www.educacionquimica.info
educación
Q
uímica
INVESTIGAC
¸ÃO
EM
EDUCAC
¸ÃO
O
papel
da
argumentac
¸ão
na
mudanc
¸a
conceitual
e
suas
relac
¸ões
com
a
epistemologia
de
Lakatos
Marina
Martins
a,
Rosária
Justi
a,∗e
Paula
Cristina
Cardoso
Mendonc
¸a
baUniversidadeFederaldeMinasGerais,FaculdadedeEducac¸ão,BeloHorizonte,Brasil bUniversidadeFederaldeOuroPreto,DepartamentodeQuímica,OuroPreto,Brasil
Recebidoa15demarçode2015;aceitea8deagostode2015 DisponívelnaInterneta17deoutubrode2015
PALAVRAS-CHAVE
FilosofiaLakatosiana;
Argumentac¸ão;
Mudanc¸aconceitual
Resumo Oobjetivogeraldesse artigoéanalisar opapel daargumentac¸ãonoprocessode mudanc¸a conceitual deestudantes. Paraisso, foi utilizadooreferencialteórico deLakatos na análisede dadosde um processo de ensino fundamentado em modelagem para otema interac¸õesintermoleculares.Acoleta dedadosocorreuemumaturmade2.◦ anodoensino médioapartirderegistrosemvídeo,notasdecampodapesquisadoraecópiadetodasas ativi-dadesescritasproduzidaspelosestudantes.Apartirdosresultados,propomosqueoelemento núcleodafilosofiaLakatosianaexerceopapel deafirmativanoargumento,enquantoo ele-mentocinturãoprotetoréconstruídoporhipótesesauxiliares,quepodemexerceropapelde3 elementosdaargumentac¸ão:evidências,afirmativasouargumentos.Concluímosedefendemos queoreferencialteóricodeLakatoséviávelcomoferramentaparaaanálisedaconstruc¸ãodo conhecimentodosalunos,poisfavoreceacompreensãodoprocessodemudanc¸aconceituale ainfluênciadaargumentac¸ãonomesmonumaperspectivaampla.
DireitosReservados©2015Universidad NacionalAutónomadeMéxico,FacultaddeQuímica. EsteéumartigodeacessoabertodistribuídosobalicençadeCreativeCommonsCCLicense BY-NC-ND4.0. KEYWORDS Lakatosian Philosophy; Argumentation; ConceptualChange
TheroleofArgumentationonConceptualChangeanditsrelationwithLakatos’ epistemology
Abstract The generalaimofthis paperisanalyse therole ofargumentation onstudents’ conceptualchangeprocess.Inordertodoso,weusedLakatos’theoreticalframeworktobase the analysisofdata gatheredinamodelling-based teachingofintermolecular interactions. Dataweregatheredfromvideorecordingsofalllessonsinvolvingsuchlearninginagrade11th class,theresearcher’sfieldnotes,andthecopyofallwrittenactivitiesproducedbystudents. Fromtheresults,weproposethattheelement‘hard-core’oftheLakatosianphilosophyplays
∗Autorparacorrespondência.
Correioeletrónico:[email protected](R.Justi).
ArevisãoporparesédaresponsabilidadedaUniversidadNacionalAutónomadeMéxico.
http://dx.doi.org/10.1016/j.eq.2015.08.003
0187-893X/DireitosReservados©2015UniversidadNacionalAutónomadeMéxico,FacultaddeQuímica.Esteéumartigodeacessoaberto distribuídosobalicençadeCreativeCommonsCCLicenseBY-NC-ND4.0.
theroleoftheclaiminthearguments,whilsttheelement‘protectivebelt’isbuiltbyauxiliary hypotheses thatcan playthe role ofthree elementsof argumentation:evidence, claimor arguments.We concludeandadvocatedthattheLakatos’theoreticalframework isaviable tool forbasisthe analysisofthestudents’knowledgeconstructionsince itcansupportthe understandingoftheconceptualchangeprocess,andoftheinfluenceofargumentationonthis processinabroadperspective.
AllRightsReserved©2015UniversidadNacionalAutónomadeMéxico,FacultaddeQuímica. ThisisanopenaccessitemdistributedundertheCreativeCommonsCCLicenseBY-NC-ND4.0.
Introduc
¸ão
O objetivo geral desse artigo é analisar o papel da
argumentac¸ãonoprocessodemudanc¸aconceitualde
estu-dantes,apartirdoreferencialteóricodeLakatos.Visando
favorecer a compreensão das discussões realizadas no
mesmo,apresentamos,inicialmente,osaspectosrelevantes
de4tópicosque,emconjunto,subsidiamnossasdiscussões:
concepc¸õesalternativasnoensinodeciências;fundamentos
dafilosofiaLakatosiana;fundamentosdaargumentac¸ão;e
argumentac¸ãonoensinodeciências.
Concepc¸õesalternativasnoensinodeciências
Naperspectivaconstrutivista,umaspectocentralda
apren-dizagem são os significados construídos pelo sujeito para
darsentidoaomundoemquevive.Porém,ossentidosque
o indivíduo constrói não dependem apenas das situac¸ões
queelevivencia,mastambémdesuas crenc¸as, emoc¸ões,
intenc¸ões, experiências e conhecimentos prévios (Driver,
1989).
Apartirdadécadade1970,diversosestudosdocampo daeducac¸ãoemciênciasinvestigaramasideiasdos estudan-tes,istoé,suasconcepc¸õesacercadosconceitoseprincípios científicos.Combasenessesestudos,pesquisadores desen-volveram estratégias para o ensino que favorecessem a mudanc¸adasconcepc¸õesdosalunosdemodoqueessas esti-vessemcoerentescomosconceitoscientíficos.
O modelo de mudanc¸a conceitual mais conhecido no ensinodeciênciasfoipropostoporPosner,Strike,Hewson, eGertzog(1982).Estesautoreselaboraramumaanalogiaa partirdas explicac¸ões deKuhn (1996) sobreas noc¸õesde mudanc¸ade paradigmasna ciênciae asmodificac¸õesque são necessárias para que os alunos aprendam novos con-ceitos.Segundoesse modelo,são necessárias4 condic¸ões paraqueacontec¸ammudanc¸as nasconcepc¸õesdealunos: elesestarem insatisfeitos com a concepc¸ão prévia(o que podeocorrerquandoelesforemlevadosaumconflito cog-nitivo); anova concepc¸ão a ser aprendida ser inteligível, istoé,osestudantesdevementendê-la;anovaconcepc¸ão ser plausível, ouseja, os alunos devem acreditar nela; e anovaconcepc¸ão serútileaplicávelem outroscontextos (Vosniadou,2008).
Segundo Vosniadou (2008), a abordagem clássica pro-postaporPosneretal.(1982)foiutilizadaparaguiarvárias pesquisasepráticasinstrucionaisnaeducac¸ãoemciências pormuitosanos.Porém,essaabordagemfoialvodevárias críticas,poisconsideraosalunoscomocientistas,a apren-dizagemda ciênciacomo um processo desubstituic¸ão de
preconcepc¸õesporconcepc¸õescientíficas,eamudanc¸a con-ceitualcomo brusca. A partir dessas e deoutras críticas, outraabordagemparaaprendizagemfoipropostaapartirde suaconsiderac¸ãocomoumaatividadesocialqueocorreem umcomplexomundosociocultural(Vosniadou,2008).Esse pontoestádeacordocomasideiasdeKuhn(1996),poisa noc¸ãodeparadigmapropostaporelelevaemconsiderac¸ão opapeldacomunidadecientíficacomoprodutorade conhe-cimentosesuasmudanc¸as.
Nesse estudo, a mudanc¸a conceitual é compreendida como um processo social (entre alunos e entre alunos e professor)queenvolveaconstruc¸ãogradualdenovos con-ceitose/ouinterpretac¸õesquesãomaiscoerentesdoqueos conceitospréviosparaexplicardeterminadosfenômenos. FundamentosdafilosofiaLakatosiana
Segundoaliteratura,ossuportesteóricosdomovimentodas concepc¸õesalternativassãoencontradosnasbases filosófi-casepsicológicasdediversosautorescomo:Piaget,Ausubel, Bachelard,Vygotsky,Lakatos.Nesseartigo,focamosabase filosófica deLakatos, poispretendemos analisar comoela podeser utilizada como referencial teórico na análise de dadosdesaladeaula.
Lakatos (1970) desenvolveu o que ele denominou «Metodologia de Programa de Pesquisa Científica» com o intuitodeexplicaradinâmicadaciência,avaliarumdado conhecimentocomocientíficoounãocientífico,eoferecer uma orientac¸ão para pesquisas científicas futuras. O pro-gramadepesquisa deLakatosfoidesenvolvidoapartirde suas críticas àsideias do falseacionismo1 de Popper e da irracionalidade2deKuhn.
Nesteprograma,oselementosimportantessão:onúcleo, constituído por leiscientíficas; a heurística negativa, que temafunc¸ãodeevitarofalseamentodonúcleo;ocinturão protetor, que seencontraaoredordo núcleo,constituído de hipóteses auxiliaresque oferecem suporte ao impacto dos testes; e a heurística positiva, que atuano cinturão, umavezqueé constituídapor«umconjuntodesugestões sobrecomomudaredesenvolverasvariantesrefutáveisdo
1Ofalseacionismoéumacorrenteepistemológicafundadapelo filósofoPopper(1963)queapresentacomocritériodecientificidade afalseabilidadedeteorias.Assim,paraele,asteoriassãocientíficas seforempossíveisdeserrefutadas.
2A irracionalidade é uma corrente epistemológica que Kuhn (1996) defende como critério de cientificidade. Para ele, a legitimac¸ãododiscursoepistemológicoenvolveumaanálise sócio--histórica.
programadepesquisa,esobrecomomodificaresofisticaro cinturãodeprotec¸ãorefutável»(Lakatos,1970,p.165).
Lakatos(1970)explicaqueoprogresso daciênciapode serentendidoapartirdacomparac¸ãodeprogramasde pes-quisas.Paraele,o programaé considerado progressivose oconjunto deteorias queestão sendotestadas apresenta umconteúdoempíricomaiordoqueasteorias antigas;se as novas teorias explicam aquilo que as teorias anterio-resnãoconseguiam explicar,isto é,asanomalias;e seas novas teorias dão suporte à previsão de novos fatos. As anomalias podem ser resolvidas de 3 maneiras distintas. Elas podem ser: solucionadas dentro do programa origi-nal; neutralizadas, isto é, solucionadas a partir de um programaindependente;ousolucionadasdentrodeum pro-gramarival.As2primeirasmaneirasnãoafetamoprograma depesquisa que contém a anomaliaouenigma. Porém, a terceiramaneiraafetaoprogramadepesquisa, tornando--o degenerativo, isto é, mal sucedido, uma vez que as teorias presentes noprograma nãoconseguematender os pré-requisitosqueconduzemaumprogramaprogressivo. Fundamentosdaargumentac¸ão
Deumamaneiraampla,podemosdizerqueaargumentac¸ão éumprocessoquetemcomointuitoconvenceroutrapessoa dequenossaopiniãoémelhoroumaiscorretaemumadada situac¸ão.Masparaquehajaoconvencimento,pelomenosno contextodaciência,éimportantequeossujeitosincluamna discussãodadosefatosquepossamdarsuporteàconstruc¸ão deargumentosfortes.
DeannaKuhndefendequeoargumentoéconstituídopor 3elementosbásicos:
• Afirmativa:teoria,pontodevista,ideiaouopiniãoquese desejaprovar.
• Justificativa:razãooucausaquedásuporteàafirmativa eaconectaàevidência.
• Evidência:observac¸ão,fatooudadoqueoferecesuporte àafirmativa(Kuhn,1991).
Alémdisso,elaconsideraqueaargumentac¸ãorelaciona as esferas social e individual, uma vez que o argumento socialcontribuipotencialmenteparaodesenvolvimentodo argumentoindividual.
Nesteartigo,utilizamosaideiadeargumentodeD.Kuhn, poisaelaborac¸ãodeargumentospelosalunosinvestigados ocorreu em umcontexto social, a partir deum problema querequeraconsiderac¸ãodeevidênciasejustificativaspara solucioná-lo.
Argumentac¸ãonoensinodeciências
Jiménez-Aleixandre (2010) defende que a argumentac¸ão podecontribuirsobremaneiraparaosobjetivosdaeducac¸ão em ciências, pois pode favorecer o desenvolvimento do pensamento crítico. Isto porque quando o aluno usa evi-dências para dar suporte à sua opinião, ele compreende o porquê de suas escolhas, o que implica tomadas de decisões conscientes (Jiménez-Aleixandre, 2010; Sá e Queiroz, 2009). A argumentac¸ão também contribui para o aluno compreender «como sabemos o que sabemos» (aorigemdos conhecimentos aceitospela ciência),oque
favoreceaaprendizagemdeciênciasdeformamaisampla (Jiménez-Aleixandre,2010;Osborne,2014).Outroaspecto queaargumentac¸ão podefavoreceraoaluno é«vivenciar a prática científica», isto é, processos de construc¸ão, avaliac¸ão e comunicac¸ão do conhecimento científico gerado,oquepodecontribuirparaqueelesconstruamsuas ideias, não sendo apenas reprodutores ou consumidores de conhecimentos e informac¸ões produzidos por outros (Driver,Newton,eOsborne,2000;DuschleOsborne,2002; Jiménez-Aleixandre, 2010; Kuhn, 1993; Osborne, 2014). Além desses aspectos, a argumentac¸ão pode contribuir paraqueoalunocompreendacomoaciênciaéconstruída ecomoseusprodutossãodisseminados(DuschleOsborne, 2002; Jiménez-Aleixandre, 2010; Osborne, 2014; Ryu e Sandoval, 2012; Sandoval e Willwood, 2008).Finalmente, a argumentac¸ão pode contribuir para o processo de aprendizagem por favorecer a expressão do raciocínio do aluno, que geralmente é pouco acessível durante aulas tradicionais (baseadas em transmissão/assimilac¸ão) (Jiménez-Aleixandre, 2010; Osborne, 2007, 2014). Isso colabora para que os alunos se tornem mais autônomos e reguladores do processo de aprendizagem ( Jiménez--Aleixandre,2010).Nesseartigo,nossofocoestánarelac¸ão entreaargumentac¸ãoeoprocessodeaprendizagem.
De acordo com Kuhn et al., 2014, ensinar apenas os conhecimentos de conteúdo tradicionais para os alunos doséculoXXIé insuficiente.É necessárioque eles também desenvolvamhabilidades como asde pensar criticamente eserreflexivo,paraquesejamcapazes desolucionar pro-blemase,assim,desempenharseuspapéisconscientemente nasociedade.Paratanto,osalunosdevemsercapazesde elaborar argumentos que deem suporte às suas afirmati-vascom raciocínio claro e evidências relevantes,a partir dautilizac¸ãoadequadadefontesconfiáveis,demonstrando umentendimentodotópicoemquestãoereconhecendoas opiniõesalternativas.
Naperspectiva construtivista doensino, a proposta de criarumambienteargumentativoemsaladeaulatemsido defendidapormuitosestudiosos(Driveretal.,2000;Duschl e Osborne, 2002; Venville e Dawson, 2010). Isto porque, quando o sujeito é inserido nesse tipo de ambiente, ele podevivenciarapráticaargumentativa, teroportunidades dedesenvolversuashabilidadeseaaprendizagemde con-ceitoscientíficos.
Duschl e Osborne (2002) apontam a importância da argumentac¸ão para favorecer a mudanc¸a conceitual dos alunos, reduzir o surgimento de concepc¸ões alternati-vas e, consequentemente, contribuir para uma melhor compreensão conceitual. Isto se justifica pelo fato de a argumentac¸ãoserummeioquefavoreceamudanc¸adegrau deaceitac¸ãodeumaopinião.Portanto,odesenvolvimento daargumentac¸ãoemsalasdeaulaséessencialparaqueo alunovivencieoprocessodemudanc¸aconceitual,umavez que uma boa argumentac¸ão envolve a emprego de crité-riosracionaisparaa resoluc¸ão desituac¸õesque envolvam conflitoentre opiniões.Além disso, Osborne (2007) enfa-tizaqueosalunos queseengajamemresponderoporquê deumarespostaincorreta serincorreta têma aprendiza-gemdosconceitosfavorecidafrenteàquelesqueapenassão apresentadosàrespostatidacomocorreta.
VenvilleeDawson(2010)apontamque,quandoimersos emumprocessoargumentativo,osalunosapresentamuma
compreensãoconceitualmaiorsobredeterminadoassunto doquequandonãovivenciamessaprática.vonAufschnaiter, Erduran,Osborne,eSimon(2008)chegaramauma conclu-sãosemelhante.Segundoessesautores,osaprendizesquese engajamemsituac¸õesargumentativassãomaispropensosa seenvolveremcomoassuntoe,assim,épossívelesperarque elesavancemnacompreensãodomesmo.Portanto,parece possível inferir que a argumentac¸ão favorece a mudanc¸a conceitual,poisfomentaocaráterdialógicodasatividades efavoreceoengajamentodosalunosnasdiscussões.
Na literatura há poucos estudos que utilizam a base filosóficadeLakatosparaanálisedaconstruc¸ão do conhe-cimentopelosalunos(ChangeChiu,2008;Laburú,Arruda, eNardi,1998;Niaz,1998).Deentreessestrabalhos, ape-nas um se relaciona com argumentac¸ão (Chang e Chiu, 2008).Nesseestudo,osautoresutilizamafilosofia Lakato-sianacomoreferencialteóricoparaavaliaraargumentac¸ão informal, em contexto sociocientífico, de 70 graduandos. Deentreosgraduandos, 40 eramalunos decursos relaci-onados com ciência (GC). Os pesquisadores notaram que aargumentac¸ãoinformal dosGC foi melhordo quea dos outrosgraduandos (OG),e queosGC utilizaram analogias paraexplicarsuasideias,enquantoosOGutilizaramum dis-cursodeautoridade.ConsiderandoateoriadeLakatos,os autores propuseram que o elemento núcleo é constituído por argumentos que são protegidos por um cinturão pro-tetor. Eles também observaram que todos os graduandos tiveramdificuldadesdemodificarseuspontosdevistaapós a participac¸ão nas atividades realizadas em grupo, o que poderiaestar relacionado como cinturão protetor que os estudantesconstruíram.Apartirdosresultados,eles defen-demafilosofiaLakatosianacomoreferencial promissorde análisedeargumentac¸ãoinformal.
Considerando que Lakatos discute a dinâmica da produc¸ão do conhecimento científico, julgamos coerente utilizarestereferencialparaanalisaraconstruc¸ãode conhe-cimentopelos alunos em umcontextoem que eles foram envolvidosempráticasepistêmicasdaciência.
Objetivo
Este artigo tem como objetivo analisar o papel que a argumentac¸ão desempenha no processo de mudanc¸a con-ceitualdealunosdoensinomédiosobreotemainterac¸ões intermoleculares, a partir do uso do referencial teórico deLakatos como ferramenta deanálise daconstruc¸ão do conhecimentopelosestudantes.Emespecial,sãodiscutidas asseguintesquestões:
• Quais relac¸ões podem ser estabelecidas entre os prin-cipais elementos daargumentac¸ão e/ouaspectos a ela relacionadoseoselementosdafilosofiaLakatosiana? • Nocontextoanalisado,esegundoafilosofiaLakatosiana,
comoaargumentac¸ãofavoreceamudanc¸aconceitual?
Aspectos
metodológicos
Coletadedados
Os dados utilizados neste artigo foram coletados em um estudo mais amplo que buscava investigar as relac¸ões
entre argumentac¸ão e ensino fundamentado em modela-gem(Mendonc¸aeJusti,2013).Elesforamcoletadosemuma turmade2.◦anodoensinomédionoturno,compostapor38 alunos,emumaescolarpública,localizadaemumacidade dosudestedoBrasil.Porserdoturnonoturno,aturmaera heterogênea em relac¸ão à idade, uma vez que era com-postaporalunosde16-40anos.Além disso,osalunosnão estavamacostumadoscomaulasquefavorecessema discus-sãoemgruposeaindanãotinhamparticipadodeaulasque envolvessematividadesinvestigativas.Aopc¸ãopelaturma sedeveuàdisponibilidadedaprofessoraeaoconsentimento daescola,daprofessoraedosalunosparaarealizac¸ãoda pesquisa.
Todasasaulasnasquaisotemainterac¸ões intermolecula-resfoiensinadoforamregistradasemvídeo.Apesquisadora tambémfeznotasdecampoecópiadetodasasatividades escritasproduzidaspelosalunos.Em func¸ãodonúmerode câmerasdisponíveis,foramacompanhados3gruposde estu-dantes,selecionadosapartirdainformac¸ãodaprofessorade queeramrepresentativosdaturma.
Parao objetivodesse estudo, selecionamosapenasum grupo,oqueapresentoumaiorriquezadedadose,portanto, propiciouumaanálisemaisdetalhada.Nesseartigo,usamos nomesfictíciosparaidentificarosalunoseissofoiinformado aelesnoTermodeConsentimentoLivreeEsclarecidoque foiassinadoportodos,concordandocomaparticipac¸ãona pesquisa.
Caracterizac¸ãodasatividadesdeinterac¸ões intermoleculares
Osdadoscoletadosparaesseartigoestãorelacionadoscom asatividades 1,2 e3 daunidadedidáticaplanejadapara ensinarinterac¸õesintermolecularesapartirdemodelagem (Mendonc¸aeJusti,2013).Quandoparticiparamdessas ativi-dades,osalunosjáhaviamvivenciadoatividadessimilares, porémrelacionadasaotemaligac¸õesiônicas.
Naatividade 1,inicialmente,osalunos previramo que aconteceriaquandoiodoegrafitefossemaquecidos.Depois, eles realizaram o procedimento experimental e compara-ram os comportamentos dessas substâncias. Isto foi feito visandoevidenciaraexistênciadesubstânciasformadaspelo mesmo tipode ligac¸ão interatômica(covalente), masque apresentampropriedadesbastantediferentes.
Na atividade 2, a partir das evidências observadas na atividade anterior, os alunos foram solicitados a elabo-rarmodelosque explicassem,nonível submicroscópico,a constituic¸ão dossistemas antes, durantee após o aqueci-mentodassubstânciasgrafiteeiodo.
Finalmente,na atividade 3, os alunos tiveram a opor-tunidadedetestarseusmodelosfrenteanovasevidências empíricas (observadas a partir da reac¸ão entre iodo e amido).O experimento propostotinhacomo objetivo evi-denciar que o aquecimento doiodopromove a separac¸ão dasmoléculas deI2(istoé, queinterac¸ões intermolecula-res sãorompidas),e nãoa separac¸ão dos átomos deiodo (I-I). Os alunos deveriam justificar, a partir das evidên-cias,seecomoseumodeloeracapazdeexplicarosnovos dadosempíricos.Casocontrário,elesdeveriamreformular taismodelos. Assim,essasatividades objetivavam favore-cer o entendimento de que existem interac¸ões distintas,
e deque a intensidade dasmesmas é bastante diferenci-ada. Além disso, elas propiciaram a ocorrência de várias situac¸õesargumentativas.Paramaisdetalhes sobrea uni-dadedidática,consultarMozzer,QueirozeJusti(2007).
Referencialdeanálise
Pararealizaraanálisedosdados,inicialmente,foram iden-tificados os argumentos presentes nas falas dos alunos e da professora, assim como seus constituintes bási-cos(afirmativa,justificativa eevidência).Posteriormente, considerando a definic¸ão dos principais elementos da «MetodologiadosProgramasdePesquisa»(núcleo,cinturão protetor, heurística positiva e heurística negativa) busca-mos identificá-los nessas falas e, sempre que possível, relacioná-los aos elementos argumentativos previamente identificados. Visando favorecera compreensão do leitor, apresentamosumexemplo(selecionadodenossosdados)de comoessesrelacionamentosforamestabelecidos.
Paraaanálisededados,foipropostaumarepresentac¸ão simplificadadasideiasdeLakatos(fig.1),poisocontextode coletadedadosenvolveuumasaladeaulanaqualosalunos vivenciaramumapráticacientíficaanáloga à produc¸ão de conhecimentocientífico.
Natabela1,relacionamososelementosdafilosofia Laka-tosianacomoselementosdaargumentac¸ãoeapresentamos
Núcleo
Cinturão protetor
Figura1 Representac¸ãoadaptada daideiadoprogramade pesquisadeLakatos.
algunsexemplos.Nela,ostrechosemitálicoindicamfalas dosalunosoudaprofessora.
Todasasfalasdosalunos foramanalisadasbuscandoos elementos descritos e exemplificados na tabela 1. A par-tirdaanálisecomparativadafunc¸ãodesseselementos em cadamomento,osrelacionamentosentreeles(brevemente comentadosaquiedetalhadosposteriormente)foram esta-belecidos.
Análisededados
Parasistematizarosdadosanalisadoselaboramosatabela2, constituída por: contexto, contendo uma breve discric¸ão dosmomentosdasatividadesselecionadosparaanálise; ele-mentos da argumentac¸ão, isto é, o argumento e seus 3
Tabela1 Asrelac¸õesentreoselementosdafilosofiaLakatosianaeoselementosdaargumentac¸ãoeexemplodestas ElementosdafilosofiaLakatosiana Elementose/ouaspectos
relacionadoàargumentac¸ão
Exemplos Núcleo(todaapartecinza)é
constituídoporumaideiacentral
Afirmativa Duranteafusão,asligac¸õesinteratômicasdo
iodosãorompidaseasdografitenãosão
Cinturãoprotetor(áreadelimitada pelalinhapreta)éconstituídopor hipótesesauxiliares(elaboradas pelosalunos)queoferecem suporteaonúcleo
Emnossosdados,essas hipótesessãode3tipos 1.Evidênciasapartirdeum fenômeno
2.Interpretac¸õesdeevidências 3.Argumento
1.Iodoapresentatemperaturadefusãobaixa egrafiteapresentatemperaturadefusãoalta
2.Aligac¸ãodoiodoéfraca.Aligac¸ãodo grafiteémuitoforte
3.Duranteafusão,aligac¸ãointeratômicado iodoérompidaeadografitenãoé,pois aquelaémaisfracaporcompartilharapenas umelétron.Aligac¸ãodocarbonoémaisforte porcompartilhar4elétrons
Aheurísticapositivaéaac¸ãoqueos alunosrealizamparaevitarqueseu núcleosejarefutado.Essaac¸ão podeseraadic¸ãodehipóteses auxiliaresparamodificarocinturão protetordemodoqueelefique coerentecomonúcleo.Porisso,na figura1ocinturãoprotetornãoé umcírculouniforme.
Emnossosdados,ashipóteses auxiliaressãode3tipos: evidênciasapartirdeum fenômeno,interpretac¸õesde evidências,eargumento
Aprofessorarefutouahipóteseauxiliar: duranteoprocessoderompimentodaligac¸ão, cadaátomodeiodoadquirecargasopostas, istoé,positivaenegativa.Noentanto,os alunoselaboraramoutrahipótese:quandose rompealigac¸ãoI-I,cadaátomodeiodoficará com7elétrons,quetambémdásuporteao núcleo
Aheurísticanegativaéassociadaà resistênciadosalunosemrefutar seunúcleo,istoé,modificarsua concepc¸ão
Resistênciadosalunosem refutarsuaafirmativa
Mesmoapósaprofessoraterrefutadogrande partedashipótesesauxiliaresqueosalunos haviamelaboradoatéomomento7(tabela2), elesnãoconseguirammodificartotalmenteo núcleoduranteafusão,asligac¸ões
interatômicasdoiodosãorompidaseasdo grafitenãosão
Tabela2 Análisesdasfalasdosalunos
Momento Análise
1
Atividade1
Contexto
Incialmente,aprofessoraexplicitouosobjetivosdaatividade
Apósalgumasdiscussões,osalunosconseguiramexplicitarsuasprevisões(Argumento1).Eles
afirmaramquechegaramaessaprevisãoanalisandoastemperaturasdefusão(TF)doiodoedografite
Elementosdaargumentac¸ão
Argumento1:oiodovaifundireografitenãovaifundirporqueoprimeirotemTFmenoselevadado queadachama,enquantoosegundotemTFmaiselevadadoqueadachama
Afirmativa:oiodovaifundireografitenãovaifundir
Justificativa:porqueoiodotemTFmenordoqueadachama,enquantoografitetemTFmaiordoque adachama
Evidências:TFdoiodoedografiteetemperaturadachama(fornecidasanteriormente)
ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:oiodovaifundireografitenãovaifundir(N1A)
Cinturãoprotetor:atemperaturadachamaéinsuficienteparafundirografite(C1aA);atemperaturada
chamaésuficienteparafundiroiodo(C1bA)
2
Atividade1
Contexto
Apartirdoargumentoformuladopelogrupo,aprofessorasolicitouqueosalunosrelacionassemos dadoscomasligac¸õesquímicasdassubstâncias.Duranteoprocessodediscussãoentreaprofessoraeo grupo,Iaradissequeogrupomodificouajustificativaapartirdoqueelessabiam(modelode
partículas).Anteriormente,elesnãohaviamlevadoemconsiderac¸ãocomoseriaaconstituic¸ão específicadossólidosporquenãotinhamclarezasobreisso.Depois,IgorapresentouoArgumento2
Elementosdaargumentac¸ão
Argumento2:noiodohárompimentodeligac¸õesporquesuaTFébaixa.Nografiteháapenasvibrac¸ão daspartículasporquesuaTFéelevada
Afirmativa:noiodohárompimentodeligac¸õesenografiteháapenasvibrac¸ãodaspartículas Justificativa(sublinhada):noiodohárompimentodeligac¸õesporquesuaTFébaixa.Nografitehá apenasvibrac¸ãodaspartículasporquesuaTFéelevada
Evidência:iodoapresentaTFbaixa;grafiteapresentaTFalta
ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:duranteafusão,asligac¸õesinteratômicasdoiodosãorompidaseasdografitenãosão(N2A)
Cinturãoprotetor:iodoapresentaTFbaixa(C2aE);grafiteapresentaTFalta(C2bE)
3
Atividade2
Contexto
Noiníciodaaula,aprofessoraexplicitouosobjetivosdaatividadeeressaltouqueeraessencialqueos modelosdosalunosexplicassemporqueaTFdoiodoétãomenordoqueaTFdografite.Apartirdisso, ogrupoexpressouomodelo1(N2A)eIgorojustificouapresentandoasideiasC3aeC3b
Elementosdaargumentac¸ão
Argumento3:aTFdoiodoémenordoquedografite,poisnoiodoaligac¸ãoémaisfracaenografiteé muitoforte
Afirmativa:aTFdoiodoémenordoqueadografite
Justificativa:porquenoiodoaligac¸ãoémaisfracaenografiteémuitoforte Evidência:valordiferentedeTFdoiodoedografite
ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:N2A
Cinturãoprotetor:C2aE,C2bE
Aligac¸ãodoiodoéfraca.(C3aA);aligac¸ãodografiteémuitoforte(C3bA)
4
Atividade2
Contexto
Aprofessoraquestionouosalunossobrecomoseriapossívelqueomesmotipodeligac¸ãotivesse intensidadesdiferentesnas2substâncias
Igortevedúvidasacercadomodelo1(N2A)propostoporseugrupo.Nadiscussão,oalunoconfundiua
ligac¸ãoiônicacomaligac¸ãocovalente,apresentandoasideiasC4eC5.Aprofessoraconseguiurefutara
ideiaC4mencionandoquecomoosátomosdeiodosãoiguais,éimpossívelidentificaracarga.Igornão
conseguiupensaremumajustificativacasoaligac¸ãofosserompida
Elementosdaargumentac¸ão
Argumento4:aligac¸ãoquebradanoiodonãopodeseriônicaporqueelaenvolveátomosidênticos Afirmativa:aligac¸ãoquebradanoiodonãopodeseriônica
Justificativa:porquealigac¸ãoenvolveátomosidênticos
Tabela2 (Continuac¸ão)
Momento Análise
ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:N2A
Cinturãoprotetor:C2aE,C2bE,C3aA,C3bA
Heurísticapositiva:duranteoprocessoderompimentodaligac¸ão,cadaátomodeiodoadquirecargas opostas:positivaenegativa(C4A){hipóteseauxiliarrefutadapelaprofessoraduranteadiscussãocom
Igor.}
-Osátomosqueconstituemasubstânciaiodosãoidênticos(C5E)
Heurísticanegativa:Aprofessoraafirmaqueasligac¸õesquímicasencontradasnoiodoenografitesão demesmanatureza.Porém,osalunosnãoconsideramaafirmativa
5
Atividade2
Contexto
Ogrupodecidiupensarmelhorsobrecomodeveriaseraquebradaligac¸ãoI---I.Paraauxiliá-losnesse processo,aprofessoraressaltouqueomodelodogrupodeveriaexplicaraideiadecompartilhamento deelétrons.IgormencionouqueomodelodeseugrupoeracapazdeexplicarissoapartirdeC6eC7
Elementosdaargumentac¸ão
Argumento5:aligac¸ãoquebradanoiodoécovalenteporquecadaátomoficacom7elétrons Afirmativa:aligac¸ãoquebradanoiodoécovalente
Justificativa:porquecadaátomoficacom7elétrons Evidência:cadaátomodeiodopossui7elétrons
ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:N2A
Cinturãoprotetor:C2aE,C2bE,C3aA,C3bA,C5E
Heurísticapositiva:oátomodeiodoisoladotemtendênciadeficarcom7elétronsdevalência(C6A);
quandoserompealigac¸ãoI---I,cadaátomodeiodoficacom7elétrons(C7E)
6
Atividade2
Contexto
Duranteadiscussãoentreaprofessoraeogrupo,Igormencionouque,comoaquecimento,ocorrea quebradaligac¸ãoI-I,umavezquecomresfriamentooiodoretornaaoestadosólido.Aprofessora questionoucomoessaideiapoderiaexplicarafusão.OsalunosapresentaramaideiaC8AR
Elementosdaargumentac¸ão
Argumento6:duranteafusão,aligac¸ãointeratômicadoiodoérompidaeadografitenãoé,pois aquelaémaisfracaporcompartilharapenasumelétron.Aligac¸ãodocarbonoémaisfortepor compartilhar4elétrons
Afirmativa:aligac¸ãointeratômicadoiodoérompidaduranteafusãoeadografitenãoé
Justificativa:aligac¸ãodoiodoéfracaporqueapenas1elétronécompartilhado.Adocarbonoémais forteporquesãocompartilhados4elétrons
Evidência:valoresdiferentesdeTF
ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:N2A
Cinturãoprotetor:heurísticapositiva:duranteafusão,aligac¸ãointeratômicadoiodoérompidaeado grafitenãoé,poisaquelaémaisfracaporcompartilharapenasumelétron.Aligac¸ãodocarbonoémais forteporcompartilhar4elétrons(C8AR)
7
Atividade2
Contexto
Adiscussãosobreomodelo1(N2A)propostopelogrupocontinuou.Igorafirmouqueduranteo
aquecimentoaspartículasdeiodoseseparamecadaátomopassaater7elétrons.Aprofessora refutou,informandoqueátomosdeiodoseparadosnãosãoestáveisequeessepensamentoera incoerenteporqueelestinhampercebido,experimentalmente,queoiodoretornavaaoestadosólido quandoosistemaresfriava.ElatambémrefutouaideiaN2A,questionandoosalunossenoprocessode
mudanc¸adeestadofísicodasubstânciaelaémodificada.Elesresponderamquenão.Emseguida,ela refutouasideiasC6AeC7Edizendoqueaestabilidadedoátomoocorrequandoesteadquire8elétrons
equeamenorunidadeformadoradasubstânciaiodoéamolécula.Comadiscussão,IgorconcluiuC9a,
C9b,C9c,C9deproduziuomodelo2(N3A)
Elementosdaargumentac¸ão ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:duranteafusãodoiodo,asligac¸õesinteratômicassãorompidaseasmoléculassãoafastadas; duranteafusãodografite,asligac¸õesnãosãorompidas(N3A)
Tabela2 (Continuac¸ão)
Momento Análise
Cinturãoprotetor:heurísticapositivarelacionadaaonúcleoN3A:asubstânciaiodoéconstituídapor
váriasmoléculas(C9aA);asligac¸õesdasmoléculasdoiodonãosãotãofortesquantoasdografite
(C9bA);duranteafusão,asmoléculasdeiodojánãoestãotãopróximascomoantes(C9cA);aforc¸ade
atrac¸ãoentreasmoléculasdoiodojánãoserátãoforte(C9dA)
HeurísticanegativarelacionadaaonúcleoN2A:C8AR
8
Atividade2
Contexto
Apartirdadiscussãocomaprofessora,IgorconseguiumodificaraideiaN3A.Elereconheceuque
confundiuátomocommolécula,pegouosmodelosquerepresentavamasmoléculasemostrouuma separac¸ãocadavezmaiorentreelasquandosepassavadosólidoparalíquidoeparagás(modelo3 [N4A]).
Elementosdaargumentac¸ão ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:duranteafusãodoiodo,asmoléculasdeiodosãoafastadaseasdografitenãosão(N4A)
Cinturãoprotetor:C9aA,C9bA,C9cAeC9dA
9
Atividade2
Contexto
Ogrupoapresentoudúvidasquantoàjustificativaparaoafastamentodasmoléculasdoiodoealgumas hipóteses,aindanãorefutadas,relacionadasaonúcleoN2A
Duranteadiscussãocomogrupo,aprofessorarefutouC3aeC8dizendoquealigac¸ãoentreosátomosé
forteequeoqueseria«frágil»éoqueligaasmoléculas.Apartirdisso,Igorproduziuoargumento7
Elementosdaargumentac¸ão
Argumento7:duranteafusão,asmoléculasdoiodosãoafastadaseasdografitenãosãoporquea fusãodesserequermaisenergia(porquegrafitenãoémolecular)eafusãodaquelerequermenos energia(porqueiodoémolecular)
Afirmativa:duranteafusão,moléculasdoiodosãoafastadaseasdografitenãosão
Justificativa(sublinhada):asmoléculasdoiodosãoafastadasporqueeleémolecular.Nografite,não háafastamentodemoléculasporqueelenãoémolecular
Evidência:diferentesintensidadesdeenergiarequeridasnafusãodassubstâncias
ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:N4A
Cinturãoprotetor:heurísticanegativarelacionadaaonúcleoN2A:C3aeC8
HeurísticapositivarelacionadaaonúcleoN4A:duranteafusão,asmoléculasdoiodosãoafastadaseas
dografitenãosãoporqueafusãodesserequermaisenergia(porquegrafitenãoémolecular)eafusão daquelerequermenosenergia(porqueiodoémolecular)(C10AR)
10
Atividade3
Contexto
Aprofessorainiciouaatividademencionandoqueosmodeloscriadospelosalunosesuasideiasseriam testadosapartirdeumexperimento.Apósoexperimento,osalunosproduziramoargumento8
Elementosdaargumentac¸ão
Argumento8:modelo3(N4A)explicaasobservac¸õesexperimentaisporquesãomoléculasdeI2quese
separam,nãoosátomos,poissenãoogásnãoreagiriacomoamido
Afirmativa:modelo3(moléculasdeI2sãoseparadas,nãoosátomos)explicaasobservac¸ões
experimentais
Justificativa(sublinhada):oqueseseparasãomoléculasdeI2,nãoosátomos,
poissenãoogásnãoreagiriacomoamido
Evidência:observac¸ãodecorazulindicandoaocorrênciadereac¸ãoentreogásiodoeamido
ElementosdateoriaLakatosiana
Núcleo:N4A
Cinturãoprotetor:C10AR
Heurísticapositiva:ocorrereac¸ãoentregásiodoeamido,indicandoqueeleéconstituídodemoléculas deI2.Então,essasmoléculasnãoforamquebradasnoprocesso;elassósesepararam(C11A)
elementosbásicos(afirmativa,evidênciase justificativas);
eelementosdateoriaLakatosiana(núcleoecinturão
prote-tor).
Natabela2,hátambémcódigosparaidentificaras afir-mativas(A),evidências(E)eargumentos(AR)encontrados noselementosdateoriaLakatosiana.Paraestes,utilizamos
oscódigos(N)paraonúcleoe(C)paraocinturãoprotetor. Paradiferenciarosnúcleoseoscinturõesprotetores, utili-zamosnúmerosnoíndicedecadasímbolo.Quandoexistiam váriasrelac¸õesnocinturãoprotetor,asdistinguimosapartir deletrasnoíndice(porexemplo,C2aAeC2bA).Nestecaso, as2ideiaspertencemaomesmocinturão,osegundo(índice
2),sãoafirmativas(A),porémsãoideiasdiferentes(índices aeb).
Em algumas linhas da tabela 2 não existem elemen-tos daargumentac¸ão. Istoacontece quando as ideiasdos alunosforamexpressasapartirdeoutrasfalase/ou mode-los concretos (ambos descritos na correspondente coluna «contexto»).
Discussão
dos
resultados
Nomomento1,a professoraexplicitouque,na atividade, os alunos deveriam: prever o comportamento do iodo e do grafitequando sãosubmetidos ao aquecimento; reali-zaroexperimento;elaborarexplicac¸õesparaoocorridoe compará-lascomasprevisões.Emseguida,elabuscou explo-rarefavoreceracompreensãodasideiasdosalunosacerca doexperimento.Eraesperadoque taisideiasfossemmais simples.Apartirdadiscussão,osalunosconseguiram pro-duzirumaafirmativa,istoé,umnúcleo(N1A):«Oiodovai fundir eo grafitenãovai fundir»,que erasustentado por 2afirmativas(C1aAeC1bA)relacionadascomatemperatura dachama.
Nomomento2,ointuitodaprofessoraaindaeraexplorar asideiasdosalunos,buscandofazercomqueelasse tornas-semmaisespecíficas.Paraisso,elasolicitouaosalunosque relacionassemosdadosempíricoscomasligac¸õesquímicas dassubstâncias.Apartirdasdiscussõescomaprofessora,os alunosidentificaram2evidências,istoé,hipóteses auxilia-res(iodoapresentatemperaturadefusão[TF]baixa[C2aE] egrafiteapresentaTFalta[C2bE])quefavoreceramo desen-volvimentodeumnúcleo(N2A)maissofisticado:«Durantea fusão,asligac¸õesinteratômicasdoiodosãorompidaseas dografitenãosão».
No momento 3, a professora, novamente, questionou as ideias dos alunos, porém solicitando que, a partir da elaborac¸ão de modelos, eles explicassem o porquê da atrac¸ão no grafite ser maior do que a atrac¸ão no iodo. Duranteadiscussão,elaressaltouqueomodelodeles deve-riaexplicar porqueaTFdoiodoé tãomenor doqueado grafite.Apartirdessadiscussão,osalunosconseguiram ela-borar2afirmativas,istoé,ashipótesesauxiliares:«Aligac¸ão doiodoéfraca»(C3aA)e«Aligac¸ãodografiteémuitoforte» (C3bA). Essashipóteses foramcapazes de atender o obje-tivo do momento 3 e eram coerentes com o núcleo N2A, desenvolvidonomomento2.Portanto,podemosinferirque ocinturão protetorofereciamaissuporteao núcleonesse momentodoquenoanterior,poisalémdasevidências iden-tificadasnomomento2,houveaelaborac¸ãodashipóteses auxiliares.
Nomomento 4,aprofessoratevecomo objetivo modi-ficaro núcleo(N2A). Para isso,ela direcionoua discussão paraque osalunos percebessem que asligac¸ões químicas encontradasnoiodoe nografitesãodemesma natureza, istoé,covalentes.Comoessanovainformac¸ãofoi insufici-enteparaosalunosmodificaremaafirmativaN2A,épossível inferir que houve uma resistência por parte destes em o alterarem (heurística negativa). Em seguida, a professora osquestionousobrecomoseriapossível2substâncias com o mesmo tipo de ligac¸ão terem seus átomos unidos com intensidadesdiferentes.Osalunosconseguiram elaborara hipóteseauxiliarC4A(«Duranteoprocessoderompimento
daligac¸ãocadaátomodeiodoadquirecargasopostas: posi-tivaenegativa»), queeracoerentecom onúcleo (N2A)e como questionamento daprofessora. Porém,esta conse-guiurefutá-la mencionando que,como osátomos deiodo sãoiguais,éimpossívelidentificaracargadecadaátomo. ApartirdaíosalunosidentificaramahipóteseauxiliarC5E (aevidência:«Osátomosqueconstituemasubstânciaiodo sãoidênticos»)queforneciasuporteaonúcleoN2A.Assim, o núcleo ficou mais protegido neste momento do que no anterior,poisocinturãoprotetorpassouaapresentarmais hipótesesauxiliares,naformadeevidênciaseafirmativas.
Nomomento5,aprofessoraestabeleceuumdiálogo res-saltando que o modelo deles deveria explicar a ideia de compartilhamentodeelétrons.Seuintuitoeraqueos alu-nosmodificassemomodelo1(anteseapósoaquecimento, osátomos deiodoestão bempróximos;duranteo aqueci-mento,elesseafastam, poisaligac¸ãoé fraca;osátomos degrafitepermanecemjuntosemtodososmomentos,pois aligac¸ão é forte),istoé, o núcleoN2A.Porém, osalunos conseguiramelaborar2hipótesesauxiliares(umaevidência C7E:«Quandoserompealigac¸ãoI-I,cadaátomodeiodofica com7elétrons»;eumaafirmativaC6A:«Oátomodeiodo isoladotemtendênciadeficarcom7elétronsdevalência»). Essashipótesesforamcoerentescomasolicitac¸ãoda profes-soradequeomodelodosalunosexplicasseasdiferenc¸asdos sistemas.Analisandoadiscussão,percebemosque,frenteà novainformac¸ãotrazidapelaprofessora,osalunos modifi-caramocinturãoprotetor(heurísticapositiva)demodoque eleficassecoerente,tantocomainformac¸ãoquantocoma afirmativaN2A,istoé,onúcleo.Alémdisso,observamosque houveumaevoluc¸ãodasideiasdosalunosentreos momen-tos1-5. Enquantono momento1,o cinturão protetor era compostoporapenas2afirmativas(C1aAeC1bA)para sub-sidiarumnúcleomenoselaborado(N1A),nomomento5ele eraconstituídopor4evidências(C2aE,C2BE,C5EeC7E)e3 afirmativas(C3aA,C3bAeC6A)e,assim,ofereciamaissuporte aonúcleoN2A(afirmativaquefoisofisticadanomomento2). Nomomento6,aprofessorapediuqueosalunos justifi-cassemonúcleoN2A.Paraisso,elesproduziramoargumento C8AR(«Durante afusão, a ligac¸ão interatômica doiodo é rompidaeadografitenãoé,poisaquelaémaisfracapor compartilharapenasumelétron.Aligac¸ãodocarbonoémais forteporcompartilhar4elétrons»).Essefoiomomentono qualo núcleo N2A estavamaisprotegido (heurística posi-tiva),pois oargumentoeramaiscomplexoe completodo queasafirmativaseevidênciasisoladas,umavezque envol-via a inter-relac¸ão dessas. Portanto, podemos considerar quehouveumaevoluc¸ãodasideiasdosalunos,poiso cintu-rãomodificadonessemomentoeramaissofisticadodoque odosmomentosanteriores.
No momento 7, uma parte do argumento (C8AR) foi refutada pela professora. Consequentemente, o cinturão protetorsetornoumaisfrágileofereceumenossuporteao núcleoN2A. Para o argumento ser refutado, a professora trouxe várias informac¸ões (evidências) que contrapunham algumasdasafirmativas(N2AeC6A)eevidências(C5E,C7E) que os alunos utilizaram para formular o argumento no momento6.Alémdisso,apartirdessasinformac¸ões,os alu-nos elaboraram afirmativas(C9aA, C9bA, C9cA e C9dA) que foram condizentes com elas, e expressaram o modelo 2 («anteseapósoaquecimento,asmoléculasdeiodoestão próximas,duranteoaquecimentoasligac¸õesinteratômicas
sãorompidas e asmoléculas sãoafastadas; osátomos de grafitepermanecemjuntosemtodososmomentos»),istoé, onúcleoN3A(«Duranteafusãodoiodoasligac¸ões interatô-micassãorompidaseasmoléculassãoafastadas;durantea fusãodografiteasligac¸õesnãosãorompidas»).Ocinturão protetordessenovonúcleoapresentouumapartedo argu-mentoreferente ao núcleo anterior(«Duranteafusão, as ligac¸õesinteratômicasdoiodosãorompidaseasdografite nãosão»),oqueindicaresistênciaporpartedosalunosem refutá-lo(heurísticanegativa)eoutraparteconstituídade novasafirmativasbaseadas naideiaque «as moléculasde iodosãoafastadas»que contribuíramparadarsuporte ao novonúcleo(heurísticapositiva).
Nomomento8,aoutrapartedoargumento(C8AR)que constituíaocinturãoprotetor domomento7foirefutada, apartirdadiscussãoentreaprofessoraeoalunoIgor.Para isso,ela construiuváriosmodelos demoléculasde I2 com bolinhasdeisoporepalitos, equestionouoalunose,com oaquecimento,asligac¸õesseriamrompidasouas molécu-las se afastariam. Igor pegou os modelos e mostrou uma separac¸ãocadavezmaiorentreelasquandosepassavado sólidoparalíquidoe paragás(modelo 3).Portanto,nesse momentohouveumamodificac¸ãodaafirmativa,istoé, do núcleoN3AparaN4A(«Duranteafusãodoiodo,asmoléculas deiodosãoafastadaseasdografitenãosão»),demodoque esseficassecoerentecomasafirmativasC9aA,C9bA,C9cAe C9dA(elaboradasnomomento7)queconstituíamocinturão protetor.
Nomomento9,ogrupotevedúvidasquantoà justifica-tivaparao afastamento dasmoléculas doiodo ealgumas hipóteses,aindanãorefutadas,relacionadasaonúcleoN2A. Istoindicaqueosalunosapresentaramresistênciaem refu-tar esse núcleo (heurística negativa). Com base nisso, a professoraconduziu umadiscussão na qual questionouse aformac¸ãodografiteeramolecular(àqualosalunos res-ponderamque não). Depois,ela perguntou sea formac¸ão nãomoleculardografiteinfluenciavasuaTFserelevada.O grupoconcordou,eIgorquestionousealigac¸ãodas molécu-laserafraca.Apartirdessequestionamento,aprofessora apresentouumanovainformac¸ão(«Aligac¸ãoentreos áto-moséforte,oqueseria‘frágil’éoqueligaasmoléculas») que conseguiu refutar as ideias C3a e C8. Em seguida, os alunos inter-relacionaram as afirmativas C9aA, C9bA, C9cA e C9dA e propuseram o argumento C10AR, que foi capaz dedar mais suporte ao núcleo do que asafirmativas iso-ladas.
No último momento, a professora recapitulou alguns aspectosdaatividadeanterior.Emseguida,elamencionou que osmodelos criados pelos alunos e suas ideias seriam testados, e deixou claro o que deveria ser realizado na atividade experimental. Portanto, eles deveriam testar o argumentoC10AR(«Durantea fusão,asmoléculasdoiodo sãoafastadaseasdografitenãosãoporqueafusãodesse requer mais energia [porque grafite não é molecular] e a fusão daquele requer menos energia [porque o iodo é molecular]»)que constituía o cinturão protetor.Antes de realizarem o experimento, eles fizeram uma previsão do resultado do mesmo: «O iodo, no seu estado gasoso, ao entrarem contato como amido, adquiriráumacor preta devidoàreac¸ão».Depois,elesobservaramqueomaterial aoqual o amidoestava aderidotinhaficado pretodevido à reac¸ão entre amido e iodo. A partir da interpretac¸ão
da evidência resultante do teste, os alunos elaboram a afirmativaC11A,quefoicoerentecomonúcleoN4A.
Outro aspecto, que pode ser interpretado a partir da
tabela2,éaresistência(heurísticanegativa)porpartedos alunosàmudanc¸aconceitual,oqueestádeacordocoma literatura (Driver, 1989; Driver e Erickson, 1983). Os alu-nos permaneceram com seu núcleo inicial, isto é, com a mesma concec¸ão, até o momento 7. Assim,grande parte dasdiscussõesenvolveuamodificac¸ãodocinturãoprotetor (heurísticapositiva)demodoqueeleficassecoerentecomo núcleoN4A(correspondenteaoconhecimentoquese espe-ravaqueosalunosconstruíssemnaatividade),desenvolvido pelosalunosnomomento8.
A partir da tabela 2, podemos também inferir que houveumaevoluc¸ãodoraciocíniodos alunos, poisno iní-ciodoprocessoelesapenasapontavamevidênciasisoladas. Posteriormente, além de identificarmais evidências, eles comec¸aramaelaborarafirmativas,istoé,ainterpretaressas evidências.Nosmomentos6e9,houvemaiorarticulac¸ãodas ideiasdosalunos,umavezqueestesproduziramargumentos apartirdainter-relac¸ãoentreasafirmativaseasevidências paraa defesadaideiacentral (núcleo),consideradamais forte.Essaevoluc¸ãodoraciocíniodosalunosocorreunãosó apartirdaelaborac¸ãodeafirmativasedaproduc¸ãode argu-mentosparaoferecersuporteaonovonúcleo,mastambém comoauxíliodaprofessora,queteveumpapelfundamental comomediadoradaconstruc¸ãodoconhecimentodosalunos. Alémdisso,aatuac¸ãodaprofessorafoiessencialparaque elesconseguissem modificarseu núcleodemodoqueeste fossecoerentecomoconhecimentocientífico.
Conclusões
e
implicac
¸ões
Aprimeiraquestãodepesquisaquenorteouesseestudofoi: que relac¸ões podemser estabelecidas entre os principais elementos da argumentac¸ão e/ou aspectos a ela relacio-nadose os elementos dafilosofia Lakatosiana?A tabela 2
evidencia que o elemento núcleoda filosofia Lakatosiana é semprea afirmativa quecompõe oargumento (momen-tos 1, 2, 7,8). Além disso, o elemento cinturãoprotetor é construído por hipóteses auxiliares, que podem ser 3 elementos da argumentac¸ão: evidências (momentos 2, 3, 4 e 5), afirmativas (momentos 1, 3, 4, 5, 7, 8 e 10) ou argumentos (momentos 6 e 9). Em relac¸ão ao elemento heurística positiva, este são hipóteses auxiliares que se relacionamtambémaos3elementosdaargumentac¸ão: evi-dências (momentos 4e 5), afirmativas(momentos 4,5, 7 e 10)ouargumentos(momento10).Noentanto,devemos ressaltar que essas hipótesesforam elaboradas pelos alu-noscomointuitodeevitarqueseunúcleofosserefutado. O elemento heurístico negativa corresponde ao aspecto da argumentac¸ão «resistência dos alunos em refutar sua afirmativa»(momentos4,7e9).Essasrelac¸õespodemser estabelecidaspois,duranteadiscussãodosresultados, iden-tificamosque,paradarsuporteàsuaideiacentral,osalunos utilizaramafirmativas,evidênciasouargumentos.Noscasos emqueesseselementosnãoconseguiamoferecersuporteà ideiainicial,elesamodificavamouapresentaram resistên-cia a isto. Essa dinâmica da construc¸ão do conhecimento se relaciona com o que Lakatos propôs, uma vez que no programadepesquisa,caso ocinturãoprotetor(hipóteses
Núcleo
Afirmativa
Justificativa
Evidência
Cinturão protetor Argumento
Figura2 Representac¸ãográficadasrelac¸õesentreafilosofiaLakatosianaeoselementosqueconstituemoargumento.
auxiliares)nãoconsigaoferecersuportediantedos fenôme-nos,onúcleoéatingido,oque resultaemo programaser consideradodegenerativo.
Asrelac¸õesestabelecidasnoparágrafoanteriorentreos elementosdafilosofiaLakatosianaeosdaargumentac¸ãosão representadosnafigura2.
Nossa segunda questão de pesquisa é: «No contexto analisado, e segundo a filosofia Lakatosiana, como a argumentac¸ão favorece a mudanc¸a conceitual?» A dis-cussão dos resultados suporta nossa conclusão de que a argumentac¸ãofavoreceuamudanc¸aconceitualdosalunos, oque estácoerentecom aliteratura(Driveretal.,2000; DuschleOsborne,2002;VenvilleeDawson,2010;Mendonc¸a e Justi, 2013).Isso ocorreu porque a professora explorou asideiasdosalunos,mediouasdiscussõeseosauxiliouna construc¸ãodoconhecimentonomomentododiscurso.Além disso, o referencial damodelagem a ajudou a pensar nos dadosquecontrariavamashipótesesauxiliaresdosalunos. Issofoiessencial paraqueelesmodificassemasideiasque identificamoscomoconstituindoosdiversosnúcleos defen-didosporeleseossustentassemapartirdaconstruc¸ãode argumentos.Portanto,oreferencial teóricodeLakatosfoi produtivocomo ferramenta deanálise de dados,pois nos auxiliouaevidenciarecompreendercomoaargumentac¸ão favoreceoprocessodemudanc¸aconceitualnosalunos.Isso porque foia partir destereferencial que identificamosos momentosemqueosalunosapresentaramconflitosde opi-niões com a professora, e como eles argumentavam para defender seus pontos de vistas, isto é, justificavam suas ideias.Alémdisso,oreferencialnospropicioucompreender comoapromoc¸ãoeconduc¸ãodesituac¸õesargumentativas pelaprofessorafavoreceramamudanc¸aconceitualnos alu-nos.
Considerando os aspectos discutidos anteriormente, podemosconcluirtambémqueoreferencialteóricode Laka-tosnãosófoiviável comoferramentaparafundamentara análisedaconstruc¸ãodoconhecimentodessesalunos,mas tambémfavoreceu entendero processo de mudanc¸a con-ceitual e a influência da argumentac¸ão no mesmo numa perspectiva mais ampla, isto é, não restrita somente à dimensãoconceitual.Istoabrenovaspossibilidadesde pes-quisa, uma vez que a análise realizada neste trabalho contemplouapenasumasituac¸ãodeensino. Caso identifi-quemososmesmosrelacionamentosapartirdaanálisede outrassituac¸õesdeensino,poderemosconsiderara relevân-ciadeapresentarediscutirestereferencialparaprofessores
deciênciasinteressadosementendermelhorcomoocorrea aprendizagemdosalunos.
Finalmente,ofatodeoreferencialteóricodeLakatoster favorecidooentendimentodoprocessodemudanc¸a concei-tualindicaqueelepodeauxiliaroprofessoracompreender melhoro processodeelaborac¸ão dopensamentodos seus alunosduranteasuapraxedesaladeaula.Emsituac¸õesde discussãodeideiascontroversasoudivergentesnaturma,a identificac¸ãodequaisdelasconstituemonúcleodefendido porcadaalunoeseucinturãoprotetorpodeser fundamen-talpara queo professorelaboreestratégiasque resultem narefutac¸ão daquelasinadequadas (emtermosdo conhe-cimento que se espera que os alunos aprendam), isto é, quefavorec¸amaocorrênciadeumprocessodinâmicoentre heurísticaspositivasenegativas.
Conflito
de
interesses
Osautoresdeclaramnãohaverconflitodeinteresses.
Agradecimentos
CNPqeCAPES.
Referências
Chang,S.,&Chiu,M.(2008).Lakatos’scientificresearch program-mesasaframeworkforanalysinginformalargumentationabout socio-scientificissues.InternationalJournalofScience Educa-tion,30(13),1753---1773.
Driver,R.(1989).Students’conceptionsandthelearningofscience.
IntJSciEduc.,11(5),481---490.
Driver,R.,&Erickson,G.(1983).Theories-in-action:Some theore-ticalandempiricalissuesinthestudyofstudents’conceptual frameworks in science. Studies in Science Education, 10(1),
37---60.
Driver,R.,Newton,P.,&Osborne,J.(2000).Establishingthenorms of scientific argumentationin classrooms.Science Education, 84(3),287---312.
Duschl,R.A.,&Osborne,J.(2002).Supportingandpromoting argu-mentation discourse inscience education. Studiesin Science Education,38,39---72.
Jiménez-Aleixandre,M.P.(2010).10ideasclave:competenciasen argumentaciónyusodepruebas.Barcelona:Graó.
Kuhn,D.(1991).TheSkillsofArgument.NewYork:Cambridge Uni-versity.
Kuhn,D.(1993).Scienceasargument:Implicationsforteachingand learningsciencethinking.ScienceEducation,77(3),319---337.
Kuhn,D.,Hemberger,L.,&Khait,V.(2014).ArguewithMe- Argu-mentasaPathtoDevelopingStudents’ThinkingandWriting.
Bronxville,N.Y:Wessex.
Kuhn,T.S.(1996).TheStructureofScientificRevolutions(3ed.). Chicago:UniversityofChicagoPress.
Laburú,C. E., Arruda, S. M., & Nardi, R. (1998). Os programas depesquisadeLakatos: umaleituraparao entendimentoda construc¸ãodoconhecimentoemsaladeaulaemsituac¸õesde contradic¸ãoecontrovérsia.Ciência&Educac¸ão,5(2),23---38.
Lakatos,I.(1970).Falsificationand theMethodologyofScientific ResearchProgramme.InI.Lakatos,&A.Musgrave(Eds.), Criti-cismandtheGrowthofKnowledge.CambridgeUniversityPress: Cambridge.
Mendonc¸a,P.C.C.,&Justi,R.(2013).Therelationshipsbetween modellingandargumentationfromtheperspectiveofthemodel ofmodellingdiagram.InternationalJournalofScience Educa-tion,35(14),2007---2034.
Mozzer,N.B.,Queiroz,A.S.,&Justi,R.(2007).PropostadeEnsino deIntroduc¸ãoaoTemaInterac¸õesIntermolecularesvia Modela-gem.Florianópolis,Brasil:TrabalhoapresentadonoVIEncontro NacionaldePesquisaemEducac¸ãoemCiências.
Niaz,M.(1998).ALakatosianconceptualchangeteachingstrategy basedonstudentabilitytobuildmodelswithvaryingdegrees ofconceptualunderstandingofchemicalequilibrium.Science& Education,7(2),107---127.
Osborne,J.(2007).Towardsamoresocialpedagogyinscience edu-cation:theroleofargumentation.RevistaBrasileiradePesquisa emEducac¸ãoemCiências,7(1),1---16.
Osborne,J.(2014).TeachingScientificPractices:Meetingthe Chal-lengeofChange.JournalofScienceTeacherEducation,25(2),
177---196.
Popper,K.(1963).ConjecturesandRefutation:TheGrowthof Sci-entificKnowledge:.Routledge&KeganPaul.
Posner,G.J.,Strike,K.A.,Hewson,P.W.,&Gertzog,W.A.(1982).
Accommodationofascientificconception:Towardatheoryof conceptualchange.ScienceEducation,66(2),211---227.
Ryu,S.,&Sandoval,W.A.(2012).Improvementstoelementary chil-dren’sepistemicunderstandingfromsustainedargumentation.
ScienceEducation,96(3),488---526.
Sá, L. P.,& Queiroz,S.L. (2009).Estudode casosnoensino de química.Campinas:Átomo.
Sandoval, W. A.,& Willwood, K. A. (2008). Whatcan argumen-tation tell us about epistemology? In S. Erduran, & M. P. Jiménez-Aleixandre(Eds.),ArgumentationinScienceEducation -Perspectivesfromclassroom-basedresearch(pp.71---88). Dor-drecht:Springer.
Venville,G. J., & Dawson,V.M. (2010).The impact ofa class-roominterventionongrade10students’argumentationskills, informalreasoning,and conceptualunderstandingofscience.
JournalofResearchinScienceTeaching,47(8),952---977.
Von Aufschnaiter, C., Erduran, S., Osborne, J., & Simon, H. A. (2008). Arguing to learn and learning to argue: Case stu-diesofhowstudents’argumentationrelatestotheirscientific knowledge. Journal of Research in Science Teaching, 45(1),
101---131.
Vosniadou,S.(2008).InternationalHandbookofResearchon Con-ceptualChange.NewYorkandLondon:Routledge.