UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA
JOSÉ WASHINGTON FLORENCIO DA SILVA
ANSIEDADE NA PERFORMANCE MUSICAL – SIMULAÇÕES DE PERFORMANCE PARA CONSTATAÇÃO DE EFEITOS: UMA ANÁLISE ATRAVÉS DA EXPERIÊNCI-AÇÃO NO ÂMBITO DA ESCOLA DE MÚSICA
DA UFRN
NATAL-RN 2019
ANSIEDADE NA PERFORMANCE MUSICAL – SIMULAÇÕES DE PERFORMANCE PARA CONSTATAÇÃO DE EFEITOS: UMA ANÁLISE ATRAVÉS DA EXPERIÊNCI-AÇÃO NO ÂMBITO DA ESCOLA DE MÚSICA
DA UFRN
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na linha de pesquisa - Processos e Dimensões da Produção Artística, área de concentração Música de Câmara, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Música.
Orientador: Prof. Dr. Ranilson Bezerra de Farias
NATAL-RN 2019
Catalogação de Publicação na Fonte
Biblioteca Setorial Pe. Jaime Diniz - Escola de Música da UFRN
S586a Silva, José Washington Florêncio da.
Ansiedade na performance musical - simulações de performance para constatação de efeitos: uma análise através da experiênci-ação no âmbito da Escola de Música da UFRN / José Washington Florêncio da Silva. – Natal, 2019.
195 f.: il. ; 30 cm.
Orientador: Ranilson Bezerra de Farias.
Dissertação (mestrado) – Escola de Música, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2019.
1. Performance musical – Dissertação. 2. Performance musical e ansiedade – Dissertação. 3. Música e fatores psicológicos – Dissertação. I. Farias, Ranilson Bezerra de. II. Título.
RN/BS/EMUFRN CDU 781.6
Agradeço primeiramente à minha família, Mirian Tavares, minha mãe, Anelise Scarton, minha esposa e Gustavo Silva, meu filho, pelo apoio, incentivo, paciência e companheirismo, ao dividir comigo todas as expectativas, adversidades e conquistas advindas desde o início desta empreitada. Amo vocês.
Agradeço ao Programa de Pós-Graduação em Música – UFRN, pela confiança depositada em minha pesquisa e por disponibilizar todos os meios necessários ao desenvolvimento da mesma.
Agradeço ao meu amigo e orientador, Professor Ranilson Bezerra de Farias, pelos ensinamentos, pela confiança no meu trabalho, pela humildade, serenidade, flexibilidade e generosidade e por me conduzir sempre pelo melhor caminho, suas orientações permanecerão para sempre ativas em minha memória.
Agradeço à Professora Camila Meirelles, pelas orientações, sugestões e por dividir seus conhecimentos durante a realização desta pesquisa.
Agradeço imensamente à Professora Eliane Leão, por me inserir no universo da Pesquisa em Música. Me viu engatinhar neste processo e me ensinou a dar os primeiros passos na direção do meu objetivo. Suas orientações foram e continuarão sendo de grande importância na minha vida acadêmica, desejo que esta parceria e amizade dure para sempre, pois a Sra. será minha eterna orientadora! Que Deus a abençoe.
Agradeço aos alunos participantes desta pesquisa, sem suas colaborações não teria sido possível a realização deste trabalho, que Deus os abençoe.
As dificuldades foram muitas, foram intensas... por tudo isso, me questionei várias vezes se daria conta de enfrentar este desafio e se tinha tomado as decisões certas.
Agradeço ao Criador. Sem Deus na minha vida não estaria hoje escrevendo estes agradecimentos. Deus me sustentou, não permitiu que eu caísse, não permitiu que eu desistisse e ainda colocou em meu trajeto pessoas maravilhosas que me ajudaram a chegar até este momento, momento de glória.
Obrigado Deus, por minha família, por meus professores, pela coragem, perseverança e motivação. Conquistei uma grande vitória para honra e glória do teu nome.
Nesta pesquisa, aborda-se o tema ansiedade na performance musical (APM). Para o desenvolvimento desta pesquisa, foi definido como objetivo geral, investigar a prevalência da ansiedade na performance musical e como objetivos específicos, a investigação das situações, sintomas e observação e análise de resultados dos exercícios de simulação de performances musicais realizados pelos alunos da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EMUFRN) em sala de aula, como forma de treinamento de adversidade/enfrentamento da ansiedade na performance musical e dessensibilização de efeitos. As abordagens metodológicas adotadas para esta pesquisa foram a Quali- Quantitativa e a Experiênci-Ação. O campo empírico foi constituído por 134 alunos dos Cursos de Bacharelado e Técnico em Música da EMUFRN. A partir da aplicação de questionários ao público citado, identificou-se a existência da problemática pesquisada. Os procedimentos metodológicos para a coleta dos dados foram: levantamento bibliográfico a respeito do tema; elaboração e aplicação de questionários; delimitação do universo de pesquisa à turma de Graduação da disciplina „Preparação para o palco e performance‟; aplicação do Estudo das Sete Habilidades (GREENE, 2001); observação dos exercícios de simulação de performance; filmagens de performances musicais e coleta de relatos. Os resultados possibilitaram: elencar os principais sintomas; apontar as situações de performance provocadoras de ansiedade entre os performers; alertar quanto ao uso de medicamentos, álcool e substâncias ilícitas; desenvolver o treinamento de adversidade (simulações de performances em 03 situações), como estratégia de preparação para a performance musical no palco, através da Experiênci-Ação.
Palavras chave: Performance. Performance musical. Ansiedade. Ansiedade na
performance musical. Simulações de performance.
This research addresses the theme anxiety in musical performance (APM). For the development of this research, it was defined as a general objective to investigate the prevalence of anxiety in musical performance and as specific objectives, the investigation of situations, symptoms and observation and analysis of exercise results simulation of musical performances performed by the students of the School of Music of Federal University of Rio Grande do Norte (EMUFRN) in the classroom, as a way of adversity training / coping with anxiety in musical performance and desensitization of effects. The methodological approaches adopted for this research were the Qualitative-Quantitative and the Experienci-Action. The empirical field consisted of 134 students from the EMUFRN Bachelor and Music Technician Courses. From questionnaires to the mentioned public, the existence of the problem was identified. The methodological procedures for data collection were: bibliographic survey on the subject; elaboration and application of questionnaires; delimitation of the research universe to the undergraduate class of the discipline „Preparation for the stage and performance‟; application of the Seven Skills Study (GREENE, 2001); observation of performance simulation exercises; footage of musical performances and collection of reports. The results made it possible to: list the main symptoms; point out anxiety-provoking performance situations among the performers; warn about the use of medicines, alcohol and substances illicit; develop adversity training (performance simulations in 03 situations), as a preparation strategy for the musical performance on stage, through from Experienci-Action.
Keywords: Performance. Musical performance. Anxiety. Anxiety in musical
Figura 1- A ansiedade e o medo como faces da mesma moeda. Esquema elaborado pela
Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva ... 37
Figura 2- A arte do equilíbrio no combate ao estresse e aos transtornos de ansiedade. Elaborada pela Dra. Ana B. Barbosa Silva e Dra. Lya Ximenez ... 39
Figura 3- Extensão do modelo Yerkes-Dodson, ilustrando três fatores que contribuem para a ansiedade no desempenho ... 50
Figura 4- As quatro zonas de energia ... 118
Figura 5- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 01 ... 125
Figura 6- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 02 ... 127
Figura 7- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 03 ... 128
Figura 8- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 04 ... 129
Figura 9- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 05 ... 130
Figura 10- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 06 ... 131
Figura 11- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 07 ... 132
Figura 12- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 08 ... 133
Figura 13- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 09 ... 134
Figura 14- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 10 ... 135
Figura 15- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 11 ... 137
Figura 16- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 12 ... 138
Figura 17- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 13 ... 139
Figura 18- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 14 ... 140
Figura 19- Resultado: Estudo das sete habilidades/energia, Respondente Nº 15 ... 141
Figura 20- Exemplo errado de manutenção da concentração/foco ... 144
Figura 21- Exemplo adequado à manutenção da concentração/foco ... 144
Figura 22- Resultado: Estudo das sete habilidades/Foco, Respondente Nº 01 ... 145
Figura 23- Resultado: Estudo das sete habilidades/Foco, Respondente Nº 02 ... 146
Figura 24- Resultado: Estudo das sete habilidades/Foco, Respondente Nº 03 ... 147
Figura 25- Resultado: Estudo das sete habilidades/Foco, Respondente Nº 04 ... 148
Figura 26- Resultado: Estudo das sete habilidades/Foco, Respondente Nº 05 ... 149
Figura 27- Resultado: Estudo das sete habilidades/Foco, Respondente Nº 06 ... 150
Figura 28- Resultado: Estudo das sete habilidades/Foco, Respondente Nº 07 ... 151
Figura 32- Habilidade de relaxamento respondente Nº 01 ... 162
Figura 33- Habilidade de relaxamento respondente Nº 02 ... 162
Figura 34- Habilidade de relaxamento respondente Nº 03 ... 163
Figura 35- Habilidade de relaxamento respondente Nº 04 ... 164
Figura 36- Habilidade de relaxamento respondente Nº 05 ... 164
Figura 37- Habilidade de relaxamento respondente Nº 06 ... 165
Figura 38- Habilidade de relaxamento respondente Nº 07 ... 165
Figura 39- Habilidade de relaxamento respondente Nº 08 ... 166
Figura 40- Habilidade de relaxamento respondente Nº 09 ... 167
Figura 41- Habilidade de energizar-se respondente Nº 09 ... 167
Figura 42- Habilidade de relaxamento respondente Nº 10 ... 168
Figura 43- Habilidade de relaxamento respondente Nº 11 ... 168
Tabela 1 – Prevalência de ansiedade e uso de substâncias...82
Tabela 2 – Os quatro sintomas de ansiedade mais comuns entre os respondentes...83
Tabela 3- Prevalência da ansiedade entre faixas etárias...85
Gráfico 1- Contagem dos cursos... 74
Gráfico 2- Alunos que se consideram ansiosos ... 74
Gráfico 3- Alunos que se consideram ansiosos no palco ... 75
Gráfico 4- Alunos ansiosos devido à plateia ... 75
Gráfico 5- Resultado positivo ou negativo influenciando a participação em outras performances ... 75
Gráfico 6- Alunos que gostariam ou não de uma disciplina que abordasse o tema ansiedade na performance ... 76
Gráfico 7- Uso de medicamentos para amenizar a ansiedade ... 76
Gráfico 8- Uso de álcool para amenizar a ansiedade ... 76
Gráfico 9- Uso de sustâncias ilícitas para amenizar a ansiedade... 77
Gráfico 10- Coração acelerado ... 77
Gráfico 11- Sudorese ... 78
Gráfico 12- Tremores ... 78
Gráfico 13- Boca seca ... 78
Gráfico 14- Falta de ar ... 79
Gráfico 15- Náusea ... 79
Gráfico 16- Calafrio ... 79
Gráfico 17- Vertigem ... 80
Gráfico 18- Tensão muscular... 80
Gráfico 19- Irritabilidade ... 80
Gráfico 20- Inquietação ... 81
Gráfico 21- Perturbação do sono ... 81
Gráfico 22- Perda de apetite ... 81
Gráfico 23- Mal estar intestinal ... 82
Gráfico 24- Contagem de Sexo... 86
Gráfico 25- Contagem de „Qual o seu Curso atual na Universidade Federal do Rio Grande do Norte?... 86
Gráfico 26- Contagem de „Há quanto tempo você estuda música?‟ ... 87
Gráfico 30- Ansiosas no dia a dia (Sexo Feminino) ... 89
Gráfico 31- Contagem de alunos ansiosos durante os estudos diários ... 90
Gráfico 32- Contagem de alunos ansiosos durante os ensaios ... 90
Gráfico 33- Contagem de alunos ansiosos durante recitais, concurso ou testes ... 91
Gráfico 34- Alunos ansiosos em recitais, concursos e testes (Sexo Masculino) ... 92
Gráfico 35- Alunas ansiosas em recitais, concursos e testes (Sexo Feminino) ... 92
Gráfico 36- Contagem de „Qual instrumento você toca?‟ ... 93
Gráfico 37- Instrumentistas de cordas friccionadas que se consideram ansiosos em recitais concursos ou testes ... 94
Gráfico 38- Cantores que se consideram ansiosos em recitais concursos ou testes ... 94
Gráfico 39- Contagem de „Qual estilo de Música você toca/estuda? Erudito, Popular ou Ambas?‟ ... 95
Gráfico 40- Contagem de alunos em relação ao medo do palco ... 97
Gráfico 41- Medo do palco (Sexo Masculino) ... 97
Gráfico 42- Medo do palco (Sexo Feminino) ... 98
Gráfico 43- Alunos que já se privaram de realizar performances por medo de falhar novamente, após um resultado insatisfatório ... 99
Gráfico 44- Instrumentistas de sopro ... 99
Gráfico 45- Instrumentistas de Cordas friccionadas ... 100
Gráfico 46- Contagem de alunos que rejeitaram se apresentar publicamente devido à ansiedade ... 101
Gráfico 47- Instrumentistas de sopro (Saxofone, Flauta, Trombone e Eufônio) que já rejeitaram se apresentar publicamente devido à ansiedade ... 101
Gráfico 48- Pianistas que já rejeitaram se apresentar publicamente devido à ansiedade... ... 102
Gráfico 49- Instrumentistas de Cordas friccionadas que já rejeitaram se apresentar publicamente devido à ansiedade ... 102
Gráfico 50- Cantores que já rejeitaram se apresentar publicamente devido à ansiedade ... 102
Gráfico 51- Contagem do sintoma: Palpitação (coração acelerado) ... 104
Gráfico 52- Contagem do sintoma: Tremores ... 104
Gráfico 56- Falta de ar ... 105
Gráfico 57- Boca seca ... 106
Gráfico 58- Insônia ... 106
Gráfico 59- Irritabilidade ... 106
Gráfico 60- Mal estar intestinal ... 107
Gráfico 61- Náusea ... 107
Gráfico 62- Perda de apetite ... 107
Gráfico 63- Sudorese ... 108
Gráfico 64- Vertigem ... 108
Gráfico 65- Não é o caso ... 108
Gráfico 66- Contagem de alunos ansiosos antes da performance ... 109
Gráfico 67- Contagem de alunos ansiosos ao relizarem a performance Solo ... 110
Gráfico 68- Contagem de alunos ansiosos durante a performance... 110
Gráfico 69- Contagem de alunos ansiosos ao realizar a performance com Piano ... 110
Gráfico 70- Contagem de alunos ansiosos ao realizarem a performance em Música de Câmara ... 111
APM - Ansiedade na Performance Musical
CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico DNA – Ácido Desoxirribonucléico
DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª edição) EMUFRN – Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte K-MPAI – Kenny Music Performance Anxiety Inventory
SPA – Síndrome do Pensamento Acelerado TAG – Transtorno de Ansiedade Generalizada TEPT – Transtorno de Estresse Pós-Traumático TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo TPM – Tensão Pré-Menstrual
UFG – Universidade Federal de Goiás
INTRODUÇÃO ... 19
1 PERFORMANCE MUSICAL ... 23
1.1 ELEMENTOS DA PERFORMANCE MUSICAL ... 23
1.1.1 Expressão ... 23 1.1.2 Interpretação ... 25 1.1.3 Memorização ... 26 1.1.4 Ensaio mental ... 28 1.1.5 Treinamento/simulação da performance ... 30 2 ANSIEDADE ... 31 2.1 Medo ... 35 2.2 Estresse ... 36
2.3 Como superar a ansiedade? ... 37
2.4 Coadjuvantes no tratamento não medicamentoso da ansiedade ... 38
2.5 Combatendo a ansiedade com ajuda da alimentação ... 39
2.5.1 Alimentos e bebidas do grupo “A” (evitados) ... 40
2.5.2 Alimentos do grupo “B” (aliviadores) ... 41
3 ANSIEDADE NA PERFORMANCE MUSICAL ... 44
3.1 O Pânico de palco ... 49
3.2 Variáveis que contribuem para a prevalência da ansiedade na performance musical ... 50
3.3 Abordagens não medicamentosas para tratamento da ansiedade na performance musical ... 54
3.4 Farmacoterapia para ansiedade na performance musical ... 60
3.5 Substâncias auto-administradas ... 63
4 METODOLOGIA ... 67
4.1 A pesquisa Quanti-Qualitativa e a Experiênci-Ação ... 67
4.2 Etapa-1 ... 69
4.2.1 Revisão da literatura ... 69
4.2.2 Universo da pesquisa e quantidade da amostragem ... 69
4.2.3 Questionário – 1 (vide apêndice C) ... 70
4.4 Etapa – 3 ... 71
4.4.1 Simulações de performance musical realizadas em sala de aula ... 71
4.4.2 Condução das simulações de performance musical ... 72
5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS OBTIDOS NAS ETAPAS 1 E 2 DA PESQUISA ... 74
5.1 Resultados obtidos na Etapa – 1 da pesquisa ... 74
5.2 Resultados obtidos na Etapa - 2 da pesquisa ... 84
5.2.1 Sintomas ... 103
5.2.2 Situações ... 109
6 Resultados obtidos na Etapa – 3 da pesquisa (Experiênci-Ação) ... 113
6.1 Estudo das sete habilidades ... 113
6.2 Exercícios de simulação para a performance musical ... 116
6.3 Energia na performance ... 117
6.4 Processo de centralização ... 119
6.5 Resultados do exercício de simulação da otimização da energia de performance... ... 124
6.6 Exercício de simulação da capacidade de concentração/foco ... 142
6.7 Relaxamento na performance... 157
6.7.1 Exercícios de relaxamento muscular ... 158
6.7.2 Relatos dos participantes (alunos) ... 162
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 171
REFERÊNCIAS ... 175
APÊNDICE A – Termo de consentimento livre e esclarecido ... 179
APÊNDICE B – Termo de autorização para uso de imagens (fotos e vídeos) ... 180
APÊNDICE C – Questionário-1 ... 181
APÊNDICE D – Questionário-2 ... 183
APÊNDICE E – Tradução de figuras em língua inglesa ... 185
ANEXO A – Estudo das Sete Habilidades – Don Greene (2001) – (traduzido por Camila Meirelles e João Paulo Reis) ... 189
ANEXO B – Tabela de apuração de resultados para o Estudo das Sete Habilidades – Don Greene (2001) ... 193
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa foi desenvolvida no âmbito da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EMUFRN) e aborda o tema „Ansiedade na Performance Musical‟. Kenny (2001), define a ansiedade na performance musical como:
A experiência persistente relacionada com a performance musical, que surge ligada a vulnerabilidades biológicas e/ou psicológicas, e/ou experiências que condicionam a ansiedade. Manifesta-se através de combinações de sintomas afetivos, cognitivos, somáticos e comportamentais. Pode ocorrer num vasto conjunto de situações performativas, mas é frequentemente mais severa em situações que requerem investimento do ego, avaliação inerente (público), e medo de falhar. Pode ser focal (i.e. focar apenas a performance musical), ou ocorrer em comorbidade com outros distúrbios de ansiedade, em particular a fobia social. Afeta músicos em qualquer fase da carreira e é parcialmente independente dos anos de formação, prática, ou nível de experiência musical. Pode ou não prejudicar a qualidade da performance musical (KENNY, 2011, p. 61).
Inicialmente, o interesse por esta temática surgiu a partir de minhas próprias experiências como performer, saxofonista, onde diante da expectativa de uma exposição e audiência pública, principalmente em contexto acadêmico e avaliativo, percebia em mim a prevalência da ansiedade e alguns de seus sintomas: hipossalivação (boca seca), tremores, aceleração cardíaca, perda de apetite e tensão muscular. Através de conversas e relatos de colegas músicos (estudantes), foi observado que a ansiedade na performance musical era uma sensação que incomodava e que estava presente na maioria dos performers da Escola de Música da UFRN (EMUFRN), porém, não se chegava de fato a discutir sobre como lidar com ela, de forma a minimizar os seus efeitos, no caso da performance musical, um dos efeitos causados pela ansiedade é a perda do rendimento no momento da execução instrumental ou vocal, no palco.
A exposição pública, audições, recitais, concursos e concertos são atividades inerentes à profissão/formação do performer, no entanto, têm sido caracterizadas como situações estressoras para os músicos em determinados momentos de suas vidas.
Para Oliveira (2001, p. 169) a ansiedade é uma reação normal e necessária do organismo. A ansiedade pode ser benéfica para o músico ao realizar uma performance, pois ainda segundo Oliveira (2001), ela deixa o organismo em alerta e com a atenção aumentada, fato que ao nosso ver é essencial à performance musical, fazendo aumentar
o nível de concentração e foco. Desta maneira, desenvolver formas de lidar com a ansiedade na performance musical, é fundamental.
Partimos da hipótese de que é possível lidar com a ansiedade na performance musical, para isso, nosso objetivo foi investigar a sua prevalência, as situações, os sintomas e apontar estratégias/simulações de performances musicais utilizadas para o enfrentamento desta problemática. As simulações de performances musicais realizadas durante esta pesquisa visaram incentivar a prática da performance como treinamento de adversidade, para que estas possam ser incorporadas aos estudos diários dos alunos da EMUFRN, como forma de preparação para a performance musical e assim contribuir para a otimização das performances dos mesmos.
Nossa intenção em apontar estratégias de enfrentamento/simulações de performances reforçou-se após obtermos resultados que identificam que os alunos da EMUFRN vivenciam ou já vivenciaram momentos nos quais sentiram-se ansiosos, os quais serão apresentados adiante em nosso trabalho. Percebeu-se a importância da abordagem desta temática entre docentes e discentes desta instituição, uma vez que estratégias de enfrentamento da ansiedade na performance musical, não têm sido comumente discutidas durante as aulas práticas de instrumento, lacuna esta observada durante esta pesquisa ao procurar trabalhos referentes ao ensino e pedagogia do instrumento e do canto que tratassem deste problema.
Este trabalho está dividido em 06 (seis) capítulos, além da introdução e das
considerações finais. A introdução, traz uma apresentação geral da pesquisa realizada. No Capítulo I aborda-se a performance musical e os elementos que dela fazem parte, dessa forma, discorremos sobre a expressividade, interpretação, memorização, o ensaio mental, enfim, aspectos que permeiam o contexto de uma performance musical desde a sua preparação.
O Capítulo II e o Capítulo III, tratam sobre a ansiedade, o medo, o estresse, a ansiedade na performance musical, estratégias de enfrentamento, tratamentos naturais (yoga, técnicas de relaxamento, etc), as variáveis que podem causar seu surgimento, alimentos que podem tanto inibir quanto facilitar a prevalência da ansiedade, farmacoterapia e substâncias autoadministradas. Nestes capítulos, apresentamos uma revisão da literatura referente à ansiedade e ansiedade na performance musical, mostrando as pesquisas já realizadas sobre o assunto no Brasil e no exterior, para situar o leitor e introduzi-lo no nosso tema de pesquisa.
O Capítulo IV apresenta a metodologia utilizada e os procedimentos de coleta e análise dos dados. Para desenvolvermos esta pesquisa, adotamos as abordagens Quali-Quantitativa e a „Experiênci-Ação‟. Para Costa e Leão (2013, p. 61 apud LEÃO & CARVALHO, 2017, p. 18), a Experiênci-Ação pode ser definida como:
“Processo de vivência musical definido como o processo planejado, flexível quanto ao atendimento das necessidades que os alunos trazem para a sala de aula e observado pelo professor intermediador/pesquisador, com fins de análise de seus resultados a curto e longo prazo”.
Segundo Leão e Carvalho (2017, p. 19), esta nova conceituação da Experiênci-Ação amplia e garante as análises da experiência e ação dos participantes do processo ensino/aprendizagem (professor/aluno), uma vez que aquele que vive a experiência musical no processo é o mesmo que pratica a ação. Esta junção das metodologias de pesquisa: Quali-Quanti e Experiênci-Ação, na investigação da ansiedade na performance musical, nos dá uma maior complementaridade dos dados coletados.
Através dos dados coletados, por meio de 02 (dois) questionários, constatou-se a prevalência da ansiedade na performance musical no universo de alunos da EMUFRN, dados estes que serão apresentados e detalhados no Capítulo V desta dissertação. Na etapa-1, o questionário-1 foi aplicado a 134 respondentes, chegando aos seguintes resultados: 77,6 % dos respondentes se consideram pessoas ansiosas e 78,4% se sentem ansiosos no palco. Constatou-se que, para amenizar a ansiedade, 6,7% dos respondentes já usaram substâncias ilícitas, 11,9% fizeram uso de álcool e 11,2% utilizaram medicamentos. Durante o acompanhamento do grupo de 25 alunos participantes da disciplina „Preparação para o palco e performance‟, etapa-2, verificou-se a partir das respostas ao questionário-2, que: 88% dos respondentes se consideram ansiosos em recitais, testes ou concursos; o momento anterior a uma performance solo é a situação de maior ansiedade observada entre os alunos respondentes; a prevalência da ansiedade causou impacto negativo em 28% dos performers após desempenhos insatisfatórios, resultando em privações de se apresentarem por medo de falhar novamente e que 32% dos respondentes sentem medo do palco (espaço físico). Através dos resultados obtidos por meio dos questionários 1 e 2, chegou-se aos sintomas de ansiedade mais comuns entre os performers (alunos) da EMUFRN, são eles: palpitação (aceleração dos batimentos cardíacos), tremores, tensão muscular e inquietação.
O Capítulo VI, apresenta os dados obtidos por meio dos resultados do „Estudo das Sete Habilidades‟ (vide anexo A) e dos relatos dos 25 alunos já mencionados após a realização dos três exercícios de simulação de performances musicais em sala de aula, exercícios esses, fundamentados nos processos de investigação e vivência desenvolvidos pela docente da disciplina „Preparação para o palco e performance‟ em 2019.1, são eles: Simulação/otimização da energia de performance; Capacidade de concentração/foco e Capacidade de relaxamento.
Em nossas considerações finais apresentamos as deduções observadas por meio dos resultados obtidos, os quais nos permitiram alcançar nossos objetivos, além de possibilitar recomendações e sugestões para o prosseguimento da temática pesquisada. Os dados obtidos nos mostram que a ansiedade na performance musical é um problema que deve ser discutido entre docentes e discentes da EMUFRN, para que sejam abordadas estratégias de enfrentamento e otimização das performances dos alunos, reduzindo seu impacto de forma a não causar abstenções de uma atividade que deve ser realizada com prazer e de forma natural pelos alunos em ambiente acadêmico.
1 PERFORMANCE MUSICAL
No inglês, a palavra performance tem sua raiz no verbo to perform, que significa fazer, executar, diferentemente do termo practice que significa fazer alguma coisa em oposição à teoria, ou ainda – treino, ou repetição de exercícios. No alemão, a palavra performance (Auffürungspraxis) comporta os dois significados (LIMA, 2006, p. 12).
Em 1982, Sloboda, encarregado do capítulo “Music Performance” no livro sobre psicologia da música, organizado por Diana Deutsch, considera a performance musical como “uma constelação de atividades”, e afirma: “quando alguém executa uma peça musical, ele ou ela está traduzindo uma representação mental ou plano da música em ação” (SLOBODA, 1982:480, apud GERLING & SOUZA, 2000, p. 115). Este plano de ação está presente nos processos de memorização, improvisação e transcrição (ditado). Via de regra, permite flexibilidade e ao ser replicado, nunca o é de maneira idêntica (GERLING & SOUZA, 2000, p. 115). A performance musical é entendida como parte de um sistema de comunicação no qual o compositor codifica as ideias musicais, o intérprete decodifica e transforma em sinal acústico, e o ouvinte por sua vez decodifica o sinal acústico, transformando-o em ideias, conceitos e sentimentos (ibid., 2000, p. 115).
1.1 ELEMENTOS DA PERFORMANCE MUSICAL
1.1.1 Expressão
O cerne da expressividade na performance está na nuance. Nuance, “é a manipulação sutil, às vezes quase imperceptível, de parâmetros de som, ataque, tempo, altura, volume e timbre que fazem a música soar viva e humana, ao invés de morta e mecânica” (LEHMANN et al., 2007, p. 85). Complementando a compreensão da expressividade definida por Lehmann (2007), a expressividade em música pode ser compreendida também como a forma com a qual o performer transmite seus sentimentos, suas memórias, sua criatividade e sua compreensão pessoal da obra executada ao público através, da gestualidade, dos movimentos do corpo, de forma cênica. Entende-se ainda que a partir desta ideia de expressividade, não existe uma fórmula de expressão, embora que às vezes possa ser treinada, sua essência está na
forma como o intérprete compreende, se faz compreender e comunica-se com a audiência através da performance.
Compreender uma música é entender seus aspectos estéticos, estruturais, a forma, o ritmo, o timbre, a harmonia, mas, executá-la de forma que seu entendimento – concepção façam a performance soar “humana”. Seashore (1930s), citado por Clarke (2002, p. 63) um dos pioneiros da pesquisa empírica sobre desempenho na década de 1930, definiu a expressão como: “...expressão artística do sentimento na música que consiste em um desvio estético do regular, de tom puro, tom verdadeiro...” entende-se esta definição como sendo de caráter pessoal, de criatividade e personalidade íntima e livre do performer.
Para Clarke (2002, p. 59) o requisito mais básico, é que:
Um performer deve produzir (mais ou menos) as notas, ritmos, dinâmicas, etc, de uma ideia musical [...] no entanto, os artistas devem animar a música, ir além do que é explicitamente fornecida pela notação ou pelo padrão transmitido auditivamente – para ser "expressivo".
Segundo Lehmann et al. (2007, p. 89) a expressão refere-se às:
Variações em pequena escala de tempo, intensidade e outros parâmetros que os executores inserem em pontos específicos de uma apresentação. Um gesto expressivo pode ser completamente contido em uma sequência de algumas notas, enquanto que a Interpretação refere-se ao modo como muitos atos expressivos individuais são escolhidos e combinados em uma peça inteira para produzir uma experiência coerente e esteticamente satisfatória.
Ao comparar as “definições” de „expressão‟ apresentadas neste trabalho, entende-se que a forma como Seashore (1930s) citado por Clarke (2002, p. 63) a explica, complemente a ideia de Lehmann (2007) no sentido de dar ênfase ao fazer musical humanamente falando, pois trata a expressão como um desligamento do estético regrado, de transmitir sentimentos através da performance. Uma perspectiva geral sobre a expressão é que um intérprete visa a transparência entre a concepção e a ação, de modo que cada aspecto de sua compreensão da música encontra uma saída na performance em si (CLARKE, 2002, p. 64).
Clarke (2002, p. 64), explica que um conjunto considerável de pesquisas objetivou especificar princípios psicológicos que regulam o desempenho expressivo na música. Essas pesquisas utilizaram uma mistura de análise detalhada e modelagem computacional para explorar as maneiras em que os artistas empregam uma variedade
de dimensões musicais (ritmo, volume, ataque, timbre, afinação, vibrato etc.) na performance. Os estudos experimentais demonstraram que a expressão pode ser extremamente estável em relação a performances repetidas que podem, às vezes, se estender por vários anos, ela é encontrada até mesmo em performances de leitura musical e pode ser alterada por um artista a qualquer momento.Essas observações têm sido usadas para argumentar que a expressão não pode ser um padrão aprendido de tempo, dinâmica e articulação, lembrado e aplicado a uma peça em cada tempo que é executada, mas deve surgir da compreensão do performer sobre a música no decorrer da performance (CLARKE, 2002, p. 64).
É importante compreendermos que a “realidade”, “a pureza” e a “influência” do ser humano que faz no contexto de uma performance musical, são mais práticas do que relacionar a estrutura à expressão. O corpo não é apenas um "dispositivo de entrada/ saída", mas está intimamente ligado à toda nossa resposta à música e precisa ser reconhecido como tendo um papel mais central do que um modelo baseado em regras (CLARKE, 2002, p. 66).
1.1.2 Interpretação
Para Lehmann, Sloboda, Woody (2007), a expressividade e a interpretação na
música existem para comunicar algo de um intérprete a um ouvinte. É pelo fato de ouvintes e intérpretes compartilharem o mesmo aparelho de escuta, a partir do qual entendimentos e representações podem ser construídos, que a comunicação musical é possível. A comunicação é mais eficaz em categorias emocionais básicas e amplas que têm modos de expressão universais, programados biologicamente e que, portanto, são encontrados pessoalmente em todas as culturas (LEHMANN; SLOBODA; WOODY, 2007, p. 86).
A interpretação é o processo no qual o músico usa sua experiência e conhecimentos para deixar a obra mais expressiva. Ela “implica uma definição do poder e dos limites do intérprete” (LABOISSIÈRE, 2007, p. 16). Em termos de manipulação sonora, o músico utiliza contrastes de agógica, articulação, dinâmica e timbre, além do direcionamento de frases. Essas variações, de uma forma geral, são guiadas por uma gramática musical, que é aprendida objetivamente e de forma tácita, durante a educação do músico. Entretanto, quando o intérprete já tem certo nível de maturidade, essas
variações podem ser guiadas de maneira mais sutil pela sua experiência estética (MELO, 2018, p. 10).
Segundo Lehmann, Sloboda, Woody (2007, p. 87), interpretações confiáveis e reproduzíveis podem ser desenvolvidas através de atividades deliberadas de aprendizado e preparação. Embora as performances possam parecer "mágicas" para os ouvintes, o músico que executa com sabedoria (assim como um mágico no palco) calcula conscientemente vários efeitos-chave, usando "truques do ofício". Embora as interpretações sejam confiáveis e reproduzíveis, elas também são suscetíveis a mudanças, melhorias e até improvisações de última hora (ibid., 2007, p. 87). Os autores (ibidem, 2007), colocam que grandes performances não surgem espontaneamente da intuição e do impulso, elas são sempre o resultado de muitos trabalhos detalhados, até mesmo, no momento da performance, muitos desses aspectos podem ser experimentados como automáticos e sem esforço pelo intérprete, e parecem absolutamente novos e intuitivos para o público.
Neste sentido, compreende-se que a interpretação deve ser treinada e aprimorada durante o processo de preparação para a performance musical.
Para Laboissière (2007), o processo de criação da interpretação passa por duas etapas. A primeira ocorre enquanto ele está estudando, ou se preparando para tocar a obra. Já a segunda, ocorre no momento da performance, que é a “leitura, expressão e realização do objeto artístico” (LABOISSIÈRE, 2007, p. 15, apud MELO, 2018, p. 10). Segundo Lehmann, Sloboda, Woody (2007), a interpretação (seleção e combinação de decisões expressivas em uma peça inteira), permanece em seu núcleo como um empreendimento artístico e estético individual. Embora as interpretações efetivas possam ter algumas características gerais compartilhadas, as especificidades da interpretação dependem sempre da história, da personalidade e das motivações específicas do performer (LEHMANN; SLOBODA; WOODY, 2007, p. 87).
1.1.3 Memorização
Além de aspectos como a expressividade, a interpretação e a liberdade dos movimentos corporais durante uma performance musical, destaca-se o uso de uma “ferramenta”, a memória. Ao iniciar a preparação para uma performance musical, é ideal estabelecer metas, inclusive estratégias de memorização, desta forma, o performer
terá maior eficácia, através de um processo de memorização consolidado, pois sob pressão, podem ocorrer lapsos ou desconforto, provocados pela ansiedade.
Para Williamon (2002, apud OLIVEIRA, 2014, p. 20), “tocar de memória tornou-se uma medida de competência profissional para concertistas solistas de todos os tipos”. Suas pesquisas demonstraram que as execuções ganham em liberdade e expressividade, e que ao executar sem o auxílio da partitura, atinge-se um maior nível de conexão psicológica entre o intérprete e os ouvintes, devido à transmissão da expressão e sentimento, estimulados pelo contato visual, quando possível, entre as partes envolvidas (performer/ouvinte).
Para Aiello & Williamon (2002, p. 167), as estratégias de memorização dependem da habilidade do performer e do estilo e dificuldade da música a ser memorizada. O autor comenta ainda que a capacidade de memorização parece ser aprimorada pelo estudo da teoria e da análise musical.
Matthay (1923, 1926), Hughes (1915) e Gieseking e Leimer (1932/1972), descrevem três formas principais pelas quais os performers aprendem música quando se preparam para uma performance memorizada, são elas: auditivamente, visualmente e cinestesicamente. A memória auditiva permite que os indivíduos imaginem os sons de uma peça, incluindo a antecipação dos próximos eventos da partitura; A memória visual, consiste em imaginar a página escrita durante a performance, por exemplo, os pianistas podem se lembrar de posições das mãos e dedos; A memória cinestésica (muscular ou tátil), permite que os performers executem sequências automaticamente (AIELLO & WILLIAMON, 2002, p. 167). Estes pesquisadores salientam que não é possível uma memorização inteligente, sem conhecimento da estrutura musical, incluindo: harmonia, contraponto e forma.
Outra forma de memorização recomendada por Gieseking e Leimer é através do ensaio mental, ou seja, visualizar as peças através de uma leitura silenciosa; e preparar sua execução técnica através da visualização antes de tocá-las (AIELLO & WILLIAMON 2002, p. 168).
Apesar de ser uma tarefa difícil e provocadora de ansiedade, dependendo do grau de consolidação, as escolhas para tocar obras memorizadas podem ser distintas. Dentre alguns argumentos para tal, estão: memorização dispensa incursões de páginas; permite-se ao performer monitorar visualmente os aspectos do seu desempenho, como, postura, posição das mãos; desenvolvimento mais livre de suas ideias expressivas de forma a comunicá-las ao público de maneira eficaz.
Aiello e Williamon (2002, p. 170), apresentam uma definição para o termo Memória Especialista. Essa teoria desenvolvida por Chase e Simon (1973) propõe que as habilidades superiores de memória são sustentadas por uma vasta base de conhecimento específico para a atividade. Informações neste conhecimento base, são recolhidas e armazenadas em partes que muitas vezes se tornam associadas a ações físicas e comandos específicos.
Compreende-se através dessa diversidade de conceitos e tipos de memória que, ao executar uma obra memorizada, os performers não recorrem apenas ao conhecimento da obra executada, mas também ao conhecimento do estilo musical ao qual a peça é escrita (AIELLO & WILLIAMON, 2002, p. 174).
Assim como os conceitos e tipos de memória, a música, também representa uma vasta diversidade de formas e estilos, ficando a critério do performer o método de memorização mais eficaz e adequado a ser utilizado no intuito de obter uma memorização consolidada.
Entende-se que, para uma memorização inteligente e consolidada, é necessária a utilização de sugestões tais como: Estabelecer um plano de execução e memorização; Analisar as obras entendendo todas as suas estruturas; A repetição constante das obras, acostumando o corpo aos movimentos e gestos necessários (memória muscular); A memória auditiva; O ensaio mental; A visualização através do processo de leitura silenciosa e a soma de toda experiência musical e conhecimentos adquiridos durante a trajetória musical do intérprete.
1.1.4 Ensaio mental
O Dr. Don Greene Psicólogo esportivo e treinador de performers de diversas áreas, comenta em seu livro Performance Success-Performing your best under pressure (2002) que além de suas ideias revolucionárias sobre a conversa interior, o Dr. Maltz também enfatiza a importância da imaginação para aumentar a autoconfiança. No subconsciente, armazenam-se inúmeras lembranças visuais na forma de fotos e vídeos mentais, e nessas lembranças não existem apenas memórias agradáveis, mas quando se é um músico sério, muitas lembranças desagradáveis também. (GREENE, 2002, p. 52) O ensaio mental é uma maneira eficaz de desativar essas lembranças desagradáveis. Se elas realmente aconteceram ou ocorreram apenas em sua mente, essas
imagens podem ter um efeito devastador em seu desempenho diário. (GREENE, 2002, p. 52).
Os pensamentos que nós temos e permanecem repetidamente em nossas mentes influenciam naquilo que nós somos ou seremos, pensar negativamente atrai negatividade, pensar positivamente e imaginar-se fazendo algo da forma como gostaria, aumentam as chances de realização de uma performance bem sucedida.
Segundo Greene (2002, p. 53) o Ensaio Mental é uma das melhores técnicas para se usar na preparação para o desempenho ideal. Numerosos estudos de psicologia esportiva provaram a eficácia dessa técnica em ajudar atletas a realizar habilidades complexas sob pressão.
Para Greene (2002, p. 53, tradução nossa):
Se você não consegue se imaginar bem, tem poucas chances de realmente fazer isso, especialmente sob pressão. Se você nunca foi capaz de alcançar um certo objetivo, pode ser que você não tenha sido capaz de se imaginar realizando isso. O ensaio mental pode preparar o caminho para você.
Entende-se que esta ferramenta, Ensaio Mental, deve fazer parte da preparação para a performance, em uma fase preliminar, onde primeiramente imagina-se uma performance de sucesso, guardam-se os detalhes dessa imagem na mente, partindo em seguida para a parte física da performance.
Rubin-Rabson, citada por Radocy e Boyle (2003, p. 275), descobriu que a superioridade do aprendizado total sobre a parte (ou seja, memorizar seções relativamente longas versus subseções curtas) varia com o aprendiz e a música; que "superaprendizagem" (praticando muito além do necessário para atender a um critério) é de valor duvidoso; que o ensaio mental pode beneficiar a performance quando é incorporado à rotina da prática e que a prática distribuída por um período mais longo é superior à prática em massa numa maratona, embora existam diferenças individuais. Fica claro com a ideia de Rubin-Rabson, que o ensaio mental pode auxiliar na preparação para uma performance e que a prática da performance deve ser alternada em sua rotina entre corpo e mente.
Coffman (1990), citado por Radocy e Boyle, (2003, p. 275) contrastou as condições práticas do ensaio mental (que pode ser interpretado como um aprimoramento cognitivo das habilidades psicomotoras), alternando o ensaio mental e físico, mas constatou que a prática mental não substitui a prática física.
O estudo de Gabrielsson (1999, p. 505-507, apud, RADOCY & BOYLE, 2003, p. 275) também confirma a superioridade da prática física, embora seja melhor praticar mentalmente do que não praticar, podendo beneficiar os artistas avançados.
Acredita-se que assim como a prática física, o ensaio mental pode ser benéfico. Ao invés de praticar uma abordagem ou outra, pode-se alcançar um resultado satisfatório através da alternância de ambas, objetivando a maximização do potencial e otimização da performance musical. Com a finalidade de unir a prática mental à física, durante a rotina diária de um performer, Greene (2002), sugere:
Reservar pelo menos dez minutos ininterruptos e silenciosos sozinhos; Escolher um momento em que o performer esteja alerta;
Não realizar essa prática quando estiver com sono, pois provavelmente irá se afastar antes de chegar ao objetivo final;
Praticar o Ensaio Mental sentado em uma cadeira ou deitado;
Certificar-se de que as costas estejam relativamente retas e que se sinta confortável.
1.1.5 Treinamento/simulação da performance
Para Greene (2002, p. 97), na preparação para uma performance importante, não é suficiente apenas praticar seu repertório até que possa tocá-lo com entusiasmo, é necessário também que evoque em si mesmo os sintomas ou adversidades que sentirá no desempenho real, saindo-se bem apesar deles. Entende-se que o ideal é que a performance seja treinada, simulando todos os imprevistos possíveis.
A motivação da discussão sobre expressividade, interpretação, memorização e ensaio mental nesta pesquisa deve-se ao fato de os considerarmos como elementos passivos de um estado mental e emocional equilibrado para a interação psicológica e comunicação entre a obra, o performer e a plateia. Por serem suscetíveis à influência negativa da ansiedade, assim estabeleceu-se a consonância entre os elementos da performance musical e o tema desta pesquisa, uma vez que, torna-se difícil interpretar, expressar-se ou executar uma obra memorizada quando se está sob pressão ou forte ansiedade, impactando diretamente no rendimento e no resultado da performance musical no palco.
2
ANSIEDADE
Para situarmos o leitor sobre a temática abordada em nossa pesquisa, a qual trata da ansiedade/ansiedade na performance musical, fizemos uma revisão da literatura onde mostramos algumas das pesquisas já realizadas no Brasil e no exterior. Estas pesquisas serviram de base para nos guiar na direção do nosso propósito de investigar a ansiedade na performance musical no âmbito da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, p. 189), explica a ansiedade como “a antecipação de uma ameaça futura, sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e vigilância em preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva”.
Segundo Barlow (2000), a ansiedade é uma única e coerente estrutura cognitivo-afetiva dentro de nosso sistema motivacional defensivo. No centro desta estrutura está uma sensação de incontrolabilidade focada em futuras ameaças, perigo ou outros eventos potencialmente negativos (BARLOW, 2000, p. 1249, apud KENNY, 2011, p. 22). Para Silva (2017, p. 84-85), a ansiedade é definida como uma “sensação de receio e de apreensão, sem causa evidente”; sinônimo de ânsia, aflição, “perturbação de espírito causada pela incerteza ou pelo receio”. Chamamos a atenção para dois fatores apresentados nas definições colocadas por Barlow (2000) e Silva (2017): sensação de incontrolabilidade focada em futuras ameaças e a ausência de uma causa evidente, ou seja, é gerada pela incerteza, não há objeto, animal ou pessoa que possa causar um perigo real ao indivíduo.
Para OLIVEIRA (2001, p. 169):
A ansiedade é uma reação normal e necessária do organismo. Tem como finalidade protegê-lo ou criar reação a qualquer estímulo, ficando alerta e com atenção aumentada. Sem ansiedade, não somos capazes nem mesmo de atravessar uma rua sem sermos atropelados, de reagir e estudar para uma prova, de arrumar um companheiro (a), de fazer um debate, de conquistar nosso espaço na sociedade, etc.
Para a autora, a ansiedade, sob o ponto de vista orgânico e fisiológico, ocorre através de sensações para proteger o organismo aos estímulos novos, aos medos inatos, às não-gratificações e aos estímulos punitivos.
Sob o ângulo neurológico, tem-se, segundo a autora (ibid., 2001), que a ansiedade é gerada pela hiperatividade do hipocampo:
Sempre que um estímulo é captado, é enviado ao córtex, que o decodifica, ativa e compara a registros preexistentes. Se essa avaliação demonstrar que o estímulo não é desconhecido, atemorizante ou punitivo, ele será enviado ao hipocampo, e não ocorrerá a ansiedade. Em caso contrário, o hipocampo entrará em hiperatividade, e será gerada ansiedade com a finalidade de defesa ou reação (OLIVEIRA, 2001, p. 169-170).
O corpo humano é uma máquina planejada para reagir, nos salvar e nos ajudar a lidar com situações de ameaça do cotidiano. A reação do medo, também chamada de “luta ou fuga”, está no centro de vários transtornos do comportamento (ou mentais), conhecidos como transtornos de ansiedade (SILVA, 2011 p.18).
Silva (2011, p. 20) coloca ainda que a ansiedade-traço caracteriza a personalidade de cada um, há indivíduos que possuem uma personalidade ansiosa de fundo ou base (ser ansioso). Ser ansioso é possuir sensação de tensão, apreensão e inquietação, dominando todos os demais aspectos de nossa personalidade. Já a ansiedade-estado (estar ansioso), pode ser considerada em um momento de ruptura ou quebra em relação à nossa condição emocional básica. Esta quebra nos faz cair em uma espécie de abismo, no qual experimentamos desconforto emocional intenso. Estar ansioso é tudo isso acompanhado por manifestações orgânicas tais como palpitações (taquicardia), suor intenso (sudorese), tonturas, náuseas, dificuldade respiratória, extremidades frias etc. Logo, fisiologicamente pensando, quando o ser se une ao estar em uma personalidade já ansiosa, estados severos de desconforto e sofrimento são gerados.
Sentir-se ansioso é normal, segundo Cury (2016, p. 22), a ansiedade é um estado de tensão que nos impele, motiva, anima, provoca reações. [...] sem ela, teríamos uma mente engessada, encarcerada pela mesmice, vítima de tédio. Não teríamos a curiosidade, o prazer de explorar, de correr riscos, de construir novas relações.
Percebe-se através dos referenciais que fundamentam esta pesquisa que, sem ansiedade seríamos incapazes de interagir com outras pessoas, de constituirmos uma família, de trabalhar, de alcançarmos nossos objetivos e ocuparmos nossos lugares na sociedade.
Apesar de a ansiedade ser uma reação normal do nosso organismo, existe um tipo de ansiedade que tem origem em valores culturais que ultrapassam nossos instintos
e nos insere em uma sociedade onde nossos pensamentos e atitudes são influenciados cada vez mais em alcançar o sucesso em determinado grupo social. Desde cedo crianças são bombardeadas com perguntas tipo: O que quer ser quando crescer; Se vai se casar; Quantos filhos vai ter, ou seja, desde cedo somos “pressionados” a alcançarmos certos padrões de vida e consumo que nos tornam ansiosos, através da criação de grandes expectativas que já nos sugerem como obter sucesso ou fracasso. Silva (2017), observa que, os seres humanos nunca tiveram tanto acesso a bens materiais quanto hoje, mas, também, nunca houve tantas pessoas insatisfeitas, ansiosas e compulsivas por comida, compras, drogas, jogos, sexo, redes sociais e internet (SILVA, 2017, p. 19).
Toda essa “pressão” pelo “ser” e pelo “ter”, passada por gerações pode causar o que chama-se de ansiedade patológica, isto é, a ansiedade se torna doentia, assume sintomas psíquicos negativos contínuos e intensos, como irritabilidade, humor depressivo, angústia, baixo limiar para frustrações, fobias, preocupações crônicas, apreensão contínua, obsessão, velocidade exacerbada dos pensamentos (CURY, 2016, p. 22).
Segundo Cury (2016), a ansiedade doentia se manifesta em quatro grandes áreas:
1- Genética/metabólica: neurotransmissores e outras substâncias, incluindo drogas psicotrópicas, alteram o metabolismo cerebral, excitando o território da emoção e gerando agitação mental (hiperatividade), tensão, irritabilidade ou, em alguns casos, lentidão, letargia, alienação. Esse tipo de ansiedade, por ser metabólica, é o único que não tem origem direta ou indireta na atuação do „Eu‟ ou dos fenômenos inconscientes que leem a memória e constroem pensamentos e emoções.
2- Personalidade: privações, abusos, fobias, perdas, frustrações, traições, inveja, ciúme, timidez, sentimento de incapacidade. Todos esses fenômenos têm a participação do „Eu‟ e dos fenômenos inconscientes. Por exemplo, uma traição, registrada pelo fenômeno do Registro Automático da Memória (RAM), forma uma janela traumática; essa janela será, no futuro imediato, acessada pelo fenômeno do gatilho de memória, fixada pela âncora da memória, retroalimentada pelo autofluxo e provavelmente nutrida pelo „Eu‟.
3- Socioprofissional: excesso de trabalho, pressões, cobranças, metas inalcançáveis, ofensas, medo do futuro, crise política, dificuldades financeiras,
pressão nas provas escolares. Vivemos frequentemente em famílias ansiosas, empresas ansiosas, escolas ansiosas.
4- Estilo de vida moderno: trabalho intelectual intenso, excesso de informações, tempo prolongado diante da TV, excesso de preocupação, excesso de uso de smartphones e de internet, consumismo, necessidade neurótica de poder, de evidência social, de se preocupar com a estética. Não é necessário que tenhamos vivenciado traumas na infância para desenvolver conflitos quando adultos. O próprio estilo de vida moderno é altamente ansioso e estressante (CURY, 2016, p. 25-26).
Seguindo essa ideia de excessos na vida cotidiana e complementando as causas estressoras do nosso dia a dia, Cury (2014, p. 98), observa que não só pensamentos pessimistas afetam a qualidade de nossas vidas, mas também a velocidade exagerada dos nossos pensamentos. Editar ou acelerar sem controle o pensamento é o sinal mais evidente de falha do „Eu‟ como gestor psíquico. Para o autor, ninguém suportaria por muito tempo ver um filme cujas cenas rodassem rapidamente. Mas suportamos por anos nosso pensamento rodar seu “filme”. O custo físico e psíquico disso é altíssimo (CURY, 2014, p. 98).
Como podemos observar, toda essa sobrecarga presente no nosso cotidiano, o alto padrão de consumo e de expectativas exacerbadas em uma sociedade, o pensamento acelerado, faz com que nossa mente não pare de funcionar, e de fato não conseguiremos interromper o ato de pensar, porém, a produção de pensamentos sem gerenciamento, os excessos de cobrança, de trabalho e da busca pelo sucesso, podem se tornar um sabotador da nossa qualidade de vida, deflagrando em uma sociedade cada vez mais doente, os diversos transtornos de ansiedade: Fobias; Síndrome do pânico; Transtorno obsessivo compulsivo (TOC); Transtorno de ansiedade generalizada (TAG); Síndrome de burnout (estresse profissional); Síndrome do pensamento acelerado (SPA); Síndrome do padrão inalcançável de beleza (PIB), Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Qualquer leigo sabe que uma máquina não pode trabalhar em alta rotação continuamente, dia e noite, pois corre o risco de aumentar sua temperatura e fundir suas peças, mas é quase inacreditável que nós, humanos, não tenhamos a mínima consciência de que pensar exageradamente e sem nenhum autocontrole é uma fonte de esgotamento mental (CURY, 2014, p. 98-99).
A ansiedade é intrínseca à natureza humana e está sempre presente em situações tensas pelas quais o indivíduo passa, imaginando estar fora de controle, porém, a tensão ajuda a vencer os obstáculos, sem ela a vida seria totalmente apática, sem vontade de conquista (SILVA, 2011, apud MENDES 2014, p. 33), porém, devido às consequências da vida moderna e frenética, segundo Brito e Rodrigues (2011, p. 308), a ansiedade é um fenômeno crescente no ocidente, transformou-se em uma das maiores causas de distúrbios de saúde. Ao lado do estresse da vida pós-moderna, forma um binômio responsável por grande parte das manifestações de problemas clínicos. Este binômio estresse-ansiedade tem se mostrado uma significativa causa de sofrimento psicológico e comportamentos disfuncionais nas pessoas.
2.1 Medo
Assim como a ansiedade, sentir medo é absolutamente normal e necessário, é ele que aciona o comportamento de autoproteção diante dos episódios de risco que vivenciamos durante o cotidiano de nossa vida. Sem o medo protetor e instintivo, seríamos seres totalmente destemidos, inconsequentes e provavelmente muito mais violentos e cruéis (SILVA, 2017, p. 83).
Silva (2017, p. 84), faz uma relação entre medo e ansiedade, como sendo faces de uma mesma moeda. A autora coloca a definição de medo como “sentimento de grande inquietação diante da noção de um perigo real ou imaginário”, de forma semelhante define a ansiedade como “sensação de receio e de apreensão, sem causa evidente”, isto é, causada pela incerteza.
Percebe-se por esta relação feita pela autora que torna-se difícil estabelecer uma diferença entre as duas sensações, pois sempre que o medo está presente, a ansiedade se revela em plenitude, seja em sinais físicos ou em sintomas psíquicos.
De acordo com Silva (2017, p. 85-86), as reações do medo repetem-se em três ocasiões:
1- Quando existe um motivo real e ameaçador que faz o organismo reagir com o objetivo de minimizar os riscos, seja fugindo ou se abrigando em local seguro; ou interromper a reação de fuga para garantir segurança imediata;
2- Situações onde o ameaçador não é real, ou melhor, pode até existir, mas não representa um risco iminente ou significativo à nossa sobrevivência. Sensações
como aceleração cardíaca, tremores, frio na barriga, podem ser comuns em situações avaliativas como provas ou até mesmo no contexto de uma performance musical, esse mal-estar se chama de ansiedade, temos a reação do medo, porém, não corremos nenhum risco de morte ou ferimento;
3- Outras situações são os popularmente chamados de desespero, ou seja, o medo e a ansiedade ganham proporções capazes de modificar nossa vida, causando limitações nos setores: profissional, pessoal, social, afetivo e acadêmico. Quando esses momentos de desespero passam a ocorrer frequentemente, transformando a vida em um pesadelo, tem-se então os transtornos de ansiedade.
2.2 Estresse
Ultimamente tem sido bastante comum ouvir a palavra estresse no dia a dia, e principalmente a frase “estou estressado (a)”. A palavra estresse segundo Silva (2017), guarda profundo parentesco com o medo e a ansiedade. A autora explica que enquanto o medo e a ansiedade referem-se aos sentimentos e sensações de cada indivíduo diante de situações – reais ou imaginárias, ameaçadoras - o estresse corresponde às alterações bioquímicas ocorridas no organismo e relacionadas a esses sentimentos. Para Silva (2017), enquanto o medo e a ansiedade possuem um caráter subjetivo (cada um sabe o que habita em sua mente), a reação física do estresse sempre liberará as mesmas substâncias e desencadeará as mesmas consequências, algumas imediatas (luta ou fuga) e outras crônicas, fazendo com que elas retroalimentem a ansiedade e o medo, acumulando e resultando em doenças ou transtornos de ansiedade.
O esquema a seguir criado pela Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva, demonstra o parentesco dessas sensações, que levam ao mesmo fim:
Figura 1- A ansiedade e o medo como faces da mesma moeda. Esquema
elaborado pela Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva.
Fonte: Silva (2017, p. 87)
Como podemos observar, através da figura 1, acima, o combate ao estresse e ansiedade se dá no instante no qual conseguimos alcançar o equilíbrio do nosso corpo e mente, embora saibamos que nos dias de hoje com uma sociedade totalmente acelerada, onde o tempo é algo que julgamos “precioso”, priorizamos sempre os compromissos profissionais, atividades acadêmicas, compromissos familiares como criar bem os filhos, sermos bons pais, pagar as contas, enfim, acabamos esquecendo de cuidar do nosso bem-estar físico e mental e fazemos o contrário, o sobrecarregamos.
2.3 Como superar a ansiedade?
Como já foi falado anteriormente neste capítulo, todos nós temos medo e ansiedade, sejam eles grandes ou pequenos, portanto o primeiro passo para a superação é aceitá-los. Sentir-se ansioso é uma condição humana normal, porém esta ansiedade não deve nos incapacitar de funcionar, se ela chegar ao ponto de nos prejudicar ou nos privar da capacidade de interação, de realizar as atividades diárias, de conquistarmos nosso espaço na sociedade e nos impossibilitar de enfrentarmos nossos desafios, então, chegou o momento de procurar ajuda especializada, pois certamente estaremos sofrendo de um possível transtorno de ansiedade.
1- Aceitação e disciplina em seu tratamento - Leve o tratamento a sério. Os transtornos de ansiedade devem ser encarados como qualquer outra doença, por isso não esconda seu problema, isso só fará crescer o “monstro” interno;
2- Conhecimento é uma ferramenta fundamental para a transformação e a superação – Aprenda tudo sobre seus medos e sobre sua ansiedade, leia,
converse, quanto mais você souber sobre o assunto, mais aumentará sua munição contra esse “inimigo”;
3- A união faz a força – Procure ajuda de outras pessoas, melhorar sozinho é
sempre mais difícil. Familiares e amigos próximos podem ser uma base importante no tratamento;
4- Boa relação com seu médico e psicoterapeuta e participação ativa no tratamento – Empenhe-se nas tarefas propostas por seu terapeuta para o
tratamento, participe ativamente do processo de tratamento, vencer os medos depende de você querer se ajudar e ninguém poderá fazer isso por você.
2.4 Coadjuvantes no tratamento não medicamentoso da ansiedade
Para Silva (2017, p. 228), existem muitas outras alternativas que contribuem para baixar os níveis da ansiedade além das já citadas. Através da leitura da sua fundamentação apontaremos como coadjuvantes as seguintes alternativas:
1- Boa saúde intestinal; 2- Boa hidratação;
3- Alimentação saudável; 4- Sono equilibrado e adequado; 5- Prática de atividade física;
6- Tratamento de outras doenças presentes no indivíduo; 7- Exercícios de relaxamento;
8- Terapias complementares como, Yoga, Meditação, Acupuntura, Shiatsu, Reiki entre muitas outras aprovadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS); 9- Terapias biomédicas;
Existem muitas abordagens que podem contribuir para combater ou prevenir os transtornos de ansiedade, e sabe-se que muitas vezes as atividades que cuidam e equilibram nosso corpo e nossa mente são negligenciadas por nós mesmos. Cabe somente a nós fazermos uma reflexão sobre os hábitos sugeridos e resolvermos praticá-los em busca de uma saúde integral do nosso corpo, mente e espírito.
A figura 2, a seguir, mostra o quanto se faz necessária a manutenção desse equilíbrio, pois diariamente lutamos com um inimigo poderoso, cabe a nós enfrentá-lo.
Figura 2- A arte do equilíbrio no combate ao estresse e aos transtornos de
ansiedade. Elaborada pela Dra. Ana B. Barbosa Silva e Dra. Lya Ximenez.
Fonte: Silva (2017, p. 238)
2.5 Combatendo a ansiedade com ajuda da alimentação
Pesquisas médicas na área da dieta e nutrição, segundo Silva (2017), tem
demonstrado que alimentos, bebidas e suplementos alimentares têm agravado e desencadeado sensações de ansiedade. Geralmente não nos damos conta da importância que os alimentos desempenham na intensificação e minimização das sensações de ansiedade, pânico e estresse excessivo (SILVA, 2017, p. 243).
A autora (ibid., 2017), aponta os alimentos que devem ser evitados e os alimentos que aliviam as sensações de ansiedade de acordo com sua experiência com pacientes que sofrem de ansiedade moderada à grave.