Mas uma biblioteca não é apenas um lugar de recolhimento.
(CHARTIER, 1999, p. 73). Iniciar por esta epígrafe, apoiada em Roger Chartier, leva a pensar que a biblioteca não é um espaço de recolhimento e de isolamento, sobretudo porque ela pode assumir outras funções e usos pelos seus frequentadores, em diferentes tempos e comunidades. A partir do relato de minhas próprias memórias e vivências, outras representações sobre este espaço puderam ser construídas e continuam a circular por distintos lugares e simultaneamente no mesmo espaço.
São representações sobre a importância da biblioteca como espaço “repositório” de livros, mas também como local que promove a leitura, o acesso à informação, um conhecimento do mundo dos livros e dos leitores; um lugar habitado por sujeitos diversos, que se movimentam em torno de distintas expectativas, sonhos, interesses, valores a respeito do livro e da leitura. Um lugar de sociabilidades da leitura.
À medida que frequentava o espaço da biblioteca como professora acompanhando meus alunos, algumas questões começaram a me acompanhar e ganhar forma. Como seus usuários, funcionários e leitores a utilizam e dela se apoderam? Que sentidos orientam os leitores em seu envolvimento com esta biblioteca? Quais são as práticas, os usos, os gestos possíveis que acontecem neste espaço? Quais finalidades e interesses movem os leitores que a frequentam?
No esforço de compreender essas questões e buscar alguns caminhos para respondê-las, era necessário conhecer sobre a produção acadêmica já acumulada a respeito desta temática, identificando o quanto tais questões se
aproximavam ou se distanciavam de tantas outras que poderiam ter orientado outros estudos.
Uma primeira pesquisa, não propriamente acadêmica, que buscamos conhecer foi o estudo Retratos de Leitura no Brasil (2012). De âmbito nacional, este estudo de caráter mais panorâmico foi realizado pelo Instituto Pró-Livro e executado pelo IBOPE Inteligência.
“Retratos da Leitura é o projeto de maior destaque entre os desenvolvidos pelo IPL, pois se tornou referência como o primeiro e único estudo em âmbito nacional sobre o comportamento leitor do brasileiro.” (Retratos de Leitura no Brasil, 2012, s/p.) Teve como objetivo conhecer o comportamento leitor, além de intensidade, frequência, forma, escolhas relacionadas à leitura da população brasileira, por aqueles ligados ao polo da produção editorial.
Tendo sido realizada pela primeira vez no ano 2000 e publicada em 2001, o projeto já está em sua terceira edição. Nosso estudo traz dados e porcentagens apoiados nas duas últimas pesquisas (2008, 2012), a partir do relatório publicado em 2012, que apresenta uma comparação entre os resultados da segunda e da terceira edições. Ignoramos os dados da primeira edição, já que as duas últimas (2008 e 2012) apresentam os resultados relativos a um período mais próximo ao que a presente pesquisa está sendo realizada, sendo, portanto, mais relevante neste momento.
O relatório analisado por nós (2012) esclarece que para a realização da pesquisa:
• Foi utilizada uma amostra de 5.012 entrevistas domiciliares, em 315 municípios de todos os Estados brasileiros.
• Com um intervalo de confiança estimado de 95%, a margem de erro máxima estimada é de 1,4 p.p. para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra.
• Esta amostra garantiu a leitura consistente e segura dos resultados em todas as segmentações necessárias e exigidas pelo estudo. (Retratos de Leitura no Brasil, 2012, s/p.)
A partir deste contexto e de uma leitura e análise iniciais, percebemos que minha experiência com livros e leitura não é a regra entre a população brasileira. Ao contrário, encaixo-me na porcentagem menor da população, que
gosta de ler, que tem boas experiências com a leitura, que tem grande acesso ao livro e que frequenta regularmente bibliotecas.
É interessante perceber, por exemplo, que apenas 28% dos entrevistados gostam de ler em seu tempo livre, de acordo com os resultados da terceira edição, e que, destes, apenas 58% leem frequentemente. E esta porcentagem apenas caiu em relação à segunda edição, quando era de 36% o total de entrevistados que declararam gostar de ler7. Apesar disso, a pesquisa
de 2012 mostra que 64% dos entrevistados concordam com a afirmação “Ler bastante pode fazer uma pessoa ‘vencer na vida’ e melhorar a sua situação socioeconômica”. Mas apenas 47% (2012) e 60% (2008) conhecem alguém que venceu na vida graças à leitura.
A representação da importância da leitura e de sua valorização, como a discutida a partir da fala de Mafalda no capítulo anterior, volta a aparecer, considerando-se a afirmação feita por mais de 50% da população pesquisada. No entanto, é difícil saber até que ponto o “respondido” aos entrevistadores corresponde de fato à prática efetiva de leitura. Como sabemos, o entrevistado pode dizer “gosto de ler” ou afirmar ter lido certa quantidade de livros, imbuído apenas do valor de prestígio que tais respostas têm em nossa sociedade.
Vale ressaltar que a pesquisa leva em conta para a definição de leitor aquele que leu, inteiro ou em parte, pelo menos um livro nos últimos três meses. E considera “não-leitor” aquele que não leu nos últimos três meses, mesmo que tenha lido nos últimos doze meses. Em 2008, 55% dos entrevistados eram considerados leitores. Em 2012, esta porcentagem vai para 50%. Uma definição escolhida pelas associações de editores (Instituto Pró- Livro) que deixa de levar em conta outros cruzamentos e nuances que podem ocorrer na trajetória dos leitores.
Quanto ao uso do espaço da biblioteca, apenas 26% daqueles que são considerados leitores têm acesso ao livro emprestando-o nestes espaços ou nas escolas; em 2008, essa porcentagem era de 34%. Entre todos os entrevistados na pesquisa, 67% afirmam saber que existe uma biblioteca pública na cidade ou bairro em que mora. Esta porcentagem é a mesma nas
7 Não há a informação de quantos entrevistados leem frequentemente em relação à pesquisa de 2008.
duas edições da pesquisa. Destes 67%, 71% (2012) afirmam que o local é de fácil acesso8, porém apenas 7% (2012) e 10% (2008) usam-na com frequência,
contra 75% (2012) e 74% (2008) que afirmam não utilizá-la. Em relação ao pequeno grupo que a utiliza e a frequenta, 64% o fazem nas bibliotecas escolares e universitárias e 50% utilizam bibliotecas públicas, sendo que 55% dos leitores utilizam ambas.
O gráfico a seguir, retirado do relatório da pesquisa publicada em 2012, mostra as representações de biblioteca para a população brasileira.
Gráfico 1 - O que a biblioteca representa. Fonte: relatório da pesquisa Retratos de Leitura no Brasil (2012).
Pelo gráfico (Retratos de Leitura no Brasil, 2012, s/p), podemos perceber que a grande maioria da população tem uma representação de biblioteca relacionada à escola, ao ambiente escolar ou a atividades relacionadas a ele: 71% consideram a biblioteca um local de estudo, 61% um local para pesquisa,
8 Esta pergunta foi feita apenas na pesquisa de 2011, portanto não há base de comparação com 2007.
28% um local para estudantes, 16% um local para emprestar livros para realizar trabalhos escolares
Considerando que, de acordo com o perfil dos entrevistados da pesquisa de 2012, 68% dos entrevistados não estão estudando atualmente, podemos conjecturar que a pequena quantidade de frequentadores de biblioteca se deve ao fato de os entrevistados acreditarem que este é um espaço direcionado para estudantes e para a realização de atividades escolares; como a grande maioria destes entrevistados não é estudante, não considera necessário/adequado frequentá-la.
Ainda em relação a esta representação de biblioteca enquanto espaço relacionado à escola, o relatório de 2012 mostrou que 24% dos entrevistados usam a biblioteca com frequência ou de vez em quando, contra 76% que nunca frequentam tal espaço. Destes 24%, 70% estão estudando, mostrando novamente uma representação ligando “biblioteca e escola”.
Esta pesquisa e seus dados parecem mostrar uma representação e um discurso de que o brasileiro não lê, não gosta de ler, de que o Brasil não tem leitores. No entanto, nossa pesquisa anterior(LATANCIA e FERREIRA, 2010 e 2011), que culminou na escrita da história da Biblioteca Municipal de Valinhos (LATANCIA, 2011), mostra um crescimento na frequência de usuários/leitores nesta Biblioteca ao longo de sua existência. A cidade cresce, espalha-se por bairros mais distantes e, consequentemente, o número de leitores também aumenta.
Um caderno de registros manuscritos de leitores e usuários9, datado de
1971 (ano de inauguração da Biblioteca), mostra que esta recebia quatro ou cinco pessoas por dia. Já uma reportagem publicada em 27 de setembro de 200110 e que compôs o corpus da pesquisa sobre a Biblioteca de Valinhos
(LATANCIA, 2011), mostra que, neste momento, “o atendimento médio da biblioteca era de duzentos e cinquenta pessoas por dia.” (LATANCIA, 2011, p. 78)
9 Maiores informações sobre este caderno poderão ser encontradas no capítulo 3 deste trabalho quando descrevemos como ele foi encontrado, como era organizado e que informações continha.
10 Não há indicação do jornal de onde foi retirada a reportagem, já que esta pertence a uma pasta de recortes de jornais emprestada pela bibliotecária.
A partir destas duas fontes (caderno de registros e reportagem), podemos inferir um grande aumento na quantidade de leitores, que vem acompanhado da ampliação do acervo da Biblioteca, que em 2001 já chegava a dezessete mil exemplares, e de um crescimento no seu espaço físico, marcado pela mudança de prédio para atender melhor às necessidades dos seus usuários (LATANCIA, 2011). Este aumento, que diverge das porcentagens apresentadas pela pesquisa “Retratos de Leitura” (2012), pode indicar também um crescimento na busca por uma diversidade de livros (impressos, on-line, infantis, romances, consulta escolar) ou por outros suportes (jornal, revistas, gibis, VHS ou DVD), além de uma diversificação dos próprios leitores (estudantes ou não, crianças, adolescentes, adultos, idosos, homens, mulheres).
Além de nossas pesquisas de Iniciação Científica (LATANCIA e FERREIRA, 2010 e 2011) e de Trabalho de Conclusão de Curso (LATANCIA, 2011), já anteriormente comentados, outros estudos vêm se preocupando com os assuntos “biblioteca”, “leitores” e “práticas de leitura”. São pesquisas que, de alguma forma, se aproximam de nossos interesses investigativos, mas que também se distanciam delas em alguns momentos. As primeiras a serem destacadas são as de Ferreira (2001; 2014) e Aliaga (2013), ambas produzidas no interior do grupo de pesquisa ALLE (Alfabetização, Leitura e Escrita)11, da
Faculdade de Educação, da UNICAMP – do qual também fazemos parte.
No grupo de pesquisa ALLE são muitos os trabalhos orientados pelos estudos trazidos pela História Cultural, conforme Ferreira (2014, p.5):
são nossos objetos de investigação: representações, práticas e discursos que (in)formam e dão inteligibilidade ao mundo da leitura (cultura escrita) pelos suportes de textos, pelos sujeitos e suas instituições histórico-culturalmente datados. Trata-se de um esforço de compreensão do processo pelo qual o sentido da leitura é diferentemente construído e representado em diversos tempos, espaços e comunidades, a partir dos estudos desenvolvidos pela História Cultural: Roger Chartier (1994; 1996; 2001; 2004); Michel de Certeau, (1996; 2001); Mickail Bakhtin (1997, 1988); Robert Darnton (1992; 1995). Tem sido nossos interlocutores, principalmente os pesquisadores que nas últimas décadas têm estado ligados aos estudos da História da Educação, da História Cultural, além daqueles de áreas como História, Antropologia, Linguística, Letras, Literatura,
11 <http://www.fe.unicamp.br/alle/>
Sociologia e Pedagogia, que se (entre)cruzam com a História do livro, do leitor e da leitura etc.
Assim, os trabalhos deste grupo de pesquisa têm tomado como desafio, conforme Ferreira (2014), refletir sobre a cultura da escrita e da leitura, contribuindo com uma produção no campo da educação no que se relaciona, especialmente, aos profissionais ligados ao mundo dos impressos, aos espaços destinados a objetos e suportes de textos da cultura letrada, a leitores que não apenas aqueles que circulam na escola, numa compreensão de que a educação ultrapassa os limites da instituição.
Ferreira (2001), em sua pesquisa de doutorado intitulada “A pesquisa sobre leitura no Brasil – 1980-1995” constrói um levantamento de resumos de teses de doutorado e dissertações de mestrado sobre “leitura”, no período de 1980 a 1995. Com este levantamento, a pesquisadora analisa e descreve a trajetória da leitura no Brasil: como as pesquisas se distribuem no tempo, no espaço (regiões, instituições), por áreas de conhecimento, pelo gênero dos pesquisadores e orientadores, por focos temáticos, apontando tendências e movimentos no campo.
Entre os focos destacados pela pesquisadora, um deles nos interessa (Análise do ensino de leitura e proposta didática), particularmente por reunir, entre outros,
os trabalhos que se voltam para o tema ‘instituição-biblioteca’ seja ela escolar ou pública. De um modo geral, estes trabalhos interrogam como ela [biblioteca] se organiza, como constrói suas formas de leitura, que práticas e gestos com a leitura são nela produzidos e por quem. (FERREIRA, 2001, p. 132, grifo da autora).
Outro foco que também dialoga com nossa pesquisa é “Leitores – preferências, gestos, hábitos, histórias e representações”. Neste, Ferreira (2001, p. 144) destaca os trabalhos e pesquisas que se voltam ao estudo do leitor “seja ele o aluno nas escolas e o frequentador das bibliotecas públicas, através do mapeamento de seus interesses, gostos, preferências, expectativas, hábitos, representações, condições de leitura e de estudo, critérios de seleção das obras.”
O trabalho de Ferreira aponta que quando a temática é “leitura e leitores”, há uma diversidade de enfoques e interesses por parte dos
pesquisadores, ora em uma perspectiva mais psicológica e psicolinguística, ora mais social e cultural ou antropológica, ora ainda mais histórica, ou todas elas juntas em alguma espécie de combinação. São dois foco temáticosque englobam uma quantidade significativa de dissertações de mestrado e teses de doutorado, indicando a importância dos estudos de conhecerem seus leitores e os espaços frequentados por ele.
Outra pesquisa desenvolvida no âmbito do grupo ALLE é a de Aliaga (2013), intitulada “A biblioteca escolar na produção acadêmica sobre leitura: movimentos, diálogos, aproximações”. Assim como a pesquisa de Ferreira (2001), Aliaga (2013) realiza estudo na perspectiva denominada “estado da arte” a partir do levantamento das produções científicas sobre “bibliotecas”, no período de 2000 a 2010. A pesquisadora busca teses e dissertações, utilizando-se da palavra-chave “biblioteca” e termos relacionados à leitura (leitura, leitor, história da leitura, ato de ler), selecionando cento e três resumos que compõem seu corpus de pesquisa.
Destes cento e três resumos, onze, de certa forma, se aproximam de nossa pesquisa por tratarem de bibliotecas públicas:
Quando o campo de estudos em educação toma como objeto de investigação a biblioteca pública, o faz predominantemente com uma abordagem histórica, no intuito de recuperar a constituição dessa biblioteca, as práticas leitoras realizadas e compartilhadas em seu espaço, assim como os sentidos alcançados em sua época. Para o campo da educação, a biblioteca pública parece apresentar-se como realidade antiga, algo distante no tempo, talvez com seu lugar em questão. Apenas três desses trabalhos analisam a biblioteca pública enquanto espaço legítimo e contemporâneo de promoção e disseminação da educação, cultura, informação e lazer. (ALIAGA, 2013, p. 104)
Tomando como base a pesquisa de Aliaga (2013), empreendemos uma busca12 pelos trabalhos completos procurando aqueles que poderiam também
ter como objeto o estudo de “leitores” e de suas “práticas em bibliotecas”. Destes onze resumos identificados por Aliaga (2013), foi possível acessar sete pesquisas, de forma integral e dessas, selecionamos três para serem analisadas por se aproximar daquilo que pretendemos nesta pesquisa e por
12 Foi utilizada a ferramenta de busca do Google, pesquisando o nome do autor e/ou o nome da pesquisa. Em alguns casos, quando não foi apresentada uma página que desse acesso ao trabalho completo, foi buscada a página da universidade de qual o pesquisador fazia parte.
nos apontar também pontos de distanciamento possíveis de serem investigados em outros momentos. Destes trabalhos, dois estão em formato digital (LOPES, 2008; MASSOLA, 2009) e um deles em formato impresso (MAIA, 2004).
A pesquisa de Lopes (2008), intitulada Biblioteca Pública Municipal
Rosulino Campos: memória, história e leitura tem o objetivo de “analisar as
práticas e representações de leitura e a formação de leitores constituídas no espaço da Biblioteca Pública Municipal Rosulino Campos, na cidade de Rio Verde-GO” (LOPES, 2008, p.8). O pesquisador busca se aproximar do percurso desta Biblioteca, levantando como e por que ela foi formada e constituída, como foi se desenvolvendo e organizando, quem a frequentava, quais práticas de leitura eram encontradas neste espaço para, a partir destas práticas, tentar conhecer as representações de leitura e biblioteca.
O pesquisador, para cumprir seus objetivos de pesquisa, utilizou como fontes documentos oficiais, relatos orais sobre a Biblioteca e entrevistas com leitores frequentadores deste espaço, com o intuito de identificar as suas práticas.
Ao longo desta dissertação, Lopes (2008) infere algumas representações de biblioteca, como: suporte cultural, que promove cultura, prazer e entretenimento; fonte de saber, de informações, de conhecimento; acesso ao livro e ao prazer da leitura; espaço aberto ao público, levando este bem cultural (livro) a todos; espaço deixado de lado pelo governo, que não direciona verbas específicas ou políticas de incentivo para sua estruturação e formação; acesso à tecnologia, ao computador e à internet.
Outra pesquisa, que se aproxima muito da pesquisa de Lopes (2008) é a de Maia (2004), intitulada Biblioteca Pública: espaço de mediação entre a
criança e a cultura escrita, que tem como objeto de estudo a Biblioteca Pública
Municipal Ataliba Lago, localizada na cidade de Divinópolis-MG. Este trabalho buscou: compreender as práticas de leitura no interior da biblioteca; verificar se escola e Biblioteca trabalham juntas; conhecer as demandas da escola em relação às Bibliotecas, como as crianças utilizam esse espaço público, o que a Biblioteca oferece para a comunidade e a relação entre o leitor e a Biblioteca.
Ao longo da pesquisa, Maia (2004) apresenta algumas representações de biblioteca que puderam ser identificadas a partir das práticas observadas, das maneiras que os leitores se apropriam dos objetos. É a biblioteca como espaço de leitura e de acesso à cultura, a um bem cultural (livro e leitura); como espaço coletivo, paradoxal (silêncio x diálogo) e de mediação; espaço de inclusão social e cultural; além de um ambiente mágico.
Massola (2009), de forma semelhante, busca conhecer os leitores, as práticas e as representações de leitura encontradas em uma biblioteca comunitária, construída a partir da doação do valor de um prêmio pelos vencedores de um concurso de grafiteiros, realizado por uma ONG. A biblioteca foi construída na comunidade Morro da Cruz, em Porto Alegre – RS. A autora percebe que a leitura acontece cotidianamente no dia a dia dessa comunidade, mas no espaço desta Biblioteca, ela assume significados diferentes pelos seus usuários.
A pesquisadora indica que, nesta biblioteca, a leitura está, em sua maioria, direcionada para a leitura do livro; também direcionando, portanto, algumas práticas e a própria organização do espaço. Mas, ao mesmo tempo, há uma tentativa de levar o leitor a conhecer diversos tipos de texto, e não apenas aquele que lhe é mais familiar, oferecendo a ele estratégias e práticas diferentes para que este conhecimento do que não é familiar seja possível. Talvez uma ideia de um espaço que envolve ações mais propositivas, de cunho formativo, visando à ampliação do conhecimento do mundo dos livros.
Estas duas facetas da biblioteca apresentadas por Massola (2009) mostram representações de leitura e de biblioteca que tratam da formação do leitor, e não apenas do acesso ao livro, à leitura, a partir de demandas e interesse de seus usuários.
A pesquisa de Aliaga (2013), assim como a pesquisa de Ferreira (2013) – estado da arte – ajudam outros pesquisadores a localizar um conjunto de trabalhos que tem como foco as “bibliotecas” e seus “leitores”. Os trabalhos de Lopes (2008), Maia (2004) e Massola (2009) contribuem para a construção de nossa pesquisa porque, em comum, trazem como foco de investigação uma
busca de compreensão dos leitores, das práticas e representações que movimentam esse lugar, chamado por nós, de biblioteca.
Outra busca foi empreendida por nós além daquelas pesquisas identificadas nos trabalhos de Ferreira (2011) e Aliaga (2013). Nesta foram localizados os de Platzer (2009) e Rochetti (2012), trabalhos também realizados no âmbito de nosso grupo de pesquisa ALLE.
A pesquisa de Platzer (2009), intitulada Crianças leitoras entre práticas
de leitura, tem como objetivo conhecer como se dá o encontro entre os objetos
de leitura e seus leitores, quais as modalidades de leitura praticadas e escolhidas por eles, tendo como leitores crianças de 10 e 11 anos, de ambos os gêneros, escolarizadas e que frequentam o 2º ano do Ciclo II do Ensino Fundamental de uma escola pública municipal de Araraquara-SP, localizada em zona urbana periférica. (PLATZER, 2009, p. 26). Como procedimentos metodológicos de coleta de dados foram utilizados: o Projeto Político- Pedagógico da escola, o prontuário dos alunos, observação, questionários, entrevistas, conversas informais e fotografias.
A pesquisadora constata, na pesquisa, que a maioria das crianças percebe a leitura como algo de grande necessidade e importância, construindo uma imagem de leitor ideal e apresentando relatos positivos sobre a leitura. Platzer (2009) relata ainda que há grande influência dos adultos nas falas e práticas das crianças, buscando moldá-las, direcioná-las e, em alguns momentos, apagando as práticas e falas infantis. Além disso, a autora destaca que o acesso ao impresso não acontece apenas através da escola, das bibliotecas, ou pela compra, mas também por empréstimos, heranças, evidenciando diferentes caminhos de acesso à leitura.
Platzer (2009) afirma que as práticas de leitura das crianças