AUGUSTO BOAL E O TEATRO DO OPRIMIDO
Kauê Pedroso Gonçalves (G – UENP/CCHE) [email protected]
Meline Lopes Pinheiro (G – PIC – UENP/CCHE)
[email protected] Luciana Brito (UENP/CLCA) [email protected]
O presente trabalho tem o objetivo de explicar quem foi o dramaturgo, teatrólogo e diretor de teatro Augusto Boal que, influenciado pela obra de Paulo Freire, cria o método “Teatro do Oprimido”, teatro social que não vê diferença entre ator e espectador (Espect-Ator) e ensina fazer teatro por meio de quatro passos que fazem uso de jogos simples que podem ser utilizados nos mais diversos contextos. Além de ser um dos mais conhecidos métodos teatrais criado a baixo da linha do equador, praticado em mais de cinqüenta países e traduzido para vinte idiomas, pode ser praticado por cidadãos comuns e não só por aqueles que estudam e fazem uso da arte teatral. O método de Boal entende o teatro como instrumento de emancipação política que deve ser usado nas mais variadas áreas, seja educação, saúde mental, sistema prisional, dentre outros.
Augusto Boal é um dos grandes nomes do teatro brasileiro e mundial, sendo reconhecido principalmente pela inovadora visão no que diz respeito ao fazer teatral. Em uma de suas primeiras obras, Teatro do oprimido e outras poéticas políticas, explica:
“Teatro” era o povo cantando livremente ao ar livre: o povo era o criador e o destinatário do espetáculo teatral, que se podia então chamar “canto ditirâmbico”. Era uma Festa em que podiam todos livremente participar. Veio a Aristocracia e estabeleceu divisões: algumas pessoas iriam ao palco e só elas poderiam representar enquanto que todas as outras permaneceriam sentadas, receptivas e passivas: estes seriam os espectadores, a massa o povo. (BOAL, p. 14 1983)
Pretendemos expor um pouco da metodologia do “Teatro do oprimido e outras poéticas políticas” apontando suas quatro etapas de desenvolvimento e, além disso,
instrumento de reflexão histórico critica pratica pedagógica e interação social” (USF) funciona com a práxis das teorias de Augusto Boal.
1 – Quem é Augusto Boal?
Augusto Pinto Boal, Carioca, filho de padeiro estudou Engenharia Química na UFRJ. Em 1950, vai à Nova York fazer seu PHD em Engenharia química na Universidade de Columbia. Lá ele também estuda dramaturgia na School of Dramatics Arts, com John Gassner, professor de Tennessee Williams e Arthur Miller. No mesmo período também assistia o Actors Studio.
Em 1956, Boal volta ao Brasil a convite de Sábato Magaldi e José Renato e então passa a ser diretor do Teatro Arena-SP, e logo em sua primeira direção, com Ratos e Homens de John Steinbeck, ganha o APCA de melhor direção.
Boal, em 1962, passa a gerir o teatro ARENA e juntamente com o grupo de teatro começa a abrasileirar clássicos como A Mandrágora de Maquiavel, assim seguindo o caminho antagônico do TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, que somente reproduziam as visões clássicas.
Com o decreto do AI o5, instituído em 1968, o grupo do teatro Arena passa a apresentar nos Estados Unidos, México, Peru e Argentina. Em 1971, Boal é preso, torturado e exilado na Argentina, lá ele cria o teatro invisível, e passa a ser incomodo também, então segue para o Peru e passa a aplicar o teatro fórum para alfabetizar. Em seguida vai ao Equador e aplica o teatro imagem com os índios, após a jornada latina vai à Europa e passa por alguns países até que chega à França, onde descobre o “teatro psicológico”, quando desenvolve o “Arco-íris do desejo”.
Em 1979, regressa temporariamente ao Brasil já com a técnica do teatro do oprimido desenvolvida e passa a doutrinar as pessoas com suas técnicas, o que o leva a publicar em 1983 o livro Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas, baseado na Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.
Com o termino da ditadura Militar em 1985, Boal retorna em 1986 e funda o CTO – Centro de teatro do Oprimido que continua em funcionamento até hoje, nesse período de tempo é eleito vereador do RJ pelo PT. Em 1996 passa a aplicar o “teatro legislativo”. É
indicado ao Nobel da paz em 2008 e é nomeado embaixador do teatro pela UNESCO em março de 2009. Meses depois, em dois de maio de 2009, aos 78 anos, morre de leucemia.
2 – Sobre a Metodologia
2-1 A Árvore do teatro do oprimido
Antes de chegarmos à metodologia de Augusto Boal é fundamental conhecer a árvore do teatro do oprimido para que a “Estética do Oprimido” seja ilustrada. A árvore é o símbolo escolhido por Boal, por estar em constante transformação e ter a capacidade de Multiplicação, da mesma forma que todos os seres humanos. Vejamos:
BOAL, 2004
Para que o TO aconteça, as raízes da árvore devem estar sustentadas em uma boa terra, ou seja, cheia de vitaminas importantes que são: ética, filosofia, política, ecologia, história, sociologia e economia.
Em seguida vem às raízes externas que são: jogos e conhecimentos relacionados à imagem, bem como os sons e palavras que desenvolvem nos praticantes a vontade de fazer teatro. A partir de então o ator também passa a ter conhecimento do corpo e do todo que o envolve.
O caule da árvore é o coração da planta, e ocorre quando o praticante de TO já começa a dominar a técnica utilizando a dramaturgia simultânea, surgindo o teatro imagem e o teatro fórum, como instrumentos de bom emprego do processo.
Esse caule chega à copa da árvore, local das folhas, flores e frutos, que em suma são o objetivo do TO. Em seguida vem o “Teatro Jornal”, “Teatro Legislativo”, “Teatro Invisível” e “Arco-íris do desejo”, que são ações concretas e que possibilitam que as pessoas sejam o fruto e as sementes dessa ideologia que, ao ser levada a outro lugar, fecunda uma próxima árvore de teatro do oprimido. Em seguida, os frutos dão sementes e ajudam na multiplicação do método.
2-2 O Sistema trágico coercitivo de Aristóteles
Para melhor conhecer o método, é necessário conhecer o sistema antigo e tradicional combatido por Boal, baseado em Bertold Brecht. Vejamos:
Nesse sistema, entre a personagem teatral e o espectador acontece a empatia que nada mais é que certa simpatia de um para o outro. A personagem é dividida em dianóia (Conhecimento/razão a partir de premissas) e ethos (valor de identidade social), e o espectador em ethos e razão, ambos até aqui são semelhantes e é aí que entra em jogo o sistema, pois o protagonista da peça segue boas tendências (setas que apontam para a esquerda), conforme as leis e normas da sociedade, até que ocorra harmatia (falha trágica, conflito entre a personagem e as leis e regras da sociedade, representada pelas setas que apontam uma para a outra).
Na primeira etapa do método Aristotélico, a personagem tem seu destino todo alterado (peripécia) decorrente de sua harmatia, espectador nesse estágio recebe a mensagem de seguir as leis e ordens sociais, para preservar seu destino.
Já na segunda etapa, anagnorisis, é o momento em que o protagonista toma conta de seu erro para com a sociedade, já o espectador observa o erro do protagonista e fica alerta quanto as normas já impostas, para não cometer o mesmo erro.
Na terceira etapa (catástrofe), o protagonista da peça é punido drasticamente, em geral não morre para que os espectadores sintam a catarse e passem a seguir a mensagem da peça, que é a purificação da harmatia.
Os meios de comunicação em geral usam desse método para induzir as pessoas a consumir, e seguirem as leis a risca, mas o teatro do oprimido consegue ensinar ao povo como combater esse tipo de alienação a partir dos jogos em suas quatro etapas.
2-3 Para a execução do método de Boal
Antes da execução do método é necessário que fique bem claro que no método de Boal não existe a figura isolada do Ator e nem do Espectador, o que existe é a fusão dos dois Ator+Espectador = Espect-Ator. E é por isso que toda a metodologia deve ser aplicada em todos.“O Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos os seres humanos são atores - porque atuam - e espectadores - porque observam. Somos todos 'espect-atores'“. (BOAL, 2006)
Para que o método aconteça se faz necessária a aplicação de alguns jogos e dinâmicas que são explicados a seguir:
1 – Conhecimento do corpo (desmecanização): Os seres humanos tendem a mecanizar seus corpos todos os dias. Sentam da mesma forma, seguem os mesmo caminhos, falam, expressam e inclusive pensam de maneira mecânica. Daí a necessidade de conhecer primeiro o corpo para depois saber seus limites.
2 – Tornar o corpo expressivo: Depois de conhecer o corpo, é preciso aprender a usá-los com jogos teatrais que não usam da fala para a prática, mas sim o corpo e a mente.
3 – Teatro como Linguagem: Existem diversos tipos de linguagem (falada, escrita, cinema, musica, libras) e o teatro não foge à regra, pois é uma linguagem que permeia todas as outras. Nesta etapa existem três graus: 1º Dramaturgia simultânea, 2º Teatro Imagem, 3º Teatro Fórum. Passando pela última etapa, a pessoa já está apta para discursar utilizando-se do teatro. 4 – Teatro como Discurso: Depois de muitos exercícios, o discurso do Espect–Ator começa a ser formado, e ele passa a ser cidadão ativo crítico. Então, quanto mais pessoas se apropriam do método e já tem ele como discurso passam a ser sujeito ativo no mundo, fazendo a diferença.
Podemos mesmo afirmar que a primeira palavra do vocabulário teatral é o corpo humano, principal fonte de som e movimento, por isso, para que se possa dominar os meios de produção teatral, deve-se primeiramente conhecer o próprio corpo para poder depois torná-lo mais expressivo. Só depois de conhecer o próprio corpo e ser capaz de torná-lo mais expressivo, o “espectador” estará habilitado a praticar formas teatrais que, por etapas, ajudem-no a liberar-se de sua condição de “espectador” e
assumir a de “ator”, deixando de ser objeto e passando a ser sujeito, convertendo-se de testemunha em protagonista. (BOAL, p. 143, 1983)
Em sua obra Jogos para atores e não atores editada em 2000, Boal muda um pouco a metodologia antes proposta, trabalhando as emoções, ensinando a estrutura dialética da interpretação firmada em Brecht, e igualmente ensina a ativar os vários sentidos, sentir tudo que se toca, escutar tudo que se ouve, ver tudo que se olha, ou seja, a teoria da memória dos sentidos fundamentada em Stanislavski, que acaba por ser somente a atualização do método de 1983.
3 – Aplicações em forma de Extensão Universitária
Em 2010, em Andirá/PR, os bolsistas do projeto “Teatro: instrumento de reflexão histórico-crítica, interação social e prática pedagógica”, vinculados ao programa Universidade Sem Fronteiras, iniciaram a Práxis do método de Boal com os estudantes da EFMP COLÉGIO ESTADUAL STELLA MARIS, e também com adolescentes do programa PRÓ-JOVEM (Programa de Reinserção de Jovens no Meio Social).
Passando as etapas propostas no livro de 1983 de Boal, Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas, todas as etapas foram documentadas por fotografias e vídeos que podem ser visualizados no blog do projeto http://teatrousf.blogspot.com/.
Os adolescentes da escola já se apropriaram do método e já são frutos da árvore do teatro do oprimido, juntamente aos universitários, criaram uma companhia de teatro chamada ATO – Atores de Teatro do Oprimido.
O Grupo ATO já possui duas sedes, uma em Andirá (grupo que está em processo criativo com a peça de teatro no sistema teatro jornal “EXTRA EXTRA VERDADES INCONVENIENTES” a ser apresentada ainda em 2010), e outra sede em Jacarezinho, sendo que no seminário Só Letras 2010, adaptou/apresentou A Tempestade de Shakespeare fazendo uso de muitas das técnicas teatrais de Augusto Boal e Bertold Brecht.
Caminhar não é fácil! As sociedades se movem pelo confronto de forças, não pelo bom senso e justiça. Temos que avançar e, a cada avanço, avançar mais, na tentativa de humanizar a Humanidade. Não existe porto seguro neste mundo, porque todos os portos estão em alto mar e o nosso navio tem leme, não tem âncoras. Navegar é preciso, e viver ainda mais preciso é, porque navegar é viver, viver é navegar! (BOAL - Belém do Pará - 31 de Janeiro de 2009)
A práxis da teoria de Augusto Boal de fato funciona, desde que sejam colocadas em prática com didática na dose certa. Alem disso, as etapas devem ser seguidas e intercaladas com discussões sobre os problemas e soluções dentro da realidade de cada um para que o cidadão passe a exercer seu papel na sociedade, questionando, lutando, ativamente para assim desempenhar a democracia, em seu real sentido.
Sonho com o dia em que no Brasil inteiro, e no inteiro mundo, haverá em cada cidade, em cada povoado ou vilarejo, um Ponto de Cultura onde a cidadania possa criar e se expressar pela arte, afim de compreender melhor a realidade que deve transformar. Nesse dia, finalmente, terá nascido a Democracia [...] (BOAL - Belém do Pará - 31 de Janeiro de 2009)
Se cada grupo de teatro do oprimido caminhar/navegar por conta, ou seja, fizer sua parte, também produzirá sementes, essa movimentação cultural popular somente tenderá ao crescimento e proliferação de árvores de teatro do oprimido. Tais mudanças possibilitarão, junto às políticas públicas das Cidades, Estados e Nação, o fomento e criação de pontos de cultura, que em contrapartida poderão favorecer o resgate cultural bem como a formação de cidadãos com sede de cultura.
Seguindo a linha histórico-cultural, valorizando a cultura das variadas regiões, sob um enfoque de didática histórico crítica, contribuindo para a formação do cidadão ominilateral, encerra-se essa discussão com as palavras de Augusto Boal.
Ser cidadãos, meus companheiros, não é viver em sociedade: é transformar a sociedade em que se vive! (BOAL - Belém do Pará - 31 de Janeiro de 2009)
Referencia Bibliográfica
BOAL, Augusto. 200 exercícios e jogos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
_____________. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. 4ª Ed. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 1983.
_____________. Técnicas Latino-Americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário. 2ª Ed. São Paulo: Hucitec, 1984
_____________. Jogos para atores e não atores. 11ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
_____________. Árvore do Teatro do Oprimido. International Theatre of the Oppressed Organisation (ITO). 2004. Disponível em:
http://www.theatreoftheoppressed.org/en/index.php?nodeID=200 20. Set. 2010.
GONÇALVES, Kauê Pedroso; PINHEIRO, Meline Lopes. TEATRO E CULTURA LATINO-AMERICANA: METODOS DE ENSINO DA FILOSOFIA DA LIBERTAÇÂO. In: X CONGRESSO DE EDUCAÇÂO DO NORTE PIONEIRO Jacarezinho, 2010, Anais. UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná – Centro de Ciências Humanas e da Educação e Centro de Comunicação e Artes. Jacarezinho, 2010, ISSN – 18083579. P. 671 – 679
http://ctorio.org.br acesso 20. Set. 2010
Para citar este artigo:
GONÇALVES, Kauê Pedroso; PINHEIRO, Meline Lopes; BRITO, Luciana. Augusto Boal e o teatro do oprimiro. In: VII SEMINÁRIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA SÓLETRAS - Estudos Linguísticos e Literários. 2010. Anais... UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná – Centro de Letras, Comunicação e Artes. Jacarezinho, 2010. ISSN – 18089216. p. 389 – 397.