Selecção de Ferramentas CASE
Este artigo pretende constituir uma ajuda para o processo de avaliação e selecção de ferramenta CASE (Computer Aided System Engineering). Dada a grande variedade de categorias deste tipo de ferramentas existentes no mercado, não vamos deter-nos com a sua exposição, uma vez que será certamente objecto de outros artigos orientadosespecificamente para esse fim. Leonel Miranda
Em termos concretos, este artigo começa com a justificação do surgimento de normas internacionais e termina a sublinhar a importância da sua aplicação, mesmo quando a tarefa consiste em avaliar e
seleccionar ferramentas CASE. Pelo meio apresentamos a norma ISO/IEC 14102 (publicada especificamente para a orientação de processos de avaliação e selecção de ferramentas CASE) e
decompomos o processo numa dúzia de passos lógicos que poderíamos classificar do domínio do senso comum (embora sejam frequentemente esquecidos).
Na década de 80, as empresas começaram a ser confrontadas com a necessidade de fazer face a uma maior concorrência e a um mercado cada vez mais globalizado. Paralelamente, a gestão da qualidade foi ganhando terreno para adequar o software às exigências dos consumidores. Os novos modelos de gestão preconizam uma orientação para os processos e para o cliente. A ideia de qualidade na óptica da empresa deu lugar à ideia de qualidade na óptica do cliente.
A gestão da qualidade envolve algumas práticas fundamentais. Em primeiro lugar, obriga a que se conheça e compreenda o processo que está a ser utilizado. Em segundo lugar, é necessário proceder a medições e análises constantes para avaliar a situação a cada momento e proceder a eventuais correcções.
Em finais da década de 80 começaram a surgir as normas ISO 9000, numa tentativa da Organização Internacional para a Standardização fixar bases internacionais comuns relativamente aos requisitos que é necessário cumprir para garantir determinados níveis de qualidade por parte dos fornecedores. Com a crescente importância assumida em todo o mundo pela indústria de software, começaram a surgir as chamadas normas e modelos de qualidade, melhoramento de processos e capacitação, publicadas pela ISO e por outros organismos internacionais.
Norma ISO/IEC 14102
Relativamente às ferramentas CASE em particular, a ISO publicou a norma ISO/IEC 14102, que fornece linhas orientadoras para a avaliação e selecção deste tipo de ferramentas. Mais concretamente, esta norma pretende ajudar os compradores a identificar os requisitos organizacionais para as ferramentas CASE e a estabelecer a correspondência desses requisitos com as características das ferramentas a serem avaliadas. A ISO/IEC 14102 também descreve um processo para seleccionar as ferramentas CASE mais apropriadas a partir de um conjunto de propostas existentes no mercado.
O facto da ISO se preocupar com a publicação de uma norma orientada
especificamente para a avaliação e selecção de ferramentas CASE, atesta bem a importância que tais ferramentas têm na engenharia de software. Normalmente, são apresentadas como um elemento chave para o controlo de processos de engenharia de software. A sua escolha assume assim uma enorme importância para qualquer organização, que deve ter em conta, não só os requisitos técnicos, mas também os aspectos de gestão.
As empresas de software precisam de dispor de um método para seleccionar as ferramentas CASE mais adequadas às suas necessidades. Para isso, precisam de compreender como é que essas ferramentas interagem no processo de
desenvolvimento e conhecer os seus pontos fracos e fortes. O acompanhamento das tendências internacionais que estão a ser seguidas nesta área também pode contribuir para a melhoria da decisão a tomar.
Os processos definidos pela norma ISO/IEC 14102 pretendem orientar qualquer empresa que pretenda automatizar o ciclo de vida do desenvolvimento de software, tendo sempre em vista a obtenção de produtos de qualidade. Desta forma,
contempla o modelo de avaliação de produtos de software, as características de qualidade desses produtos e os processos do ciclo de desenvolvimento.
Face ao que já foi dito, a norma ISO/IEC 14102 apresenta-se como sendo de grande utilidade para ambas as partes envolvidas num negócio de software: o cliente e o fornecedor. As vantagens para o cliente advêm do facto de poder avaliar com maior conhecimento de causa os produtos de software que vai comprar, os processos de desenvolvimento utilizados pelo fornecedor e as próprias características do produto. O fornecedor poderá beneficiar da norma para automatizar o ciclo de vida de desenvolvimento, melhorando a qualidade do software final e, consequentemente, a satisfação dos seus clientes (potenciando assim o seu negócio).
Como acontece com praticamente todas as normas de carácter internacional, a ISO/IEC 14102 estabelece processos e actividades bastante genéricos, que precisarão de ser adaptados em função de cada caso específico. Os processos previstos são quatro:
• Processo de Iniciação, • Processo de Estruturação, • Processo de Avaliação, • Processo de Selecção.
O Processo de Iniciação destina-se ao estabelecimento de objectivos e requisitos para a avaliação e selecção. As actividades previstas neste processo envolvem a definição de metas, o estabelecimento de critérios de selecção e o planeamento do projecto.
O Processo de Estruturação destina-se a organizar os requisitos que servirão de base à avaliação das ferramentas CASE. Prevê assim a elaboração de um conjunto de requisitos estruturados e a recolha de informação exaustiva sobre as ferramentas existentes no mercado. Muitas empresas (sobretudo as multinacionais) têm regras internas que é obrigatório (ou fortemente recomendado) ter em conta neste processo. As tarefas envolvidas no processo de estruturação são a análise de requisitos, a
recolha de informação sobre as ferramentas CASE existentes no mercado e a identificação das ferramentas a considerar para a avaliação posterior. O Processo de Avaliação envolve a elaboração de relatórios destinados a fundamentar a selecção da ferramenta. Em princípio, cada ferramenta será objecto de avaliação pormenorizada que dará origem a um relatório técnico que a disseque o mais exaustivamente possível (tendo em conta todas as variáveis que forem
consideradas importantes para cada caso). As actividades previstas neste processo são a elaboração de um plano com os detalhes de avaliação, a avaliação
propriamente dita das ferramentas e a elaboração de relatórios que retratem os resultados da avaliação.
O Processo de Selecção destina-se a identificar a ferramenta mais adequada a cada caso concreto, garantindo que a mesma responde aos objectivos definidos inicialmente. As actividades envolvidas neste processo são a preparação para a selecção, a aplicação dos resultados da avaliação, a recomendação da decisão e a validação da decisão final.
Para além destes quatro processos, a norma ISO/IEC 14102 prevê a avaliação de outros aspectos relacionados com o processo de desenvolvimento de software, com a utilização das ferramentas, com a qualidade, com os fornecedores e com os produtos propriamente ditos.
A importância de recorrer à norma ISO/IEC 14102 tem a ver sobretudo com uma questão de segurança para quem decide. Uma vez que a norma constitui um guia para o processo de avaliação e selecção de ferramentas CASE, os decisores asseguram-se que todo o processo vai ser bem planeado e organizado. Por sua vez, as empresas obterão a garantia de que os seus investimentos ficam protegidos ao abrigo de uma decisão baseada no processo recomendado pela norma.
A grande oferta de ferramentas CASE e a complexidade de um processo de avaliação e escolha das mesmas, assim como a importância que assumem estas ferramentas no desenvolvimento de software, estiveram certamente na base do surgimento da norma ISO/IEC 14102. Ė necessário ter bastante cuidado no estabelecimento de critérios de selecção para garantir que os objectivos do comprador são satisfeitos.
A utilização de uma norma internacional de referência e com provas dadas, permitirá aumentar a confiabilidade da tomada de decisão e aumentar as hipóteses de que o comprador irá obter as vantagens inerentes à automatização do processo de desenvolvimento de software.
Uma dúzia de passos a seguir no processo de aquisição
A adopção de uma ferramenta CASE tem sempre como objectivo melhorar de alguma forma o desenvolvimento de software. Os passos que apresentamos a seguir são meramente indicativos e, apesar de termos procurado seguir uma ordem lógica, alguns deles poderão ser seguidos de acordo com outra ordem, se apropriado. Convém referir igualmente que os passos propostos não estão em contradição em com a norma ISO/IEC 14102, nem a pretendem substituir.
O primeiro passo a dar pelos compradores será perceber até que ponto uma ferramenta CASE poderá melhorar o seu processo de desenvolvimento de software. Para isto é necessário saber o que estas ferramentas podem fazer e em que medida a organização beneficiará com a utilização de tais ferramentas. Ou seja, as
organizações candidatas à compra de ferramentas CASE terão que definir aquilo que pretendem de uma ferramenta deste tipo e em que medida os benefícios dessa utilização irão permitir rentabilizar o investimento.
Depois desta ideia geral, caso se decida avançar mais no sentido da aquisição de uma ferramenta CASE, o comprador deverá avançar para o segundo passo: efectuar um levantamento das principais ferramentas existentes no mercado.
Seguidamente (terceiro passo) será necessário considerar os fornecedores de cada uma dessas ferramentas identificadas: se é o próprio fabricante ou se é um
distribuidor, se o fabricante está instalado no país, qual o relacionamento entre o fabricante e o distribuidor, qual a solidez financeira do fornecedor, assistência, base instalada (nacional e internacional, etc.).
O quarto passo consistirá no estudo das ferramentas consideradas. Isto pode ser conseguido, por exemplo, através do contacto directo com os fornecedores,
demonstrações, acesso a informação técnica de carácter comercial, ou contacto com outros utilizadores. Haverá toda a vantagem em conjugar vários destes aspectos. Quanto maior for a quantidade e a qualidade da informação recolhida, melhores serão as decisões tomadas.
Chegados a este ponto, será necessário avançar para o quinto passo: aprovação da administração para avançar com o processo de compra. Para essa aprovação, os dados recolhidos nos passos anteriores são essenciais, uma vez que permitirão apresentar um plano de custos e vantagens das ferramentas CASE para a
organização, considerando a realidade presente do processo de desenvolvimento e as vantagens que poderiam advir da adopção de uma ferramenta CASE. A
quantificação das diferentes variáveis em jogo (incluindo os benefícios) permitirá diminuir a subjectividade do processo de aquisição e aumentar a compreensão (e consequente adesão) por parte dos gestores.
O sexto passo consistirá na identificação dos requisitos a que deverá responder a ferramenta a adquirir. Neste passo deverão ter-se em conta aspectos como as necessidades concretas da organização, o know-how dos futuros utilizadores da ferramenta, as necessidades futuras de formação, o orçamento disponível para uma tal aquisição, a rentabilização do investimento, o impacto que a ferramenta irá ter na organização ou na área de desenvolvimento (impacto a nível da infra-estrutura, a nível humano e a nível organizacional). Também será útil considerar outros
processos de selecção já realizados por empresas similares. A experiência de outras entidades poderá alertar-nos para aspectos não considerados.
O sétimo passo poderá ser a comunicação do processo de compra a toda a organização ou, pelo menos, a todas as áreas e pessoas que sejam (de alguma forma) atingidas pelo processo. Este passo não precisa de ser necessariamente o sétimo, mas deverá acontecer o mais cedo possível no processo de aquisição – a partir do momento em que se obtém autorização da administração de topo para avançar com processo. Este passo deverá considerar igualmente o envolvimento das pessoas no processo de decisão, uma vez que o seu contributo poderá ser
determinante (mesmo que não o seja, será importante o envolvimento para conseguir a adesão ao processo e a aceitação da decisão final). A comunicação é importante para contrariar a tendência generalizada para a resistência (maior ou menor) à mudança.
Num oitavo passo poderá haver a instituição formal de uma comissão de selecção da ferramenta CASE. Talvez seja mais conveniente colocar este passo logo no início de todo o processo ou depois da aprovação por parte da gestão de topo. Compete a cada organização escolher a melhor altura para dar este passo ou decidir se prefere instituir simplesmente uma ou algumas pessoas para liderarem o processo, em vez da constituição formal de uma comissão. Seja como for, um dos aspectos chave destas pessoas será atribuir valores aos requisitos identificados atrás, a fim de facilitar o processo de avaliação de cada ferramenta (valorizar mais os aspectos que são mais importantes e menos aquilo que é menos importante para cada caso concreto).
Nesta etapa do processo de escolha de uma ferramenta CASE já se poderá avançar para a avaliação (nono passo). Ė verdade que já foi feita uma avaliação preliminar, mas o que se pretende agora é envolver também o fornecedor. Este envolvimento deverá passar por duas vertentes. Por um lado, pela consulta directa do fornecedor, no sentido de verificar se as ferramentas consideradas respondem a todos os requisitos (desejáveis e obrigatórios). Por outro lado, pela demonstração (por parte
dos fornecedores) da facilidade de implementar as características mais importantes, tendo em vista o alcance das metas e objectivos definidos.
Depois de identificadas as características das ferramentas – de forma independente e envolvendo os fornecedores – e valorizadas de acordo com o exposto no oitavo passo, falta somar os pontos para obter uma classificação final de cada ferramenta (o que constituirá o décimo passo). Essa classificação final irá ser determinante para a decisão a tomar. Note-se que a classificação obtida se baseia na valorização atribuída a cada um dos requisitos identificados, de acordo com a importância de cada um deles para as necessidades concretas da empresa.
Haverá ainda dois passos suplementares a considerar para a conclusão do processo de escolha e aquisição. O décimo primeiro passo será a elaboração do relatório final para fundamentar a decisão de compra. Mais do que elaboração, deverá ser uma montagem dos resultados obtidos ao longo do processo. O décimo segundo
passo será a oficialização da decisão final de compra de uma ferramenta CASE
concreta.
Notas importantes em jeito de conclusão
A norma ISO/IEC 14102 pode desempenhar o papel de organizadora de
conhecimentos prévios e de orientadora dos processos a realizar, funcionando como uma base de referência para o levantamento de requisitos técnicos e comerciais – para a avaliação das ferramentas CASE é necessário ter em conta as características do produto e as características do fornecedor.
Ao longo de todo o processo de selecção também é fundamental manter
permanentemente o sentido de finalidade. Este enfoque constante nos objectivos permitirá evitar desvios provenientes das restrições impostas por conhecimentos necessariamente fragmentados e resultantes da experiência passada dos envolvidos. A ISO/IEC 14102 chama explicitamente a atenção para esse facto, ao sugerir que os resultados da avaliação deverão ser sempre confrontados com os objectivos definidos.
Paralelamente à componente racional implícita a qualquer processo de selecção e decisão, os compradores terão que considerar também a indispensável componente de legitimação do processo. Um processo de avaliação e selecção deverá pautar-se por fundamentos sólidos: imparcialidade, objectividade, possibilidade de repetição. Apesar das inegáveis vantagens da utilização da norma ISO/IEC 14102, esta também pode ser a origem de alguns problemas. Um dos mais comuns é a dificuldade de interpretação das características referidas pela norma. A resolução deste tipo de situações pode ser conseguida através da constituição de uma base de entendimento, colocando o acento tónico nos objectivos da selecção e numa compreensão comum da norma.
O passo da comunicação (sétimo) deverá promover uma discussão alargada sobre todo o processo e a forma como está a ser conduzido. Este tipo de acção destina-se a minimizar eventuais mal entendidos e a estabelecer uma visão convergente – aspectos fundamentais para a imprescindível validação do processo.
Tel: (+351) 239 497 230 / 2 • Fax: (+351) 239 497 231
E-mail: [email protected] • Internet:www.engenharia-software.com