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A PESSOA IDOSA NO TEMPO DO CAPITAL: responsabilidade de quem?

VITORINO, Fausto Petry, Jozadake 1 FUCHS, Andréa Márcia Santiago Lohmeyer2

RESUMO:

A longevidade tem mudado o cenário atual e em breve seremos majoritariamente idosos. O cenário de perdas de direitos sociais, sobretudo a proteção social advinda do mundo do trabalho, tem imposto à população idosa desafios importantes; também para a família e principalmente para o Estado. Este artigo pretende discutir os desafios da população idosa nessa sociedade capitalista, organizada numa estrutura social de classes antagônicas, na qual as oportunidades e condições de vida são desiguais, o que a torna complexa e desorganizada socialmente. A pergunta a ser problematizada é: de quem é a responsabilidade em assegurar que a população idosa possa viver essa etapa da vida com dignidade e cuidado? Entendemos que, para o envelhecimento saudável, digno e com cidadania, é preciso politicas públicas que compreendam as demandas e que estas sejam respostas àquelas. PALAVRAS-CHAVE: Estado; Políticas Públicas; Envelhecimento; Pessoa idosa; Longevidade.

1 INTRODUÇÃO

Em nosso País, o envelhecimento populacional está relacionado ao aumento da expectativa de vida e à diminuição da taxa de fecundidade. Todavia, entre 2016 e 2017, houve um pequeno acréscimo (3 meses e 11 dias) na expectativa de vida dos brasileiros idosos, elevando-se assim a média de idade dos brasileiros para 76 anos. Para os homens, a estimativa de vida passou de 72,2, em 2016, para 72,5 anos, em 2017 e, para as mulheres, no mesmo período, foi de 79,4, elevando-se para 79,6 anos, respectivamente (BRASIL, 2017). Na contemporaneidade, enfrentamos uma das mais notáveis conquistas do ser humano: a longevidade. O desafio está posto, “Mas como viver bem os muitos anos que estão reservados a uma crescente parcela da população dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, como é o caso do Brasil?” (BRANDÃO; MERCADANTE, 2009, capa).

O que se constata é um país heterogêneo, abarrotado de contrastes, pois, ao lado de um Brasil rico, existe outro muito pobre. Nesse último, encontra-se a população com pouca ou nenhuma renda; tendo um contingente populacional significativo residindo nos grandes centros urbanos em aglomerados urbanos e, nesse quantitativo populacional, os idosos sobrevivem numa realidade de miséria, pobreza e/ou situação de rua. Também não podemos

1 [email protected]. Assistente Social pela UFSC e Especialista em Políticas Sociais Integradas pela

Universidade Estácio de Sá. Florianópolis (SC).

2 [email protected]. Assistente Social. Docente do Departamento de Serviço Social da UFSC. Dra.

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nos esquecer daqueles que vivem em áreas rurais e que possuem demandas e necessidades importantes para que tenham assegurada uma velhice digna (VITORINO, 2019).

O aumento da expectativa de vida aliado ao desmonte das políticas públicas, sobretudo sociais que atendam as demandas e necessidades da população idosa, certamente levará o Estado brasileiro a enfrentar ainda mais situações críticas no ambiente social: tendência de aumento nas perdas dos papéis sociais, como o desprezo, o abandono e situação de rua em que muitos já se encontram.

Com relação à idade avançada, é preciso dizer que, para que se possa viver bem a velhice, é necessário se organizar ao longo da vida, planejar, poupar e, assim, edificar um “belo projeto de vida”. Além disso, a preparação para a chegada da velhice — e com ela a aposentadoria —, a busca pela felicidade deverá se pautar na edificação de um projeto de vida que contemple essa nova fase, possibilitando à pessoa apropriar-se de seus anseios, desejos, motivações.

Contudo, no mundo do trabalho capitalista, o interesse das classes trabalhadoras não conta, o poder se concentra nas mãos de poucos, e estes não demostram nenhum tipo de esforço em compartilhar. Todavia, para atender a crescente demanda do envelhecimento populacional no Brasil, na esteira da Constituição Federal Brasileira de 1988, foram asseguradas questões pontuais sobre o envelhecimento e os direitos da pessoa idosa. Para implementar as garantias, em 1994, pela Lei 8.842, foi criada a Política Nacional do Idoso, regulamentada pelo Decreto 1948/94 e também o Estatuto do Idoso, por intermédio da Lei 10. 741 de 2003, visando garantir os direitos dos idosos na velhice.

Com efeito, a velhice humana traz uma série de desafios tanto para a pessoa idosa como para os familiares, pois as consequências da idade avançada, as altas despesas diante da necessidade do custo e manutenção da dignidade humana fazem com que grande parte das famílias, ainda que sem grandes recursos, assumam as responsabilidades com seus idosos devido à ausência do Estado no que tange à efetivação das políticas públicas e de cuidados com a pessoa idosa.

Fato é que, com a chegada da velhice, as aptidões funcionais mudam muito em razão do processo de envelhecimento. Entre elas estão o vigor muscular, a resistência cardiovascular, a mobilidade e também o equilíbrio. Porém, o que realmente mudou foi a percepção que o idoso tem de si mesmo, pois os idosos de hoje não são os mesmos de anos passados. Percebe-se que, em dias atuais, mesmo diante de algumas dificuldades, existe o interesse maior em se cuidar, visando a uma vida mais longa e assim desfrutar da conquista de seus diretos com qualidade de vida.

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2 O ENVELHECIMENTO NO BRASIL E OS DESAFIOS DA PESSOA IDOSA NO TEMPO DO CAPITAL: RESPONSABILIDADE DE QUEM?

Como podemos observar, a velhice e o envelhecimento no mundo contemporâneo tendem a ser representados por ambiguidades sociais e antagonismos entre a riqueza e a pobreza. Entretanto, o advento do “longe viver” e os efeitos para os indivíduos que gozam dos privilégios do “que o estar no mundo lhes pode proporcionar” devem ser vistos como oportunidade única, cabendo-lhes o direito do exercício da cidadania.

Assim,

Ao se falar em velhice, é preciso olhar a sua complexidade desse campo e suas múltiplas determinações nas relações com a demografia, com as perdas biológicas de funcionalidade e sociais no processo de trabalho, de trocas em diversos âmbitos (família, amigos, gerações, cultura), e de estilos de vida (FALEIROS, 2014, p. 6). Com efeito, a longevidade, conforme dito, é uma das mais notáveis conquistas do desenvolvimento humano, entretanto trouxe uma série de desafios e consequências para a família e também para o Estado brasileiro. Parte desses desafios está relacionada às aposentadorias e ao compromisso por parte do Estado de uma renda capaz de garantir uma aposentadoria digna para a pessoa idosa, já que um grande contingente dessa população recebe apenas um salário mínimo para garantir a sua sobrevivência.

Logo, a renda impacta sobremaneira na qualidade de vida do idoso e também da família, que muitas vezes partilha à renda. Essa é convocada – pela ausência ou insuficiência da ação do Estado – a ser a provedora, organizadora, viabilizadora e financiadora de atividades de seus idosos. Essa responsabilidade diante das necessidades e demandas da população idosa, transfere unicamente para a família os cuidados com a sobrevivência, cuidados com a saúde nos casos de adoecimento (que envolve as intervenções médicas, medicamentos e hospitalares, atendimento domiciliar com cuidados em idosos com doenças, por exemplo, degenerativas), cuidados com a oferta de lazer (como prevenção à doença e fortalecimento), que assegure aos idosos maior qualidade de vida. Por sua natureza social, a família, nas suas mais diversas configurações, constitui-se como um espaço complexo. Para Mioto (2010) a família

É construída e reconstruída histórica e cotidianamente, através das relações e negociações que estabelece entre seus membros, entre seus membros e outras esferas da sociedade e entre ela e outras esferas da sociedade, tais como Estado, trabalho e mercado. Reconhece-se também que além de sua capacidade de produção de subjetividades, ela também é uma unidade de cuidado e de redistribuição interna de recursos. Portanto, ela não é apenas uma construção privada, mas também pública e tem um papel importante na estruturação da sociedade em seus aspectos sociais, políticos e econômicos (MIOTO, 2010, p. 167 – 168).

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E completa dizendo que nesse contexto “é a família que cobre as insuficiências das políticas públicas, ou seja, longe de ser um “refúgio num mundo sem coração é atravessada pela questão social” (MIOTO, CAMPOS, LIMA, 2004 apud MIOTO, 2010, p. 168).

O fracasso das famílias é entendido como resultado da incapacidade de gerirem e otimizarem seus recursos, de desenvolverem adequadas estratégias de sobrevivência e de convivência, de mudar comportamentos e estilos de vida, de se articularem em redes de solidariedade e também de serem incapazes de se capacitarem para cumprir com as obrigações familiares (MIOTO, 2010, p. 170).

Mioto (2010) traz luz a essa reflexão ao apontar que atualmente, ainda vigoram duas propostas em disputas no pensamento em relação à intervenção no trabalho com famílias. E essas concepções3 em disputa atravessam o campo da ação e intervenção pública: a proposta familista e a proposta protetiva. No entendimento da autora o pensamento vigente vem na direção familista de responsabilização da família pelos cuidados e, sobretudo pelo fracasso nas famílias nesse cuidado, incluído nessa reflexão o idoso. A luta e a disputa está justamente em reverter na direção protetiva da intervenção junto à família no contexto das políticas públicas.

Todavia, apesar disso, a todo instante é falado que devemos ter uma vida saudável, que, com a idade, torna-se indispensável à prática de exercícios físicos, que devemos ter uma boa alimentação, que é importante desenvolvermos alguma atividade para ocuparmos o tempo, porém as motivações e reais possibilidades na busca pela felicidade demandam principalmente saúde e recursos financeiros.

Seguindo esse pensamento, nos últimos anos, percebe-se uma grande mudança nas atitudes das pessoas idosas e, entre elas, podemos citar o fato de que elas se sentem motivadas diante das atividades que lhes são propostas, são criativas e apresentam maior capacidade na busca por soluções de problemas.

Nesse sentido, Colom e Zaro (2007), explicam que, lamentavelmente, ainda existe a visão estereotipada sobre a velhice e, sobretudo, porque muitos ainda nomeiam os pós-60 sustentados nos preconceitos e em mitos a respeito desse fenômeno:

Os estereótipos, em geral, concedem à velhice uma realidade negativa. O consenso social aceita como fatos inevitáveis uma perda de capacidades mentais, perda de memória, saúde vulnerável, padecimento constante de doenças ou reclamos de atenção. Essas perdas/características parecem justificar uma conduta estereotipada associada a termos, como “acabado”, “inútil”, “doente”, “incapaz”, “improdutivo”, “dependente” e “carga social”, levando a pessoa à rejeição e à marginalização social (COLOM; ZARO, 2007, p. 309).

3 Esse debate além de direcionar o campo de atuação das políticas públicas, inside diretamente na atuação do

assistente social. Mioto afirma que: “Dessas afirmações decorre uma questão fundamental para o Serviço Social, que é a demarcação do foco de interesse quando se pensa a questão da família. Nesse sentido, considerando que o objeto de trabalho dos assistentes sociais são as expressões da questão social e que as ações destes profissionais incidem diretamente na construção da proteção social na perspectiva dos Direitos, obviamente o foco de interesse central do Serviço Social é a relação família e proteção social” (MIOTO, 2010, p. 169).

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Como bem nos assegura Abreu (2017, p. 24), do ponto de vista de sua interação com os outros, a população de velhos está aumentando tanto, no Brasil e no mundo, que será impossível não interagir com ela”. A idade é uma construção social, assim como as outras fases da vida. Para ela, a infância, adolescência, a idade adulta e a velhice são fases ocasionadas dessa construção. E continua: fases construídas e demarcadas, porém reguladas pela sociedade, logo, na idade adulta a pessoa deve trabalhar, estudar se preparar e produzir para quando a velhice chegar, dela desfrutar com dignidade, cidadania, tranquilidade.

Assim, o desafio posto é no sentido de como vamos abranger essa grande massa de idosos que está por vir no mercado de trabalho no tempo do capital. Brandão e Mercadante (2009, p. 104) afirmam:

Muitos são os desafios — reais e concretos — e, para enfrentá-los, a “receita” é muito trabalho, disposição e o engajamento político de cada um e de toda a sociedade. Além dos ganhos trazidos pela tecnologia que cura e prolonga o tempo de vida, devemos considerar como fundamental a ampliação do espaço social, na promoção da atuação efetiva de todos os cidadãos e, especialmente, dos indivíduos acima de 60 anos. Ouvir sempre calados — o que pensam, planejam e desejam para o futuro? Quais as suas demandas e projetos (BRANDÃO; MERCADANTE, 2009, p. 104).

O Estatuto do Idoso, Lei 10.741 de outubro de 2003, Capítulo I, art. 8º, declara o direito de todas as pessoas envelhecerem com dignidade e respeito, e o art. 9º dispõe sobre a responsabilidade do Estado na garantia da saúde, de segurança e da obrigação de formulação de novas políticas públicas que contemplem a pessoa idosa (BRASIL, 2003):

Art. 8º O envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social, nos termos desta Lei e da legislação vigente. Art. 9º É obrigação do Estado garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade (BRASIL, 2003, p. 2).

A definição legal da responsabilidade política, social e econômica do Estado nas respostas às demandas da população idosa precisa ser pensada considerando a questão da discriminação e preconceito com o “ser idoso/a”. Faleiros (2014, p.18) contribui dizendo:

Idosos têm direitos enunciados e definidos, mas a violação desses direitos é um dos principais obstáculos à inserção social da pessoa idosa, com destaque para a discriminação e o preconceito. A luta contra a descriminação é fundamental num processo de educação para o envelhecimento e sobre o envelhecimento e velhice. É preciso romper o silêncio sobre a velhice e abrir espaços na escola, na família, nas pesquisas e na sociedade para se falar abertamente dessa questão (FALEIROS, 2014, p. 18).

Com efeito, podemos envelhecer com qualidade de vida praticando atividades físicas, comendo alimentos saudáveis e de boa qualidade, indicados especialmente para boa alimentação, mas como, se muitos não têm as mínimas condições para sobreviver? Assim, “A velhice é um objeto social polissêmico justamente pela impossibilidade de tratá-la como um fenômeno homogêneo” (TORRES et al., 2015, p. 3622). Percebe-se, então, que o

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envelhecer é amplo, e que não existe fórmula perfeita para longe viver, podendo ele variar dependendo das condições de vida de cada um.

Nesse sentido, é necessário efetivar políticas, programas e serviços públicos e sociais que venham atender as reais demandas dessa população. Além disso, é fundamental um estudo de realidade atual que traga elementos aproximados da caracterização dessa população idosa atual, conectada e distante do imaginário social do “bom velhinho de chinelo e roupão”, que ficava dentro de casa cuidando de netos.

Ao entendermos que a questão social “diz respeito ao conjunto das expressões das desigualdades sociais engendradas na sociedade capitalista, impensáveis sem a intermediação do Estado” (IAMAMOTO, 2001, p. 15), e pensarmos as demandas trazidas pela população idosa, que sofre com as consequências da dinâmica capitalista excludente, estaremos situando a problemática do envelhecimento e da população idosa no contexto das expressões da questão social.

Com a velhice, o homem vai sendo considerado improdutivo aos olhos do capital. Para Canôas (1985 apud SINGER, 1995, s/p.) “[...] o velho não se retira da atividade econômica, mas é impelido a isto, embora tenha a necessidade de melhorar seus rendimentos. O que acontece então, nesse caso”, acrescenta o autor, “é o chamado ‘desemprego oculto’, pois não aparece nas estatísticas”.

Impelidas à condição de descarte pela suposta improdutividade na esfera econômica, muitas famílias, das quais os idosos compõem o núcleo familiar, são afetadas pela instabilidade ou ruptura com o mercado formal de trabalho. Mioto (1997) corrobora Figueiredo e Moser (2013) quando diz que, a partir do momento em que as famílias não encontram mais alternativas para garantir as mínimas necessidades do cuidado, estejam “doentes ou não”, elas começam a expressar situações de dificuldade e desequilíbrio familiar. Atualmente, alguns membros das famílias encontram dificuldades em conseguir trabalho e qualificação profissional o que, por consequência, leva-os ao desemprego, à falta de moradia digna e ausência de alimentação adequada. Todos esses fatores impossibilitam ou dificultam às famílias alcançarem a proteção a seus membros e isso impacta diretamente a vida do idoso, que também se encontra desprotegido ou com uma “proteção fragilizada”, aquém das suas demandas e necessidades sociais.

Nesse sentido, entendemos que a questão do envelhecimento no contexto da dinâmica capitalista provoca inúmeras demandas e necessidades, e assim a problemática trazida pela população idosa circunscreve-se como expressão da questão social provocada pela desigualdade social. Sendo assim, exige necessariamente a intervenção do Estado, conforme afirma Iamamoto (2001, p. 15).

Por intermédio da Lei Federal 10.741/2003, no contexto de reconhecimento da população idosa como sujeitos de direitos, foi assegurado:

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O idoso goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo de proteção integral de que trata essa Lei, assegurando-se, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade (BRASIL, 2003, p. 11).

Seguindo esse entendimento, é certo que, no plano formal, a população idosa tem os seus direitos (sociais, políticos e civis) garantidos pela CF/88. Contudo, essas garantias têm concretamente assegurado as oportunidades necessárias para que possam viver uma velhice “saudável, de respeito, dignidade e segurança em todos os espaços?

Coutinho (1997), ao discutir a cidadania, entende que ela só é possível com a mínima riqueza “espiritual e material” estabelecida pelo coletivo. Cidadania, para o autor, é “[...] a capacidade conquistada por alguns indivíduos de se apropriarem dos bens socialmente criados, de atualizarem todas as suas potencialidades de realização humana abertas pela vida social em cada contexto historicamente determinado” (COUTINHO, 1997, p. 146). E acrescenta dizendo que a ampliação da cidadania acaba por se chocar com a lógica do capital, pois existe um antagonismo que é estrutural entre A universalização da cidadania e a lógica do modo de produção capitalista.

O Estatuto do Idoso, na Lei 10.741, de 1º de outubro de 2003, Capítulo II, em seu art. 10 (BRASIL, 2003) define:

Art. 10 – É obrigação do Estado e da sociedade assegurar à pessoa idosa a liberdade e a dignidade, como pessoa humana e sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais, garantidos na Constituição e nas leis. § 1º O direito à liberdade compreende, entre outros, os seguintes aspectos: I – Faculdade de ir e vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários ressalvadas as restrições legais; II – opinião e expressão; III – crença e culto religioso; IV – prática de esportes e de diversões (BRASIL, 2003, p. 19).

Porém, existe um hiato entre o direito legalmente disposto e o direito real vivido no cotidiano das famílias que convivem com idosos. O não alcance da população idosa aos seus direitos assegurados transfere muitas vezes para a família o cuidado; e esse, muitas vezes consegue apenas assegurar a sobrevivência.

[...] ausência de suporte de outros membros familiares e de serviços públicos resultam na exclusão do mercado de trabalho (e consequentemente perda de renda), pouca sociabilidade, dificuldades na promoção dos cuidados e falta de tempo para atividades pessoais. Assim, aumenta a sobrecarga aos cuidadores e a pouca visibilidade na atividade de cuidar (SILVA; WIESE, 2016, p.11).

Nesse sentido, histórica e culturalmente, as famílias vêm assumindo a maior parte do cuidado com o idoso, configurando-se, como bem nos asseguram Figueiredo e Moser (2013), como um desafio diante desse novo ciclo da vida. Assim, “[...] a família toma para si a responsabilidade pelos seus membros e enfrenta uma série de consequências naturais da evolução do ser humano. Entre elas, destaca-se o envelhecimento e a atividade do cuidado com o idoso, doente ou não” (FIGUEIREDO; MOSER, 2013, p. 2). Por isso,

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[...] o ciclo vital da família é uma sequência de transformações na organização familiar, ou seja, é a evolução histórica da família, onde as mudanças têm a ver com o desenvolvimento dos seus membros. No geral, a família desempenha dois papéis principais que caracterizam o ciclo vital, que são a função interna — proteção dos familiares que a compõem — e função externa, que é a socialização e transmissão de tradições e culturas. Quando a família assume o cuidado de uma pessoa idosa, ela encontra-se na fase madura ou fase última (FIGUEIREDO; MOSER, 2013, p. 3). Entretanto, Medeiros (2016, p. 19) diz: “Outro aspecto a se considerar é o equívoco de se compararem as diversas famílias à experiência particular, como se todas elas funcionassem de uma só maneira, não possuindo suas próprias dinâmicas e padrões internacionais e de funcionamento”. Assim, para se viver a velhice, é preciso ter conquistado ao longo da vida o capital financeiro e familiar. É necessário construir e cultivar novos relacionamentos de amizade, ter bons hábitos alimentares e também desenvolver algum tipo de atividade física para garantir o equilíbrio e a manutenção da saúde, se ainda não o tiver feito, e assim preservar a saúde o quanto pode.

Por fim, a contradição entre o direito real e o direito legal mantém grande parte da população idosa, principalmente aquela que demanda ações e investimentos das políticas públicas sociais, na categoria de subcidadão. A ausência ou ineficiência do Estado nas respostas públicas a demandas e necessidades da população idosa transfere para o indivíduo idoso e/ou para sua família a responsabilidade precípua que é de o Estado assegurar a todos os idosos os seus direitos humanos fundamentais.

É certo que os avanços alcançados nos marcos normativos e regulatórios aconteceram, mas permanece o desafio de efetivação dos direitos dos idosos conforme preveem suas legislações.

3 CONCLUSÃO

Muitos são os desafios a serem enfrentados em nosso país, graves são as falhas no sistema básico de atendimento à saúde, e principalmente na educação do povo brasileiro, deixando-se muito a desejar nos serviços públicos prestados a todas as faixas etárias da nossa população.

Vimos, na discussão aqui proposta, que os avanços científicos e outras melhorias provenientes do desenvolvimento econômico, social, cultural no País tem aumentado a expectativa de vida. Inversamente proporcional a esses avanços, o acesso aos benefícios desse desenvolvimento tem sido cada vez mais restrito e direcionado para um segmento específico de classe. A população idosa, em grande parte, não tem conseguido acessar eses avanços necessitando cada vez mais da intermediação do Estado em garantir acesso a serviços que assegurem sua sobrevivência, bem-estar e qualidade de vida.

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A realidade atual de perdas de direitos sociais, sobretudo a proteção social advinda do mundo do trabalho, tem imposto à população idosa desafios importantes; para a família e principalmente para o Estado, tendo em vista que a dinâmica social capitalista complexa reproduz oportunidades e condições de vida desiguais.

Nesse contexto, as famílias, por vezes, encontram-se sobrecarregadas com os cuidados para com o idoso, pois eles demandam gastos financeiros, esforços físicos e principalmente tempo despendido. Diante da complexidade do assunto, é necessário mais uma vez dizer que é preciso inovar e formular políticas públicas integradas que contemplem as reais necessidades dessa grande massa de idosos que está por vir, muitos deles adoecidos, acamados, abandonados.

Diante disso, é necessário que o Estado brasileiro se comprometa a ofertar um conjunto de ações que possibilitem o acesso da população idosa aos seus direitos, sobretudo aquela que se encontra em condição vulnerável aos serviços públicos, conforme demandas e necessidades sociais. Além disso, é fundamental a formulação de novas políticas públicas e que sejam de fato efetivadas para atender a população em geral, mas principalmente a pessoa idosa que, no tempo do capital, necessita sair da invisibilidade perversa.

REFERÊNCIAS

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