de escolas públicas, afrodescendentes e indígenas. Esse pro-cesso terá sua eficácia avaliada no decorrer dos próximos anos, dando margem para os ajustes necessários, mas já houve uma alteração no perfil de ingresso na instituição. Esta medida re-flete, segundo o reitor Lucio Botelho, o comprometimento da UFSC – através da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis – com a própria comunidade discente e a ampliação de seu contato com a sociedade, permitindo a conexão de saberes.
Já o Cursinho Pré-Vestibular Popular, igualmente voltado para jovens de menor poderio financeiro, reúne 280 alunos (contra 185 no ano passado) egressos de escolas públicas que têm a meta de ingressar na Universidade. Criado há cinco anos, suas vagas são disputadas por cerca de 1.500 candidatos a cada ano, alcançando um índice de 25% de aprovação nos vestibulares da UFSC e de outras instituições públicas de ensino (Udesc e Cefet) da Grande Florianópolis. No último vestibular, dos 485 alunos do cursinho, 102 foram aprovados em primeira chamada. E um de seus alunos ficou entre os 50 melhores no Vestibular 2008 da UFSC.
Outro avanço diz respeito à formação de professores da língua brasileira de sinais (Libras), que atende a mestres leigos (surdos) que trabalham em sala de aula. O primeiro vestibular será realizado em setembro de 2008, com 50 vagas. O Curso de Licenciatura e Bacharelado de Letras Libras funcionará no Centro de Comunicação e Expressão, no campus da Trindade. O aumento do número e do valor das bolsas fez parte de uma estratégia da Universidade de implementar uma política de relações internacionais sem precedentes, ciente de que sem essa troca seriam mais restritas as chances de inserção da instituição no ambiente da globalização. Há hoje cerca de 500 alunos estrangeiros no campus, e 350 estudantes da UFSC aprimoram seus conhecimentos fora do País.
Sem querer aprofundar o debate sobre a questão fundacional, o reitor chama a atenção para outro diferenci-al de sua gestão. “Esta foi a primeira administração da UFSC que não contou com o apoio financeiro irrestrito das funda-ções”, afirma, admitindo que “a lógica que preside essas instituições deve ser corrigida”.
Agora, a universidade vai selecionar 148 novos traba-lhadores, por meio de concurso público que será realizado no dia 19 de maio, para o qual se inscreveram 10.480 can-didatos. Em relação ao Plano de Saúde, foi escolhida a ope-radora Unimed, no final de abril, para responder pela assis-tência médica dos servidores da UFSC.
E no final da gestão está sendo lançada a grife da UFSC, criada pelo Sistema de Identidade Visual, vinculado à Agecom, para padronizar a marca da instituição veiculada nos vestuários e brindes comercializados pela Cooperativa Social de Pais, Amigos e Portadores de Deficiência (Coepad) na loja que mantém no Centro de Cultura e Eventos.
Alita Diana*
Jornalista na Agecom
O vestibular 2008 contou com 30.652 inscritos para 4.095 vagas. Dentro do Programa de Ações Afirmativas, que desti-na parte das vagas para candidatos oriundos de escolas pú-blicas, negros e indígenas, inscreveram-se 5.739 pessoas. Este foi o primeiro vestibular em que a UFSC implementou o programa de ações afirmativas.
Na linha do programa que destinava 10% de vagas pra candidatos auto-declarados negros foram oferecidas 414 va-gas. Inscreveram-se, optando por concorrer nesta linha do programa, 562 candidatos, sendo 291 egressos de escolas públicas e 271 de escolas particulares. Foram classificados 323 candidatos e ocupadas 301 vagas.
Paulo Clóvis Schmitz
Jornalista na Agecom
A nova administração da Universidade Federal de Santa Catarina assume promovendo, de imediato, alterações na estrutura da Administração Central, por meio da criação de três Secretarias (Secretaria de Planejamento e Finanças, Se-cretaria de Relações Institucionais e Internacionais e Secreta-ria de Cultura e Arte) e da consolidação de seis Pró-ReitoSecreta-rias (Pró-Reitoria de Desenvolvimento Humano e Social, Pró-Rei-toria de Infra-estrutura, Pró-ReiPró-Rei-toria de Assuntos Estudantis, Pró-Reitoria de Graduação, Pró-Reitoria de Pesquisa e Extensão e Pró-Reitoria de Pós-Graduação).
Após a consolidação das mudanças, o reitor Alvaro Prata e o vice-reitor Carlos Alberto Justo da Silva, o Paraná, tratarão de colocar em prática o que preconiza o plano estratégico da gestão, discutido com a comuni-dade universitária e debatido durante a campanha vito-riosa do ano passado. O reitor eleito está otimista, mes-mo com os desafios que deverá encontrar:
“A Universidade aprovou bons projetos recentemen-te, como o Reuni, que destinará R$ 264 milhões para a reestruturação e expansão de sua estrutura em quatro anos, e há obras em execução, como a Moradia Estudantil e os prédios do CCB e do CFM. E a interiorização, que é um projeto estimulante, está em curso, devendo ser ainda mais discutido com as cidades e regiões, garantindo uma construção coletiva e todos os padrões de qualidade. Pen-samos até em reestruturar o que é mais frágil aqui na Capital a partir do aprendizado que teremos com a criação dos novos campi em Araranguá, Curitibanos e Joinville”.
Uma prática comum da nova gestão será o diálogo com os servidores técnico-administrativos, com os do-centes e com os alunos, criando canais de comunicação e a possibilidade de uma gestão participativa. Ele lista como ações prioritárias a busca da redução das desigualdades – tanto de oportunidades quanto de infra-estrutura – entre centros e departamentos, o estímulo à interdiscipli-naridade, a aproximação entre a graduação e a pós-gra-duação, o apoio às relações institucionais com outras ins-tâncias públicas e às relações internacionais, que esti-mulem a mobilidade estudantil e o intercâmbio com uni-versidades de outros países.
Outros desafios que a nova administração pretende encarar dizem respeito, por exemplo, à qualificação e capacitação dos servidores, à melhoria das condições de trabalho para docentes e técnicos, ao aumento da quali-dade de vida no campus e à busca de solução para a falta de professores em alguns cursos. Também há a busca da “universidade acadêmica”, ou seja, aquela que se preocu-pa, acima de tudo, com a formação dos alunos, com a criação de condições adequadas de ensino, com o avanço do conhecimento e do saber, com a aproximação da soci-edade, com a busca da qualidade, com a inovação, com a
Ambiente de pesquisa deve contagiar toda a Universidade
Em entrevista ao JU, o reitor eleito, Alvaro Prata, fala de mudanças, interiorização, parcerias, autonomia, URP e reitera o compromisso com a universidade acadêmica
diversidade e com o apoio à pesquisa.
Na questão específi-ca da pesquisa, o reitor eleito acredita que ela está associada diretamen-te à motivação, a “uma chama interna que as pessoas têm” e que “ali-menta a curiosidade e a vontade de descobrir, de avançar o conhecimento e de expandir as frontei-ras individuais”. Por isso, é dever da Universidade criar condições favoráveis para a pesquisa, eliminan-do as amarras de ordem burocrática e influências negativas que possam desviar a atenção da co-munidade universitária e dos pesquisadores dos compromissos com essa área. “Isso requer boa bi-bliografia, condições físi-cas e ambiente favorável, que estimulem a pesqui-sa e a livrem de obstácu-los que inibem o seu de-senvolvimento”, sublinha. De outra parte, cabe à Universidade oferecer
equipamentos sofisticados e manter a política de instalar laboratórios multiusuários que facilitem a execução de pro-jetos de ponta na instituição. E há sempre a possibilidade de recorrer aos recursos do CNPq, da Finep, da Capes e de organismos internacionais de fomento. “Esse ambiente de pesquisa precisa contagiar a graduação, a pós-graduação e toda a comunidade universitária”, decreta Alvaro Prata.
Álvaro Prata também acredita no êxito das parcerias com a sociedade, que podem ocorrer de diferentes manei-ras. As que dependem de convênios e contratos vinculam-se, hoje, ao trabalho das fundações de apoio, cujas fun-ções e limites ele pretende discutir a fundo. “É muito importante que as fundações existam, tenham saúde e que as práticas sejam bem estabelecidas, com transpa-rência e clareza. A Universidade não pode mais prescindir delas, por uma série de razões – há muitos exemplos indi-vidualizados para isso. É preciso que resgatemos a ima-gem das fundações de apoio a serviço das universidades, no Ministério Público, no Tribunal de Contas, na comunida-de universitária. E as próprias fundações precisam estar imbuídas dessa necessidade de recuperação e ordenamento
UFSC divulga resultados do Programa de Ações Afirmativas
Na linha do programa que destinava 20% das vagas para can-didatos oriundos de escolas públicas foram oferecidas 819 vagas. Inscreveram-se 5.170 pessoas. Foram ocupadas 818 vagas.
As situações problemáticas que se apresentaram foram de alunos que freqüentaram escolas públicas mantidas por fun-dações privadas e, portanto, não se enquadravam nos requi-sitos do edital e alunos que não tinham cursado todo o percur-so de ensino fundamental e médio em escola pública. Portanto o que aconteceu foi o não cumprimento, por parte dos candi-datos, das informações prestadas quando da inscrição.
Através da resolução normativa do Conselho Universitário que criou o programa de ações afirmativas da Universidade Federal de Santa Catarina (08/ Cun/2007) foram criadas cinco vagas suplementares para atender aos candidatos pertencen-tes aos povos indígenas melhor classificados no vestibular.
Inscreveram-se sete pessoas para esta linha do programa, três foram classificadas para os cursos de Direito, Engenharia Sanitária e Ambiental e Enfermagem. A pessoa classificada para o curso de Enfermagem declinou da vaga, sendo, por-tanto ocupadas duas vagas.
Observou-se, também, que um dos intentos do programa de ações afirmativas foi alcançado — possibilitar aos candidatos que se inscreveram no programa o ingresso em cursos com mais difícil acesso ( maior porcentagem candidato/vaga) como Medicina, Di-reito, Odontologia, Arquitetura e Urbanismo, entre outros.
Para saber mais sobre o programa de ações afir-mativas da UFSC: www.vestibular2008.ufsc.br/ resolucao_acoes_ afirmativas.pdf
* dados da COPERVE e Relatório do Departamento de Admi-nistração Escolar (DAE)
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de ações para que possam continuar a serviço da Universi-dade”. Independentemente disso, Alvaro Prata pensa que a instituição pode gerir seus próprios contratos e convêni-os, por meio da capacitação interna e especialmente pela busca, nas instâncias federais, de mecanismos que au-mentem a autonomia das universidades.
Sobre a questão da URP, que vem ameaçando a co-munidade docente com significativa perda salarial, o novo reitor diz que vem procurando soluções e estudando o as-sunto com especialistas. “Tenho a expectativa de que essa questão, que pode parecer definitiva neste momento, ve-nha a ser resolvida de alguma forma”, afirma. “Há um aumento salarial previsto, e também uma posição definiti-va da Procuradoria da Universidade. Sei que nosso sindi-cato tem igualmente buscado alternativas. Esta é uma ques-tão difícil, porque a URP de fato foi cortada, mas quero trabalhar para que sobretudo a carreira do docente (pas-sando inclusive pela recuperação salarial) possa ser revis-ta. O professor universitário, assim como o servidor técni-co-administrativo, está subvalorizado, com salários que estão muito aquém de sua importância para a Nação”.
Otimismo: a nova Gestão acredita ser dever da Universidade criar condições favoráveis para a pesquisa, eliminando, principalmente, as amarras de ordem burocrática
Foto: Victor Carlson
Quem vem
Alvaro Toubes Prata - Reitor
Carlos Alberto Justo da Silva - Vice-Reitor
José Carlos Cunha Petrus - Chefe do Gabinete do Reitor Guilherme Júlio da Silva - Secretário de Planejamento e Finanças Enio Luiz Pedrotti - Secretário de Relações Institucionais e Internacionais Maria de Lourdes Alves Borges - Secretária de Cultura e Arte
Yara Maria Rauh Muller - Pró-Reitora de Graduação Débora Peres Menezes - Pró-Reitora de Pesquisa e Extensão José Roberto O’Shea - Pró-Reitor de Pós-Graduação
Luiz Henrique Vieira Silva - Pró-Reitor de Desenvolvimento Humano e Social João Batista Furtuoso - Pró-Reitor de Infra-estrutura
Cláudio José Amante - Pró-Reitor de Assuntos Estudantis
Quem sai
Lucio José Botelho - Reitor Ariovaldo Bolzan - Vice-Reitor
Claudete Regina Ferreira - Chefe do Gabinete do Reitor Corina Martins Espíndola - PRAE
Mário Kobus - PROAF Eunice Suely Nodari - PRCE Marcos Laffin - PREG
Tereza Christina M. de Lima Nogueira - PRPE Valdir Soldi - PRPG
Cláudia Schaun Reis
Jornalista na Agecom
O menino corre ladeira abaixo. Os pés tocam rápido o chão de barro, mas são lentos em comparação à sua vonta-de vonta-de chegar. O encontro é marcado por risos e conversas empolgadas, porém o menino se mantém calado: só os adul-tos têm a palavra. Ele não se importa; em vez de falar, prefere escutar as histórias contadas pelos jornaleiros.
O sertão de São José, naquele ano de 1918, entretinha suas crianças com o cheiro da terra molhada, a passarinhada pulando de árvore em árvore e os pés de goiaba e laranja cheios de fruta. As muitas brincadeiras tinham vez quando a molecada não precisava auxiliar os pais na roça – naquele tempo, não se tinha filho pra bonito, mas sim para ajudar no trabalho. Apesar de todas as atividades, a região parava com a chegada dos jornaleiros, que, depois dos mutirões de co-lheita da mandioca e do café, se reuniam com os moradores do local para contar dos causos vividos em suas andanças atrás de mais trabalho. A noite caía e o breu que envolvia homens e crianças servia de tela para o cinema imaginário que o menino Franklin vislumbrava a partir das histórias dos jornaleiros. Tintas coloridas faziam surgir na tela pescadores e bruxas, boitatás e balaieiros, gentes simples e outras chei-as de segredos que habitavam a região de cultura açoriana. O menino foi crescendo e as tintas coloridas se materiali-zaram no preto traçado pelo nanquim. Os desenhos, soube-se depois, não eram obras isoladas, mas parte de todo um inventário documentado por Franklin Joaquim Cascaes - ou Seo Francolino, como os pescadores costumavam trata-lo: serviam de ilustrações para histórias do povo de origem açoriana. As esculturas em barro tinham a mesma função. “Ele ia a campo, pro Pântano do Sul, Ribeirão, confirmar essas histórias. Ele fez ciência, e transformou esse conhecimento em arte. Cascaes entendia que o desenho seria agradável pras crianças, que não tinham o hábito da leitura. Quando ilustrava as histórias ele acreditava, e tinha razão, que o desenho - tão estranho -, ia te cativar para ler o conto. E Cascaes extrapola: faz por escrito, não satisfeito, ilustra, não satisfeito, faz a escultura. E a maioria das esculturas têm acessórios: balainho, peneirinha, reminho, canoinha, tudo isso ele fazia”, explica Peninha, ou Gelci José Coelho, diretor do Museu Universitário, grande admirador de Cascaes, incentivador e amigo do artista em seus últimos anos de vida.
Centenário - As histórias de Cascaes, hoje, no ano de
2008, quando ele completaria cem anos de vida – e já contabiliza 25 de sua partida –, são conhecidas por toda a Ilha Bruxólica, por Santa Catarina, pelo Brasil afora e tam-bém por países de língua portuguesa, em grande parte pela divulgação que Peninha se incumbiu de fazer enquanto o mestre era vivo - trabalho que ainda desempenha com afin-co e abnegação.
Sempre disponível no Museu Universitário – quando não está fora ministrando palestras sobre a cultura açoriana -, Peninha recebe turistas e jornalistas, professores e alunos, e reconta as histórias em seus mínimos detalhes. O broche da UFSC é fincado na camisa todos os dias, e ele ainda se diz encabulado na hora em que é solicitado a falar sobre o mestre. A timidez então dá lugar a um jeito de contar e encantar que, percebemos, é o segredo para que o nome de Cascaes tenha chegado a tantos lugares.
Talvez a magia das cores pintadas nas telas que os jorna-leiros traziam ao menino Franklin tenham lhe acompanhado por toda a vida. A intensidade do relacionamento com a professora Elizabeth Pavan Cascaes lhe deixou fortes matizes de saudade quando ela partiu subitamente, em 1970. Abatido, o artista abandonou estudos, obras e tudo o que dizia respeito à temática que sempre o fascinou. Durante os treze anos que viveu sem Beth, Cascaes nunca se recobrou totalmente. Igualmente fortes, ainda que não tão brilhantes, foram as cores que lhe pintaram o discípulo, em 1973. O rapaz Gelci sempre se identificara com a obra de Cascaes, por ser seu conterrâneo, por ter familiaridade com as olarias e por também ter sido uma criança que cresceu envolto em causos açorianos. Numa época em que os desenhos e esculturas do professor Franklin eram desconsiderados pelos artistas em voga e pela própria academia, Peninha organizou exposições e divulgou seu nome por onde quer que fosse.
Tesouro - No dia em que encontrou os manuscritos de
Cascaes, guardados no fundo de um armário junto de todas as roupas de Beth, quatro anos depois de sua morte, Peninha insistiu em lê-los. Cascaes condicionou: “se tu vieres aqui nos sábados eu leio pra ti”. “Ele queria companhia. Solitário, não tinha ninguém pra dialogar. Aí, monótono, lia as histórias, e eu me encantava! E fui cavando informação para descobrir mais a respeito do que ele contava. Passei a dizer que voltaria no domingo, para continuarmos a leitura. Com o tempo, ele começou a se mostrar satisfeito em ver que eu apreciava os contos e a amizade então foi surgindo”, relembra Peninha.
O museólogo conta que animar o professor era tarefa
árdua. Seu ateliê vivia abandonado. Durante a organização de uma exposição, perceberam que um dos conjuntos esta-va incompleto. Peninha solicitou a Cascaes para fazer a peça novamente, e diante da recusa do mestre, provocou: “bem que eu estava desconfiado que essas obras não foram es-culpidas pelo senhor, e sim por seus alunos, pois eu nunca vi nada ser feito aqui...”. A reação foi imediata. “Ele ficou furi-oso! Pegou uma argila velha, abandonada no chão, botou água e mandou: ‘amassa esse barro!’. E eu amassei sem parar. Ele passava, apertava com o dedão e dizia que não estava bom. E eu continuava amassando, e ele não se dava por satisfeito. Mas eu não desistia, até uma hora em que ele colocou a argila em cima do torno, pegou os esteques e claf, claf, claf, apareceu a figura! Fiquei maravilhado, e comecei a incitá-lo, lembrando de figuras típicas, que foram surgindo, uma a uma, até que no fim da tarde o que ele havia produ-zido não era brincadeira...”.
O presépio montado todo ano na frente do Museu Uni-versitário teve como primeira função chamar a comunidade à UFSC para conhecer suas obras. Feito com barba-de-ve-lho, sementes e flores – como explica o museólogo, “já mostrava a necessidade de preservar a natureza da ilha” -, não surgiu naquele ano de 73, mas muito antes, confeccio-nado e exposto na Catedral pelo próprio Cascaes, na época em que Peninha ainda era menino. “Ele criou o hábito de montar exposições embaixo da Figueira: fincava os moirões na terra, em volta da árvore, e aplicava as figuras ali. Como eram peças estranhas, enchia de gente pra ver. Era tanta gente que a Rádio Guarujá, em uma dessas exposições, se instalou embaixo da Figueira para que as pessoas falassem, pela rádio, o que viam. E isso era a década de 60!”
Questão de marketing - Mau tempo nunca foi
descul-pa descul-para que Cascaes não divulgasse a cultura açoriana. “Ele tinha uma kombi sem janela, onde escrevia, na lataria, po-emas de profundo amor pela Ilha. Nos dias de chuva coloca-va suas obras na kombi e ia para pontos estratégicos, como os pátios das escolas. A visão que esse homem tinha...quem é que não ia parar pra ler uma coisa escrita numa kombi?”, questiona Peninha.
Os anseios de poder levar a literatura oral a outros meni-nos, como ele foi um dia, é que impulsionaram todo o traba-lho do professor Franklin. O discípulo Gelci, absorvendo seus conhecimentos, tomou para si a responsabilidade, também como forma de retribuir todo o aprendizado proporcionado pelo mestre. “Fui privilegiado em ter, durante dez anos, um professor ao vivo, exclusivo, orientador e mestre só pra mim. Ninguém teve uma universidade tão maravilhosa como a minha, ninguém teve!”.
Em 2000, o então estudante de Jornalismo da UFSC Francis Silvy aceitou a sugestão de Peninha e produziu o vídeo Embalaiá, sobre a confecção de balaios, apresentan-do-o em sua banca de conclusão de curso. O audiovisual traz o museólogo como entrevistador e personagem que, ao mesmo tempo, apresenta as técnicas e aprende um pouquinho mais com seus conterrâneos.
A repercussão do documentário é grande. “Ainda ontem eu estava na rodoviária, na banca de revistas, um garoto me viu e disse: ‘olha, eu sou teu fã!’, eu nem o conheço, respondi ‘mas eu não sou artista’. Ele tinha visto o filme dos balaios mais de dez vezes! E começou a contar detalhes e falas dos entrevistados... Então o vídeo alcançou seu objetivo, que é a nova geração valorizar esse conhecimento”. As manifesta-ções a respeito do documentário são freqüentes. Os mais antigos param o museólogo para lhe assegurar que se senti-ram prestigiados com a história, e não raras são as conversas sobre a obra que acabam em lágrimas saudosas.
Além de Embalaiá, foram realizados também Enxó da
Ribeira, a respeito da construção artesanal de canoas a
par-tir de um único tronco, e Religiosidade Popular, que explora as diversas expressões da religiosidade tradicional.
Novos tempos, novo museu - Atuando oficialmente no
Museu desde 1975, quando ainda era denominado Museu de Antropologia, Peninha completa 12 anos na direção preven-do sua aposentapreven-doria. A obra de Cascaes, toda registrada e organizada em ala especial, espera a finalização do Pavilhão de Exposições do Museu, que poderá abrigar mostras de fôle-go. Morador recente da Enseada do Brito, no município de Palhoça, Peninha espera continuar, nessa região, o trabalho cultural que sempre desenvolveu desde muito cedo.
Eles quiseram ser jornaleiros. Meninos que foram, cada qual em sua época, influenciados desde pequetitos pelos contos fantásticos da Ilha, encontraram-se depois, numa parceria de vida, que tinha como objetivo a concretização da profissão do divulgar. Mestre e discípulo, separados, jun-tos e depois novamente separados, seguiram sempre em nome daquelas histórias que embalaram suas infâncias, a encantar outros meninos como eles.
O ano de 2008 marca o centenário de nascimento de Franklin Cascaes, artista que documentou a cultura açoriana e dedicou sua vida a transmiti-la principalmente às crianças
Treze raio tem o sóli treze raio tem a lua Sarta Diabo prô inferno
questa alma não é tua. Tosca marosca Rabo de rosca vassoura na tua mão
relho na tua bunda e agulhão nos teus pés
Por riba do silvado e por debaixo do
telhado São Pedro, São Paulo, São Fontista por riba da casa São
João Batista Bruxa tatará-bruxa tu não me entre nesta casa
nem nesta comarca toda Por todos os santos dos santos,
Amém”.
*Reza benzedeira do livro “O Fantástico na Ilha de SC”, de Franklin Cascaes
Peninha e uma das bruxas de Cascaes: “as pessoas não esqueceram as histórias, apenas não as contam para não chamar as bruxas”
Foto: Cláudia R
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Foto: James Tavares
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Cascaes dedicou a vida a contar histórias que ouvia quando criança: textos, desenhos e obras em argila compõem todo um inventário da literatura oral da cultura açoriana
As bruxas, Peninha logo avisa, são um fragmento da obra do professor Franklin. É que, como o assunto é envolto por mistérios, acaba atraindo maior interesse. E aí é que aconteceu um fenômeno curioso. “Cascaes vai a vários pon-tos da Ilha conversar com as pessoas a respeito das bruxas. E começa a ficar preocupado. ‘Eles estão esquecendo as histórias!’, ele dizia, porque nunca lembravam dos causos até o fim, deixando a narrativa pela metade”.
Foi preciso Cascaes ir até os Açores, em 1979, para entender o que se passava com os mora-dores da ilha. Relembra Peninha: “Ele tinha levado um questionário que abordava diversos itens, mas quando mencionava a literatura oral, os causos estranhos das bruxas, as pessoas pe-diam licença, ‘ai, um instantinho só que eu já volto’, e iam embora. Até o dia em que um homem, observando a cena, confidenciou: ‘ah, não se pode falar das mandrengas, porque atrai’. Aí entendemos que nossa gente jamais esque-ceu das histórias: apenas não as contam para não chamar as bruxas. Não é impressionante?”
“Um dia terrível” - As lendas bruxólicas se
perpetuam, no entanto, porque significam uma forma de garantir o controle materno sobre a família. “Muitas dessas histórias nunca aconteceram. Essa prática é resultado da inteli-gência das mulheres da Ilha que, para impor uma educação repressora, criavam esses causos, metendo medo na gurizada. É assim ó: a mulher tem o dia inteiro ocupado, ela não pára. Quando a turma chega da roça, antes das horas mortas – às seis da tarde -, a ceia já está pronta. O filho, então, avisa: ‘ô mãe, eu vou ceiar mas depois vou na casa do Maneca‘. Só que as famílias eram distantes. A mãe respondia: ‘Que bom que tu vais. Eu fiz este beiju e queria mandar pra mãe do Maneca, mas não tive tempo de bater perna até lá, assim já entregas pra ela, e vê como é que eles vão’”.
No momento em que a família senta à mesa, continua Peninha, a mãe conta: “Tu não sabes o que aconteceu aqui hoje: não tem o Seu Jorge lá das Aranhas? Ele queria negociar um boi de engenho aqui e foi atacado por uma bruxa.”, e a história se desenrola no caminho que o filho terá que passar para chegar à casa de Maneca. “Foi um despautério, chamaram a benzedeira! A Dona Zica, aqui da localidade, não estava, tiveram que chamar outra lá não sei onde, hoje foi um dia terrível!”.
O incidente os faz lembrar de outros parecidos e, no final do jantar, a mãe consegue seu intento: “o rapaz se amua num canto, alega que está cansado e desiste da visita. A mãe não queria que ele fosse porque o filho volta tarde e no outro dia o trabalho na roça não rende”. A história é contada ao amigo para justificar a falta, e no fim do dia toda a localidade já está sabendo do ataque da bruxa.
Mães católicas não mentem - Peninha explica:
“Por que todo mundo acreditou e ninguém questionou a história? Primeiro porque foi a mãe que contou, e mãe não mente. E ela é católica. Católica também não mente, porque é pecado. A história passa a ser uma verdade. Só que chega na outra casa com outro tom, né? E foi assim que as mulheres criaram imen-sas histórias, e o Cascaes registrou”. Mesmo inventando os causos, as mulheres têm medo de atrair as supostas bruxas. Para contá-las então, pri-meiro fazem uma reza braba de proteção.
A literatura oral sobre as bruxas ainda é prática corrente nos dias de hoje. Há quem ligue pro Museu atrás de Peninha, pedindo auxílio porque as bruxas estão rondando a casa: o cavalo amanheceu com a crina e o rabo cheio de tranças. “Eu pergunto se eles têm alguma criança que ainda não foi batizada, então eles lembram: ‘ah, o filho do vizinho, é pequenininho ainda’”. O museólogo explica a relação: a crença se espalhou através da Igreja Católica, ainda nos tempos da Inquisição. “As mulheres detinham imensa sabedoria. Enquanto os homens caça-vam, elas observavam a natureza. Com o passar dos anos as bruxas se tornaram as chamadas benzedeiras”.
Paulo Clóvis Schmitz
Jornalista na Agecom
Treze meses depois do início da in-tervenção judicial e do afastamento de sua diretoria, em fevereiro de 2007, a Fundação de Ensino e Engenharia de Santa Catarina (FEESC) está livre do processo e volta a operar normalmen-te, permitindo outra vez que a UFSC ajude a viabilizar, por meio de parceri-as com instituições e empresparceri-as, o de-senvolvimento catarinense. O Poder Judiciário emitiu, em 2 de abril, sen-tença favorável à entidade, decretando que “a FEESC não está mais sob inter-venção e não existe processo contra a mesma na Vara da Fazenda de Santa Catarina”, sendo inclusive extinto o jul-gamento do mérito.
Com isso, ficam isentos de qualquer culpabilidade – “por falta de objeto em relação a eles”, segundo a sentença – os professores Júlio Felipe Szeremeta, Edison da Rosa, Jorge Mário Campagnolo
Justiça encerra processo de intervenção na FEESC
Com isso, a Fundação está livre para retomar projetos de pesquisa em parceria com empresas, órgãos de fomento e instituições
e Antônio Edésio Jungles, que faziam parte da diretoria da FEESC quando do início da intervenção. “Nunca soubemos do que estávamos sendo acusados e ja-mais nos deram qualquer chance de defesa”, afirma o professor Szeremeta ao falar da ação do Ministério Público de Santa Catarina contra a fundação.
“Agora, a fundação tentará restabe-lecer a normalidade e nós poderemos resgatar a imagem daquela diretoria”, diz Szeremeta, que volta às suas ativi-dades no Centro Tecnológico. Ele desta-cou que a FEESC é uma fundação im-portante porque dá respaldo aos proje-tos dos professores da Universidade, em especial do CTC, feitos com órgãos de fomento, empresas e outras instituições. E atribuiu a intervenção a “uma articu-lação nacional de docentes que vêm ten-tando bater nas fundações de apoio”.
O reitor da UFSC, Lucio José Botelho, destacou a importância das fundações de apoio para o funcionamento da Uni-versidade e diz que sem a FEESC, por
exemplo, a instituição jamais seria o que é hoje. De sua parte, o vice-reitor Ariovaldo Bolzan vinha defendendo um período de transição para que a UFSC se adequasse às exigências legais, uma vez que a Corregedoria Geral da União (CGE) questionava o uso de recursos não-orçamentários, vindos de fontes privadas, para o desenvolvimento de projetos de pesquisa. Essa transição evitaria, segundo ele, prejuízos para um trabalho que sempre colocou a Univer-sidade entre as mais importantes na área tecnológica no Brasil.
Até 2004, a UFSC chegava a fazer cem projetos por ano, com recursos de órgãos de fomento e empresas priva-das que utilizavam os laboratórios e o pessoal técnico para criar produtos de interesse coletivo. “A UFSC saiu na fren-te, ainda nos anos 80, na busca de re-cursos não-orçamentários para a pes-quisa, incluindo o CNPq e outras insti-tuições de fomento, e por isso está en-tre as universidades que mais
desenvol-vem projetos no campo da tecnologia no País”, sublinha Ariovaldo Bolzan.
Projetos feitos para a Embraco, úni-ca empresa brasileira que é líder mun-dial em sua área (fabricação de com-pressores), são um exemplo de parce-ria bem-sucedida da iniciativa privada com a Universidade. Ela faz parte de uma lista onde aparecem ainda empresas do porte da Sadia, WEG, Perdigão, Tigre e Petrobrás. “O que esses grupos valori-zam é o pessoal altamente qualificado presente dentro da Universidade”, ga-rante Bolzan.
Criada em 1966 e tornada de utili-dade pública três anos depois, a FEESC deu posse no dia 28 de março à nova diretoria, comandada por Car-los Viana Speller, professor aposen-tado do Departamento de Engenharia Mecânica da UFSC. Integram também o grupo os professores Álvaro Guiller-mo Rojas Lezana (diretor-técnico) e Denizar Cruz Martins (diretor adminis-trativo-financeiro).
Moacir Loth
Jornalista na Agecom
A comunidade universitária não pode ser hipócrita: A universidade pública hoje não consegue funcio-nar sem as fundações de apoio à pesquisa. Amarradas e imobilizadas pela burocracia brutal, violadas em sua autonomia constitucional, as universidades federais necessitam das fundações para manter a quali-dade do ensino, da pesquisa e da extensão.
Sem a competência e a flexibili-dade das fundações, morre o Hospi-tal Universitário (HU), fecha o labo-ratório de pesquisa, acaba o projeto de extensão, termina a cooperação
Fundações necessárias (ainda)
científica, desaba a relação com a so-ciedade e quebra a ponte que liga a universidade à população.
A universidade, refém dos recur-sos carimbados, está impossibilitada de cumprir os seus papéis e compro-missos. Sem as fundações, não faz jornadas, eventos científicos e cultu-rais, não compra nem parafuso e, li-mitando-se ao ensino, deixa de fazer pesquisa, jogando por terra o próprio conceito de universidade.
Há mais de quatro décadas a Uni-versidade Federal de Santa Catarina ministra inovação tecnológica ao País. Marcos regulatórios finalmente esta-belecidos (Leis da Inovação cata-rinense e brasileira), a instituição so-fre, infelizmente, de implacável
per-seguição política.
O pente-fino do Tribunal de Contas da União (TCU), realizado de 2003 a 2007, pegou de calças curtas 19 fun-dações espalhadas em 16 estados. A UFSC não se encontrar entre as “pre-miadas”. Agora cabe perguntar: funda-ções saneadas, quem pagará os preju-ízos de tanta calúnia e denúncia vazia? A verdade é que na UFSC as fun-dações de apoio servem à universi-dade e não o contrário. São elas, em parte, responsáveis pelo reconheci-mento da UFSC como uma universi-dade pública de excelência na produ-ção e difusão do conhecimento cien-tífico e tecnológico.
Braços institucionais, as fundações fazem o meio campo entre a
comuni-dade acadêmica e a comunicomuni-dade mais ampla, viabilizando, na prática, a par-ceria da UFSC como sociedade.
No dia em que a universidade fe-deral estiver livre da burocracia e for respeitada plenamente em sua autonomia, as fundações ficarão sem funções e desaparecerão na-turalmente. Enquanto isso, a gene-ralização da denúncia é uma epi-demia nefasta.
As fundações, evidentemente, de-vem adotar o princípio da transparên-cia administrativa e financeira, sub-metendo-se ao controle social, aos Conselhos constituídos e à Adminis-tração da Universidade, que, em seus atos, encontra amparo legal na auto-nomia universitária constitucional.
Fotos: Cláudia Reis
A FEESC é importante porque dá respaldo aos projetos dos professores da Universidade, especialmente os ligados ao CTC