O cinema de ficção científica como enunciador do futuro
2.3 Quadro temático: robôs, androides e inteligência artificial
Partimos, como anunciado, da ideia de uma seleção de filmes de ficção científica para posterior aplicação da análise de conteúdo. Para essa seleção, foi preciso estabelecer alguns direcionamentos para que a quantidade de filmes escolhidos não fosse demasiadamente ampla e nem que fugisse do foco principal desta pesquisa. Assim, foi necessário buscar orientações teóricas que colaborassem na etapa prática deste trabalho acadêmico. Gardies traz considerações a respeito da utilização de um conjunto de filmes numa pesquisa e uma maneira de fazer esta escolha:
Se trabalharmos sobre um grupo de filmes, é necessário justificar aquilo que permite constituí-los em corpus e definir os critérios de escolha: temática comum [...], características estéticas ou problemáticas de gêneros, por exemplo. Neste caso, será ainda necessário resolver o problema da quantidade exaustiva: todos os filmes sobre o cinema, escolha de um conjunto de filmes, escolha de amostras em função do seu valor representativo ou estético (GARDIES, 2008, p. 97-98).
Nesta pesquisa, a opção foi pela realização de dois tipos de mapeamento de filmes de ficção científica que contenham pelo menos um personagem artificial (robô, androide ou inteligência artificial). O primeiro desses quadro temático, Quadro 5 27, abrange um período
específico e atual (filmes lançados entre junho/2014 e junho/2018); esse período foi escolhido com a intenção de construir um panorama de representações recentes das tecnologias aqui propostas, para que seja realizada uma possível perspectiva futura de robôs, androides e dispositivos dotados de inteligência artificial a partir do que é apresentado na ficção e que será projetado para um futuro possível, e também como comparação com máquinas e tecnologias já existentes, o que será realizado no tópico “O futuro dos robôs e androides segundo filmes” no Capítulo 3 desta pesquisa. O segundo quadro temático, Quadro 6 28, traz uma seleção de filmes
com os mesmos parâmetros do mapeamento anterior, filmes de ficção científica que contenham pelo menos um personagem artificial (robô, androide ou inteligência artificial), porém o período de análise é mais abrangente e varia desde a primeira produção em que apareceu um robô na narrativa audiovisual até representações de máquinas artificiais em filmes recentes, sendo que há filmes entre 1921 e 2016; esse quadro, diferente do anterior, traz filmes produzidos neste e no século passado, tendo como objetivo mostrar as propostas tecnológicas e sua evolução nos filmes de ficção científica para que, posteriormente, no tópico “O futuro dos robôs e androides
27 O quadro com informações completas está nos apêndices. 28 O quadro com informações completas está nos apêndices.
segundo filmes” do Capítulo 3, os personagens artificiais sejam comparados com tecnologias existentes em nossa sociedade.
O primeiro quadro, Quadro 5 29, consiste na organização de informações pelos anos de
lançamento dos filmes, contendo o título original e em português, o diretor, o país de origem, um resumo do filme e algumas observações focadas nas representações de seres artificiais e personagens de interesse para análise. O foco recai sobre o conteúdo narrativo e as características dos personagens robôs, androides ou inteligência artificial, como são representados na contemporaneidade e quais possíveis tecnologias projetam para o futuro. Um segundo quadro, Quadro 6 30, consiste na disposição de alguns filmes do período de 1921 a
2016, no sentido antes explicitado. Em ordem cronológica, esse quadro mostra a produção de narrativas fílmicas com temática inerente à pesquisa, contendo o título dos filmes em português, o ano de lançamento no Brasil, o nome do(s) ser(es) artificial(is) que participam das narrativas e a imagem dos personagens relevantes para o escopo desta pesquisa. O foco, aqui, consiste em visualizar as semelhanças e diferenças das representações imagéticas das máquinas inteligentes desde suas primeiras aparições no cinema até as mais atualizadas, além da possibilidade de comparação com robôs que existem atualmente.
Todos os filmes do primeiro bloco, ou seja, do Quadro 5 31 (um total de 44 filmes),
foram assistidos e brevemente resumidos; posteriormente, as narrativas mais relevantes para este trabalho foram escolhidas para posterior análise. Por “narrativa relevante” podemos entender aquelas narrativas que têm no personagem artificial, um potencial pertinente de análise e que podem ser encaixados nas categorias de análise, que são: Mulher, Homem, Animal, Máquina e Incorpóreo. Alguns filmes do Quadro 6 32 foram assistidos e neles foram
encontrados diversos modelos de robôs, androides e dispositivos de inteligência artificial. O critério de escolha dos filmes para análise desse segundo bloco foi a temática máquinas que representam personagens do gênero feminino nas narrativas. O interesse pelas representações de figuras femininas tem a ver com o fato de que o androide caracterizado como mulher está presente em diversas narrativas fílmicas recentes e também em filmes antigos, possibilitando a análise comparativa da representação imagética. Assim, a cada filme e com o passar dos anos, a figura da androide ou robô feminina é representada de diferentes formas, sendo ela dotada de funções e comportamentos distintos, para além das semelhanças. A escolha da máquina
29 Ver nos apêndices Quadro 5, no qual estão dispostos filmes que datam entre junho/2014 a junho/2018. Nessa
tabela, os filmes estão dispostos com as seguintes informações: título, país, diretor, resumo e observações.
30 Ver nos apêndices Quadro 6, no qual estão dispostos filmes que datam desde 1921 a 2016. 31 O quadro com informações completas está nos apêndices.
representada pelo gênero feminino também se deu devido o fato de o Quadro 6 ser muito extenso, somando 76 filmes; então, foi decidido que o aprofundamento em narrativas fílmicas desse quadro seria restrito, para que a pesquisadora conseguisse realizar devidamente a pesquisa no tempo proposto e apenas os filmes com personagens femininas foram assistidos e, posteriormente, analisados.
Além disso, um dos filmes que provocou o interesse pela temática da representação feminina é Metrópolis. Tavares (1986, p. 62) indica as características femininas da robô Maria, personagem de Metrópolis, e aponta o que considera como ingenuidade a forma como a robô foi representada na narrativa fílmica, em comparação com a semelhança que as androides contemporâneas têm com mulheres reais.
O robô-mulher do filme Metrópolis, de Fritz Lang (1926), tem um belo corpo, com seios e tudo: é um bom exemplo dessa mistura, hoje meio ingênua, entre máquina e pessoa. A máquina foi perdendo terreno. A evolução de ciências como a Engenharia Genética e a Cibernética, além dos processos técnicos de miniaturização, forneceu base para o uso de imagens como a do androide (criatura artificial idêntica a um ser humano), do cyborg (mistura de homem e máquina – geralmente um ser humano “enxertado” com partes biônicas) e do clone (réplica biológica de um ser humano específico, desenvolvido a partir de células extraídas de seu corpo).
A partir do primeiro mapeamento do Quadro 5 33 foram selecionados tipos
representativos de robôs e escolhidos três filmes de cada tipo para a análise de conteúdo. Essa divisão consiste na representação do robô/ androide /inteligência artificial por personagens: homem, mulher, animal, máquina e incorpóreo. As escolhas se deram a partir de filmes que mostram uma variedade de personagens para análise. Os filmes selecionados para cada tipo representativo são:
• Mulher: Ex_Machina: Instinto Artificial, Hot Bot: Uma Robô Em Minha Vida e Mind and Machine.
• Homem: Uncanny, Passageiros e Marjorie Prime.
• Animal: As Aventuras de Roborex, Mega vs Mecha Shark e Robot World. • Máquina: Chappie, Sem Gravidade... Sem Cérebro... e Max Steel.
• Incorpóreo: Ela, Infinity Chamber e TAU.
O Quadro 1 contém informações de cada filme e personagem citados acima:
Quadro 1: Filmes e personagens para análise (primeiro mapeamento) 34
Fonte: Elaborado pela autora.
Em relação ao segundo grupo de filmes, a escolha se deu por apenas um desses tipos representativos que, como apontado, é o da representação feminina pelas máquinas inteligentes. Nesse ponto da análise, a partir do mapeamento em progressão cronológica, foram selecionados os filmes que tivessem personagens de interesse. As narrativas escolhidas são Metrópolis, A
34 Quadro com as principais informações dos filmes escolhidos do Quadro 5 (ver apêndices). Destaque para os
personagens selecionados para análise, que estão divididos em tipos representativos.
TÍTULO (TÍTULO ORIGINAL) PAÍS ANO DIRETOR NOME DO
PERSONAGEM
MULHER
Ex_Machina: Instinto Artificial (Ex Machina)
Reino
Unido 2015 Alex Garland Ava Hot Bot: uma robô em minha
vida (Hot Bot) EUA 2016 Michael Polish Bardot Mind and Machine (Mind and
Machine) EUA 2017
Brock
Humphrey Maya
HOMEM
Uncanny (Uncanny) EUA 2015 Matthew
Leutwyler David Passageiros (Passengers) EUA 2017 Morten Tyldum Arthur Marjorie Prime (Marjorie
Prime) EUA 2017
Michael
Almereyda Walter Prime
ANIMAL
As Aventuras de RoboRex (The Adventures of RoboRex)
Reino
Unido 2014
Stephen
Shimek Roborex Mega shark vs. Mecha shark
(Mega shark vs. Mecha shark) EUA 2014
Emile Edwin
Smith Mecha Shark
Robot World (Robot World) Reino
Unido 2015 Neil Rowe
Robô de estimação de James/ sem nome
definido MÁQUINA Chappie (Chappie) EUA, África do Sul
2015 Neil Blomkamp Chappie
Sem gravidade... sem
cérebro... (Space station 76) EUA 2014 Jack Plotnick Dr. Bot
Max Steel (Max Steel) EUA 2016 Stewart
Hendler Steel