4
Conclusão
Esta conclusão é na verdade uma síntese das conclusões parciais que foram apresentadas ao longo dos capítulos que compõe essa dissertação, e para ilustrar melhor este fechamento, proponho me ater àquele que foi de certa forma o fio condutor desta pesquisa: que foi a questão da utilização, produção e reprodução de estereótipos presentes no universo da homossexualidade masculina e a relação destes estereótipos com o imaginário deste universo.
A partir da análise da constituição da homossexualidade como uma forma de vivência subjetiva e dos discursos relacionados a ela, pude pensar na proliferação de categorias subjetivas que a subdividem, ressaltando, que essas categorias compreendem condutas relacionadas a ela como um todo, como, por exemplo, formas de relacionamentos afetivos entre pessoas do mesmo sexo, além de outras práticas culturais atribuídas a essa forma de subjetividade.
A partir desta constatação inicial, procurei estudar as formas subjetivas de apresentação da homossexualidade, que se mostraram extremamente ricas estética e visualmente, e que ao longo dos anos foram recorrendo a vários suportes gráficos para se proliferar, como revistas, livros, filmes, musicas, filipetas e mais recentemente os sites da Internet.
Na busca pelo material gráfico para compor o conteúdo desta pesquisa, me deparei com alguns estereótipos que vinham se repetindo há algum tempo nos meios gráficos de divulgação da homossexualidade masculina como o que ficou conhecido como estética beefcake por exemplo.
A figura do homem musculoso vem sendo uma imagem amplamente utilizada nos meios de comunicação ligados à homossexualidade masculina já há algumas décadas, constituindo um estereótipo conhecido informalmente como “barbie” que se mostra presente até a atualidade em diversos suportes.
Este estereótipo se propaga e se propagou em livros de bolso, novels, revistas gays de todos os tipos, e finalmente na Internet de “pegação gay”, cujas representações imagéticas foram o objeto desta pesquisa.
Vale lembrar que mesmo antes do advento da Internet esse estereótipo estava relacionado a representações voltadas para sexualidade, o desejo e o erotismo, o que viria a se reafirmar nos sites de busca de parceiros na Internet.
Porém, um aspecto muito interessante desta pesquisa surgiu da constatação da repetição do estereótipo barbie-beefcake, o fato é que a utilização constante deste estereótipo causava uma série de opiniões contraditórias sobre essa repetição por quem utilizava os sites.
A partir deste fato, decidi que era necessário obter informações vindas de quem utiliza esses meios sobre essa visível homogeneidade imagética e suas conseqüências, então, abordei o assunto nas entrevistas realizadas para levantar dados sobre os mecanismos de busca de parceiros.
Neste momento, para a minha surpresa, surgiram uma série de contradições sobre este assunto. O estereótipo barbie parecia causar uma certa “confusão” para esses rapazes. As informações ficavam incoerentes no que dizia respeito ao que se espera dessa “categoria”, de como eles são expostos e porque estão ali, e, além disso, surgiram uma série de valores e estigmas relacionados a esse estereótipo.
A denominação barbie parece estar relacionada ao desejo, a uma sexualidade e um erotismo latentes muito presentes nas revistas de conteúdo adulto voltadas para homossexuais masculinos, nos sites de busca de parceiros e nos meios de comunicação voltados a esse nicho de uma forma geral. Por outro lado também existe um caráter excludente àqueles que não se encaixariam neste estereótipo, e, além disso, existe uma crença de que todos aqueles que se encaixam neste seriam sempre pessoas promiscuas com quem não valeria a pena se relacionar afetivamente de forma mais estável. Porém nenhuma explicação mais concreta sobre o porquê desta constatação me foi oferecida por nenhum entrevistado. As coisas que me foram ditas sobre isso em muito pareciam com o depoimento a seguir: “barbie é tudo puta” ou então “se
relacionar com barbie é que nem sair com go-go48, são caras lindos que vivem
da noite, então é certo tomar chifre.”
Ao indagar aos rapazes nas entrevistas sobre esse assunto, alguns afirmavam procurar rapazes completamente diferentes do estereótipo barbie para namorar; porem passado algum tempo de entrevista, eles pareciam mudar de idéia e diziam só sair com homens que apresentassem essa aparência, ou fossem como os rapazes das homes dos sites. Um outro entrevistado afirmava que isso era uma “mentira” que só existia em revistas e sites, e depois afirmou: que “o abdome tanquinho e os braços malhados, você não vê só nos sites e nas
48 O entrevistado se referia aos go-go boys, dançarinos que atuam em algumas
boates gays da cidade dançando com pouca roupa em pedestais, ou pequenos palcos.
cidades litorâneas, vê nas boates gays do mundo todo”. Já outros diziam se encaixar no estereótipo, mas ressaltavam que não tinham nada a ver com o que se “espera” de uma “barbie”, que a aparência era somente um biótipo, e não uma postura ou um estilo de vida como muitos acreditavam.
Por outro lado, alguns rapazes – cuja aparência em muito remete ao estereótipo barbie-beefcake, mas jamais utilizaram essa nomenclatura para se identificar – afirmavam que os rapazes sem camisa que povoam as circuit parties é restrito e excludente, e que para ser aceito neste meio, é necessário o conhecimento de um código que vai um pouco além da aparência e dos músculos, porém pelo que pude ver tudo gira em torno do corpo, dos músculos, das roupas e dos acessórios que esses indivíduos utilizam.
No que diz respeito mais especificamente à Internet de busca de parceiros voltados para homossexuais masculinos pude chegar a algumas conclusões mais “perceptíveis”.
Quanto à produção e reprodução de estereótipos, pude notar que de um lado, a rede utiliza e adapta alguns estereótipos que existiam antes do advento da Internet e que eram veiculados em outros meios, como as revistas, livros, filipetas, vídeos e o cinema.
E, além disso, a Internet ainda reforçou outros estereótipos, dando a eles uma “cara nova”, porém da forma como estes se apresentam eles precisam da rede para “sobreviver” já que na maioria das vezes, surgiram da utilização que cada individuo deu para a Internet de busca de parceiros para homossexuais masculinos, e de todo um imaginário ligado a ela.
Alguns exemplos desses estereótipos são: “o ativo-bissexual” dos perfis dos sites. Esse estereótipo surgiu de uma “crença” criada entre usuários da internet de “pegação”. Ele funciona da seguinte forma: ao se preencher as opções de um perfil como ativo e bissexual, ou em alguns casos até heterossexual se denotaria um aspecto de virilidade, mesmo que fora da internet o individuo responsável por este perfil não exerça tais condutas ou papéis.
Portanto, o estereótipo do macho, ativo e viril que é exposto nos perfis da rede, se mostra distinto da vivência offline de muitos indivíduos que utilizam à rede. Um dos entrevistados deixou isso muito claro ao afirmar que ele sempre preenchia os seus perfis como ativo e bissexual, pois isso atrairia uma maior quantidade de parceiros, apesar de ser costumeiramente passivo em suas relações sexuais. Um outro rapaz me disse há poucos dias, (esses dados foram recolhidos informalmente fora do contexto da pesquisa, mas eles parecem bem pertinentes para serem utilizados aqui) que ele preenchia seus perfis sempre
marcando a opção heterossexual, pois segundo ele: “como pode um homem do meu tamanho colocar no perfil, nem dá, gay é coisa de viadinho, não tem a ver com meu porte e aparência”.
No que diz respeito às possíveis razões para a utilização, ou a constituição desses estereótipos no meio virtual, pode-se relacioná-los diretamente ao propósito da Internet de “pegação gay”: as imagens estão ligadas à utilização que é feita da rede, ou seja, a obtenção de um parceiro em um curto período de tempo para a realização de uma relação sexual, ou qualquer estímulo de natureza sexual que venha a ser consumado seja dentro ou fora da rede.
Outro aspecto pertinente sobre a utilização da rede, está nas diferenças entre as formas de relacionamento que acontecem dentro e fora dela. A primeira constatação que fiz com nas entrevistas relacionadas a este detalhe da rede foi que a maioria dos rapazes a consideram um canal eficaz para a obtenção de sexo casual, sendo apenas uma variante da “pegação” de rua nesse sentido. Outros homens diziam que a rede serve apenas para uma estimulação sexual sem um parceiro presente, seja somente para masturbação ou para o “despertar da sexualidade” como disse um dos entrevistados. E existe uma outra pequena parcela de entrevistados que afirmava utilizar a rede para procurar um relacionamento mais sério ou estável.
Portanto, é quase unânime entre os indivíduos que entrevistei que a rede seria um canal para relacionamentos sexuais esporádicos, enquanto o “offline” poderia possibilitar um encontro que viria a se tornar um relacionamento mais estável.
Assim, a larga homogeneidade imagética da rede, está relacionada diretamente à utilização que é feita dela.
Mas quanto aos estereótipos que estão na rede sinalizando a existência desses mecanismos de busca – imagens de homens seminus, com o tórax a mostra, rapazes de sunga ou cueca, muitos músculos e pouca roupa e em alguns casos fotos de relações sexuais sendo consumadas – pode-se pensar neles como uma espécie de “sinal” que está sempre ligado a um erotismo e que de certa forma o reforça e impede a sua desconstrução, uma vez que ele completa um ciclo próprio e praticamente “inquebrável” do “mundo do tudo pode”. Como esse ciclo funciona? Ao se utilizar imagens estereotipadas que remetam a uma sexualidade e/ou erotismo aposta-se na garantia do bom funcionamento e freqüência desses sites, que na maioria das vezes, são construídos com o intuito de se obter lucro financeiro pelo criador do site e dependem do usuário pagante para prosperar. A utilização de imagens que não
utilizem esses “recursos” é mal vista por usuários e segundo eles seria garantia do fracasso, dessa forma a desconstrução desse ciclo e a não utilização desses estereótipos seria muito improvável.
Portanto, este “mundo do tudo pode” constitui um universo aberto de imagens, imaginários, designs e estereótipos, todos atendendo a alguns propósitos específicos na “proliferação” de aspectos culturais da sexualidade homossexual masculina e também de algumas de suas práticas. O que é chamado aqui de “mundo do tudo pode” vai desde a estimulação sexual pela observação de fotos dentro ou fora da Internet, à realização de alguns desejos sexuais, ou se mostra somente como um lugar para se exercer alguma forma de erotismo ou paquera que, antes da existência da Internet, ficava limitada a alguns espaços fora da rede – festas, encontros de amigos, boates talvez – e que já há alguns anos, vem tomando uma dimensão bem mais ampla devido às fronteiras mais abertas da Internet.
Uma das questões mais interessantes a meu ver sobre o desdobramento desta pesquisa e os possíveis rumos que podem ser tomados a partir do que foi questionado aqui, é a constatação que o “uso consciente” dos estereótipos respeitando o “politicamente correto”, por exemplo, não é a única maneira de se pensar na questão da utilização dos estereótipos pelo design e, ou como ferramenta de criação pelos designers. Aqui a utilização deles acontecia como chamariz, ou sinalizador de diversos aspectos, o que me levou a crer que seria realmente impossível “escapar” da utilização da estereotipia como a forma de apresentação de personagens relacionados a alguma cultura específica, por exemplo. E seria “ingênuo” acreditar que essa repetição é algo descuidado ou “mal intencionado”, às vezes é se trata somente uma solução interessante, ou funcional do ponto de vista do design.