Missão Espiritana
Volume 13 | Number 13 Article 6
6-2008
O P. Brásio e a Congregação do Espírito Santo, O
Missionário dos Arquivos
Adélio Torres Neiva
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o p. brasio e a congre-
ga^ao do espirito Santo,
o missionario dos
arquivos
O R Brasio escreveu mais de 70 titulos relativos a Congregagao do Espirito Santo e a sua actividade missiondria. A obra mais importante e, sem duvida, a Spiritana Monumenta Historica em cinco volumes. Seguese depois um conjunto de trabalhos sobre algu- mas missoes espiritanas de maior repercussao
historica, um outro conjunto de artigos em que se de- bruga sobre algumas das figuras mais significativas da missao espiritana. Vem depois um outro conjunto de artigos sobre acontecimentos mais relevantes, rela- tivos a Congregagao do Espirito Santo, e finalmente estudos sobre os fundadores.
Dos cerca de 500 titulos que o P. Brasio escreveu, 70 refe- rem-se a Congregagao do Espirito Santo. Mais que isso, para o P. Brasio a sua investiga^ao historica esta indissoluvelmente conotada com a sua voca<;ao espiritana. Ele sentia-se um mis sionario dos arquivos. Ele mesmo o confessa, na Introdu^ao aos Spiritana Monumenta Historica, quando agradece ao Su perior Geral da Congrega^o as facilidades que este lhe con- cedeu pelas suas desloca^oes necessarias a sua obra, pela Eu- ropa e pela Africa, em diversas viagens de estudo. A sua paixao pela historia nao o impediu de assumir varios mi- nisterios apostolicos na sua Congregagao, nao so como
pro-* Adelio Torres Neiva, missiondrio do Espirito Santo, Licenciado em Historia pela
Universidade de Coimbra, Redactor da Revista “Missao Espiritana>> e Director da Revista “Vida Consagrada”
o p. brasio m isssionario dos arquivos
fessor dos aspirantes a vida missionaria, como na direcgao do Lar Academico de Coimbra dos Missionaries do Espirito Santo e depois como co-fundador da revista "Portugal em Africa”, do mesmo Instituto, de que foi redactor principal du rante dez anos e depois seu assiduo colaborador.
A obra do P. Brasio no que se refere a Congregagao do Espirito Santo abarca varias vertentes: investigagao documen tal, estudos sobre os fundadores, monografias, biografias de missionaries, retalhos da historia espiritana, acontecimentos e comentarios.
1. Indiscutivelmente que o contributo maior que o P. Brasio deu para a historia da Congregagao foram os cinco vol umes da monumental colectanea de documentos sobre a pre- senga dos Espiritanos em Angola, chamada "SPIRITANA MONUMENTA HISTORICAL
A quando do primeiro centenario da chegada dos Mis sionaries do Espirito Santo a Angola, em 1966, a Universi- dade Espiritana de Duquesne, em Pitsburgo, nos Estados Unidos, ligada as Editions E. Nouverlaesrs, de Lovaina, de- cidiu financiar um Corpus Documental destinado a oferecer aos investigadores uma eoleegao de documentos importantes relacionados com o papel desempenhado pela Congregagao do Espirito Santo na historia das igrejas e das regioes em que trabalhou. Era um projecto grandioso, de importancia unica para a historia das missoes espiritanas, que previa a publi cagao de 40 volumes.
Segundo este projecto, a eoleegao deveria constar de cinco series, consagradas respectivamente a Problemas Gerais, a Africa, a America, a Europa e a outras regioes nao abrangi- das pelas alineas anteriores. Nao tinha sido fixado nenhum programa de publicagao, mas era intengao da universidade publicar cada volume ou fasciculo a medida que estivesse concluido.
O primeiro a aceitar o desafio foi o P. Brasio. Comegou- se pela Series Africa e esta por Angola, pois por ordem al- fabetica, Angola tinha prioridade e o P. Brasio nao perdeu tempo. Efectivamente em Dezembro desse ano de 1966, langava ele o primeiro volume sobre a presenga dos Espiri tanos em Angola. Depois deste volume, mais quatro vieram a luz, num total de 4.078 paginas. O menos volumoso con- tava 720 paginas e o mais volumoso, 1040 paginas.
O ritmo desta publicagao foi de quase um volume por ano. Assim, o primeiro apareceu em 1966, o segundo em 1968, o terceiro em 1969, o quarto em 1970 e o quinto em 1971.
Este ultimo volume, o mais volumoso, seria tambem, in- felizmente o ultimo a ser publicado do projecto da universi- dade de Duquesne. Sabendo a dificuldade que o P. Brasio teve para que a universidade cumprisse os seus compromis- sos financeiros para com ele, acredito que foram de facto as dificuldades financeiras, que provavelmente nao tinham sido devidamente avaliadas, que impediram que o projecto con- tinuasse. O documento mais antigo recolhido nestes volumes e de 1596 e o mais recente remonta a 1907, mas o espa^o etario da grande maioria dos documentos situa-se no decor- rer dos seculos XIX e XX, o seculo XX com 402 documentos e o XIX com 849.
Para alem da Universidade de Duquesne, outras enti- dades apoiaram este projecto, sobretudo no que se re fere ao suporte dado ao P Brasio para levar a cabo a investigate*: o Instituto de Alta Cultura a partir das suas sedes de Paris e Friburgo, o Ministerio do Ultramar, por intermedio do Dr. Adriano Moreira, entao o ministro que ocupava aquela pasta e que facilitou ao P. Brasio as suas viagens a Angola e as suas diligencias junto do Governador Geral, Coronel Silverio Mar ques e do Professor Virgilio Canas, Director do Instituto de Investigate Cientifica de Angola, pelas suas desloca^oes a Landana, Huila, Mo^amedes e Luanda.
Estes cinco volumes recolhem um total de 1.127 docu mentos, sendo o quinto volume o que contem mais docu mentos (321) e o terceiro o que contem menos (138).
Antes da epoca espiritana, outros Institutes Religiosos missionaram, em Angola e os Espiritanos retomaram mesmo, em 1866 a Prefeitura do Congo, que tinha sido confiada aos Capuchinhos no seculo XVII e de que Joao Antonio de Cavazzi Montecucullo nos deixou larga e pormenorizada memoria.1 Por isso, o P. Brasio julgou util, se nao necessario, incluir nesta colec^ao varios documentos mencionados ou subentendidos, anteriores ao ano de 1866, ano da chegada dos Missionaries do Espirito Santo a Angola. Efectivamente muitos destes documentos eram de dificil abordagem e, por- tanto, era de toda a conveniencia inclui-los nesta colectanea.
Tambem porque a missao dos Espiritanos em Angola exigiu a funda<;ao da Provmcia Portuguesa da Congrega^ao do Espirito Santo para servi^o e forma^ao desses missionaries, esta colectanea inclui documentos que acompanham a fun- da^ao e a evolu^ao historica desta Provincia, a quern estavam
1 R Joao Antonio Cavazzi de Montecucullo DESCRIQAO HISTORICA DOS TRES REIN OS DO CONGO, MATAMBA E ANGOLA, 2 vol., Junta de Investigagao do
Ultramar.
o p. brasio misssionario dos arquivos “ o P. Brasio percorreu durante 50 anos os arquivos da Europa e da Africa.”
confiadas a maior parte destas missoes, tanto mais que toda a actividade desta Provmcia esteve sempre exclusivamente ori- entada para as missoes africanas que lhe estavam confiadas.
Para a recolha destes documentos o P. Brasio percorreu durante 50 anos os arquivos da Europa e da Africa. Nomeada- mente os espanhois, italianos, suf^os e franceses, os do Vati- cano, da Propaganda Fide, os Arquivos da Ordem dos Frades Menores, em Roma, o Arquivo Geral da Congrega^ao do Es- pfrito Santo, em Paris, o Arquivo do Ministerio dos Negocios Estrangeiros, de Paris, o Arquivo do Ministerio da Marinha, de Paris, Simancas, Madrid, Ceuta e Cadis, o Arquivo Historico Ultramarino, de Lisboa, o Arquivo do Ministerio dos Estrangeiros de Lisboa, Torre do Tombo, o Arquivo da Universidade de Coimbra, o Arquivo da diocese de Nova Lis boa, (Huambo), o Arquivo da Provmcia Espiritana de Portu gal, o Arquivo Historico de Angola, em Luanda, o Arquivo do Arcebispado de Luanda, o Arquivo da Camara de Mo9amedes (Namibe), o Arquivo da Missao da Hufla, o Ar quivo da Missao de Landana, o Arquivo da diocese de Car mona - S. Salvador, (Ufge), o Arquivo da diocese do Luso, (Luena) os Arquivos das dioceses de Malanje, de Sa da Ban- deira, (Lubango), e Silva Porto (Kuito-Bie).
Outra fonte que o P. Brasio frequentou foram os dife- rentes boletins e publica9oes de entidades com creditos no tecido missionario, nomeadamente o Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Boletim Oficial de Angola, Boletim Oficial de S. Tome e Principe, o Boletim Eclesiastico de An gola, Boletim da diocese de Angola e Congo, Bulletin General de la Congregation du Saint Esprit, as Revistas Portugal em Africa, Missions Catholiques, etc.
Participou em Congressos nacionais e internacionais, como o Luso-Espanhol, em Madrid, o Beirao, em Coimbra, o de S. Martinho de Dume, em Braga, o da Historia dos Des- cobrimentos, em Lisboa, o Mariano em Braga, o Internacional Missionario em Roma, o Missionario em Barcelos, o Historico de Portugal Medieval, em Braga, o Internacional Missionario em Liao, e nas Semanas Missionarias em Burgos.
Acompanhando esta documenta^ao podemos seguir a par e passo todo o itinerario da funda^ao da Provmcia Por- tuguesa da Congrega^ao do Espfrito Santo e da implanta^ao dos Missionarios do Espfrito Santo em Angola, bem como as principals etapas do seu desenvolvimento ao longo dos primeiros cem anos.
Alem das origens da missao dos Capuchinhos que sao recordadas nesta colec^ao, temos informa^oes particular- mente relevantes sobre as relates da Congrega^o do
pinto Santo com as colonias portuguesas, limitrofes das colo- nias francesas, a quando da primeira missao dos Espiritanos nestas colonias.
A serie de documentos de troca de correspondencia de Mons. Bessieux com o Superior Geral da Congregapao e ou- tras entidades juridicas e administrativas e de grande relevan- cia. Tambem a correspondencia da Congregapao com a Santa Se a proposito da missao espiritana em Angola e de um in- teresse incontornavel para a missionapao de Angola.
Interessante e tambem toda a correspondencia relativa a primeira missao dos Espiritanos no Ambriz, que foi uma primeira experiencia, um pouco improvisada, e que obrigou a todo um processo diferente de abordagem da missao an- golana, pelos Espiritanos.
Depois entra em jogo o grande pioneiro da presenpa dos Espiritanos tanto em Angola como em Portugal, o P. Charles Aubert Duparquet, o numero de cartas que ele es- creveu e que recebeu, a proposito da missao de Angola, ul- trapassa a centena. Outro acervo de documentos tern o P. Eigenmann, cabouqueiro da Provmcia de Portugal, como pro- tagonista. Por estas cartas passam todas as diligencias, difi- culdades e exitos que marcaram a sua passagem pelas origens da Provmcia Portuguesa.
Depois entra em cena o P. Jose Maria Antunes com toda a pujanpa da missao da Huila e do seminario diocesano ins- talado nessa missao. Foi um momento chave para a mission- a<;ao de Angola.
Em seguida e o P. Ernesto Lecomte e a missao da Cim- bebasia heroica, de que falava o P. Joaquim Alves Correia, que tomam a dianteira na recolha de documentos. Sao paginas so- bre pessoas e acontecimentos de quern nos nao somos di- gnos, como nos ensina a Carta aos Hebreus. E depois e a fun- da^ao sistematica das missoes constantes do piano do P. Antunes, completado pelo P. Lecomte para a ocupa^ao mis- sionaria de Angola, que vao surgindo pouco a pouco, sempre acompanhadas pelo suporte documental que esteve na sua origem e que as fizeram entrar na historia da missao an- golana.
Monsenhor Keiling, o lendario missionario das terras do Cubango e do Huambo entra depois em cena, com o seu ardor incansavel de missionario e a sua devo^ao nunca des- mentida por essa Angola que ele tanto amava.
Acompanha-os nas andan^as e vicissitudes da Provmcia Portuguesa, protagonizada pelo seu representante junto do Governo, o P. Cristophe Rooney, na busca da sua identidade e da sua liberdade. “Interessante e tambem toda a correspondencia relativa a primeira missao dos Espiritanos no Ambriz” missao espiritana
o p. brasio m isssionario dos arquivos
Os tempos da Concordata e do Acordo Missionario de 1941 dao novo alento a actividade missionaria nas colonia portuguesas e o P. Brasio nao se cansa de o relevar com os documentos que recolhe, tanto mais que era um terreno das suas preferencias.
Pela mao do P. Brasio somos convidados, ainda, a fazer uma visita guiada as fontes das origens de nao poucas mis- soes, espalhadas por toda Angola. Lembremos algumas delas: Hufla, Landana, Caconda, Malanje, Cabinda, Libolo, Benguela, Cassinga, Cuango, Huambo, Bangalas, Chiulo, Mus- suco, Omupanda, Ganda, Sendi, Bimbe, Galangue, Mupa, Zaire, Saurimo, Andulo, Quipeio, Cuima, Quilengues, Balombo, Caala, Mussolo, Cubango, Quilengues, Dembos, Nova Sintra, Entre Rios, Cuamato, Chinguar, Lubango, Bela Vista, Mungo, Silva Porto, Nhareia, Chiengue, Camunda, Quibala, Chicuma, Gamba, Cafima, Vale do Queve, Luquembo, Luso, Mongua, Quihita, S. Salvador.
Como disse o dr. Jose Pedro Machado, na Academia Por- tuguesa de Historia, "toda esta documentagao constitui valiosa base para estudo da acgao missionaria (com natural relevo para a Congregagao do Espirito Santo) como para a politica de Portugal nas partes de Africa, sobretudo em An gola e em menor escala na Guine e em S. Tome e Principe”.
“o P. Brasio tem ainda numerosos trabalhos sobre os fundadores da sua Congregagao”
2. Alem da recolha de documentos, o P. Brasio tem ainda numerosos trabalhos sobre os fundadores da sua Con gregagao, a actividade missionaria dos Espiritanos, sobre as figuras, missoes e acontecimentos mais significativos da gesta espiritana.
O P. Brasio recolheu num so volume "Historia e Missi- ologia”, um conjunto de trabalhos ineditos e dispersos, que o Instituto de Investigagao Cientlfica de Angola publicou2, in- tegrado nas comemora^oes do quarto centenario da funda^ao de Luanda. Nesta colectanea estao inseridos alguns dos seus trabalhos relacionados com a Congrega^ao do Espirito Santo.
Convem notar que o P. Brasio nao colaborou so em pu- blica^oes de grande exigencia e rigor cientffico como as re vistas Studia, Colec^ao Henriquina, Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Lusitania Sacra, Anais da Acade mia Portuguesa de Historia, Broteria, Actas do Congresso In- ternacional dos Descobrimentos, Arquivo Historico da Madeira, Revista Portuguesa de Historia, Estudos de Castelo Branco, Memoria da Academia de Ciencias de Lisboa, Actas
2 Antonio Brcisio. HISTORIA E MISSIOLOGIA. INEDITOS E ESPARSOS, Lu anda, 1973.
do Congresso Historico de Guimaraes e sua Colegiada, Pre- senga de Portugal no mundo, O mundo Portugues, Estudos. Portugal em Africa, Lumen, Boletim Geral das Colonias, Acgao Medica, Arquivo Historico de Portugal, Bracara Au gusta, Resistencia, Cabo Verde, Spiritus, Ultramar, Boletim da Provmcia Portuguesa da Congregagao do Espfrito Santo, Le- tras e Artes, Litoral, Arquivo Coimbrao, Humanidades, I. En- contro dos Escritores de Angola, Roteiro dos Arquivos Mu nicipals Portugueses, Revista do Institute Historico Brasileiro; Enciclopedia "Verbo” e "Dicionario da Historia de Portugal”.
Mas o P. Brasio colaborou tambem nao so com quase to- dos os jornais diarios, como em outras publicagoes de tipo mais jornalfstico, tais como: A Voz, Novidades, Diario da Manha, Jornal do Comercio e das Colonias, Diario Popular, Epoca, Stella, O Apostolado, Acgao Missionaria, Missoes de Angola e Congo, Bazar, Correio do Vouga, O Dever, A Ordem, Encontro, Renascenga, O Dever, Entre Nos, Mensageiro de Bra- ganga, Ao servigo da Rainha do mundo, Mensagem de Santa Teresa do Menino Jesus, Rosas de Santa Teresinha, Annales Spiritaines, Pentecote, Cahiers Spiritains, Portugal Faits et Documents, etc. Num documento da Academia Portuguesa de Historia, o P. Brasio escreveu: "Nao me e possivel enumerar os artigos publicados em revistas e jornais diarios ou se- manarios, especialmente em A Voz, Novidades e Acgao Mis sionaria”.
Sobre as missoes espiritanas, o P. Brasio publicou uma monografia sobre a "Missao e o Seminario da Huila”, incluido na colec9ao "Pelo Imperio”.3 Varias conferencias sobre outras missoes espiritanas por ocasiao de alguma comemora9ao mais significativa dessas missoes, como: no "centenario da missao de Landana”, e "centenario da missao de Cabinda”. Destes es tudos o mais relevante e, sem duvida, "A missao e Seminario da Huila” que no meu entender e o seu trabalho monogra- fico melhor conseguido.
O P. Brasio foi sempre mais motivado pela investiga9ao e recolha de documentos, pela sua leitura e analise do que pela constru9ao de trabalhos elaborados por ele. Penso que as excep9oes mais relevantes foram a biografia de ”D. Antonio Barroso”, publicada pelo Centro de Estudos Historicos Ultra- marinos, "Ac9ao missionaria no periodo Henriquino”, da colec9ao "Henriquina”, e a Missao e Seminario da Huila, n° 64 da Colec9ao "Pelo Imperio”, "Os pretos em Portugal”, n° 10 da mesma colec9ao, "Missoes Portuguesas de Socotora”, n° 93 da
“O P. Brasio foi sempre mais motivado pela investigagao e recclha de do- cumentos, pela sua leitura e analise do que pela construgao de trabalhos elaborados por ele.”
3 A Brdsio. A MISSAO E O SEMINARIO DA HUILA, C ol Pelo Imperio ng 64.
Lisboa 1940.
o p. brasio misssionario dos arquivos
mesma colecgao e "Politica do espirito no Ultramar Por tuguese
E extremamente significativa a sua obra sobre a missao da Huila, a missao modelo que foi o grande ponto de par- tida, lan<;ado pelo P. Duparquet e assumido pelo P. Jose Maria Antunes, para toda a missiona^ao de Angola pelos Espiri- tanos.
Esta missao propunha-se ser um modelo de missiona^ao que seria depois seguido por todas as missoes espiritanas: uma residencia para os missionaries, o estabelecimento de um internato-colegio, visando a forma^ao do clero indigena, um internato-colegio para os filhos dos colonos e as familias mais qualificadas nativas, um internato para meninas, a cargo das Irmas Missionarias, uma granja com escola profes sional agricola e de artes e oficios necessarios a vida africana. Mais tarde acrescentar-se-ia um noviciado para forma^ao de Ir- maos Auxiliares e outro para a forma^ao de Religiosas. Era um projecto piloto concebido pelo P. Duparquet, ja em voga noutras missoes espiritanas da Africa, que iniciava uma nova metodologia das missoes portuguesas e a que o P. Jose Maria Antunes daria o seu aval incondicional.
A inclusao do seminario diocesano nesta missao du rante 25 anos, de 1882 a 1907, por onde passaram varias cen- tenas de candidates, foi, sem duvida, um momento em- blematico tanto para a missao da Huila como para o seminario diocesano de Angola.
3. Exemplo significativo da aten^ao que o P. Brasio dedi- cava as missoes da Congrega^ao e o artigo que escreveu na re vista Ultramar sobre "A missiona^ao de S. Tome e Principe e da Guine no seculo XIX”.4 Aqui documenta o P. Brasio o en- contro de Mons. Bessieux, vigario apostolico das Duas Guines, com as colonias portuguesas e as suas diligencias para fundar nas ilhas de S. Tome e Principe um seminario para as missoes das colonias francesas. Segundo este projecto, na ilha do Principe seria fundado um seminario menor e na de S. Tome, um maior para formar os missionaries nativos da Guine e do Gabao. Mons. Bessieux afirmava que se dois ou tres padres da sua Congrega^ao, que na ilha do Principe cri- assem uma escola, fundariam tambem em breve, um semi nario menor, esperan^ado que a forma^ao religiosa minis- trada pela escola desenvolveria, sem duvida, o eclodir das voca^oes. Mas o seu sonho ia ainda mais longe: os padres
for-4 H I S T O R I A E M I S S I O L O G I A . P g . 775-790.
mados no Principe passariam a ilha de S. Tome, onde fun- dariam um seminario maior. Mons. Bessieux estava persua- dido que estas duas ilhas dariam com o rodar dos tempos, missionaries numerosos para evangelizar a costa do Cuango e mais alem. A Europa, dizia ele, nao nos dara nunca mis sionaries bastantes para as necessidades africanas, ao passo que as ilhas do Principe, S. Tome e Ano Bom, forneceriam a Franca o que a Franga nao lhe poderia dar. Alem disso, a ilha do Principe seria ainda, julgava Bessieux, alfobre de vocagoes de raparigas para a vida religiosa e portanto um beneficio auspicioso para a missao das Duas Guines. Seriam necessarios pelo menos dois padres do Espirito Santo, virtuosos e expe- rientes para fundar uma comunidade como base de trabalho. E, um pouco mais tarde, Bessieux escrevia a Libermann a pedir-lhe padres para a evangelizagao de S. Tome e Principe. Foi justamente a falta de Pessoal que fez adiar este projecto, que culminaria com o envio dos espiritanos para Angola em
1866.
Diz o P. Brasio que Bessieux sentia uma especie de atraegao psiquica e apostolica pelo Ultramar portugues. Nao era apenas Luanda, o Principe e S. Tome, o seu zelo sem limi- tes ja langava os olhos cobigosos de colheita de almas para as proprias ilhas de Cabo Verde.
O projecto, como sabemos, viria a ser adiado, mas Bessieux tratou seriamente dele nao so junto de Libermann como junto da Propaganda Fide. Devemos ao P. Brasio todo um conjunto de informagoes e documentos que nos infor- mam sobre a pre-historia do envio dos missionaries do Es pirito Santo para Angola.5
4. Alem das missoes, tambem os missionaries espiri tanos foram objecto do estudo do P. Brasio. Lembremos al- guns nomes sobre os quais ele escreveu: P. Duparquet, P. Jose Maria Antunes. D. Moises Alves de Pinho, Carlos Estermann, P. Jose Alves Tergas, P. Luis Barros, primeiro angolano espiri- tano e P. Clemente Pereira da Silva.
De todos estes estudos merecem referenda: "A politica missionaria do P. Duparquet no sul de Angola” e "O piano do P. Jose Maria Antunes para a ocupagao missionaria de An gola”.
O governador de Mogamedes, coronel Nunes da Mata, tinha levantado duvidas sobre as intengoes do P. Duparquet ao fundar uma missao para la do Cunene, no sul de Angola;
“tambem os missionaries espiritanos foram objecto do estudo do P. Brasio.” 39
5 A. Brdsio. A missionaqao de S. Tome e Principe e da Guine no seculo XIX. In
Historia e M issiologia. Ineditos e Esparsos. E775-790.
o p. brasio misssionario dos arquivos
acusava-o de agir segundo os interesses britanicos. Logo res- pondeu o P. Brasio, fazendo-se acompanhar de uma serie de documentos que desacreditavam as acusagoes do Governador de Mogamedes. Perante a documentagao apresentada pelo P. Brasio o governador de Mogamedes viria a mudar de opiniao sobre as actividades do P. Duparquet de um e do outro lado do Cunene. O estabelecimento dos Boers holandeses foragi- dos do Transvaal, no Humbe, reclamava a fundagao de uma missao Catolica, como ponto de apoio e de defesa da sobera- nia politica portuguesa naquelas paragens ribeirinhas do su- doeste africano.
Movimentou-se o prelado franciscano D. Jose Sebastiao Neto, sobressaltado por ver ja ali missionaries protestantes es- trangeiros. A missao do Humbe que o P. Duparquet fundara julgava-a o bispo de Angola indispensavel para se poderem paralisar e ainda destruir inteiramente os esforgos politicos e religiosos dos missionaries protestantes. E queria o prelado que a missao se organizasse "segundo o sistema dos franceses” ou seja, dos Missionaries do Espirito Santo. E edificante deve- ras a documentagao oficial confidencial publicada pelo P. Brasio sobre este e outros problemas da historia missionaria de Angola desta epoca. Nunes da Mata acabou por reclamar confidencialmente a ida do P. Duparquet para o sul de An gola para resolver os problemas complicados que iam surgindo. Foi sobretudo devido ao bom senso de Julio de Vi- lhena, quando ministro do Ultramar que o P. Duparquet acabaria por fundar a missao da Huila.
O piano do P. Jose Maria Antunes foi um tema sobre o qual o P. Brasio escreveu um artigo muito elucidativo. A 1 de Dezembro de 1894 enviou o P. Antunes um relatorio ao Mi nistro do Ultramar em que propoe um piano de fundagao de missoes para a ocupagao efectiva de Angola, exigida pela Con- ferencia de Berlim, como direito a titulo de posse do ter- ritorio.6
Segundo o P. Antunes esta ocupagao poderia ser feita por tres meios: ocupagao pelo estabelecimento de feitorias comerciais, ocupagao militar ou ocupagao por meio de colo- nias de povoamento. Ora, segundo o P. Antunes, nenhuma destas hipoteses estava ao alcance de Portugal nessa altura. Restava uma quarta hipotese que era ocupagao por meio de missoes religiosas civilizadoras. Desde ha 15 anos que se ti- nham fundado 15 missoes: 4 com o centro em Huila: Huila, Chivinguiro, Jau e Quihita; 4 com o centro em Caconda: Ca- conda, Bie, Cassinga e Cubango; 4 com o centro em Landana: 6 S M H I V p g . 251. 1 .X I I . 1 8 9 4 .
Landana, Cabinda, Luali e Lucula. Tinham tambem ja sido fundadas missoes no Humbe, no Cuanhama e em Santo An tonio do Zaire. Tendo em conta estes resultados, conseguidos apenas em treze anos de presenpa espiritana, o P. Antunes propunha um piano para a ocupa<;ao espiritual de toda a An gola, para um espapo de dez anos. Cada missao seria fundada a umas vinte leguas umas das outras, para que pudessem servir de ponto de escala entre elas; o que facilitaria a circu- la^ao dos transportes e relates de todo o tipo. Assim, a par- tir da missao de Malanje seriam fundadas em 19 anos quatro missoes filiais, ate a fronteira de Cassai, reputada como a fron- teira portuguesa, a leste do paralelo de Malanje. A partir da missao de Caconda seriam fundadas 5 missoes, ate atingir o curso superior do Zambeze. A missao de Cassinga seria outro ponto de partida para mais quatro missoes ate ao Zanzibar Ocidental. Finalmente a partir da missao da Huila seriam fundadas sete missoes ate ao Barotze. Era portanto um pro- jecto que incluia a fundapao de vinte missoes em dez anos, para a ocupapao de toda a Angola.
Merce de circunstancias varias, entre as quais tomam destacado lugar os acontecimentos politicos e militares que entretanto se impuseram, o piano do P. Antunes nao foi exe- cutado com o rigor por ele projectado, mas em grande parte esse piano acabou por se realizar. A publicagao deste docu- mento pelo P. Brasio veio por em circulapao um dos projec- tos missionarios mais criativos e mais convincentes da ac- tividade dos Espiritanos em Angola.
“A publicagao deste docu' mento pelo P. Brasio veio por em circulagao um dos projec- tos missionarios
5. O P. Brasio fez tambem algumas sinteses de aconteci mentos significativos da Congrega^ao do Espirito Santo, nomeadamente "Descobrimento, povoa^ao e evangeliza^ao de Cabo Verde”, "Um centenario Espiritano”, "Renascimento mis- sionario de Angola”, "Cem anos ao servi<;o de Angola", "Cen tenario Espiritano em Portugal”, "Cabo Verde, novo campo de apostolado dos Missionarios do Espirito Santo”, "Centenario de gloria”, "Os missionarios na restaura^ao de Angola”, "Os missionarios do Espirito Santo e a funda^ao de Sa da Ban- deira”, "Os 450 anos da diocese de Cabo Verde”, "Estrategia dos Missionarios do Espirito Santo”, "Um ano de apostolado dos Missionarios do Espirito Santo”, ’’Missoes do Espirito Santo em Angola”, "Que fizemos em Angola?”, "Os padres de Libermann em Angola e Cabo Verde”, "A Associa<;ao de Nossa senhora de Africa”.
Destes titulos eu sublinharia apenas os que marcaram o primeiro centenario da fusao da Congrega^ao do Espirito Santo com a do Imaculado Cora^ao de Maria e o centenario
mais criativos e mais convin- centes da ac- tividade dos Espiritanos em Angola.” missao espiritana
o p. brasio m isssionario dos arquivos
da chegada dos Espiritanos a Angola e o da "Funda9ao da Provmcia de Portugal”.
A smtese que o P. Brasio faz sobre todo o longo processo da uniao da Congrega^ao do Espirito Santo com a do Imacu- lado Cora9ao de Maria e indiscutivelmente um dos trabalhos mais bem elaborados e mais bem documentados que se fize- ram sobre este assunto. A leitura do P. Brasio e de um rigor e de uma clareza documental que constitui uma fonte obri- gatoria para quern quiser ficar esclarecido sobre este tema- -chave da historia dos Espiritanos.7
A conferencia que o P. Brasio proferiu no Museu de An gola, em Luanda, na sessao comemorativa do I Centenario das Missoes do Espirito Santo em Angola, a 12 de Novembro de 1966 e outro trabalho onde o P. Brasio alia o rigor historico a capacidade de smtese: a situa^ao da missao em Angola a quando da chegada dos Espiritanos, os apelos do rei do Congo D. Henrique II, o interesse do Governo Portugues pela presenga dos missionaries espiritanos, as diligencia feitas pela Propaganda para resolver a questao da Prefeitura do Congo e as suas incidencias com os direitos do padroado, a questao levantada no Parlamento de Lisboa por causa da pre s e n t dos missionaries franceses no Ambriz, a primeira mis sao dos Espiritanos no Ambriz, a ocupa^ao espiritual dos Es piritanos de toda a Angola, o trabalho timoneiro dos Espiritanos na missao de Angola, as dificuldades que foi pre- ciso veneer, o trabalho cientifico dos missionaries e toda a actividade dos 750 Espiritanos que passaram por Angola nestes primeiros cem anos - tudo sao aspectos focados pelo P. Brasio nessa memoravel conferencia.8
Sobre a historia da Provmcia Portuguesa proferiu tam- bem o P. Brasio uma conferencia no Salao Nobre da Bi- blioteca Publica de Braga, em 7 de Dezembro de 1977, a proposito do centenario da funda^ao da Provfncia Por tuguesa. Por esta conferencia podemos fazer uma viagem ao ano de 1867 e assistirmos a todas as diligencias e motiva^oes que levaram a funda^ao da Provmcia, penetrar na intimidade da rua de S. Lazaro de Santarem e assistirmos a novena que nesse dia 3 de Novembro de 1877 se iniciou ao Cora^ao Ima- culado de Maria pela pequenina comunidade que entao acabava de chegar a Portugal. O Seminario do Congo teve vida breve, mas os homens que o fundaram tinham alma para construir o futuro. E depois acompanhamos o P.
Eigen-7 Portugal em Africa. 1948. pg. 292-309 e Historia e Missiologia pg. Eigen-750-Eigen-766. 8 Portugal em Africa 1966. pg. 346-361 e Historia e Missiologia. pg. 819-832.
mann em todas as suas andan^as que o levaram a desenvolver e fazer crescer a Provfncia numa rede de obras que mais ne- nhuma Congrega^ao conseguiria levantar em Portugal nesses tempos conturbados e de contfnua turbulencia polftica e re- ligiosa. Particularmente o Colegio do Espirito Santo mereceu ao P Brasio uma abordagem profunda e exigente. Depois veio a convulsao de 1910 e os novos rumos que Congrega^ao to- mou, desta vez pela mao prudente e confiante do P. Pinho. Esta sfntese do P. Brasio sobre a Historia da Provfncia con- tinua a ser um ponto de referenda importante sobre os cami- nhos da nossa memoria espiritana.9
6. Tambem os fundadores da Congrega^ao mereceram ao P. Brasio um estudo atento e rigoroso: "A causa da Beati- fica^ao do P Libermann”, "La mort du Venerable Libermann”, "Libermann e o Cora^ao de Maria”, "O meu corapao e dos africanos”, "Reacpao de Libermann”, "O missiologo judeu”, "Um judeu Salvador da ra<;a preta”, "O berpo de Libermann”, "Libermann sob o signo do Espirito”, "A santidade do mis sionary do Cora^ao de Maria”, ”A santidade missionaria de Libermann”, "Libermann e a maldipao de Cam”, "Libermann e as autoridades civis”, "Plano de Libermann para a Africa”, "Maria Imaculada e o restaurador da Congrega^ao”, "O Padre Libermann no Brasil”, "Antologia das Cartas de Libermann”, "Poullart des Places e Libermann”, "A Regra Provisoria da Obra dos Negros”.
A acrescentar, pequenas notas sobre a historia da Con- grega^ao que manteve em alguns orgaos de comunicapao de indole mais popular, como "Historia das Missoes em pe- queninos”.
Reterei apenas, a tftulo de exemplo, seu trabalho so bre "A Regra Provisoria da Obra dos Negros”.10 proferido na co- munidade de Lisboa a 2 de Fevereiro de 1981.
A finalidade desta Regra foi dar aos Missionaries do Cora^ao de Maria ou seja a Obra dos Negros o impulso so- brenatural para realizarem com espirito bem identificado a sua vocapao apostolica. Ela e, sem duvida, o bilhete de iden- tidade dos Espiritanos. Depois da morte de Libermann esta Regra seria remodelada nada menos de cinco vezes, em me dia todos os vinte anos. E a intenpao destas remodela^oes outra nao foi senao adaptar aos tempos a Congrega^ao na
fi-9 A. Brasio. Um seculo de historia espiritana in Historia e M issiologia. Pg.. 861
873.
10 Missao Espiritana. I Junho 2002. pg.l 18-126.
o p. brasio misssiondrio dos arquivos
“no vasto hori- zonte da Histo- riografia a que consagrou a sua vida, a Congre- ga<jao do Espfrito Santo nao passava de uma gota no oceano. Mas mesmo assim, ele parou a beira dessa gota”
delidade ao espfrito que a fez nascer.
O P. Brasio elucida-nos sobre a historia e os primeiros passos desta Regra das origens. Ele acompanha Libermann na carta que escreveu a Desgenettes em que conta a influencia que o Cora<;ao de Maria teve nestas origens, a confian^a que manteve nas aguas furtadas da Via del Pinaculo, enquanto es- perava a resposta da Propaganda ao seu projecto, as vicissi tudes por que passou a escrita desta Regra, e os conteudos dela. E as influencias que nela se detectam.
Num artigo posterior, o P. Brasio confia-nos ainda todo o processo da beatifica^ao do P. Libermann com todos os seus pormenores.11
Quis apenas fazer alguns acenos para o carinho e o in- teresse que a historia da Congrega^ao a que o P. Brasio per- tencia e os valores que a caracterizavam lhe mereceram. Ele bem sabia que no vasto horizonte da Historiografia a que consagrou a sua vida, a Congrega^ao do Espfrito Santo nao passava de uma gota no oceano. Mas mesmo assim, ele parou a beira dessa gota, para a contemplar e estudar com todo o carinho que essa gota lhe merecia. Foi sobretudo af, que ele se reviu na sua voca^ao de missionario dos arquivos e porta- voz de uma memoria, sem a qual nao sabia viver.
1 Portugal em Africa Janeiro -Fevereiro de 1995 pg. 5-14.