Consenso e Comunhão de Igrejas.
Um breve balanço do diálogo católico-luterano
internacional*
Harding M e y e r
Os sinais dos te m p o s c e rta m e n te nã o e n g a n a m . O m o v i m e n to e c u m ê n ic o , na fo rm a q u e to m o u desde o C o n c ílio V a tic a n o S egund o, en co n tra -se n u m a v e rd a d e ira e n c ru z ilh a d a .
H oje p o d e m o s d a r um restrospecto sobre duas d écada s in te ira s de d iá lo g o e c u m ê n ic o o fic ia l. Isto nã o é a p e n a s um a a firm a ção a p ro x im a tiv a . Foi e x a ta m e n te no a n o de 1965 q u e c o m e ça ra m os p rim e iro s d iá lo g o s o fic ia is e n tre a Ig re ja C a tó lica R om ana e as ig re ja s protestantes, em p a rtic u la r, a Ig re ja Luterana e a Ig re ja A n g lic a n a , ta n to a n íve l n a c io n a l com o a n íve l in te rn a c io n a l. (A liás, fo i um a d e le g a ç ã o lu te ra n a q u e la n ço u , por ocasião de um a visita a o V a tic a n o , a id é ia de se p ro m o v e re m d iá lo g o s o fic ia is a n íve l in te rn a c io n a l, id é ia esta a c e ita im e d ia ta m e n te p e la Ig re ja C a tó lic a !).
D entro de poucos anos os d iá lo g o s se m u ltip lic a ra m de tal m a n e ira , qu e lo g o to rn o u -se im possível fa z e r um in v e n tá rio co m p le to dos d iá lo g o s e en co n tro s re a liza d o s.
Q u a n to aos d iá lo g o s p ro p ria m e n te d ito s q u e visa ra m su p e rar as d iv e rg ê n c ia s d o u trin a is d o passado, p o d e ser d ito qu e co n d u z ira m ra p id a m e n te a resultados s u rp re e n d e n te s. Já e m m eados dos anos setenta, te ó lo g o s c a tó lico s e protestantes, co m o p. ex. Karl R ahner e Jürgen M o ltm a n n , p o d ia m a firm a r q u e as d iv e rg ê n
-Palestra p ro fe rid a na Escola S u p e rio r de T e o lo g ia da IECLB, em 20.05.1985. Trata-se de um a versão em lín g u a p o rtu g u e s a , a b re v ia d a d o a rtig o "K o n se n s und K irc h e n g e m e in sch a ft. A m Ende d e r z w e ite n Phase des D ialog s zw isch e n rö m is c h -k a th o lis c h e n K irche und Lu therischem W e ltb u n d " , p u b lic a d o na re vista "K erygm a und D og m a", a n o 31, 1985, p. 174-200.
cias te o ló g ic a s e n tre as ig re ja s fo ra m superada s, com e xce çã o , ta l vez, da questão do p a p a d o .
Este d e s e n v o lv im e n to e c u m ê n ic o a tin g iu o seu p o n to c u lm i n a n te nos anos de 1980 e 1981. No d iá lo g o e n tre c a tó lico s e a n g li canos, co m o ta m b é m e n tre ca tó lico s e lu te ra n o s, su rg ira m dois conceitos a n á lo g o s , m u ito im p o rta n te s e s ig n ific a tiv o s : os c o n c e i tos " a c o rd o su b s ta n c ia l” e “ consenso fu n d a m e n ta l" .
O p ró p rio Papa Jo ã o Paulo II p ô d e a firm a r n u m a p a le stra , em M a in z , em 1980, a re sp e ito da C onfissão de A u g sb u rg o , d o c u m e n to c o n fe ssio n a l d e base p a ra todas as ig re ja s lu te ra n a s do m u n d o : "a le g ra m o -n o s por e x istir, e n tre ca tó lico s e lu te ra n o s, não so m e n te um a co rd o p a rc ia l em a lg u m a s v e rd a d e s cristãs, mas sim um a c o rd o em v e rd a d e s ce n tra is da fé c ris tã ".
A o m esm o te m p o , os d iá lo g o s m a n ife s ta ra m um a fo rte d i n â m ic a para a re a liz a ç ã o concreta da u n id a d e . N ão se c o n te n ta ram com um a sim p le s a c u m u la ç ã o de consensos te o ló g ic o s p u ra m e n te teóricos. M as in sistira m na a c e ita ç ã o desses consensos na v id a co n cre ta das ig re ja s, d a n d o u rg ê n c ia na tra n s fo rm a ç ã o dos acordos te o ló g ic o s em re a lid a d e v iv e n c ia d a .
Entretanto, fo i e x a ta m e n te neste p o n to qu e , de re p e n te , s u rg ira m , ta n to nas ig re ja s protestantes co m o na Ig re ja C ató lica , fo rte s te n d ê n c ia s opostas. H o u v e ra m d ú v id a s se os acordos te o ló gicos a lca n ça d o s se ria m s u fic ie n te m e n te fu n d a m e n ta d o s para se rem a p ro va d o s p e la s ig re ja s. Surgiu até o c o n c e ito de " d iv e r g ê n cia fu n d a m e n ta l" ou m esm o de "d iv e rg ê n c ia s fu n d a m e n ta is " que c o n tin u a m s e p a ra n d o as ig re ja s, conceitos fo rm u la d o s n ítid a — e c o n s c ie n te m e n te em o p o siçã o aos conceitos "a c o rd o s u b s ta n c ia l" ou "co n s e n s o fu n d a m e n ta l" , m e n c io n a d o s a cim a .
A s itu a çã o e c u m ê n ic a a tu a l m e parece m a rca d a p e lo co n flito a b e rto e n tre estas duas te n d ê n cia s. E neste co n te x to q u e eu go sta ria de fa z e r, a q u i, a lg u m a s observações. F alarei in ic ia lm e n te dos consensos te o ló g ic o s a lca n ça d o s, d e p o is da d in â m ic a in e re n te aos consensos te o ló g ic o e, fin a lm e n te , da p ro b le m á tic a a tu a l ca ra c te riz a d a p e lo re ssu rg im e n to da id é ia das "d iv e rg ê n c ia s fu n d a m e n ta is " qu e c o n tin u a a s e p a ra r as igrejas.
Eu p o d e ria passar esta n o ite in te ira e n u m e ra n d o , descre v e n d o e a n a lis a n d o os acordos te o ló g ic o s a lca n ça d o s nos d iá lo g o s
c a tó lic o -lu te ra n o s . N ão o fa re i e x a u s tiv a m e n te . E ntretanto, é im p o rta n te estar a par do q u e a co n te ce u nesse cam po.
Podem os, nos dias de h o je , fa la r de acordos ou, a o m enos, de c o n v e rg ê n cia s nos seguinte s pontos:
— a re sp e ito da g ra tu id a d e to ta l da sa lva çã o do h o m e m , p o n to a b s o lu ta m e n te c e n tra l na R eform a e q u e , em ú ltim a a n á lis e , estava presente na ra iz da sep a ra çã o das ig re ja s, no século 16; — a re sp e ito do re la c io n a m e n to e n tre Escritura S agrada , de um
la d o , e d o u trin a da Ig re ja ou tra d iç ã o ecle siá stica , d o o u tro la do. T am bém esse p o n to , co m o sabem os, fo i um p ro b le m a c e n tral na épo ca da R eform a. Basta m e n c io n a r o c o n c e ito de sola scrip tu ra ;
— a re sp e ito da d o u trin a e p rá tic a da Santa C eia e seus d ife re n te s aspectos: q uestão da presença re a l d o c o rp o e d o sangue de Cristo, ou o p ro b le m a da missa c a tó lic a , c o m p re e n d id a com o s a c rifício re a liz a d o p e la Ig re ja na pessoa do sacerdote o fic ia n te;
— a lca n ça ra m -se acordos e co n v e rg ê n c ia s c o n sid e rá ve is ta m b é m a re sp e ito d o m in is té rio na Ig re ja : ta n to sobre o m in is té rio de todos os b a tiza d o s, q u a n to sobre o m in is té rio p a rtic u la r, ou se ja, sobre o m in is té rio dos pastores o rd e n a d o s, sua fu n ç ã o , sua posição d e n tro da c o m u n id a d e e d e n tro do m in is té rio de todos os crentes; a re sp e ito d o a to da o rd e n a ç ã o de pastores, seu ca rá te r sa cra m e n ta l ou n ã o -s a c ra m e n ta l; cheg o u -se ta m b é m a c o n ve rg ê n cia s im p o rta n te s no q u e se re fe re aos bispos, ou m e lh o r, à fu n ç ã o e p isco p a l nas ig re ja s, fu n ç ã o e p isco p a l no s e n ti d o lite ra l da p a la v ra " e p is c o p é " , i. e. fu n ç ã o de o rie n ta ç ã o , visita çã o e su p e rvisã o (que existe em todas as ig re ja s e sem a q u a l um a v id a o rd e n a d a parece ser im p o ssíve l) ;
— fa lo u -s e a té sobre o m in is té rio do Papa, p a rtic u la rm e n te nos d iá lo g o s c a tó lic o -lu te ra n o s na A m é ric a d o N orte. Este d iá lo g o a in d a n ã o está c o n clu íd o . M as ao m enos fic o u c la ro q u e não p o d e h a v e r e q u e nunca h o u ve um a re je iç ã o to ta l, a b so lu ta e in c o n d ic io n a l da in s titu iç ã o p a p a l po r p a rte da R eform a Lutera na e da te o lo g ia lu te ra n a . H ouve, a o c o n trá rio , o a p e lo cons ta n te , às vezes a lta m e n te p o lê m ic o , à Ig re ja C a tó lica no s e n ti d o de re fo rm a r o Papado (o seu co n c e ito , a sua e strutura e a sua p rá tic a ), de m a n e ira tal q u e estivesse de a c o rd o com o E vangelh o, s u b o rd in a d o c la ra m e n te a o p rim a d o da p a la v ra de Deus.
A té a q u i o b re ve resum o dos acordos te o ló g ic o s a lca n ça d o s nos d iá lo g o s .
O q u e im p o rta saber — e é p a ra isso q u e eu g o sta ria de c h a m a r a te n ç ã o — é o s e g u in te : p ra tic a m e n te n e n h u m desses acordos é um a c o rd o , por assim d iz e r, re d o n d o , to ta l, a b so lu to . São acordos, consensos com um a e strutura p ró p ria e e sp e cífica , acordos qu e eu g o sta ria de ch a m a r de "a c o rd o s d ife re n c ia d o s ” em si m esm os. Isso s ig n ific a : há um a ca m a d a básica fo rm a d a de um a ou a lg u m a s convicções re a lm e n te com uns sobre a q u a l se co locam , e p e la q u a l são suportadas, a firm a ç õ e s ou o p in iõ e s que a in d a d iv e rg e m e p o d e m d iv e rg ir, desde q u e se b a se ia m no co n senso fu n d a m e n ta l e nã o o q u e s tio n e m .
Quero dar um exem plo: a doutrina católica fala da eucaris tia ou da missa como de um "sacrifício verdadeiramente p ropiciatório ", í.e. como de um ato que tem a força de tor nar Deus propício para com os homens (reunidos na cele bração eucarística). Os reformadores rejeitaram essa dou trina como idolatria, porque à luz desta doutrina o único sa crifício de Jesus é substituído pela missa celebrada por sa cerdotes. O Cristo Crucificado uma vez por todas fica em segundo plano; a Igreja, o sacerdote usurpam seu lugar. No diálogo atual, estebeleceu-se um acordo fundam ental no sentido de que nada pode substituir o sacrifício de Cris to, efetuado uma vez por todas. Dependemos todos uni camente de Cristo que se sacrificou na cruz. Não precisa mos de outros sacrifícios. Então o que se realiza na eucaris tia, na Santa Ceia não é nada do que a atualização sacra mental do único sacrifício.
Isto é consenso fu n d a m e n ta l. Por e le se a firm a c la ra m e n te q u e a missa c e le b ra d a p e lo sace rd o te , p e la ig re ja , nã o co m p e te com o sa c rifíc io de Cristo e nem o substitui. Isso, h o je , é p o n to p a cífico . Os abusos, às vezes, h o rríve is qu e d e c o rre ra m desta d o u tri na c a tó lic a são e d e v e m ser cortados p e la raiz.
C o n tu d o , a Ig re ja C a tó lica m a n té m a sua d o u trin a da missa no s e n tid o de q u e a c e le b ra ç ã o e ucarística é um "s a c rifíc io v e rd a d e ira m e n te p ro p ic ia tó rio ". Pode c o n tin u a r d iz e n d o , ta n to no e n s i no te o ló g ic o co m o na litu rg ia , qu e a ig re ja , a c o m u n ia d d e , o sa ce rd o te " o fe r e c e m " o s a c rifício e u ca rístico , e até o fe re c e m Cristo a o Pai. M as a g o ra , na base d o consenso fu n d a m e n ta l, esta m a n e i ra c a tó lic a de pensar e de fa la r nã o tem m ais o se n tid o e as conse q ü ê n cia s qu e os R e fo rm a d o re s re je ita ra m e p re cisa va m re je ita r.
Trata-se a g o ra de um a d ife re n ç a to le rá v e l, d e um a d ife re n ça q u e p e rd e u a sua fo rç a se p a ra d o ra . É um a d ife re n ç a q u e se co loca m ais no n íve l da e sp iritu a lid a d e .. Os ca tó lico s d iz e m q u e , p e lo b a tism o , p e la fé e na e u c a ris tia os cristãos são u n id o s a Cristo a um tal p o n to q u e se a ch a m , co m o m e m b ro s do c o rp o de Cristo, e n v o l vid o s no e v e n to s a c rific ia l de Cristo. E m u ito s ig n ific a tiv o o fa to de q u e , num de seus escritos, o p ró p rio Lutero p ô d e fa la r dessa m a n e ira (Ein Serm on von de m N e u e n Testam ent, das ist d ie H e ilig e Messe. 1520. W A 6,369).
A ig re ja e a te o lo g ia lu te ra n a s não p o d e m m ais re je ita r um a tal co n ce p çã o e um tal p e n sa m e n to , se be m q u e e la p ró p ria não a c e ite p a ra si m esm a esta m a n e ira de pensar, p o rq u e não co r resp o n d e à sua e s p iritu a lid a d e . Trata-se de um a co n ce p çã o ou de um a a titu d e d ife re n te mas, nã o o bstante , le g ítim a .
E assim q u e , em g e ra l, o consenso nos d iá lo g o s se e s ta b e le ce. O consenso não e lim in a todas as d ife re n ç a s , mas e la b o ra a c o r dos fu n d a m e n ta is , s u fic ie n te m e n te fo rte s p a ra su p o rta r as d iv e r gências q u e p e rm a n e c e re m . O e s ta b e le c im e n to de tais "a c o rd o s d ife re n c ia d o s ", co m o p o d e ria m ser ch a m a d o s, é a lg o p a re c id o à construção de um e d ifíc io com alas d ife re n te s sobre a base de so m e n te um a ou a lg u m a s co lu n a s fu n d a m e n ta is .
Este processo d e su p e ra r, nos d iá lo g o s c a tó lic o -lu te ra n o s , as d iv e rg ê n c ia s se p a ra d o ra s d o passado por m e io de "a c o rd o s d i fe re n c ia d o s ", a tin g iu o seu p o n to c u lm in a n te no a n o de 1980. Foi por ocasião d o a n iv e rs á rio da C onfissão de A u g s b u rg o , d o c u m e n to te o ló g ic o de base de todas as ig re ja s lu te ra n a s d o m u n d o . C onsi d e ra n d o os resultados dos d iá lo g o s p re ce d e n te s, te ó lo g o s ca tó lico s p o d ia m re c o n h e ce r nesta confissão e s p e c ific a m e n te lu te ra n a um a confissão le g ítim a da fé cristã. "C o n fis s ã o de A u g s b u rg o — C o n fis são da una f é " fo i o títu lo m u ito s ig n ific a tiv o d o p rim e iro c o m e n tá rio c a tó lic o -lu te ra n o sobre a C onfissão d e A u g sb u rg o .
R econhecer na fé do o u tro — com suas expressões p a rtic u lares e específicas — a m in h a fé , a nossa fé , a fé co m u m , é este o o b je tiv o dos consensos ou "a c o rd o s d ife re n c ia d o s ".
II
Q u a n d o os d iá lo g o s o fic ia is com a Ig re ja C a tó lica co m e ç a ra m , isso não a co n te ce u sem qu e os o b je tiv o s e o a lv o destes e n contros e d iá lo g o s fossem p re v ia m e n te d e te rm in a d o s .
Há poucos meses eu li os re la tó rio s dos e n co n tro s p re lim in a res e n tre re p re se n ta n te s d o V a tic a n o e da FLM. Fala-se nesses re la tórios dos assuntos qu e o fu tu ro d iá lo g o d e v e ria a b o rd a r, do m é to do do d iá lo g o , d a esco lh a de seus p a rtic ip a n te s . Fala-se ta m b é m do o b je tiv o do d iá lo g o . Ficou bem c la ro qu e a re a liz a ç ã o concreta da u n id a d e nã o seria o assunto das conversações te o ló g ica s. A ntes tra ta r-s e -ia d e ch e g a r a um m e lh o r c o n h e c im e n to m ú tu o , de e lim i nar m a l-e n te n d id o s , de re -e x a m in a r as co n d e n a çõ e s d o u trin a is do passado lançada s de um la d o a o o u tro e, fin a lm e n te , de e la b o ra r — na m e d id a d o possível — acordos te o ló g ico s. N ã o h o u ve m e n ção n e n h u m a , nestes re la tó rio s dos anos de 1965 e 1966, da r e a li zação da u n id a d e , nem sequer de fo rm a s p a rc ia is da u n id a d e .
M esm o q u e esta a firm a ç ã o não expresse o o b je tiv o ú ltim o do d iá lo g o e c u m ê n ic o , e la co rre sp o n d e p e rfe ita m e n te a o a n d a m e n to dos d iá lo g o s havidos. Com os p rim e iro s acordos te o ló g ic o s a lca n ça d o s nas questões básicas da ju s tific a ç ã o p e la fé , d o re la c io n a m e n to e n tre Escritura S agrada e en sin o e m a g is té rio ecle siá s ticos, se d e s e n v o lv e u no d iá lo g o um a d in â m ic a m u ifo fo rte para a b o rd a r a q u e stã o da re a liz a ç ã o concreta da u n id a d e . Os p a rtic i pantes d o d iá lo g o , todos professores re n o m a d o s, nã o q u e ria m c o n te n ta r-se com a e la b o ra ç ã o e a a c u m u la ç ã o de acordos te o ló gicos, m e ra m e n te teóricos. Insistiram nas im p lic a ç õ e s concretas dos consensos a lca n ç a d o s p a ra o n íve l v iv e n c ia l das igrejas. Estabeleceu-se um a espécie de m eta e c u m ê n ic a : o qu e se pode fa z e r, se deve fa ze r.
N um m o m e n to s e g u in te , o g ru p o a b o rd o u os p ro b le m a s da in te rc o m u n h ã o e n tre ca tó lico s e lu te ra n o s e do re c o n h e c im e n to m ú tu o dos m in isté rio s nas duas igrejas. A co n te ce u q u e n a q u e la q u a rta sessão, re a liz a d a p e rto de G e n e b ra em 1969, o g ru p o , p ra tic a m e n te de m a n e ira u n â n im e , estava a fa v o r d a in te rc o m u n h ã o , a lg o in é d ito n a q u e la época. Isso p ro vo co u um v e rd a d e iro estouro da p a rte do fre i Je rô m e H am er, n a q u e le te m p o re p re s e n ta n te do S e cre ta ria d o p e la U n id a d e d o V a tic a n o , p o s te rio rm e n te p rim e iro s e cre tá rio da C o n g re g a çã o para a D o utrina de Fé e, em b re ve , C ard e a l da C uria R om ana. Ele insistiu v e e m e n te m e n te , a p o ia d o p e lo p ro f. Yves C o n g a r, no fa to de qu e o g ru p o estava, até m esm o c o n s c ie n te m e n te , u ltra p a ssa n d o o seu m a n d a d o . Este, de fa to , não h a v ia fa la d o da re a liz a ç ã o concreta da u n id a d e . O g ru p o , não o bstante , em p a rtic u la r os p a rtic ip a n te s ca tó lico s, fic o u firm e e não se d e ix o u desconce rta r.
N ão n a rre i este e p is ó d io a pena s para c o n ta r um a histó ria ou para m ostrar co m o o d iá lo g o e c u m ê n ic o pod e ser d ifíc il. Eu q u e ria d e m o n s tra r a d in â m ic a in e re n te a o d iá lo g o te o ló g ic o . Seria um e rro fla g ra n te d iz e r ou pensar qu e o d iá lo g o te o ló g ic o se satis fa ç a com acordos teó rico s e qu e não co n h e ça o e m p e n h o p a ra a u n id a d e v iv e n c ia l.
E v e rd a d e : a q u e la te n ta tiv a , em ú ltim a a n á lis e , fracassou. E um a h istó ria triste. M as esta d in â m ic a d o d iá lo g o c o n tin u a . C o n ti n u o u ta m b é m na segund a fase do d iá lo g o c a tó lic o -lu te ra n o in te r n a c io n a l. O pastor B e rth o ld o W e b e r, n a q u e la segund a fase, m e m b ro da C om issão In te rn a c io n a l, p o d e ria c o n firm á -lo . Lá ta m b é m esta d in â m ic a e n c o n tro u um a fo rte resistência por p a rte de um m e m b ro ca tó lic o m u ito in flu e n te e poderoso . A té a co n te ce u qu e , nesta segunda fase, e la b o ra m o s um d o c u m e n to de a p ro x im a d a m e n te 15 p á g in a s sobre o p ro b le m a da in te rc o m u n h ã o ou da " h o s p ita lid a d e e u c a rís tic a " q u e n ã o e n co n tro u a p o io u n â n im e e n tre os p a rtic ip a n te s católicos. Por isso, este d o c u m e n to , e la b o ra d o com m u ito tra b a lh o e c u id a d ^ , nunca será p u b lic a d o . Foi e n v ia d o em 1982 à Federação Luterana M u n d ia l e a o V a tic a n o " p a r a uso c o n fi d e n c ia l" , e isso s ig n ific a p ro v a v e lm e n te : para d e sp a re ce r nas g a vetas e nos a rq u iv o s de G e n e b ra e do V a tic a n o .
C ontudo , o d iá lo g o e os q u e d e le to m a ra m p a rte n ã o d e sa n im a ra m . A d in â m ic a c o n tin u o u . A C om issão e la b o ro u , co m o ú lti m o d o c u m e n to da se g u n d a fase do d iá lo g o , um d o c u m e n to m u ito a u d a cio so q u e está sendo p u b lic a d o nestes dias e q u e é um a p ro va d a q u e la d in â m ic a d o d iá lo g o para a u n id a d e v iv e n c ia l. O d o c u m e n to tem o títu lo s ig n ific a tiv o "F a c in g U n ity " qu e p o d e ser tra d u z id o por "U n id a d e a o A lc a n c e ". N ão posso a q u i e n tra r em p o r m enores deste d o c u m e n to . Em b re v e h a ve rá o p o rtu n id a d e do m esm o ser estudad o.
III
Nesta p a rte final,, fa la re i das d ific u ld a d e s a tu a is do d iá lo g o c a tó lic o -lu te ra n o , as q u a is de m a n e ira n e n h u m a p re te n d o esca m o te a r. R e firo -m e a o qu e c h a m e i de " e n c r u z ilh a d a " na q u a l se e n co n tra o d iá lo g o e n tre a Ig re ja C a tó lica R om ana e as ig re ja s p ro testantes em g e ra l.
Desde o in íc io preciso c h a m a r a te n ç ã o para o c a rá te r quase p a ra d o x o desta d ific u ld a d e . D igo isto p o rq u e e la p ro v é m d o p ró p rio ê x ito dos d iá lo g o s . Falei, na p rim e ira p a rte , dos resultados
s u rp re e n d e n te s d o d iá lo g o . Falei, d e p o is, da d in â m ic a in e re n te ao consenso te o ló g ic o . Tanto no d e b a te em to rn o d o re c o n h e c im e n to c a tó lic o da confissão lu te ra n a co m o ta m b é m no ú ltim o d o c u m e n to do d iá lo g o , o c o n c e ito -c h a v e é o d o "co n s e n s o fu n d a m e n ta l" , c o n c e ito a p o ia d o p e lo p ró p rio Papa Jo ã o Paulo II, na sua palestra em M a in z , no mês de n o v e m b ro de 1980 e em a lo cu çõ e s p o s te rio res.
Porém, s im u lta n e a m e n te , su rg iu , p rim e iro nos m eios p ro testantes, d e p o is nos m eios cató lico s, o c o n c e ito de " d iv e rg ê n c ia fu n d a m e n ta l" e n tre c a to lic is m o e p ro te sta n tism o . O qu e s ig n ific a isso? A id é ia n ã o é nova. E um p e n sa m e n to q u e s u rg iu , até o nde eu v e jo , no in íc io do século 19, te n d o , ta lve z, sua o rig e m já na p ró p ria R eform a d o século 16. Eu p o d e ria c ita r um a série de te ó lo gos conhecid os, co m e ç a n d o po r S c h le ie rm a c h e r, F. C. Bauer, A l- b re ch t Ritschl e outros qu e co n c o rd a ra m no se g u in te p o n to : o qu e separa o p ro te sta n tism o do c a to lic is m o ro m a n o n ã o a p e n a s p ro b le mas te o ló g ic o s isolados, co m o p. ex. a q u e stã o da ju s tific a ç ã o p e la fé , da Escritura S agrada, da missa, da h ie ra rq u ia ecle siá stica , do p a p a d o , da v e n e ra ç ã o dos santos, da V irg e m M a ria e assim por d ia n te . Diz-se qu e todos estes p ro b le m a s isolados p ro v é m , em ú lti ma a n á lis e , de um a d iv e rg ê n c ia básica. São, p o rta n to , a p e n a s si nais, sintom as de um a d ife re n ç a fu n d a m e n ta l. Um tal p e n s a m e n to, isso é e v id e n te , e q u iv a le a um q u e s tio n a m e n to sério e ra d ic a l dos d iá lo g o s e seus consensos a lca n ça d o s e corta p e la raiz a d in â m ica in e re n te a o d iá lo g o . Torna fú til o a p e lo a tu a l p a ra serem re ce b id o s nas ig re ja s, p. e x ., os d o cu m e n to s do d iá lo g o c a tó lic o - lu te ra n o ou os d o c u m e n to s de Lima sobre o b a tism o , a e u c a ris tia e o m in is té rio .
N ão estou em con d içõ e s de d a r um a resposta a esta p ro b le m ática. Posso, no m o m e n to , tão so m e n te fo c a liz a r esta p ro b le m á tica su rg id a , ou m e lh o r, ressurgida re c e n te m e n te . Trata-se de um a p ro b le m á tic a tã o c ru cia l q u e o nosso C entro de Pesquisas E cum êni cas, em Strassburgo, in ic io u um estudo a re sp e ito . O p ro b le m a se situa na á re a da e c le s io lo g ia .
Talvez vocês p e rg u n te m q u e m , h o je em d ia , d e fe n d e a tese de um a d iv e rg ê n c ia fu n d a m e n ta l e n tre a Ig re ja C a tó lica R om ana e as ig re ja s protestantes. E v e rd a d e qu e fo ra m in ic ia lm e n te te ó lo g o s protestantes q u e , nos anos 80, 81 e 82, insistiram nesta id é ia . M as em 1983, a n o d o a n iv e rs á rio de Lutero, ta m b é m te ó lo g o s cató lico s se m a n ife s ta ra m neste sentido.
O m ais in q u ie ta n te é q u e fo ra m a lg u n s re p re se n ta n te s da h ie ra rq u ia c a tó lic a , co m o p .e x. o C a rd e a l R atzinger q u e o fiz e ra m (cf. o a rtig o "L u te ro e a u n id a d e da Ig re ja " , p u b lic a d o em alu sã o a o a n o de Lutero). Este a rtig o e x p lo d iu co m o um a b o m b a . Ele d iz: a u n id a d e da Ig re ja v iv e da u n id a d e das opções básicas (G run- d e n tsch e id e ). Esta u n id a d e da o p çã o básica, s e g u n d o R atzinger, nã o existe e n tre o p ro te sta n tism o e a Ig re ja C a tó lica . Ele fa la a b e r ta m e n te de um a d iv e rg ê n c ia fu n d a m e n ta l, n ã o s u p e ra d a , qu e c o n tin u a a se p a ra r as ig re ja s e lo c a liz a o h ia to , a d iv e rg ê n c ia no
ato de fé .
Se q u iz e rm o s ou não: a situ a çã o a tu a l d o d iá lo g o c a tó lic o - lu te ra n o está m a rca d a po r estas duas p erspectivas opostas — " U n i d a d e a o A lc a n c e ", de um la d o , e "D iv e rg ê n c ia F u n d a m e n ta l", de o u tro lado. E co m o d iz ia re c e n te m e n te o bispo c a tó lic o de M a in z , a m ig o e a n tig o c o le g a m eu da U n iv e rs id a d e de F reiburgo, na A le m a n h a , em um a rtig o : "E sobre isso q u e tem os qu e fa la r h o je " .