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17 GARGALOS COMPORTAMENTAIS

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Academic year: 2021

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GARGALOS COMPORTAMENTAIS

17.1 Os gargalos e as restrições

Até os anos 80, as idéias de Goldratt eram conhecidas como o sistema OPT –

Optimised Production Technology, que incorporava conceito de gargalo físico (bottleneck).

Somente a partir da década de 80 foi criada a denominada teoria das restrições e o gargalo passou a assumir um conceito mais abragente, sendo denominado de restrição (constrainst). A idéia de restrição assume então uma conotação mais ampla, incorporando tanto restrições físicas como de políticas empresariais. Uma restrição de maneira geral compreende tudo aquilo que pode impedir a empresa de alcançar a sua meta.

As restrições mais complexas de se lidar no ambiente empresarial, não são as restrições físicas: são as restrições políticas e comportamentais. As restrições de política e as restrições de comportamentos permeiam a empresa como um todo, sendo incorporadas no modelo de gestão empresarial estruturado pelas crenças e valores da organização, se materializam nos processos gerenciais de planejamento e controle, nos processos de negócios e nos instrumentos operacionais e de gestão.

17.2 Porque a contabilidade gerencial pode ser um gargalo

Existe no atual ambiente um conjunto de características que constituem-se em fatores indutores de processos de mudanças nas empresas. As empresas têm sido provocadas a efetuar mudanças na sua forma de atuação, no seu modelo de gestão de negócios e nos seus instrumentos gerenciais. A contabilidade gerencial utilizadas pelas empresas, no entanto, pouco tem se modificado. Diversos pesquisadores têm alertado para o problema do que se pode denominar do gap da contabilidade gerencial, ou seja, a diferença que existe entre a teoria e a prática da contabilidade gerencial.

Estudiosos afirmam que o conhecimento teórico no âmbito da contabilidade gerencial é fortemente orientado pela teoria neoclássica da firma e que essa teoria se constitui em referencial teórico insuficiente para explicar o desenvolvimento de sistemas de contabilidade gerencial. A teoria da contabilidade gerencial estruturada com base na visão econômica neoclássica da firma, foca a contabilidade como um produto do comportamento puramente racional dos indivíduos na empresa, que buscam maximizar o lucro da empresa através da geração de informações eficazes.

O pressuposto da racionalidade econômica dos indivíduos considera que estes estarão sempre tomando decisões racionais. Nesse sentido as demais dimensões que cercam o ser humano, principalmente a psicológica e a sociológica, são desconsideradas na análise econômica clássica. A partir da premissa da racionalidade dos indivíduos, a contabilidade gerencial tem a missão de prover informações adequadas e induzir comportamentos para que os tomadores de decisões maximizem o resultado de suas decisões.

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Assim, com esse enfoque, uma profusão de modelos “ideais” no campo contábil tem sido propostos, tais como o Custeio Baseado em Atividades, Balanced Scorecard, Teoria das Restrições, Gestão Econômica, entre outros, que surgiram há pouco mais de uma década. Existem centenas de livros e artigos escritos pelos acadêmicos sobre esses temas, mas as pesquisas empíricas demonstram que as empresas quase não usam esses novos modelos.

17.3 A contabilidade gerencial é uma instituição

A teoria institucional é uma abordagem sociológica que tem sido aplicada em estudos da área de contabilidade gerencial. Essa teoria rejeita as premissas da teoria econômica neoclássica e foca a contabilidade gerencial como uma instituição dentro da empresa, isto é, uma rotina formada por hábitos que dá sentido a determinado grupo de pessoas, sendo esta rotina amplamente aceita de forma inquestionável. O ponto central sobre o qual repousa a teoria institucional é a idéia de hábitos de um grupo de pessoas: a instituição é estruturada a partir de rotinas e as rotinas dependem de hábitos. Os hábitos se caracterizam como uma tendência para se engajar em formas de ação anteriormente adotadas. Formalizados e institucionalizados, os hábitos formam as rotinas que, por sua vez, moldam as instituições.

O conceito de instituição incorpora a idéia de pressuposições compartilhadas e aceitas de forma inquestionável. De certa forma a instituição reflete um determinado modo de pensar e agir comum para um conjunto de pessoas, que prevalece e permanece, o qual está inserido nos hábitos de um grupo. O conceito de instituição traz à tona o caráter social e cultural e enfatiza a importância do comportamento habitual. A instituição é um sistema social e não é vista apenas como uma ferramenta, mas como um sistema que dá sentido à aspiração e à integração de um grupo de pessoas.

As idéias de hábitos e instituições estão conectadas através do conceito de rotina. A caracterização de hábitos envolve uma pré-disposição ou tendência para se engajar em formas de ação anteriormente adotadas ou adquiridas. Embora hábitos estejam na esfera pessoal, as rotinas podem envolver um grupo de pessoas, e assim as rotinas se tornam os principais componentes das instituições. Em outras palavras, as rotinas são hábitos formalizados e institucionalizados, incorporando comportamentos orientados por regras, sendo que as rotinas se fortalecem pelo processo de repetição de ações para o atendimento das regras. As rotinas representam formas de pensar e de agir que são habitualmente adotadas por um grupo de indivíduos de forma inquestionável. As rotinas trazem problemas para a organização quando elas atrapalham o pensamento estratégico e a mudança estratégica, ou ainda quando as rotinas inibem o pensamento inovador. Assim, as rotinas podem se caracterizar como verdadeiros gargalos dentro da organização. Os conceitos de hábitos, rotinas e instituições facilitam o entendimento de como as práticas contábeis podem se tornar rotinizadas e através do tempo começarem a fazer parte do conjunto das pressuposições e crenças inquestionáveis da organização (taken for

granted), ou seja, pressuposições e crenças profundamente instaladas no grupo social e

aceitas de forma automática, de forma que as pessoas nem cogitam indagar sobre elas. Práticas contábeis podem ser caracterizadas como institucionalizadas quando elas se tornam amplamente aceitas na organização e quando elas se tornam formas de controle gerencial inquestionáveis. O sistema de contabilidade gerencial pode ser visto como uma importante rotina no âmbito das organizações ou, ainda, a contabilidade gerencial pode ser enfocada como um conjunto fortemente estruturado de rotinas. A contabilidade gerencial estabelece uma estrutura fundamental para que os eventos econômicos sejam apresentados e representados para os membros da organização. A

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performance organizacional é reportada tanto internamente como externamente de acordo

com regras e convenções.

Assim, a contabilidade gerencial deve ser trabalhada com os dois enfoques. Sob o enfoque da teoria convencional, a contabilidade gerencial é um instrumento de geração de informações eficazes para a tomada de decisões racionais para a maximização do lucro empresarial. Essa abordagem deve ser prioritariamente empregada na fase de planejamento de novo sistema de contabilidade gerencial ou nos processos de mudanças de sistemas vigentes. Sob o enfoque institucional é analisado o grau em que a contabilidade gerencial induz a formação de crenças e expectativas, proporciona coerência social e permite aos indivíduos e grupos dentro da organização dar significado às suas atividades do dia-a-dia.

17.4 Arquétipos na contabilidade gerencial

Como visto anteriormente, sob a abordagem institucional, o conceito de hábito é o elemento fundamental para a estruturação de rotinas e instituições no âmbito empresarial. O hábito é uma característica do indivíduo, o hábito está instalado na mente dos indivíduos, e assim estudos da psicologia permitem uma compreensão mais adequada de sua natureza.

No campo da psicologia o conceito de hábito é tratado pela corrente de psicologia cognitiva e pela corrente de psicologia psicanalítica, cujos pioneiros são Freud e Jung. Essa corrente ressalta o conceito de inconsciente, sendo o psiquiatra Carl Gustav Jung a pessoa talvez mais lembrada pelas idéias de inconsciente coletivo e arquétipos. De acordo com a corrente Junguiana de Psicologia, a personalidade total de um indivíduo pode ser visualizada como uma esfera composta de várias camadas. A camada mais externa está relacionada ao campo da consciência, a camada imediatamente abaixo corresponde ao inconsciente pessoal e finalmente, mais abaixo, temos as camadas dos inconscientes de grupo e o coletivo.

A nossa consciência acaba onde terminam nossos conhecimentos das coisas exteriores a nós. Assim, o nível de consciência do indivíduo tem estreita correlação com a quantidade de conhecimento e experiência que ele adquire através da vivência no seu meio ambiente específico e do relacionamento no seu grupo social. O inconsciente pessoal é inteiramente individual. Vai-se formando com o indivíduo. Constitui-se de coisas simplesmente esquecidas, de coisas suprimidas, ou seja, coisas que se passaram a nosso redor, mas a que não demos atenção, e também de coisas reprimidas, ou seja coisas de que fizemos até força para não lembrarmos mais.

Jung afirma que, afora as recordações pessoais, há em cada indivíduo as grandes imagens “primordiais”, ou seja, a aptidão hereditária da imaginação humana de ser como nos primórdios, caracterizando o inconsciente coletivo. Essa hereditariedade explica o fenômeno surpreendente de alguns temas e motivos de lendas se repetirem no mundo inteiro e em formas idênticas. Na teoria Junguiana da Psicologia, tão importante quanto a idéia de inconsciente coletivo é a idéia de arquétipo. Por meio do atendimento a pessoas com problemas mentais e refletindo sobre as observações efetuadas, Jung foi caracterizando o conceito de arquétipo que trata-se da manifestação da camada mais profunda do inconsciente, onde jazem adormecidas as imagens humanas universais e originárias. O arquétipo pode ser caracterizado como uma espécie de aptidão para reproduzir constantemente as mesmas idéias míticas, se não as mesmas, pelo menos parecidas, sendo também enfocado como nódulos de energia psíquica. Jung via os arquétipos como padrões primordiais, comuns a todos os seres humanos, afetando a

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forma como nós percebemos, imaginamos, pensamos e influenciando profundamente os comportamentos.

Tanto o consciente como o inconsciente pessoal são atributos específicos do indivíduo, porém o inconsciente coletivo incorpora traços universais que independem de raças, épocas e religiões. Observa-se, no entanto, sob uma perspectiva mais ampla, que a psicologia de um brasileiro não é, com certeza, totalmente igual à psicologia de um japonês. Nesse sentido Jung pondera que, assim como podemos considerar a existência de uma diferenciação correspondente a cada raça, a cada tribo, a cada família, podemos verificar também a existência de uma camada de inconsciente correspondente a cada um desses grupos humanos. Essa esfera de inconsciente é denominada como inconsciente

próprio de determinado grupo humano. Em trabalhos anteriores (GUERREIRO, BIO e

CASADO, 2004) utilizamos esse conceito de inconsciente para explicar o uso inadequado de determinados conceitos de contabilidade gerencial pelos profissionais da área financeira.

17.5 Impacto na contabilidade gerencial

Uma questão fundamental no mundo dos negócios é que não é somente o que o indivíduo pensa conscientemente que afeta suas ações e sua conduta mas, também, o que ocorre em um nível inconsciente. Ocorre ainda, em muitas situações, o indivíduo acreditar que está no comando de seus pensamentos, crenças e convicções, quando de fato estes são frutos de seu inconsciente.

Os hábitos são inconscientes e são eles que formam as rotinas e instituições da contabilidade gerencial. Nesse sentido é puro engano pensar que os executivos das empresas utilizam as melhores práticas de contabilidade gerencial sempre de forma consciente e racional. Os indivíduos, em função de processos históricos de repetição no uso de procedimentos, submissão a conceitos corporativos e atendimento às regras, têm seu comportamento modelado por fatores inconscientes, semelhantes a arquétipos, que são aceitos sem discussão.

A teoria de contabilidade propõe que, para análise de rentabilidade, deve ser utilizado o método de custeio variável, por outro lado, evidências demonstram que a maior parte das empresas no mundo todo utiliza o método de custeio por absorção para atendimento gerencial. Existe um gap na contabilidade gerencial, ou seja, o hiato existente entre a teoria e a prática. Na prática os sistemas de contabilidade gerencial das empresas não incorporam necessariamente os melhores conceitos e técnicas ditadas pela teoria acadêmica. Os sistemas são produzidos e utilizados por seres humanos – que não são apenas seres racionais – são também seres emocionais e sociais. Utilizam, sim, os conceitos que estejam em linha com as crenças (inconscientes) dos indivíduos e em conformidade com as normas sociais de comportamento aceitável na empresa e que estão cristalizados em hábitos e rotinas amplamente aceitos pelos indivíduos e pelos grupos da organização.

O sucesso da empresas em ambiente complexo, instável e competitivo depende da capacidade de seus gestores em superar gargalos comportamentais e institucionalizar conceitos e instrumentos gerenciais que induzam ações para o alcance dos seus objetivos empresariais.

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“Autobiografia em Cinco Capítulos”

1) Ando pela rua

Há um buraco fundo na calçada Eu caio

Estou perdido...sem esperança. Não é culpa minha.

Leva uma eternidade para encontrar a saída. 2) Ando pela mesma rua.

Há um buraco fundo na calçada Mas finjo não vê-lo.

Caio nele de novo.

Não posso acreditar que estou no mesmo lugar. Mas não é culpa minha.

Ainda assim leva um tempão para sair. 3) Ando pela mesma rua.

Há um buraco fundo na calçada Vejo que ele ali está

Ainda assim caio...é um hábito. Meus olhos se abrem

Sei onde estou É minha culpa. Saio imediatamente. 4) Ando pela mesma rua.

Há um buraco fundo na calçada Dou a volta.

5) Ando por outra rua. ___________________

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Referências

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