ECLI:PT:STJ:2016:81.12.4GCBNV.L1.S1.DD
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Relator Nº do Documento
Manuel Augusto De Matos
Apenso Data do Acordão
02/03/2016
Data de decisão sumária Votação
unanimidade
Tribunal de recurso Processo de recurso
Data Recurso
Referência de processo de recurso Nivel de acesso
Público
Meio Processual Decisão
Recurso Penal provido parcialmente
Indicações eventuais Área Temática
direito processual penal - prova - recursos /
fundamentos do recurso / poderes de cognição do supremo tribunal de justiça.
direito civil - relações jurídicas / exercício e tutela de direitos / provas - direito das obrigações / fontes das obrigações / responsabilidade civil.
Referencias Internacionais
Jurisprudência Nacional
Acórdãos Do Supremo Tribunal De Justiça:
-de 14-12-2006, Proc. N.º 4356/06 - 5.ª Secção, Disponível, Como Os Demais Acórdãos Que Se Citarem Sem Outra Indicação Quanto à Sua Fonte, Nas Bases Jurídico-documentais Do Igfej, Em Www.dgsi.pt .
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Www.stj.pt/jurisprudência/sumários De Acórdãos/criminal - Ano De 2009.
de 12032015, Processo N.º 418/11.3gaacb.c1.s1 3.ª Secção, E 12032015, Processo N.º 724/01.5swlsb.l1.s1 -3.ª Secção.
-de 25-06-2009, Proc. N.º 4262/06 - 3.ª Secção, E No Acórdão De 06-10-2010, Proc. N.º 936/08.0japrt.p1.s1 - 3.ª Secção, Acessível In Www.stj.pt/jurisprudência/sumários De Acórdãos/criminal - Ano De 2009.
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-de 09-07-2014, Processo N.º 316/09.0t2avr.c1.s1 - 6.ª Secção, Sumário Acessível In Www.stj.pt/jurisprudencia/sumários De Acórdãos/ Cível- Ano De 2014.
-de 13-07-2009, Proc. N.º 32/05.2tapcv.c1.s1, 5.ª Secção.
de 23042015, Proc. N.º 2651/07.3tbsxl.l1.s1 7.ª Secção Www.stj.pt/jurisprudencia/sumários De Acórdão/ Civil -Ano De 2015.
-de 14-05-2015, Processo N.º 405/13.7phlrs.s1, 5.ª Secção. -de 16-05-2012, Processo N.º 30/09.7gccld.l1.s1, 3.ª Secção. -de 30-05-2013, Proc. N.º 1445/08.3tbamt.p1.s1, 2ª Secção. -de 04-10-2007, Proc. N.º 1710/07 – 2.ª Secção.
-de 11-01-2006, Proc. N.º 2249/05 - 3.ª Secção. -de 21-06-2007, Proc. N.º 2059/07 – 5.ª Secção. -de 07-12-2006, Proc. N.º 4258/06 – 5.ª Secção.
-de 19-05-2010, Proc. N.º 459/05.0gaflg.g1.s1 - 3.ª Secção, E De 04-12-2003, Proc. N.º 3188/03- 5.ª Secção. -de 03-03-1994, Proc. N.º 46044.
-de 17-06-2015, Proc. N.º 1149/06.1taolh-a.l1.s1 - 3.ª Secção.
-de 09-12-2014, Proc. N.º 75/07.1tbcbt.g1.s1 - 1.ª Secção, Acessível In Www.stj.pt/jurisprudencia/sumários De Acórdão/ Civil - Ano De 2014.
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Acórdão De Fixação De Jurisprudência N.º 7/99, Publicado No Diário Da República, Serie I-a, De 03-08-1999.
Legislação Comunitária
Legislação Estrangeira
Descritores
recurso penal; competência do supremo tribunal de justiça; acordão da relação; recurso da matéria de facto; recurso da matéria de direito; vícios do art.º 410 do código de processo penal; insuficiência da matéria de facto; contradição insanável; erro notório na apreciação da prova; factos não provados; factos provados; fotografia; documento particular; documento autêntico; juízo de valor; leitura permitida de autos e declarações; declarações do arguido; presunções judiciais; causa de pedir; pedido; responsabilidade civil emergente de crime; responsabilidade pelo risco; omissão de pronúncia; nulidade da sentença; duplo grau de jurisdição;
Sumário:
I -Não é admissível um recurso interposto de um acórdão proferido pelo Tribunal da Relação para o STJ, na parte em que convoca a reapreciação da decisão proferida sobre matéria de facto, quer em termos amplos, quer por erro de julgamento (erro na apreciação da prova), quer no quadro dos vícios do art. 410.º, do CPP. Impõe-se apenas conhecer oficiosamente dos vícios do art. 410.º, n.º 2 e 3 do CPP, porque o conhecimento destes vícios não constitui mais do que uma válvula de
segurança a utilizar naquelas situações em que não seja possível tomar uma decisão (ou uma decisão correcta e rigorosa) sobre a questão de direito, por a matéria de facto se revelar
ostensivamente insuficiente, por se fundar em manifesto erro de apreciação ou ainda por assentar em premissas que se mostram contraditórias e por fim quanto se verifiquem nulidades que não se devam considerar sanadas.
II -No recurso restrito ao segmento cível (pedido de indemnização civil), encontrando-se transitada a parte penal, pode o STJ conhecer oficiosamente dos vícios do art. 410.º, n.ºs 2 e 3 do CPP
relativamente a toda a matéria de facto. Os vícios do n.º 2 do art. 410.º do CPP, todos eles relativos ao julgamento da matéria de facto, têm de resultar do próprio texto da decisão recorrida, por si só ou conjugada com as regras da experiência comum.
III - Quanto ao vício previsto pela al. a) do n.º 2 do art. 410.º do CPP, o mesmo só ocorrerá quando da factualidade vertida na decisão se concluir faltarem elementos que, podendo e devendo ser indagados ou descritos, impossibilitem, por sua ausência, um juízo seguro (de direito) de condenação ou de absolvição. Trata-se da formulação incorrecta de um juízo: a conclusão
extravasa as premissas; a matéria de facto provada é insuficiente para fundamentar a solução de direito encontrada.
IV -Quanto ao vício previsto pela al. b) do n.º 2 do art. 410.º do CPP, verifica-se contradição insanável – a que não possa ser ultrapassada ainda que com recurso ao contexto da decisão no seu todo ou às regras da experiência comum – da fundamentação - quando se dá como provado e não provado determinado facto, quando ao mesmo tempo se afirma ou nega a mesma coisa, quando simultaneamente se dão como assentes factos contraditórios, e ainda quando se
estabelece confronto insuperável e contraditório entre a fundamentação probatória da matéria de facto, ou contradição insanável entre a fundamentação e a decisão, quando a fundamentação justifica decisão oposta, ou não justifica a decisão.
V -Quanto ao vício previsto pela al. c) do n.º 2 do art. 410.º do CPP, o mesmo verifica-se quando, partindo do texto da decisão recorrida, a matéria de facto considerada provada e não provada pelo tribunal a quo, atenta, de forma notória, evidente ou manifesta, contra as regras da experiência comum, avaliadas de acordo com o padrão do homem médio. É um vício intrínseco da sentença, isto é, que há-de resultar do texto da decisão recorrida, de tal forma que, lendo-o, logo o cidadão comum se dê conta que os fundamentos são contraditórios entre si, ou com a decisão tomada. VI - Se a discordância do recorrente for apenas quanto à forma, isto é, como o tribunal valorou a prova e decidiu a matéria de facto, tal traduz-se em impugnação de matéria de facto apurada - que se integra em objecto de recurso sobre a matéria de facto - e que os recorrentes exercem no recurso interposto para a Relação, e por isso não podem vir repristinar, ainda que em crítica ao acórdão recorrido, por extravasar os poderes de cognição do STJ (art. 434.º, do CPP).
VII - Não se pode extrair do facto não provado o seu oposto, ou seja, o facto provado. O facto do acórdão recorrido ter considerado não provado que a vítima circulava na berma, não se pode concluir que a vítima circulava na faixa de rodagem. Da mesma forma, do facto do acórdão
pode concluir que circulava na berma. O acórdão recorrido ao dar como provado que o embate foi em local não concretamente apurado - berma ou faixa de rodagem - assume que poderá ter sido num daqueles dois locais – berma ou faixa de rodagem – mas não aceita como provado um concreto local do embate. Este facto provado é compatível e está em sintonia com os dois factos dados como não provados e, nessa medida, não existe qualquer contradição (art. 410.º, n.º 2, al. b, do CPP).
VIII - O vício de erro notório na apreciação da prova, tem que resultar do texto da decisão recorrida, sem se usar elementos externos à própria decisão – mormente confrontar fotografias, documentos particulares ou declarações de arguido e testemunhas que constem do processo - a não ser factos contraditados por documentos que façam prova plena – documentos autênticos (art. 169.º, do CPP e art. 363.º, n.º 2, do CC).
IX -A versão dos factos acolhida pelo Tribunal da Relação mostra-se compatível com as regras da experiência comum, pois não se vislumbra que a dinâmica do acidente retratada pelo acórdão recorrido não corresponda a algo que, de facto, não possa ter ocorrido ou, dito por outras palavras, que, na perspectiva do padrão do denominado homem comum ou homem médio, surja como um evento inacreditável, inverosímil, completamente desconforme com a realidade da vida.
X - Quando um documento particular constante dos autos, encerra declarações do arguido, está sujeito ao regime previsto nos arts. 355.º e 357.º do CPP., mais concretamente é obrigatória a leitura de tais declarações em audiência para poderem ser valoradas pelo Tribunal, isto é, para servirem para efeitos de formação de convicção do tribunal.
XI - Formar uma convicção sobre uma prova é formar um juízo de valor sobre a mesma e não apenas elencá-la ou transcrevê-la. O tribunal recorrido aflorou o documento particular que continha declarações do arguido, sem contudo determinar a sua relevância, nem emitir um juízo crítico sobre as declarações, ou seja, não as valorou para efeitos de formação de convicção, porque sabia que o não poderia fazer à luz do art. 355.º e 357.º, ambos do CPP.
XII - Dando-se como provado que o embate ocorreu em local não concretamente apurado (berma ou faixa de rodagem) - não se pode ficcionar que o mesmo terá ocorrido na faixa de rodagem e daí extrair conclusões com vista a apreciar se o veículo conduzido pelo arguido devia ou não ter
adequado a velocidade, de modo a que lhe permitisse imobilizar o veículo no espaço visível à sua frente, devendo e podendo evitar o embate. Está vedado ao STJ – enquanto tribunal de revista – o uso de presunções judiciais para dar como assentes factos desconhecidos deduzidos de factos julgados provados (factos conhecidos) - art. 349.º, do CC.
XIII - O acórdão recorrido apreciou a factualidade provada e não provada, à luz da causa de pedir e do pedido que consubstanciavam o objecto da acusação e do pedido de indemnização civil. O pretendido pelos recorrentes era a apreciação de uma factualidade e construção jurídica (violação do art. 24.º, do CE) que não tem correspondência com a factualidade dada como provada e que em muito extravasa o objecto da causa de pedir e do pedido.
XIV - Omissão de pronúncia verifica-se quando o tribunal deixou de se pronunciar sobre questão que devia ter apreciado, seja esta questão suscitada, no recurso, pelos sujeitos processuais, seja a mesma de conhecimento oficioso.
XV - É unânime na doutrina e na jurisprudência que nas acções emergentes de acidente de viação, encontra-se inserido na causa de pedir todos os pressupostos da obrigação de indemnizar,
podendo o tribunal, não se provando a culpa, decidir com base no risco, sem ter que o autor (demandante civil) propor outra acção. Assim, sempre que não é possível imputar o acidente dos autos a título de culpa a qualquer um dos intervenientes, a responsabilidade civil emergente do
mesmo acidente tem que ser apreciada no quadro da responsabilidade objectiva ou pelo risco, nos termos do art. 499.º e segs. do CC.
XVI - O tribunal da relação, ao absolver a demandada civil do pedido de indemnização civil por considerar inexistir responsabilidade por factos ilícitos, e nada dizer sobre a responsabilidade pelo risco prevista nos arts. 499º e segs. do CC, não se pronunciou sobre questão que se lhe impunha conhecer – padecendo o acórdão recorrido de nulidade por omissão de pronúncia, nos termos do art. 379.º, n.º 1, al. c), ex vi art. 425.º, n.º 4, ambos do CPP.
XVII - O tribunal de revista – o STJ – não pode substituir-se ao tribunal recorrido e suprir a nulidade por omissão de pronúncia, sob pena de violação da garantia constitucional do duplo grau de
jurisdição.
Decisão Integral:
Acordam no Supremo Tribunal de Justiça:
I – RELATÓRIO
1. Nos presentes autos de processo comum, com intervenção do tribunal singular, mediante sentença datada de 14 de Maio de 2013, proferida pelo (extinto) 2.º Juízo Criminal do Tribunal Judicial de Benavente foi decidido:
- condenar o arguido AA pela prática, como autor material, na forma consumada, de um crime de homicídio por negligência, p. e p. pelo artigo 137.º, n.º 1, do Código Penal, na pena de 250 (duzentos e cinquenta) dias de multa, à razão diária de 6,00€ (seis euros) e na sanção acessória de inibição de conduzir pelo período de 3 (três) meses, nos termos das disposições conjugadas dos artigos 13.º, n.º 1 e n.º 3, 1.º, alínea b), 145.º, alínea f) e 147.º, n.º 2, do Código da Estrada.
- julgar o pedido de indemnização civil deduzido por BB e CC parcialmente procedente, e, em consequência, condenar a demandada “Companhia de Seguros ...., S.A.” a pagar aqueles a
quantia de 90.000,00€ (noventa mil euros), acrescido de juros de mora à taxa legal contados a partir da data da sentença em 1.ª instância e até efectivo e integral pagamento.
- absolver da instância o demandado, AA, do pedido contra si formulado.
- absolver da instância o demandado, AA, quanto ao pedido de reembolso deduzido pelo Instituto de Segurança Social, IP.
2. Inconformados com a sentença proferida pelo tribunal de 1.ª instância, dela interpuseram recurso o arguido AA e a demandada civil Companhia de Seguros ...., S.A., vindo o Tribunal da Relação de Lisboa, mediante acórdão proferido a 8 de Abril de 2015, a decidir:
a) alterar a matéria de facto; b) revogar a sentença recorrida;
c) conceder provimento aos recursos interpostos pelo arguido AA e pela Seguradora .... -Companhia de Seguros S.A, e, consequentemente:
- absolver o arguido da prática de um crime de homicídio por negligência p. e p. pelo artigo 137.º, n.º 1, do Código Penal e da contra-ordenação grave por que vinha condenado;
- absolver a demandada civil do pedido de indemnização civil contra ela formulado pelos demandantes civis BB e CC.
3. Inconformados com o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, no respeitante à parte cível, vieram agora os demandantes civis BB e CC interpor recurso para o Supremo Tribunal de Justiça, rematando a respectiva motivação com as seguintes conclusões que integralmente se
reproduzem[1]: «CONCLUSÕES:
A) Os nºs 2 e 3 do CPP excepcionam que o recurso da parte da sentença relativa à indemnização civil é admissível desde que o valor do pedido seja superior à alçada do tribunal recorrido e a
decisão impugnada seja desfavorável para o recorrente em valor superior a metade desta alçada, ainda que não seja admissível recurso quanto à matéria penal.
B) O valor do pedido cível nos presentes autos possibilita o presente recurso.
C) A sentença proferida pelo tribunal a quo condenou bem a demandada .... Portugal – Companhia de Seguros, S.A. por considerar provados quase todos os factos constantes da Acusação, e desta feita, condenar o arguido pelo crime de homicídio por negligência.
D) O tribunal a quo decidiu bem, em conformidade com a prova documental e testemunhal produzida nos autos, pelo que a primitiva sentença deve ser mantida, revogando-se o acórdão da Relação.
E) O Tribunal da Relação de Lisboa, no Acórdão de que ora se recorre, veio alterar a matéria de facto relativamente à que constava na sentença do tribunal de primeira instância, revogando a dita sentença, reapreciando a prova, através de conclusões desfasadas da realidade fáctica de acordo com as regras de experiência comum, o que lhe é vedado por lei.
F) Da motivação da decisão de 1ª instância consta explicitamente o porquê da decisão e o processo lógico-formal que serviu de suporte ao respectivo conteúdo, o qual teve por base não apenas os depoimentos prestados em sede de Audiência de Discussão e de Julgamento, como todos os outros elementos de prova constantes nos autos.
G) Na decisão revogada encontra-se, definitivamente, fixado o nexo de causalidade, em termos naturalísticos, entre o embate do veículo na vítima referido do acervo factual apurado e as lesões da mesma supra descritas.
H) O Acórdão que se impugna versa relativamente às condições de visibilidade e ao local de embate sem qualquer suporte fáctico e sem correspondência ao nível dos elementos de prova constantes nos presentes autos, reflectida na alteração dos factos provados.
I) O presente recurso fundamenta-se, assim, na violação dos princípios da imediação, da legalidade, e da livre apreciação da prova, uma vez que a Relação ao reapreciar a prova, agiu com erro notório, motivação que é admitida arguir nos termos do artigo 410.º, n.º2, alínea c) do CPP, ainda que a lei restrinja a cognição desse Supremo Tribunal de Justiça a matéria de direito. J) A livre apreciação da prova, que permite a formulação da convicção do julgador, o seu juízo crítico e rigoroso sobre toda a prova produzida em julgamento, não pode ser entendida como uma operação puramente subjectiva, emocional e imotivável.
K) A valoração da prova para a convicção de condenação ou de absolvição tem de ser racional, objectiva e crítica de acordo com as regras comuns da lógica, da razão, das máximas de
experiência e dos conhecimentos científicos.
L) Só assim se permite ao julgador objectivar a apreciação dos factos para efeitos de garantir uma efectiva motivação da decisão.
M) Sendo certo que ao Supremo Tribunal de Justiça compete apreciar a decisão restritamente à matéria de direito, como o próprio STJ tem repetidamente afirmado, existindo um só grau de recurso em matéria de facto, é vedado ao STJ alterar a decisão que vem das instâncias, salvo na medida em que essa alteração se traduza, afinal, no controlo da aplicação de disposições legais que exijam “certa espécie de prova para a existência do facto” ou que fixem “a força de
determinado meio de prova”.
N) Assim, para apreciar a boa aplicação do Direito, deve apreciar-se se a decisão padece dos vícios do artigo 410.º, n.º 2, do CPP sempre que se constate que, por força da inquinação da
decisão recorrida por algum deles, não possa conhecer de direito sob o prisma das várias soluções jurídicas que se apresentem como plausíveis – Ac. STJ Proc. n.º 1023/07 -3.ª Secção Soreto de Barros (relator) Armindo Monteiro Santos Cabral e Acs. de 15-10-03, Proc. n.º 1882/03 -3.ª; de 01-06-06, Proc. n.º 1427/06 -5.ª, de 22-06-06, Proc. n.º 1923/06 -5.ª, e de 03-05-2007, Proc. n.º 651/07 -5.ª, e Marques da Silva, Curso de Processo Penal, III, 2.ª edição, Editorial Verbo, 2000, pág. 371).
O) Nestes casos, porém, o Supremo Tribunal de Justiça não procede à renovação de prova, limitando-se a apontar o vício que apurou e a determinar o reenvio do processo para novo
julgamento (arts. 426º e 434º CPP), se não puder, simplesmente revogar a parte da decisão que contém o vício, mantendo a decisão proferida em primeira instância – o que na esteira dos demandantes é o que deve operar no caso em apreço.
P) Assim, competirá apreciar a legalidade adveniente da reapreciação da prova que permitiu inverter a condenação, não contra o arguido e a demandante, mas contra o próprio peão, que passou a ser o culpado do acidente.
Q) Há erro notório na apreciação da prova, quando se entende dar por provado que “estava escuro” no local do acidente, o que originou a que se aditasse o sublinhado no ponto A. e) à matéria de facto, dispondo do seguinte modo: “Não chovia, era noite e a via tinha iluminação
pública, embora no local do embate descrito infra estivesse escuro”, motivando os senhores Juízes Desembargadores que “há muitas vias com iluminação pública mas que se apresentam escuras em determinados pontos. E era o caso no local do acidente”
R) Esta afirmação é conclusiva, e não pode ser admitida, pois não se pode afirmar que no local do acidente estava escuro, uma vez que a via tinha iluminação pública na outra faixa, e além disso, existia sempre a iluminação do próprio veículo, que é simplesmente esquecida.
S) A iluminação do veículo deveria ser suficiente, só por si, para permitir ao condutor visualizar a via.
T) Com iluminação pública - ainda que na outra faixa da via, coadjuvada pela iluminação do próprio veículo que teria de iluminar, pelo menos, 30 metros à frente a faixa de rodagem, pelas regras de experiência comum, é impossível dizer-se que estava escuro no local do acidente. U) A apreciação feita viola as regras de experiência comum e o princípio da livre apreciação da prova e da legalidade.
V) Se o arguido não dispunha de boa visibilidade, então deveria ter adequado a sua condução à visibilidade que tinha, de modo a conduzir em segurança, uma vez que é sua obrigação circular com margem suficiente para parar no espaço livre e visível à sua frente.
W) Compete ao condutor articular a sua condução às condições da via, do tráfego e das condições atmosféricas, de modo a realizar uma condução segura.
X) A fundamentação plasmada no douto Acórdão recorrido atenua, sem qualquer razão, a actuação estradal do arguido em clara violação da lei e dos factos provados, o que contraria com
toda a evidência, segundo o ponto de vista de um homem de formação média, a lógica mais
elementar e as regras da experiência comum, pelo que há um erro notório na apreciação da prova. Y) Há novo erro notório na apreciação da prova, quando no Acórdão é dito que o tribunal de primeira instância apreciou mal a prova ao dar como assente que a vítima circulava pela berma, com base na prova documental, a saber: a participação do acidente, o croquis de fls.94, a informação de fls95, a folha de suporte do disco do tacógrafo, a ficha do CODU e o relatório fotográfico de fls.169 a 171 que contem o registo de todos os vestígios encontrados no local bem como nos depoimentos de FF e EE.
Z) Foi com base nestes elementos de prova que o tribunal de 1.ª Instância fundou a convicção de que o peão, vítima mortal deste acidente, circulava na berma.
AA)As próprias testemunhas, militares da GNR, que recolheram o material de prova supra descrito, também manifestaram não ter quaisquer dúvidas de que o peão circulava na berma.
BB)E o mesmo sentir teve a Mmª Juiz Desembargadora, Dra DD, conforme diz no seu voto de vencida.
CC) O tribunal da Relação suscita a dúvida relativamente ao local do acidente mediante juízos e pressuposições pouco sérios, que extravasam das regras de experiência comum e da própria prova produzida, limitando-se a concluir que o ofendido ultrapassou a berma, contra todas as evidências de que assim não foi.
DD) Motivando, ainda, a sua convicção nas declarações do próprio arguido, de fls.95, proferidas em sede de Inquérito que referiu “ter-se atravessado à sua frente um vulto a atravessar a estrada”, o que constitui uma valoração proibida de prova, e como tal nula.
EE)Quando realizadas ou prestadas numa fase inquisitória do processo em que, por definição, falha o contraditório, as declarações ou escritos não podem ser valoradas no julgamento, carecendo de ser renovadas ou produzidas de novo nesta fase perante o juiz, que deve poder formar a sua convicção independentemente da investigação criminal, e perante a acusação e a defesa, que devem estar em situação de igualdade de armas.
FF) O artigo 357.º, n.ºs 1 a 3, do Código de Processo Penal, é claro no sentido de que a valoração das declarações prestadas pelo arguido devidamente informado nos termos do artigo141.º, n.º 4, alínea b), do mesmo Código, exige a reprodução ou leitura das mesmas em audiência de
julgamento, para cumprimento do contraditório e embora de algum modo limitado, dos princípios da imediação e da oralidade.
GG) Não tendo sido lidas em audiência de julgamento as declarações prestadas pelo arguido no inquérito, a valoração das suas declarações constitui valoração proibida de prova, sendo nulo o acórdão recorrido, nos termos do artigo122.º, n.º 1, do C.P.P., por violação do disposto nos artigos 355.º e 357.º do mesmo Código.
HH) Não existiam quaisquer vestígios do acidente na faixa de rodagem. Os vestígios estavam na berma, assim como o corpo da vítima.
II) Existe a marca do rodado (foto 10) que mostra bem que o veículo entrou e depois saiu da berma – o que é confirmado pelo registo do tacógrafo – que o Tribunal da Relação, simplesmente, ignora.
JJ) O tacógrafo mostra que no momento do acidente, o veículo circulava a 80km/ hora e apresenta uma oscilação causada por um desnível do piso, compatível com a saída da faixa de rodagem, ter caído na valeta, e depois voltou a entrar na faixa de rodagem, parando mais a frente – tal como consta da motivação da revogada sentença.
da vítima caído no solo, descrevendo essa localização exactamente de acordo com o que consta do croqui, dizendo, ainda que o corpo da vítima estava caído em cima da valeta e a cabeça na berma.
LL) Todos os elementos de prova apontam no sentido de que a vítima caminhava pela berma direita e foi colhida fora da faixa de rodagem, onde se encontram todos os vestígios do acidente (fragmentos de plástico, a própria boina da vítima, a marca do rodado, etc.).
MM) Não há quaisquer sinais de travagem – o que a Relação não avaliou – o que indicia, conforme referiu a testemunha FF, que o condutor do camião conduziria distraído e na velocidade máxima permitida de 80 km/ h, tendo, assim, uma reacção tardia, quando atropela o peão na berma e entra na valeta com o rodado – daí que só tenha imobilizado o veículo cerca de 26 m após o embate no peão.
NN) É normal que tendo o corpo da vítima sido embatido pela parte da frente direita, a esquina do veículo, o mesmo fosse projectado para a frente e ficasse caído no solo na exacta posição em que ficou – foi esta a convicção que resultou da prova produzida em primeira Instância. OO) Na fundamentação de facto da sentença proferida pelo tribunal a quo, consta, com clareza e coerência as razões em que assentou a convicção do tribunal de forma a que não hajam restado quaisquer dúvidas quanto à dinâmica do acidente: foi feita análise fiel da prova produzida, que permitiu alcançar a decisão justa.
PP)Contrariamente, o douto acórdão de que se recorre conte meras especulações desprovidas de lógica, destituídas de juízos de experiência comum e antagónicas face às provas produzidas, pelo que se impugna.
QQ) Razão pela qual deve ser dado ao ponto A. g) dos factos provados, a versão original atribuída pelo Meritíssimo Juiz do Tribunal de 1.ª Instancia, mantendo-se nos factos provados.
RR) o Acórdão de que se recorre padece, assim, de erros notórios na apreciação da prova pelo facto de existirem distorções de ordem lógica entre os factos provados e não provados, que traduzem uma apreciação manifestamente ilógica, arbitrária, de todo insustentável, e por isso incorrecta, e que, em si mesma, não passa despercebida imediatamente à observação e verificação comum do homem médio – não fazendo qualquer sentido a motivação indicada no Acórdão
recorrido, que é manifestamente forçada e completamente contraria às regras de experiência comum.
SS)O douto Acórdão recorrido ao ilibar de culpa a conduta estradal do arguido e a sua responsabilidade na eclosão do acidente de que tratam os presentes autos, violou, ainda, os normativos do Código da Estrada, nomeadamente o artigo 24º - violação essa que se traduz na não aplicação de tais normativos legais aos factos que resultaram provados.
TT) Cabia ao douto Tribunal da Relação a obrigação de incluir na sua avaliação as regras do Código da Estrada aplicáveis no caso concreto (conforme os arts. 412 e 607 n.º 5 do Código do Processo Civil.), mormente, as previstas nos arts. 24 e segs, de acordo com as quais cada condutor deve adaptar a sua velocidade de tal modo, que lhe permita imobilizar o seu veículo, mesmo que se depare com um obstáculo inesperado pela frente. (Ac. STJ de 19/7/61 in B.M.J. 109,401).
UU) O arguido seguia ao volante do seu veiculo pesado distraído e com velocidade excessiva, desconforme as condições de visibilidade da via e do demais tráfego, o que o impediu de visualizar atempadamente o peão e de imobilizar o seu veículo atempadamente quando se apercebeu do mesmo.
VV)O nosso direito, por força do disposto no artigo 563º, interpretado segundo a orientação dada pelo artigo 10º, nº 3, do Código Civil, segue a doutrina da causalidade adequada, segundo a qual, para além do facto ter de ser conditio sine qua non do dano, exige-se, ainda, que, «em abstracto ou em geral (ex ante), o facto seja uma causa adequada do dano».
WW) Se o veículo circulasse a uma velocidade que lhe permitisse parar face a um
qualquer obstáculo, o embate no peão não se produziria - logo, o excesso de velocidade ou a falta ou insuficiente atenção é condição necessária do dano.
XX)Pelo menos 30 m à sua frente, o arguido podia, e devia, ter avistado o peão, e ter conseguido imobilizar o seu veículo, de modo a não embater no peão– é essa a imposição prevista no artigo 24 ° do Código da Estrada.
YY)Perante esta realidade factual, temos como óbvio que aquele circulava com velocidade desadequada às características e estado da via, precisamente porque tal velocidade acabou por não lhe permitir, perante o obstáculo que se lhe veio a deparar na Berma, deter ou até desviar o veículo que conduzia no espaço livre e visível à sua frente.
ZZ) Não esqueçamos que o condutor seguia numa recta de boa visibilidade (de acordo com o critério explicito no artigo 19.º do C.E.), havendo boas condições climatéricas e com um troço com piso em boas condições de conservação – utilizando as luzes dos faróis da viatura acessos, pelo menos em médios, pelo que tinha a obrigação de ter avistado o peão a caminhar pela berma da estrada, e de reduzir a velocidade de forma a poder parar se fosse necessário, assim como tinha a obrigação de se desviar da berma.
AAA) É forçoso, pois, concluir-se que o arguido conduzia de forma desatenta e sem
observar os deveres de cuidado a que estava obrigado e de que era capaz, tendo invadido a berma do lado direito da via, pela qual circulava o peão, que aíi foi colhido.
BBB) O arguido/condutor actuou, assim, culposamente não só pela indevida violação de uma norma estradal, como ainda de simples, mas censurável, falta de atenção, de prudência e de cuidado.
CCC) Ainda que se viesse a concluir inexistir responsabilidade fundada na culpa, o que não se admite, mas se hipotetisa por dever de patrocínio, outra modalidade de responsabilidade extracontratual existe que é, justamente, a da responsabilidade pelo risco, a valer ainda que o Arguido venha a ser absolvido.
DDD) A inexistência de rasto de travagem demarcado no pavimento levam à conclusão de que o condutor circulava a uma velocidade excessiva, superior àquela que seria aconselhável e prudente.
EEE) O artigo 377º nº 1 do CPP, tem em vista as situações em que apesar de o arguido ser absolvido pelos factos que constituem ilícito criminal, permaneçam factos que constituam responsabilidade civil objectiva, nos termos previstos no artigoº 483º nº 2 do Código Civil, ou seja, tem que existir necessariamente a mesma causa de pedir, isto é, os mesmos factos que são também pressuposto de responsabilidade criminal.
FFF) Somente a responsabilidade contratual é excluída do campo do artº 377º nº 1 do CPP.
GGG) Dispõe o artº 503.ºdo CC, a propósito de acidentes causados por veículos que “Aquele que tiver a direcção efectiva de qualquer veículo de circulação terrestre e o utilizar no seu próprio interesse, ainda que por intermédio de comissário, responde pelos danos provenientes dos riscos próprios do veículo, mesmo que este não se encontre em circulação. Aquele que conduzir o veículo por conta de outrem responde pelos danos que causar, salvo se provar que não houve
culpa da sua parte; se, porém, o conduzir fora do exercício das suas funções de comissário, responde nos termos do nº 1. “
HHH) Ou seja, mesmo perante eventual inexistência de culpa, em tais casos sempre se põe a questão da obrigação de indemnização, com fundamento na responsabilidade pelo risco. III) O que não foi perspectivado pela decisão recorrida, constituindo, por isso, omissão de pronúncia.
JJJ) Do exposto verifica-se que o acórdão recorrido, se não for revogado com vista a validar a sentença do tribunal a quo – o que aqui se peticiona, seria nulo nos termos do nº 1 al. c) do artigoº 379º do CPP porque omitiu pronúncia sobre questão que era obrigado a decidir.
KKK) Assim, deverá, a Demandada Civil, Companhia de Seguros Allianz Portugal, ser condenada a pagar aos demandantes as importâncias devidas a título de indemnização pelos danos patrimoniais e não patrimoniais reclamadas no Pedido de Indemnização Cível apresentado e constante dos autos.
TERMOS EM QUE,
DEVERÁ JULGAR-SE PROCEDENTE O PRESENTE RECURSO E, EM CONSEQUÊNCIA
DEVERÁ SER REVOGADO INTEGRALMENTE O DOUTO ACÓRDÃO RECORRIDO, MANTENDO-SE A DECISÃO PROFERIDA EM 1.ª Instância, e em consequência seja a DEMANDADA CÍVEL COMPANHIA DE SEGUROS ALLIANZ PORTUGAL, SA, CONDENADA NO PAGAMENTO DAS QUANTIAS RECLAMADAS A TÍTULO DE INDEMNIZAÇÃO CIVIL, OU CASO ASSIM SE NÃO ENTENDA, o que não se admite, mas acautela-se por dever de patrocínio, DEVE SER
CONDENADA A DEMANDADA CÍVEL NO PAGAMENTO DA MESMA INDEMNIZAÇÃO,COM BASE NARESPONSABILIDADEPELORISCO, PORQUANTO SÓ ASSIM SERÁ FEITA
JUSTIÇA.»
4. O Tribunal da Relação de Lisboa, mediante despacho de fls. 770, por legal e tempestivo, admitiu o recurso interposto para o Supremo Tribunal de Justiça, restrito à matéria cível.
5. O Exmo. Procurador-Geral Adjunto junto do Tribunal da Relação de Lisboa não respondeu ao recurso.
6. A demandada civil “Companhia de Seguros .... Portugal, S.A.” respondeu ao recurso interposto nos seguintes moldes:
«I
Pretendem os Recorrentes a revogação do douto Acórdão recorrido e a confirmação da douta decisão proferida em primeira instância.
Todavia, o douto Acórdão ora posto em crise não merece censura, pelo que deverá ser mantido.
II
Perante a reformulação da matéria de facto relevante para a decisão da causa, operada pelo douto Tribunal recorrido, há que se concluir pela inexistência de prova segura quanto ao local concreto do embate onde se verificou o atropelamento do infeliz peão pelo veículo GA-...., se foi na berma ou em plena faixa de rodagem.
arguido/condutor do referido veículo do crime e da contravenção de que vinha acusado e, consequentemente, da ora respondente, para quem a proprietária do GA-.... havia transferido a responsabilidade civil por danos causados a terceiros decorrente da circulação desse veículo. III
Não obstante os esforçados argumentos dos Recorrentes, certo é que se não constata a existência do invocado erro notório na apreciação da prova por parte do douto Tribunal recorrido, como pretendem os Recorrentes.
Ficou provado na reformulação feita pelo douto Tribunal recorrido que o local do acidente apresentava-se escuro.
Este facto decorreu claramente da prova testemunhal produzida e do croquis de fls. 94, donde decorre que no sentido Setúbal I Porto Alto - o seguido pelo veículo GA - não havia postos de electricidade na EN 10.
Não houve por conseguinte violação das regras de experiência comum e do princípio da livre apreciação da prova, contrariamente ao sustentado pelos Recorrentes.
Insurgem-se também os Recorrentes contra a alteração feita pelo douto Tribunal recorrido no tocante ao ponto do embate, ou seja, quanto ao local onde se verificou o atropelamento do peão.
Em sede de primeira instância, julgou-se que a vítima circulava pela berma, onde foi colhida pelo veículo.
O douto Tribunal recorrido concluiu pela dúvida inultrapassável quanto ao local do embate, fundamentando-se nomeada e acertadamente no seguinte: inexistência de testemunhas oculares do acidente; a via tinha apenas 1,10 m de largura; o local era escuro; a vítima seguia a pé, de costas para o trânsito e com uma TAS de 2,40 g/l; os primeiros vestígios de plástico localizavam-se no pavimento; o corpo da vítima ficou caído na berma; e as marcas de rodados de um veículo a saírem da berma e a entrarem na faixa de rodagem não se sabe se pertencem ao GA-..., o que foi confirmado peja testemunha FF, que elaborou o croquis anexo ao auto de ocorrência policial. Importa ainda referir que o douto Tribunal recorrido não se motivou nas declarações do arguido de fls. 95 para concluir nos moldes decididos quanto ao local de embate, como alegam os recorrentes.
Trata-se apenas de mera referência a essas declarações a fim de explicitar, juntamente com outros elementos de prova produzidos nos autos, a conclusão a que se chegou, de dúvida
inultrapassável quanto ao local de embate.
Motivo porque não merece proceder a nulidade invocada no artigoº 57° das doutas alegações dos Recorrentes.
Não se apuraram quaisquer fatos que permitam se conclua no sentido de que a vítima caminhava pela berma quando foi colhida pelo veículo.
O apontado pelos Recorrentes nos art°s 63° e 66° a 69° das suas doutas alegações configuram meros juízos hipotéticos, que não deverão por isso proceder.
IV
Não houve violação de qualquer norma estradal por parte do arguido, em face da factualidade apurada.
Nomeadamente do artigoº 24° e seguintes do Código da Estrada.
Sendo, por conseguinte, infundada a referência que vem feita ao disposto no artigoº 563° do CC, bem como à presunção de culpa decorrente da alegada inobservância de leis e
Por outro lado,
Os Recorrentes não lograram comprovar a culpa efectiva por parte do arguido, ónus que se lhe impunha (CC, artigos 342°, nº 1 e 487°, n° 1), inexistindo in casu a presunção legal de culpa do artigoº 503°, nº 3 do CC em face da factualidade apurada em B., K. e L., de fls. 35 e 36 do douto Acórdão.
Bem julgou pois o douto Tribunal recorrido ao decidir pela absolvição da ora Recorrida. Se porventura se vier a entender que o caso em apreço é susceptível de ser apreciado no âmbito da responsabilidade pelo risco - hipótese que se suscita sem conceder -, certo é que os valores arbitrados em sede de primeira instância extravasam os necessários parâmetros de equidade, em face do disposto nos artºs 494° e 496°, nº 4 do CC.
Impondo-se que se atente nas "regras da boa prudência, do bom senso prático, da justa medida das coisas, e da criteriosa ponderação das realidades da vida", face ao circunstancialismo concreto envolvente.
Esses valores correspondem, afinal, aos montantes indemnizatórios porventura devidos, caso se concluísse por uma culpa única e exclusiva do arguido - o que não é, de todo, o caso. Justifica-se uma significativa redução desses montantes, no entender da ora Recorrida para cerca de metade.
Em face do acima exposto, o recurso dos Demandantes não merece ser provido, pelo que se deverá manter o douto Acórdão ora posto em crise, como é de Lei e de
JUSTIÇA».
7. Subidos os autos ao Supremo Tribunal de Justiça, a Senhora Procuradora-Geral Adjunta, usando a faculdade prevista no artigo 416.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, doravante CPP, não emitiu parecer sobre o fundo da questão, alegando falta de legitimidade por se tratar de recurso exclusivamente confinado à matéria cível (cfr fls. 795 a 797).
8. Não tendo sido requerida audiência de julgamento, o processo prosseguiu com julgamento em conferência, nos termos dos artigos 411.º, n.º 5 e 419.º, n.º 3, alínea c), do CPP Processo Penal. 9. Colhidos os vistos, realizou-se a conferência, cumprindo apreciar e decidir.
II - FUNDAMENTAÇÃO
1. Matéria de facto
Foi a seguinte a matéria de facto considerada provada e não provada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, que modificou alguma da matéria de facto fixada pela 1.ª instância:
Factos provados
A.Da acusação pública:
a. No dia 2 de Fevereiro de 2012, cerca das 22 horas e 30 minutos, o arguido conduzia o veículo pesado de mercadorias de matrícula “GA-....” pela EN 10, Porto Alto, no sentido Porto Alto –
Setúbal.
b. A via, naquele local, assume a configuração de recta prolongada, com boa visibilidade diurna, em condições de tempo normais, e com 4 metros de largura e a respectiva berma 1,1 m, sendo
esta imediatamente seguida de uma valeta para escoamento de águas. c. O pavimento é asfaltado e encontrava-se em bom estado.
d. O piso encontrava-se seco.
e. Não chovia, era noite e a via tinha iluminação pública, embora no local do embate descrito infra estivesse escuro.
f. No mesmo circunstancialismo de tempo e de lugar e no mesmo sentido seguido pelo arguido, circulava a pé a vítima GG a qual seguia à frente do veículo conduzido pelo arguido.
g. Perto do km 108,6 o que aconteceu perto das 22H40 no dia referido, o veículo conduzido pelo arguido foi embater, em local concretamente não apurado (berma ou faixa de rodagem) com a frente do lado direito (esquina) na vítima GG colhendo-o pelas costas, projectando-o para a frente, vindo este a imobilizar-se na berma, a mais de 26 m do local de embate.
h. Em consequência do embate, GG foi projectado para o solo e sofreu lesões traumáticas crânio-meningo-encefálicas e toroco-abdominais, que foram causa directa e necessária da sua morte. B.Do pedido de indemnização cível deduzido por HH e CC:
a.BB é filho de GG, e seu único herdeiro. b.BB é filho de CC.
c.GG, até à sua morte, e CC, viveram em união de facto, como se de marido e mulher se tratassem, em comunhão de habitação, mesa e leito, em casa sita na Rua ...
d.BB viveu em economia comum com seus pais, residindo hoje com sua mãe. e.À data do acidente GG tinha 61 anos, e o estado civil de solteiro.
f.GG era pintor da construção civil e trabalhava por conta própria, à data do acidente dedicava-se a trabalhos pontuais que lhe permitiam angariar alguma contribuição às despesas domésticas e familiares.
g.Era saudável, forte e vivia estavelmente em e para a família. h.Entre os demandantes e GG havia muita união, amor e carinho.
i.Os demandantes sofreram uma grande dor e profundo desgosto com a morte do companheiro e pai.
j.Chorando e lamentando o sucedido.
k. O demandado é funcionário da firma “Transportes .... Lda.”
l.O veículo matrícula GA-.... é propriedade da entidade patronal do arguido. m.CC tem o estado civil de solteira.
C.Das contestações apresentadas
a.GG era de nacionalidade cabo-verdiana.
b.Por contrato de seguro titulado pela apólice 28/3250047/11 a sociedade “Transportes ...., Lda.” Transferiu para a Companhia de Seguros .... a sua responsabilidade civil por danos causados a terceiros emergentes da circulação do veículo com a matrícula GA-...
c.O arguido imprimia ao veículo uma velocidade aproximada de 80 km/h.
d.A via configura uma recta, e é ladeada por valetas em declive, formando um “V”. e.GG seguia a pé, de costas para o trânsito, sem colete reflector.
f.GG acusou uma taxa de álcool no sangue de 2,40 g/l. D.Outros factos
E.Da situação pessoal do arguido:
a.O arguido trabalha como motorista de pesados, auferindo, mensalmente, a quantia de seiscentos e trinta euros a título de vencimento.
b.Vive com sua mulher, que se encontra desempregada, e recebe cerca de quatrocentos euros mensais a título de subsídio de desemprego.
c.Não possui ninguém a seu cargo.
d.Vive em casa própria, pagando prestação ao banco.
e.Como habilitações literárias, possui o quarto ano de escolaridade. f.O arguido é uma pessoa querida no seu círculo social.
F.Dos antecedentes criminais do arguido: a. Inexistem.
Factos não provados: a) Da acusação pública
1- No momento do embate o trânsito era muito reduzido;
2- A vítima circulava pela berma e junto à vala de águas pluviais referidas em A.b e C.d. dos factos provados;
3- O arguido circulava de forma desatenta e invadiu a berma da via pela qual circulava, actuando sem os deveres de cuidado a que estava obrigado e de que era capaz.
4- Podia e devia ter evitado o embate.
b) Do pedido de indemnização cível deduzido por HH e CC:
1) No momento do acidente o veículo GA-... circulava por conta da sociedade referida em C.b., no seu interesse exclusivo e sob a sua direcção efectiva.
2) GG teve a percepção da sua morte.
3) Tendo sofrido dores quando foi colhido pelo veículo conduzido pelo arguido. c) Das contestações apresentadas
1) GG seguia a pé pela estrada.
2) No momento em que o veiculo se aproximava do km 108,600 da EN10, o arguido apercebeu-se do aparecimento de um vulto à sua frente, na respectiva hemi-faixa de rodagem.
3) Não obstante haver travado e guinado a trajectória do veículo para a sua esquerda, não conseguiu evitar colher o peão.
4) A EN10, próxima do km 108,600, no Porto Alto, junto às bombas da Cipol, não dispunha de iluminação pública, à data dos factos.
5) A morte de GG foi imediata com o embate. 2. Apreciação
2.1. Como é jurisprudência assente, sem prejuízo das questões de conhecimento oficioso, é pelo teor das conclusões que o recorrente extrai da motivação, onde sintetiza as razões do pedido, ou dito de outro modo, as razões de discordância com o decidido (artigo 412.º, n.º 1, do CPP), que se delimita o objecto do recurso e se fixam os horizontes cognitivos do Tribunal Superior.
relativo ao pedido de indemnização cível formulado nestes autos, alegando, muito em síntese, que é manifesto que a decisão recorrida incorreu em erro notório na apreciação da prova [artigo 410.º, n.º 2, alínea c), do CPP] ao alterar a matéria de facto dada como provada pela 1.ª instância – mormente ao dar por provado que «estava escuro no local do acidente» e que a via tinha «apenas boa visibilidade diurna, em condições de tempo normais», e como não provado que a «vítima circulava pela berma», tendo sido extraídas da prova produzida conclusões desfasadas da realidade fáctica de acordo com as regras da experiencia comum, desprovidas de lógica e
destituídas de juízos de experiência - pedindo a revogação do acórdão recorrido e manutenção da decisão proferida em 1.ª instância.
Mais alegam que o acórdão recorrido incorreu em erro ao não incluir na sua avaliação a aplicação do artigo 24.º do Código da Estrada, na medida em que o condutor do veículo pesado violou o disposto nos artigos 24.º e segs. desse diploma, sendo que tal conclusão se extrai da factualidade apurada – por seguir numa recta de boa visibilidade, porque havia boas condições climatéricas e com um troço com piso em boas condições de conservação, utilizava as luzes dos faróis da viatura acesos, pelo menos em médios (com alcance de 30 metros), o que permite concluir que seguia a uma velocidade (excessiva) que não lhe permitiu imobilizar o veículo pesado no espaço livre e visível à sua frente e o impediu de visualizar atempadamente o peão, quando podia e devia ter feito, acabando por invadir a berma e indo embater no peão que ali circulava.
Impugnam ainda o acórdão recorrido, alegando que o mesmo é nulo porque, o Tribunal recorrido, para alterar a matéria de facto valorou prova proibida – em violação dos artigos 122.º, n.º 1, 355.º e 357.º n.os 1 a 3, todos do CPP – na medida em que valorou declarações proferidas pelo arguido em sede de inquérito (constante de fls. 95), quando o arguido se reservou ao direito ao silêncio em julgamento e não houve leitura das mesmas em audiência de julgamento. Alegam, ainda, que ao não se ter procedido à leitura de tais declarações em audiência de julgamento, foram violados os princípios de imediação e do contraditório sobre tal prova.
Por último, sustentam que, caso improceda a responsabilização civil por culpa do condutor do veiculo pesado, deverá o acórdão recorrido ser declarado nulo por omissão de pronúncia, nos termos do artigo 379.º, n.º 1, alínea c), do CPP, uma vez que de acordo com o artigo 377.º n.º 1 do CPP (dado que apenas se encontra excluída da aplicação deste artigo a apreciação de
responsabilidade contratual) deveria o acórdão recorrido ter apreciado a responsabilidade civil objectiva ou pelo risco prevista no artigo 503.º do Código Civil, devendo assim a Companhia de Seguros ser condenada no pagamento da mesma indemnização (90.000€) com base nesta responsabilidade (pelo risco).
Deste modo, perante a forma como se encontra configurado o presente recurso e face à ordem enunciada neste, são essencialmente as seguintes as questões controvertidas submetidas a apreciação do Supremo Tribunal de Justiça:
a) erro notório na apreciação da prova, de acordo com o disposto na alínea c) do n.º 2 do artigo 410.º do CPP;
b) Proibição de valoração de prova – declarações, do arguido, proferidas em fase de inquérito (constante do documento de fls. 95) – violação do disposto nos artigos 122.º, n.º1, 355.º e 357.º, n.os 1 a 3 do CPP;
c) Manutenção da factualidade dada como provada na sentença da 1.ª instância, com o consequente apuramento da responsabilidade civil por factos ilícitos do condutor do veículo
artigo 24.º do Código da Estrada.
d) Omissão de pronúncia do acórdão recorrido, por não apreciação da responsabilidade civil pelo risco (artigo 503.º do Código Civil), com a consequente nulidade do mesmo nos termos do artigo 379.º, n.º 1, alínea c), do CPP, devendo em consequência ser a demandada civil condenada no pagamento da indemnização (a que foi condenada na sentença proferida na 1.ª instância) com base na responsabilidade pelo risco.
2.2. Avancemos, então, para a apreciação destas questões controvertidas.
2.2.1. Erro notório na apreciação da prova de acordo com a alínea c) do n.º 2 do artigo 410.º do CPP.
Os recorrentes BB e CC vieram invocar expressamente a verificação do vício previsto no artigo 410.º, n.º 2, al. c), do CPP, alegando, em suma, que o acórdão recorrido padece de manifesto erro na apreciação da prova produzida nos autos, tendo efectuado uma reapreciação da prova
desfasada da realidade, violando as regras da experiência comum.
Importa, então, tecer breves considerações sobre os poderes de cognição do Supremo Tribunal de Justiça e os vícios do artigo 410º, n.os 2 e 3 do CPP.
O Supremo Tribunal de Justiça, enquanto tribunal de revista, conforme dispõe o artigo 434.º do CPP, somente reaprecia matéria de direito, sem prejuízo do conhecimento (oficioso) dos vícios previstos no artigo 410.º, n.os 2, alíneas a) a c), e 3, do CPP.
Desta feita, ao Supremo Tribunal de Justiça está-lhe vedado proceder à análise crítica da prova testemunhal ou documental produzida nos autos, substituindo-se às instâncias na valoração dos meios de prova e na fixação da matéria de facto provada e não provada. Veja-se neste sentido acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 14-12-2006 (Proc. n.º 4356/06 - 5.ª Secção)[2]: «I. Tendo os recorrentes ao seu dispor a Relação para discutir a decisão de facto do tribunal
colectivo, vedado lhes ficará pedir ao Supremo Tribunal a reapreciação da decisão de facto tomada pela Relação. II. E isso porque a competência das Relações, quanto ao conhecimento de facto, esgota os poderes de cognição dos tribunais sobre tal matéria, não podendo pretender-se colmatar o eventual mau uso do poder de fazer actuar aquela competência, reeditando-se no STJ
pretensões pertinentes à decisão de facto que lhe são estranhas, pois se hão-de haver como
precludidas todas as razões quanto a tal decisão invocadas perante a Relação, bem como as que o poderiam ter sido.»
Como repetidamente este Supremo Tribunal tem afirmado, e aqui se reitera, decidido o recurso pela Relação, ficam esgotados os poderes de apreciação da matéria de facto, tornando-se esta definitivamente adquirida, salvo se ocorrer algum dos vícios previstos no artigo 410.º, n.º 2, do CPP, de que o Supremo Tribunal de Justiça deva conhecer oficiosamente.
Tem-se entendido, de modo pacífico, que os vícios previstos nos n.os 2 e 3 do artigo 410.º do CPP não podem constituir objecto do recurso de revista a interpor para o Supremo Tribunal de Justiça e que este tribunal deles somente conhece ex oficio, quando constatar que a decisão recorrida, devido aos vícios que denota ao nível da matéria de facto, inviabiliza a correcta aplicação do direito ao caso sub judice[3].
Posto isto, não é admissível um recurso interposto de um acórdão proferido pelo Tribunal da Relação para este tribunal, na parte em que convoca a reapreciação da decisão proferida sobre matéria de facto, quer em termos amplos, quer por erro de julgamento (erro na apreciação da prova), quer no quadro dos vícios do artigo 410.º do CPP.
Impõe-se apenas conhecer oficiosamente dos vícios do artigo 410.º, n.os 2 e 3 do CPP, porque o conhecimento destes vícios não constitui mais do que uma válvula de segurança a utilizar naquelas situações em que não seja possível tomar uma decisão (ou uma decisão correcta e rigorosa) sobre a questão de direito, por a matéria de facto se revelar ostensivamente insuficiente, por se fundar em manifesto erro de apreciação ou ainda por assentar em premissas que se mostram
contraditórias e por fim quanto se verifiquem nulidades que não se devam considerar sanadas. Mas se tal raciocínio é líquido, quanto ao conhecimento oficioso dos vícios do artigo 410.º, n.os 2 e 3 do CPP, no âmbito da matéria de facto no recurso interposto quanto a matéria penal, o mesmo poderá já não suceder quando o recurso se cinja apenas à parte cível (encontrando-se já transitada a decisão quanto à responsabilidade/matéria penal).
Vejamos o caso concreto.
O arguido AA foi condenado na 1.ª instância pela prática de um crime de homicídio por negligência, p. e p. pelo artigo 137.º, n.º 1 do Código Penal, a uma pena de multa e, após recurso interposto pelo mesmo, o qual foi julgado procedente, o Tribunal da Relação absolveu o arguido de tal crime. De acordo com os artigos 400.º, n.º 1, alínea d) e 432.º, n.º 1, alínea b), ambos do CPP, a
recorribilidade para o Supremo Tribunal de Justiça das decisões absolutórias proferidas em recurso pelas Relações está dependente do facto da condenação da 1.ª instância ter sido com pena
superior a 5 anos.
Dado que no caso em apreço, a condenação da 1.ª instância foi em pena de multa, inequívoco se torna que é inadmissível recurso da decisão absolutória da Relação, tendo ficado, em matéria penal, desde a prolação daquele acórdão, a causa definitivamente decidida.
O presente recurso para o Supremo Tribunal de Justiça foi interposto pelos Demandantes Civis e consequentemente cinge-se exclusivamente à matéria cível - ao pedido de indemnização civil deduzido e respectiva responsabilidade civil da demandada civil Companhia de Seguros ....
Portugal, S.A.. Em face do disposto no artigo 400.º, n.º3 do CPP e nos artigos 629.º e 671.º, ambos do Novo Código de Processo Civil (NCPC), a admissibilidade do presente recurso é inquestionável. Perante esta situação – matéria penal definitivamente decidida e matéria cível a ser sindicada – perguntamo-nos até que ponto se pode estender o conhecimento do tribunal de recurso, a pedido do recorrente do segmento cível, quando transitou em julgado a parte penal que julgou
definitivamente a responsabilidade criminal?
Quanto a esta matéria, seguimos de perto o entendimento vertido, entre outros, nos Acórdãos deste Supremo Tribunal de 09-09-2015 (Proc. n.º 13395/11.1TDPRT.P1.S1 - 5.ª Secção), ainda inédito, de 27-02-2013 (Proc. n.º 1336/06.2TAFUN.L1.S1 - 3.ª Secção), e de 18-06-2009 (Proc. n.º 196/00.1GAMGL.C1.S1 - 3.ª Secção)[4], onde se sustenta que, mesmo no recurso restrito ao segmento cível, encontrando-se transitada a parte penal, pode o Supremo Tribunal de Justiça conhecer oficiosamente dos vícios do artigo 410.º, n.os 2 e 3 do CPP relativamente a toda a matéria de facto.
Veja-se, por pertinente, os argumentos expendidos no último acórdão citado, nos quais nos revemos na íntegra:
«Nos termos do artigo 71.º do Código de Processo Penal o pedido de indemnização civil fundado na prática de um crime é deduzido no processo penal respectivo, só o podendo ser em separado perante o tribunal civil nos casos previstos na leia. Na teleologia do mesmo normativo o pedido de indemnização civil deduzido em processo penal tem sempre de ser fundamentado na prática de um crime, ou seja, tem de ter na sua base uma conduta criminosa que determina o funcionamento do princípio da adesão.
Como refere
“Sucede é que o pedido de indemnização civil, a deduzir no processo penal, há-de ter por causa de pedir os mesmos factos que são também pressuposto da responsabilidade criminal e pelos quais o arguido é acusado. A autonomia da responsabilidade civil e criminal não impede, por isso, que, mesmo no caso da absolvição da responsabilidade criminal, o tribunal conheça da
responsabilidade civil que é daquela autónoma e só por razões processuais, nomeadamente de economia e para evitar julgados contraditórios, deve ser julgada no mesmo processo”
Com a consagração do princípio da adesão resolvem-se no processo penal todas as questões que envolvem o facto criminoso em qualquer uma das suas vertentes sem necessidade de recorrer a mecanismos autónomos. Por outro lado, salienta-se a manifesta economia de meios, uma vez que os interessados não necessitam de despender e dispersar custos quando afinal o tribunal a quem se atribuiu competência para conhecer do crime oferece as mesmas garantias quando ela é alargada ao conhecimento de uma matéria que está intimamente ligada a esse crime. Finalmente importa salientar razões de prestígio institucional, o qual poderia ser posto em jogo se houvesse que enfrentar julgados contraditórios acerca do ilícito criminal a julgar, um no foro criminal com determinado sentido e outro no foro cível, eventualmente com expressão completamente contrária ou oposta[6]. (…)
Com o exercício da acção civil o que está em causa no processo penal é o conhecimento pelo tribunal de factos que constam da acusação e do respectivo pedido de indemnização e que,
consequentemente, são coincidentes no que refere à caracterização do acto ilícito. Atributo próprio do pedido cível formulado será o conhecimento e a definição do prejuízo reparável.
O itinerário probatório é exactamente o mesmo no que toca aos factos que consubstanciam a responsabilidade criminal e a responsabilidade civil, havendo, apenas, que acrescentar que, em relação a esta, há, ainda, que provar os factos que indicam o dano e o nexo causal entre o dano e o facto ilícito.
O presente excurso não reveste uma natureza meramente discursiva, e ausente de preocupações práticas, mas assume uma especial relevância numa vertente do presente recurso que conflui com os seus limites e objecto. Na verdade a Lei 48/2007 introduziu um novo n.º3 no artigo 400.º do Código de Processo Penal no qual, à revelia de entendimento jurisprudencial sustentado e fixado no acórdão 1/2002, se comina a possibilidade de recurso da parte da sentença relativa à
indemnização civil, mesmo que não seja admissível recurso quanto à matéria penal,
Entendemos que o recurso restrito ao pedido cível não pode ferir o caso julgado que se formou em relação á responsabilidade criminal. Consequentemente, não é admissível a impugnação que pretenda colocar em causa à matéria de facto que suporta tal responsabilização criminal. Porém, a imposição da força de caso julgado da matéria de facto relevante em termos penais à decisão a proferir autonomamente em relação à matéria cível pressupõe que a mesma matéria de facto surja como consequência lógica e adequada de um processo racional e aquisitivo. Dito por
outras palavras tal imposição pressupõe um convencimento resultante de uma lógica argumentativa isenta de qualquer mácula na sua formação e, nomeadamente, alheia à existência de um dos vícios do artigo 410.º do Código de Processo Penal.
Assim, impõe-se que, no caso concreto, se verifique da ocorrência daquela patologia».
Desta feita e no seguimento do entendimento supra vertido, impõe-se oficiosamente verificar se a decisão recorrida padece dos vícios do artigo 410.º, n.º 2 e 3 do CPP.
Como decorre expressamente deste normativo, os vícios do n.º 2 do artigo 410.º do CPP, todos eles relativos ao julgamento da matéria de facto, têm de resultar do próprio texto da decisão recorrida, por si só ou conjugada com as regras da experiência comum.
Em particular:
Quanto ao vício previsto pela alínea a) do n.º 2 do artigo 410.º do CPP, o mesmo só ocorrerá quando da factualidade vertida na decisão se concluir faltarem elementos que, podendo e devendo ser indagados ou descritos, impossibilitem, por sua ausência, um juízo seguro (de direito) de
condenação ou de absolvição. Trata-se da formulação incorrecta de um juízo: a conclusão
extravasa as premissas; a matéria de facto provada é insuficiente para fundamentar a solução de direito encontrada.
Quanto ao vício previsto pela alínea b) do n.º 2 do artigo 410.º do CPP, verifica-se contradição insanável – a que não possa ser ultrapassada ainda que com recurso ao contexto da decisão no seu todo ou às regras da experiência comum – da fundamentação – quando se dá como provado e não provado determinado facto, quando ao mesmo tempo se afirma ou nega a mesma coisa, quando simultaneamente se dão como assentes factos contraditórios, e ainda quando se
estabelece confronto insuperável e contraditório entre a fundamentação probatória da matéria de facto, ou contradição insanável entre a fundamentação e a decisão, quando a fundamentação justifica decisão oposta, ou não justifica a decisão.
Quanto ao vício previsto pela alínea c) do n.º 2 do artigo 410.º do CPP, o mesmo verifica-se quando, partindo do texto da decisão recorrida, a matéria de facto considerada provada e não provada pelo tribunal a quo, atenta, de forma notória, evidente ou manifesta, contra as regras da experiência comum, avaliadas de acordo com o padrão do homem médio.
Revertendo para o acórdão recorrido, entendemos que o mesmo não padece dos vícios previstos nas várias alíneas do n.º 2 do artigo 410.º do CPP.
No que respeita ao vício da alínea a) do n.º 2 do artigo 410.º do CPP de modo algum podemos concluir que a matéria de facto dada como provada é insuficiente para fundamentar a solução de direito encontrada. Cumpre referir que este vício não deve ser confundido com a insuficiência de prova para a decisão de facto proferida, questão do âmbito da livre apreciação da prova (artigo 127.º do CPP), subtraída aos poderes de cognição do Supremo Tribunal de Justiça.
A matéria de facto dada como provada no acórdão recorrido é suficiente para fundamentar a decisão de absolvição do arguido e a improcedência do pedido de indemnização civil por responsabilidade civil por factos ilícitos, conforme resulta do texto da decisão recorrida que
considerou que «flui claramente que não se considerando provado que o arguido invadiu a berma e aí colheu a infeliz vítima, nem que violou as disposições estradais por que vem condenado (artigoº 13º, n.º1 e n.º3, artigoº 1º, b), e artigoº 145º, f), do Código da Estrada), (…) não pode subsistir a condenação dos recorrentes, ante a falta de prova da culpa por banda do arguido resultante de
dúvida inultrapassável (se o embate que atingiu mortalmente GG ocorreu na berma ou na faixa de rodagem».
Da decisão sob recurso consegue-se entender o raciocínio, lógico e coerente, que levou o tribunal recorrido, face à factualidade dada como provada (e não provada), a decidir pela absolvição do arguido e pela improcedência do pedido de indemnização civil por facto ilícito, com a consequente absolvição da demandada cível.
O acórdão recorrido, ao invés da 1.ª instância, deu apenas como provado que o veículo conduzido pelo arguido foi embater, em local não concretamente apurado, com a frente do lado direito
(esquina) na vítima GG, colhendo-o pelas costas, projectando-o para a frente, vindo este a imobilizar-se na berma, a mais de 26 m do local do embate. Deu como não provado que a vítima circulava na berma e junto à vala de águas pluviais e que o embate ocorreu na berma. Deu ainda como não provado que arguido circulava de forma desatenta e invadiu a berma da via pela qual circulava, actuando sem os deveres de cuidado a que estava obrigado e de que era capaz, podendo e devendo evitar o embate.
O acórdão recorrido, por ter dado como provado que o embate ocorreu em local não concretamente apurado (e, entre outros factos, ter dado como não provado que a vítima circulava pela berma e que a vítima circulava pela faixa de rodagem), afastou a culpa do condutor do veículo no acidente e considerou não existir violação das disposições legais, cuja violação lhe eram imputadas – artigo 13º, n.º 1 e n.º 3, artigo 1º, b), e artigo 145º, f), do Código da Estrada – tendo feito esta apreciação dos factos e da solução de direito, à luz da configuração da acusação e do respectivo pedido de indemnização civil deduzido pelos demandantes civis, e da condenação considerada pela 1.ª instância.
Pelo exposto, consideramos que a factualidade dada como provada (e não provada) afigura-se suficiente e adequada para fundamentar a solução de direito encontrada no acórdão recorrido (de absolvição do arguido e improcedência do pedido de indemnização civil com fundamento em facto ilícito).
Quanto ao vício a que alude a alínea b) do n.º 2 do artigo 410.º do CPP, temos como certo que também não se verifica.
Conforme bem esclarece o Acórdão deste Supremo Tribunal, de 12-03-2015, proferido no processo n.º 418/11.3GAACB.C1.S1 - 3.ª Secção:
«O vício da contradição insanável da fundamentação ou entre a fundamentação e a decisão verifica-se quando no texto da decisão constem posições antagónicas ou inconciliáveis, que verifica-se excluam mutuamente ou não possam ser compreendidas simultaneamente dentro da perspectiva de lógica interna da decisão, tanto na coordenação possível dos factos e respectivas consequências, como nos pressupostos de uma solução de direito».
Inexiste qualquer contradição na medida em que através de um raciocínio lógico e racional consegue-se, pelo texto da decisão recorrida, apreender o motivo devido ao qual se chega à factualidade dada como provada, bem como não provada, sendo esta factualidade conjugável e consentâneo entre si e também com a respectiva decisão de absolvição do arguido e
improcedência do pedido de indemnização civil.
É certo que a construção fáctica adoptada pelo acórdão recorrido não é, à partida, de fácil leitura, na medida em que dá como não provado que a vítima circulava a pé pela estrada (leia-se faixa de rodagem) e também se dá como não provado que a vítima circulava a pé pela berma (junto à vala
de águas pluviais) e, por fim, se dá como provado que o local ocorreu em local não concretamente apurado (berma ou faixa de rodagem).
Contudo, não existe qualquer contradição entre tal factualidade. Pois não podemos extrair do facto não provado o seu oposto, ou seja, o facto provado[7]. Assim, o facto do acórdão recorrido ter considerado não provado que a vítima circulava na berma, não se pode concluir que a vítima circulava na faixa de rodagem. Da mesma forma, do facto de do acórdão recorrido ter considerado não provado que a vítima circulava na estrada (faixa de rodagem), não se pode concluir que
circulava na berma. Nessa medida, não existe qualquer contradição insanável entre os factos não provados.
O mesmo se diga quanto a estes factos não provados e o facto dado como provado de que «o embate ocorreu em local não concretamente apurado (berma ou faixa de rodagem)». O acórdão recorrido ao dar como provado que o embate foi em local não concretamente apurado (berma ou faixa de rodagem), assume que poderá ter sido num daqueles dois locais – berma ou faixa de rodagem – mas não aceita como provado um concreto local do embate, e nessa medida este facto provado é compatível e está em sintonia com os dois factos dados como não provados (que o embate ocorreu na berma e que o embate ocorreu na faixa de rodagem).
Com efeito, inexiste qualquer contradição entre a fundamentação de facto, entre a factualidade provada e não provada, entre a motivação (fundando-se na dúvida inultrapassável) e a factualidade e, por fim entre estas e a decisão.
Vejamos agora o vício previsto na alínea c) do n.º 2 do artigo 410.º do CPP.
O erro notório na apreciação da prova, trata-se de um vício do raciocínio na apreciação das provas, evidenciado pela simples leitura do texto da decisão, erro tão evidente que salta aos olhos do leitor médio, sem necessidade de particular exercício mental. Para ocorrer este vício, as provas
evidenciadas pela simples leitura do texto da decisão têm que revelar claramente um sentido e a decisão recorrida extrair ilação contrária, logicamente impossível, incluindo na matéria fáctica provada ou excluindo dela algum facto essencial.
É um vício intrínseco da sentença, isto é, que há-de resultar do texto da decisão recorrida, de tal forma que, lendo-o, logo o mesmo cidadão comum se dê conta que os fundamentos são
contraditórios entre si, ou com a decisão tomada.
Se a discordância do recorrente for apenas quanto à forma, isto é, como o tribunal valorou a prova e decidiu a matéria de facto, tal traduz-se em impugnação de matéria de facto apurada - que se integra em objecto de recurso sobre a matéria de facto - e que os recorrentes exercem no recurso interposto para a Relação, e por isso não podem vir repristinar, ainda que em crítica ao acórdão recorrido - o da Relação - por extravasar os poderes de cognição do Supremo Tribunal de Justiça (artigo 434.º do CPP).
Conforme se elucida no acórdão deste Supremo Tribunal de 12-03-2015, proferido no processo n.º 724/01.5SWLSB.L1.S1 - 3.ª Secção:
«O erro notório na apreciação da prova só ocorre quando se retira de um facto dado como
provado, algo que notoriamente está errado, que não podia ter acontecido, ou, quando se retira de um facto dado como provado uma conclusão ilógica, notoriamente violadora das regras da
experiência comum e da lógica, que ressalta à vista de qualquer pessoa de formação média, perante a simples leitura da decisão recorrida. O recorrente impugna a convicção do tribunal, com a valoração feita das provas, mas tal desiderato não se confunde com os vícios do n.º 2 do artigo 410.º do CPP, que têm de resultar do texto da decisão recorrida, ainda que em conjugação com as