Um dos dilemas no estudo sobre conflitos urbanos, talvez seja criar uma narrativa histórica pautada na imparcialidade para recriar os fatos que compõem esse processo pretérito, por exemplo, ao estudar a narrativa jornalística da ocupação e desocupação do terreno no Parque Oeste Industrial.
Compreender os acontecimentos em suas variadas nuances e fazer emergir opiniões distintas das fontes pesquisadas, sabendo que algumas dessas fontes partem de princípios e interesses de determinados setores da sociedade, são variáveis que devem deixar o pesquisador atento aos discursos e representações construídas.
As reportagens jornalísticas, os relatórios e imagens da época sobre a desocupação do Parque Oeste Industrial retratam o desespero das famílias ocupantes, a luta pela moradia e seu aspecto legal e legítimo, o papel do poder público na mediação desse conflito, as decisões judiciais. Vários foram os aspectos que nos possibilitam olhar e perceber o Parque Oeste Industrial como um acontecimento concreto, temporal, histórico.
Para além das notícias veiculadas no jornal O Popular, duas fontes são fundamentais para perscrutar o conflito, a saber, o relatório do Ministério Público Federal (2006) e o relatório da Cerrado Advocacia Jurídica Popular (2006). São documentos que relatam com detalhes o dia a dia da ocupação e a forma violenta de como se deu a desocupação do Parque Oeste Industrial.
Na época, apesar do clamor e defesa de movimentos sociais e outros segmentos da sociedade civil organizada, como centrais sindicais, entidades estudantis, escritórios de advocacia, entidades ligadas à moradia e aos diretos humanos e políticos do Estado, para que a ocupação se revertesse em garantia do direito à moradia, o conflito terminou de forma a garantir o direito à propriedade privada.
Nesse capítulo busca-se demonstrar como o conflito ocorrido no Parque Oeste Industrial em Goiânia pode ser objeto de estudo e contribuir para o debate sobre a função social da propriedade urbana no Brasil, e como os interesses públicos e privadosagem no desenvolvimento e expansão das cidades no país.
Apresenta a história da ocupação e desocupação desse bairro, sublinhando alguns episódios ocorridos nesse trágico conflito social, relacionando esse
momento que a cidade viveu com o discurso de progresso e modernidade, tão propalado pelas elites governantes do Estado de Goiás.
A pesquisa empreendida permitiu perceber que o estudo sobre tal conflito está relacionado com a forma como o capitalismo se adequa e se apropria da vida e do desenvolvimento de uma cidade, no caso, Goiânia. Os direitos adquiridos passam a ser questionados e até mesmo anulados na prática social, com a força e vitalidade dos interesses hegemônicos de setores economicamente privilegiados.
A disposição espacial das pessoas na cidade obedece à determinação de classe, de maneira que os lugares ordenam-se representando na forma e no conteúdo a situação socioeconômica dos grupos que os ocupam. Esse fator completa a gama de situações que podem resultar em conflitos sociais na produção material (OLIVEIRA, 2005, p. 131).
Para melhor compreender esse acontecimento, torna-se importante ressaltar que o loteamento do Parque Oeste Industrial, localizado na região Sudoeste da Capital, foi aprovado pelo decreto n° 25 de junho de 1957, região que se tornou a área com o maior aumento populacional na última década do século XX. Segundo dados do relatório técnico do Plano Diretor de Goiânia de 2007, sua população em 1991 era de 18.676 habitantes, alcançando o número de 57.638 habitantes em 2000.
A região Sudoeste de Goiânia, no início do século XXI, apesar do grande adensamento urbano ainda apresentava enormes espaços vazios. Contava com um intenso comércio de peças para caminhões e caracterizava-se por não merecer muita atenção da prefeitura com relação a infraestrutura.
No entanto, os espaços vazios resultantes da especulação imobiliária começaram a existir na capital nos anos de 1950 e deixaram uma herança de problemas, como o ocorrido no Parque Oeste Industrial. Silva (2000, p. 130) observa que “a cidade cresceu em direção a propriedades que tinham seus interesses defendidos no processo de expansão urbana muito mais do que para atender qualquer tipo de planejamento”. A falta de planejamento, a forte imigração para a capital goiana com a consequente falta de moradias foi o estopim para a ocupação de uma área desse bairro. Em meados de 2004
centenas de famílias iniciaram ali um processo de ocupação de um enorme terreno em Goiânia de aproximadamente 1,3 milhões de metros quadrados (cerca de 28 alqueires).
Durante quase um ano, especificamente entre maio de 2004 e fevereiro de 2005, movimentos sociais, lideranças políticas e setores das universidades locais passaram a questionar sobre qual seria a função social daquele espaço e como poderia ser melhor utilizado para contribuir num projeto de qualificação e crescimento urbano da cidade de Goiânia.
Nesse período, milhares de famílias despossuídas se deslocaram para aquele local, se fixaram, construíram barracos e organizaram suas vidas com a esperança de terem uma moradia própria. Esperança sustentada na crença de que o poder público agiria em defesa do interesse público.
Não foi o que se deu. Na disputa político-jurídica prevaleceu os interesses dos proprietários legais do referido terreno, naturalmente que respaldados pela interpretação jurídica da Constituição no que tange o direito à propriedade privada. Buscou-se nesse estudo compreender como forças políticas e econômicas agiram para que o interesse privado obtivesse seu interesse prevalecido, atendendo a lógica do poder imobiliário na ampliação de seus negócios e impossibilitando que o caso gerasse uma "jurisprudência" social, que pudesse colocar em contradição a concepção de desenvolvimento da cidade no viés capitalista.
Nesse complexo e conflituoso embate, como já dito anteriormente, diversos setores da cidadese mobilizaram, mas o desfecho foi trágico. Em 16 de fevereiro de 2005 ocorreu a desocupação do bairro respaldada pela decisão judicial, quando mais de 4 mil famílias, cerca de 14 mil pessoas, foram retiradas a força do local pela Polícia Militar.
Nesse sentido, esse estudo, partindo do pressuposto de que o direito à cidade e à moradia devem ser prioritários para o desenvolvimento dos municípios brasileiros, retoma, nesse capítulo, o conflito do Parque Oeste Industrial levando em consideração aspectos pouco evidenciados na época, relacionando os interesses privados e públicos na ocupação da cidade. A análise das fontes permitiu ter evidências da forma que o poder público agiu em meio a conflitos fundiários, onde o interesse popular se chocou com o interesse do capital e da propriedade privada, prevaleceu uma ação a defender os interesses
privados. A ação das forças de segurança pública foi executada para garantir o direito do setor imobiliário, que durante todo o processo pressionou o poder público e a justiça para que houvesse a reintegração de posse de forma imediata.