UNIVERSIDADEFEDERALDOACRE–UFAC
CENTRODEFILOSOFIAECIÊNCIASHUMANAS
JONATHASVIEIRADONASCIMENTO
AS APOSENTADORIAS DE EX - GOVERNADORES DO ACRE
1962-2002
RIO BRANCO – ACRE 2015
UNIVERSIDADEFEDERALDOACRE–UFAC
CENTRODEFILOSOFIAECIÊNCIASHUMANAS
COORDENAÇÃO DO CURSO BACHARELADO EM HISTÓRIA
JONATHAS VIEIRA DO NASCIMENTO
AS “APOSENTADORIAS” DE EX - GOVERNADORES DO ACRE
1962-2002
Monografia apresentada ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre, como requisito parcial para obtenção do Grau de Bacharel em História, Habilitação: Ciência Política, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco Bento da Silva.
RIO BRANCO – ACRE 2015
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UFAC
N244a Nascimento, Jonathas Vieira do, 1968 -
As “aposentadorias” de ex-governadores do Acre, 1962-2002 / Jonathas Vieira do Nascimento - 2016.
64 f.; il.: 30 cm.
Monografia (Graduação) – Universidade Federal do Acre, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Curso de História. Rio Branco, 2016.
Inclui referências bibliográficas.
Orientador: Prof. Dr. Francisco Bento da Silva.
1. Estado do Acre 2. Aposentadoria – Ex-governadores – Acre 3. Constituição acreana I. Título.
CDD: 323.598112
Dedico este trabalho a minha mãe Nilza, que sempre sonhou com um filho formado em uma Universidade Federal, sempre me apoiou psicologicamente e
financeiramente para que eu não
desistisse nunca.
Ela que sempre esteve do meu lado nos momentos felizes e tristes, sempre foi uma pessoa que se superou diante das adversidades sem se envolver no mundo do crime e das corrupções da vida: por isso todo meu empenho e esforço dessa pesquisa dedico a ela.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente a Deus, dono da vida, por permitir a minha chegada até aqui, nesse momento de muita alegria, realização e satisfação. Então a Ele toda honra e toda glória.
A minha mãe Nilza, por sempre ter me amado, sempre pedindo pra mim estudar, sempre fazendo dentro do seu possível para eu está no banco da escola, mesmo na universidade, muitas vezes me fez prosseguir nessa caminhada de quatro anos, que não foi fácil. Muito obrigada minha querida mãe.
Ao meu pai Adalberto Nascimento como é conhecido nesta cidade, que foi o inspirador dessa escrita, pois o fato dele não ser ainda aposentado aos 72 anos é que eu resolvi escrever sobre esse assunto de aposentadoria. Obrigado pelos seus incentivos e ensinamentos na lida da vida.
A minha esposa Iris, pela imensa paciência em esperar muitas vezes eu terminar de escrever para conversarmos, por esperar o uso do computador, nos momentos em que ficamos com apenas um, e pelo companheirismo de sua parte sempre me incentivando nos estudos durante essa escrita.
Aos filhos Laura e João, a quem também agradeço pelo tempo em que estive ausente escrevendo, como sempre repetiu na sala de aula o professor Dourado: “tem hora que é
preciso esquecer todo mundo senão não escreve nada”. Obrigado pela paciência dos dois e
chegar até aqui é também para servir de espelho para vocês dois.
Aos irmãos Paulo, Marcos, Dário, Júnior, Felipe, Davi, Paulinho, Raquel, aos primos Jakson e Fábio, e aos sobrinhos Yure, Ivan, Pedro Victor, Paulo Felipe e João Batista, que sempre me incentivaram.
As tias Zilma, Nilda, Zilda, Rosilda, que concluíram o nível superior e serviram de espelho e inspiração para que eu tivesse forças para continuar na luta. Tia Rosilda que me emprestou uns livros e sempre trocou ideias comigo sobre meu trabalho monográfico. Tia Zilma que, sempre incentivou os filhos nos estudos e hoje todos tem ensino superior.
Ao meu tio Raimundo Sebastião de Souza (Macilo), meu segundo pai, sempre me incentivou a estudar dizendo que estudando sempre podemos chegar mais longe. Também agradece-lo por está sempre por perto nos momentos difíceis da minha vida e com certeza a
escrita dessa monografia foi um momento muito difícil mas ele sempre estava ali perto de vez enquanto.
Agradecer ao professor Dr. Francisco Bento, meu orientador e amigo posso dizer assim. O conheci através da minha cunhada Ana Carla e depois na sala de aula ministrando sobre história do Brasil. Muito obrigado pela paciência, atenção e acima de tudo profissionalismo com que conduziu essa dupla mão em que estivemos durante muito tempo, na construção desse texto.
E por fim agradecer aos professores do curso que marcaram minha vida e com certeza nesse texto tem um pouco de cada um. Dourado, Maria José, Airton Rocha, Vicente Gil, Polyana Dourado, Armstrong da Silva, Rosana Martins, Eduardo Carneiro, Sandra Tereza.
RESUMO
Neste trabalho cujo o tema é “As aposentadorias de ex-governadores do Acre, 1962-2002”, procuro mostrar em primeiro lugar que Estado é esse, em que estrutura ele vai se organizando sob punho da união e depois organizando-se por meio de eleições com participação popular pela primeira vez com a eleição de José Augusto no ano de 1962. O Estado do Acre vai sofrer intervenções militares por um longo período e somente em 1980 com a eleição de Nabor Júnior é que o povo acreano voltará a eleger seus governadores. O estado Acre como outros estados da federação passa a pagar aposentadorias para ex governadores e viúvas com base no Art. 77º da Constituição Acreana. Acontece que essas práticas vinham sendo muito criticadas, tanto pelo PT nacional como local, também sendo criticada por setores da Igreja Católica, associação de moradores, sindicatos, servidores públicos. Em fim a crítica vinha de todos os lados. Então com a chegada de Orleir Cameli ao governo e através de uma PEC do deputado João Correia (PMDB), foi derrubada as aposentadorias a partir de 1996. Essa medida considerada por muitos como uma maneira de se fazer justiça, só teve duração até o ano de 2001, quando o governador Jorge Viana (PT), foi eleito no seu primeiro mandato, acabou trazendo de volta as aposentadorias de ex governadores que vigora até hoje. Para uns direito adquirido, para outros uma injustiça tendo em vista que os trabalhadores contribuem 30 anos para se aposentar. Essa questão tem durabilidade de mais de 35 anos de existência.
PALAVRAS-CHAVE: Aposentadoria, Acre, ex-governadores, Artigo 77º, Constituição Acreana.
ABSTRACT
In this work entitled The retirement of former governors of Acre, 1962-2013, I try to show, first, that state is the one in which framework it will handle in organizing the union and then organizing themselves through elections with popular participation first with José Augusto election in 1962. The State of Acre will suffer military intervention for a long time and only in 1980 with the Nabor Junior election is that the Acre people again elect their governors. The Acre state like other states of the federation shall pay pensions to former governors and widows based on Article 77 of the Constitution Acre. It turns out that these practices had been widely criticized both by national and local PT also been criticized by sections of the Catholic Church, neighborhood associations, trade unions, public servants. In the end the criticism came from all sides. So with the arrival of Orleir Cameli the government and through a PEC bill of Mr João Correia (PMDB), was overthrown pensions from 1996. This measure regarded by many as a way to do justice, only lasted by the year 2001, when the governor Jorge Viana (PT), was elected in his first term, eventually bringing back the pensions of former governors in force today. For a vested right, for others an injustice considering that workers contribute 30 years to retire. This question has durability over 35 years of existence.
SUMÁRIO
INDRODUÇÃO ...10 CAPÍTULO 1 – O ESTADO DO ACRE E AS APOSENTADORIAS DE EX-GOVERNADORES ... .16
1.1 Estado do Acre e o primeiro governador eleito pelo voto direto. ...16
1.2 As aposentadorias, reflexões e debates no Brasil. ...19
1.3 As aposentadorias de ex-governadores e alguns olhares ...22
CAPITULO II - GOVERNO DE ORLEIR CAMELI (1995/1998) - ENTRE DIÁLOGOS POLÍTICOS E A ALTERAÇÃO DO ART. 77 DA CONSTITUIÇÃO ACREANA ...29
2.1 O Governo de Orlei Messias Cameli - (1995/1998) ...30
2.2 Dialogando com o deputado João Correia e outros Parlamentares. ...33
CAPITULO III - – ENTRE DIÁLOGOS POLÍTICOS, A MÍDIA E O RETORNO DAS APOSENTADORIAS DE EX-GOVERNADORES NO ACRE (1999\2006) ...38
3.1 O Governo de Jorge Viana – 1999/2006 ...39
3.2
–
Dialogando com Wagner Sales, outros Parlamentares e a mídia sobre o retorno das aposentadorias de ex-governadores no Acre. ...43CONSIDERAÇÕES FINAIS...55 REFEÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 59
INTRODUÇÃO
“Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca
coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente sua ligação com o desejo e com o Poder”.
Michel Foucault
(A Ordem do discurso.)
Esta monografia apresenta um estudo sobre o tema As “aposentadorias”1 de ex-governadores do Acre – 1962/2002”. Embora tratando do caso específico do Estado do Acre, não
ficou de fora uma abordagem sobre como a questão se apresenta em outros estados da federação que também concederam tal “aposentadoria” e servirão de análises de discussão. A questão temporal abarca o período pós 1962, quando o Território do Acre passou à categoria de Estado, até o ano de 2012, quando ainda está em ebulição o assunto das “aposentadorias” de ex-governadores tanto no Acre, como no resto do Brasil.
Embora o cargo de governador não conste nos Planos de Cargos e Carreira do Serviço Público no Estado do Acre, quem ocupá-lo esse cargo mesmo que seja elegível, terá como prêmio, após quatro anos ou menos a garantia da “aposentadoria”. Se o ocupante do cargo de governador vier a óbito durante o mandato, a viúva faz jus a uma “pensão2”. A imprensa e a população em geral se apropriaram desses dois termos “aposentadoria” e “pensão”, para denominar o pagamento das pessoas que se aposentam ao final do mandato e os vencimentos que recebem quando morrem os esposos beneficiados.
Segundo o site do INSS, que é o instituto de seguridade mais antigo do Brasil, atuando desde 19233, há três tipos de “aposentadorias” mais frequentes que são: por tempo de contribuição, com 35 anos de contribuição para homens e 30 anos para mulheres; por invalidez, quando a perícia médica do INSS considera a pessoa totalmente incapaz para o trabalho, seja por doença ou acidente e terceiro por idade, que é concedida aos homens com 65 anos e para as mulheres com 60
1 A palavra aposentadoria segundo o dicionário Luft 2004 p. 73: 1.Ação ou efeito de se aposentar(se), 2. Estado
de inatividade do que se aposentou, 3. (pop.) Rendimentos mensais do que se aposentou.
- Mini Dicionário Aurélio 2009, p. 131: 1. Estado de inatividade de funcionário público ou de empresa privada após certo tempo de serviço. 2. Vencimentos ou proventos de aposentado.
- O minidicionário da língua portuguesa da editora Rideel 1ª edição – 2012, p. 15, diz: “Ato de aposentar, direito do trabalhador, após trabalhar certo número de anos, de se afastar do emprego recebendo um vencimento que o aposentado recebe.
- O Art. 77 da Constituição Acreana fala em: ”subsídio mensal”
2 Salário das viúvas dos ex-governadores do Acre. Informação obtida através de visita in loco ao Instituto de
Previdência do Acre, na rua Benjamim Constant, 351 – Centro, nesta cidade. No dia 11 de abril de 1016.
anos.
Existe também, nesta seara, a pensão por morte, que é devido aos dependentes como cônjuge, companheiro, filhos e enteados menores de 21 anos não emancipados ou inválidos ou que tenham deficiência intelectual ou mental que os torne absoluta ou relativamente incapazes, pais, irmãos não emancipados, de quaisquer condições, menores de 21 anos inválidos ou que tenha deficiência intelectual ou mental que os impeça de realizar qualquer atividade4. Para pleitear
direito a uma dessas “aposentadorias” ou a outro benefício oferecido pelo INSS é necessário que o trabalhador seja filiado a Previdência Social, contribua todos os meses e cumpra o período de carência exigido para cada benefício.
Ao entrar na UFAC como discente do curso de Bacharelado em História, fiz uma pesquisa na biblioteca desta instituição e como não encontrei nenhum trabalho com esse tema, entendi que era um assunto que poderia render uma abordagem original no campo da pesquisa histórica, aliado às indagações de cunho pessoal por ser um assunto que sempre está em debate na sociedade local, seja na mídia, legislativo, judiciário e outros setores sociais, decidi abordá-lo.
Outra questão a ser explicitada são as razões que me levaram à escolha do tema. Explicar tal opção é fazer uma viagem de mais ou menos dez anos atrás, quando ouvi de meu pai já dei tantas viagens no INSS que estou cansado, aos 62 anos não consigo nada, nem um auxílio. Uma semana depois, ao folhear um jornal da cidade de Rio Branco, vi uma reportagem sobre aposentadorias de ex-governadores no Acre, quando então fiquei sabendo que precisava tão somente ocupar o cargo de governador e após sair pedir sua aposentadoria.
O campo da História a ser atuado, o qual este trabalho se aproxima, é o da História Política, embora esse tema abranja também História Social, podendo assim navegar em duas searas conforme José de Assunção Barros aponta: “A outra ordem de dificuldade, da qual gostaríamos de falar em primeiro lugar, corresponde ao fato de que uma abordagem ou uma prática historiográfica não pode ser rigorosamente enquadrada dentro de um único campo histórico” (BARROS, 2004, p. 15).
Para fundamentação e contexto, houve diálogo com algumas fontes secundárias como a tese A Florestania, o Desenvolvimento (In)sustentável e as novas fronteiras da
Sóciodiversidade no Vale do Rio Acre na virada do século XX: o caso dos trabalhadores extrativistas (MAIA, 0000); a obra As raízes do autoritarismo no executivo acreano (SILVA,
2012) e a dissertação “Do governo da Floresta” ao “melhor lugar pra se viver”: estratégias
discursivas na construção da “Nova ordem” acreana (SARQUIZ, 2012).
4 Site: www.inss.gov.br – no dia 30/12/2014
Utilizou-se ainda, como fontes primárias, jornais escritos como A Gazeta, O Rio Branco, A
Tribuna, Folha de São Paulo e sites na Internet como o site acreano Ac24horas
(www.ac24horas.com), que faz críticas ao atual governo, sites do governo estadual, do governo federal, de tribunais, que foram fundamentais no aprofundamento da pesquisa, por entender que a internet é um recurso indispensável em qualquer área de atuação de estudantes, seja na graduação, ou pós graduação e riquíssimo em informações. Outras fontes usadas para dialogar/discutir os assuntos na monografia foram os Diários Oficiais e as atas de seções da ALEAC.
Usou-se ainda a história oral, que é um recurso de fundamental importância para os que estão na seara do historiador em seu ofício. “A história oral é um recurso moderno usado para elaboração de documentos, arquivamento e estudos referentes à vida social de pessoas. Ela é sempre uma história do tempo presente e também conhecida por história viva5. Por ser um assunto muito polêmico e que envolve muitas pessoas influentes no Estado do Acre, somente uma pessoa se dispôs a falar: o ex-deputado federal e estadual João Correia (PMDB), que me concedeu uma entrevista de quase cinco páginas de grande relevância para o segundo e terceiro capítulos.
Será ressaltada a relevância do tema para a sociedade tendo em vista tratar-se de um assunto atual e de interesse de muitos estando em plena discussão, não só no Acre, mas em todo território nacional, além de entender através deste trabalho, é possível as pessoas terem acesso e analisar alguns dos discursos a respeito destas aposentadorias, além de entender o que ocorre na política brasileira, e o que realmente é realizado em prol da individualidade e da coletividade.
Para a academia, este trabalho tem sua relevância por tratar-se de um assunto que traz à superfície, os discursos de quem está fora do poder e a prática daqueles que se dizem representantes do povo. Também é possível observar como eram os pronunciamentos na Assembleia Legislativa nos anos de 1980 e 1990, como eles se contrapunham no início do século XX e XXI, com os discursos usados para chegar ao poder e suas práticas ao tomar posse, além de analisar ainda a questão do justo e injusto no que diz respeito ao tempo de trabalho e tempo de contribuição dos trabalhadores em geral e de um ex-governador para aposentar-se.
O foco principal dessa monografia são as aposentadorias de ex-governadores, com destaque maior para o Estado do Acre. Será que essas aposentadorias foram criadas em um processo onde todos os segmentos da sociedade participaram? Em que contexto essas mesmas “aposentadorias” foram extintas no estado do Acre? Quais as perspectivas que trouxeram à legalidade, outra vez, das “aposentadorias” de ex governadores no Acre?
As nossas hipóteses aqui são: as “aposentadorias” de ex-governadores foram criadas para
5 MEIHY, 1996, p. 13
dar um certo conforto a quem ocupou um cargo tão importante; as “aposentadorias” foram extintas por força de muitos segmentos da sociedade como: políticos, igrejas, sindicatos e a população em geral; as “aposentadorias” no Estado do Acre podem estarem ferindo a Constituição Federal de 1988.
Será aberto um espaço para falar do bacharel em História, o qual, tem na sua natureza, ou deve ter, essa veia investigativa, pois “o historiador deve ir aonde tem cheiro de carne humana”, já dizia Marc Bloch (2001), também falar da importância dos ensinos na sala de aula, nos trabalhos, resumos, fichamentos, as experiências dos professores com suas pesquisas, dessa construção do pensamento histórico, como se constitui e se movimenta o mundo a essa visão subjetiva das coisas. É saber que são vários Brasis, várias Áfricas, são as múltiplas formas de olhar um mesmo mundo, um mesmo país, um mesmo estado e um mesmo fato. Olhar conforme o seu mundo a sua crença, como foi educado, e os seus conhecimentos científicos. Isso é navegar na História: são verdades e não uma verdade, pois a busca da verdade ou verdades é da história tradicional. O mais importante é interpretar, analisar.
Temos como objetivo geral discutir alguns aspectos acerca das “aposentadorias” de ex-governadores do Acre e como objetivos específicos identificar e analisar as posições e discussões sobre como diversos agentes públicos estão envolvidos nesta polêmica das chamadas “aposentadorias” de ex-governadores. Embora seja legal no Estado do Acre e em outros estados brasileiros, há estados em que é inconstitucional. É interessante se discutir e debater porque estas diferenças de tratamento ocorrem, Assim, esta pesquisa tem como discussão central as “aposentadorias” de ex-governador e como isso vai tomando corpo dentro da Constituição Acreana e em outras legislações.
No intuído de dar mais visibilidade e clareza ao assunto, em muitos momentos traremos fragmentos de discursos dos atores políticos que permeavam o cenário político no início do governo Orleir Cameli (1995-1998), pois foi em seu governo que surgiu a ideia que se tornou emenda constitucional e pôs fim às “aposentadorias” a partir de 1996, através de uma oposição ferrenha, implacável, que não deu tréguas à governabilidade, procurando sempre mostrar que o modo de governar estava em seu poder, em suas mãos, em seus projetos. Por outro lado, vozes da situação pediam para a oposição deixar que o governo administrasse e desenvolvesse seus projetos para depois criticar.
Muitos foram os diálogos e discussões feitos com as fontes de informações, embora tenha havido dificuldades em acessá-las na ALEAC, por exemplo para ter contato com os livros de atas daquela casa legislativa, considerando que o assunto é polêmico e envolve pessoas poderosas, com isso pouca gente se dispõe a ajudar. Mesmo sabendo do direito garantido da publicidade,
visibilidade e acessibilidade aos documentos públicos, encontrei resistência e tive que percorrer vários dias a sede da ALEAC, no seu arquivo-geral. Muitas vezes na biblioteca da UFAC a procura de livros que abordassem o tema, outras vezes no Museu da Borracha para folhear e ler os jornais da época a procura de notícias envolvendo o assunto, pois lá ficam arquivos de jornais importantes do Acre como: Jornal O Rio Branco, A Gazeta, Página 20, A Tribuna. Assim se deu a pesquisa com idas e vindas a lugares públicos e privados, sem deixar de observar que houve uma grande contribuição com a entrevista do professor João Correia.
Assim sendo, em nosso estudo faremos inicialmente, no primeiro capítulo, um breve histórico sobre o Acre suas fundamentações como estado da federação nacional, leis, limites, como se constituiu esse pedaço de terra no extremo norte do Brasil, e ainda uma abordagem sobre o momento político naquele período de incorporação ao território nacional, como ocorreu a posse de seus primeiros governantes, a chegada ao poder do primeiro governador eleito após um período de total influência da União. Ainda nesse início, haverá um breve relato sobre o governador José Augusto de Araújo, o primeiro a chegar no palácio pelo voto popular.
No segundo capítulo, faremos uma abordagem sobre a chegada ao poder de um empresário bem sucedido no ramo da construção civil, Orleir Cameli, nascido na cidade de Cruzeiro do Sul, das dificuldades nos diálogos políticos para chegar ao seu nome disputar a cabeça da chapa para o governo estadual. Analisaremos ainda os discursos dos parlamentares nesse momento da chegada de Orleir ao governo, a oposição, a situação e o desenrolar do fim das “aposentadorias” que vão acontecer justamente nesse governo, que seria muito criticado por seus opositores políticos.
O autor da proposta e depois Emenda Constitucional foi, o deputado João Correia (PMDB), apoiado não só pelo clamor da sociedade, mas também pela igreja católica, através do bispo Dom Moacir, das comunidades eclesiásticas de base, Pastoral da Terra, pelos sindicatos e associações de trabalhadores e consenso de seus pares na ALEAC. Havia um clamor pelo fim desta “aposentadoria”. Esse preambulo foi desenvolvido durante o governo de Orleir, especificamente em 1996, conforme será constatado nos, depoimentos de parlamentares e entrevista do deputado João Correia na construção deste estudo.
Finalmente, no terceiro capítulo, a discussão considerada o ponto principal deste estudo. Em 2001, o governador Jorge Viana (PT), representando os trabalhadores, junto com alguns segmentos da Igreja Católica e a grande maioria dos deputados o apoiando na ALEAC, consegue pagar os salários atrasados dos servidores públicos, reformar e pintar muitos prédios públicos, compra veículos, financiam projetos e outras melhorias para o nosso estado, porém foi nesse governo que as “aposentadorias” ressurgiram das cinzas, tomando corpo e revivendo através de uma PEC do deputado Vagner Sales (PMDB), para surpresa de todos, segundo a entrevista do
deputado João Correia também do PMDB. Com essa medida se aposentam Jorge Viana (PT), Binho Marques (PT) e em 2018 será a vez de Tião Viana (PT) ser beneficiado.
CAPÍTULO 1 – O ESTADO DO ACRE E AS “APOSENTADORIAS” DE EX-GOVERNADORES.
O atual Estado do Acre passa a ser território nacional em 1903 com a assinatura do Tratado de Petrópolis e no ano seguinte, através decreto legislativo, ocorre sua organização administrativa como Território Federal. Naquele momento, com essa medida, acabava de vez os planos do próprio Acre e do Estado do Amazonas de manter sob seus domínios a administração da localidade, que cada vez produzia mais borracha. A União ficaria com a parte maior dessa riqueza através da cobrança de impostos, mas havia uma preferência local por uma administração de pessoas da própria região por conta da questão econômica.
O Acre para ser território do Brasil, o congresso Nacional através do Decreto Legislativo de nº. 1181 de 25 de fevereiro de 1904, autorizou o Presidente do Brasil Rodrigues Alves a administrar o Acre, derrotando os interesses do Amazonas e tirado dos políticos acreanos o poder de administrá-lo. O Acre não seria um Estado com autonomia, mas sim, um território administrado pelo Presidente da República (...). O Acre passou a categoria de Estado em 15 de junho de 1962, através da Lei. 4.070, assinada pelo Presidente do Brasil João Goulart. (CALIXTO, 1885, pp.165 e 170).
1.1 O Estado do Acre e o primeiro governador eleito pelo voto direto.
Durante um período de quase sessenta nos, o Acre foi um Território Federal administrado pela União. Somente em 1962 teve seu primeiro governador eleito pelo voto popular, José Augusto de Araújo, da coligação PTB/UDN/PSP/PP, com o slogan “O Acre
para os acreanos”. Podemos entender ao ler o texto abaixo, que o fato dele ser cidadão
acreano nato e de nunca uma pessoa da terra ter assumido o poder, parece ter lhe dado uma certa vantagem. Será que se pode pensar que havia um clima de bairrismo, na população local embora houvesse um número muito grande de analfabetos? É possível tentar analisar tal situação ao ler os dois parágrafos abaixo, se havia sim esse princípio de sentimento do acreano, ser governado por um acreano de nascimento.
Logo após a elevação do Acre a Estado, são realizadas as primeiras eleições diretas para governador, senadores e deputados estaduais. Excetuando a novidade da escolha direta dos seus representantes, isto significou ainda a continuação da restrição participativa de grande parte da população local, que em 1960 despontava com um índice absurdo de analfabetismo para 68,6% dos acima de 05 anos. Em 1962, quando ocorre a primeira eleição (07/10/62), o número de eleitores representava somente 12% da população acreana; e destes, 24% não compareceram para votar nas primeiras eleições gerais do novo Estado da federação brasileira (...). É neste quadro mais geral, que acontece a eleição do primeiro governador escolhido de forma direta. O candidato José Augusto era da coligação União Social Trabalhista (PTB/UDN/PSP/PP), cujo slogan era: ”O Acre para os acreanos”, agradava aos brios daqueles que durante muito tempo tiveram seus destinos traçados
pelo poder político da Republica e ao mesmo tempo, ele era o primeiro acreano nato que poderia ser eleito de forma direta para o cargo de governador. (SILVA, 2002, pp. 72 e 74).
Seu concorrente direto foi o ex-governador territorial Guiomard Santos (PSD). Tinha ainda em seu extenso currículo a participação e autoria no projeto de lei que deu autonomia ao Estado do Acre, tendo sido este projeto sancionado pelo então presidente João Goulart. Mas em contrapartida ele não era um acreano autêntico, ou seja de nascimento, o que parece segundo SILVA, ter de certa forma influenciado no resultado das eleições.
Este fato faz com que a candidatura de José Augusto passe a ser defendida pelos seus partidários como um embate entre um acreano de fato, contra um outro candidato – Guiomard Santos, que embora há muito tempo no Acre exercendo cargos públicos e sendo autor do Projeto de Lei que elevou o Acre à categoria de Estado, não era acreano “autentico”, ou seja, de nascimento. Talvez este fator tenha influenciado de alguma forma o resultado eleitoral, pois no imaginário local estava posto de maneira incisiva, ao longo de décadas, a questão de jamais um acreano ter exercido o poder executivo. Ampliada ainda mais, através da possibilidade de elegê-lo de forma e direta sem interferência da União na escolha do nome (SILVA, 2002, p. 75).
Vou abrir um parênteses para levantar uma questão que está posta lá atrás: no início dos anos de 1960, que era o fato de um candidato ao executivo ser nascido no Acre. Parece isso fazer alguma diferença para o eleitor na hora de escolher o chefe do poder executivo. Podemos listar daquela época para os dias de hoje os nomes de Nabor Junior 1983/1986, Edmundo Pinto – 1990/92, Romildo Magalhães – 1992/95, Flaviano Melo – 1987/90, Orlei Cameli – 1995/99, os irmãos Jorge Viana – 1999/2006, Binho Marques – 2007/2010 e Tião Viana – 2011/2015. Embora alguns desses tenham saído do Estado para estudar no sul/sudeste do país, todos são nascidos no Acre. Portanto fica essa aparência de que o candidato nascido no Acre já sai com uma “certa vantagem” no pleito eleitoral, no caso específico, do executivo estadual.
Retomando a questão anterior após o pleito de 1962, fica comprovada nas urnas a hegemonia de duas grandes agremiações políticas: o PTB e PSD, que juntos receberam 92,92% dos votos. Isso vai ocorrer não só com o cargo de governador, mas também com os cargos de deputados estaduais e federais. Vale destacar ainda que após um ano aconteceram as eleições municipais e fica cada vez mais consolidada uma hegemonia bipartidária, como se pode observar na citação a seguir:
Mas realizadas as eleições, a hegemonia do PTB e PSD ficou cristalizada pela votação que esses partidos receberam. Na eleição para governador esses dois
partidos tiveram juntos 92,92% dos votos, sendo que a diferença entre o candidato do PTB e do PSD foi de 4,9% em favor do primeiro. Na escolha dos deputados estaduais o PSD elegeu oito deputados e obteve 47,82% dos votos, o PTB ficou com seis deputados e 46,94% dos votos e a UDN elegeu apenas um deputado. Para a Câmara Federal das sete cadeiras, ao PTB coube 3 e o PSD arrebatou o restante e juntos obtiveram 95,27% da preferência do eleitorado. No Senado, o PTB emplaca ocupando duas cadeiras e o PSD uma somente. Já Guiomard Santos, pela primeira vez não logrou êxito em uma eleição e conseguiu somente se eleger para o Senado Federal, pois a legislação eleitoral permitia um mesmo candidato disputar cargos legislativo e executivo simultaneamente. Este resultado deixa transparecer que os dois partidos, por uma longa tradição segmentada durante quase duas décadas, eram as únicas agremiações hegemônicas na política acreana. Em 1º de setembro de 1963, quase um ano depois deste pleito eleitoral, ocorrem as eleições para Câmara Municipal e Prefeituras. Contando com a máquina pública sob seu domínio, o PTB sai amplamente favorecido deste processo eleitoral e conquista todas as sete prefeituras acreanas, elege também vinte e três vereadores em todo o Estado. O PSD conseguiu ainda eleger dezesseis vereadores e o PSP, juntamente com a UDN, apenas um cada. Aqui, o quadro já se altera um pouco. O conservador PSD e a aura poderosa de Guiomard Santos, que tiveram suas estruturas abaladas um ano antes, agora parecia entrar em declínio (SILVA, 2002 p. 76).
Convém ressaltar que nem tudo foram rosas no governo de José Augusto de Araújo, alguns fatores importantes trouxeram muita dor de cabeça e falta de tranquilidade para seu governo. Em primeiro lugar como não havia a figura do vice-governador, toda vez que José Augusto se ausentava do Estado quem tomava posse era José Akel Fares (PTB), presidente da ALEAC, causando embates entre os dois poderes. Outro fato é que havia uma amizade entre PSD6 e PTB7, mais um entrave para José Augusto superar, além de existir um objetivo a ser
alcançado por seus opositores políticos, que era uma intervenção federal e, por fim, o impeachment do governador.
O conluio firmado entre o PSD e o PTB foi um duro golpe contra o governador, já que vinha enfrentando pedidos de intervenção federal e solicitações de CPI por parte de seus opositores, sem no entanto estes lograrem de forma definitiva o seu desejado afastamento pela via constitucional. Isto só veio acontecer com o Golpe Militar ocorrido no país em 1964, que serviu como catalisador para pôr fim a querela acreana e, em princípio, facilitar os intentos da oposição e alterar o quadro político estadual. Nas plagas acreanas, como nas demais unidades federativas, os reflexos da ditadura militar foram simultâneos ao golpe sofrido pelo governo central. José Augusto de Araújo – primeiro governador eleito de forma direta em 1962 e empossado em 1963 -, após uma conturbada administração, foi deposto em maio de 1964 por um golpe implementado pela 4ª Cia do Exército, tendo a frente o capitão Edgar Pedreira de Cerqueira Filho, que obriga-o a entregar sua carta de renúncia à Assembleia Legislativa e este assume o executivo estadual (SILVA, 2002 p. 79)
Assim se constitui o pedaço de terra no extremo norte do Brasil, sul do Estado do Amazonas e ainda fazendo fronteiras com Peru e Bolívia, o Estado do Acre que aos poucos
6 PSD – Partido Social Democrático 7 PDT – Partido Trabalhista Brasileiro
vai se organizando como se viu na citação acima, e somente em meados de 1962, ela passa de território a estado, e seguindo o exemplo dos outros estados da federação algumas décadas à frente começa a pagar “aposentadorias” e pensões para ex-governadores. Pode-se observar isso muito bem no item a seguir que vai discorrer sobre algumas reflexões e debates Brasil a fora a despeito do assunto em tutela.
1.2 – As “aposentadorias”, reflexões e debates no Brasil
“Aposentadoria” é uma palavra que nos faz lembrar inicialmente a situação do final de carreira de um trabalhador, de uma pessoa inválida por causa de um acidente de trabalho que ficou impedida de desempenhar um determinado serviço, de quem possui uma doença que o impede de continuar sua vida de trabalhador(a), não podemos deixar de mencionar a quem nos faz lembrar também da chamada terceira idade, momento em que um trabalhador completa seus trinta e cinco anos de contribuição ou sessenta e cinco anos de idade.
A forma de viver-se a velhice está associada a várias questões que se interligam e quase tornam mais complexas, porque uma das características desta etapa da vida é a sua heterogeneidade, ou seja, os sujeitos não envelhecem de maneira igual, construindo suas próprias histórias de vida, com características e dificuldades diferentes. Não é admissível, portanto que se trate a velhice de uma forma homogeneizada e que não se leve em conta as diferenças (Lopes, 2000, p. 22).
Segundo o dicionário Aurélio a palavra “aposentadoria” apresenta os seguintes significados: Ato de aposentar, direito do trabalhador, após trabalhar certo número de anos, de se afastar do emprego recebendo um vencimento que o aposentado recebe. (HOLANDA, 2012, p. 15). Podemos considerar que o entendimento sobre a palavra “aposentadoria” é de certa um paradoxo em relação ao que trata os estados brasileiros concedendo esse modelo de aposentar um governador.
“Aposentadoria” é também um divisor de águas na vida do trabalhador no final da carreira, ao chegar com saúde e economicamente em atividade. Há muitos aspectos a serem considerados nesse período de mudança de ritmo de vida, dos trabalhadores em geral que podem ser considerados importantes depois que se aposentam e alguns me chamam muita atenção.
Um assunto é a satisfação de ter chegado ao final da carreira de trabalho com saúde e bem remunerado, com aquela sensação de dever cumprido como profissional e cidadão seja no setor privado ou no serviço público. Também de poder ter realizado seus sonhos de morar
melhor, viajar, poder ajudar um filho ou mesmo os pais. Ou, o pior, ter chegado nesse final de carreira doente, inválido, parcialmente apto a ter uma vida normal física e mentalmente. Parece que os trabalhadores vivem toda essa vida com essa dicotomia de expectativa de futuro como aposentado.
Enquanto o trabalhador está vivendo sob as pressões do dia a dia, no trabalho querendo promoções, aumento de salário e entre outras melhorias, é comum pensar em aposentadoria como recompensa do esforço de anos. Contudo, quando se concretiza a “aposentadoria” como a saída do mercado de trabalho, o indivíduo tende a perder seus contatos sociais, mergulhar no mundo da família, bem como no vazio, na baixa estima, na desqualificação de sua mão de obra. Às vezes, para tentar superar isso, o aposentado acaba procurando uma nova inserção na vida social.
O afastamento do trabalho ocasionado pela aposentadoria gera sentimentos ambíguos: crise — pela recusa em aceitar a condição de aposentado, devido à imagem estigmatizada vinculada à inatividade que tal condição confere; e liberdade — sentimento resultante da busca pelo prazer em atividades de lazer e concretização de planos anteriormente impossíveis de se realizarem pelo compromisso/obrigação de trabalhar (SANTOS, 1990, p. 68).
No Brasil a palavra “aposentadoria” começa a ser usada em meados de 1888, quando foi regulamentado o direito aos funcionários dos Correios à “aposentadoria”. Quatro décadas a frente foi criada a “aposentadoria” para ferroviários e, posteriormente, outras categorias foram também beneficiadas. Mas a Previdência Social só foi efetivamente criada no Brasil com o Decreto 4.682, de 1923, quando passou a existir a Caixa de Aposentados e Pensões, para empregados das Empresas Ferroviárias, extensivo aos familiares. Essa mesma lei se estendeu três anos depois aos trabalhadores marítimos e portuários. Na década de 30, os benefícios sociais foram implementados para outras categorias de trabalhadores dos setores público e privado, com a implantação de diversas normas8.
Vejamos o que trata alguns aspectos do Decreto 4.682 de 24.01.19239.
O Presidente dos Estados Unidos do Brasil: Faço saber que o Congresso Nacional decretou e eu sanciono a seguinte lei:
Art. 1º - Fica criada em cada uma das empresas de estradas de ferro existentes no país uma caixa de aposentadoria e pensões para os respectivos empregados.
Art. 2 – São considerados empregados, para os fins da presente lei, não só os
8 Informações obtidas através do site www.koskur.com.br. No dia 06/04/2013
que prestarem serviços mediante ordenado mensal, como os operários diaristas, de qualquer natureza, que executem serviço de caráter permanente.
Art. 12 – A aposentadoria ordinária de que trata o artigo antecedente compete: a) Completa, ao empregado ou operário que tenha prestado, pelo menos 30 (trinta) anos de serviço e tenha 50 anos de idade.
Ao observar o artigo acima podemos refletir sobre alguns aspectos que nos rodeiam até os dias de hoje. Primeiramente no que se trata do tempo de contribuição de trinta nos. Vejamos que esse decreto foi sancionado em meados da década de 30 do século XX, hoje estamos em pleno século XXI, no ritmo veloz da tecnologia, era digital, muitos trabalhadores ainda executam seus serviços de forma braçal, em pleno sol, de maneira rudimentar, como por exemplo os garis, que passam o dia correndo atrás de um caminhão de lixo, respirando mau cheiro durante pelo menos oito horas diárias, mesmo assim terão que completar trinta anos de serviço ou sessenta e cinco anos de idade, para se aposentar.
Em seguida pode-se observar que nesse período não se fazia menção às mulheres, o decreto referia-se apenas a empregado ou operário, sem fazer distinção de gênero, aspecto que durante um longo período, foram sendo incorporados à lei e dando um pouco de garantias e proteção às mulheres. Hoje as que estão em algumas atividades conseguem se aposentar antes que os homens. Por exemplo, a regra de “aposentadoria” da Previdência Social segue uma tabela de tempo de serviço em que a mulher tem trinta anos de serviço prestado ou cinquenta anos de idade.
À época, o país estava se organizando, no que se refere a essa modalidade, procurando estabelecer um ordenamento em meio a certas carreiras dos trabalhadores, um projeto mais voltado para a questão social. Começava a nascer um regime único de previdência para consolidar o sistema de “aposentadoria”, fazendo com que o trabalhador tivesse, no final da carreira um alento, ao ter contribuído com pelo menos trinta anos com a previdência, tendo realmente o direito de se aposentar e usufruir de seu salário do qual foi descontado, fielmente, uma parcela pelo menos em três décadas de trabalho.
Para as classes trabalhadoras, o Governo Provisório criou, em dezembro de 1930 um novo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, formado, anotação interessante sobre o Brasil de 1930. A “questão social” não deveria ser mais considerada “um caso de polícia”; deveria agora ser “resolvida” mediante concessões de parte da nova elite política, antes que as pressões de baixo pudessem forçar mudanças mais básicas (...). Em Julho de 1934, Getúlio foi eleito pelo Congresso Nacional por um período que iria até as eleições diretas, marcadas para janeiro de 1938 (SKIDMORE, 1982, pp.33 e 40).
tanto os servidores de empresas privadas como os servidores públicos. Muito tempo depois, em meados dos anos de 1980, é que os estados e municípios vão começar, de maneira lenta, a criar seus regimes próprios de previdência, passando a tributar e arrecadar para um cofre separado do que hoje conhecemos, que é o INSS (Instituto Nacional de Previdência Social), que trata tanto das “aposentadorias” de diversas modalidades como as de pessoas que ficam inválidas e já ultrapassaram os sessenta anos de idade. Conforme afirma o autor a seguir: “O regime de representação direta das partes interessadas, com a participação de representantes de empregados e empregadores, permaneceu até a criação do INPS (1967), quando foram afastados do processo administrativo” (POSSAS, 1981, p. 42).
Para os trabalhadores em geral, ou seja, servidores públicos civis e militares, professores e profissões em geral dentro desse regime criado pelo governo federal, quando um trabalhador chega ao final de carreira propondo a aposentar-se, muitas vezes está doente, sem condições de aproveitar o que ainda lhe resta de vida. Diferentemente dessa situação e na contramão, antagonicamente estão os ex-governadores em quase todo o país; em alguns estados basta ocupar o cargo de governador por poucos dias já tem direito adquirido. Vejamos a seguir alguns olhares Brasil à fora.
1.3 – “As aposentadorias” de ex-governadores e alguns olhares
A “aposentadoria” de ex-governador é aquela que garante ao ocupante de cargo de governador de qualquer estado da Federação, após seu mandato executivo ou tendo ocupando-o por algum tempo. Isso fica a cargo das Constituições Estaduais, que geralmente garantem ao chefe do executivo estadual o direito de requerer “aposentadoria” mensal e vitalícia independente da idade e do tempo que ocupou o cargo, ou ainda tempo de contribuição. Pode-se observar que este tipo de “aposentadoria” não segue as regras das aposentadorias dos demais trabalhadores no Brasil. Elas vão sendo garantidas Brasil afora, sob força das Constituições Estaduais, que vão inserindo em seus textos constitucionais, artigos que lhe dão dar legalidade; aprovados por legislativos fiéis e dependentes do poder executivo na grande maioria nos estados brasileiros.
Observe uma notícia veiculada na versão on line do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, datada do dia 26/08/2014, com a seguinte manchete:
Os três principais candidatos ao governo do Paraná se dividem quando o assunto e o pagamento de aposentadoria para ex-governadores. Roberto Requião (PMDB), que recebe o benefício por ter governado o Estado três vezes, é favorável ao pagamento. O governador Beto Richa (PSDB) entende que só os ex-governadores que ocuparam o
cargo antes de 1988 tem direito ao pagamento vitalício de aproximadamente R$ 29 mil mensais (teto do funcionalismo público no país). Gleissi Hoffmann (PT) defende o pagamento, mas é contrária a acumulação de benefícios10.
É possível observar nessa parte da reportagem acima, que apesar de ser três pessoas que moram no mesmo estado, divergem em relação a opinião sobre a “pensão”. Um já recebe e é favorável ao pagamento integralmente, o outro entende que os que já recebiam antes da constituição de 1988 podem receber, pois a lei depois não tem previsão legal e além disso, essa mesma lei não pode retroagir para prejudicar, e por fim, Gleissi Hoffman, que defende o pagamento da “aposentadoria” e só é contrária a acumulação de benefícios.
Veja ainda outro trecho do jornal Folha de São Paulo:
Para mim esta é uma questão muito clara, já definida quando do nosso decreto, em 2011, que cancelou aposentadorias para ex governadores. Segundo a Procuradoria Geral do Estado, após estudos da Constituição de 1988, as aposentadorias de ex-governadores concedidas após aquele ano são inconstitucionais”, afirmou Richa por meio de sua assessoria. “Não é nada pessoal, de escolha deste ou daquele, ou de opções partidárias. Simplesmente seguimos o que diz a Constituição. (Folha de São Paulo, 20 de janeiro de 2011).
O governador Richa no uso de suas atribuições legais consultou a Procuradoria-Geral do Estado, fez um estudo da Constituição Federal de 1988, e não achando amparo legal, baixou um decreto em 2011 cancelando todas as “aposentadorias” concedidas após 1988, ano da promulgação da Constituição Federal.
Outro estado que também está nessa polêmica a respeito das “aposentadorias” de ex-governadores é o Estado do Mato Grosso, que atualmente conta com aproximadamente quinze pessoas entre pensionistas e aposentados. Nesse estado a “aposentadoria” é concedida, segundo a Constituição mato-grossense para quem ocupar o cargo de governador pelo menos por um dia e tendo que assinar no mínimo um ato governamental. Veja o que a reportagem do site do jornal Folha de São Paulo, datada também do dia 20 de janeiro de 2011:
Mandatos-relâmpago foram suficientes para que políticos de Mato Grosso recebessem pensão vitalícia de R$ 15 mil mensais como ex-governadores do Estado. Hoje conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso, o ex-deputado Humberto
Bosaipo (DEM) integra a lista de beneficiários.
Em 2002, na condição de presidente da Assembleia Legislativa, ele assumiu o cargo por dez dias durante uma viagem oficial do então governador Rogério Salles (PSDB) ao exterior. Também na condição de presidente da Assembleia, o então deputado Moisés Feltrin (DEM) ocupou o cargo por 33 dias, entre 1990 e 1991. Desde então, está na folha de pagamento do Estado. Outra integrante da lista é a ex-vice-governadora Iracy França, que assumiu o governo de forma interina durante viagens do então governador Blairo Maggi em seu primeiro mandato (2003-2006).
A lei estadual que previa a pensão vitalícia, extinta em 2003, assegurava o benefício até mesmo para quem ocupasse o cargo por apenas um dia desde que, nesse período, tivesse assinado algum ato governamental. Atualmente, segundo o governo do Estado, são 15 as pensões pagas a ex-governadores ou a suas viúvas. O benefício gera uma despesa anual de R$ 2,6 milhões aos cofres públicos. Desde 2007, o STF (Supremo Tribunal Federal) considera inconstitucional qualquer pagamento de pensão a ex-governadores.
Convém observar na matéria acima que, o presidente da Assembleia Legislativa do Mato Grosso, o deputado Humberto Bosaipo (DEM), ao assumir o cargo de governador por apenas trinta e três dias, garantiu, com isso, o direito da “aposentadoria” e assim o fez, passando a receber um salário mensal e vitalício de aproximadamente R$ 15.000,00 (quinze mil reais). Como se explica uma pessoa assumir um cargo público por apenas trinta e três dias e nesse tempo conquistar o direito de se aposentar? Enquanto isso, outras categorias de trabalhadores cumprem constitucionalmente o prazo de trinta e cinco anos de exercício da função para pleitear no final da carreira suas “aposentadorias” e, na maioria das vezes, esses valores ficam muito aquém dos valores pagos a ex-governadores.
Mesmo havendo controvérsias entre a Constituição Estadual do Mato Grosso e a decisão do Supremo Tribunal Federal desde 2007, que considera inconstitucional qualquer pagamento de pensão a ex-governadores, o Estado do Paraná também continua pagando esse benefício, deixando de obedecer a estância máxima da justiça no país, que serve de parâmetro com suas sentenças e súmulas vinculantes para os tribunais estaduais em todo o Brasil.
Observe ainda, o que narra a seguinte notícia do Centro de Mídia Independente:
DOSE DUPLA, o governador José Reinaldo foi governador duas vezes. Ele queria acumular o salário do segundo mandato com a pensão do primeiro. De todos os ex-governadores aposentados precocemente Pedro Pedrossian é o melhor remunerado. Nascido em Dourados, Mato Grosso do Sul, ele governou Mato Grosso de 1966 a 1971, três anos após a criação de Mato Grosso do Sul, foi nomeado governador biônico. Depois venceu a eleição no voto direto em 1990. Hoje, aos 78 anos, está na folha de pagamento dos dois estados que governou, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Isso lhe rende mais de r$ 30 mil mensais. A situação é semelhante à de Leonel Brizola. Ele recebia como ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Morto em 2004, as pensões, que somam R$ 26.100, hoje são pagas a viúva, Marília Pinheiro11.
Outra notícia veiculada no site do Conselho Nacional de Justiça, datada do dia 27 de janeiro de 2011, expressa em alguns trechos a seguinte opinião:
Mesmo com a inconstitucionalidade declarada pelo STF, no julgamento da ADIN n. 3.853, os estados retrocederam ou revisaram as pensões que continuam a ser pagas, com exceção do pedido do ex-governador do Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, cuja pensão foi cassada pelo STF (ADIM12 n. 1.461-7). O STF deveria editar
urgentemente uma Súmula Vinculante, para coibir esses abusos infinitos, que são mais imorais ainda quando consideramos a miséria e a pobreza da grande maioria da população brasileira13.
É fato que, nessa matéria, conforme declaração do STF, a pensão se torna inconstitucional através do julgamento da ADI n. 3.853, mesmo assim os estados retrocederam ou revisaram as pensões e continuam pagando, exceto a do ex-governador do Mato Grosso do Sul, Zeca do PT que teve por força da justiça a pensão cassada. A impressão que se pode ter desse país é a mais confusa, havendo uma suposta quebra de equidade entre os estados da federação a despeito dessa questão decidida na corte maior.
Veja ainda trechos da matéria publicada no site da versão on line da revista Carta Capital, datada do dia 20/01/2011, e escrita por Celso Marcondes:
Os estados a contemplar a regalia, integrantes da lista parcial são: Amazonas, Ceará, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Piauí, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Pará e Minas Gerais. Mas com certeza ela teria que ser ampliada com nomes do Acre, Santa Catarina, Maranhão, Amapá e Sergipe. Aqui vale uma explicação: todas estas benesses são legais, apesar de, em 2007, o Supremo Tribunal Federal, ao julgar o caso do ex-governador do Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, ter declarado o pagamento inconstitucional. O problema é que leis estaduais continuam a garantir a moleza14.
Mais uma vez o noticiário traz à tona a discussão descrita na matéria acima que entra em consenso com outras reportagens, ao chamar a “aposentadoria” de ex-governadores de “mamata”. Dessa vez a reportagem traz uma abrangência maior, quase todos os estados da Federação estão com esses benefícios previstos em suas Constituições Estaduais, embora como já foi narrado aqui, e também dito pela OAB e declarado pelo STF, essas não tenham amparo legal na CF de 1988, inclusive já com julgamento de uma ADIN, que julgou nesse tribunal de última instância como inconstitucional.
Ao ler essa reportagem, nos vem à mente onde estamos realmente vivendo, que leis regem nosso país e as estruturas dos tribunais que julgam as pessoas os agentes públicos. Será que elas se articulam, ou são meros espectadores que só se posicionam com pressão, ora do agente público ora da sociedade civil organizada? Outro ponto a ser indagado é o princípio da legalidade, onde o administrador público não pode dar asas as suas questões pessoais, sem
12 Ação Direta de Inconstitucionalidade. 13 www.conjur.com.br , 27 de janeiro de 2011. 14 www.cartacapital.com.br, 20 de janeiro de 2011
que sua conduta esteja previamente definida em lei. O administrador público deve ter essa consciência de que deve agir sempre em nome do estado e de uma coletividade, respeitado a Constituição Federal.
O autor da matéria acima também critica a “aposentadoria” chamando-a de moleza termo usado para coisas que não são duras, qualidade do que é mole, sem firmeza. Também é possível aqui destacar que no Brasil os trabalhadores em geral trabalham em média de 20 a 35 anos para se aposentar, enquanto um ex-governador, ficou trinta e três dias no cargo e requereu e lhe foi concedida essa “moleza” de “aposentadoria”.
No Acre não é diferente dos demais estados da Federação, pois já existe um sistema de previdência que administra toda a vida de contribuição dos servidores públicos, para que no final de carreira eles possam requerer sua “aposentadoria”. Geralmente isso ocorre com um período mínimo de 30 anos de contribuição.
Como na maioria dos estados da Federação, aqui no Acre não podia ser diferente, os servidores públicos eram contratados no regime celetista, pagavam FGTS e contribuíam com a previdência nacional (INSS), só de pois de algumas décadas de organização do estado é que foi criado um regime próprio de previdência estado, se pode observar nas informações do site www.acreprevidencia.ac.gov.br, que discorre abaixo:
No período de junho de 1962 até 31 de dezembro de 1993 os servidores do Estados eram celetistas e filiados ao regime geral de Previdência Social, exceto os Magistrados, os Membros do Ministério Público e os Policiais Militares. Em 1993, a Lei Complementar Estadual n. 39, trouxe para o servidor público do Estado do Acre um Regime de previdência, criando também um fundo previdenciário, com objetivo de abrigar os recursos para manutenção do sistema15.
Segundo tais informações, essa instituição, atualmente faz pagamento mensal de 6.202 “aposentadorias” e 2.443 pensões. São dados de 2012, fornecidos pelo próprio Instituto através de seu site www.acreprevidencia.ac.gov.br a despesa mensal consiste no valor de R$ 24.189.429, 52 (vinte e quatro milhões, cento e oitenta e nove mil, quatrocentos e vinte nove reais e cinquenta e dois centavos).
A Constituição Acreana com seu Art. 77º, narra o seguinte: “Cessada a investidura no
cargo de governador, quem o tiver exercido, em caráter permanente, fará jus a um subsídio mensal e vitalício correspondente aos vencimentos e representação do cargo”. Atualmente
esses valores chegam a quantia de R$ 30.000,00 (trinta mil reais) (www.ac24horas.com.br). A primeira a receber essa “aposentadoria” foi a viúva do primeiro governador eleito do Acre
José Augusto de Araújo, a ex deputada Maria Lúcia de Araújo.
O Acre também vai entrando nas reflexões e discussões a despeito dessas “aposentadorias” haja vista possuir já em sua folha de pagamento de aposentados e pensionistas os ex-governadores e viúvas. Um deles está nessa notícia que se encontra logo abaixo a qual narra sobre um ex-governador que era também professor e que na greve dos professores em 2010, ficou conhecido por uma frase que dizia assim: “O Acre é um estado pobre e não pode dar aumento salarial aos professores”. (Blog Altino Machado em 11/05/2010)16. Estado que ele e seu partido governavam há mais de dezesseis anos. Segundo o blog era pobre para pagar os professores, mas para pagar “aposentadoria” dos ex-governador por um valor de aproximadamente R$ 30.000,00 (trinta mil) não era pobre?
Notícia veiculada no site: ac24horas.com.br, na terça-feira de 11 de maio de 2010 é a seguinte:
Curitiba (PR) deve ser o destino de Binho Marques (PT) ao deixar o governo do Acre aos 48 anos, mas com a invejável super pensão de R$ 23 mil. Binho Marques é o maior amigo da senadora Marina Silva (PV-AC), mas ela continua contra a pensão aos ex-governadores do Acre. Em nota oficial do governo estadual sobre greve de professores ele afirma: Não podemos esquecer que o Acre é um estado pobre e não
pode dar aumento salarial17.
Arnóbio Marques de Almeida Júnior, o Binho Marques(PT), governou o Estado do Acre no período de 2007/2010. Ao chega ao fim de seu mandato, enfrentou uma greve de professores da rede estadual de ensino e declarou a frase acima citada, dizendo que não se poderia esquecer de que o Acre era um estado pobre e que não podia dar aumento salarial para os vencimentos dos professores, no entanto ao sair do cargo de governador em dezembro de 2010, passou a ganhar, logo a partir de janeiro de 2011 sua “aposentadoria” aos 48 anos de idade um subsidio mensal e vitalício do mesmo estado pobre, que não teve condições de conceder aumento salarial aos professores.
Percebe-se, neste caso, uma grande contradição. Será que realmente estamos em um estado democrático de direito, onde os homens que galgam os maiores cargos públicos deste Estado, e foram eleitos ou nomeados para executar seus ofícios, prezam pelo bom cumprimento da Constituição, fazendo com que as ações sejam executadas de forma equitativa e que esse trabalho, seja conduzido pelo menos com os princípios da moralidade, legalidade, equidade, visibilidade e transparência, para que com isso a vontade do povo não seja vilipendiada? É o mínimo que os cidadãos almejam de seus governantes: que eles cumprem esses princípios basilares para a construção de uma sociedade mais equilibrada e
16 www.altinomachado.com.br – no dia 11 de maio de 2010
justa.
Mas se esses sujeitos que determinam o que os cidadãos devem fazer, quer seja pela via do Legislativo, quer pela via do Judiciário ou mesmo do poder Executivo, não trilharem o caminho reto, probo, obedecendo a carta maior deste país, que é a Constituição Federal, e o maior e mais decisivo tribunal que é o STF, o nosso norte será uma crise sem precedentes nas questões individuais e coletiva de uma sociedade moderna. Não é isso que uma nação espera de seus governantes. Vejamos a seguir, o que ocorreu no ano de 1996 no Estado do Acre, no governo de Orleir Cameli – 1995/1998.
CAPITULO II - GOVERNO DE ORLEIR CAMELI (1995/1998) - ENTRE DIÁLOGOS POLÍTICOS E A ALTERAÇÃO DO ART. 77 DA CONSTITUIÇÃO ACREANA
O contexto histórico e político que encerra as discussões da Constituição Acreana de 1989 revela um jogo político de múltiplas disputas, todavia a alteração do Art. 77 foi eclipsado pelos mais de 200 artigos, sendo possível perceber as controvérsias no próprio texto constitucional dos representantes dos discursos políticos que dele emergem e assim se posicionam cada um em relação as suas representações e seus segmentos. Assim, os direitos civis traduzidos pelas lutas da classe trabalhadora identificam a base social desta Constituição e trazem à tona uma das questões mais intrigantes do cenário político acreano entre 1989 e 1994, a “aposentadoria” dos ex-governadores.
Ao analisar a Constituição Acreana – (C. A.) constatou-se a existência de 223 artigos concernentes à organização do Estado, do Poder Legislativo, das atribuições da Assembleia Legislativa, do processo legislativo, do Poder Executivo, do governador do Estado, Ministério Público, do Judiciário, dos servidores públicos até os direitos sociais conquistados a partir de emendas constitucionais da classe trabalhadora, em sintonia com a Constituição Federal Brasileira de 1988.
Entretanto, em meio a toda essa organização do Estado, pode-se constatar que o art. 77 da C.A., que versa sobre a “aposentadoria” supracitada, está controverso aos anseios sociais da denominada Constituição. Segundo este artigo no seu caput está escrito assim: “Cessada a
investidura no cargo de Governador, quem o tiver exercido em caráter permanente fará jus a um subsídio mensal e vitalício correspondente aos vencimentos e representação do cargo.”
A Constituição faz valer exatamente os direitos que os cidadãos precisam reconhecer mutuamente, caso queiram regular de maneira legítima seu convívio com os meios do direito positivo. Ai, já estão pressupostos os conceitos do direito subjetivo e da pessoa do direito como indivíduo portador de direitos. Embora o direito moderno fundamente relações de reconhecimento intersubjetivo sancionada por via estatal (HABERMAS, 1997, p. 237).
No Estado Democrático de Direito, o exercício do poder político está duplamente codificado: é preciso que se possam entender, tanto o processamento institucionalizados dos problemas que se apresentam, quanto a mediação dos respectivos interesses, regrada segundo procedimentos claros, como efetivação de um sistema de direitos. (JÚRGEN HABERMAS, 1997, p. 238).
Embora o autor ao se referir a Constituição diga que nela faz valer os direitos do cidadão, é fato que esses direitos são supostamente vilipendiados. Essas leis aprovadas pelo Poder Legislativo poderiam abranger uma coletividade, um bairro, uma rua, uma classe de trabalhadores, uma comunidade esquecida pelo poder público, mas o que se percebe é que o
Art. 77 da C.A., privilegia um grupo pequeno e seleto de pessoas que não estão amparadas pela CF 88.
Ao finalizar do governo Romildo Magalhaes, em 1994, com as eleições gerais que acontecem em todo o Brasil, chegou ao poder no Acre com vitória no segundo turno, um governador vindo do interior do Estado, precisamente da cidade de Cruzeiro do Sul a 600 km de distância da capital, localizada às margens do rio Juruá.
2.1 O Governo de Orlei Messias Cameli - (1995/1998)
Em outubro de 1994 ocorreram as eleições no Acre assim como em todo o Brasil. Na oportunidade foram eleitos para os cargos majoritários de governador e vice-governador os senhores Orlei Messias Cameli (PPR) e Labib Murad (PPR). É importante salientar que as disputas acirradas desse pleito conduziram o processo eleitoral para o segundo turno.
O candidato Orleir Cameli (PPR), representando a coligação PPR/PP/PFL/PL, nascido em Cruzeiro do sul – AC, empresário do ramo da indústria madeireira e da construção civil, derrotou no segundo turno, o candidato Flaviano Melo (PMDB), com 91.997 votos representando 53,66% dos votos válidos. Sua primeira experiência na vida política foi como prefeito de Cruzeiro do Sul, em 1992.
Junto a ele foram eleitos 24 deputados em uma eleição em que havia muitos partidos políticos que se apresentavam nas chamadas coligações partidárias. Essas coligações foram concebidas por diversas motivações, entre as quais as questões de princípios partidários (isso é o que menos vale numa coligação), acordos políticos e, dependendo da quantidade de votos poder pleitear juntos, ao vencerem, a divisão de cargos comissionados e até mesmo nomear pessoas para assumir pastas importantes com grande visibilidade como Secretaria de Saúde, Secretaria de Educação, etc.
Em 1994, elege-se governador um dos maiores seringalistas/empresários da Amazônia, Orleir Cameli, disputando a eleição pelo Partido Progressista Republicano-PPR, que nada mais era do que a velha ARENA/PDS travestida em mais uma sigla, dentre tantas outras em que viria a se transfigurar no decorrer dos anos seguintes. Nessas eleições ele venceu um dos caciques do PMDB, Flaviano Melo, outra vez candidato ao governo, e o médico infectologista Sebastião Viana, irmão de Jorge Viana, que disputava pela Frente Popular do Acre – FPA. Essa foi a primeira vez que ele concorria em uma eleição. A vitória de Orleir Cameli, era a resposta popular à chance que ela tinha dado aos “novos”, quando levou Edmundo Pinto e Jorge Viana para o segundo turno, na eleição anterior e, ao eleger o jovem Edmundo Pinto, ela tinha depositado sua esperança na mudança (MAIA, 2009, p. 231).
Observando a citação acima entende-se que Orleir Cameli chega ao poder dando continuidade a um período grande das elites tradicionais da política acreana. De um lado, a hegemonia do PMDB querendo mais uma vez colocar no palácio do governo o candidato Flaviano Melo e do outro, apoiado pelo Partido dos Trabalhadores, por setores da Igreja Católica, sindicatos, associação de professores e trabalhadores rurais, com toda engrenagem para chegar ao poder no Acre, o médico infectologista Tião Viana. Em meio a essas alternativas de poder o povo escolhe Orleir Cameli. Conforme narra Maia, nessa eleição havia acabado a chance aos novos, quando em 1990 levou para o segundo turno os jovens Jorge Viana e Edmundo Pinto elegendo o segundo para governador uma vez que o povo havia depositado esperança nessa mudança. Outro fato interessante a observar ainda, é de que pela primeira vez Orleir Cameli disputava uma eleição para governador e já era eleito.
Uma das medidas de seu governo foi apreciar o Projeto de Emenda Constitucional 13/96 que alteraria o Art. 77 da Constituição Acreana, aprovado na Assembleia Legislativa em 30 de abril de 1996, por vinte e dois votos “sim”, uma ausência e um “não”. Depois de aprovado na ALEAC, foi encaminhado ao palácio do Governo para ser sancionado pelo então governador Orleir Cameli, que mesmo correndo o risco de perder o direito de se “aposentar” sancionou a referida lei cujo autor do projeto foi o deputado João Correia (PMDB).
Agora era hora de dar a vez a um empresário bem sucedido, que no dizer dos marqueteiros e dos mais pobres (convencidos por aqueles) “não precisava roubar” porque já tinha o suficiente e, principalmente porque era um bom administrador, como já havia demonstrado nos negócios particulares, que o transformaram em um dos maiores empresários da Amazônia (MAIA, 2009, p. 232)
Observando a citação anterior de Maia, Orleir Cameli era, segundo os marqueteiros, um empresário que administrava bem suas empresas, um homem bem sucedido economicamente que não precisava roubar, porque pressupunha-se que quem já tem muito economicamente, não precisaria saquear os cofres públicos. Embora o autor faça essas afirmações de Orleir Cameli, não se pode afirmar tais veracidades nem fazer juízo se ele foi honesto ou se aumentou sua riqueza durante seu mandato de governador.
Assim ficou o texto que encerrava definitivamente com as “aposentadorias” de ex-governadores no Acre, e que, no momento em que o Estado estava vivendo com novas perspectivas de progresso, poderíamos ter um governador voltado para construção de estradas, de estradas, haja vista que fazia parte desse ramo da construção civil e, em período de chuvas, o chamado inverno acreano, ficávamos isolados, sendo possível o acesso somente por via aérea, transporte com um custo muito alto, dificultando com isso, a vida dos cruzeirenses que precisavam se deslocar para capital Rio Branco.