Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social
PAMELLA REGINA D’ORNELLAS
FUTURO DO PRESENTE
Narrativas ficcionais acerca do futuro e projeções teóricas relativas a
seres artificiais
São Bernardo do Campo, SP Fevereiro 2019
FUTURO DO PRESENTE
Narrativas ficcionais acerca do futuro e projeções teóricas relativas a
seres artificiais
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Curso de Mestrado da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), como requisito para a obtenção do título de mestre em Comunicação Social, área de concentração “Processos Comunicacionais” e linha de pesquisa “Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais”.
Orientador: Prof. Dr. Dimas A. Künsch
São Bernardo do Campo, SP Fevereiro 2019
FICHA CATALOGRÁFICA D735f D’Ornellas, Pamella Regina
Futuro do presente: narrativas ficcionais acerca do futuro e projeções teóricas relativas a seres artificiais / Pamella Regina D’Ornellas. 2019.
261 p.
Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019. Orientação de: Dimas A. Künsch.
1. Comunicação 2. Ficção científica 3. Narrativa
cinematográfica 4. Inteligência artificial 5. Robótica I. Título. CDD 302.2
ARTIFICIAIS”, elaborada por PAMELLA REGINA D'ORNELLAS, foi apresentada e aprovada em 26 de fevereiro de 2019, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Dimas A. Künsch (Presidente/Umesp), Prof. Dr. Mateus Yuri Ribeiro da Silva Passos (Titular/Umesp), Prof. Dr. Renato Essenfelder (Titular/ESPM), Prof. Dr. Roberto Chiachiri (Suplente/Umesp) e Prof. Dr. José Eugênio de Menezes (Suplente/ FCL).
____________________________________________ Prof. Dr. Dimas A. Künsch
Orientador e Presidente da Banca Examinadora
____________________________________________ Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social
Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de Concentração: Processos comunicacionais
Dedico este trabalho a minha família, mas principalmente a minha mãe, que facilita a vida de quem ama e faz com que tudo se torne possível. Sem você, não teria conquistado nem metade de quem sou hoje. Te dedico todas as minhas vitórias. Você é a minha grande referência e exemplo de esforço e persistência.
Agradeço imensamente ao Prof. Dr. Sebastião Squirra, quem primeiramente me acolheu e me acompanhou desde o processo seletivo até o final de 2017, com seu grande interesse pelos progressos tecnológicos contemporâneos, me tirou da “zona de conforto” e despertou meu interesse por novos assuntos. Agradeço por ser solícito e atencioso, apesar de toda a minha insegurança nas orientações; pelo incentivo e por ter sido a grande e principal influência para a realização deste trabalho.
Agradeço imensamente ao Prof. Dr. Dimas A. Künsch por ter me escolhido e me recebido a partir de 2018, já antes do Exame de Qualificação. Sinto-me honrada por ter sido orientada e acolhida por um professor que lecionou durante tantos anos na faculdade onde obtive bacharelado, a Cásper Líbero, e que, agora, nos encontramos em outra universidade em busca de objetivos maiores. Muito obrigada por toda atenção e carinho, pela dedicação e preocupação com o meu projeto e por ser um dos grandes colaboradores na minha busca pelo crescimento acadêmico e evolução na vida. Você foi meu braço direito nessa caminhada de um ano, não teria chegado até aqui sem a sua ajuda, compreensão e generosidade, seja nas orientações ou nos telefonemas, nas mensagens de apoio e na forma atenciosa de sempre.
Agradeço a todos os professores do Programa da Pós-Graduação em Comunicação Social da Metodista que lecionaram em 2017, principalmente àqueles de de cuja disciplina eu fui aluna. Cada um de vocês foi muito importante para que eu chegasse até aqui. Obrigada por terem aberto novos horizontes, pelo interesse que foi despertado em mim com seus questionamentos e por terem compartilhado ensinamentos que levarei por toda a vida.
Aos meus colegas de Mestrado, pelos almoços, compartilhamentos profissionais e acadêmicos, e aprendizado juntos! Adorei conhecer cada um, a forma de pensar e de encarar a vida cada dia mais fortes, porque esse caminho que escolhemos trilhar não é fácil, mas se torna mais agradável quando temos pessoas incríveis correndo ao nosso lado. Vocês representam grande parte da força que obtive para chegar até aqui!
Agradeço principalmente a minha família, que é o principal alicerce da minha vida, aqueles por quem eu insisto em lutar todos os dias. E à minha mãe, Lourdes, minha maior encorajadora, desde antes de iniciar minha carreira profissional e acadêmica. Vocês são o meu maior incentivo para que eu me torne uma pessoa melhor.
“Tratando-se de artes e de ciências não há outra alternativa senão nos tornarmos profetas”. Robert J. Oppenheimer
robôs, androides e inteligência artificial, parte da hipótese de que narrativas podem ter relação com conquistas tecnológicas futuras, além de criar tendências culturais, sociais e científicas. O objeto desta pesquisa são filmes de ficção científica que trazem a abordagem tecnológica com inserção de personagens que representem seres artificiais autônomos. O estudo da bibliografia e de textos relacionados à temática, é seguido por um amplo mapeamento dos filmes estudados. Partindo dos fundamentos da ficção científica e de discussões da relação e interação entre arte e tecnologia, são selecionados alguns filmes para análise de conteúdo, metodologia empregada para o estudo de dados coletados. Por fim, com a apresentação de propostas de autores futurólogos contemporâneos, são exploradas algumas direções que a tecnologia, com foco na robótica e na inteligência artificial, tende a seguir num futuro próximo ou distante. A pesquisa revela uma contribuição importante ao campo da Comunicação no estudo e aprofundamento de questões relacionadas à narrativa cinematográfica e às representações imagéticas com vínculo tecnológico.
Palavras-chave: Comunicação. Ficção científica. Narrativa fílmica. Inteligência artificial. Robô.
artificial intelligence, starts from the hypothesis that narratives may have relation with future technological achievements, in addition to creating cultural, social and scientific tendencies. The object of this research are science fiction films that bring the technological approach with the insertion of characters that represent autonomous artificial beings. The study of bibliography and texts related to the theme is followed by a broad mapping of the films studied. Based on the fundamentals of science fiction and discussions of the relationship and interaction between art and technology, some films are selected for content analysis, methodology used to study data collected. Finally, with the presentation of proposals by contemporary futurist authors, some directions are explored that technology, with a focus on robotics and artificial intelligence, tends to follow in the near or distant future. The research reveals an important contribution to the field of Communication in the study and deepening of questions related to the cinematographic narrative and to the technological representations.
Quadro 1 1: Filmes e personagens para análise (primeiro mapeamento) p.84
Quadro 2 2: Filmes e personagens para análise (segundo mapeamento) p.85
Quadro 3: Classificação dos personagens em categorias e subdivisões categóricas
(primeiro mapeamento) p.91
Quadro 4: Classificação dos personagens em categorias e subdivisões categóricas
(segundo mapeamento) p.92
Quadro 5: Primeiro mapeamento de filmes produzidos entre 2014 a 2018 p.233
Quadro 6: Segundo mapeamento de filmes produzidos entre 1921 a 2016 p.244
1 Os quadros 1, 3 e 5 correspondem ao primeiro mapeamento. 2 Os quadros 2, 4 e 6 correspondem ao segundo mapeamento.
INTRODUÇÃO 12 I – CAPÍTULO 1 – O encontro da arte e tecnologia na ficção científica
1.1 Notas introdutórias sobre arte e tecnologia 19
1.2 Ficção científica 32
1.2.1 Origens e desenvolvimento 32
1.2.2 Divisão temática 35
1.2.3 Uma breve história de robôs 37
1.3 Introdução ao mundo dos seres artificiais e da inteligência artificial 40 1.3.1 Abordagens de personagens na ficção científica: Androide, Ciborgue e
Robô 41
1.3.2 Breve introdução à inteligência artificial 46
II – CAPÍTULO 2 - O cinema de ficção científica como enunciador do futuro
2.1 Importância do estudo acadêmico de produções cinematográficas 52 2.2 A representação de seres artificiais e inteligência artificial em filmes de ficção
científica 68
2.3 Quadro temático: robôs, androides e inteligência artificial 81
2.4 Estudo dos filmes selecionados 85
III – CAPÍTULO 3 – O futuro da inteligência artificial e dos robôs
3.1 Filmes de ficção e antecipação do futuro 123
3.2 O futuro dos seres artificiais segundo filmes 127
3.3 O futuro segundo previsões de autores contemporâneos 206
3.4 A ficção científica como lugar de conhecimento 220
CONSIDERAÇÕES FINAIS 223
REFERÊNCIAS 226
Introdução
Eu vejo o futuro repetir o passado Eu vejo um museu de grandes novidades O tempo não pára.
Cazuza
A música O Tempo Não Pára, letra de Cazuza e Arnaldo Brandão, foi produzida em 1988 e é uma das canções mais conhecidas de Cazuza. Seus significados mais profundos permanecem atuais apesar dos mais de 30 anos que distanciam sua produção do presente ano, 2019. O cantor brasileiro faz um retrato de seu tempo ao afirmar que o futuro repete o passado. Porém, é possível refletir sobre essa questão sob diversas abordagens, seja pela História, pelos comportamentos sociais, por manifestações artísticas, pelo desenvolvimento econômico, e tantos outros acontecimentos que sucedem hoje, mas que são mera repetição ou espelho daquilo que já passou. O futuro continua sendo um eco do passado. Em continuidade, Cazuza vê um museu de grandes novidades, trecho que também está aberto a várias interpretações e que dialoga diretamente com a contemporaneidade através da tecnologia e de sua constante evolução, sendo que novidades são propostas a todo o momento, mas rapidamente tornam-se antigas e ultrapassadas. O que foi projetado num passado próximo e concebido a partir de uma antecipação conceitual, hoje pode ser considerado obsoleto.
Na obra Inevitável, publicada no ano de 2017, Kevin Kelly afirma que somos todos novatos a todo instante e que, a cada atualização de softwares ou em qualquer mudança nos aplicativos que conectam o usuário ao ambiente virtual, as pessoas estão sempre aprendendo algo novo pois se tornam inexperientes novamente frente a cada alteração provisória dos aplicativos móveis virtuais. As tecnologias atuais demandam a atualização constante do usuário perante as inovações tecnológicas, pois o ambiente virtual está sempre sendo modificado e melhorado, os upgrades necessários nos obrigam a aprender algo novo a todo momento. É a constante atualização e evolução tecnológica que nos levam a refletir sobre o último trecho da música O Tempo não Pára, ou seja, que pode ser interpretado que hoje o tempo passa ainda mais rápido e os dias se encurtam. Com a metamorfose constante da tecnologia, a sociedade é obrigada a acompanhá-la, o que sugere que as pessoas têm que se adaptar rapidamente àquilo que é novo. Nesse processo, quem percebe que o tempo passa e não pára? A inevitabilidade da
passagem do tempo suscita ansiedade nas pessoas e pode instigar criatividade em outras. Por isso, uma discussão sobre os próximos anos de existência da humanidade e de tudo o que interage com ela se faz necessária, pois a todo momento vivemos o futuro sob novas condições e, principalmente, sob circunstâncias de coexistência com outras criaturas.
O presente trabalho, a partir da própria denominação “Futuro do presente”, desperta e instiga o tema que será tratado nas próximas páginas. Antes de apresentar a proposta em profundidade, é necessário discutir o título que a introduz. Futuro do presente é um tempo verbal utilizado para indicar algum fato que ocorre após o momento do discurso. Além disso, com o uso do futuro do presente na língua portuguesa é possível expressar incerteza sobre os fatos, acontecimentos prováveis ou que certamente acontecerão no futuro. Em resumo, o futuro do presente indica um fato futuro com relação ao momento presente. Ao ser escolhido como título desta dissertação, a expressão futuro do presente ganha relevância ao introduzir e instigar uma reflexão mais profunda sobre aquilo que é feito no presente e que pode ter reflexos na posteridade. Ou seja, aqui são abordados os anseios que a sociedade tem em antecipar o futuro, o que é relizado por meio da análise de conteúdo de filmes de ficção científica e sua comparação com tecnologias existentes e, posteriormente, com a abordagem das projeções acerca da tecnologia realizadas por futurólogos.
Esta dissertação surgiu da vontade de relacionar paixões antigas da pesquisadora com curiosidades recentes, ou seja, tentar incorporar tematicamente num mesmo estudo o cinema e a inteligência artificial/robôs. A intenção é mergulhar, utilizando da pesquisa acadêmica, em assuntos que trazem entusiasmo e que possibilitam a conexão de novos conhecimentos, a princípio desvinculados, que encorajam e incentivam o aprofundamento no campo artístico e tecnológico. Com a exploração do vínculo entre arte e tecnologia, por meio da análise de obras audiovisuais de ficção científica, pretende-se mostrar a interdisciplinaridade entre os dois campos que, a princípio, parecem distintos e sem vínculo evidente, porém será possível aprofundar um diálogo pertinente, relacionando Comunicação aos assuntos abordados, com enfoque no aprofundamento em questões de narrativa cinematográfica e representações imagéticas. A Comunicação Social é uma ciência social aplicada que tem seus estudos voltados para meios e processos de comunicação. O cinema faz parte desse contexto, uma vez que é realizado por pessoas que estão inseridas no contexto de determinadas culturas.
Nesse sentido, a discussão é embasada na análise de uma abordagem específica da produção cinematográfica em ficção científica, a qual olha para o futuro e insere imaginação e fantasia no imaginário de quem entra em contato com essas narrativas fílmicas. A Sci-fi ou
Science Fiction, que assumiu outras denominações3 antes de receber definitivamente esse
nome, pode ser considerada o encontro da arte com a tecnologia ou ciência, pois dentro desta criação artística literária ou cinematográfica há o desenvolvimento narrativo que envolve a criação de histórias imaginadas com a presença de elementos tecnológicos e, em alguns casos, até científicos. O estudo de ficção científica permite conhecer o mundo a partir de diferentes perspectivas propostas por autores literários e cineastas. Assim, estudar este gênero cinematográfico e literário torna-se uma maneira de contribuição para a sociedade, pois a ficção pode ser considerada, como é proposto neste trabalho, um lugar de produção de conhecimento em Comunicação, uma vez que a linguagem cinematográfica é um meio de comunicar e propor mensagens.
Narrativas cinematográficas instigam a reflexão sobre a sociedade contemporânea, mas a ficção científica vai além, leva o pensamento ao futuro e a possíveis constituições sociais e tecnológicas às quais estamos sujeitos. Ainda que cineastas não sejam cientistas ou futurólogos4, a muitos deles é delegado o “poder” de antecipar o futuro através do material
audiovisual e de uma narrativa generosamente explorada. Sendo assim, o foco deste trabalho acadêmico é o estudo dos filmes de ficção científica que trazem na trama a representação de robôs e/ou inteligência artificial e têm como grande motivação examinar se, de fato, narrativas ficcionais e representações imagéticas de personagens tecnológicos podem exercer algum tipo de atuação num cenário futuro ou se já estabelecem algum vínculo com inovações tecnológicas contemporâneas. Nesse sentido, o problema de pesquisa proposto é: as narrativas audiovisuais de ficção científica relacionadas a robôs e/ou inteligência artificial ditam tendências sociais, culturais e científicas, orientando de algum modo o futuro da sociedade?
Esse é o recorte escolhido, uma vez que dentro do gênero ficção científica há diversos subgêneros, como narrativas voltadas a viagens espaciais (ou space operas), viagem no tempo, mutantes, alienígenas, vida artificial, histórias de antecipação, entre outras, que abordam aspectos muito amplos do respectivo gênero. Muitas dessas subdivisões na ficção científica apresentam narrativas nas quais as tecnologias inseridas já existiam em seu tempo, ou que são
3 O termo “ficção científica” foi empregado pela primeira vez em abril de 1926 pelo editor da Amazing Stories, o
americano Hugo Gernsback, utilizando-se do termo scientifiction, que logo popularizou-se como science fiction. Tavares (1986, p. 11) acrescenta que o autor americano Robert Heinlein propôs o uso do termo “ficção especulativa” (speculative ficction), uma vez que science fiction envolve “ciência” no termo, o que gera cobrança mútua entre cientistas e literatos. De acordo com Carneiro (1967, p. 05), o termo “ficção científica” recebe diferentes nomenclaturas em outros países, como “ciencia-fiction” na Argentina, “fantascienza” na Itália e literatura de “antecipation” ou “fiction scientifique” na França.
4 Segundo o dicionário online Michaelis, o futurólogo é o especialista em futurologia, isto é, o estudo que trata das
possibilidades futuras, levando em conta tendências manifestadas no presente. Os futurólogos tentam prever, com embasamento científico, o futuro da humanidade, abordando cenários possíveis, indicando o que poderá acontecer.
uma invenção do roteirista para incrementar a história, ou ainda podem ser tecnologias que estão sendo estudadas e que poderão existir um dia. As histórias ficcionais de seres artificiais (robôs, androides e o fenômeno da inteligência artificial) foram selecionadas para a delimitação da escolha da tecnologia estudada e para o acompanhamento do desenvolvimento de um assunto específico.
Como as narrativas fílmicas são parte essencial para a execução da presente proposta, torna-se fundamental expressar a relevância da pesquisa para a área de concentração em processos comunicacionais, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo: filmes transmitem mensagens, a partir das quais comunica-se “algo” para “alguém”. Assim, com foco na linha de pesquisa na qual este trabalho está inserido, que é “Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais”, há o diálogo das obras cinematográficas com processos e práticas culturais da sociedade, pois o cinema e a ficção científica são produtos elaborados por seres humanos em diferentes períodos históricos e com distintos propósitos. Além disso, questões voltadas à inovação e evolução tecnológica estão presentes nos três capítulos da dissertação, abordando linguagem e narrativa no âmbito cinematográfico, o que delimita um recorte comunicacional e sociocultural específico e adequado à proposta estabelecida.
Assim, o núcleo de discussão desta dissertação parte da hipótese de que produções artísticas tornam possível conceber tendências voltadas a inovações tecnológicas, de modo que a análise aqui proposta compreende a formulação de dois quadros específicos de filmes de ficção científica e posterior análise de conteúdo de narrativas fílmicas selecionadas. Dessa forma, será possível explorar a suposição aqui proposta, tendo como objetivo geral analisar se os produtos audiovisuais de ficção científica inspiram avanços tecnológicos ao antecipá-los através de narrativas ficcionais. O universo de análise, como já adiantado, é o cinema de ficção científica e serão evidenciados, principalmente, a representação do robô/ máquina e a interação e relação entre humano e máquina, além das funcionalidades do personagem sintético. Assim, será estudado o surgimento da ficção científica na literatura e no cinema, e evidenciados os subgêneros existentes em histórias de ficção científica. Além disso, propõe-se compreender os diferentes posicionamentos teóricos de pesquisadores que preveem a inserção de robôs e do fenômeno da inteligência artificial socialmente, ou seja, a interação das máquinas com as pessoas.
A metodologia aplicada procede em etapas específicas, iniciando com pesquisa bibliográfica direcionada para a relação e interação entre arte e tecnologia; o estudo da ficção científica, desde seu surgimento à divisão em subgêneros; estudo do imaginário e do mito,
dentre outras abordagens teóricas que se mostram relevantes para o desenvolvimento sólido desta pesquisa, o que será tratado no Capítulo 1. Após introduzir teoricamente o tema proposto, é possível iniciar a segunda etapa do processo, que é o mapeamento em dois quadros de filmes com personagens artificiais, ambientados em cenários tecnológicos. Os filmes escolhidos para a análise proposta decorrem de dois grupos distintos com o mesmo tema: o primeiro grupo consiste em filmes de um período específico e atual (lançados entre junho/2014 e junho/2018), localizado no Quadro 5 5, em que são listados todos os filmes encontrados com a temática
proposta. O segundo grupo consiste na seleção de alguns filmes que se destacaram desde a primeira produção em que apareceu um robô na narrativa audiovisual, sendo que há produções de 1921 a 2016, localizado no Quadro 6 6. A partir dessa seleção filmográfica, são realizados
os procedimentos da análise de conteúdo, que ocorre em cinco etapas: preparação das informações, unitarização ou transformação do conteúdo em unidades, categorização ou classificação das unidades em categorias, descrição e interpretação, as quais serão realizadas no decorrer dos Capítulos 2 e 3.
Por fim, para complementar o Capítulo 3, é abordada a inteligência artificial e a robótica em aprofundamento com base em pesquisa bibliográfica e autores futurólogos que promovem estudos alicerçados em previsões estruturadas acerca de pesquisas sobre o tema. Assim como o cinema pode propor tendências à tecnologia, pesquisadores e futurólogos estudam tendências e apontam orientações que a humanidade pode tomar a partir da inserção de novas tecnologias na sociedade. De qualquer forma, ainda que baseado em estudos feitos durante anos, os futurólogos fazem projeções e tentam antecipar um futuro que ainda não vivemos, sendo esse um meio equivalente ao cinema para delinear o porvir.
Esta dissertação é dividida em três capítulos. O Capítulo 1 é uma introdução à pesquisa e à temática abordada, denominado “O encontro da arte e tecnologia na ficção científica”. A primeira parte concentra-se na discussão voltada ao aspecto geral do tema, a partir da percepção de que criações artísticas, em suas mais variadas formas (artes plásticas, audiovisual, teatro, entre outros), contribuem ao propor tendências sobre o futuro da sociedade e, principalmente, sobre a invenção e/ou desenvolvimento de tecnologias. Em seguida, compreende-se que o encontro entre arte e tecnologia acontece, dentre outros meios, na ficção científica. A partir dessa inferência, a ficção científica é fundamentada, principalmente, por autores brasileiros, os estudiosos Bráulio Tavares, André Carneiro e Fausto Cunha. Uma abordagem importante para esta etapa é reconhecer que cada autor faz uma divisão diferente da ficção científica em
5 O quadro com informações completas está nos apêndices. 6 O quadro com informações completas está nos apêndices.
subgêneros, pois a partir da categorização de cada autor é possível justificar a escolha do estudo de histórias de robôs e máquinas dotadas de inteligência artificial. Com a escolha desse subgênero justificada, alguns conceitos de Robótica e Inteligência Artificial são introduzidos, principalmente sob definição de Matarić, que traz os fundamentos da Robótica e explora os desenvolvimentos realizados para aumentar as diversas habilidades que os robôs têm adquirido com os anos.
O Capítulo 2 é denominado “O cinema de ficção científica como enunciador de tecnologias” e compreende, principalmente, a análise de conteúdo a partir do mapeamento com dois quadros específicos, citados anteriormente, acerca de filmes de ficção científica. No decorrer deste capítulo, são explicitados os conteúdos, formas e procedimentos que compreendem essa análise, desde os mapeamentos amplos à etapa da descrição na respectiva análise. Inicialmente, é feita uma introdução ao capítulo com a constatação sobre o motivo de utilização de filmes e materiais audiovisuais em estudos acadêmicos, com destaque para a sua relevância no campo da Comunicação Social. Em seguida, são abordados os conceitos de imaginário e mito para contextualizar a temática no âmbito social e histórico. Como foco central, destaca-se a abordagem que diversos filmes de ficção científica têm feito sobre a representação de robôs em narrativas fílmicas. Em continuidade, são coletados dados dos respectivos filmes que compõem os quadros 5 e 6 7, e selecionados algumas dessas narrativas
fílmicas para aprofundamento e inserção na análise de conteúdo, até a penúltima etapa, denominada “descrição”.
O Capítulo 3 é uma conversa com o pensamento contemporâneo acerca do futuro e dos impactos sociais conduzidos por mudanças e avanços na tecnologia. Sob o título “O futuro da inteligência artificial e dos robôs”, o capítulo inicia com uma aproximação a respeito de profecias e antecipações do futuro sob diversas abordagens, dentre elas, por filmes de ficção científica. Em seguida, dá-se continuidade à análise de conteúdo, iniciada no Capítulo 2; assim, a etapa da “interpretação” introduz a discussão sobre o fato de os filmes de ficção científica estarem vinculados com o lançamento ou o reforço de inovações tecnológicas, que podem influenciar na elaboração e formatação de uma sociedade do futuro. Como enfoque principal, o respectivo capítulo aborda alguns autores futurólogos e suas suposições acerca de avanços tecnológicos, com destaque para a temática do fenômeno da inteligência artificial e de robôs/androides, e seus usos pelas pessoas e por corporações empresariais. Tendo-se em conta previsões de pesquisadores renomados, como Kevin Kelly, Ray Kurzweil e James Canton, é
traçado um panorama das projeções voltadas à tecnologia estabelecidas em suas obras, que têm como embasamento científico, pesquisas e aprofundamentos teóricos realizados durante anos. Uma vez que os filmes são registros imagéticos da possível antecipação do futuro, nos livros são abordados conceitos e teorias que compartilham possíveis realidades futuras. Ou seja, esta etapa da dissertação é uma reflexão sobre o futuro através de convicções apresentadas por estudiosos que se interessam em compreender a sociedade e sua organização social e tecnológica quando as pessoas forem rodeadas por máquinas e por todo o tipo de tecnologia, ainda que esta esteja invisível (como a inteligência artificial) aos olhos humanos, mas ainda assim atuante. Por fim, o capítulo traz uma abordagem da ficção científica como lugar de conhecimento, ou seja, o campo das artes e afins são considerados formas legítimas de produção e de aquisição de conhecimento, ainda que não sejam apreciados como autênticos meios na obtenção de resultados científicos.
A possível convivência de pessoas com autômatos inteligentes é considerada como elemento narrativo no audiovisual e na literatura, e será comprovada (ou não) em alguns anos. Portanto, os resultados esperados estão voltados para a compreensão de fenômenos tecnológicos e a maneira como são representados e propostos pelas diversas manifestações artísticas. Assim, com a análise de conteúdo espera-se que sejam encontradas confirmações de que produções artísticas, que aqui são especificamente filmes de ficção científica, legitimam tendências e orientam o futuro da sociedade, principalmente com relação às inovações tecnológicas. São visualizados e comparados elementos tecnológicos representados nos filmes a máquinas já existentes, abordagem que dialoga com as propostas de previsões tecnológicas encontradas nos títulos dos autores selecionados.
CAPÍTULO 1
O encontro da arte e tecnologia na ficção científica
Faz já muito tempo que ninguém contesta o poder da arte de
antecipar o futuro social e os desenvolvimentos tecnológicos bem antes de uma geração.
Marshall MacLuhan
1.1 Notas introdutórias sobre arte e tecnologia
Refletir e analisar a arte como forma de conhecimento no que diz respeito aos próximos passos da humanidade, principalmente relacionada aos avanços tecnológicos e em como esses poderão se dar no futuro, é o propósito e desafio deste trabalho. Manifestações artísticas, em suas mais diversas formas, têm direcionado o mundo a novos caminhos devido às percepções singulares sugeridas pelos artistas, principalmente quando são divergentes das convenções de sua época. Nesse sentido, é possível afirmar que novas formas de pensar podem dar impulso ao progresso social e tecnológico de cada período histórico. Não são simplesmente as ferramentas que possibilitam avanços, e sim os interesses dos indivíduos e a maneira como olham para o futuro. De acordo com o jornalista e crítico de arte Jean-Pierre Le Grand (1997, p. 283),
Nossas ferramentas não caíram do céu, e também não foram a faísca original que deu início à explosão evolutiva. Elas foram construídas, e praticamente devem sua existência a três qualidades tipicamente humanas: curiosidade, criatividade e cooperação. Mais do que nossas ferramentas, são essas três qualidades que permitiram a sobrevivência da humanidade e, em última análise, que ela prosperasse como espécie.
De fato, a espécie humana evolui principalmente devido a sua curiosidade, a qual, dentre outras circunstâncias, possibilitou o desenvolvimento artístico e tecnológico e, logo, a interação e o relacionamento direto entre arte e tecnologia. Assim, arte e tecnologia mantêm influência mútua e ambas têm uma relação muito antiga, que pode ser introduzida pela palavra techné, termo utilizado pelos gregos na antiguidade para se referirem, dentre outras acepções e sem entrar em detalhes, à palavra “arte”, além de manter relação gráfica direta com a palavra
“técnica”. Assim, arte e técnica conservam relação antiga, mas Milton Vargas (1994, p. 18) sustenta que técnica e techné não podem ser considerados termos com o mesmo significado, apesar da semelhança na grafia.
Na própria Grécia apareceu um outro tipo de conhecimento: a “techné” que não se limitava à pura contemplação da realidade. Era uma atividade cujo interesse estava em resolver problemas práticos, guiar os homens em suas questões vitais, curar doenças, construir instrumentos e edifícios, etc. [...] toda “techné” consiste no conhecimento empírico de um objeto ou ação que serve ao homem; portanto tal saber só se realiza como aplicação prática e não como contemplação. O que, entretanto, designamos hoje, de uma forma geral, por técnica não é exatamente a “techné” grega.
Ainda assim, o vínculo entre arte e tecnologia é evidente, uma vez que para realizar produções artísticas é possível partir de um conceito, mas são necessários elementos materiais para que a obra seja constituída fisicamente, implicando o uso de técnicas e tecnologias com funções estéticas, como define Vargas (1994, p. 18) no trecho acima, ao afirmar que “tal saber só se realiza como aplicação prática e não como contemplação”.
Como referência histórica, principalmente a partir do período do Renascimento, é possível afirmar que os artistas passaram a utilizar o conhecimento científico (principalmente os conceitos de estudos do corpo humano) como forma de garantir credibilidade e verossimilhança à imagem registrada. O Renascimento tornou-se o momento histórico em que a imagem é calculada, arquitetada, conceitualizada e simétrica, e para isso foram inventadas diversas máquinas que garantiram a objetividade da imagem representada. Leonardo da Vinci é um dos artistas que estudou técnicas para obter os efeitos desejados em suas obras de arte. Da Vinci ganhou evidência nas artes e nas ciências e se utilizou de estudos de fisiologia e de anatomia humana como investigação científica para realizar seus trabalhos artísticos, com o objetivo de que as representações imagéticas humanas fossem mais fiéis a corpos humanos reais. Dentre as obras de Leonardo da Vinci que apresentam esses elementos destacam-se pinturas e esculturas como A Última Ceia e Mona Lisa.
Para contribuir com reflexões sobre a relação entre arte e tecnologia, é possível comparar os artistas aos cientistas, e vice-versa, uma vez que ambos podem trabalhar em conjunto com o objetivo de um agregar conhecimento e técnicas ao outro. Artistas se utilizam de técnicas e de tecnologias para desenvolver obras de arte; cientistas utilizam-se da arte ou de elementos artísticos para o aprimoramento de alguma teoria ou experimento. Seguindo esse raciocínio, o pesquisador Jorge de Albuquerque Vieira (2009, p. 20) afirma que, “[…] enquanto
o cientista busca a realidade, o artista trabalha com as possibilidades do real. […] Então, arte é o estudo, a exploração das possibilidades da realidade. É diferente da ciência que quer conhecer a realidade”.
Ou seja, arte e ciência são tipos de conhecimentos diferentes que têm como base abordar a realidade de alguma maneira distinta. Em outro sentido, artistas e cientistas são indivíduos que, por muitas vezes, insistem em trabalhos árduos e rigorosos, cada um com um foco distinto. A pesquisadora Ana Claudia Mei Alves de Oliveira (1997, p. 223) se refere aos locais de trabalho do artista como laboratórios de pesquisa e faz uma relação interessante entre a própria arte e a ciência, ao afirmar que “as obras admitem a incertitude, o instável, o imaterial, o que as sintoniza inteiramente com a ciência contemporânea: a física quântica, a cibernética, a teoria do caos, dos fractais”. Tania Fraga (1997, p. 123) propõe uma definição complexa sobre o artista e o que representa socialmente.
O artista é aquele que explora, que descobre e que concretiza virtualidades das quais não tem certeza alguma. Visa apenas exercitar sensibilidades, despertar curiosidades e impulsionar ações para si e para os outros. O artista resgata universos de possibilidades, provocando, no outro, uma qualidade de apreensão de algo, pelo ato de admirar. Leva a consciência para um estado de disponibilidade esvaziada de tudo, exceto da pura sensação resultante do efeito que este algo produziu. Dilui as fronteiras entre a qualidade que se apresenta e a reação que ela produz na mente do indivíduo.
A sintonia entre arte e ciência pode colaborar com procedimentos criativos e adquirir êxito de diversas formas. Uma delas pode ser verificada quando, por exemplo, obras de ficção científica estruturadas em manifestações artísticas propõem alguma situação futura e essa torna-se realidade, independente de a ficção ter a intenção de prever alguma circunstância específica. Em palestra no Planetário de São Paulo (2008)8, Vieira aborda ciência, arte e suas interações,
ao sustentar que:
Duas formas de conhecimento aparentemente tomadas como díspares: a arte e a ciência, elas se complementam. Há ciências que sempre utilizaram a arte para que fossem ciência, como a biologia. Há projetos no mundo em ciência avançada que dependem de artistas cada vez mais. Tanto a ciência quanto a arte são processos criativos.
Criar/desenvolver/inventar por meio da arte e da ciência é um caminho para se expressar
8 Trechos da palestra disponíveis nos seguintes endereços:
<https://www.youtube.com/watch?v=AIMLHssgKMU e
de maneira singular. “A arte”, segundo Eco (1970, p. 235) “sempre nos diz alguma coisa sobre o mundo em que vivemos” e daquele em que viveremos. Entender a arte e acompanhar seu movimento e mudanças é compreender a sociedade e para onde o mundo caminha, ou seja, as manifestações artísticas podem ser consideradas como representações de realidades futuras, podem apontar para um futuro promissor ou adverso, pode ser utópico ou distópico, pode ser uma previsão favorável ou um alerta, sob o qual a ficção cria a esperança de que a humanidade tome outro rumo. Para isso, o artista, principalmente devido a sua sensibilidade e percepção diferenciadas, propõe artisticamente em suas obras, elementos não existentes em seu tempo, que tornam-se reais anos depois, ainda que esse não fosse talvez ou seu objetivo primordial.
Em muitos casos, a arte exercita a crítica da técnica, apontando os limites da técnica e para onde certos desenvolvimentos tecnológicos podem nos levar, geralmente num tom de alerta. Martin Heidegger (2007, p. 390) afirma que a ameaça não está na técnica em si, afirmando que “a ameaça dos homens não vem primeiramente das máquinas e aparelhos da técnica cujo efeito pode causar a morte. A autêntica ameaça já atacou o homem em sua essência”. Essa afirmação pode ser ilustrada a partir de filmes que mostram tecnologias projetadas para o futuro em determinada época, porém que em alguns anos surgem para aplicação real e efetivam seu uso na sociedade, sendo que essas projeções apontam ou podem apontar tanto para a utopia, quanto para a distopia. Nessa direção, escolhas formais, estéticas e conceituais na realização de alguma obra artística podem sugerir possíveis futuros.
Assim como a arte pode intervir na perspectiva tecnológica, a inserção de novas tecnologias tem colaborado com mudanças sociais e com a maneira como os seres humanos vivem. Visto que o artista propõe, por meio da arte, novas formas de pensar a sociedade de seu tempo e de tempos futuros, isso se reflete na tecnologia e na ciência, e pode ser verificado na sociedade atual, na qual a presença da internet e de dispositivos que permitem sua utilização móvel sugerem uma nova maneira de viver no mundo. Na mesma direção, André Stangl (2010, p. 319) sugere que:
As revoluções tecnológicas mudam a forma como percebemos o mundo; assim, o mundo do iletrado é diferente do mundo do letrado. [...] A tecnologia de impressão de Gutenberg nos fez leitores, a máquina xerox nos fez editores, e a eletrônica e os computadores em rede nos fazem autores.
A ciência, através de diversos instrumentos e da tecnologia, percebe a realidade e elabora fundamentações e conceitos que possam ser confirmados pela experimentação. Já a arte utiliza-se da percepção da realidade e do irreal, quebra barreiras que muitas vezes limitam o
âmbito criativo e propõe criações artísticas que excedem a realidade. Sem tantas pretensões quanto a ciência, “para certos artistas, a sua arte é o seu modo de conhecer, de interpretar o mundo e até de fazer ciência” (PAREYSON, 1984, p. 23), ou seja, pela percepção artística, os próprios artistas podem fazer ciência. Avançando nas propostas sobre a produção artística, Luigi Pareyson (1984, p. 25-26) discorre sobre a arte e formas de torná-la concreta, ao empregar o uso de técnicas e de tecnologias.
Mas a arte é produção e realização em sentido intensivo, eminente, absoluto, a tal ponto que, com frequência, foi, na verdade, chamada criação […]. A arte é também invenção. Ela não é execução de qualquer coisa já ideada, realização de um projeto, produção segundo regras dadas ou predispostas. […] A arte é, portanto, um fazer em que o aspecto realizativo é particularmente intensificado, unido a um aspecto inventivo. […] a atividade artística consiste propriamente no “formar”, isto é, exatamente num executar, produzir e realizar, que é, ao mesmo tempo, inventar, figurar, descobrir.
Heidegger (2007, p. 396) traz uma reflexão acerca da arte e da técnica, relacionando-as mutuamente:
Questionando, portanto, testemunhamos a crise de que ainda não experimentamos a especialização da técnica diante da pura técnica, que não protegemos mais a especialização da arte diante da pura estética. Contudo, quanto mais de modo questionador refletirmos sobre a essência da técnica, tanto mais cheia de mistério será a essência da arte.
Por outra perspectiva, a arte pode ser um meio de comunicar à sociedade inovações que estão prestes a se tornar parte do cotidiano de muitas pessoas ou que já são parte de suas vidas, e os conceitos passam a ser difundidos e popularizados. Muitos artistas, como será mostrado a seguir neste capítulo, estão interessados em agregar novas tecnologias à arte. Diana Domingues (1997, p. 29) comenta esse interesse e a relação direta que a tecnologia mantém com o ser humano:
E os artistas estão checando o poder das máquinas em modificar nossa existência. O que está interessando aos artistas são estas contaminações do humano com o silício, os neurônios em simbiose com as sinapses nervosas dos circuitos lógico-programáveis em associações que expandem o humano.
Como referência pertinente, uma exposição com temática contemporânea trouxe novidades tecnológicas que surpreenderam visitantes que não tinham entrado em contato com
diversas inovações mostradas em Consciência Cibernética [?]. Realizada em 2017 no Itaú Cultural, o espaço cultural paulistano recebe a exposição com dez obras, tanto de artistas brasileiros quanto estrangeiros. A temática principal foi trazer a cibernética numa linguagem artística e interativa, mostrando a evolução de máquinas e como elas interagem com os seres humanos, a partir de inteligência artificial e de cérebros biológicos.
Dentre robôs que reagem à presença dos visitantes até a simulação de um céu infinito em 3D que ocorre num ambiente virtual, uma das obras expostas em destaque é Café com os
Santiagos (Figura 1), elaborada pelos artistas e pesquisadores Heloisa Candello, Claudio
Pinhanez e Paulo Costa. Esta criação artística consiste na simulação de conversas entre o público visitante e Capitu, Bentinho e Escobar, que são os três principais personagens do conhecido livro Dom Casmurro, de Machado de Assis. Essa obra interativa utiliza a tecnologia de processamento de conversação natural da IBM Watson Development Cloud9, através da qual
o público pode realizar perguntas aos personagens fictícios ao digitarem questões em um tablet, sempre baseando-se na narrativa e contexto da obra literária de Machado de Assis. Nesse sentido, entende-se que a inteligência artificial agregada à obra artística formule respostas apropriadas às perguntas elaboradas pelas pessoas, ainda que os questionamentos sejam complexos. Essas respostas são projetadas numa mesa através de recursos de animação digital, abordando a obra literária de forma lúdica, ao ambientar o cenário com uma mesa de café da tarde e alguns adereços que remetem aos personagens do livro.
Figura 1: Obra Café com os Santiagos, com mesa de projeção de perguntas (ao fundo) e tablet de interação
para visitantes (à frente).10
9 Explicações aprofundadas em: <http://www-03.ibm.com/press/br/pt/pressrelease/52609.wss>. Acesso em: 12
jan. 2018.
No contexto aqui sugerido, Café com os Santiagos mostra ao público a capacidade da inteligência artificial por meio de uma criação artística, ao incorporar atores cibernéticos advindos da ficção literária numa realidade tecnológica. Representada pelo Watson, uma plataforma de computação cognitiva11 da IBM, a pessoa aprende através de interações e a
inteligência artificial obtém conhecimento com o passar do tempo e com a intensidade interativa à qual é exposta. Assim, a obra Café com os Santiagos ganha projeção e destaque na respectiva exposição. Segundo o próprio site da IBM, o líder de tecnologias de conversação do Laboratório de Pesquisa da IBM Brasil, Claudio Pinhanez (2017)12 comenta sobre a tecnologia exposta nas
artes e avança ao comentar a relação de Café com os Santiagos com os já existentes chatbots13,
afirmando que:
Este projeto explora de maneira inovadora o papel de plataformas como o Watson, que é o de ajudar seres humanos a extrair valor da enorme quantidade de informações que os cerca. A novidade desta aplicação é uma conversa com múltiplos agentes de inteligência artificial ao mesmo tempo, o que vai ser a característica marcante da segunda onda de chatbots. Hoje, chatbots respondem perguntas e ajudam a realizar serviços simples, mas sempre de forma individual. No futuro vamos interagir com vários chatbots ao mesmo tempo, colaborando no processo de tomada de decisões como se estivéssemos em uma reunião.
Pinhanez compara o conceito criativo e interativo de Café com os Santiagos à tecnologia dos chatbots, sendo que a arte traz a público uma inovação já estabelecida e que vem sendo largamente difundida e adquirida por empresas de diversos setores. Seguindo o mesmo raciocínio, Umberto Eco (1970, p. 236) sustenta que “a arte nem sempre é antecipação da evolução da cultura e muitas vezes nada mais faz do que dar uma forma comunicável, justamente, a intuições e premissas que a ciência já estabeleceu por conta própria”.
Além de Café com os Santiagos, uma das obras artísticas em destaque na exposição
Consciência Cibernética [?] é Odisseia (Figura 2), concebida por Regina Silveira. Odisseia é
um labirinto virtual, no qual os visitantes utilizam-se de tecnologias para viver uma experiência artística: por meio dos óculos VR (Virtual Reality, em inglês; ou Realidade Virtual, em português), o público explora a obra em três dimensões como se estivesse imerso virtualmente nela.
11 Este termo será explicado no tópico Introdução à inteligência artificial, no Capítulo 1.
12 Disponível em: <http://www-03.ibm.com/press/br/pt/pressrelease/52609.wss>. Acesso em: 12 jan. 2018. 13 Chatbot é um serviço com o qual pessoas interagem a partir de uma interface de chat. Existem dois tipos de
chatbots, um que é programado e responde a comandos específicos, e o outro que utiliza aprendizado de máquina (Machine Learning) e inteligência artificial para se adequar às solicitações dos usuários. Fonte: <https://intelligent-information.blog/wp-content/uploads/2017/09/A-Primer-AI-and-Chatbots-in-Technical-Communication.pdf>
Figura 2: Ambiente virtual da obra Odisseia, de Regina Silveira.14
É possível relacionar Odisseia à obra do artista Myron Krueger que, de acordo com Louise Poissant (1997, p. 91), foi quem concebeu os óculos VR, ainda em 1969, ao colocar esta nova tecnologia numa instalação artística denominada artificial reality. Assim, Krueger apresentou à sociedade os óculos VR tendo na arte a principal plataforma de divulgação.
A RV [realidade virtual], etapa seguinte nos desenvolvimentos do universo sintético, enriquece a simulação dando-lhe dimensões adicionais: a interatividade e a penetração, a imersão nos universos simulados. É interessante notar que esta tecnologia ainda muito experimental foi desenvolvida primeiramente por artistas. Myron Krueger concebeu e desenvolveu em 1969 uma instalação que ele batizou de artificial reality, a Video Place na qual o visitante pode interagir com elementos sintéticos sobre uma tela.
Arte e tecnologia mostram-se cúmplices e trazem resultados positivos quando indivíduos decidem trabalhar com ambas conjuntamente. Stangl (2010, p. 322-323) argumenta que a arte pode ser um meio de agregar entendimento sobre o uso da tecnologia pelas pessoas e se aprofunda em aspectos que relacionam arte e tecnologia:
A cultura enquanto contexto e a arte enquanto linguagem ajudam a entender o impacto da tecnologia sobre os seres humanos, pois, por muito tempo, a formação da nossa consciência estava relacionada ao registro de nossas experiências na memória. […] Sendo a arte um registro de nossas impressões e de nossa imaginação, seu reconhecimento permite a criação de um espaço comum de sentido em que novas tecnologias são experimentadas e
familiarizadas. As ficções que tratam de robôs, por exemplo, nos educam e nos acostumam a uma realidade possível. [...] Se o mundo é o que percebemos do mundo e hoje percebemos o mundo através das tecnologias de comunicação, então essas tecnologias são parte de nossa própria consciência.
É possível visualizar a arte e diversas manifestações artísticas como mediadoras entre o presente e o futuro. Nesse sentido, a sociedade contemporânea tem sido introduzida ao “mundo do futuro” principalmente através de narrativas audiovisuais. Muitos assuntos abordados principalmente em filmes de ficção científica têm motivado estudiosos de diversas áreas científicas, como a Engenharia, Neurociência, Biologia, Comunicação, entre outros, a desenvolverem estudos com o objetivo de expandir o conhecimento teórico e prático. A arte e produções artísticas podem ditar tendências sociais e, quando assumem essa proposta, correm o risco de se equivocarem em seus discursos, até mesmo por serem essencialmente ficcionais. É interessante observar que o preconceito do realismo ou da cópia da realidade, nas artes plásticas, já desapareceu há muito (pelo menos nas classes culturalmente desenvolvidas). O surrealismo, o abstracionismo e suas subdivisões começam a ser “compreendidos” por todos, isto é, começa-se a ter noção de que a arte não precisa ser uma cópia daquilo que nós vemos ou vivemos, mas exatamente pode ser uma ruptura nas maneiras habituais de ver e encarar as coisas (CARNEIRO, 1967, p. 128).
Muitas previsões tecnológicas visualizadas em narrativas audiovisuais de ficção científica se concretizaram na sociedade. Um filme que aborda a tecnologia é clássico:
Metrópolis (Figura 3), lançado em 1927 e dirigido pelo cineasta austríaco Fritz Lang.
Considerado um longa-metragem de ficção científica que conta uma história muito à frente do seu tempo, a narrativa ficcional acontece no ano de 2026 e tem como personagem o inventor Rotwang (interpretado pelo ator alemão Rudolf Klein-Rogge), que cria um robô semelhante ao ser humano. Durante a trama, Rotwang prevê e afirma que não haverá necessidade de as pessoas trabalharem no futuro, pois os robôs serão tão parecidos com as pessoas que um dia trabalharão por elas. Essa história, narrada ficcionalmente em 1927, surge hoje como uma realidade pertinente devido ao desenvolvimento e à existência de robôs. Ou seja, uma produção artística feita há quase 100 anos, pode ter influenciado o surgimento de uma tecnologia que está prestes a ser disseminada, que é a comercialização de robôs e a implantação de inteligência artificial em máquinas, além da automação de diversas funções profissionais.
Figura 3: Maria, personagem do filme Metrópolis (1927).15
Como será apresentado no tópico “O futuro dos robôs e androides segundo filmes” no Capítulo 3 desta pesquisa, matéria publicada pela Folha de S.Paulo16 mostra que algumas
empresas têm investido na fabricação de robôs que interagem socialmente e que fornecem robôs sexuais para suprir necessidades de seus clientes. A companhia americana True Companion comercializa o modelo feminino Roxxxy desde 2010 e também fornece modelos com a aparência customizada, com características que o cliente escolhe, como o tamanho dos seios da robô e cinco opções de personalidade pré-programadas ajustadas pela empresa. Além do modelo feminino, o site da True Companion também disponibiliza modelos masculinos. Eco (1970, p. 230) sustenta que a arte entra na sociedade como uma forma de mostrar o futuro e de tornar elementos, a princípio “experimentais”, em objetos vendáveis, como acontece com os robôs fabricados pela True Companion.
No momento em que a arte se coloca como protesto no interior de uma sociedade, como ruptura, como mensagem voltada para o futuro, a sociedade tenta eludir o fato de que se trata da denúncia de uma crise chamando esta arte
15 Disponível no filme Metrópolis aos 43’20''.
16 Disponível em:
de “experimental”. […] é “experimental” todo comportamento de pesquisa que culminar na “fabricação” de alguma coisa “vendável”.
Baseando-se na referência audiovisual citada anteriormente, é possível sustentar que produções artísticas ditam rumos que a sociedade tende a tomar e podem ser consideradas como previsões do futuro. Esta é uma forma de a arte influenciar a ciência e a tecnologia. Eco (1970, p. 236) estabelece relação direta entre arte e novidades tecnológicas, sustentando que as produções artísticas podem preceder acontecimentos sociais importantes e que o artista mostra novas formas de pensar que são expostas por meio de suas obras, mas que nem sempre são captadas pelo público.
A inovação promovida pela arte no nível das formas precede sempre as revoluções que ocorrerão nos outros níveis culturais e sociais. A pintura renascentista vislumbrou uma nova concepção de espaço antes da astronomia [...]. O artista, mais ou menos conscientemente, sabe que o trabalho que realiza sobre as formas, se é autêntico, será verificado por outras mudanças históricas que suas estruturações formais prefiguravam. E, contudo, permanece sempre o problema da comunicabilidade de uma renovação do modo de pensar que está sendo operada por meio da arte, mas que encontra um público ainda despreparado, incapaz de perceber o alcance da inovação.
Perceber que produtos ou movimentos artísticos estão se voltando cada vez mais para a compreensão tecnológica e estão incorporando questões de tecnologia em suas discussões e questionamentos propicia afirmar que os artistas são inspirados por inovações tecnológicas e/ou olham para o futuro a fim de visualizar possíveis caminhos para a sociedade. Porém, é possível sustentar que os seres humanos estarão cada vez mais envolvidos com a tecnologia a ponto de um dia conviverem e interagirem com robôs semelhantes a humanos, ainda que esse panorama tenha sido criado primeiramente no imaginário popular, devido a filmes e produções artísticas no geral, que sugerem o futuro, como será aprofundado no tópico “O imaginário e o mito” do Capítulo 2.
Em outro sentido, o imaginário popular de perspectivas futuras tem sido regado com expectativas amedrontadoras, principalmente por produções cinematográficas ambientadas no futuro, que mostram o mundo vazio, ou habitado por robôs, ou sofrendo catástrofes climáticas irreversíveis, ou ocupada por criaturas estranhas, extraterrestres, alienígenas, dentre tantos outros cenários que ocupam a mente e podem causar inquietação. Vera Follain (2017, p. 134) afirma que têm sido feitas diversas profecias apocalípticas à sociedade por meio de obras ficcionais e que isso pode causar “cegueira” às pessoas.
Com a proliferação das imagens técnicas, impulsionada pela informática, multiplicam-se as profecias apocalípticas de desrealização do mundo, de perda da dimensão do sensível, veiculadas não só por obras ficcionais, como, por exemplo, o filme Matrix (EUA, 1999), dos irmãos Wachowski, mas também por textos teóricos, como os de Jean Baudrillard, dentre outros. Segundo este ponto de vista, a razão moderna, ao invés da prometida emancipação, teria, ironicamente, nos mergulhado na cegueira, através do progresso técnico e científico.
O escritor e bioquímico russo, naturalizado americano, Isaac Asimov foi um grande defensor da tecnologia e sempre expôs suas ideias a favor de avanços tecnológicos, principalmente em defesa de robôs e máquinas. Com seu pensamento largamente difundido, Asimov defende que os robôs não são objetos malignos, uma vez que não foram inventados com esta intenção. Porém, quando algo é inventado, nem sempre a intenção do autor corresponderá ao seu uso efetivo, ou seja, a proposta de uma obra não definirá sua finalidade prática. Asimov tentou contornar a concepção de que as máquinas irão dominar o mundo e exterminar os humanos ao criar três leis a favor do progresso da tecnologia, conceitos que se tornaram famosos e ajudaram a difundir as ideias do autor de obras de ficção científica. Elas podem ser resumidas em: 1˚– o robô não pode ferir o ser humano; 2˚– o robô tem que obedecer os seres humanos, a menos que não contrarie a lei anterior; 3˚– o robô tem que se proteger, a menos que não contrarie as leis anteriores.
A criação de um autômato, de um pseudo ser humano, por um inventor também humano é, por conseguinte, interpretada como paródia da criação da humanidade por Deus. [...] O ser humano pode inventar criaturas artificiais que parecem ter vida em todos os sentidos, mas nunca hão de possuir alma, a centelha divina que lhes dá a possibilidade de praticar o bem e a virtude. Mesmo que o robô não seja ativamente mau e perverso, é inevitável que termine assim por ser, passivamente, incapaz de outra coisa (ASIMOV, 2007, p. 11).
Para ilustrar como produções artísticas audiovisuais podem colaborar com a orientação de tendências tecnológicas, é possível citar a série Humans, que aborda temática voltada à tecnologia e a previsões do futuro, especificamente à inteligência artificial e às suas aplicações sociais. A ficção científica Humans trata da introdução de robôs dotados de inteligência artificial e semelhantes a humanos na sociedade. Produzida pela AMC e pelo Channel 4, a primeira temporada tem 8 episódios, sendo que o primeiro episódio foi televisionado em 14 de junho de 2015.
A narrativa ficcional de Humans é pautada nos relacionamentos sociais e afetivos entre pessoas e máquinas inteligentes, com foco na abordagem da inteligência artificial em seus diversos aspectos. Isso acontece quando os robôs são comercializados e adquiridos por uma família, e as máquinas passam a se encarregar de tarefas diárias como cozinhar, dirigir, cuidar dos idosos e das crianças, entre outros. Nesse sentido, é possível afirmar que não apenas a série
Humans, mas outras narrativas audiovisuais podem criar tendências e gerar influência em
avanços científicos e tecnológicos. Porém, esses avanços são percebidos com o tempo e com as descobertas realizadas pela ciência, de modo que as comparações ao que é proposto em filmes e séries, a princípio ficcionalmente, podem ser feitas com a ocorrência e legitimação dessas tecnologias.
De qualquer maneira, diante de diversos exemplos, desde a relação que a tecnologia traz com a arte na Antiguidade, perpassando toda a história e as formas de arte que surgiram devido às novidades tecnológicas que foram concebidas em diversas épocas, até as previsões que a arte faz da tecnologia por meio de produtos artísticos, arte e tecnologia mantêm relação direta, interagem mutuamente e despertam questões interessantes para aprofundamento.
O cinema mostra-se amplamente atuante no sentido de criar e introduzir tecnologias contemporâneas no imaginário popular, que muitas vezes soam absurdas ao público. Nessa direção, filmes e séries ficcionais tomam a ciência como principal referência narrativa e exploram-na da maneira mais criativa e fantasiosa possível. É interessante verificar que a arte tenta expor essa rapidez da ciência e ousa caminhar à frente do próprio campo científico, muitas vezes propondo tecnologias ou modificações sociais, e até se aventura em prever o futuro, arriscando posicionamentos que nem sempre repercutem ou sucedem. Ainda assim, a arte não teme a se aventurar em ambientes pouco ou não alcançados pela ciência. O encontro da arte com a ciência pode ser apontado por algumas manifestações artísticas, dentre elas, a ficção científica, que será aprofundada a seguir.
1.2 Ficção científica
A ficção científica e obras relacionadas a esse gênero literário e cinematográfico conduz à relação direta entre arte e ciência. Esse é o principal motivo de escolha da ficção científica como objeto de análise neste trabalho. Assim, convém o aprofundamento, primeiramente, no termo “ficção científica” e em suas origens históricas. No Capítulo 2 são analisados filmes do respectivo gênero.
1.2.1 Origens e desenvolvimento
Nascida na literatura e posteriormente estendendo-se ao cinema e aos quadrinhos, as histórias do gênero de ficção científica são compostas por narrativas extraordinárias e impensáveis pela maioria das pessoas, mas habilidosamente concebidas por escritores criativos. A ficção científica tem na ciência sua grande fonte de inspiração; a maioria das histórias caracteriza-se por narrativas projetadas no futuro, nas quais são criados cenários que propõem invenções e descobertas possíveis ou impensáveis, a vida em uma sociedade tecnológica semelhante ou diferente da contemporânea, novas tecnologias e a interação do ser humano com essas novidades. Cunha (1974, p. 18), brasileiro que escreveu diversas obras sobre a ficção científica no Brasil, afirma que a ficção científica está vinculada a nossa realidade contemporânea e que “é impossível pensar na ficção científica unicamente como uma diversão ou algo desligado da nossa realidade presente. Ela é a ficção do ‘choque do futuro’”.
Surgida no século XIX, principalmente devido às condições propícias proporcionadas pela Revolução Industrial e pelos avanços tecnológicos da época, as histórias de ficção científica ganharam impulso principalmente devido às invenções tecnológicas e aos desenvolvimentos científicos que ocorreram durante a Revolução Industrial. Como afirma Fátima Régis de Oliveira (2005, p. 116), alguns elementos propiciaram o desenvolvimento bem-sucedido do gênero e são eles “o desenvolvimento tecnocientífico como desencadeador de mudanças, o sujeito como modo de ser do homem e a mudança como possibilidade de sonhar com o futuro”, que “forneceram o terreno fértil para a narrativa de ficção científica”. De acordo com Alice Fátima Martins (2004, p. 34), as revistas de ficção científica e o próprio gênero literário e cinematográfico ganharam projeção maior no século XX principalmente devido a dois fatores:
Em primeiro lugar, o avanço científico e tecnológico ocorrido desde o início do século XX, impulsionado pela disputa entre as nações industriais, levou à deflagração das duas Guerras Mundiais, cujas terríveis fisionomias superaram em muito a maioria de fantasias imagináveis nos séculos anteriores, servindo de fonte inspiradora para toda uma nova geração de escritores do gênero científico-ficcional. A segunda razão está relacionada à instalação, à época, da indústria cultural, da literatura de massa que, posteriormente, encontrou, na indústria cinematográfica, um veículo imbatível para veicular e vender a públicos de todo o mundo suas metáforas e fantasias. Ou seja, é no contexto de pleno desenvolvimento da ciência moderna na sociedade industrial-capitalista que floresce a literatura e o cinema classificados como ficção científica.
Apesar da divergência de fontes, a referência inicial ao termo “ficção científica” foi feita pela primeira vez em abril de 1926 pelo editor da Amazing Stories, o americano Hugo Gernsback, utilizando-se do termo scientifiction, que logo popularizou-se como science fiction posteriormente com a revista Science Wonder Stories, que teve sua primeira edição publicada em 1929. Gernsback denominou science fiction a literatura com histórias que continham elementos científicos e visão profética em sua narrativa. Em seu livro O que é ficção científica, Bráulio Tavares (1986, p. 11) ainda acrescenta que o autor americano Robert Heinlein propôs o uso do termo “ficção especulativa” (speculative ficction), uma vez que science fiction envolve “ciência” no termo, o que gera cobrança mútua entre cientistas e literatos. De acordo com André Carneiro (1967, p. 05), o termo “ficção científica” recebe diferentes nomenclaturas em outros países, como “ciencia-fiction” na Argentina, “fantascienza” na Itália e literatura de “antecipation” ou “fiction scientifique” na França.
Dentro do gênero de ficção científica foram concebidas inúmeras obras literárias e cinematográficas. Considerando que muitos filmes se apropriaram da literatura, torna-se fundamental abordar narrativas literárias que deram origem ao gênero. Concebida antes mesmo do surgimento do próprio termo science fiction, a famosa história de Frankenstein, escrita por Mary Godwin Shelley em 1818, é classificada como a primeira obra literária de ficção científica. Resumidamente, a narrativa gira em torno de um cientista que se utiliza de pedaços de cadáveres para gerar um novo ser humano, o qual foge do domínio do cientista e passa a ser perseguido pelas pessoas, tornando-se um criminoso.
Porém, muito antes de Shelley, como afirma Carneiro (1967, p. 29), o historiador e filósofo Plutarco (46 a 120 D.C.) escreveu De Facie in Orbe Lunare (Na superfície do disco lunar) pelo ano 100 d.C., uma história sobre um voo espacial, envolvendo a descrição da lua, de seus habitantes e de demônios que viajavam de lá até a terra. Ainda segundo Carneiro (1967, p. 29), outro escritor de destaque foi o francês Cyrano de Bergerac (1620-1655), que escreveu,
em 1650, a obra Voyager aux Etats et Empires de la Lune et du Soleil (Viajando para os estados e impérios da lua e do sol), na qual descreve máquinas falantes e o primeiro pára-quedas. Bergerac vai além, concebe foguetes que viajam até a lua e cria mundos semelhantes ao contemporâneo.
Outros dois autores de grande destaque na ficção científica são Júlio Verne e H. G. Wells. Júlio Verne (1828-1905) recebe a designação de “pai da ficção científica” por Carneiro (1967, p. 39), o qual afirma que as antecipações propostas por Verne foram quase todas atingidas e ultrapassadas. Verne foi o escritor que primeiro caracterizou o gênero ficção científica. H. G. Wells (1866-1946) que, ainda segundo Carneiro (1967, p. 41), é considerado literariamente superior a Júlio Verne, é o escritor de ficção científica responsável por ter desenvolvido alguns dos temas mais explorados pelo gênero literário, como a viagem no tempo, antecipação do futuro, exploração de outros planetas, invasão interplanetária da Terra, universos paralelos, entre outros. Algumas das obras mais conhecidas de Wells são A guerra
dos mundos e O homem invisível. A comparação entre a literatura de Wells e de Verne acontece
principalmente devido ao uso que cada um faz da ciência. Segundo depoimento de Júlio Verne referindo-se a Wells, “eu faço uso da física. Ele, a inventa. Eu chego à lua com uma bala de canhão. Não existe nenhuma fraude nisso. Ele viaja até Marte numa astronave que construiu com um metal que anula a lei da gravidade” (CARNEIRO, 1967, p. 41-42).
Dentre os escritores de ficção científica com produção literária recente está Philip Kindred Dick, conhecido pelas siglas PKD, que escreveu histórias tão inspiradoras a ponto de se tornarem filmes cinematográficos. Seu livro Do androids dream of electric sheep? (Androides sonham com carneiros elétricos?), de 1968, inspirou o filme de projeção internacional Blade Runner (Blade Runner: Perigo iminente, versão brasileira), de 1983, dirigido por Ridley Scott.
Como classificam Tavares (1986) e Oliveira (2006), a ficção científica pode ser dividida em duas fases: The Golden Age e New Wave. De 1939 a 1950, A Idade de Ouro, ou The Golden
Age, teve como grande incentivador dessa geração o editor da revista Astounding stories, John
W. Campbell. Ele revelou alguns dos principais nomes da literatura de ficção científica da época por meio de publicações na revista, como Isaac Asimov, Alfred Elton van Vogt, Arthur C. Clarke, Ray Bradbury, entre outros. Durante o The Golden Age, os principais temas abordados voltaram-se para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, ou seja, demonstrava-se entusiasmo com relação ao progresso científico e à sociedade do futuro. Como Tavares (1986, p. 58) afirma, de 1960 a 1970, no período da New Wave, a literatura de ficção científica explorou formas do universo da mente humana, caracterizando-se por ser mais engajada a questões