• Nenhum resultado encontrado

Download/Open

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Download/Open"

Copied!
111
0
0

Texto

(1)

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA ESCOLA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES E HUMANIDADES

PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO STRICTU SENSO MESTRADO EM HISTÓRIA

TALES DE CASTRO CASSIANO

PARQUE OESTE INDUSTRIAL EM GOIÂNIA (GO): UM LUGAR DE MEMÓRIAS, VIVÊNCIAS E EXPERIÊNCIAS (2004-2005)

GOIÂNIA 2018

(2)

TALES DE CASTRO CASSIANO

PARQUE OESTE INDUSTRIAL EM GOIÂNIA (GO): UM LUGAR DE MEMÓRIAS, VIVÊNCIAS E EXPERIÊNCIAS (2004-2005)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação Strictu Sensu em História da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, como requisito parcial para obtenção do título de mestre.

Área de Concentração: Cultura e Poder Linha de pesquisa: Poder e Representações Orientação: Professora Dra. Maria Cristina Nunes Ferreira Neto.

GOIÂNIA 2018

(3)

Parque Oeste Industrial em Goiânia (GO)[ recurso eletrônico]: um lugar de memórias, vivências e experiências (2004

- 2005)/ Tales de Castro cassiano.-- 2018. 108 f.; il. 30 cm

Texto em português com resumo em inglês

Dissertação (mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu

em História, Goiânia, 2018 Inclui referências f.99-108

1. História - Parque Oeste industrial - Goiânia (GO). 2. Civilização moderna. 3. Comunicação de massa. I.Ferreira Neto, Maria Cristina Nunes. II.Pontifícia Universidade Católica de Goiás. III. Título.

(4)
(5)

Dedico a presente dissertação a todas as famílias que direta ou indiretamente sofreram e ainda sofrem com as marcas deixadas pela desocupação violenta do Parque Oeste Industrial. Que todos que lutaram e ainda lutam por garantias de direitos ainda possam continuar com a esperança de que um mundo melhor é possível.

(6)

Agradeço todos e todas que de alguma maneira compartilharam comigo esses momentos de perseverança, criatividade e ampliação do conhecimento, mas também de muita angústia, ansiedade e apreensão, em especial:

À Pontifícia Universidade Católica de Goiás que abriu suas portas com seu excelente quadro de professores para que eu pudesse chegar até esse momento de conclusão do mestrado, permitindo que eu participasse do seu quadro de pesquisadores.

À FAPEG (Fundação de Apoio à Pesquisa de Goiás) que ajudou a financiar minha pesquisa, apoiando minha permanência no programa nesses dois anos de estudo.

O meu reconhecimento e admiração à minha orientadora professora Dra. Maria Cristina Nunes Ferreira Neto, que com paciência e sabedoria soube me mostrar os melhores caminhos e leituras a percorrer durante a pesquisa. Nos momento mais difíceis soube me motivar, contribuindo enormemente para que eu pudesse concluir o mestrado.

Aos professores e professoras do Programa de Mestrado em História da PUC Goiás, que abriram os horizontes e ampliaram meu modesto fazer histórico. Saio do curso de Mestrado em História admirando o quadro docente dessa Universidade e agradecendo a oportunidade de poder ter estudado com professores e professoras tão dedicadas e preparadas para este ofício.

Agradeço os meus colegas de turma, que em diversos momentos ajudaram a dar força e coragem para continuar o programa, pessoas do bem que deram mais alegria e sabedoria às nossas aulas semanais.

Aos amigos e amigas de trabalho, luta e militância, no Partido dos Trabalhadores e no mandato do deputado estadual Karlos Cabral, que estiveram comigo lado a lado durante todo o processo de pesquisa, e mais do que esse momento de participação no mestrado, foram fundamentais na formação política e na mediação dos valores humanos que eu apreendi.

Ao seu Cassiano e Dona Helena, meus principais exemplos de vida, honestidade e valorização do estudo e busca do conhecimento. Pai e Mãe, sem

(7)

feliz por ter a oportunidade de ser filho de pessoas tão especiais.

Ao meu irmão Péricles, que underground assim como eu, esteve mais próximo de mim e de minha família nesses últimos dois anos, motivo de alegria, além de exemplo de superação. Obrigado mano!

Por fim, quero agradecer às três pessoas que mais conviveram comigo nessa caminhada de pesquisa e estudos. As três pessoas que mais toleraram meu mau humor, minhas angústias e que em todo o momento foram pilares para que eu tivesse força e vontade de concluir com êxito minha participação no mestrado em História da PUC Goiás. Ana Paula, minha esposa, Ulisses e Benicio, meus filhos, estrelas guia da minha vida, meus mestres e aprendizes diários, os quais convivo com intensidade e amor.

Obrigado a todos e todas que durante esses dois anos souberam compreender o quanto a participação no Mestrado em História da PUC Goiás era importante para mim.

(8)

Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.

(9)

Esta dissertação busca analisar e compreender o episódio da ocupação/desocupação de uma área localizada no bairro Parque Oeste Industrial em Goiânia- GO, que teve início em Maio de 2004 e terminou, de forma violenta, em Fevereiro de 2005, com duas mortes e centenas de feridos. O conflito teve repercussão nacional e mobilizou diversos setores da sociedade como sindicatos, entidades patronais, imprensa, vereadores, deputados, movimentos sociais e populares, entre outros. A análise sobre o conflito se dá em diálogo com o discurso de modernidade que durante décadas apresentou Goiânia como exemplo de progresso e garantidora de boa qualidade de vida. No capítulo inicial optou-se em reconstruir o discurso fundante da cidade, avaliando como o conceito de modernidade esteve presente nas disputas de poder e embates eleitorais em diferentes momentos históricos. No segundo capítulo resgatou-se a história e memória do conflito do Parque Oeste Industrial e a partir das fontes pesquisadas apresenta-se a violência empreendida pela Política Militar e possíveis casos de violação de direitos humanos na desocupação do terreno. Outro aspecto analisado nesse capítulo aborda de que forma interesses públicos e privados disputam o modelo de cidade vigente na atualidade e se os direitos constitucionais estão sendo efetivados para a população. No terceiro e último capítulo faz-se uma breve análise do papel da imprensa na sociedade contemporânea, observando seus interesses e relações com grupos econômicos e de poder político. A partir dessa leitura busca-se entender de que forma o jornal

O Popular representou o conflito e de que como essa representação pode ter

influenciado na memória coletiva da sociedade goiana e goianiense. O trabalho mostra a perspectiva de aplicação de novas metodologias na história política e na análise crítica de notícias jornalísticas, contribuindo no resgate da História de Goiás e do Brasil.

Palavras chave: História de Goiás, modernidade, Parque Oeste Industrial, representação, mídia.

(10)

This dissertation seeks to analyze and understand the episode of occupation / evacuation of an area located in the Parque Oeste Industrial neighborhood in Goiânia-GO, which began in May 2004 and ended violently in February 2005 with two deaths and hundreds of injured people. The conflict had a national repercussion and mobilized various sectors of society such as unions, employers, the press, councilors, deputies, social and popular movements, among others. The analysis of the conflict takes place in dialogue with the discourse of modernity that for decades presented Goiânia as an example of progress and a guarantee of a good quality of life. In the initial chapter we chose to reconstruct the founding discourse of the city, evaluating how the concept of modernity was present in power disputes and electoral battles at different historical moments. In the second chapter the history and memory of the West Industrial Park conflict was recovered and from the researched sources it is presented the violence undertaken by the Military Policy and possible cases of violation of human rights in the vacating of the land. Another aspect analyzed in this chapter addresses how public and private interests compete for the current city model and whether constitutional rights are being realized for the population. In the third and final chapter, a brief analysis is made of the role of the press in contemporary society, observing its interests and relations with economic groups and political power. From this reading it is sought to understand how the newspaper O Popular represented the conflict and that how this representation may have influenced the collective memory of the goiana and goianiense society. The work shows the perspective of applying new methodologies in political history and in the critical analysis of news stories, contributing to the rescue of the History of Goiás and Brazil

Keywords: History of Goiás, modernity, Parque Oeste Industrial, representation, mídia.

(11)

AGEHAB Agência de Habitação do Estado de Goiás

AGETOP Agência de Transportes e Obras do Estado de Goiás CELG Companhia de Energia Elétrica de Goiás

COMOB Companhia Municipal de Obras COMURG Companhia Urbanização de Goiânia MPE Ministério Público Estadual

MPF Ministério Público Federal OJC Organizações Jaime Câmara

SANEAGO Companhia de Saneamento e Água de Goiás SMT Secretaria Municipal de Trânsito de Goiânia

(12)

CONSIDERAÇÕES INICIAIS---10

CAPÍTULO 1

GOIÂNIA E O DISCURSO DO PROGRESSO: PASSADO E PRESENTE TECIDOS PELA MODERNIDADE---17 1.1 - AS EXPECTATIVAS GERADAS PELA CAPITAL DA MODERNIDADE---23 1.2 - A REINVENÇÃO PERMANENTE DA “MODERNIDADE” COMO ESTRÁTÉGIA DE PODER---36

CAPÍTULO 2

O CONFLITO DO PARQUE OESTE INDUSTRIAL---50 2.1 – O ROTEIRO TRÁGICO DA LUTA PELO DIREITO À MORADIA---53 2.2 – FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE URBANA E O CONFLITO ENTRE INTERESSE PÚBLICO E INTERESSE PRIVADO---62

CAPÍTULO 3

IMPRENSA E REPRESENTAÇÃO: MECANISMOS DE FORMAÇÃO DA MEMÓRIA COLETIVA ---71 3.1 - O PAPEL DA IMPRENSA NA CONTEMPORANEIDADE ---74 3.2 - NARRATIVA DO CONFLITO PELO JORNAL O POPULAR: REPRESENTAÇÃO E MANIPULAÇÃO DA NOTÍCIA ---87

CONSIDERAÇÕES FINAIS---96

(13)

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A ocupação desorganizada de áreas urbanas por sem teto1 é fato comum

nas grandes metrópoles do país, e as desocupações desastrosas por forças policiais ocorrem reiteradamente. No início do século XXI Goiânia vivia um grande processo de urbanização e a ocupação de um terreno no bairro Parque Oeste Industrial foi iniciada por famílias de sem teto com o intuito de ali fixar moradia. Logo, candidatos às eleições que se aproximavam, passaram a realizar no local comícios e reuniões, prometendo dar apoio aos moradores para a obtenção dos lotes de forma regular. Tais promessas ocasionaram um aumento significativo e rápido no número de ocupantes da área.

A ocupação ocorreu em maio de 2004 e mobilizou uma ampla negociação, sem resultados, entre o Poder Público, setores da Secretaria de Segurança Pública e posseiros. A imprensa local, que denominava a ocupação de invasão, publicou ao longo dos meses a ocorrência de conflitos, inclusive os homicídios ocorridos durante o processo de desocupação em fevereiro de 2005. A área ocupada pelos sem teto fazia parte de um lote destinado à especulação imobiliária, segundo informação contida no Relatório do Ministério Público Federal2.

Por sua vez o proprietário do imóvel entrou com uma ação de reintegração de posse que foi acatada e a Juíza responsável pelo caso, Grace Corrêa Pereira, expediu no dia 09 de setembro de 2004 uma medida para que o terreno fosse desocupado em 20 dias. No entanto a determinação não foi cumprida devido não ter havido acordo entre as partes. A partir deste momento se deu uma intensa disputa política e judicial.

1 Entende-se por sem-teto pessoas que não tem abrigo cotidiano e até mesmo moradia fixa. No Brasil várias organizações populares buscam defender os direitos dos sem-teto, tendo como principal entidade o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Estima-se, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), que mais de 24 milhões de pessoas no Brasil podem ser consideradas sem-teto.

2 MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL – Procuradoria da República de Goiás. Caso Parque Oeste Industrial. Goiânia, 10 de abril de 2006. Disponível em: http://www. prgo.mpf.gov.br/imprensa/not345-1.pdf. Acesso em 31/07/2016

(14)

O desenvolvimento desse conflito chamou a atenção da opinião pública local e nacional para o drama da falta de moradias e planejamento na cidade. A truculenta ação policial para a reintegração de posse, denominada Operação Triunfo resultou, segundo a Folha de São Paulo de 17 de Fevereiro de 2005, em 02 mortes, centenas de feridos e cerca de 800 prisões.

Este estudo tem o objetivo de examinar as representações que o Jornal

O Popular3 apresentou em suas reportagens sobre a ocupação e a desocupação do Parque Oeste Industrial. Outras duas fontes igualmente contribuíram para analisar o conflito, sendo elas, o relatório do Ministério Público Federal (2006) e o relatório da Cerrado Advocacia Jurídica Popular (2006). São documentos que trazem detalhes do cotidiano da ocupação e a forma violenta de como se deu a desocupação do espaço em questão.

O estudo também procura discutir o modo como se deu a ocupação urbana no sentido do planejamento e da apropriação do território da capital goiana e quais as alternativas que surgem como modelo de cidade na contemporaneidade. O texto de Cardoso e Vainfas é um dos trabalhos que fornece mecanismos e orientações para a organização desta tarefa. Os autores afirmam que:

o pressuposto essencial das metodologias propostas para a análise de textos em pesquisa histórica é o de que um documento é sempre portador de um discurso que, assim considerado, não pode ser visto como algo transparente (CARDOSO; VAINFAS, 1997, p.337).

Os autores chamam a atenção para o fato que Capelato (1988), anos antes, havia mencionado em sua obra clássica Imprensa e História do Brasil, que, “nos vários tipos de periódicos e até mesmo em cada um deles encontramos projetos políticos e visões de mundo representativos de vários setores da sociedade” (CAPELATO, 1988, p.34). A autora aponta que os impressos são produtos manipulados em função de representações definidas da realidade, e que disseminam formas figuradas de luta pelo poder confirmando desta maneira a memória de um grupo social ou político.

3

O Jornal O Popular faz parte das Organizações Jaime Câmara e é o jornal escrito de maior circulação no Estado com cerca de 150 mil exemplares, segundo dados da própria empresa. Além disso foi o primeiro jornal da capital Goiânia datando sua primeira edição de 3 de abril de 1938.

(15)

Elmir (1995) faz uma observação que deve ser levada em consideração ao interpretar as notícias de um jornal anos depois da publicação, e nos chama atenção para o rigor e o cuidado em abordar a notícia considerando o contexto em que foi produzida. Neste sentido, a pesquisadora Luca (2005) menciona que deve ser levado em consideração as redações que são lugares que aglutinam formas de pensar estética e politicamente. Esta autora também nos lembra que é importante historicizar a fonte, o que necessita levar em conta as condições técnicas de produção no momento histórico contemporâneo dos fatos estudados.

É preciso sobretudo atentar para a observação de Barbosa (1998), de que um jornal, independentemente de sua linha de atuação, tem suas conveniências e luta pelos seus interesses. Segundo esta autora, o que o veículo informativo publica nem sempre é fiel aos fatos e em diversos momentos age em benefício de grupos econômicos e do poder político. Portanto, a autora pede cautela na metodologia de abordagem dos periódicos e cuidado com as análises dos editoriais para que se tenha um posicionamento concreto da publicação.

Jean-Noel Jeanneney (2003) afirma que o estudo da mídia é característica da Nova História Política, podendo relaciona-lo à cultura de determinada sociedade e aos interesses políticos vigentes. O historiador afirma que há muito a ser explorado em relação aos setores de comunicação em sua longa história de forte influência nas sociedades. Citando duas novas abordagens possíveis sobre o tema o autor afirma:

A primeira consiste em estudar, no tocante à imprensa escrita, o dinheiro mais ou menos oculto que a irriga. Todas as migalhas que pudermos arrancar do mistério das finanças da imprensa são preciosas [...] A segunda abordagem corresponde a uma visão mais fisiológica das coisas: consiste em ver, em casos precisos, como funcionam as influências – nascimento, vida e morte de programas, nomeação e afastamento dos diretores, e também incidentes diversos que fazem a máquina ranger e revelar a sua engrenagem (JEANNENEY, 2003, p. 219, 220).

Ao analisar as matérias produzidas pelo jornal O Popular durante o período do conflito no Parque Oeste Industrial, foi possível observar notícias cotidianas da cidade de Goiânia que contribuem na compreensão da cultura e da rotina da cidade, além das informações sobre o dia-a-dia da política do Estado. Observa-se que através do estudo das fontes jornalísticas podemos

(16)

ampliar nossa leitura sobre o desenvolvimento de Goiás, as práticas cotidianas, as relações sociais e de poder, costumes e formas de viver dos goianos. Como exemplo, ao pesquisar a edição do dia 20 de janeiro de 2005, no caderno Cidades do jornal O Popular, além das informações sobre clima, é possível perceber dois outros temas de destacada relevância que também impactaram Goiânia: a criação do transporte alternativo coletivo e os conflitos que surgiram desse processo intitulada Caso CTC, e o tráfico de mulheres intitulada

Exploração, possibilitando perceber demais situações que constituíam o

cotidiano da cidade naquele período.

Fonte: O Popular. Goiânia, Janeiro de 2005.

Outro eixo possível de ser abordado pela Nova História Política passa pelo estudo do desenvolvimento da cidades e como a atuação do poder político nos conflitos que emergem entre os diversos setores sociais, contribuem na configuração da cidade.

Analisar a cidade como bem público, como espaço de direitos, de trabalho, moradia, educação e lazer, em relação a um prioritário lugar de

(17)

produção e desenvolvimento do capitalismo, são possibilidades aventadas pela Nova História Política.

Grandes conflitos existem pela concepção de cidade que se quer construir. Em meio a uma “vida líquida”4 (BAUMAN, 2009), onde o consumismo

desenfreado dita a percepção e ação das pessoas, é nas cidades que o capitalismo emerge nas suas mais diversas faces. Produção, marketing, consumo, dos mais variados produtos, desde a alimentação a ser seguida até mesmo o local onde "melhor" morar, tudo pode virar produto.

A disputa pela lógica de desenvolvimento das cidades se dá em diversos campos: político, econômico e cultural, num complexo processo de convencimento/manipulação da sociedade, por parte dos setores que querem formatar o desenvolvimento da cidade a partir de seus interesses, sobretudo econômicos.

Segurança, trabalho, controle dos problemas e das desigualdades. Segregação, prioridades de consumo, divisão territorial da população. Direitos, cidadania. A relação público versus privado. A quem serve o modelo de cidade que vivemos na atualidade? Quais os agentes sociais que disputam ou preservam esse modelo?

Diante dessas indagações, detém-se investigar um aspecto do episódio Parque Oeste Industrial que pode contribuir para reconstruir a narrativa histórica sobre a ocupação e desocupação deste terreno em diálogo com o desenvolvimento da cidade de Goiânia na atualidade: como a imprensa atuou nos acontecimentos, ou melhor, como a imprensa representou os acontecimentos, o conflito.

Sendo assim, para melhor desenvolver a narrativa sobre a pesquisa realizada, esta dissertação se estrutura em três capítulos, buscando sistematizar o estudo do tema, a análise das fontes e as respostas obtidas a partir das hipóteses levantadas, quais sejam, a contradição do discurso de modernidade em face ao conflito urbano do Parque Oeste Industrial; que o Jornal O Popular contribuiu para construir uma memória coletiva da cidade representando a

4 Vida líquida é a expressão utilizada por Zygmunt Bauman (1925-2017) para expressar a sociedade em sua atualidade, onde a individualidade e o consumo levam a uma fluidez dos valores, dos costumes e da própria organização social. Para Bauman, vivemos numa sociedade pós moderna, pois o indivíduo não mais representa fazer parte do coletivo, mas sim a vontade de viver de forma efêmera e imediata o que traz benefícios para si mesmo.

(18)

ocupação como negativa, pois era a desordem e o descumprimento da lei, e o processo de desocupação como positivo, pois foi a manutenção e garantia do cumprimento da lei; e que essa representação se deu em consonância com interesses do poder político e de setores produtivos que exercem forte influência no desenvolvimento da cidade.

O primeiro capítulo, Goiânia e o Discurso do Progresso: passado e

presente tecidos pela Modernidade, retoma os valores fundantes da cidade de

Goiânia enfatizando como esses valores eram signatários de uma disputa política nacional e local entre grupos políticos detentores do poder e grupos ligados a Getúlio Vargas e Pedro Ludovico5. Demonstra que desde a fundação

da cidade, os discursos do progresso e da modernidade estiveram presentes para dar sentido a uma defesa de renovação política e mudança no controle do poder, e que esses mesmos discursos foram utilizados em diversos momentos da história contemporânea do Estado de Goiás sempre ligados aos embates políticos.

No segundo capítulo, O conflito do Parque Oeste Industrial, busca-se

compreender se a permanência desses discursos tem sentido prático no dia a dia da cidade de Goiânia, a partir do estudo de caso da ocupação e desocupação do Parque Oeste Industrial. Apresenta uma análise do processo do conflito violento que ocorreu na cidade relacionando-o com as garantias de direitos que a população tem atualmente, principalmente no que tange ao direito à cidade, devidamente conceituado no capítulo em questão. Busca-se apresentar de que forma a expansão urbana do município de Goiânia levou a conflitos entre interesses públicos e privados, e como isso afetou diretamente na desconstrução do modelo de planejamento da cidade, claramente confrontando direitos definidos pela Constituição brasileira.

No último e terceiro capítulo, Imprensa e Representação: mecanismos de

formação da memória coletiva, apresenta-se de que forma a imprensa goiana,

5

Pedro Ludovico Teixeira nasceu em 23 de outubro de 1891, na cidade de Goiás e faleceu em Goiânia no dia 16 de agosto de 1979. Foi um dos líderes do movimento de 1930 em Goiás e interventor federal no estado nomeado por Getúlio Vargas nos anos de 1930 a 1934 foi idealizador e responsável direto pela mudança da capital da cidade de Goiás para Goiânia. Eleito governador em 1935, foi nomeado interventor em 1937 após a instalação da ditadura liderada nacionalmente por Vargas, governando o estado até 1945. Foi eleito governador novamente em 1951, administrando o Estado até 1954. Foi senador eleito por duas vezes (1955-1962 e 1962-1970), tendo seus direitos políticos cassados no ano de 1968 com o Ato Institucional nº 5.

(19)

em particular o Jornal O Popular, noticiaram o conflito do Parque Oeste Industrial. Além de analisar os contornos da força cultural da mídia contemporânea, busca-se entender como esta representou, a partir do conceito de representação do historiador francês Roger Chartier, os acontecimentos do conflito objeto de estudo dessa pesquisa.

(20)

CAPÍTULO 1 - GOIÂNIA E O DISCURSO DO PROGRESSO:

PASSADO E PRESENTE TECIDOS PELA MODERNIDADE

Em 24 de outubro de 1933 foi lançada a pedra fundamental de Goiânia. Em março de 1937 Goiânia passou a ser, oficialmente, a capital do Estado de Goiás.

Pedro Ludovico Teixeira, ao centro, assinando o decreto que determinava a criação da nova capital de Goiás. Autor desconhecido.

Meus senhores, afinal Goiânia nasceu e está crescendo. É muito jovem, é criança mesmo. Tem apenas 8 anos de idade, descontando o lapso de tempo destinado a estudos e instalações. Uma cidade, como sabeis, se constrói, se completa, com o perpassar dos séculos e das gerações. Goiânia apareceu com um objetivo de oxigenamento e progresso para Goiás. Surgiu como um farol para iluminar o estado. Esta terra precisava ser abalada por qualquer acontecimento que a fizesse lembrada e que a fizesse vibrar. Vivia sob tal modorra, sob tal apatia que dava a impressão que vivia de cócoras. Tudo pequenino, vazio, rotina, burocracia. Goiânia foi o estímulo, o excitante, o choque que obrigou o nababesco paquiderme a levantar-se. A cidade, no passado, era refúgio a que os homens se recolhiam quando a guerra explodia nas fronteiras. A cidade era fortaleza e abrigo. A cidade moderna é o repositório de todos os afetos do homem. Ali tem ele o seu lar, a sua família, os seus amigos, as reservas para a sua subsistência e os focos para a sua cultura. A cidade moderna educa e civiliza. É o fator mais valioso para reforçar a homogeneidade das pátrias. (Trecho do discurso de Pedro Ludovico no dia da fundação oficial de Goiânia. 24 de outubro de 1933. Informe Técnica do Instituto Mauro Borges. Edição 08/2013, outubro de 2013)

Neste capítulo apresenta-se como o discurso da modernidade foi construído como parte fundante da cidade de Goiânia. As lideranças políticas se apropriaram ao longo das décadas da força que esse discurso produz como

(21)

instrumento de disputa política e de convencimento da população. Busca-se analisar os impactos políticos que a defesa do progresso e da modernidade tiveram na disputa de poder local com a chegada de Getúlio Vargas6 à

presidência da República em 1930 e como esse tema foi central para o respaldo da mudança da capital e fundação de Goiânia pelo então interventor e governador de Goiás, Pedro Ludovico Teixeira.

Outro aspecto abordado é como esse discurso da modernidade se torna recorrente nas disputas políticas no Estado de Goiás, sempre como tentativa de renovar as propostas frente a população, principalmente em momentos de embate eleitoral.

Modernidade, que segundo Habermas (1991), refere-se a algo mais amplo do que mudanças estruturais e artísticas, sendo um novo modo de pensar difundido pela humanidade. Ainda de acordo com este autor, não se pode falar em modernidade, mas em modernidades como sequências complexas que incorporam várias categorias de atuação e pensamentos humanos que passaram por interrupções e transformações.

Autores como Ianni (1971), Fonseca (2012), Pandolfi (1999), Reis (1988) concordam que, na época, a utilização dessa palavra não era somente no plano discursivo, mas que havia um significado político mais amplo, um projeto nacional que de fato enxergava na modernidade a possibilidade da formação de um novo Brasil.

O entendimento sobre modernidade pode também se dar na definição de costumes, práticas e na nova forma do homem se colocar no mundo a partir de uma temporalidade, mais especificamente entre o final do século XVII até meados do século XX. Essa compreensão está calcada na análise de que a modernidade é fruto do desenvolvimento capitalista e da difusão dos ideias

6 Getúlio Dornelles Vargas nasceu em 19/4/1882, na cidade de São Borja (RS) e faleceu em

24/8/1954, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Foi o presidente durante dois mandatos entre os anos de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. Entre 1937 e 1945 instalou a fase de ditadura, o chamado Estado Novo. Os governos de Vargas são reconhecidos por uma importante transição do capitalismo no Brasil, onde a industrialização se efetivou nos grandes centros urbanos. Os governos de Vargas também são lembrados pela ampliação dos direitos trabalhistas e ampliação dos direitos da mulher, como, por exemplo, o direito ao voto. Seu falecimento se deu num grave momento de crise política e econômico do país, onde pressionado por alguns setores da imprensa, das forças armadas e por importantes lideranças políticas oposicionistas a seu governo, se suicidou no Palácio do Catete, sede administrativa do governo federal à época.

(22)

iluministas7, que desencadearam novas formas de organização dos poderes

políticos e formação de novas relações econômicas e de produção. Giddens (1991), ao analisar a modernidade aponta,

Como uma primeira aproximação, digamos simplesmente o seguinte: "modernidade" refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência. Isto associa a modernidade a um período de tempo e a uma localização geográfica inicial (GIDDENS, 1991, p. 8).

Giddens (1991) busca compreender a natureza da modernidade, estabelecendo distinções e proximidades de pensamento entre Emile Durkheim, Karl Marx e Max Weber. Para o autor a modernidade se torna algo mundial, sendo a globalização uma de suas principais características,

A modernidade é inerentemente globalizante — isto é evidente em algumas das mais básicas características das instituições modernas [...] A globalização pode assim ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa (GIDDENS, 1991, p. 60).

Marx (1996), em seu Manifesto Comunista, faz alusão às mudanças ocorridas com a modernidade, principalmente com o surgimento de novas classes sociais como os burgueses e o proletariado.

A burguesia não pode existir sem revolucionar, constantemente, os instrumentos de produção e, desse modo, as relações de produção e, com elas, todas as relações da sociedade [...] A revolução constante da produção, os distúrbios ininterruptos de todas as condições sociais, as incertezas e agitações permanentes distinguiram a época burguesa de todas as anteriores. Todas as relações firmes, sólidas, com sua série de preconceitos e opiniões antigas e veneráveis, foram varridas, toda as novas tornaram-se antiquadas antes que pudessem ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é, finalmente, compelido a enfrentar de modo sensato suas condições reais de vida e suas relações com seus semelhantes (MARX, 1996, p. 14).

7 O Iluminismo foi um movimento intelectual que surgiu durante o século XVIII na Europa, que defendia o uso da razão e da ciência – luz - contra o antigo regime – trevas - e pregava maior liberdade econômica e política, além de uma separação do Estado com a Igreja. O Iluminismo foi propulsor da Revolução Francesa e teve como um dos seus principais expoentes Jean-Jacques Rousseau e Montesquieu. O iluminismo se tornou a principal referência do pensamento moderno do mundo, contribuindo para reformular as organizações políticas, educacionais e econômicas.

(23)

Nesta obra, Marx (1996) apresenta os conflitos oriundos da consolidação do capitalismo industrial e a consagração de uma nova ordem econômica com suas variadas consequências políticas e sociais.

Weber (1997) também se debruça em compreender a sociedade moderna e aponta que a racionalização e a burocracia são características centrais nesse novo período da humanidade.

Modernidade e progresso se tornam sinônimos, e não só sinônimos entre si, mas também sinônimos de novidade, de inovação, de sonho, esperança, sinônimo de futuro.

Walter Benjamim, na obra O anjo da História (2012), destoa desse entendimento ufanista da modernidade, e apresenta uma leitura crítica e melancólica sobre o que seria o progresso. Marcado pelas enormes tragédias das duas grandes guerras, em especial, pela perseguição sanguinária do nazismo, faz apontamentos pertinentes sobre quais caminhos a sociedade estava trilhando em nome do dito progresso e da modernidade. Apresenta o Anjo da História, assustado, incrédulo, impossibilitado de mudar o curso do que estava por vir. O quadro de Paul Klee sintetiza para Benjamim como a própria humanidade se colocou frente ao furacão chamado progresso.

O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso (BENJAMIM, 2012, p.14).

No estudo sobre a cidade de Goiânia, a referência à modernidade está fortemente presente. Referência que sempre buscou relacionar a capital ao processo de industrialização, urbanização e positivas consequências políticas, sociais, econômicas e culturais, advindas do progresso.

O desenvolvimento econômico como sentido principal da sociedade demonstra o quanto modernidade e capitalismo sempre andaram lado a lado, se entrelaçando e se justificando, como condição fundamental para a humanidade.

(24)

Karl Marx assim como Walter Benjamim, apontava o progresso e o discurso da modernidade como fenômenos do capitalismo. Percebiam o progresso como um processo de mudanças das relações econômicas na sociedade. Marx (1986), mais notadamente, defendia que o progresso e a modernidade vinham como novidade em substituição do velho, consolidando o triunfo da burguesia.

Para Blumenberg (1995), a modernidade pode ser analisada enquanto um processo de ruptura com o “velho”, criando-se novas referências, mas também continuando com as formas “velhas”, só que adaptadas ao “novo”. O filósofo alemão explicita os receios da humanidade frente o advento da modernidade, e utiliza a metáfora do naufrágio para avaliar que parte da sociedade observa de forma um tanto quanto inerte as transformações que ocorrem no mundo.

No Brasil esses conceitos tomam forma e significado a partir da década de 1930, a propagação do progresso e do moderno tornaram-se mecanismos de diferenciação daqueles que queriam se distanciar dos setores políticos hegemônicos, buscando apresentar um discurso de oposição.

Getúlio Vargas utiliza o discurso da modernidade com recorrência como uma estratégia de poder, que se torna hegemônico para uma população carente e distante do debate sobre as grandes questões nacionais. Ao exaltar a nova organização administrativa do país Vargas afirma:

[...] todas as categorias sociais, de alto a baixo, sem diferença de idade ou de sexo, comungam em um idêntico pensamento fraterno e dominador: - a construção de uma pátria nova, igualmente acolhedora para grandes e pequenos, aberta à colaboração de todos os seus filhos. Após o momento de vitórias, foi preciso refletir maduramente sobre a obra de reconstrução. E para que não se fraude a expectativa do povo brasileiro, o trabalho de reconstrução não admite medidas contemporizadoras. Implicaria no reajustamento social e econômico de todos os rumos até aqui seguidos. É preciso através de atos cimentar a confiança da opinião pública no regime que se inicia (VARGAS apud VARGAS, 2007, p.57).

Portanto, pode-se apresentar o entendimento de modernidade como surgimento de algo novo e não exclusivamente como um período histórico. A ideia da modernidade como algo em construção, em evolução, a depender da nossa própria ação. Essa é a principal chave do entusiasmo e apoio conseguidos por Vargas e seus correligionários, pois o discurso do progresso e da modernidade coloca nas mãos das pessoas a possibilidade de mudança.

(25)

Entretanto, no estudo sobre cidades esses conceitos estão relacionados também com as consequências produzidas pelo avanço desenfreado do capitalismo, principalmente com o desenvolvimento das metrópoles e grandes centros urbanos a partir da segunda metade do século XX. Pois progresso e modernidade são as bases para o avanço da produção, da divisão social do trabalho, exploração da natureza, ampliação do comércio e dos negócios, é a justificativa para uma sociedade voltada para o consumo.

Bresciani (1992) aponta a importância do estudo das cidades como instrumento de análise histórica e sociológica, elencando elementos na configuração das cidades que contribuem para ampliação de conflitos e contradições. Em seu texto História e Historiografia das cidades, um percurso, destaca que o desenvolvimento das cidades cria vícios e virtudes, e os antagonismos se aprofundam como riqueza versus pobreza, intelectualidade

versus ignorância.

A autora traz à tona essa contradição entre discurso e realidade que o progresso e modernidade produzem. Sua opinião é que esse processo é um “movimento criadoramente destrutivo”, em diálogo com o que nos apresenta Walter Benjamim em o Anjo da História.

Com a expansão urbana aparecem a pobreza, a favelização e as amplas dificuldades de a infraestrutura acompanhar a ampliação das cidades. O aprofundamento da desigualdade social e econômica também vai se tornando consequência da profusão da modernidade e progresso ao longo dos séculos XIX e XX.

Analisar como modernidade é elemento discursivo constituinte de Goiânia faz parte desse estudo, buscando olhar como ao longo dos anos esse conceito continua sendo trazido para retomar um sentido pacificador, acolhedor e desenvolvimentista para a cidade. Portanto, iremos observar nesse capítulo como a fundação da cidade esteve ligada a esse conceito em nível nacional, com o projeto de poder de Vargas, e como políticos goianos utilizaram-no como o discurso e instrumento de disputa política no Estado.

(26)

1.1 -

AS EXPECTATIVAS GERADAS PELA CAPITAL DA MODERNIDADE

A cidade de Goiânia foi construída a partir de 1933 com a finalidade de abrigar a sede do governo estadual, localizada até esse período na colonial cidade de Goiás. Essa construção representou um marco do projeto nacional-desenvolvimentista empreendido pelo governo de Getúlio Vargas e foi propulsor para o desencadeamento, alguns anos depois, da Marcha para o Oeste8, como

um ponto de partida para a penetração do interior do país.

A efetivação da mudança da capital para Goiânia se realizou a partir dos esforços dos grupos políticos opositores à oligarquia hegemônica da cidade de Goiás, e associavam a manutenção da capital neste município com o atraso e falta de desenvolvimento. A mudança, capitaneada pelo interventor Pedro Ludovico, poderia colocar o Estado em melhores condições comerciais em uma política de aproximação com os grandes centros industriais do país, dando maior visibilidade a um política de desenvolvimento de Goiás.

A construção da nova cidade significava, um salto para a modernidade e a inserção de Goiás nos quadros da integração nacional. O conceito de modernidade naquele momento estava relacionado com a inserção de Goiás nos meandros da economia do Sudeste. Em outro aspecto, a arquitetura de Goiânia foi projetada em um estilo cujos traços eram tidos como modernos naquela época9. Para o grupo político ligado a Vargas, a construção de Goiânia

representava a possibilidade de criar uma “comunidade imaginada”10, um espaço

seguro, longe da influência negativa do litoral.

8 Marcha para Oeste foi um projeto nacional idealizado no segundo período do governo Vargas, denominado Estado Novo (1937-1945). Tinha o intuito de interiorizar as políticas sociais e industriais, visando uma maior integração nacional e buscando desenvolver as outras regiões do país para além do sul e sudeste.

9Art Déco é a expressão francesa referente à arte decorativa. Associa sua imagem a tudo que se define como moderno, industrial, cosmopolita. Foi um movimento artístico que surgiu na França e teve seu apogeu nas décadas de 1920 e 1930. (BARRETO, Amanda. Art Déco: depoimentos e imagens. Goiânia: RF, 2007, p.)

10 Comunidade imaginada é um conceito formulado pelo historiador estadunidense Benedict Andersen (1936-2015). Para Andersen, a comunidade imaginada está ligada à formação das nações e do nacionalismo, e exprime o sentimento de unidade em torno de uma sociedade, onde mesmo as pessoas não se conhecendo, cada um imagina e compartilha ideais, fronteiras e formas de convívio social comuns.

(27)

Goiânia, a capital do Estado de Goiás, surgiu como produto de um novo pensamento nacional fomentado pela chamada Revolução de 193011. Esse

período histórico ficou marcado por acontecimentos que se desdobraram em mudanças sociais, políticas e econômicas, advindas da tomada do poder por Getúlio Vargas e seu grupo político, a Aliança Liberal.

A Aliança Liberal surge com a dissidência dos presidentes dos Estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, que decidiram disputar a presidência da República em oposição ao grupo hegemônico liderado por políticos do Estado de São Paulo. Com a derrota, a Aliança Liberal, constituída por setores de oligarquias regionais e do exército, se insurgiu e através de incursões armadas tomou o poder elevando Getúlio Vargas ao cargo de presidente.12

Ali se iniciava as bases de uma República que tinha como projeto central a modernização do país. A construção de Goiânia contribuía para representar a possibilidade de concretude desse projeto, pois simbolizava o desenvolvimento no interior do Brasil.

Getúlio Vargas auxiliou concretamente a construção da nova capital cedendo um empréstimo em apólices do governo federal a partir dos Correios, órgão federal estatal. Chaul (1999) aponta os valores monetários destinados pelo governo federal:

5.663 contos em apólices do governo Federal em 1936, reforçando o interesse da esfera federal para a construção da nova capital. Assim a verba inicial para os primeiros investimentos foi obtida através de empréstimos federais, sendo o primeiro montante de 3.000 contos de réis, feito por Getúlio via Oswaldo Aranha, para Pedro Ludovico. O empréstimo federal concretizava o interesse de Vargas na edificação da nova capital e tratava-se de criar mecanismos para que a região servisse de retaguarda econômica, principalmente para a região centro-sul. A nova capital serviria como absorvedor de mercadorias das várias regiões do Estado, repassando-as e interligando-se economicamente com as regiões urbano-industriais do país (CHAUL, 1999, p. 99).

11 Na historiografia brasileira esse acontecimento é entendido também como um golpe, já que a tomada do poder foi efetivada mediante participação de setores das forças armadas e pouca participação da sociedade civil ou por Movimento de 30, que mobilizou diversos setores da sociedade para tomada do poder, porém não transformou as estruturais sociais, culturais, políticas e econômicas.

12

FAUSTO, Boris (org.). O Brasil Republicano: economia e cultura (1930-1964). tomo 3, vol.4. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1995. (Col. História da Civilização Brasileira).

(28)

Foi com a construção de Goiânia que se sintetizou as expectativas da colonização do sertão brasileiro e da necessidade de modernizar e integrar o Brasil.

Dentre as prioridades do governo Vargas, segundo Fonseca (2012), na construção desse novo projeto nacional, estavam a industrialização, aumento do consumo interno, urbanização dos municípios, melhoria da infraestrutura e melhoria dos índices educacionais. Como estratégias principais visavam-se a inserção do Brasil no mercado mundial, maior produtividade interna e a interiorização do desenvolvimento.

De acordo com Fonseca (2012), Getúlio Vargas liderou a formação do pensamento de construção do Estado moderno brasileiro. Foi nesse período que houve uma importante transição econômica, quando o Brasil passou a ter uma economia agrário- exportadora voltada para fora e outra industrializada e voltada para dentro. Ainda de acordo com Fonseca (2012), a ampliação do crédito agrícola via programas do governo federal e de carteiras do Banco do Brasil; a criação do BNDES, a criação das companhias Vale do Rio Doce e Siderúrgica Nacional (1942) e da Petrobrás (1954), são exemplos de uma nova política adotada como sustentação do projeto desenvolvimentista.

O capitalismo brasileiro ganhou grande impulso com a introdução da mão de obra assalariada na economia cafeeira do Oeste Paulista na década de 1880. Para prosseguir com o desenvolvimento do capitalismo, se tornou imperativo integrar o mercado nacional, não mais permitindo a supremacia dos interesses regionais sobre os nacionais, o que vinha ocorrendo durante a Primeira República (1889-1930). A questão que se colocava quando Vargas assumiu o poder no final de 1930 era como integrar o mercado nacional, prioridade para que houvesse maior soberania nacional, além do interesse predominante do desenvolvimento da indústria em detrimento aos demais setores. Emiliana Vargas afirma que

A política centralizadora revelou-se como uma oposição às políticas liberais através da defesa de um nacionalismo econômico. O planejamento estatal foi implantado e passou a direcionar toda e qualquer política econômica e social gestada pelo Estado, ou seja, a política brasileira assumiu um caráter técnico. O Estado brasileiro criou empresas para atender aos setores básicos da economia cuja finalidade estava em garantir um desenvolvimento econômico rápido e uma estabilidade do país frente ao mercado externo. Com o Estado interessado em aumentar e melhorar a indústria nacional, havia a necessidade de estudos sobre os projetos governamentais. Os novos

(29)

problemas enfrentados pelo Estado, devido à complexificação das relações urbanas e à divisão social do trabalho, era essencial o planejamento das Políticas Públicas, a fim de dinamizar o sistema político administrativo. A criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em 26 de novembro de 1930, foi uma das primeiras iniciativas do governo “revolucionário” implantado no Brasil. Esse órgão tinha como função concretizar o projeto do novo regime que visava a interferir sistematicamente no conflito entre capital e trabalho. Até então, no Brasil, as questões relativas ao mundo do trabalho eram tratadas no âmbito do Ministério da Agricultura. Os discursos de Vargas procuravam vincular o desenvolvimento econômico à superação da miséria e à consolidação da unidade nacional. A defesa era que a unidade nacional só viria através da intervenção do Estado, via uma política integradora (VARGAS, 2007, p. 43).

E o desafio de construção de Goiânia foi a expressão importante do novo projeto de desenvolvimento nacional em curso. Era o alinhamento de interesses locais e estratégicos na permanência de um campo político13 no poder, que

passava a superar forças anteriormente hegemônicas, que a partir dessa disputa política com o grupo de Vargas, passaram a ser consideradas como forças do atraso e do conservadorismo.

Em Goiás, foi com a ascensão econômica das famílias do sul e sudoeste do Estado, que Pedro Ludovico conseguiu liderar com êxito o desejo de colocar o Estado como partícipe de um projeto nacional. “Em Goiás, políticos e ideólogos vislumbravam a possibilidade de inserir a região nesse projeto de nação” (CHAUL, 2015, p. 182). O conflito de poder político e econômico foram cruciais para dar sentido às decisões de Getúlio Vargas e nomear Pedro Ludovico como interventor do Estado. A República Nova, assim chamada pelos aliados de Vargas, utilizou das disputas locais como ferramenta de formação de um amplo grupo político nacional. Segundo Emiliana Vargas, “Com o fim dos trabalhos

13Bourdieu significa o conceito de campo político: “Falar de campo político é dizer que o campo político (e por uma vez citarei Raymond Barre) é um microcosmo, isto é, um pequeno mundo social relativamente autônomo no interior do grande mundo social. Nele se encontrará um grande número de propriedades, relações, ações e processos que se encontram no mundo global, mas esses processos, esses fenômenos, se revestem aí de uma forma particular. É isso o que está contido na noção de autonomia: um campo é um microcosmo autônomo no interior do macrocosmo social [...] Assim, o fato de o campo político ser autônomo e ter sua lógica própria, lógica que está no princípio dos posicionamentos daqueles que nele estão envolvidos, implica que existe um interesse político específico, não automaticamente redutível aos interesses dos outorgantes do mandato. Há interesses que se definem na relação com as pessoas do mesmo partido ou contra as pessoas dos outros partidos. O funcionamento do campo produz uma espécie de fechamento. Esse efeito observável é o resultado de um processo: quanto mais um espaço político se autonomiza, mais avança segundo sua lógica própria, mais tende a funcionar em conformidade com os interesses inerentes ao campo, mais cresce a separação com relação aos profanos(Conferências de Lyon, Universidade Lumière-Lyon 2, quinta-feira, 11 de fevereiro de 1999).

(30)

constitucionais, Vargas reorganizou os ministérios contemplando os tenentes mais preteridos e distribuindo as pastas para os estados que o haviam apoiado na constituinte” (VARGAS, 2007, p. 39).

Aliás, essa foi a mesma estratégia utilizada por Pedro Ludovico, que articulou os grupos opositores a Caiado em torno de sua legitimidade intervencionista. A hegemonia política de Ludovico passou pela relação com dissidentes caiadistas e as oligarquias que eram alijadas do poder. Obviamente que não foi só o discurso de um novo tempo que consolidou o poder Ludoviquista, mas também a centralização das decisões e formação de um grupo político aliado. Além da disputa com o grupo hegemônico caiadista, se deu também um impasse no interior do movimento de 30, pois a junta governativa intervencionista foi formada juntamente com o dissidente caiadista Mário D’Alencastro Caiado e o militar aposentado Domingos Neto Velasco.

Como Pedro Ludovico não dispunha de uma base política capaz de dar sustentação ao novo governo, através de intervenções municipais ele passou a compor com grupos oposicionistas locais. Além disso enfrenta outro problema: a disputa pelo comando do Movimento de 30. Com o executivo nas mãos ele vai, pouco a pouco, fechando os espaços de seus correligionários capazes de lhe fazer frente (CAMPOS, 2009, p.13).

Itami Campos lembra que a cidade de Goiás era reduto caiadista e por isso a estratégia da nova capital poderia dissipar o poder político e administrativo para outro grupo político.

Deve-se reconhecer a eficácia da estratégia política de Pedro Ludovico em defender e realizar a mudança da capital. A cidade de Goiás, antiga capital, fechada pela natureza em torno de si [...] favoreceu a formação de grupos políticos fechados (oligarquias) e era o núcleo principal do caiadismo (CAMPOS, 2009, p.13).

Com a formação da junta governativa e empoderamento dos grupos opositores ao clã Caiado, até então a família que detinha a maior influência política e administrativa do Estado, o acirramento da disputa política se ampliou. Nesse cenário, o discurso modernizador se tornou peça chave na disputa, um instrumento simbólico de desconstrução do poder da família Caiado, apresentando suas práticas como atrasadas e impeditivas do desenvolvimento do Estado de Goiás. Chaul (2015) afirma que apesar das tentativas da família

(31)

Caiado em limitar as influências econômicas e políticas de outros estados em Goiás, como por exemplo, em oposição à construção da estrada de ferro, seu declínio político esteve intimamente ligado à ascensão ao poder do grupo Vargas a nível nacional, que referendou o poder goiano nas mãos de Pedro Ludovico.

Outra questão é que Caiado mandou em Goiás desde 1912-1913, coincidindo sua dominação política com a implantação dos trilhos da estrada de ferro. Seu declínio político não foi causado pelo desenvolvimento de Goiás, e sim por transformações sociais, políticas e econômicas que encontram expressão no movimento de 1930, época em que ele representa a oposição (CHAUL, 2015, p.168).

Alguns anos depois, com o objetivo de ocupar a Região Centro-Oeste, o Estado Novo estabeleceu uma nova e agressiva postura de colonização encabeçada por Getúlio Vargas que, em discurso na virada do ano de 1937, anunciou pelo rádio, diretamente do Palácio da Guanabara, a instituição da Marcha para Oeste. A princípio a volta para o “hinterland”14 significava uma

busca de expansão econômica e desenvolvimento da nacionalidade. De acordo com aquele momento, significava também proteção do Brasil à salvação nacional.

A corrente desenvolvimentista no interior do grupo político de Vargas defendia a industrialização como decisiva no projeto nacional e teve forte impacto nas políticas desenvolvidas pelo governo de Getúlio Vargas. Pedro Fonseca afirma que:

Além dos precursores já mencionados, pode-se assinalar o período entre a última década do Império e as primeiras da República como bastante rico no que tange à profusão das idéias em defesa da indústria. Muitas vezes estas reivindicavam para si a inserção ao “espírito republicano” e à modernização, em um contexto ideológico que associava o Império ao marasmo, à vida rural, ao atraso e à escravidão (FONSECA, 2004, p.230).

Sendo assim, Goiás passou a ter papel importante na estratégia política do governo de Getúlio Vargas, que durante o Estado Novo, especificamente em 1940, realizou por meio do IBGE um censo que revelou a baixa densidade populacional de grande parte do território brasileiro. Os dados do censo levaram o governo a prever a necessidade de instalação de Colônias Agrícolas em cinco

(32)

regiões do país. Camargo (apud FAUSTO, 1983) avalia que a implantação das Colônias Agrícolas deveria obedecer a critérios que envolviam tendências de fluxos migratórios e aspectos sociais das regiões avaliadas e não somente aspectos econômicos. Segundo Camargo (apud FAUSTO, 1983), em Goiás, dentro da política das fronteiras e da Marcha para Oeste, fundou-se a Colônia Nacional de Ceres.

Nesse período Goiânia já se consolidava como destino de diversas pessoas que buscavam melhores possibilidades de trabalho e renda. A nova cidade que no censo de 1940 já contava com uma população de 48.473 habitantes15 (já naquele momento superior à antiga capital), passou a receber

imigrantes de todo o país, e pela localização central, recebeu diversos congressos e exposições nacionais.

Nos discursos, os moradores da nova cidade orgulhavam-se da modernidade de seus edifícios e belas praças. O maior edifício da capital era a Escola Técnica, construída pelo governo federal, e que, nas comemorações de 1942, sediou a Exposição Nacional de Educação, Cartografia e Estatística. Em 1942, Goiânia apresentava-se à nação brasileira integrada por uma rede de estradas que conduziam a várias partes do Brasil. A imigração para a nova capital movimentava suas ruas, com pessoas oriundas de várias partes do país. O Estado Novo e os intelectuais alimentadores da “Marcha para o Oeste” rejubilavam-se com o grandioso feito (CASSIANO, 2002, p. 76).

Esse crescimento sempre esteve relacionado às expectativas ligadas ao surgimento da cidade. Expectativas em torno de Goiânia como uma “comunidade imaginada” que se assentava na fraternidade entre as pessoas, no sonho comum, na esperança de uma vida melhor. Um cidade que desde seu início teve forte presença da imprensa, ligando as pessoas através das informações, dando significado comum para os milhares de moradores da cidade, contribuindo para criar uma consciência social coletiva.

Esse mesmo ideal de modernidade e progresso que esteve presente na construção da cidade de Goiânia e transferência da capital, tornou-se um simbolismo tanto para os novos trabalhadores que ali chegavam, como para aqueles idealizadores da nova cidade. Segundo Bourdieu (1998), o poder

15

Censos Demográficos IBGE 1940/2010. Elaboração: Instituto Mauro Borges / Segplan-GO / Gerência de Estudos Socioeconômicos e Especiais. Informe técnico de outubro de 2013.

(33)

simbólico contribui na construção da identidade e até mesmo para fins econômicos e de consolidação de poder político.

[...] são utilizados como armas nas lutas simbólicas pelo conhecimento e pelo reconhecimento: eles designam as características em que podem firmar-se a ação simbólica de mobilização para produzir a unidade real ou a crença na unidade (BOURDIEU, 1998, p. 120).

Havia uma complementação de percepções de parcela população goiana com os novos interesses políticos nacionais em torno do abandono do atraso em face ao desenvolvimento. É possível dizer que essa expectativa foi utilizada como instrumento para construir no imaginário social que a nova capital seria decisiva para um novo momento para Goiás e para o Brasil. A nova capital passou a ser expectativa de conquista de mais empregos, renda, infraestrutura e melhores condições de vida. Palacín e Moraes (2008) citam que Ludovico, em seu relatório de 1933 escreve,

Pondo-nos em contato permanente, diário e intensivo com as necessidades de Goiás, estudando-as nas suas fontes, perquirindo, observando, analisando detidamente as causas que têm impossibilitado o desenvolvimento de um estado rico de reservas naturais como este, chegamos à convicção, já agora cimentada por mais de 30 meses de governo e investigações, de que a mudança da capital não é mais um problema na vida de Goiás. É também a chave, o começo da solução de todos os demais problemas. Mudando a sede para um local que reúna os requisitos de cuja ausência absoluta se ressente a cidade de Goiás, teremos andado meio caminho na direção da grandeza desta maravilhosa unidade central (TEIXEIRA apud PALACÍN; MORAES. 2008, P. 158).

O discurso de um novo tempo foi amplamente difundido, fortalecendo o simbolismo de que eram necessárias novas práticas políticas para colocar Goiás no eixo de desenvolvimento que estava sendo delineado no país com o novo projeto político e econômico de Vargas.

Além dos interesses de Estado no que tange aos caminhos da economia, o governo Vargas fez forte propaganda de que se construía uma nova nação. A disputa era ideológica e fortemente carregada de valores simbólicos que apresentavam que o Brasil não seria mais o mesmo. Seria o rompimento com o atraso e o advento de um novo Brasil, moderno, civilizado, onde se orientava a construção de uma nova identidade nacional à luz do progresso e da modernidade. “Aos meios de comunicação cabia a tarefa de exaltar a figura de

(34)

Vargas, não só como conciliador entre as classes e protetor dos oprimidos, mas também como realizador do progresso material, o que significava vencer o atraso” (CAPELATO, 2003, p.118).

O simbólico foi central na sustentação política do governo Vargas e fermento para o desejo popular, que ansiava melhoria de qualidade de vida. O discurso modernista teve forte impacto, tornando o desenvolvimento, progresso e modernidade como assuntos hegemônicos no pensamento nacional.

Para Bourdier o simbolismo pode ser constituído através de representações, que de forma intencional podem formar na prática a identidade e a percepção de demais pessoas,

[...] a procura dos critérios ‹‹objectivos›› de identidade ‹‹regional›› ou ‹‹étnica›› não deve fazer esquecer que, na prática social, estes critérios (por exemplo, a língua, o dialecto e o sotaque) são objecto de representações mentais, quer dizer, de actos de percepção e de apreciação, de conhecimento e de reconhecimento em que os agentes investem os seus interesses e os seus pressupostos, e de representações objectais em coisas (emblemas, bandeiras, insígnias, etc.) ou em actos, estratégias interessadas de manipulação simbólica que têm em vista determinar a representação mental que os outros podem ter destas propriedades e dos seus portadores[...]. (BOURDIEU, 1998, p. 112).

Goiânia surge com a concepção do planejamento, de uma cidade organizada para acolher bem as pessoas e garantir uma boa qualidade de vida para sua população, com o discurso de que seria uma cidade moderna no coração do Brasil exemplo de um grande projeto de urbanização, com as características de planejamento urbano da Europa.

A defesa que se fazia os idealizadores e defensores da nova capital era que uma cidade construída em um Estado basicamente agrário estava pronta para ser o exemplo do moderno no Brasil, com influência da arquitetura modernista europeia, símbolo de riqueza e prosperidade. Sobre esse aspecto Paula (2011) afirma que

As imagens dos prédios públicos Art Déco, construídos na década de 1930, permanecem até os dias de hoje no centro de Goiânia com uma certa “exaltação” de seus idealizadores, como também lembra o sentimento modernista dos anos 30 na memória goianiense, exaltando o simbolismo modernista da cidade, que faria com que este símbolo – Goiânia- fosse o marco na história de Goiás, dividindo as duas Repúblicas em Goiás. Esta receptividade goianiense, como também esta estimulação do sentimento progressista na cidade pode ser visível

(35)

até em reportagens de jornais e revistas contemporâneos, que exaltam esta percepção modernista (PAULA, 2011, p.5-6).

Entretanto, as limitações de uma cidade ainda distante dos grandes centros urbanos do país podem ter levado a idealização a se configurar como contraditória à realidade. O progresso tão propagado não se concretizou na forma e no tempo desejado, apesar de continuar presente nos discursos e afirmações de importantes personalidades do Estado, principalmente da classe política (CAMPOS, 2009).

Chaul (2000) também retrata essa distância entre o discurso da modernidade e a realidade social em Goiânia:

Dessa forma, por intermédio de Goiânia, a região se integrou à nação. O desenvolvimento econômico dos anos 30 deu suporte ao projeto da Marcha para Oeste, idealizado pelos adeptos de Vargas. Nesse período, tendo como ponto culminante o Estado, as representações da decadência e atraso foram definitivamente substituídas pelas da modernidade, trazendo embutida a idéia de que o almejado progresso de Goiás tinha sido atingido. Na realidade, o Estado continuava longe da representação alardeada. Os contrastes permaneceram – Goiânia sustentava a imagem de modernidade, mas continuou sendo, por muitos anos, a capital do sertão, a fronteira do Cerrado (CHAUL, 2000, p. 124).

Importante destacar também as inúmeras complexidades administrativas presentes nesse período. Apesar da centralização de poder cada vez mais consolidada nas mãos de Pedro Ludovico, a historiografia nos remete a uma completa desorganização dos órgãos públicos e em relação com a população, gerada, inclusive, pela falta de apoio da oposição na transferência de órgãos públicos e pelas inconveniências que a própria distância territorial propiciou. Apesar da construção da estrada de ferro ter possibilitado um maior contato comercial com os estados de Minas Gerais e São Paulo e ter contribuído para a urbanização de municípios próximos a ferrovia, ainda assim os primeiros anos foram de amplas dificuldades para se estabelecer a nova capital com todas as suas prerrogativas políticas, administrativas e econômicas.

Naturalmente, os primeiros anos não foram fáceis. Dificuldades políticas, distância dos principais centros de decisão do país, escassez de recursos, falta de materiais, mão-de-obra e tecnologia deram o tempero a saga dos goianos de transferir sua capital (GONÇALVES, 2003, p.28).

(36)

Portanto, Goiânia foi gestada em meio a esse processo de efetivação de um projeto nacionalista, que lhe possibilitou ser signatária de um simbolismo do novo. Tornou-se instrumento de manutenção e consolidação de um grupo político no poder, e por isso foi construída sob o amparo direto do Estado.

Importante ressaltar que outros interesses estiveram presentes na fundação da nova capital. O projeto nacional desenvolvimentista liderado por Vargas tinha como égide central a expansão do capitalismo. A inserção de novos centros de produção no interior do Brasil foi fundamental para expansão do comércio e da produtividade. Apesar da ampliação do consumo no interior do Brasil ser visto como arriscada por conta da baixa densidade populacional se comparada com o litoral, principalmente com a região sudeste, foi vista como necessária para busca de novos mercados. Vargas afirma que

Os industriais foram se aproximando do poder federal, pois no início tinham boicotado a legislação trabalhista. Vargas tinha como meta principal superar o atraso e transformar o Brasil em um país desenvolvido do ponto de vista econômico, sendo uma das justificativas para o golpe a necessidade de produzir mudanças capazes de colocar o país em um patamar de progresso material [...] Com a década de 1930, intensificou-se no Brasil o desenvolvimento de relações capitalistas que foram paulatinamente alterando as bases do Estado Oligárquico e patrimonial. Um novo cenário foi sendo desenhado no país: ocorreu um crescente processo de industrialização e urbanização; o mercado interno desenvolveu-se expandindo o sistema econômico; ocorreram mudanças nos órgãos governamentais e na esfera política. O governo Vargas caracterizou-se como sendo um Estado Nacionalista que passou a intervir e a reformular as relações econômicas de mercado, tanto no âmbito nacional quanto nas relações estabelecidas no plano econômico internacional (VARGAS, 2007, p. 40-41).

O desenvolvimento do capitalismo no interior do Brasil esteve relacionado à construção de Goiânia e na ascensão do grupo de Pedro Ludovico ao poder local, pois esse grupo teve grande apoio de famílias que vislumbravam novas possibilidades de consolidação de seus negócios. Segundo Adão Francisco de Oliveira,

Goiânia surgiu a partir de uma demanda de ordem política e econômica, tendo se inserido num movimento que, em âmbito regional, buscava articular as regiões produtivas do Estado, principalmente as regiões Sul e Sudoeste, e no âmbito nacional, buscava adequar o país a um novo ritmo de produção capitalista (OLIVEIRA, 2005, p. 127).

Referências

Documentos relacionados

Estamos vivenciando a era digital que estabeleceu um marco histórico, em um momento em que todas as relações se afirmaram por intermédio da informação, da capacidade de processamento

Sobre os problemas de ordem administrativa, destacamos: o ausência de estrutura física e de disponibilidade de material de trabalho; o insuficiência de recursos humanos

No Estado do Rio de Janeiro, a Lei n° 3.239/1999 estabeleceu a Política Estadual de Recursos Hídricos e o Sistema Estadual de Gerenciamento dos Recursos Hídricos (SIEGRH), com o

A disciplina Ensino Religioso está assegurada na Nova Lei de Diretrizes e Bases Nacionais, porém o Estado de Goiás não tem ainda uma política educacional

Toda essa panorâmica serve para delinear a situação das águas no Brasil e destacar como se encontra a Política Estadual de Recursos Hídricos em Goiás, especificamente

A fundação da primeira Escola de Polícia Civil do Estado de Goiás deu-se no ano de 1962, mas como não havia um local apropriado para sua instalação, a Secretaria

(...), mas algo que todos os indivíduos exercem e sofrem”. As relações de poder imanentes: “o poder é intenso a todo e qualquer tipo de relação social, emanado dela, sendo

O governo de Goiás demonstra ser centralizador de poder ao estabelecer normas e leis a partir do edifício jurídico (como no caso da aprovação pela Assembleia