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Os leitores e as práticas de leitura na Biblioteca Municipal de Valinhos

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO

LARA ELISA LATANCIA

OS LEITORES E AS PRÁTICAS DE LEITURA

NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE VALINHOS

CAMPINAS

2016

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LARA ELISA LATANCIA

OS LEITORES E AS PRÁTICAS DE LEITURA

NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE VALINHOS

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestra em Educação, na área de concentração de Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte.

Orientadora: Profª. Drª. Norma Sandra de Almeida Ferreira

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO LARA ELISA LATANCIA, E ORIENTADA PELA PROFA DRA. NORMA SANDRA DE

ALMEIDA FERREIRA.

CAMPINAS 2016

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FACULDADE DE EDUCAÇÃO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

OS LEITORES E AS PRÁTICAS DE LEITURA

NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE VALINHOS

Autor : Lara Elisa Latancia

COMISSÃO JULGADORA:

Orientadora: Profª. Drª. Norma Sandra de Almeida Ferreira

Profª. Drª. Claudia Beatriz de Castro Nascimento Ometto

Profª. Drª. Maria Betanea Platzer

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Ao meu avô João, por , com sua simplicidade, ter me ensinado sobre a preciosidade do livro.

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Agradecimento

Primeiramente agradeço à Deus por permitir a realização do desejo de ingressar no Mestrado e realizar esta pesquisa; agradeço ainda por colocar em minha vida e meu caminho pessoas tão especiais sem as quais este trabalho não teria se concretizado:

- Meus pais, Carlos e Maria do Carmo, e meu irmão, Gabriel, que me apoiaram incondicionalmente sempre!

- Meu namorado, noivo, amigo e, agora, esposo, Fernando, sempre paciente, carinhoso e me apoiando em todos os momentos.

- Meus sogros, Deborah e Gil, agradeço pelo meu maior presente, Fernando. (Um obrigada especial ao meu sogro por me socorrer quando meu computador decidiu não funcionar mais e quase perder toda minha pesquisa!)

- Minha orientadora, Profª Norma, sempre carinhosa, dedicada e pronta para me receber (e também responder e-mails, Whatsapp). Obrigada por me mostrar que posso sempre crescer na escrita e me ajudar durante todo o processo de amadurecimento como pesquisadora.

- Meus colegas alleados: Sue Ellen e Janaína e todos os colegas que ingressaram comigo na Pós em 2012; Mariana, Andréa, Daniele, Thaís, André: é muito bom conviver e aprender com vocês; Maria das Dores, amiga tão carinhosa e revisora tão minuciosa!

- Os amigos de hoje e sempre: Leo, Vini, Tiago, Pedro, Camila, Paty, Bru, Amanda, Igor.

- Minhas colegas de profissão, professoras do Colégio Fundamentum, com quem convivo e aprendo diariamente: Karina, Alexandra, Adriana M., Tânia, Laura, Andréa, Marielle, Adriana F., Regiane, Thuany e todos os outros professores do Colégio que me ajudam a ser uma professora melhor a cada momento.

- As professoras que fizeram parte de minha banca de qualificação e de defesa: Lilian, Betânea, Claudia e Ilsa, agradeço pela leitura cuidadosa e por todas as contribuições!

- Todos os funcionários da Biblioteca Municipal de Valinhos: agradeço por, novamente, me receberem com carinho e disponibilidade, colaborando de forma decisiva para o sucesso desta pesquisa.

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Resumo

Esta pesquisa teve como objetivo conhecer os leitores da Biblioteca Municipal de Valinhos Dr. Mario Correa Lousada. Buscamos compreender, no polo das práticas, os modos como os leitores circulam e habitam este espaço; o que leem, como e porque fazem determinadas escolhas de livros e leituras; enfim, seus comportamentos em contato com o livro e outros suportes oferecidos pela Biblioteca de Valinhos. Este estudo se insere no campo da História Cultural, em especial no que se refere às contribuições teóricas de Michel de Certeau (1994, 2013) e Roger Chartier (1991, 1998, 1999, 2002a, 2002b, 2004, 2011). A pesquisa, de natureza quanti-qualitativa, fez uso de fontes como: dados do sistema de cadastros digitais da Biblioteca, observações realizadas neste espaço no período de agosto de 2013 a junho de 2014 e registradas em um caderno de campo, além de entrevistas informais com cinco leitores selecionados por apresentarem práticas de leitura que se destacaram ao longo das observações. A análise dos cadastros indicou a maioria dos leitores sendo do sexo feminino, na faixa etária de 10 a 19 anos, ou seja, estudantes frequentando, principalmente, o Ensino Fundamental. Apesar desta maioria, as observações mostram grande presença de homens, em especial, idosos, além de mães acompanhadas de seus filhos (ou não). Há ainda uma significativa quantidade de leitores da área da Educação e uma grande variedade deles distribuídos em outras profissões, indicando a leitura como uma prática cultural atual, presente e valorizada pela população em geral. São diferentes usos que movimentam esta Biblioteca: posições do corpo que lê, maneiras e finalidades de ler também diversos. As práticas de leitura estão principalmente relacionadas à escola e também aos modos contemporâneos proporcionados pelo acesso dos leitores à informática e ao mundo digital, pela internet.

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Abstract

The objective of this study was to evaluate who the readers in Municipal Library of Valinhos are. We sought to understand the way the readers were involved and using that space, what they usually read, how and why they make certain choices of books and readings. In general, their behavior regarding books and other media offered by the library. This study is situated in Cultural History, particularly regarding the theoretical contributions of Michael de Certeau (1994, 2013) and Roger Chartier (1991, 1998, 1999, 2002a, 2002b, 2004, 2011). This study has a prospective with quali-quantitative approach. It used sources such as system data from registers of the digital library, observations made from August 2013 to June 2014 in the library, and later registered in a field book and also informal interviews with five readers. Those specific readers were chosen because of their reading practice which stood out during the observations. Analyzing the records made it possible to observe that most readers were 10 to 19-year-old females, which indicates they were possibly elementary and middle school students. Despite the vast majority, the observation has also shown a large presence of men, particularly elderly, in addition to mothers accompanied or not by their children. There is a significant amount of readers from educational fields and a large number of them with different occupations as well, which indicates that reading is still a present, appreciated and valued practice in our society. Several uses can be seen in this library: different body positions from the readers and a number of ways and purposes for the reading. The reading practice are mainly related to school and also to contemporary modes offered to the readers by their access to the digital world and the Internet.

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Lista de tabelas

Tabela 1 - Dados referentes a cadastros ativos no período da pesquisa (2013 a 2014) – Total de

cadastros e data de nascimento. ... 80

Tabela 2 - Cadastros ativos 2013/2014 – Curso. ... 105

Lista de gráficos Gráfico 1 - O que a biblioteca representa. Fonte: relatório da pesquisa Retratos de Leitura no Brasil (2012). ... 33

Gráfico 2 – Dados de cadastros de usuários ativos e vencidos ... 69

Gráfico 3 – Porcentagem de leitores cadastrados de acordo com o gênero. ... 77

Gráfico 4 - Porcentagem de leitores cadastrados de acordo com a faixa etária. ... 83

Lista de imagens Imagem 1 – Tirinha Mafalda. ... 14

Imagem 2 - Leitores de jornal (CHARTIER, 1998, p. 83) ... 91

Lista de fotografias Foto 1 – Fachada da Biblioteca. ... 58

Foto 2 – Fachada da Biblioteca. ... 58

Foto 3 - Saguão de entrada, vista da porta de entrada. ... 59

Foto 4 - Balcão de atendimento, localizado à direita da porta de entrada. ... 59

Foto 5 – Terminal de Consulta. ... 60

Foto 6 - Sala de Literatura Nacional e Internacional. ... 60

Foto 7 - Corredor de acesso às salas. ... 61

Foto 8 - Hemeroteca. Localizada nas estantes do corredor. ... 61

Foto 9 - Sala de pesquisa e estudo. ... 62

Foto 10 - Sala de pesquisa e estudo. ... 63

Foto 11 - Sala de pesquisa e estudo. ... 63

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Foto 13 - Sala de Literatura Infantil. ... 65

Foto 14 - Sala de Literatura Infantil. ... 65

Foto 15 - Sala de Literatura Infantil. ... 65

Foto 16 - Estante de sugestões na sala de Literatura Infantil. ... 66

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Sumário

Introdução ... 12

Capítulo I - A biblioteca na trajetória de formação de uma leitora ... 14

1.1 A formação de uma leitora... 18

1.2 Um exercício de pesquisa ... 22

1.3 A leitora que se torna pesquisadora e, também, professora ... 26

Capítulo II - A biblioteca e os leitores: objeto de estudo e pesquisa ... 30

Capítulo III - Os caminhos percorridos ... 43

3.1 Os leitores cadastrados ... 45

3.2 Os leitores de carne e osso ... 50

3.3 Conhecendo o espaço da Biblioteca de Valinhos ... 58

Capítulo IV - A Biblioteca de Valinhos e seus leitores: o objeto desta pesquisa... 67

4.1 Total de cadastros e usuários com cadastro ativo ou vencido ... 67

4.2 Gênero e faixa etária dos leitores ... 77

4.2.1 Jornais e revistas ... 85

4.2.2 Retirada de livros... 92

4.2.3 Aulas de Informática ... 99

4.3 Profissão e curso frequentado ... 104

4.4 Os funcionários ... 108

Considerações finais ... 112

Referências ... 118

Anexo ... 124

Anexo 1 – Termo de Consentimento ... 124

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Introdução

Um interesse em fazer pesquisa, construído no desenvolvimento da Iniciação Científica e no Trabalho de Conclusão de Curso, realizados na graduação; o encanto por um espaço de leitura como o da biblioteca, em especial o da Biblioteca Municipal de Valinhos, tão importante em minha formação; o amor pela leitura e pelos livros; um incômodo por me deparar com tantos discursos contraditórios sobre a leitura. Foi nestas condições que esta pesquisa de mestrado foi gerada.

Neste trabalho, colocamos como objetivo conhecer os leitores da Biblioteca Municipal de Valinhos Dr. Mario Correa Lousada. Buscamos compreender, no polo das práticas, os modos como os leitores circulam e habitam este espaço; o que leem, como e porque fazem determinadas escolhas de livros e leituras; enfim, seus comportamentos em contato com o livro e outros suportes oferecidos pela Biblioteca de Valinhos. Assumimos como fontes de pesquisa observações da rotina da Biblioteca, informações do banco de dados digital dos usuários e curtas entrevistas com alguns leitores, buscando conhecer os comportamentos e práticas, usos e representações presentes neste espaço de leitura.

Este texto está organizado em quatro capítulos. No primeiro, é apresentada minha trajetória de formação de leitura, desde a infância e período escolar básico até o ensino médio, a escolha de uma profissão e minha formação como professora e pesquisadora. Foram incorporados os resultados de pesquisa feita anteriormente (LATANCIA, 2011), assim como os questionamentos e dúvidas que me impulsionaram para o ingresso no Mestrado.

O segundo capítulo apresenta pesquisas que se aproximam deste nosso trabalho e que com ele contribuem, buscando, em especial, aquelas do grupo a que pertencemos, o ALLE (Alfabetização, Leitura e Escrita, da FE/Unicamp).

O terceiro capítulo é constituído pelas opções e procedimentos metodológicos que compõem o trabalho, trazendo autores que ajudaram a traçar caminhos na busca e composição das fontes de pesquisa. São descritas

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as etapas percorridas e os obstáculos encontrados para que pudessem ser acessados os cadastros dos leitores da Biblioteca e para a construção do caderno de campo. São apresentados também os critérios para a escolha dos leitores entrevistados e para a condução do momento da conversa com eles, além de sinalizar a maneira como seria realizada a análise das anotações do caderno de campo e das entrevistas. Ao final deste capítulo, encontra-se ainda uma pequena narrativa que apresenta (com fotos) o espaço da Biblioteca de Valinhos.

O quarto capítulo traz a análise dos dados coletados ao longo de 2013 e 2014. São apresentados os números acessados no cadastro digital, além dos dados que indicaram o gênero, a faixa etária e a profissão dos leitores da Biblioteca de Valinhos. Juntamente com estes dados, foram analisadas as anotações do caderno de campo, identificando-se as práticas de leitura que foram observadas. Além disso, o capítulo apresenta as entrevistas realizadas com cinco leitores escolhidos por apresentarem práticas que, de alguma forma, se destacaram durante o período das observações de campo.

Nas considerações finais, retomamos o “perfil” de leitor que pudemos identificar ao longo da análise, destacando ainda suas principais práticas e comportamentos neste espaço de leitura. Esperamos, assim, ter construído uma imagem dos leitores da Biblioteca Municipal Dr. Mario Correa Lousada, de Valinhos - SP.

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Capítulo I - A biblioteca na trajetória de formação de uma

leitora

Imagem 1 – Tirinha Mafalda.

O quadrinho retratado acima, encontrado por acaso em uma página compartilhada do Facebook, traz, em palavras, uma inquietação relacionada à valorização da biblioteca (ou, neste caso, à sua desvalorização) pela sociedade, em relação a outros espaços destinados à cultura em geral. O autor Quino1 sugere, através da fala de Mafalda - com ironia e a partir de uma

representação da criança ingenuamente sábia - um problema relacionado à leitura, muito presente na realidade brasileira: o espaço da biblioteca, apesar de ser notadamente reconhecido por sua importância para a sociedade em todos os discursos pronunciados no dia a dia, não é realmente valorizado se forem consideradas as ações e atitudes políticas a ele relacionadas.

A representação da biblioteca como espaço público que propicia a leitura à população e o descaso com que este espaço vem sendo tratado nas últimas décadas são questões preocupantes conforme divulgação na mídia em geral.

Ao buscar notícias recentes acerca de bibliotecas públicas, foram encontradas diversas reportagens que mostram a frequência de alunos a este espaço (“Alunos de ensino fundamental visitam biblioteca de Porto Calvo” –

1 Quino, ou Joaquin Salvador Lavado, é um cartunista argentino e o criador das histórias e tirinhas da personagem Mafalda, uma criança de 6 anos questionadora com as situações do mundo e com as atitudes dos seres humanos. Suas histórias foram publicadas de 1964 a 1973, trazendo crítica sobre o capitalismo e o mundo recém-globalizado daquele período. Quino teve suas publicações de Mafalda traduzidas em várias línguas e são conhecidas por todo o mundo.

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26/09/20142); a promoção de eventos relacionados à leitura (RITTA, 2014

“Biblioteca pública de Joinville promove conversa com escritora”); a entrega de novos livros para enriquecimento do acervo (“Prefeitura de Joinville realiza a entrega de 13 mil livros nas unidades de educação” – 06/10/20143); encontros

para leitura e discussão de livros adotados em vestibulares (“Clube de leitura aborda livros adotados na UFRGS na Capital” – 09/09/20144).

Todos esses são exemplos de momentos e discussões que valorizam a importância da leitura e incentivam o uso do espaço da biblioteca para diversas práticas. São reportagens que mostram a importância de se ampliar e diversificar os acervos; apresentar o espaço da biblioteca para os estudantes a fim de que estes aprendam a utilizá-lo; discutir sobre textos considerados clássicos, buscando o gosto por uma leitura de qualidade, e não apenas por obrigação.

Tais falas estão presentes também em discursos de professores e outros profissionais da área da educação e da leitura. E ainda são encontrados nas falas de políticos ou de outras pessoas que não são ligadas diretamente a esta área, mas que consideram importante mostrar que valorizam a leitura e que apoiam iniciativas para promover esta prática nas bibliotecas.

Todos estes discursos apontam para uma representação de que a leitura é muito importante e que a biblioteca é o espaço privilegiado para que ela ocorra.

Por outro lado, podem ser encontradas também reportagens que mostram que nem sempre essa valorização acontece na prática. A reportagem “Após ser fechada há três anos para reforma, biblioteca é depredada em Manaus” (CARVALHO, 2014), escrita em tom de preocupação e denúncia, conta sobre a depredação e vandalismo sofridos pelo prédio da biblioteca, que ao invés de ser reformada, tornou-se abrigo para moradores de rua. O texto

2 Disponível em: <

http://www.tribunahoje.com/noticia/118277/interior/2014/09/26/alunos-do-ensino-fundamental-visitam-biblioteca-publica-de-porto-calvo.html> Acesso em: 06/10/2014. 3 Disponível em: <

http://ndonline.com.br/joinville/noticias/203386-prefeitura-de-joinville-realiza-a-entrega-de-13-mil-livros-nas-unidades-de-educacao.html> Acesso em 06/10/2014.

4 Disponível em: <

http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/vestibular/noticia/2014/09/clube-de-leitura-aborda-livros-obrigatorios-da-ufrgs-na-capital-4594268.html> Acesso em 06/10/2014.

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traz também a fala de estudantes que afirmam o quanto gostariam de poder frequentar e utilizar o espaço, consultar seu acervo, o que, porém, não é possível devido ao descaso com que o espaço é tratado.

Nesta reportagem (CARVALHO, 2014), a representação da importância da leitura e do espaço da biblioteca volta a aparecer, porém, desta vez, acompanhada de acontecimentos que parecem não permitir a sua concretização.

Estudos e leituras realizados no decorrer desta pesquisa, por exemplo, indicam que este problema não é novo. Chartier (1998, p. 123) escreve acerca de bibliotecas francesas no período de 1850-1870. O autor afirma a “incapacidade das bibliotecas municipais (...) no sentido de assegurar a leitura como uma atividade pública (...) estas bibliotecas ficam apenas entreabertas, empoeiradas; eram, afinal, depósitos inertes.”

A reportagem sobre a biblioteca de Manaus mostra que, assim como afirma Chartier (1998), é responsabilidade do município que as bibliotecas sejam espaços que assegurem a leitura pública, o que, tanto no caso de Manaus, quanto no caso da França (apesar da grande diferença de tempo e de localização geográfica), não acontecem.

Esta precariedade em relação à situação das bibliotecas também é constatada por Silva (2010, p. 121), num local e período mais próximos do que estamos vivendo hoje. Em um dos artigos de seu livro Leitura na escola e na

biblioteca, o autor apresenta a situação das bibliotecas municipais da cidade de

Campinas, a partir de reportagem publicada em 2009. O pesquisador afirma que a reportagem, discutida por ele neste texto, “mostrou a carência das mesmas [bibliotecas] no que se refere a acervos, recursos humanos e atividades. Pela matéria, ficou evidente que os prédios também não condizem com as necessidades de leitura da população campineira.”

Silva (2010, p. 121) ainda afirma que há “um esquecimento intencional ou uma velada despreocupação ou, ainda, uma desatenção consciente a respeito de uma política cultural mais sólida, contínua e diversificada, capaz de contemplar as múltiplas práticas culturais dos cidadãos.”

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Tanto na reportagem sobre a biblioteca de Manaus, quanto nas falas de Chartier (1998) e de Silva (2010), podemos perceber um discurso sobre a importância e valorização da biblioteca, seguido por fatos que não permitem que essa representação tenha um significado positivo na prática. Seria esta ambiguidade que Mafalda, no quadrinho que iniciou este texto, quer destacar, chamar nossa atenção: E se as bibliotecas fossem mais importantes que os bancos?

Neste questionamento, o autor constrói uma polarização entre bancos e bibliotecas, sendo que os primeiros são considerados mais importantes que as segundas.

No contexto do quadrinho de Quino, talvez as bibliotecas possam ser compreendidas como o espaço em que se guardam os livros para uso do seu público, permitindo o acesso livre e gratuito a todos os materiais nela guardados, sejam eles livros, jornais, revistas, entre outros, sendo possível emprestá-los e levá-los para casa ou utilizá-los e manuseá-los no local. É um espaço que está sempre à espera de leitores e que investe em projetos de leitura, pesquisa, estudo, leitura de fruição. Seu lucro não é imediato, mas fruto de um investimento a longo prazo, visando formar leitores, alcançar uma educação cultural importante para todos os indivíduos.

Em contrapartida, os bancos podem ser compreendidos como o local onde se efetuam operações bancárias, onde há movimentação de dinheiro, que, por sua vez, não pertence ao banco, mas a outros sujeitos. Neste espaço, o dinheiro pode ser movimentado entre contas de diferentes indivíduos ou mesmo emprestado pelo banco a terceiros, desde que sejam pagos taxas e juros pelo valor emprestado. Os bancos são financiadores de projetos individuais ou coletivos, com o objetivo de lucrar ainda mais, aumentando assim seu capital.

Nesse sentido, ambos os espaços podem se assemelhar, se considerados como “depósitos” (apesar de isso não significar ser esta a única função deles). Mas, por outro lado, podem se diferenciar pela concepção de lucro que cada um deles assume. No banco, o lucro é sempre financeiro: quanto mais dinheiro acumulado pela quantidade de correntistas, maior será o

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lucro. E a quem pertence este ganho financeiro? Ao próprio estabelecimento bancário, aos banqueiros, que ganham à custa de seus clientes. Seu principal propósito e objetivo é gerar acúmulo de moeda.

No caso da biblioteca, o lucro pode ser visto de forma diferente, já que não pertence à própria biblioteca e nem a seus donos ou responsáveis, mas àqueles que fazem uso dela. Ele é compartilhado por todos aqueles que a utilizam; é um lucro que é do outro. Também não é (um lucro) material, já que tudo que é emprestado ou utilizado na biblioteca é devolvido após seu uso, provocando um certo desgaste material no decorrer do tempo. O ganho de quem faz uso da biblioteca é cultural, simbólico, é o acesso ao conhecimento, à informação, ao prazer de ler, o que nos indica representações de melhoria pessoal, coletiva.

Vivemos em uma sociedade capitalista, na qual o lucro financeiro, a moeda, é o que é mais valorizado. Nesta sociedade, o acesso à cultura, ao conhecimento, à informação, ao livro é muito menos importante do que o acesso ao dinheiro. Desta forma, a premissa de Mafalda de que o banco é mais importante que a biblioteca parece comprovar-se verdadeira, reconhecida na sociedade atual.

Deste modo, a pergunta colocada por Quino na tirinha insere-se em um discurso crítico a esta sociedade capitalista e, também, a um desejo de mudança para um mundo (melhor) em que o livro, a cultura, o conhecimento e a leitura sejam mais importantes que o dinheiro e o lucro financeiro. Um modo de pensar a dicotomia “ser e ter”.

1.1 A formação de uma leitora

Fui uma criança apaixonada por livros. Tendo minha mãe formada em Letras e minha madrinha sendo professora, sempre tive muitos livros em casa e referência de leitores assíduos (mãe, pai, tia, avós) e nos mais diferentes suportes (livros, jornal, CDs, discos, revistas, gibis, entre outros). Lembro-me do encanto ao chegar à casa de meus avós e ver na estante a imponência dos inúmeros volumes de uma “Enciclopédia Barsa” completa, com capa dura vermelha e com informações escritas em dourado nas lombadas dos livros.

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Eles ficavam no alto da estante, local que uma criança pequena não poderia alcançar. O fato de ficarem fora do alcance de minhas mãos e de meu avô mostrar sempre um olhar intimidador no que dizia respeito a mexer neles desenvolveu em mim um sentimento de curiosidade e desejo muito grande em relação àquele material. Um sentimento de expectativa que apenas cresceu até o dia em que minha professora mandou para casa uma pesquisa sobre um assunto de que não mais me recordo. Neste dia, meu avô permitiu que eu olhasse a enciclopédia para fazer a tarefa de casa. Com a ajuda de minha mãe, peguei na estante o livro que continha o assunto de minha pesquisa, busquei a página e encontrei o tópico desejado. Copiei o texto em uma folha para levar para a escola. Depois pude folhear o livro e olhar outros assuntos, imagens e informações que ele continha. Sempre sob o olhar cuidadoso de meu avô, para que eu não amassasse, rasgasse, sujasse ou danificasse o livro de qualquer forma.

Este olhar de cuidado e atenção, aliado ao fato de a enciclopédia não poder ser utilizada ou consultada em qualquer situação, mas apenas em momentos de necessidade escolar, de estudo, mostram uma representação de livro e de leitura. Este objeto é algo precioso, colocado em local alto, de modo a ficar exposto e ser visto, mas sem poder ser tocado a todo momento. Mostra, ainda, um tipo de leitura, aquela relacionada diretamente ao contexto escolar. Esta representação, que hoje posso perceber e identificar nos gestos e ações de meu avô, levaram-me a considerar o livro como algo precioso, que deve ser cuidado, preservado - representação esta que me acompanha até hoje enquanto leitora.

Outra lembrança que me acompanha é a da estante em minha casa onde ficavam os meus livros, livros infantis (contos de fadas, fábulas de Esopo, outros de Monteiro Lobato) comprados pelos meus pais ou presenteados por tios, avós, padrinhos, e que guardo até hoje. Alguns deles têm um significado especial, por trazerem dedicatórias carinhosas de pessoas importantes em minha vida.

Nesta estante, os livros eram acessíveis a qualquer um, especialmente para mim e meu irmão, crianças pequenas na época. Além disso, podíamos

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mexer neles a qualquer momento, utilizá-los de diferentes maneiras. Alguns dos volumes desta época, que ainda possuo, estão rabiscados (garatujas de criança), desenhados, pintados com lápis de cor e canetinha. Vários deles têm o meu nome, escrito em diferentes tamanhos e tipos de letra, de acordo com o período de alfabetização. Esta relação com este objeto, os gestos, mostram outra representação de livro: pode ser brinquedo; e de leitura: de diversão, de aprendizado, de descoberta, de exploração. Esta representação também mostra que existem livros para fases distintas da vida (infância, adolescência, idade adulta) e com finalidades igualmente distintas.

Da mesma forma, a frequência a um espaço como o da biblioteca, uma “casa de livros”, também sempre fez parte de minha rotina. Um destes espaços era a biblioteca da escola, organizada por uma senhorinha muito simpática. Apesar de pequena, esta biblioteca estava recheada de livros coloridos e divertidos, que chamavam a atenção das crianças. Outro, era a biblioteca pública da cidade, com uma organização mais formal, espaço de estudo e de pesquisa para crianças e adultos, e que era cuidada por uma bibliotecária brava e exigente, que falava alto e vigiava a forma que mexíamos nos livros. Duas bibliotecas diferentes, que remetiam a diferentes representações de livro e de leitura que já me eram familiares.

Lembro-me de olhar os livros nas estantes, tanto na biblioteca escolar quanto na pública, espantada com a quantidade de leituras que poderiam ser feitas – sempre comparando com a quantidade (menor) de livros que havia em minha casa ou na de meu avô. Escolhia os livros sonhando em, um dia, poder ter uma biblioteca tão grande como aquela.

As experiências ao longo do período de escolaridade também foram de grande importância para a formação de uma leitora assídua e amante dos livros. Lembro-me de professores que incentivavam a leitura como algo prazeroso, positivo, seja para a diversão, seja para o estudo. Ao alcançar a adolescência, as leituras obrigatórias começaram a tornar-se cada vez mais frequentes, exigindo um tempo e dedicação muito grandes, de forma que a leitura de fruição, por diversão, acabou diminuindo.

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Ao tornar-me vestibulanda, aprendi que as leituras obrigatórias poderiam também ser leituras prazerosas. E, contrariando as opiniões da maioria dos colegas e amigos da época, encantei-me com as leituras de Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Eça de Queiroz, José Saramago, entre muitos outros.

Entre todas essas paixões vividas, o que sinto por livros e leitura me levou ao desejo de me tornar professora, sinalizado em práticas como as de contar histórias para as bonecas, desde pequena, ou de ler e ensinar a meus amigos durante a pré-adolescência e a adolescência. A escolha de um curso (Pedagogia) e uma profissão (professora) foram quase que “naturais”: desejo de ser para outras crianças aquilo que meus professores foram para mim; o desejo de que meus alunos gostassem de livros e de leitura como eu. A aprovação e o ingresso no curso de Pedagogia da UNICAMP apenas confirmaram aquilo que sempre almejei.

A união da paixão por livros e pela docência se encontraram na disciplina “Educação, Cultura e Linguagem”, cursada no 2º semestre do curso de Pedagogia, ministrada por uma professora que, mais tarde, se tornaria minha orientadora. Nesta disciplina, falamos sobre leitura, livros infantis e, no trabalho final da disciplina, fiz uma análise de um livro infantil que me encantava. A análise foi muito simples e “crua”, mas o recado da professora para procurá-la, pois aquele trabalho poderia se tornar uma pesquisa de Iniciação Científica, se eu assim o desejasse, me acendeu a vontade de trabalhar e estudar livros e leitura.

A correria dos estudos, o início de um estágio e a grande carga de leituras das disciplinas cursadas só me permitiram procurá-la novamente no ano seguinte. Fui conversar com a intenção de pedir para ser orientada em uma pesquisa que relacionasse leitura e livros, mas fora da sala de aula. Eu queria trazer para a pesquisa e o estudo meu encanto pelo espaço da biblioteca.

A conversa foi muito produtiva e certeira, mostrando que eu precisaria começar a dar um contorno ao que gostaria de fazer. Meu objeto de pesquisa seria a “Biblioteca Municipal de Valinhos Dr. Mario Correa Lousada”, aquela

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que frequentara quando criança e adolescente. A orientação de ir até a Biblioteca e buscar informações que nos ajudassem a conhecer sua história para assim estudar os seus livros e leitores me deixou muito animada. E da mesma forma que me animei, me decepcionei ao chegar àquele espaço e descobrir que não havia nenhum registro escrito formal sobre a história e a formação da Biblioteca.

A segunda conversa com minha orientadora não poderia ter se iniciado com maior desânimo. Eu tinha certeza de que a pesquisa estava acabada, antes mesmo de seu início. No entanto, da mesma forma que o entusiasmo havia ido embora, ele voltou com a sugestão de que nós buscássemos por aquela história que ainda não existia. “Vamos pesquisar e escrever a história dessa Biblioteca!” Era tudo que eu precisava ouvir. E assim foi.

O processo de levantar dados, escrever o projeto, ter a aprovação da FAPESP e realizá-lo durou quase dois anos. E foi neste período que me tornei uma professora cada vez mais envolvida e encantada por livros e, para meu espanto, me tornei também pesquisadora. Digo espanto, pois até então, não tinha pretensões de fazer pesquisa acadêmica. Este período só me deixou ainda mais apaixonada pela biblioteca, um espaço tão valorizado pelas pessoas em seu discurso (“Você pesquisa biblioteca?”, “Este espaço é muito importante!”), mas nem sempre frequentado e incentivado (“Valinhos tem biblioteca?”), confirmando, em muitos sentidos, o que pôde ser percebido na análise realizada no início deste texto sobre o quadrinho de Mafalda.

1.2 Um exercício de pesquisa

A pesquisa de Iniciação Científica intitulada Biblioteca Municipal de

Valinhos: uma história possível de ser escrita (LATANCIA e FERREIRA, 2010 e

2011) que, mais tarde, se tornou o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado

Memórias (entre)cruzadas da Biblioteca Municipal de Valinhos “Dr. Mario Correa Lousada” (LATANCIA, 2011) teve como objetivo conhecer a história da

Biblioteca Municipal de Valinhos, desde o seu projeto e idealização de construção (1969), sua concretização e inauguração (16/01/1971) e seu desenvolvimento e funcionamento até o ano de 2011. O processo de

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construção do corpus de pesquisa, análise dos dados e escrita dos textos permitiram produzir representações de leitura e do espaço da biblioteca.

A Biblioteca Municipal de Valinhos foi inaugurada em janeiro de 1971, mas antes de sua concretização, realizou-se uma campanha mostrando a necessidade de criação de uma biblioteca na cidade. Durante o ano de 1969, o jornal da cidade, Folha de Valinhos, na época o único em circulação, publicou reportagens, pequenas matérias e depoimentos de pessoas reconhecidas publicamente, sobre um movimento estudantil que solicitava a criação de uma biblioteca para a cidade. As matérias destacavam as vantagens da criação de um espaço em que houvesse

material de pesquisa para os estudantes valinhenses, aumento da cultura da cidade, acompanhar o avanço das cidades próximas que também haviam inaugurado bibliotecas; e chamar a atenção das autoridades da cidade para que valorizassem tal iniciativa e fossem seus principais incentivadores. (LATANCIA, 2011, p. 34)

Em agosto de 1970, uma nova reportagem foi publicada no mesmo jornal, agora mostrando a existência de uma “Comissão de Literatura e Biblioteca”, retomando a necessidade da população estudantil e dando fomento a uma educação cultural para setores mais amplos da sociedade (LATANCIA, 2011). A Comissão era formada por pessoas da “elite” valinhense, sendo presidida e idealizada pelo Dr. Mario Correa Lousada, médico veterinário vindo de São Paulo. Com a campanha, a Comissão conseguiu patrocinadores e doações, a partir, inclusive, de anúncios no jornal da cidade.

A lei de criação da Biblioteca foi assinada pelo Prefeito em 31 de dezembro de 1970, nomeando-a “Biblioteca Pública Municipal Dr. Mario Correa Lousada”, em homenagem ao idealizador, que havia falecido algum tempo antes, sem ter visto seu desejo concretizado.

A primeira sede da Biblioteca foi no andar superior do prédio da Agência dos Correios, bem no centro da cidade de Valinhos. Segundo depoimento de D’Ávila (em entrevista realizada em 2010), sua inauguração aconteceu de forma improvisada e foi montada com um mobiliário provisório (mesas, cadeiras e estantes emprestadas), e sob a responsabilidade de Roseline D’Ávila, recém formada em biblioteconomia e convidada pelo Prefeito para

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organizar a Biblioteca. Apenas um mês após a inauguração, a Biblioteca adquiriu móveis próprios para que fosse montada e aberta ao público.

Nossa pesquisa inicial (LATANCIA, 2011) buscou ainda relatar e analisar a Biblioteca ao longo de sua existência, enfocando sua formação, seu crescimento e desenvolvimento. Para isso, organizamos a escrita em dois períodos de análise: 1971-2004, quando a biblioteca esteve sob a responsabilidade da bibliotecária Roseline D’Ávila, e 2005-20125, em que a

bibliotecária responsável foi Márcia Martinez.

Nesses dois momentos, trabalhamos com duas representações desta Biblioteca configuradas em torno de algumas ações desenvolvidas pelas pessoas responsáveis por sua condução, pelos modos diferenciados de trabalhar das duas bibliotecárias, pelos programas políticos que orientaram algumas propostas culturais neste espaço etc.

O conceito de representação utilizado no momento de análise dos dados desta pesquisa inicial foi também assumido a partir dos estudos de Chartier (1991, 2002a). De acordo com este autor, a representação

é um dos conceitos mais importantes utilizados pelos homens do Antigo Regime, quando pretendem compreender o funcionamento de uma sociedade ou definir as operações intelectuais que lhe permitem apreender o mundo. (...) ela permite articular três modalidades da relação com o mundo social, em primeiro lugar, o trabalho da classificação e de elimitação que produz as configurações intelectuais múltiplas, através das quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes grupos; seguidamente, as práticas que visam fazer reconhecer uma identidade social, exibir uma maneira própria de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma posição; por fim, as formas institucionalizadas e objectivadas graças às quais uns “representantes” (instâncias coletivas ou pessoas singulares) marcam de forma visível e perpetuada a existência do grupo, da classe ou da comunidade. (CHARTIER, 2002a, p. 23).

A partir da ideia de que apreendemos e lidamos com o mundo pelas representações, classificamos e delimitamos algumas das atividades observadas na Biblioteca em períodos distintos, marcados pelos sujeitos que a coordenavam e propunham ações em torno da leitura e dos leitores.

Identificamos que o primeiro momento esteve subordinado, na maior parte do tempo, à gestão pública de um determinado partido político, enquanto

5 A pesquisa que estudou a história da Biblioteca (LATANCIA, 2011) analisa-a até o ano de 2011, porém a gestão da bibliotecária Márcia Martinez aconteceu até o ano de 2012.

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que o segundo esteve ligado ao partido político que fazia oposição ao primeiro. (LATANCIA, 2011).

No primeiro período, pudemosidentificar uma Biblioteca que tinha como foco a construção do que deveria ser uma biblioteca (modo de organização, utilização, funcionamento e finalidades). Havia uma grande preocupação por parte da bibliotecária em divulgá-la na cidade, apresentando-a e buscando leitores, bem como em educá-los para frequentar este espaço e conhecer seu funcionamento e usos. Além disso, percebemos outra grande preocupação da bibliotecária na constituição do acervo, construído principalmente a partir de doações recebidas, buscando atender à demanda de seus futuros usuários.

Este período ainda foi marcado por mudanças do prédio da Biblioteca (em 1996 e, novamente, em 2001), buscando espaços maiores para receber seus leitores de maneira mais confortável, podendo ainda acomodar os livros de maneira mais organizada. Após a segunda mudança, foi possível criar na Biblioteca um espaço exclusivo para a literatura infantil.

Foi a partir do momento em que a Biblioteca instalou-se em novo prédio, que a literatura infantil realmente ganhou seu espaço próprio. O espaço exclusivo para este tipo de livros e a organização que ele recebeu tem como intenção explícita atrair e conquistar as crianças, aproximando-as do mundo dos livros e da literatura infantil. É a busca pela ampliação do público e a conquista de novo leitores com outras finalidades de leitura, além do estudo e da pesquisa. São novos sentidos que vão sendo agregados a esta Biblioteca, em novos tempos. (LATANCIA, 2011, p. 81).

Neste momento e com estas mudanças, percebemos, de uma maneira geral, a preocupação com a constituição do espaço da biblioteca tendo uma representação voltada para o livro e para seu uso, havendo um foco na orientação aos usuários de como usar o livro, o que fazer, como se portar no interior da Biblioteca, que passa a ter um foco voltado para a pesquisa, sendo, portanto, um espaço para o estudante: um espaço de leitura, de pesquisa e de acesso aos livros. Ao mesmo tempo, também, havia a preocupação em buscar novos leitores, novas finalidades de leitura, novos usos para a Biblioteca.

O segundo período de gestão da Biblioteca traz outra configuração: sob a coordenação da bibliotecária Márcia Martinez, esta se propôs a reorganizar o acervo de livros constituído por mais de 15 mil livros.

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Esta bibliotecária teve como prioridade recatalogar os livros de acordo com as normas da Biblioteconomia, retirando aqueles em condições precárias de uso e substituindo-os por outros novos. “O acervo foi revisado buscando uma atualização de acordo com as necessidades e gostos do público leitor que frequenta este espaço, e das condições dos livros.” (LATANCIA, 2011, p. 83) Além disso, a Biblioteca recebeu uma verba para aquisição de novos livros para o acervo “escolhendo a partir do interesse do público leitor e de acordo com o que o mercado editorial oferece de mais recente e interessante.” (LATANCIA, 2011, p. 84)

Outra característica desta gestão foi o acesso à internet pública na Biblioteca, com a instalação de computadores para que os usuários pudessem acessá-la, além de ser disponibilizada a consulta on-line ao acervo.

Percebemos, assim, uma representação de biblioteca bastante distinta da anterior, com um foco técnico para sua organização, tendo como objetivo atualizá-la e modernizá-la.

Esta pesquisa tornou-me ainda mais envolvida com o espaço da biblioteca e, em especial, com esta que foi estudada por mim. Também como professora aumentou meu desejo de tornar meus alunos leitores - amantes dos livros. Porém, o projeto de estudar os leitores - frequentadores da Biblioteca Municipal de Valinhos - ficou guardado para ser realizado mais tarde. Em outras condições.

1.3 A leitora que se torna pesquisadora e, também, professora

Após a conclusão do curso de Pedagogia, fui contratada como professora pela escola particular em que eu realizara estágio (a mesma em que estudei quando criança e adolescente). Assumi a função em uma sala de terceiro ano, com minha “imaturidade” docente, mas também com uma imensa vontade de fazer a diferença.

Durante todo o ano letivo, busquei levar para meus alunos o encanto que tinha com os livros. Realizei projetos de leitura, lia diariamente na sala, levava meus livros, retirava livros na biblioteca da escola junto com as crianças, fazia rodas em que eles podiam contar sobre as histórias de que haviam

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gostado e de que não haviam gostado. O ano letivo foi muito produtivo, cresci muito como profissional, aprendi, acertei e também errei, busquei estratégias novas e antigas com as colegas mais experientes do que eu. Terminei o ano com o sentimento de dever cumprido, mas com a vontade de, no ano seguinte, fazer ainda mais.

Assim, juntamente com uma professora colega de turma, elaborei um projeto de leitura que duraria o ano todo e envolveria, entre outras propostas de incentivo à leitura, uma visita à Biblioteca Municipal de Valinhos. Meu desejo era que as crianças frequentassem aquele espaço, tão diferente da biblioteca escolar, e tivessem a experiência de ser cadastrados como usuários da biblioteca, com carteirinha (em seu nome, com foto e assinatura). Queria proporcionar a elas o ingresso ao mundo dos livros e de um espaço próprio, organizado por gestos, atitudes, ações, sentimentos, valores: escolher um livro entre muitos, levá-lo para ler em casa, cumprir o prazo de devolução, conhecer a ordem dos livros. A responsabilidade com um material que não seria da escola daria a eles uma experiência diferente com o livro, além disso, envolveria a família em um âmbito também distinto do usual, talvez aproximando-a e incentivando-a a participar dos momentos de leitura das crianças. Meu contato com as famílias, em encontros ou reuniões, mostrava que a grande maioria dos pais não lia livros literários ou mesmo jornal, por falta de tempo, ou por não gostar, deixando que as crianças “lessem” os livros da escola praticamente sozinhos.

Acredito que o modelo de leitores e as representações de leitura e do livro que tive em casa foram importantes na constituição da leitora que sou hoje, por isso queria investir, incentivar os pais a também lerem com as crianças, em busca de ampliar a rede de leitores e de criar significativos laços afetivos entre eles e os livros.

Deste modo, enviei um bilhete às famílias explicando o projeto a ser desenvolvido com os alunos e como funcionaria a visita à Biblioteca, solicitando documentos para viabilizar a realização dos cadastros das crianças. Espantei-me ao perceber que a grande maioria dos pais não sabia que Valinhos tinha uma Biblioteca ou onde ela ficava, apesar de estar localizada a apenas um

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quarteirão de distância da escola. Entre os pais dos vinte alunos que eu tinha e dos quarenta das outras turmas de terceiro ano, apenas dois tinham cadastro na Biblioteca e já possuíam carteirinhas.

Ao iniciarmos o trabalho, novamente nos espantamos ao saber que os alunos pouco conheciam sobre o funcionamento de uma biblioteca, trazendo indagações a respeito, questionando se os livros eram para vender, por exemplo.

A nossa primeira visita à biblioteca foi feita a pé, acompanhados de uma funcionária da escola. Ao entrar no espaço, as crianças se mostraram espantadas com o seu tamanho, divisão em várias salas, a quantidade de estantes, tipos de móveis (sofás e cadeiras na recepção), número de funcionários, a imensa quantidade de livros, a presença de computadores, a frequência de outras pessoas. Um aluno chegou a perguntar para uma funcionária se ela havia escrito todos aqueles livros, e outra aluna perguntou se ela já havia lido todos os livros e se eles estariam à venda.

Uma funcionária nos acompanhou em todas as salas e apresentou como a biblioteca está organizada: cada sala identificada com uma cor específica, por assunto, que acompanhava a cor da etiqueta do livro, de modo a facilitar a devolução deste às estantes.

A chegada à sala de literatura infantil, com as mesinhas, cadeirinhas e pufes para sentar, criou uma movimentação. Animados, encantados, curiosos, os alunos queriam olhar todos os livros e, com a permissão da funcionária e o meu olhar de incentivo, começaram a tirar livros das estantes para folheá-los. Eu, orgulhosa, olhava os gestos e práticas dos meus alunos em relação aos livros: pegar o livro na estante, folheá-lo, observar as ilustrações, o número de páginas, o nome do escritor e do ilustrador, ler o texto da capa de trás ou da orelha. Gestos, modos de ler aprendidos e ensinados nas visitas que haviam feito, em especial à biblioteca escolar.

Sobre estas práticas dos alunos (desordem) e da funcionária da biblioteca (ordem), Chartier (1999) afirma que:

Tais relações são caracterizadas por um movimento contraditório. Por um lado, cada leitor é confrontado por todo um conjunto de constrangimento e regras. O autor, o livreiro-editor, o comentador, o censor, todos pensam em controlar mais de perto a produção de

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sentido, fazendo com que os textos escritos, publicados, glosados ou autorizados por ele sejam compreendidos, sem qualquer variação possível, à luz de sua vontade prescritiva. Por outro lado, a leitura é, por definição, rebelde e vadia. Os artifícios de que lançam mão os leitores para obter livros proibidos, ler nas entrelinhas, e subverter as lições impostas são infinitos. (CHARTIER, 1999, p. 7)

Nesse sentido, Chartier (1999) destaca as estratégias utilizadas pelos autores e editores na fabricação do livro, “orientando” os leitores no encontro com os textos escritos pelos autores. E em nosso caso, acrescentamos as estratégias de “controle” nas formas de usos desses livros, percebidos nos gestos, olhares, falas da bibliotecária e da professora que sou.

Os alunos, em seus movimentos (táticas6) não totalmente previstos por

nós, em pouco tempo (vinte minutos) cobriram as mesas de livros, ficando impossível enxergar sua superfície. Organizados posteriormente em grupos, permitimos que eles escolhessem os livros para retirada enquanto iam folheando, manuseando, orientando-se para a escolha.

A retirada demorou mais de uma hora, e a escolha de livros feita pelas crianças não poderia ser mais diversificada: livros grandes e pequenos; com muitas ou poucas páginas; com ou sem imagens; sobre os mais diferentes assuntos, temas, títulos, autores; livros de pesquisa, científicos, livros que os pais iriam gostar de ler. Uma biblioteca sem muros (CHARTIER, 1999), a partir das escolhas da comunidade de leitores formada, neste momento, pelos meus alunos de terceiro ano.

Neste dia voltei para a escola com a paixão pelos livros e por aquele espaço mais revigorada. E, nesse momento, decidi escrever um projeto de pesquisa para tentar ingressar no mestrado a fim de estudar os leitores da Biblioteca Municipal e suas práticas, gestos e usos daquele espaço.

6 Tática e estratégia: conceitos de Michel de Certeau (1994). Estratégia é todo planejamento intencional e calculado que é imposto; é como age o sujeito ou instituição com lugar de poder. Tática são os gestos do dia a dia que ajudam a lidar com as estratégias, com aquilo que é imposto.

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Capítulo II - A biblioteca e os leitores: objeto de estudo e

pesquisa

Mas uma biblioteca não é apenas um lugar de recolhimento.

(CHARTIER, 1999, p. 73). Iniciar por esta epígrafe, apoiada em Roger Chartier, leva a pensar que a biblioteca não é um espaço de recolhimento e de isolamento, sobretudo porque ela pode assumir outras funções e usos pelos seus frequentadores, em diferentes tempos e comunidades. A partir do relato de minhas próprias memórias e vivências, outras representações sobre este espaço puderam ser construídas e continuam a circular por distintos lugares e simultaneamente no mesmo espaço.

São representações sobre a importância da biblioteca como espaço “repositório” de livros, mas também como local que promove a leitura, o acesso à informação, um conhecimento do mundo dos livros e dos leitores; um lugar habitado por sujeitos diversos, que se movimentam em torno de distintas expectativas, sonhos, interesses, valores a respeito do livro e da leitura. Um lugar de sociabilidades da leitura.

À medida que frequentava o espaço da biblioteca como professora acompanhando meus alunos, algumas questões começaram a me acompanhar e ganhar forma. Como seus usuários, funcionários e leitores a utilizam e dela se apoderam? Que sentidos orientam os leitores em seu envolvimento com esta biblioteca? Quais são as práticas, os usos, os gestos possíveis que acontecem neste espaço? Quais finalidades e interesses movem os leitores que a frequentam?

No esforço de compreender essas questões e buscar alguns caminhos para respondê-las, era necessário conhecer sobre a produção acadêmica já acumulada a respeito desta temática, identificando o quanto tais questões se

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aproximavam ou se distanciavam de tantas outras que poderiam ter orientado outros estudos.

Uma primeira pesquisa, não propriamente acadêmica, que buscamos conhecer foi o estudo Retratos de Leitura no Brasil (2012). De âmbito nacional, este estudo de caráter mais panorâmico foi realizado pelo Instituto Pró-Livro e executado pelo IBOPE Inteligência.

“Retratos da Leitura é o projeto de maior destaque entre os desenvolvidos pelo IPL, pois se tornou referência como o primeiro e único estudo em âmbito nacional sobre o comportamento leitor do brasileiro.” (Retratos de Leitura no Brasil, 2012, s/p.) Teve como objetivo conhecer o comportamento leitor, além de intensidade, frequência, forma, escolhas relacionadas à leitura da população brasileira, por aqueles ligados ao polo da produção editorial.

Tendo sido realizada pela primeira vez no ano 2000 e publicada em 2001, o projeto já está em sua terceira edição. Nosso estudo traz dados e porcentagens apoiados nas duas últimas pesquisas (2008, 2012), a partir do relatório publicado em 2012, que apresenta uma comparação entre os resultados da segunda e da terceira edições. Ignoramos os dados da primeira edição, já que as duas últimas (2008 e 2012) apresentam os resultados relativos a um período mais próximo ao que a presente pesquisa está sendo realizada, sendo, portanto, mais relevante neste momento.

O relatório analisado por nós (2012) esclarece que para a realização da pesquisa:

• Foi utilizada uma amostra de 5.012 entrevistas domiciliares, em 315 municípios de todos os Estados brasileiros.

• Com um intervalo de confiança estimado de 95%, a margem de erro máxima estimada é de 1,4 p.p. para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra.

• Esta amostra garantiu a leitura consistente e segura dos resultados em todas as segmentações necessárias e exigidas pelo estudo. (Retratos de Leitura no Brasil, 2012, s/p.)

A partir deste contexto e de uma leitura e análise iniciais, percebemos que minha experiência com livros e leitura não é a regra entre a população brasileira. Ao contrário, encaixo-me na porcentagem menor da população, que

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gosta de ler, que tem boas experiências com a leitura, que tem grande acesso ao livro e que frequenta regularmente bibliotecas.

É interessante perceber, por exemplo, que apenas 28% dos entrevistados gostam de ler em seu tempo livre, de acordo com os resultados da terceira edição, e que, destes, apenas 58% leem frequentemente. E esta porcentagem apenas caiu em relação à segunda edição, quando era de 36% o total de entrevistados que declararam gostar de ler7. Apesar disso, a pesquisa

de 2012 mostra que 64% dos entrevistados concordam com a afirmação “Ler bastante pode fazer uma pessoa ‘vencer na vida’ e melhorar a sua situação socioeconômica”. Mas apenas 47% (2012) e 60% (2008) conhecem alguém que venceu na vida graças à leitura.

A representação da importância da leitura e de sua valorização, como a discutida a partir da fala de Mafalda no capítulo anterior, volta a aparecer, considerando-se a afirmação feita por mais de 50% da população pesquisada. No entanto, é difícil saber até que ponto o “respondido” aos entrevistadores corresponde de fato à prática efetiva de leitura. Como sabemos, o entrevistado pode dizer “gosto de ler” ou afirmar ter lido certa quantidade de livros, imbuído apenas do valor de prestígio que tais respostas têm em nossa sociedade.

Vale ressaltar que a pesquisa leva em conta para a definição de leitor aquele que leu, inteiro ou em parte, pelo menos um livro nos últimos três meses. E considera “não-leitor” aquele que não leu nos últimos três meses, mesmo que tenha lido nos últimos doze meses. Em 2008, 55% dos entrevistados eram considerados leitores. Em 2012, esta porcentagem vai para 50%. Uma definição escolhida pelas associações de editores (Instituto Pró-Livro) que deixa de levar em conta outros cruzamentos e nuances que podem ocorrer na trajetória dos leitores.

Quanto ao uso do espaço da biblioteca, apenas 26% daqueles que são considerados leitores têm acesso ao livro emprestando-o nestes espaços ou nas escolas; em 2008, essa porcentagem era de 34%. Entre todos os entrevistados na pesquisa, 67% afirmam saber que existe uma biblioteca pública na cidade ou bairro em que mora. Esta porcentagem é a mesma nas

7 Não há a informação de quantos entrevistados leem frequentemente em relação à pesquisa de 2008.

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duas edições da pesquisa. Destes 67%, 71% (2012) afirmam que o local é de fácil acesso8, porém apenas 7% (2012) e 10% (2008) usam-na com frequência,

contra 75% (2012) e 74% (2008) que afirmam não utilizá-la. Em relação ao pequeno grupo que a utiliza e a frequenta, 64% o fazem nas bibliotecas escolares e universitárias e 50% utilizam bibliotecas públicas, sendo que 55% dos leitores utilizam ambas.

O gráfico a seguir, retirado do relatório da pesquisa publicada em 2012, mostra as representações de biblioteca para a população brasileira.

Gráfico 1 - O que a biblioteca representa. Fonte: relatório da pesquisa Retratos de Leitura no Brasil (2012).

Pelo gráfico (Retratos de Leitura no Brasil, 2012, s/p), podemos perceber que a grande maioria da população tem uma representação de biblioteca relacionada à escola, ao ambiente escolar ou a atividades relacionadas a ele: 71% consideram a biblioteca um local de estudo, 61% um local para pesquisa,

8 Esta pergunta foi feita apenas na pesquisa de 2011, portanto não há base de comparação com 2007.

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28% um local para estudantes, 16% um local para emprestar livros para realizar trabalhos escolares

Considerando que, de acordo com o perfil dos entrevistados da pesquisa de 2012, 68% dos entrevistados não estão estudando atualmente, podemos conjecturar que a pequena quantidade de frequentadores de biblioteca se deve ao fato de os entrevistados acreditarem que este é um espaço direcionado para estudantes e para a realização de atividades escolares; como a grande maioria destes entrevistados não é estudante, não considera necessário/adequado frequentá-la.

Ainda em relação a esta representação de biblioteca enquanto espaço relacionado à escola, o relatório de 2012 mostrou que 24% dos entrevistados usam a biblioteca com frequência ou de vez em quando, contra 76% que nunca frequentam tal espaço. Destes 24%, 70% estão estudando, mostrando novamente uma representação ligando “biblioteca e escola”.

Esta pesquisa e seus dados parecem mostrar uma representação e um discurso de que o brasileiro não lê, não gosta de ler, de que o Brasil não tem leitores. No entanto, nossa pesquisa anterior(LATANCIA e FERREIRA, 2010 e 2011), que culminou na escrita da história da Biblioteca Municipal de Valinhos (LATANCIA, 2011), mostra um crescimento na frequência de usuários/leitores nesta Biblioteca ao longo de sua existência. A cidade cresce, espalha-se por bairros mais distantes e, consequentemente, o número de leitores também aumenta.

Um caderno de registros manuscritos de leitores e usuários9, datado de

1971 (ano de inauguração da Biblioteca), mostra que esta recebia quatro ou cinco pessoas por dia. Já uma reportagem publicada em 27 de setembro de 200110 e que compôs o corpus da pesquisa sobre a Biblioteca de Valinhos

(LATANCIA, 2011), mostra que, neste momento, “o atendimento médio da biblioteca era de duzentos e cinquenta pessoas por dia.” (LATANCIA, 2011, p. 78)

9 Maiores informações sobre este caderno poderão ser encontradas no capítulo 3 deste trabalho quando descrevemos como ele foi encontrado, como era organizado e que informações continha.

10 Não há indicação do jornal de onde foi retirada a reportagem, já que esta pertence a uma pasta de recortes de jornais emprestada pela bibliotecária.

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A partir destas duas fontes (caderno de registros e reportagem), podemos inferir um grande aumento na quantidade de leitores, que vem acompanhado da ampliação do acervo da Biblioteca, que em 2001 já chegava a dezessete mil exemplares, e de um crescimento no seu espaço físico, marcado pela mudança de prédio para atender melhor às necessidades dos seus usuários (LATANCIA, 2011). Este aumento, que diverge das porcentagens apresentadas pela pesquisa “Retratos de Leitura” (2012), pode indicar também um crescimento na busca por uma diversidade de livros (impressos, on-line, infantis, romances, consulta escolar) ou por outros suportes (jornal, revistas, gibis, VHS ou DVD), além de uma diversificação dos próprios leitores (estudantes ou não, crianças, adolescentes, adultos, idosos, homens, mulheres).

Além de nossas pesquisas de Iniciação Científica (LATANCIA e FERREIRA, 2010 e 2011) e de Trabalho de Conclusão de Curso (LATANCIA, 2011), já anteriormente comentados, outros estudos vêm se preocupando com os assuntos “biblioteca”, “leitores” e “práticas de leitura”. São pesquisas que, de alguma forma, se aproximam de nossos interesses investigativos, mas que também se distanciam delas em alguns momentos. As primeiras a serem destacadas são as de Ferreira (2001; 2014) e Aliaga (2013), ambas produzidas no interior do grupo de pesquisa ALLE (Alfabetização, Leitura e Escrita)11, da

Faculdade de Educação, da UNICAMP – do qual também fazemos parte.

No grupo de pesquisa ALLE são muitos os trabalhos orientados pelos estudos trazidos pela História Cultural, conforme Ferreira (2014, p.5):

são nossos objetos de investigação: representações, práticas e discursos que (in)formam e dão inteligibilidade ao mundo da leitura (cultura escrita) pelos suportes de textos, pelos sujeitos e suas instituições histórico-culturalmente datados. Trata-se de um esforço de compreensão do processo pelo qual o sentido da leitura é diferentemente construído e representado em diversos tempos, espaços e comunidades, a partir dos estudos desenvolvidos pela História Cultural: Roger Chartier (1994; 1996; 2001; 2004); Michel de Certeau, (1996; 2001); Mickail Bakhtin (1997, 1988); Robert Darnton (1992; 1995). Tem sido nossos interlocutores, principalmente os pesquisadores que nas últimas décadas têm estado ligados aos estudos da História da Educação, da História Cultural, além daqueles de áreas como História, Antropologia, Linguística, Letras, Literatura,

11 <http://www.fe.unicamp.br/alle/>

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Sociologia e Pedagogia, que se (entre)cruzam com a História do livro, do leitor e da leitura etc.

Assim, os trabalhos deste grupo de pesquisa têm tomado como desafio, conforme Ferreira (2014), refletir sobre a cultura da escrita e da leitura, contribuindo com uma produção no campo da educação no que se relaciona, especialmente, aos profissionais ligados ao mundo dos impressos, aos espaços destinados a objetos e suportes de textos da cultura letrada, a leitores que não apenas aqueles que circulam na escola, numa compreensão de que a educação ultrapassa os limites da instituição.

Ferreira (2001), em sua pesquisa de doutorado intitulada “A pesquisa sobre leitura no Brasil – 1980-1995” constrói um levantamento de resumos de teses de doutorado e dissertações de mestrado sobre “leitura”, no período de 1980 a 1995. Com este levantamento, a pesquisadora analisa e descreve a trajetória da leitura no Brasil: como as pesquisas se distribuem no tempo, no espaço (regiões, instituições), por áreas de conhecimento, pelo gênero dos pesquisadores e orientadores, por focos temáticos, apontando tendências e movimentos no campo.

Entre os focos destacados pela pesquisadora, um deles nos interessa (Análise do ensino de leitura e proposta didática), particularmente por reunir, entre outros,

os trabalhos que se voltam para o tema ‘instituição-biblioteca’ seja ela escolar ou pública. De um modo geral, estes trabalhos interrogam como ela [biblioteca] se organiza, como constrói suas formas de leitura, que práticas e gestos com a leitura são nela produzidos e por quem. (FERREIRA, 2001, p. 132, grifo da autora).

Outro foco que também dialoga com nossa pesquisa é “Leitores – preferências, gestos, hábitos, histórias e representações”. Neste, Ferreira (2001, p. 144) destaca os trabalhos e pesquisas que se voltam ao estudo do leitor “seja ele o aluno nas escolas e o frequentador das bibliotecas públicas, através do mapeamento de seus interesses, gostos, preferências, expectativas, hábitos, representações, condições de leitura e de estudo, critérios de seleção das obras.”

O trabalho de Ferreira aponta que quando a temática é “leitura e leitores”, há uma diversidade de enfoques e interesses por parte dos

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pesquisadores, ora em uma perspectiva mais psicológica e psicolinguística, ora mais social e cultural ou antropológica, ora ainda mais histórica, ou todas elas juntas em alguma espécie de combinação. São dois foco temáticosque englobam uma quantidade significativa de dissertações de mestrado e teses de doutorado, indicando a importância dos estudos de conhecerem seus leitores e os espaços frequentados por ele.

Outra pesquisa desenvolvida no âmbito do grupo ALLE é a de Aliaga (2013), intitulada “A biblioteca escolar na produção acadêmica sobre leitura: movimentos, diálogos, aproximações”. Assim como a pesquisa de Ferreira (2001), Aliaga (2013) realiza estudo na perspectiva denominada “estado da arte” a partir do levantamento das produções científicas sobre “bibliotecas”, no período de 2000 a 2010. A pesquisadora busca teses e dissertações, utilizando-se da palavra-chave “biblioteca” e termos relacionados à leitura (leitura, leitor, história da leitura, ato de ler), selecionando cento e três resumos que compõem seu corpus de pesquisa.

Destes cento e três resumos, onze, de certa forma, se aproximam de nossa pesquisa por tratarem de bibliotecas públicas:

Quando o campo de estudos em educação toma como objeto de investigação a biblioteca pública, o faz predominantemente com uma abordagem histórica, no intuito de recuperar a constituição dessa biblioteca, as práticas leitoras realizadas e compartilhadas em seu espaço, assim como os sentidos alcançados em sua época. Para o campo da educação, a biblioteca pública parece apresentar-se como realidade antiga, algo distante no tempo, talvez com seu lugar em questão. Apenas três desses trabalhos analisam a biblioteca pública enquanto espaço legítimo e contemporâneo de promoção e disseminação da educação, cultura, informação e lazer. (ALIAGA, 2013, p. 104)

Tomando como base a pesquisa de Aliaga (2013), empreendemos uma busca12 pelos trabalhos completos procurando aqueles que poderiam também

ter como objeto o estudo de “leitores” e de suas “práticas em bibliotecas”. Destes onze resumos identificados por Aliaga (2013), foi possível acessar sete pesquisas, de forma integral e dessas, selecionamos três para serem analisadas por se aproximar daquilo que pretendemos nesta pesquisa e por

12 Foi utilizada a ferramenta de busca do Google, pesquisando o nome do autor e/ou o nome da pesquisa. Em alguns casos, quando não foi apresentada uma página que desse acesso ao trabalho completo, foi buscada a página da universidade de qual o pesquisador fazia parte.

Referências

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