Organiza
BALUARTE, SURPRESA E COMUNICACAO NO CAMPO ANALÍTICO
Jair Knijnik, Adriana Rispoli Ana CristinaTofani
Cátia Olivier Mello Lucia Chassot Rubin Cláudio Laks Eizirik [email protected]
Eje Temático: Estagnação e movimento no trabalho clínico; repetição e aberturas no vínculo transferencial
Descriptores: campo analítico, baluarte, surpresa, comunicação
Resumen
Os autores refletem acerca do conceito de campo analítico e do exame do valor comunicativo de um de seus elementos, a surpresa, a partir de uma vinheta clínica
Desarrollo del Trabajo
Introdução e breve evolução do conceito
Embora descrito há 40 anos pelo casal Baranger (Baranger e Baranger, 1961), há poucos trabalhos publicados em revistas de psicanálise sobre o conceito de campo analítico como tal (Brito, 2002; Civitarese, 2008; Ferro, 2009). Perguntamo-nos por quê. Não se trata de um conceito relevante clinicamente? É um conceito incômodo ao analista? O fato de não se tratar de um fenômeno intra-psíquico responderia ao seu pouco uso? Teria ele se diluído sob outras denominações? O fato de só ter sido recentemente traduzido para a língua inglesa (Baranger e Baranger, 2008; Churcher, 2008; de Bernardi, 2008) teria reduzido o seu acesso à comunidade psicanalítica internacional?
O conceito foi introduzido na psicanálise por Willy e Madeleine Baranger em 1961. Na época, estudos sobre contratransferência, identificação e contra-identificação projetiva e comunicação não-verbal revelavam a valorização crescente da participação do analista nos fenômenos observados em análise. O casal Baranger, a partir da aplicação feita por
Merlau-Ponty (1956) do conceito de campo descrito pela psicologia da Gestalt (Köhler, 1968) propôs que o trabalho em análise se desenvolvia numa relação intersubjetiva na qual ambos os participantes se definiam, de tal forma que nenhum fenômeno que se passasse no campo analítico pudesse ser compreendido fora deste contexto.
Não era um jogo de palavras, não era dizer o mesmo com nomenclatura diversa. Permite-nos compreender as dificuldades que surgem no relacionamento analítico de modo bidirecional de tal forma que, quando surgem, as mesmas não se devem à responsabilidade de um ou de outro, ou à resistência de um ou de outro, mas sim da dupla. O trabalho do analista muda de enfoque: procurará conhecer qual é a fantasia básica ativa no campo, e como cada um se movimenta em cada ciclo de cristalização e movimento “do” e “no” campo, contribuindo para que ambos saiam conhecendo mais sobre si mesmos. Na seqüência desta linha de pensamento, M. Baranger destaca (2003) alguns conceitos contemporâneos, tais como o “enquadramento analítico” de Green, “o terceiro analítico” de Ogden, o “estado de sessão” do casal Botella, ou o “objeto transformacional” de Bollas. Na contínua oscilação entre abertura e repetição, própria do campo, há uma estrutura inconsciente construída pela dupla que tem uma função de refúgio, de “imunidade diplomática”, que pretende onipotentemente protegê-la de entrar em contato com estados psicológicos muito primitivos: o baluarte. O seu enfrentamento vai depender das possibilidades de cada dupla de mobilizar aspectos libidinais para elaborá-los. Dentre estas, estão a elaboração da surpresa e do inesperado no campo.
O surpreendente desconhecido no analista
No trabalho ”O estranho” (1919), Freud fala de como as características infantis de animismo e onipotência do pensamento são determinantes na sensação de estranheza ao ver ou sentir algo inesperado e aparentemente desconhecido mas que revela-se, ao exame aprofundado do inconsciente, conhecido do sujeito. A raiz etimológica, sua definição e a evolução do seu uso mostram que, com efeito, “unheimlich” é algo a um só tempo desconhecido e familiar que sucumbiu à repressão infantil e que emerge na consciência como algo “estranho” que não queremos perceber, ver ou sentir.
Devido à natureza do fenômeno, à luz da teoria do campo e dos baluartes pensamos que é necessário que o analista esteja emocionalmente envolvido para que o “estranho” emerja e possa ser pensado após a sessão. Seria esta a razão para o desconforto, para os fenômenos surpreendentes de campo que nos assustam, apesar de sabermos teoricamente que eles poderão surgir? A emergência do inconsciente do analista seria sua explicação? As sensações estranhas na sessão seriam manifestações do fenômeno descrito por Freud em 1919? Admitindo que sim, a diferença entre analista e paciente ao se depararem com tais situações seria que o primeiro, avisado teoricamente da possibilidade de ocorrência de tais
fenômenos e analisado o suficiente para não evitar a conscientização dos mesmos, teria mais condições de identificar, conter e processar em si o que se passou entre ambos. Seria simplista pensar que todas as áreas de difícil acesso para o analista seriam do tipo “estranho”, mas talvez algumas possam estar a ele ligadas. Supondo que assim fosse, seria necessário transmitir ao paciente o ocorrido em algum grau? Ou seria suficiente identificar o fenômeno como marcador de que algo inconsciente da dupla estaria presente no campo, balizando a reflexão acerca do caso dali em diante? A vinheta clínica a seguir ilustra uma situação deste tipo.
Ilustração clínica
O clima que foi se estabelecendo ao longo das sessões com o Sr. T. era de distanciamento. Ele queixava-se do filho (portador de uma doença degenerativa) e da esposa, num relato detalhado e descritivo, como se não estivesse presente nas cenas relatadas. O mesmo se passava na sessão. Havia um paciente e um analista que falavam de algo que não o que se passava dentro da sessão, como o que fazer com relação ao tratamento do filho, por exemplo. Embora importante, isso embutia outra função: criava a ilusão de dar vida à sessão. Era o momento em que falavam um com o outro, embora isso gerasse tensão no analista. Sentia-se fazendo um trabalho superficial - e pior - a sensação de estarem caminhando no sentido anti-análise, um caminho que os levaria ao nada. O Sr. T. mantinha-se indiferente, rechaçando qualquer assinalamento. O que o analista pensava é que o sr. T. estava velho e não teriam tempo para ajudá-lo. Sentia-se de mãos atadas com alguém que o desprezava; rumavam para o túmulo. Não havia luz no fim do túnel. Mas ele procurara ajuda. Neste ponto do trabalho, ambos passaram por momentos delicados em suas vidas. O sr. T. teve uma isquemia e passou uma semana sem vir às sessões. O analista, na semana anterior descobrira que estava com um problema de saúde, o que o deixara triste e assustado. No dia em que o sr. T. voltaria às sessões, releu suas anotações sobre o paciente. Imaginou separar as folhas impressas e lê-las aleatoriamente. Que história se formaria? Por um instante imaginou-as caminhando pela mesa seguras por pequenas pessoas, como formigas carregando folhinhas nas costas. Pensou no Sr.T. Estaria melhor? Sentiu alívio ao pensar que não fora nada grave e muito cansaço ao imaginar que ele chegaria. Ele “chegou” e trouxe seus dois primeiros sonhos, para sua surpresa assim relatados: “No primeiro sonho eu chegava ao meu escritório e vários funcionários escreviam sobre a minha vida. Espalhavam papéis que continham anotações. Espalhados daquela forma, eles poderiam avaliar melhor o que tinha sido a minha vida e então fazer um resumo mais fidedigno. Então eu resolvia que também ia escrever e resolvi escrever sobre o meu avô. Comecei a escrever no tempo presente. Lá pelas tantas me dei conta que se alguém lesse aquilo poderia pensar que ele estava vivo, só que ele está morto há muitos anos.
Resolvi avisar a todos que estavam ali. Avisei, mas continuei escrevendo do mesmo modo. No segundo sonho chegava em casa e encontrava vários homens trabalhando. Ficava muito irritado com aquela intromissão. Fui para outra sala. Comecei a organizar umas coisas antigas e quando fui para o cômodo ao lado dei de cara com um homem. Ele estava lá para me ajudar”. Associou o primeiro sonho a uma conversa com a esposa sobre seu filho. Esta advertiu-o sobre os planos inverossímeis que estava fazendo para ele. A resposta dele foi “me deixa sonhar, sempre alguém a se meter”. O analista assinalou que o sr. T. também se incomodava com a sua presença na sua vida. Embora quisesse revisar sua vida, como aqueles homens reunidos, precisava de sua ajuda e ficava ambivalente quanto a isto. Vinha às sessões, mas se incomodava com a necessidade. Ele concordou, dizendo que de fato às vezes o irritava o fato de precisar de ajuda “a estas alturas, com esta idade”. O analista lembrou-se de sua “brincadeira mental”, do cansaço e do avô que “já estava morto há anos” e comentou que passaram por um “sufoco”, ao que o paciente desdenhou. Acrescentou que ambos desdenharam, pois ele mal chegara e se puseram a falar dos dois ali, vivos. Deixaram de lado o risco de morte, o medo. Ele disse que se sentia desanimado há muito tempo, não via sentido nas coisas. O analista acrescentou que estar ali também parecia não valer a pena. Quando se movimentavam, só encontravam tristeza. Na sessão seguinte, o Sr. T. foi para o divã: ao contrário do que parecia, existia vida no campo. De volta ao campo analítico
Se a noção de campo pode ter sido revolucionária, como qualquer conceito à medida que o tempo passa corre o risco de se tornar um elemento totalmente aceito, o que o destituiria de sua essência disrruptiva e propulsora de mudança. Pensamos que se trata de uma luta dialética entre duas tendências: uma que aposta no novo, no não-conhecido ou reprimido, no unheimlich, e outra que busca se refugiar no conhecido que acalma e tranqüiliza. Esta última destacará a natureza assimétrica do campo, os diferentes objetivos de paciente e analista, e resvalará sutilmente para a tradicional idéia de que há um analista treinado e um paciente que busca tratamento para o seu sofrimento. No entanto, o que o casal Baranger propunha e o que Ferro defende é, justamente, o caráter bipessoal do campo e a inevitável participação do analista com seu mundo interno, sua personalidade e sua neurose. Pensando desta maneira, temos que admitir que nunca saberemos o que vai acontecer a cada novo dia de trabalho com cada paciente ou o que pode surgir na seqüência do mesmo. As propostas bionianas de “sem memória nem desejo”, bem como da “capacidade negativa” (1970) são aqui relevantes. Pensando assim, teremos que aceitar a ignorância, acompanhar o que vai ocorrendo entre nós e o paciente, e aceitar a surpresa que pode surgir a qualquer momento. Trata-se de uma situação muito incômoda, mas se a aceitarmos e lidarmos com ela, teremos uma situação de campo que poderá nos ajudar a pensar e tentar entender o
que está ocorrendo, junto com o paciente. A julgar pelo movimento seguinte (a ida para o divã) ao exame pelo analista do inesperado, na vinheta aqui relatada este caminho acenou para a possibilidade de desfazer o baluarte de que “não havia luz no fim do túnel”, oportunizando um trabalho de pessoas-formigas, as quais levando fragmentos da vida do paciente, encontraram uma dupla para escutá-las ordenada ou desordenadamente.
Bibliografía
Baranger, M. La teoría del campo (2003). In S Lewcowicz y S Flechner, Verdad, realidad y el psicoanalista: contribuiciones latinoamericanas al Psicoanálisis. Londres: International Psychoanaysis Library, 49-71.
Baranger, M., Baranger, W. (1961). La situación analítica como campo dinámico. Rev, Urug. Psicoan., IV(1), 3-54.
Baranger, M., Baranger, W. (2008). The analytic situation as a dynamic field. Int. J. Psycho-Anal., 89; 795-826.
Bion, W. (1970). A memória e o desejo pacificam a mente. In Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 51-64, 1973
Brito, G. M. (2002). Elementos ß como fator de disfunção e evolução no campo analítico. Rev. Bras. Psican. 36(2), 333-357.
Churcher, J. (2008). Some notes on the English translation of the analyitc situation as a dynamic field by Willy and Madeleine Baranger. Int. J. Psycho-Anal., 89; 785-793.
Civitarese, G. (2008). Immersion versus interativity and Analytic field. Int. J. Psychoa-anal.,89: 279-298.
de Bernardi, B.L. (2008). Introduction to the paper by M. and W. Baranger: the analytic situation as a dynamic field. Int. J. Psycho-anal. 89:773-784.
Freud, S. (1919). O estranho. In Ed. standard brasileira da Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1978.
Ferro, A. (2009). Transformations in dreaming and characters in the psychoanalytic field, Int. J. Psycho-anal. 90: 209-230.
Köhler, W. (1968). Psicologia da Gestalt. Belo Horizonte: Itaiaia.
Merlau-Ponty, M. (1945). Fenomenologia da Percepção. In Os Pensadores, v. XLI. São Paulo: Abril, 1975.