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Cópias da sentença do 3.° Juízo Cível da comarca de Lisboa e do acórdão do Supremo Tribunal de Jus- tiça proferidos no processo de registo de marca nacional n.° 204 213.

Cópia da sentença do processo n.° 7890/90, de recurso de marca, em que são recorrente Nutrexpa, S. A., e recor- rido o director do Serviço de Marcas do Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

Marca: Cola-Cao-Vit.

Registo: 204 213, de 25 de Outubro de 1979 (Boletim da Propriedade Industrial, n.° 10/79, de 30 de Abril de

1980).

Despacho de recusa: 17 de Novembro de 1989 (Boletim da Propriedade Industrial n.° 11/89, de 31 de Maio de 1990). Marca em confronto: Vit-a-Cau, registo n.° 127 526;

Chocolates Rajá, L.da

Fundamentos do recurso

A recusa não está abrangida pelo artigo 93.°, n.° 12.°, do Código da Propriedade Industrial.

O elemento «vit» é usado em muitos produtos ali- mentares e medicamentosos para indicar a qualidade do produto (existência de vitaminas), não podendo ser apro- priado.

O elemento «cao» indica a natureza do produto, vindo a característica distintiva do conjunto usado.

As expressões não oferecem semelhança fonética e ou gráfica (artigo 94.° do Código da Propriedade Industrial). A apreciação da confundibilidade tem de fazer-se em expressão ao conjunto global das expressões constitutivas (Pereira Coelho, Lições de Direito, i, p. 368), não hesitan- do o consumidor mais incauto em destrinçar as duas marcas.

Posição da reclamante

À concessão do registo da marca em apreciação tam- bém se opôs Manuel António Rodrigues, com fundamento na marca nacional Colacau.

As marcas Cola-Cao-Vit e Vit-a-Cao destinam-se a assinalar os mesmos produtos, podendo a sua coexistência induzir em confusão o consumidor normal (Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 17 de Maio de 1960, Boletim da Propriedade Industrial, 10/60, p. 1010), que, pelo menos, será levado a pensar que tais produtos per- tencem à mesma organização empresarial.

A protecção da marca tem por objectivo defender o seu proprietário contra a concorrência desleal.

Vêm estabelecidos os seguintes factos:

1) A recorrente é titular da marca internacional n.° 425 830, destinada a assinalar cacau e prepa- rações à base deste;

2) E também da marca internacional n.° 189 801 Kola-Cao, destinada a assinalar chocolates, cacau e preparações à base deste, para flans, pudins e farinhas para bebés;

3) Chocolates Rajá, L.da, é titular da marca n.° 127 526, destinada a assinalar cacau vitaminado em pó;

4) A marca titulada pela reclamante destina-se a assinalar chocolates, bombons, caramelos, produ- tos de confeitaria e doçarias;

5) Manuel António Rodrigues é titular da marca na- cional n.° 133 980, Colacau, destinada a assinalar farinhas alimentícias;

6) No processo administrativo apenso foi emitido o parecer de que «a marca registanda é susceptível de confundir-se com a marca nacional n.° 127 526, Vit-a-Cao».

Duas marcas estão, essencialmente, em confronto no presente recurso: Cola-Cau-Vit e Vit-a-Cau, ambas perten- centes à mesma rubrica da classe 30.ª da tabela n.° 5 anexa ao Decreto-Lei n.° 176/80, de 30 de Maio.

Contra o registo da primeira suscitaram-se também reclamações por referência às marcas Colacau (no pro- cesso administrativo) e Chocovit (a fls. 28 e seguintes des- tes autos).

Importa, assim, averiguar se a recusa do registo da primeira pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial arrancou do efectivo preenchimento da previsão dos arti- gos 93.°, n.° 12.°, e 94.°, corpo, do Código da Propriedade Industrial, ou seja, se dispõe ela de «eficácia distintiva» bastante para não «produzir a semelhança susceptível de criar confusão» (J. O. Ascensão, Direito Comercial, 1988, vol. II, Direito Industrial, p. 154).

Como recorda F. Cionti, num aprofundado estudo de 1988 (La Funzione del Marchio), «para o produto fabri- cado manualmente, em que a relativa diferença de cada exemplar era de regra», a marca podia ter «uma justifi- cação de utilidade [...] para garantir não a qualidade, que está totalmente fora de discussão, mas apenas a uniformi- dade, talvez presumida, dos produtos».

«Com a produção industrial» põe-se «um problema in- verso, qual é o da diferenciação de produtos pertencentes à mesma série, que seria de dificílima, se não impossível, solução sob o ponto de vista económico».

«A máquina realiza a completa e definitiva uniformi- dade [...] não só faz produtos rigorosamente uniformes como não estaria preparada para produzir algum diferente

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e uma imaginária intervenção do titular da marca sobre os diversos exemplares, no sentido de os diferenciar, seria, sob o mesmo ponto de vista, totalmente irracional.»

Para os produtos industriais, «a uniformidade dos diver- sos exemplares» torna-se «regra férrea e inevitável» (pp. 105 e 106).

É claro que, sendo o fim último da sua actividade a formação do valor capital (lucro), o produtor ainda assim tenderá sempre a introduzir no processo de fabrico alte- rações mais ou menos amplas, com vista ao aperfeiçoa- mento do produto, adequação gradativa aos gostos dos consumidores, superação das faltas de matéria-prima, etc., de forma a potenciar a sua implantação no mercado.

Por isso, seria irrealista pensar numa «identidade abso- luta» dos produtos fabricados em série, noção que se refere a cada exemplar isolado e omnimodo determinatum e pres- supõe a «identificação» - «procedimento pelo qual um ente, na sua absoluta singularidade, se distingue de qual- quer outro ente».

A produção industrial caracteriza-se, antes, por, «pres- cindindo dessas notas individuais», «eliminar elementos diferenciadores e, sintetizando elementos de identidade, estruturar determinados grupos, classes ou categorias, constituídos por unidades que genericamente se possam considerar idênticas», permitindo «a determinação de um objecto por referência à espécie» - numa palavra, pela «fungibilidade» (S. Pugliatti, in Enciclopedia del Diritto, vol. XI, p. 75).

Neste quadro, a marca é, sobretudo, «o símbolo de uma vontade de distinção do produto, para lá da sua específica qualidade»: ela garante a sua «fungibilidade relativa»- vale dizer que, conquanto não «seja sempre unifonne ou até fisicamente o mesmo», ele será «idealmente sempre o mesmo» (Cionti, ob. cit., pp. 135 e 126).

A chamada «função distintiva da marca» traduz, por- tanto, a efectiva possibilidade de actuar como elemento caracterizador, tendencialmente constante, de determinado grupo (fungível) de produtos, no confronto de outros gru- pos, potencial/efectivamente idênticos, de modo a favore- cer e proteger o respectivo produtor/vendedor, no «jogo» (cada vez mais «selvagem», convenhamos ... especialmente em matéria de preparados alimentares...) da concorrência do mercado.

E isto porque não só «constitui um vínculo invisível entre todos os exemplares por ela assinalados», permitin- do ao consumidor «identificar um dado produto face à oferta de outros semelhantes», e, por consequência, voltar a adquiri-lo se antes o satisfez, por razões de preço, quali- dade, etc. («função colectora da clientela»), como também «atrai novos consumidores que não o conhecem, nem po- dem verificar previamente a sua qualidade», mas que são sensíveis à reputação que adquiriu, superando os limites dessa clientela («função publicitária»)-Cionti, p. 156. E isto é tanto mais assim nos nossos tempos, em que, submetidos a um constante «bombardeamento» de publici- dade (nos mass media, nos cinemas, nas ruas, até na caixa do correio e à porta de cada um ...), a qualidade intrín- seca dos produtos e ou a identidade de quem o fornece se tornaram «aspecto sem valor para o consumidor, que está apenas interessado na marca» (M. J. A. Pupo Correia, Direito Comercial, 1988, p. 237), porquanto tende a asso- ciá-la a representações de status, «modernidade», «liber- dade», «oportunidade» (os famigerados «brindes» e «sor- teios», por exemplo), etc.

Consequentemente, a lei, ao tutelar o interesse econó- mico do produtor/fornecedor, arvora a «novidade» em exigência nuclear da sua constituição.

Exigem os artigos 93.°, n.° 12.°, e 94.°, corpo, do Código da Propriedade Industrial que determinada marca a consti- tuir se não confunda com outra(s) já existente(s) no mer- cado, destinada(s) a «produtos ou serviços da mesma espé- cie ou afins», de tal modo que o uso da mais moderna possa levar, «pela captação da clientela dos produtos» da(s) outra(s), «a prejudicar o titular desta» (P. Correia, ob. cit., p. 245).

Adopta-se, aí, um «critério subjectivo», que leva o con- sumidor a colaborar na promoção da lealdade da concor- rência, entronizado «agente do juízo de semelhança» ou confundibilidade.

A violação do citado normativo, e consequentemente a recusa do registo da marca, emergirá da «confusão ou erro fácil» na selecção do produto por um consumidor «dis- traído», concebido ao estilo do «americano médio, que deixa de ler à saída da escola», e que, de resto como toda a gente, não faz habitualmente qualquer «exame atento» nem ensaia um confronto de produtos, «que não há usual- mente condições de realizar» (O. Ascensão, ob. cit., p. 155). Tendo em conta os mecanismos de percepção commun- mente utilizados e as condições em que, de regra, é obtida (pense-se num supermercado qualquer, com milhares de artigos maciçamente expostos e dezenas de pessoas apres- sadas...), interessa apenas «uma semelhança de conjunto, que não obste a que cada um dos elementos singulares seja diferente; como uma fantasia de Carnaval pode suge- rir imediatamente a figura representada, embora se tenham alterado humoristicamente todos os elementos compo- nentes» (ibidem).

Esta última observação ganha, aliás, especial relevo quando estejam em causa as chamadas «marcas significa- tivas ou expressivas», que «dão a entender desde logo os produtos que as integram»: «têm um valor propagandís- tico obviamente acrescido, mas o seu titular apenas pode arrogar-se o direito ao conteúdo original da expressão adop- tada como marca, não podendo opor-se a que outros em- presários utilizem marcas construídas a partir dos mesmos sinais descritivos básicos» (P. Correia, ob. cit., p. 243).

Parecem ser parcialmente deste último tipo as duas marcas aqui a confrontar.

Com efeito, o radical «cau», em ambas presente, é de molde a indicar imediatamente que se trata de um produto «à base» de cacau.

Surge em ambas, por outro lado, o radical «vit», as- similável à mesma categoria (indicador quase «automáti- co» da presença de vitaminas).

Foneticamente, são estes, sem margem para dúvidas, os componentes «fortes» de ambas as expressões.

Perante eles, os elementos «cola» e «a», fracamente referenciadores e com uma «ressonância» algo «surda», tenderão a «dissolver-se» com facilidade, passando des- percebidos.

Para além da grande semelhança gráfica dos dois con- juntos, é notório que ambos os produtos têm a mesma finalidade (composição rápida de refeições ligeiras, mistura- dos em princípio com leite), são vendidos no mesmo género de estabelecimentos (supermercados, mercearias, pastela- rias, etc.) e se destinam a idêntica «mancha» de consumi- dores (famílias de extracção urbana, ou urbanizada, com destaque para crianças e jovens).

A similitude destas duas marcas é, pois, flagrante, po- dendo fazer incorrer em erro qualquer típico consumidor.

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Nestes termos, e ao abrigo dos artigos 83.°, n.° 12.°, e 207.°, § 2.°, do Código da Propriedade Industrial, nega-se provimento ao recurso.

Custas pela recorrente. Registe e notifique.

Após trânsito, remeta cópia ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (artigo 210.° do Código da Proprie- dade Industrial).

Lisboa, 8 de Fevereiro de 1991 (ac. serv.). - A Juíza de Direito, (Assinatura ilegível.)

I - Nutrexpa, S. A., interpôs recurso, que correu ter- mos pelo 3.° Juízo Cível de Lisboa, do despacho do direc- tor de Serviço de Marcas do Instituto Nacional da Pro- priedade Industrial que indeferira o pedido de registo da marca, sob o n.° 204 213, Cola-Cao-Vit.

Nesse Tribunal foi proferida a sentença a fls. 38 e segs., negando provimento àquele recurso.

Nutrexpa, S. A., apelou.

Sem melhor sorte, porque, através do acórdão a fls. 82 e segs., a Relação de Lisboa manteve o decidido na 1.ª instância.

Novamente inconformada, Nutrexpa, S. A., recorreu, de revista, para este Supremo.

E, alegando, concluiu (a fls. 97 e segs.):

a) O douto acórdão ora recorrido violou os preceitos legais aplicáveis à hipótese consignados nos arti- gos 93.°, n.° 12, e 94.° do Código da Propriedade Industrial;

b) A marca sub judice é dotada de atributos indispen- sáveis de verdade e novidade e sujeita de sufi- ciente eficácia distintiva, afastando a combinação de confusão e indução em erro geradora de con- corrência menos leal ou de qualquer outra; c) O juízo de aferição sobre a imitação da marca da

recorrente não teve em devida conta a contextura global, mas deteve-se na dissecação dos elemen- tos considerados isoladamente;

d) A semelhança entre as expressões não é flagrante nem se pode considerar qualificada, como o exige o corpo do artigo 94.° do citado Código e, por isso, face à eventual presença simultânea de pro- dutos por eles designados, o público consumidor, mesmo o mais distraído ou menos atento, será, sem dúvida alguma, livremente determinado na sua escolha.

A recorrente finaliza pedindo que seja «concedida re- vista, com as legais consequências».

A interessada Fábrica de Chocolates Regina, L.da, con- tra-alegou, defendendo a manutenção do decidido (a fls.

112 e segs.).

O Ministério Público emitiu douto parecer (a fls. 124 e segs.).

Foram colhidos os vistos legais e, face às regras proces- suais, houve mudança de relator.

II - Vem considerado assente o seguinte circunstan- cialismo (fl. 83):

a) Nutrexpa, S. A., empresa espanhola, requereu, em 25 de Outubro de 1979, o registo da marca 204 213, Cola-Cao- Vit;

b) Tal registo da marca destinava-se a assinalar «cacau e preparações à base de cacau»;

c) Por despacho proferido em 17 de Novembro de 1989 e publicado no Boletim da Propriedade Industrial, em 31 de Maio de 1990, foi recusado tal registo com fundamento de que a marca regis- tanda é susceptível de confundir-se com a marca nacional 127 526, Vit-a-Cau;

d) É titular da marca 127 526, Vit-a-Cau, a socieda- de Chocolates Rajá, L.da;

e) Esta marca destina-se a assinalar «cacau vita- minado em pó».

III - Esta problemática, que ora nos é presente, é das que evidencia a necessidade de urgente reformulação do sistema de recursos da lei portuguesa, viabilizando a ac- tual normatividade (artigo 209.° do Código da Proprieda- de Industrial) que durante anos se arraste uma questão registral de marca ou matéria semelhante, através de qua- tro decisões, até ao Supremo Tribunal de Justiça, por mais evidente que seja e por mais harmónicas que vão sendo as decisões!

Pese embora, naturalmente, todo o respeito que temos por qualquer opinião em contrário.

Dir-se-á - e receamos que com razão - que estes pe- quenos apontamentos que vamos deixando em alguns acórdãos serão inúteis.

Talvez.

Mas a nós, juízes, face visível da justiça, como alguém já nos chamou, compete estar na primeira linha de quem, não deixando de cumprir a lei que vigora, procura que ela melhore, para que os cidadãos tenham justiça, se não me- lhor, mais pronta, sem esquecer - et pour cause - que a prontidão é, em rigor, elemento da qualidade da justiça.

E vamos ao caso concreto.

IV - Em causa um problema de marcas: poder ou não poder ser feito o registo da marca Cola-Cao-Vit.

Já houve três decisões negativas. E vai haver uma quarta.

Diremos, tão brevemente quanto possível, porquê. V - A marca de um produto é um sinal distintivo do comércio e da indústria.

Assim como a firma identifica o sujeito comercial e o nome e (ou) a insígnia distinguem um estabelecimento, a marca só tem sentido enquanto distinção de um certo pro- duto (v. g. Prof. Ferrer Correia, Lições de Direito Comer- cial, 1973, I, pp. 312 e segs.).

Isto significa que um comerciante (lato sensu, isto é, abrangendo situações, em maior rigor, de indústria) tem, em princípio, direito a atribuir uma marca, um sinal distin- tivo, aos produtos que negoceia.

Simplesmente, vivendo as pessoas umas com as outras e tendo o direito como causa final a viabilização dessa convivência através de uma tanto quanto possível compatibilização de valores e de interesses, natural é que estipula umas tantas regras condicionantes do exercício do direito a uma marca.

Entre outras características concretas, a marca deverá, assim, revestir-se de verdade e de novidade. E isto sig- nifica que não pode ser passível de induzir em erro quer relativamente ao produto a que se destina quer no concer- nente a outros que possam ser afins.

VI - Esta indução em erro não pressupõe, necessaria- mente, uma cópia - dir-se-ia a papel químico ou fo- tocópia - de outra. Tal hipótese seria tão absurda (a de

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marca exacta e completamente igual a outra anterior) que seria rejeitada pela mais elementar «lei da boa razão». Portanto, imitar uma marca é um conceito jurídico que não pressupõe, necessariamente, uma cópia integral, mas sim uma semelhança obtida através da globalidade da marca. E, tratando-se do pressuposto semelhança, essa perspectiva há-de ser obtida na dita globalidade, tendo em particular atenção mais os pontos de convergência que os pormenores de divergência, no fundo, mais as semelhanças que as dissemelhanças [v. g., Acórdãos deste Supremo de 3 de Novembro de 1981 (BMJ, 311, 401) e de 16 de Julho de 1976 (BMJ, 259, 239)].

E tudo isto tendo em atenção a protecção da tanto quanto possível correcção do mercado, reconhecendo direitos ao titular ou candidato a titular de uma marca, mas sem esquecer os outros titulares de outras marcas relativas a produtos idênticos ou afins - protegendo, assim, uma salutar e leal concorrência; e, com particular relevância nos tempos de hoje, protegendo os consumidores, em ordem a evitar que possam cair em erro, sabendo, como é notório, que a publicidade entre em casa de qualquer cidadão quer este queira ou não queira, seja pela televi- são, essa «caixinha» que mudou o mundo, seja pelos outros meios de comunicação social, seja pela própria caixa do correio!

VII - E esta protecção tem algumas tónicas que con- vém frisar.

Por um lado, tem um significado ético a que os tribu- nais têm de ser sensíveis.

Outrossim, as regras limitadoras de marcas têm um cariz cautelar, preventivo. Ou seja, não vamos estar à espera que a casa arda para depois se chamar os bombei- ros, ou seja, não vamos estar à espera que alguém se engane para, só então, se dizer que tanto podia enganar, que enganou! Não, o que temos de fazer é um juízo de potencialidade.

E, só para referenciar alguns tópicos determinantes, a pessoa que temos de ter em vista como passível de ser induzido em erro é o consumidor comum dos dias de hoje, apressado as mais das vezes, sem tempo, nem possibili- dade prática para hábeis distinções de pormenor. Ou seja, é óbvio que, para o pretendente à nova marca, esta não se confunde com outra, ainda que semelhante, isto é, ele sabe que se não trata, exactamente, do mesmo produto; também é de admitir que um técnico, de gestão ou, até, de direito ou algo idêntico, possa distinguir certas marcas, ainda que muito parecidas e de produtos afins; mas não são essas perspectivas que temos de considerar; a pers- pectiva determinante é, como se disse, a do consumidor comum, que vai ao supermercado ou a local semelhante sem tempo, nem conhecimentos, nem mentalizado, para estar a fazer distinções subtis de marcas com acentuada semelhança: até pode pensar, se a tanto chegar, que o mesmo fabricante mudou um pouco a sua marca do mesmo produto (cf., v. g., Acórdão deste Supremo de 23 de Julho de 1980, BMJ, 299, 345).

E isto é tanto assim que o artigo 94.° do Código da Propriedade Industrial, normativo nuclear em toda esta problemática, nem exige que exista intenção dolosa para que uma marca seja considerada imitada e, como tal, não registável (ver artigo 93.°, n.° 12.°, do Código da Pro- priedade Industrial).

VIII - A matéria da chamada concorrência desleal já exigiria outros considerandos, mas, estando directamente em causa uma questão de registo, as normas básicas a

considerar são os ditos artigos 93.°, n.° 12.°, e 94.° do Código da Propriedade Industrial, a saber:

Artigo 93.°

Será recusado o registo das marcas que contra- riem o disposto nos artigos 76.° a 79.° e seus pará- grafos ou que, em todos ou alguns dos seus elemen- tos, contenham:

12.° Reprodução ou imitação total ou parcial de marca anteriormente registada por outrem, para o mesmo produto ou produto semelhante, que possa induzir em erro ou confusão no mercado.

Artigo 94.°

Considera-se imitada ou usurpada, no todo ou em parte, a marca destinada a objectos ou produtos inscritos no repertório sob o mesmo número, ou sob números diferentes mas de afinidade manifesta, que tenha tal semelhança gráfica, figurativa ou fonética com outra já registada que induza facilmente em erro ou confusão o consumidor, não podendo este distin- guir as duas senão depois de exame atento ou con- fronto.

Daqui decorre que, tendo por base problemática de facto, isto é, factores de semelhança de duas marcas, se põe um problema de direito, isto é, de situação imitativa, pressu- pondo:

a) Que as marcas se destinem a produtos efectiva- mente afins, inscritos ou não no repertório sob o mesmo número;

b) Que pela sua semelhança gráfica, figurativa ou fonética possa gerar-se confusão ou erro no con- sumidor comum (cf., v. g., Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça de 13 de Fevereiro de 1970, in BMJ, 194, 237, e de 27 de Março de 1979, in BMJ, 285, 352).

Postas estas ideias, sem as quais não seria viável o es- tudo do caso concreto, vejamo-lo cingido às suas parti- cularidades essenciais.

IX-Conforme o circunstancialismo que a Relação de Lisboa trouxe até nós, existia a marca n.° 127 526, Vit-a-Cau, e, por isso, foi negado o registo da marca n.° 204213, Cola-Cao-Vit.

Aquela primeira marca destina-se a assinalar cacau vitaminado em pó. E a segunda destinar-se-ia a cacau e preparações à base de cacau.

Por outro lado, em várias das suas passagens o acórdão ora sob recurso é explícito quanto ao reconhecimento da «semelhança gráfica e sonora», «grande similitude», «se- melhança absoluta» -cf. fls. 85 e 85 v.°-, no con- cernente às duas referenciadas marcas.

Tratando-se de produtos à base de cacau, reportam-se à mesma classe, a 30.ª, da tabela n.° 5 anexa ao Decreto- -Lei n.° 176/80, de 30 de Maio.

Trata-se, assim, de produtos não só afins como reporta- dos sob o mesmo número.

Outrossim e decisivamente, a carga gráfica e fonética da similitude decorrente das expressões nucleares «Cau» e «CaolVit» e «VIT», sem que a ordem das expressões ou o «U» ou o «O» tenham significado suficientemente rele-

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vante, como o não tem a inserção de «Cola» em vez de «a», é de tal ordem que, seguramente, a utilização, em mercado, de marcas tão semelhantes em produtos da mesma classe é considerável imitação, juridicamente, e, pelo que vem apurado, passível de induzir em confusão ou erro o consumidor comum.

Logo, a marca registanda não se reveste, globalmente considerada, do atributo de novidade, indispensável ao registo questionado, nem viabiliza um normal juízo da dis- tinção pelo consumidor comum.

Consequentemente, censura não há que fazer à decisão da Relação de Lisboa, aqui e agora sob recurso.

X - Resumindo alguns pontos, para concluir: 1) A marca é um sinal distintivo do comércio, de-

vendo respeitar, entre outros princípios, os de ver- dade e de novidade;

2) A imitação antinómica do princípio da novidade pressupõe semelhança fáctica decorrente da glo- balidade de marcas em presença, com particular incidência nos pontos de convergência;

3) O regime sobre registo de marcas tem em vista proteger uma leal concorrência de mercado e, essencialmente, o direito do consumidor a saber claramente o que tem no mercado, em termos cautelares e preventivos;

4) A pessoa cujos direitos e interesses está, nesta perspectiva, em causa não é o perito, mas sim o consumidor comum dos dias de hoje;

5) A situação imitativa implica análise jurídica de fáctica semelhança, pressupondo: a) que as mar- cas se destinam a produtos afins, inscritos ou não no mesmo número do repertório ponderável; b) que, pela sua semelhança gráfica, figurativa ou fonética, possa gerar-se confusão ou erro no con- sumidor comum;

6) Não é registável a marca Cola-Cao-Vit, face ao anterior registo da marca Vit-a-Cau, por não respeitar o princípio da novidade, tratando-se, num caso como noutro, de produtos à base de cacau, abrangíveis pelo mesmo número do repertório le- gal.

XI - Donde, concluindo: Acorda-se em negar a revista. Custas pela recorrente.

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