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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS

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PROCESSO ADMINISTRATIVO 0024.11.008.178-3

RECLAMANTE Procon Estadual

RECLAMADO Drogaria Araújo S/A

ASSUNTO Venda de produtos

PROBLEMAS Falta de precificação

• Dupla precificação

Produtos expostos à venda sem os respectivos preços. Precificação por código de barras que exige, junto aos itens expostos, de forma clara e legível, informação relativa ao preço à vista do produto, suas características e código (Lei nº 10.962/04, art. 2º, Pu). Utilização de leitor ótico que não supre a falta de informação do preço na precificação por código de barras. Ilegalidade do uso da relação de preços quando possível a utilização de precificação direta ou por códigos referencial ou de barra (Lei nº 10.962/04, art. 3º). Cobrança de preço maior, no caixa e leitor ótico, divergente do preço promocional afixado na prateleira (Decreto nº 9.603/06, art. 9º, VII). Práticas abusivas reconhecidas. Aplicação de multa.

Vistos etc.

Tratam, os autos, de processo administrativo instaurado contra a DROGARIA ARAÚJO S/A, por ofertar produtos sem os respectivos preços e sabonetes líquidos, da marca “Intimus”, com precificação a maior, no caixa e no leitor ótico (R$ 15,30), divergente do preço promocional informado na prateleira (R$ 12,90), fatos esses ocorridos no dia 13 de dezembro de 2011, constatados pelos fiscais responsáveis pela autuação (f. 02/07 e 08/17).

Em sua defesa, a empresa negou a prática das infrações, dizendo utilizar, na precificação de seus produtos, as formas previstas em lei (tarja informativa de preços, leitor ótico e lista de preços) e que o preço afixado na

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prateleira do produto que divergia do cobrado no caixa seria logo verificado e adequado, sendo a irregularidade encontrada irrisória (f. 18/26 e 27/39).

Realizada audiência, houve a proposta de conciliação, por termo de ajustamento de conduta (TAC), e prazo para a concordância da empresa, ou, em caso contrário, apresentar alegações finais (f. 47/51). Contudo, a empresa deixou de se manifestar (f. 55).

RELATO SUCINTO, passo à decisão administrativa.

Um dos direitos básicos do consumidor é o de ser bem informado sobre o produto ou serviço a ser adquirido. A qualidade e o conteúdo da informação estão disciplinados, de forma genérica, no Código de Defesa do Consumidor.1 Para regular as boas práticas na afixação de preços nos bens

de consumo expostos à venda, o governo federal aprovou uma lei específica (Lei nº 10.962, de 11/10/04)2 e um decreto, para orientar a sua aplicação

(Decreto nº 5.903, de 20/09/06).3 Obediente à lei consumerista, o decreto

reafirma a necessidade de a informação ser correta, clara, precisa, ostensiva e legível.4 Por exemplo, violam o direito do consumidor, por falta de clareza:

1 - “A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras,

precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores. Parágrafo único. As informações de que trata este artigo, nos produtos refrigerados oferecidos ao consumidor, serão gravadas de forma indelével” (Lei nº 8.078, de 11/09/90, art. 31).

2 - “Esta Lei regula as condições de oferta e afixação de preços de bens e serviços para o

consumidor” (Lei nº 10.962, de 11/10/04, art. 1º).

3 - “Este Decreto regulamenta a Lei no 10.962, de 11 de outubro de 2004, e dispõe sobre as práticas

infracionais que atentam contra o direito básico do consumidor de obter informação adequada e clara sobre produtos e serviços, previstas na Lei no 8.078, de 11 de setembro de 1990.” (Decreto nº

5.903, de 20/09/06). A aplicação do regulamento “dar-se-á sem prejuízo de outras normas de controle incluídas na competência dos demais órgãos e entidades federais” (art. 10). Passou a vigorar “noventa dias após sua publicação”.

4 - “Os preços de produtos e serviços deverão ser informados adequadamente, de modo a garantir

ao consumidor a correção, clareza, precisão, ostensividade e legibilidade das informações prestadas. § 1o Para efeito do disposto no caput deste artigo, considera-se: I - correção, a

informação verdadeira que não seja capaz de induzir o consumidor em erro; II - clareza, a informação que pode ser entendida de imediato e com facilidade pelo consumidor, sem

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i) “expor preços com as cores das letras e do fundo idêntico ou semelhante”;5

ii) “utilizar caracteres apagados, rasurados ou borrados”;6 e iii) “expor

informação redigida na vertical ou outro ângulo que dificulte a percepção”.7

A precificação, segundo a lei, deve ser feita “por meio de etiquetas ou similares afixados diretamente nos bens expostos à venda, e, em vitrines, mediante divulgação do preço à vista8 em caracteres legíveis”.9 Se o preço

puder ser pago em prestações, “como nas hipóteses de financiamento ou parcelamento”, o fornecedor deve ainda informar: “I - o valor total a ser pago com financiamento; II o número, periodicidade e valor das prestações; III os juros; e IV - os eventuais acréscimos e encargos que incidirem sobre o valor do financiamento ou parcelamento”.10 Infringem o direito à informação

adequada e clara: i) “utilizar letras cujo tamanho não seja uniforme ou dificulte a percepção da informação, considerada a distância normal de visualização do consumidor”;11 ii) “informar preços apenas em parcelas”,

obrigando o cliente a calcular o total.12; iii) “informar preços em moeda

estrangeira”, sem convertê-los na moeda nacional, em caracteres de igual ou superior destaque.13 Similar à etiqueta, esclarece o decreto, é “qualquer

abreviaturas que dificultem a sua compreensão, e sem a necessidade de qualquer interpretação ou cálculo; III - precisão, a informação que seja exata, definida e que esteja física ou visualmente ligada ao produto a que se refere, sem nenhum embaraço físico ou visual interposto; IV - ostensividade, a informação que seja de fácil percepção, dispensando qualquer esforço na sua assimilação; e V legibilidade, a informação que seja visível e indelével” (Decreto nº 5.903/06, art. 2º, § 1º).

5 - Decreto nº 5.903/06, art. 9º, II. 6 - Decreto nº 5.903/06, art. 9º, III. 7 - Decreto nº 5.903/06, art. 9º, VIII.

8 - Ao “alcance do olhar ou da visão” (Conforme Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa

2.0a). Decreto nº 5.903/06, art. 3º, “caput”.

9 - Lei nº 10.962/04, art. 2º, I; Decreto nº 5.903/06, art. 6º, I.

10 - Decreto nº 5.903/06, art. 3º, Pu. Este artigo segue, também, o Código de Defesa do Consumidor:

“No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de crédito ou concessão de financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá, entre outros requisitos, informá-lo prévia e adequadamente sobre: I - preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional; II - montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros; III - acréscimos legalmente previstos; IV - número e periodicidade das prestações; V - soma total a pagar, com e sem financiamento” (CDC, art. 52).

11 - Decreto nº 5.903/06, art. 9º, I. 12 - Decreto nº 5.903/06, art. 9º, IV. 13 - Decreto nº 5.903/06, art. 9º, V.

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meio físico que esteja unido ao produto e gere efeitos visuais equivalentes”.14 A etiqueta ou similar, ainda segundo o decreto, “deverá ter

sua face principal voltada ao consumidor, a fim de garantir a pronta visualização do preço, independentemente de solicitação do consumidor ou intervenção do comerciante”.15 Mesmo “a montagem, rearranjo ou limpeza, se

em horário de funcionamento”, deve ser feito sem prejudicar a visibilidade dos preços dos produtos expostos à venda.16

Se o estabelecimento for daqueles em que o cliente tem “acesso direto ao produto, sem intervenção do comerciante”,17 a precificação poderá

ser feita pela “afixação de código referencial”, ou “com a afixação de código de barras".18 Optando pelo uso de códigos,19 o fornecedor "deverá expor, de

forma clara e legível, junto aos itens expostos, informação relativa ao preço à vista do produto, suas características e código".20

Em relação ao código referencial, deverá, ainda, obedecer as seguintes regras: “I - a relação dos códigos e seus respectivos preços devem estar visualmente unidos e próximos dos produtos a que se referem, e imediatamente perceptível ao consumidor, sem a necessidade de qualquer esforço ou deslocamento de sua parte; e II - o código referencial deve estar fisicamente ligado ao produto, em contraste de cores e em tamanho suficientes que permitam a pronta identificação pelo consumidor”.21 Fere o

direito do consumidor, pela falta de precisão da informação, “utilizar

14 - Decreto nº 5.903/06, art. 5º, Pu.

15 - Decreto nº 5.903/06, arts. 5º, “caput”, e 6º, I, § 1º. 16 - Decreto nº 5.903/06, art. 4º.

17 - Auto-serviços, supermercados, hipermercados e mercearias, etc. 18 - Lei nº 10.962/04, art. 2º, II.

19 - Código:“palavra, letra, número ou outro símbolo us. para representar, identificar e controlar os

integrantes de certo conjunto, de acordo com uma classificação preestabelecida” (Conforme Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 2.0a).

20 - Lei nº 10.962/04, art. 2º, Pu. 21 - Decreto nº 5.903/06, art. 6º, II, § 2º.

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referência que deixa dúvida quanto à identificação do item ao qual se refere”.22

Utilizando o código de barras, o fornecedor observará: “I - as informações relativas ao preço à vista, características e código do produto deverão estar a ele visualmente unidas, garantindo a pronta identificação pelo consumidor; II - a informação sobre as características do item deve compreender o nome, quantidade e demais elementos que o particularizem; e III - as informações deverão ser disponibilizadas em etiquetas com caracteres ostensivos e em cores de destaque em relação ao fundo”.23 Deverá manter, outrossim, “na área de vendas e em outras de fácil

acesso”, "equipamentos de leitura ótica para consulta de preço pelo consumidor".24 Área de vendas é "aquela na qual os consumidores têm

acesso às mercadorias e serviços oferecidos para consumo no varejo, dentro do estabelecimento".25 Sobre os leitores óticos, dispôs o regulamento,

conforme previsão legal:26 i) devem estar em perfeito funcionamento; ii)

serão identificados por cartazes suspensos que informem a sua localização; iii) deverão estar dispostos na área de vendas, observada a distância máxima de 15 (quinze) metros entre qualquer produto e o leitor ótico mais próximo; iv) os fornecedores deverão disponibilizar, aos agentes fiscais, croqui da área de vendas, com a identificação clara e precisa da localização dos leitores óticos e a distância que os separa, demonstrando graficamente o cumprimento da distância máxima fixada.27

22 - Decreto nº 5.903/06, art. 9º, VI. 23 - Decreto nº 5.903/06, art. 6º, III, § 3º. 24 - Lei nº 10.962/04, art. 4º, “caput”. 25 - Lei nº 10.962/04, art. 4º, § 2º.

26 - Nesse sentido: “§ 1o O regulamento desta Lei definirá, observados, dentre outros critérios ou

fatores, o tipo e o tamanho do estabelecimento e a quantidade e a diversidade dos itens de bens e serviços, a área máxima que deverá ser atendida por cada leitora ótica” (Lei nº 10.962/04, art. 4º).

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Sendo impossível usar uma das formas de precificação acima, a lei permitiu, em caráter excepcional, uma terceira modalidade de precificação: “o uso de relações de preços dos produtos expostos, bem como dos serviços oferecidos, de forma escrita, clara e acessível ao consumidor.28 Nessa

hipótese, a relação de preços: i) deve ter sua face principal voltada ao consumidor, de forma a garantir a pronta visualização do preço, independentemente de solicitação do consumidor ou intervenção do comerciante; ii) deve ser afixada, também, externamente, nas entradas de restaurantes, bares, casas noturnas e similares.29 Por derradeiro, e seguindo

o costume, a lei previu que “no caso de divergência de preços para o mesmo produto entre os sistemas de informação de preços utilizados pelo estabelecimento, o consumidor pagará o menor dentre eles".30 Não obstante,

constitui prática abusiva, pela falta de correção, “atribuir preços distintos para o mesmo item”.31

Feita esta introdução, necessária à compreensão da matéria, que envolve o princípio da devida informação,32 e sofre, igualmente, os reflexos

dos princípios da vulnerabilidade do consumidor,33 da indisponibilidade dos

28 - Lei nº 10.962/04, art. 3º. Decreto nº 5.903/06, art. 8º, “caput”. 29 - Decreto nº 5.903/06, art. 8º, §§ 1º e 2º.

30 - Lei nº 10.962/04, art. 5º. 31 - Decreto nº 5.903/06, art. 9º, VII.

32 - Princípio da devida informação: exige a informação adequada e clara sobre os produtos e

serviços ofertados no comércio, bem como sobre os riscos que podem causar à saúde e segurança das pessoas (CDC, arts. 6º, III, 8º, 9º e 31). Busca a transparência das relações de consumo e a vinculação do fornecedor às promessas feitas aos consumidores (arts. 4º, “caput”, e 30, 35, 48 e 84). O direito à informação envolve diversos aspectos das relações de consumo: i) direito à informação do nome e endereço do fabricante nas ofertas ou venda por telefone ou reembolso postal (art. 33); ii) direito à informação verídica (arts. 31 e 37, §§ 1º e 3º); iii) direito à informação sobre o orçamento do serviço ofertado (art. 40); iv) direito ao conhecimento prévio do conteúdo do contrato (art. 46, 1ª parte); v) direito à redação clara dos contratos (art. 46, Pf); vi) direito à informação sobre a composição do preço nas vendas a prazo (art. 52); vii) direito à redação legível e clara dos contratos de adesão (art. 54, § 3º); viii) direito à informação destacada das cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor (art. 54, § 4º);.

33 - Princípio da vulnerabilidade: reconhece a pessoa do consumidor como a parte mais fraca das

relações de consumo (CDC, art. 4º, I). É a fonte inspiradora do legislador na busca de um maior equilíbrio nas relações de consumo, de modo a compensar a desigualdade econômica e de conhecimentos técnicos e jurídicos entre o fornecedor e o consumidor.

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seus direitos,34 da liberdade de escolha35 e da boa fé e equilíbrio nas relações

de consumo,36 passo a analisar o mérito do processo administrativo.

Como visto do relatório, a empresa foi autuada

“por ofertar produtos sem os respectivos preços e sabonetes líquidos, da marca “Intimus”, com precificação a maior, no caixa e no leitor ótico (R$ 15,30), divergente do preço promocional informado na prateleira (R$ 12,90), fatos esses ocorridos no dia 13 de dezembro de 2011, constatados pelos fiscais responsáveis pela autuação” (f. 02/07 e 08/17).

34 - Princípio da indisponibilidade de direitos: proíbe aos contratantes dispor dos direitos do

consumidor, previstos na forma da lei, que é de ordem pública e interesse social, sob pena de nulidade da cláusula do contrato (CDC, arts. 1º). Antes, vigoravam a igualdade e a liberdade dos contratantes em realizar o contrato e a sua força vinculante. Tais premissas foram afastadas porque o consumidor, na sociedade atual, não mais discute as cláusulas do contrato, que são previamente estabelecidas pelo fornecedor. Dependem, como não poderia deixar de ser, dos limites impostos na lei, a saber: i) direito à inversão do ônus da prova: arts. 12, § 3º, 38 e 51, VI; ii) direito à restituição de quantias já pagas: arts. 18, § 1º, II, 19, IV, 20, II, 35, III e 51, II); iii) direito ao ressarcimento dos prejuízos sofridos em função de vícios de produtos e serviços: arts. 18, § 1º, II, Pf, 19, IV, Pf, 20, II, Pf, 35, III, Pf, 24, 25 e 51, I; iv) direito à responsabilização pessoal do fornecedor: art. 51, III; v) direito à indenização das benfeitorias necessárias: art. 51, XVI; vi) direito à não perder a totalidade das prestações pagas, em caso de rescisão contratual: art. 53.

35 - Princípio da liberdade de escolha: protege o consumidor das vendas agressivas, feitas por

imposição do mercado, sem que possa escolher o melhor momento de comprar, o bem de consumo e com quem contratar, ou a forma de buscar a defesa dos seus direitos (CDC, art. 6º, II). São exemplos desse princípio: i) proibição de venda casada (art. 39, I, 1ª parte); ii) proibição da imposição de limites quantitativos na venda de produtos ou serviços, sem justa causa (art. 39, Pf); iii) proibição da recusa do atendimento das demandas dos consumidores (art. 39, II); iv) direito a receber o produto ou serviço como amostra grátis, quando não solicitado (art. 39, III, Pu); v) abusividade em forçar a venda de produtos e serviços, aproveitando-se de uma maior vulnerabilidade do consumidor, chamada hipossuficiência (art. 39, IV); vi) proibição de execução dos serviços sem prévia elaboração de orçamento e aprovação do consumidor (arts. 39, VI, e 40); vii) direito à desistência contratual (art. 49); viii) nulidade da cláusula impondo a utilização compulsória de arbitragem (art. 51, VII); ix) validade da cláusula de desfazimento do contrato de adesão, se exercida unicamente pelo consumidor (art. 54, § 2º).

36 - Princípio da boa fé e equilíbrio contratual: exige a boa fé o equilíbrio dos deveres que devem

nortear as relações de consumo (CDC, art. 4º, III). É acolhido, no código, ao prever: i) direito à revisão contratual (art. 6º, V); ii) proibição à exigência de vantagem manifestamente abusiva (art. 39, V); iii) proibição à pactuação de obrigações iníquas, abusivas ou contrárias à boa fé ou à equidade (art. 51, IV); iv) previsão de direitos desde que exercidos reciprocamente (art. 51, IX, XI e XII); v) direito à estipulação bilateral do contrato (art. 51, X e XIII); vi) parâmetros à aplicação da boa fé e do equilíbrio desejados (art. 51, § 1º). O princípio busca proteger a dignidade da pessoa humana, ponderados os seus diversos interesses (CF, arts. 1º, III e IV, 5º, I e 170), e deve ser considerado nas políticas públicas e normas reguladoras (CDC, art. 4º, III).

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O auto de infração mostra que os produtos expostos à venda, sem os respectivos preços, eram os seguintes:

i) conjunto de papeiro e colher, marca MAM; ii) pacote de algodão Apollo, bolas, 100g, validade em 09/2016; iii)escova de dente, marca MAM, infantil/bebê; iv) polivitamínico Pharmaton Kiddi Boehringer Ingelheim, 200 ml; v) condicionador, marca Salon Line, 300 ml, Lote 0076745; vi) creme para alisamento Embelleze, marca Hair Life; vii) Centrum caixa, com 100 e 30 comprimidos; viii) hidratante facial Oil Free, FPS 15, marca Neutrograma, 50 ml; ix) base relaxante com Guanidina, Salon Line, 215 g, validade em Nov/2014; x) base relaxante, marca Salon Line, peso 218 g; xi) gel para massagem Arnica, marca Farmax, 180 g, validade em 10/12; xii) creme para massagem Arnica, Farmax, 160 g, validade em 01/13; xiii) condicionador Neutrox, 230 ml, validade em 09/2014; xiv) lixa de madeira para os pés, marca Ricca; xv) óleo de tratamento, marca Salon Line, 60 ml; xvi) desodorizador de calçados, 145 ml, marca ZAP Clean; xvii) ácido ascórbico com 1000 mg, Sundown Natural, fabricado em 06/11 e validade em 06/13; xviii) fita dental encerada, maraca Colgate Total, 25 m; xix) óleo de linhaça 1000 mg, marca Flaxgold, 100 cápsulas; xx) extrato padronizado ACH06, Sintocalmy, marca Ache, val. Jun/13 (f. 02/07).

Em sua defesa, a empresa negou a prática das infrações, dizendo utilizar, na precificação de seus produtos, as formas previstas em lei (tarja informativa de preços, leitor ótico e lista de preços) – (f. 18/26 e 27/39).

Nesse sentido, argumentou:

“É fundamental o esclarecimento de que a Drogaria Araújo vem implementando em todas as suas lojas tarjas indicativas de preços para serem instaladas em suas gancheiras e outros locais que naturalmente não permitem a afixação de tarjetas.

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Mas de todo modo, enquanto não finaliza tal procedimento, a Drogaria Araújo disponibiliza (como sempre disponibilizou), nos termos do artigo 3º da Lei, lista de preços para todos os respectivos produtos, o que permite ao consumidor, a qualquer momento, ter claro e preciso acesso às características e preços das mercadorias. Mas isto infelizmente não foi observado no momento da fiscalização.

Não bastasse, é importante salientar que a Drogaria Araújo disponibiliza ainda em suas lojas leitores óticos para conferência do preço dos produtos em código de barras, exatamente conforme permite o artigo 4º da Lei, que assim dispõe:

“Art. 4º Nos estabelecimentos que utilizem código de barras para apreçamento, deverão ser oferecidos equipamentos de leitura ótica para consulta de preço pelo consumidor, localizados na área de vendas e em outras de fácil acesso.”

Como não poderia deixar de ser, o Decreto 5.903, de 20.09.06, que regulamenta a Lei 10.962/04, também é claro quanto à regularidade também desta prática utilizada pela ora Impugnante. Transcreve-se a disposição de seus artigos 6º e 7º:

“Art. 6º Os preços de bens e serviços para o consumidor nos estabelecimentos comerciais de que trata o inciso II do art. 2º da Lei nº 10.962, de 2004, admitem as seguintes modalidades de afixação: I – direta ou impressa na própria embalagem; II – de código referencial; ou

III – de código de barras. (...)

Art. 7º Na hipótese de utilização do código de barras para apreçamento, os fornecedores deverão disponibilizar, na área de vendas, para consulta de preços pelo consumidor, equipamentos de leitura ótica em perfeito estado de funcionamento.”.

Não há dúvida, portanto, de que a utilização das tarjetas, de leitores óticos e listas de preços, são formas de apresentação de preço expressamente autorizadas pela legislação em vigor. Registre-se que em todas as lojas da Drogaria Araújo são utilizadas não só as tarjetas identificadoras de preço, como também preços

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impressos na própria embalagem, código de barras para leitores óticos e listas de preços. Não há como se exigir mais” (f. 22/23).

Está clara, assim, a admissão, pelo fornecedor, de dois fatos: 1º) até hoje não concluiu o processo de precificação de seus produtos, como manda a lei, em vigor há quase oito anos;37 2º) enquanto não cumpre a sua

obrigação, tenta remediar o problema com o uso de leitor ótico e listas de preços. Ao reconhecer o primeiro fato, a Drogaria Araújo confessa que o motivo da autuação fiscal – falta de precificação de alguns produtos expostos à venda – é verdadeiro. Ao considerar a segunda situação, confirma o descumprimento de dois artigos da lei: o que exige a afixação do preço junto ao item exposto, na hipótese de precificação por código referencial ou de barra (Lei nº 10.962/04, art. 2º, Pu); o que permite a precificação por listas de preços só em caráter excepcional, quando impossível a utilização da precificação direta (por etiqueta ou similar) ou indireta (por código referencial ou de barras), como ocorre, por exemplo, com sorvetes e outros produtos congelados (Lei nº 10.962/04, art. 3º). De se notar, ainda, que a impossibilidade de uso da precificação direta ou indireta, a justificar o uso de lista de preços, não se relaciona ao local onde o fornecedor expõe os seus produtos, mas à natureza destes. Imaginar o contrário, como faz a Drogaria Araújo, é permitir que o cumprimento, ou não, de uma lei, fique ao arbítrio exclusivo do agente econômico regulado.

A propósito, transcrevo os artigos violados:

Art. 2o São admitidas as seguintes formas de afixação

de preços em vendas a varejo para o consumidor: I – no comércio em geral, por meio de etiquetas ou similares afixados diretamente nos bens expostos à

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venda, e em vitrines, mediante divulgação do preço à vista em caracteres legíveis;

II – em auto-serviços, supermercados, hipermercados, mercearias ou estabelecimentos comerciais onde o consumidor tenha acesso direto ao produto, sem intervenção do comerciante, mediante a impressão ou afixação do preço do produto na embalagem, ou a afixação de código referencial, ou ainda, com a afixação de código de barras.

Parágrafo único. Nos casos de utilização de código referencial ou de barras, o comerciante deverá expor, de forma clara e legível, junto aos itens expostos, informação relativa ao preço à vista do produto, suas características e código.

Art. 3o Na impossibilidade de afixação de preços

conforme disposto no art. 2º, é permitido o uso de relações de preços dos produtos expostos, bem como dos serviços oferecidos, de forma escrita, clara e acessível ao consumidor (grifei).

Em relação à segunda infração – “ofertar sabonetes líquidos, da marca “Intimus”, com precificação a maior, no caixa e no leitor ótico (R$ 15,30), divergente do preço promocional informado na prateleira (R$ 12,90)”, violando o art. 9º, II, do Decreto nº 9.603/0638 – a empresa não

contestou a sua ocorrência, mesmo porque foi comprovada por meio de foto (f. 16). Contudo, arguiu a sua insignificância em razão da grande quantidade de produtos expostos, o que, diante do caso concreto, não pode elidir a sua responsabilidade administrativa (f. 25/26).

Com estes argumentos, JULGO SUBSISTENTES as autuações feitas contra a filial da DROGARIA ARAÚJO S/A, sito na Avenida Portugal, nº 2.841, Jardim Atlântico, no dia 13 de dezembro de 2011, às 13:00 horas, pela lesão

38 - “Configuram infrações ao direito básico do consumidor à informação adequada e clara sobre os

diferentes produtos e serviços, sujeitando o infrator às penalidades previstas na Lei no 8.078, de 1990, as seguintes condutas: (...) VII - atribuir preços distintos para o mesmo item”.

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causada aos consumidores belo-horizontinos, na oferta de produtos sem os respectivos preços e com divergências de preços, como fundamentado pelos fiscais do Procon Estadual e ratificado nesta decisão administrativa (CDC, art. 31; Lei nº 10.962/04, arts. 2º, Pu, e 3º; Decreto nº 9.603/06, arts. 6º, II e III, §§ 2º e 3º, 8º e 9º, VII).

Passo, pois, à aplicação da sanção administrativa.

Para fixar o valor da multa relativa a essas práticas abusivas, levarei em consideração o teor da Resolução PGJ nº 11, de 03 de fevereiro de 2011, que, entre outros assuntos, regulou o procedimento para a fixação de multas por infração às relações de consumo, nos precisos termos do Código de Defesa do Consumidor. Nesse sentido, dispõe:

“As infrações das normas de defesa do consumidor ficam sujeitas, conforme o caso, às seguintes sanções administrativas, sem prejuízo das de natureza civil, penal e das definidas em normas específicas: I – multa” (CDC, art. 56).

“A pena de multa, graduada de acordo com a gravidade da infração, a vantagem auferida e a condição econômica do fornecedor, será aplicada mediante procedimento administrativo, revertendo para o Fundo de que trata a Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985, os valores cabíveis à União, ou para os Fundos estaduais ou municipais de proteção ao consumidor nos demais casos.

Parágrafo único. A multa será em montante não inferior a duzentas e não superior a três milhões de vezes o valor da Unidade Fiscal de Referência (Ufir), ou índice equivalente que venha a substituí-lo” (art. 57).

Considerando que as infrações cometidas se inserem no GRUPO I (art. 60, I, “1”), ao qual se aplica o fator de pontuação 1, que não geram a obtenção de vantagem econômica em prejuízo dos consumidores, a qual se

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aplica o fator de pontuação de 1 - vantagem não auferida (art. 62, “a”), e a receita bruta da filial infratora, em 2010, de R$ 7.264.424,40 (sete milhões, duzentos e sessenta e quatro mil, quatrocentos e vinte e quatro reais e quarenta centavos) – (f. 39), sendo classificada como de médio porte, fixo a pena base em R$ 7.053,69 (sete mil, cinquenta e três reais e sessenta e nove centavos), nos termos do art. 65 da Resolução PGJ nº 11/2011.

Considerando que o fornecedor tem a seu favor uma circunstância atenuante, i.é, o fato de ser primário (Decreto nº 2.181/97, art. 25, II), diminuo a pena base em 50 % (cinquenta por cento), para R$ 3.526,85 (três mil, quinhentos e vinte e seis reais e oitenta e cinco centavos).

Considerando, ainda, a existência de uma circunstância agravante, ou seja, o fato de a infração causar dano coletivo (Decreto nº 2.181/97, art. 26, VI), aumento o valor em 50 % (cinquenta por cento), ficando em R$ 5.290,27 (cinco mil, duzentos e noventa reais e vinte e sete centavos).

Finalmente, o acréscimo de 1/3 (um terço), previsto no art. 59, § 3º, da Resolução PGJ nº 11, de 03/02/11, em substituição à soma das multas relativas às duas infrações, concretizo a sanção pecuniária do fornecedor em R$ 7.053,60 (sete mil e cinquenta e três reais e sessenta centavos).

ISSO POSTO, determino:

a) a intimação do fornecedor para recolher à conta do Fundo Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor, o valor da multa arbitrada, nos termos do art. 3º, inciso II, da Lei Complementar Estadual nº 66, de 22/01/03, ou apresentar recurso, no prazo de 10 (dez) dias, a contar de sua intimação (Decreto n. 2.181/97, arts. 46, § 2º e 49);

(14)

14

b) na ausência de recurso, ou após o seu improvimento, caso o valor da multa não tenha sido pago no prazo de 30 (trinta) dias, a inscrição do débito em dívida ativa, para posterior cobrança, com juros de mora de 1% (um por cento) ao mês e correção monetária, a contar da intimação da empresa (Decreto n. 2.181/97, art. 55);

c) na ausência de recurso, ou após o seu improvimento, a inscrição do infrator no Cadastro de Fornecedores, com a anotação de que a reclamação não foi atendida (Decreto n. 2.181/97, arts. 57 a 62);

d) a publicação, no Diário Oficial do Estado de Minas Gerais, para que surta os seus efeitos jurídicos, da parte dispositiva do “decisum” contida nas letras “a” a “c”.

Intime-se o fornecedor, através de seu advogado, por fac-símile, a cumprir a decisão administrativa, enviando o seu inteiro teor por e-mail, o que deve ser mencionado no ofício, com o endereço eletrônico respectivo.

Cumpra-se, na forma legal. PRI.

Belo Horizonte, 28 de agosto de 2012.

Amauri Artimos da Matta Promotor de Justiça Defesa do Consumidor Procon Estadual

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