Hemorragia Uterina Pós Parto
OBJETIVO – POPULAÇÃO ALVO
O protocolo se destina a todas as pacientes obstétricas, para prevenção e tratamento das hemorragias pós parto.
APLICABILIDADE: CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
Critério de inclusão: Gestantes e puérperas – Especial atenção para pacientes em pós parto imediato ou tardio que estejam com sangramento ativo além do esperado.
Critério de exclusão: NA INTRODUÇÃO
Definir Hemorragia pós-parto (HPP) não é uma tarefa simples. A definição clássica OMS remonta estudos da década de 60 - perda > 500 ml no parto normal ou >1000 ml no parto cesárea.
Para fins práticos, nesse protocolo, será adotada a definição clássica HPP - incluindo as perdas intraparto. E para propósitos clínicos, qualquer perda sanguínea que tenha potencial para causar instabilidade hemodinâmica deverá ser considerada HPP.
O sangramento no pós-parto é frequentemente subestimado, sendo hipotensão, “tontura”, palidez cutânea e oligúria sinais tardios, somente após perda significativa, volemia (> 10 pontos no hematócrito). Assim, se faz necessária a avaliação objetiva da perda sanguínea através da pesagem de compressas cirúrgicas e coágulos.
Novamente em termos práticos, cada 1g após descontado peso seco das compressas -significará 1ml de perda sanguínea.
A HPP afeta aproximadamente 2% de todas as parturientes, e nenhum fator de risco (Quadro Anexo) é identificado em cerca de dois terços das mulheres. Ainda assim, a identificação de uma população "de alto risco" para HPP aumentaria o nível de alerta e prontidão.
Na Admissão hospitalar - realizada em geral pela Equipe Centro de Parto - esses fatores de risco serão identificados (vide quadro abaixo), e essas pacientes receberão uma "pulseira vermelha - risco sangramento" devendo ainda ser coletado nessas pacientes os seguintes exames: hemograma completo com plaquetas, TP, TTPA, fibrinogênio, uréia e creatinina + exames específicos a patologia associada se julgada pelo GO e reservar 2 concentrados de hemácias.
Equilíbrio entre o manejo conservador e as técnicas cirúrgicas para controle do sangramento é fundamental, havendo poucos estudos randomizados relevantes; a decisão deve ser tomada de acordo com julgamento clínico.
FATORES DE RISCO PARA SANGRAMENTO
Multiparidade > 4 partos Gemelaridade
Polidrâminio
HAS materna descompensada HB <10
Uso de anticoagulante por menos de 12 horas dose profilaxia ou menos de 24 horas dose plena
Uso de Antiagregante nos últimos 7 dias Descolamento prematuro de placenta
Placenta de inserção anômala (placenta prévia, acretismo) Retenção placentária (dequitação em mais de 30 minutos) Macrossomia (Peso de nascimento > 4kg)
PROFILAXIA PRIMÁRIA
O manejo ativo do 3operíodo reduz a incidência de HPP, a quantidade de sangue perdido e a necessidade de hemotransfusão, devendo ser incluído rotineiramente na assistência ao parto - Categoria A de evidência.
1 | Uso de uterotônico após expulsão fetal;
2 | Tração controlada do cordão umbilical (manobra de Brandt-Andrews); 3 | Massagem uterina após dequitação.
A ocitocina deve ser usada como profilaxia primária para TODAS as mulheres no 3operíodo - após clampeamento do cordão, uma vez que reduz em 60% o risco de HPP. Essa é a medicação mais efetiva para profilaxia HPP e com a menor incidência de efeitos adversos. O modo de utilização varia conforme a via de parto:
Parto Vaginal: 10 UI IM no desprendimento dos Ombros;
Parto Cesárea: 5UI – Infusão em 3 minutos + 20UI por 4 horas em bomba infusão - Essa alternativa também poderá ser utilizada no pós parto vaginal em pacientes com acesso venoso.
Todas as pacientes deverão permanecer por pelo menos 1 hora na Recuperação Anestésica (RA) – Hora essa que deverá ser contada a partir da dequitação no parto normal e do fechamento do útero no parto cesárea. No pós parto cesárea, essas pacientes só deverão ter alta da RA quando já estiver ocorrendo movimentação de MMII -com dobra do joelho.
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Nos casos de pacientes com fatores de risco para HPP, considerar em adição ao uso de ocitocina ao fim do parto - vaginal ou cesárea o Misoprostol dose profilática - 600 mcg via retal.
Em eventuais casos em que não há disponibilidade de ocitocina, o misoprostol poderá também ser utilizado para profilaxia primária HPP, tornando-se uma opção interessante.
DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO HPP
A HPP é uma síndrome clínica, e não um “diagnóstico”. Para seu correto tratamento, é necessário identificar a causa-base. O método mnemônico dos 4 T´s é utilizado para os quatro processos básicos envolvidos na gênese da HPP: Tônus, Trauma, Tecido e Trombo.
Tônus:
Atonia uterina é a causa mais comum de HPP, respondendo por cerca de 70% dos casos. O sangramento ativo após dequitação deve alertar o obstetra para tal ocorrência. A presença de útero subinvoluído de consistência amolecida é característica. Porém, o clínico não deve se deter ao exame do tônus, pois poderão haver causas “adicionais”.Manobra de Hamilton - Compressão Uterina Bimanual
fundamental na suspeita de lacerações de trajeto, e deve ser realizada sempre que houver necessidade, sob iluminação adequada. O reparo cirúrgico é parte integrante do tratamento. Estima-se que, em um parto vaginal operatório, a perda sanguínea seja semelhante àquela de um parto cesariana. A hipótese de rotura uterina também deve ser lembrada.
Tecido:
A revisão da cavidade uterina é importante para descartar retenção de restos placentários, responsável por 10% das HPP. A avaliação ultrassonográfica, se disponível, deverá ser realizada antes da instrumentalização uterina (curetagem puerperal) e, se confirmada a retenção de restos, servirá ainda como “guia” para o procedimento.Trombo:
Coagulopatias; +/- 1% das causas HPP, podendo ser adquiridas (pacientes em uso de terapia anticoagulante, doença hepática, sepse, pré-eclampsia grave, embolia amniótica), congênitas (doença de von Willebrand) ou secundárias à própria hemorragia (coagulação intravascular disseminada). A coagulopatia secundária às hemorragias obstétricas já demonstrou ter um comportamento semelhante à diátese hemorrágica encontrada em pacientes com trauma (Atentar ao manejo - Código H).O manejo inicial das hemorragias obstétricas inclui utilização de uterotônicos, reposição volêmica e medidas de suporte. Lembrar do Mnemônico MOV - Monitor, Oxigênio e Veia.
Dois acessos calibrosos devem ser instalados, para reposição de cristaloides 500 a 1000ml -medida essa adequada para expansão volêmica inicial. Utilize uterotônicos conforme quadro abaixo.
O choque, comprometimento da perfusão tecidual, coloca a paciente em risco de entrar em um ciclo vicioso: hipotermia-coagulopatia-acidose. Aquecer a paciente (Manter temperatura Axilar 35,7 - 37oC)! Usar fluídos aquecidos!
A coleta de exames “basais” deve ser providenciada (tipagem sanguínea, hemograma e coagulograma), e a monitoração frequente dos sinais vitais (PA, frequência cardíaca, frequência respiratória, diurese, temperatura), a cada 5 minutos, instituída.
Instabilidade hemodinâmica e anemia aguda com sangramento ativo ainda não controlado são indicações clássicas para terapia transfusional, que não deve aguardar “resultados laboratoriais”. Hemostasia não ocorre com níveis de fibrinogênio < de 75 mg/dL.
A transfusão de 2 concentrados hemácias pode ser considerada.
Tratar agressivamente hipotensão! Considerar uso de drogas vasoativas mais precocemente! O pH alvo está entre 7,35 - 7,45, sendo considerado o uso de bicarbonato se pH < 7,1 ou HCO3 (Utilizar solução Bicarbonato de Sódio 8,4% 1 ml por Kg!). Repor Cálcio - 02 Ampolas de Cloreto de Cálcio em Soro Fisiológico 0,9% 100ml a cada 2 bolsas de qualquer hemocomponente!
Agente Via de
Administração Dose Latência indicaçõesContra- Ef. Colaterais
Ocitocina IM
EV
Ocitocina Profilática:
10 UI
Ocitocina Imediata : 5UI
+ Ocitocina manutenção: 20UI/ 4 horas em BI Ocitocina Tratamento: 20 UI a 40 UI em 500 mL SF 0,9% a Infusão 250 mL/h. Considerar posterior manutenção de 125 mL/h por 4 horas. 3-5 min 3 min Poucas
descritas Intoxicação Hídrica e Hipotensão
Methergim (Ergotrate) IM 0,2 mg 2-5 min Hipertensão Náuseas
Hipertensão , cefaléia .
dispnéia Misoprostol Via retal 800 mcg (4 comp) < 10 min Hipertensão
Pulmonar Náusea , vômito , diarréia
Na atualidade, é consenso a administração de ácido tranexâmico (Transamin®) logo após feito o diagnóstico de hemorragia pós parto, nas 3 horas seguintes ao parto e concomitantemente ao uso de uterotônicos.
Woman Trial
Transamin® apresentação 50mg/ml - Ampola de 5 ml 4 Ampolas = 20 ml = 1g Ácido Tranexâmico
Infundir EV em 20 minutos BIC a Velocidade de 1ml/min. Utilizar via específica
Não deve ser infundido juntamente a hemoderivados ou penicilina -Uma 2adose pode ser utilizada se o sangramento persistir por mais 30min
Efeitos Adversos
Hipotensão se infundido a Velocidade > 1ml/min
Não deve ser utilizado em pacientes com Coagulação Vascular Disseminada
O uso do ácido tranexâmico reduziu a incidência de morte ligada a hemorragia pós parto em 19% - tanto em partos normais quanto em cesáreas - sem que houvesse aumento no numero de eventos tromboembólicos, que seria uma das principais preocupações em sua utilização.
Métodos Mecânicos - Tratamento HPP
uterino com uso de balão de Bakri. O sucesso no tamponamento pode evitar a laparotomia, sendo o tempo ideal de permanência de 8 a 24h. Para sua utilização, é fundamental que a paciente apresente-se estável hemodinamicamente. Uma outra opção é a utilização de suturas de compressão uterina - B Lynch - Ver abaixo.
Passo a Passo para Inserção Balão de Bakri
Assegure-se que não há restos ovulares na cavidade uterina (através de curagem ou US); Assepsia / Embrocamento vaginal;
Exposição do colo e pinçamento lábio anterior com pinça de Lee;
Introdução do balão até fundo uterino - Pode ser necessário auxilio com pinça de restos ou de Lee;
Preencha o balão com 350 a 500 ml de solução estéril pré medida - Uma dica é colocar 500ml de soro numa cuba rim e utilizar conforme necessidade - Não utilizar soro “frio”;
Realizar leve tração (Assegurar posicionamento do balão acima OIC); Tamponamento vaginal (Evitar deslocamento);
Conectar coletor em via de drenagem.
Manutenção de uterotônicos e prescrição de antibióticos;
Taxa sucesso - Medidas cirúrgicas conservadoras:
O tratamento cirúrgico conservador deve ser tentado quando os uterotônicos falharam, mas a paciente está estável.
Técnica Utilizada Taxa Sucesso
Tamponamento Uterino Balão 75 a 86%
B- Lynch 90%
Embolização Artérias Uterinas 90%
O insucesso e a instabilidade progressiva são indicativos da necessidade de prosseguir com terapia cirúrgica - Histerectomia Puerperal.
OPAS. Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia obstétrica. Brasília: 2018
Lacerações de canal de parto
1) Sangramento em pequena quantidade, mas contínuo e vermelho-vivo;
2) Revisão do canal de parto sempre quando o diagnóstico de atonia for afastado; 3) Correção cirúrgica da lesão em ambiente estéril.
Inversão Uterina
1) Fazer o diagnóstico e tratar o mais rápido possível; 2) Lembrar a possibilidade de choque neurogênico;
3) Repor o útero imediatamente. Tentar as manobras manuais - Taxe;
4) Se não houver sucesso tentar as mesmas manobras com tocolíticos ou anestesia (em geral inalatória);
5) Reposição cirúrgica - Cirurgia De Huntington.
A hipótese de ruptura uterina deve ser considerada sempre que a paciente apresenta sinais de choque com pequeno sangramento exteriorizado - terapia cirúrgica com Laparotomia exploradora.
OPAS. Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia obstétrica. Brasília: 2018
Retenção Placentária
1) Diagnóstico de retenção placentária através do sinal de Brandt, ou sinal do pescador; 2) Tentar uma leve pressão no fundo do útero ou pressão supra-púbica associados a leves movimentos circulares de tração do cordão;
3) Tentar extração manual da placenta - O Momento ideal para realização dessa manobra parece estar ao redor de 15m após desprendimento fetal ( a espera de até 30m é referida na literatura, mas aumenta o risco de sangramento);
4) Realizar curetagem puerperal sob anestesia - Visualização US também pode ser útil; Importante - Caso a tentativa de extração manual da placenta "falhe", suspeitar de acretismo placentário e avaliar necessidade histerectomia puerperal com placenta in situ. Avisar enfermeira da sala para "sobreaviso" Código H.
São objetivos da terapia transfusional:
Manter hemoglobina > 8 g/dL e Plaquetas acima de 50.000 (>100.000 se sangramento ativo);
Manter RNI < 1,5 e relação TTPA < 1,5 controle; Manter fibrinogênio > 200 mg/dL.
Caso o controle da hemorragia não aconteça prontamente após as medidas iniciais, está indicado o acionamento do Código H – RAMAL 7055+1
O acionamento do Código H é especialmente válido se após expansão volêmica inicial a paciente mantem:
PAS < 90mmHg por período > 20 minutos APÓS 500 ML DE VOLUME PAD < 60mmHg por período > 20 minutos APÓS 500 ML DE VOLUME Shock Index > 1,2 (SI= frequência cardíaca/PAS)
Sonolência cuja causa possa ser hipovolemia
Frequência cardíaca maior ou igual a 110 bpm por mais de 20 minutos APÓS 500 ML DE VOLUME
Queda de 30% da PA basal por período maior que 20 minutos
Necessidade de 02 ou mais concentrados de hemácias no perioperatório Lactato Venoso Periférico OU Arterial >36
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Fluxo_de_atendimento_da_paciente_obstétrica_durante_a_hemorragia_v2.1.pdf
DOCUMENTO CÓDIGO H
Atendimento_ao_paciente_com_sangramento_ativo_ou_choque_hemorrágico_–_Código_H
1. Organização Pan-Americana da Saúde. Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia obstétrica. Brasília: OPAS; 2018.
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3. Obstetrical Harm – Change Package 2016 UpDate – California Mat Quality Care Colaborative
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GERENCIADO
Não se aplica.
INDICADOR INSTITUCIONAL
Não se aplica
DESCRIÇÃO RESUMIDA DA REVISÃO
Andrea de Marcos (06/03/2015 08:01:25 PM) – Novo Documento
Andrea de Marcos (13/03/2017 03:00:43 PM) - colocação do fluxograma e correção dose misoprostol
Abril - 2018 – Revisão realizada por: Dr. Romulo Negrini; Dr. Felipe Favorette; Drª Roseny Rodrigues dos Reis; Drª Rosa Maria Avilla; Dr. Gustavo Jannot; Michele Jaures e Adriana Cristina Dornellas que contempla as seguintes alterações:
Revisão do protocolo de Uterotônico profilático e tratamento Inclusão dos critérios de risco para sangramento
Inclusão dos fluxos de atendimento para paciente com risco ou sem risco de sangramento e durante a hemorragia pós parto.
Andrea de Marcos (14/08/2018 11:38:49 AM) - revisão de uterotonicos, inclusão dos critérios de risco para sangramento e fluxos de atendimentos