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Feminicídio: violência de gênero

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Academic year: 2021

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GRANDE DO SUL

BRUNA MOSQUER

FEMINICÍDIO: VIOLÊNCIA DE GÊNERO.

Três Passos (RS) 2015

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BRUNA MOSQUER

FEMINICÍDIO: VIOLÊNCIA DE GÊNERO

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

Departamento de Estudos Jurídicos.

Orientadora: MSc. Márcia Cristina Oliveira

Três Passos (RS) 2015

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Dedico este trabalho à minha família, pelo incentivo, apoio e confiança em mim depositados durante toda a minha jornada.

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AGRADECIMENTOS

À minha família, que é a minha base, sempre esteve presente e me incentivou com apoio e confiança nas dificuldades encontradas, e com quem aprendi que os desafios são as molas propulsoras para a evolução e o desenvolvimento.

À minha orientadora Marcia Cristina Oliveira, com quem eu tive o privilégio de conviver e contar com sua dedicação e disponibilidade, me guiando pelos caminhos do conhecimento.

À Deus, por ter me iluminado, afastando meus medos e inseguranças nestes anos como universitária, ainda mais, é nele que buscarei força e coragem para enfrentar as dificuldades que encontrarei na vida profissional.

A todos os meus amigos que, direta ou indiretamente fizeram parte da minha formação e que vão continuar presentes na minha vida com certeza.

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“quando alguém compreende que é contrário à sua dignidade de homem obedecer a leis injustas, nenhuma tirania pode escravizá-lo.” Mahatma Gandhi

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O presente trabalho de conclusão de curso tem o objetivo de fazer uma reflexão histórica sobre os direitos das mulheres como uma conquista, uma proteção ao bem jurídico tutelado, como a vida, a integridade corporal, direito ao trabalho, ao voto, entre outros, os quais foram conquistados através dos movimentos feministas organizados pelas mulheres em vários países europeus e latinos americanos. Pode-se dizer que é a garantia da dignidade humana das mulheres, no que toca à violência doméstica, a mesma é considerada uma violação a tais direitos, devendo-se punir o agressor e proteger a integridade corporal das mulheres. O foco principal é a criação de leis novas para tentativa de proteger as mulheres vítimas de violência doméstica. Como já é sabido temos em nosso ordenamento jurídico a Lei Maria da Penha que visa a proteção e o afastamento do agressor do lar, e, este ano houve uma alteração no artigo 121 do Código Penal, onde acrescentou-se o delito de feminicídio, a conduta refere-se ao homicídio contra as mulheres ocorrido em face de violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Concluindo a problemática, é de conhecimento que a intensão dos legisladores na criação de leis com penas mais brandas muitas vezes é somente para acalmar o clamor público, diante das reivindicações por segurança e proteção para as mulheres que sofrem violência e são mortas diariamente. Podendo considerar a referida lei como direito penal simbólico, vez que a criminalização não irá solucionar o problema, a violência doméstica somente será minimizada com a criação e realização de fato de programas sociais na tentativa de reestabelecer os vínculos familiares, tratando a raiz do problema, seja o dependente químico ou outros tipos de conflitos.

Palavras-Chave: Dignidade da Pessoa Humana. Feminicídio. Violência de Gênero. Direito Penal.

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This course conclusion work aims to make a historical reflection on the rights of women as an achievement, a protection to good legal ward, like life, to bodily integrity, right to work, to vote, among others, which were won by the women's movement organized by women in several European and Latin American countries. It can be said that is the guarantee of human dignity of women, with regard to domestic violence, it is considered a violation of such rights, should be punish the offender and protect the bodily integrity of women. The main focus is the creation of new laws to attempt to protect women victims of domestic violence. As is known we have in our legal system the Maria da Penha Law, which seeks to protect and home to the removal of the aggressor, and this year there was a change in Article 121 of the Penal Code, which was added to femicide offense, the conduct refers to homicide against women occurred in the face of domestic and family violence or contempt or discrimination to womanhood. Completing the problem, it is known that the intention of the legislators to create laws more lenient sentences is often only to calm the public outcry, given the demands for security and protection for women who suffer violence and are killed daily. May consider this law as a symbolic criminal law, since the criminalization will not solve the problem, domestic violence will only be minimized with the design and creation of fact social programs in an attempt to re-establish family ties, treating the root of the problem, is the chemically dependent or other conflicts.

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INTRODUÇÃO ... 8

1 OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS PENAIS E A GARANTIA DA LIBERDADE PESSOAL ... 11

1.1 A dignidade da pessoa humana como direito fundamental ... 14

1.2 A violação das garantias constitucionais frente a violência contra a mulher ... 18

1.2.1 O princípio da levisidade das penas ... 21

2 UM CONTEXTO MUNDIAL SOBRE O MOVIMENTO FEMINISTA ... 25

2.1 A criação de um novo tipo penal, sob o viés da importância da violência de gênero . 32 2.2 A evolução dos direitos das mulheres na esfera constitucional e penal ... 36

3 O DELITO DE FEMINICÍDIO COMO FENÔMENO SOCIAL ... 46

3.1 O bem jurídico tutelado e a tipificação do delito de violência de gênero ... 53

3.2 Uma abordagem da violência doméstica como direito penal simbólico ... 62

CONCLUSÃO ... 69

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho apresenta um estudo acerca da conquista das mulheres na sociedade mundial, mas também especialmente no Brasil, principalmente através dos movimentos feministas. Resgata o início do movimento quando as feministas em um primeiro momento lutavam pela igualdade jurídica na sociedade, buscavam o fim da discriminação em razão do sexo. Demonstra que as reivindicações também influenciaram na conquista da proteção jurídica da dignidade humana das vítimas de violência doméstica, considerando que o quanto os agressores violam os princípios constitucionais e penais, bem como legislações infraconstitucionais. Ressalta que a tentativa de proteger as mulheres se dá através de leis que tipificam a violência doméstica especificamente como uma violência de gênero.

O estudo se propõe a aprofundar o tema da tutela dos bens jurídicos, especificamente quanto a inclusão de nova tipificação no ordenamento brasileiro no que concerne o tema da violência doméstica. E faz referências a alteração do Código Penal, que incluiu em seu rol o delito do feminicídio, delito que qualifica a violência doméstica decorrente de gênero, nos casos de menosprezo e discriminação por serem mulheres.

Denota-se que a violência contra as mulheres é um problema social desde os primórdios da nossa história. Com o passar dos anos ela está cada vez mais presente no dia-a-dia de Autoridades Policiais, Poder Judiciário e programas assistenciais. Contudo, embora muitas ações já tenham sido tomadas, a origem do problema e a justificativa de porque os índices de violência não sofreram significativa redução, é relevante para o estudo. Busca-se esclarecer porque a violência de gênero ainda se encontra tão presente nas comunidades, ensejando inclusive a necessidade de tutela penal específica, como no presente estudo, o delito de feminicídio.

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A resposta para a problemática do trabalho é que apesar da criação de leis com penas severas pouco mudará na vida das vítimas, considerando que o Direito Penal deve-se ser utilizado como ultima ratio, ou seja, a última instância a ser buscada para a solução de conflitos. A violência doméstica ocorre rotineiramente na vida das mulheres e com o passar do tempo a gravidade das lesões aumenta se chegando ao homicídio. Então, busca-se infelizmente comprovar que as leis que somente visam a criminalização da conduta sem a instituição de projetos assistenciais pelo poder público não reduzirão os números de assassinatos de mulheres, podendo as legislações serem consideradas direito simbólico, passando uma falsa proteção para as vítimas.

A principal finalidade deste trabalho é verificar se a legislação infraconstitucional encontra respaldo na Constituição brasileira, bem como se respeita e agrega valores as garantias fundamentais nela inseridos. O estudo a partir da história clássica de violência contra a mulher pretende averiguar se as medidas tomadas no âmbito dos poderes institucionalizados são suficientes para a extirpação da violência de gênero. Analisar o novo tipo penal, denominado feminicídio, refletir se a rigidez das penas irá fazer com que se diminua o número de assassinatos contra as mulheres. Nesse sentido, se as punições e as medidas impostas aos agressores, mais rigorosas, a partir da nova legislação serão suficientes para prevenção do delito. Investigar se a criação de novo tipo penal específico em busca da redução ou extinção da violência de gênero complementam outras medidas em vigor, ou tão somente abarcam decisões de política criminal.

A importância deste trabalho se reflete na solução ou medidas para diminuir o índice da violência contra as mulheres, através de leis mais severas. Se no presente caso a lei que prevê o feminicídio irá apresentar resultados significativos em medida de segurança e prevenção, ou se será mais uma tentativa do legislador em aprovar uma lei somente para acalmar o clamor público, diante da indignação das falhas que vem ocorrendo em nosso país.

Para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico, analisando também as legislações vigentes e as já em ineficácia, a fim de enriquecer a coleta de informações e permitir um aprofundamento no estudo da evolução jurídica dos direitos das mulheres.

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O trabalho foi dividido em três capítulos, inicialmente, abordou-se com relação aos princípios constitucionais penais e a garantia da liberdade pessoal, a dignidade da pessoa humana como direito fundamental e a violação das garantias constitucionais frente a violência contra mulher. Na discussão dos princípios foi analisado sobre como a violência doméstica é uma violação aos direitos humanos, não fornecendo dessa maneira uma vida digna às mulheres.

Já em um segundo momento é analisada a evolução das mulheres na conquista de seus direitos, visto também como uma proteção. Aborda-se como através dos movimentos sociais as mulheres adquiriram liberdade para trabalhar, direito ao voto, à educação, à licença maternidade remunerada, entre outros direitos. Também se aborda o contexto da legislação de proteção as mulheres vítimas da violência doméstica com uma breve discussão sobre a aplicação das legislações sob o viés do gênero feminino.

Já concluindo, no terceiro capítulo se discorre sobre o crime de feminicídio, tipificado no ano de 2015, incluído no ordenamento jurídico brasileiro como qualificadora para o crime de homicídio, nos casos em que praticado no âmbito familiar ou em razão de menosprezo ou discriminação pelo fato da vítima ser mulher. Ainda, é realizada uma reflexão sobre o direito penal simbólico na aplicação das leis protetivas no combate da violência doméstica.

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1 OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS PENAIS E A GARANTIA DA LIBERDADE PESSOAL

A Constituição brasileira estabelece princípios que deveriam servir como bússola ao legislador, para que o direito penal se utilize de apenamento ressocializador de forma eficaz, mas sem, contudo, deixar de observar as garantias e direitos fundamentais do cidadão.

O direito, nas palavras de Rosa (2003, p. 17), “deve ser compreendido, não como um conjunto de normas com sentidos ensimesmados (latentes) e pré-constituídos, mas como um conjunto de normas (princípios e regras) que (re)clamam sentidos no espaço/tempo. ”

É a partir dessa definição que decorre a importância dos princípios no mundo jurídico atual, uma vez que sua observância traduz significativamente o reconhecimento e atuação do Estado Democrático de Direito, com o qual se atinge o garantismo jurídico.

Canotilho (2002, p. 1143-1154) afirma que os princípios previstos constitucionalmente podem ser classificados como ‘princípios estruturantes’, ou seja, considerados o núcleo essencial de uma Constituição Federal, uma vez que possuem a função ordenadora.

Dessa forma, pode-se compreender que um dos pontos de extrema importância dentro do fenômeno constitucional é a sua normatização, em razão da efetiva força normativa que é atribuída aos comandos constitucionais, além é claro de expressar o significado de regras jurídicas. Justamente neste âmbito é que a Constituição Federal merece atenção especial, por ser considerada o corpo central e a referência de aplicação e interpretação dos comandos normativos ordinários (ROSA, 2003, p. 115-119).

Esclarece Bonavides (2003, p. 256), que os princípios são verdades objetivas, na qualidade de normas jurídicas, dotadas de vigência, validez e obrigatoriedade. É ainda, o pensamento diretivo que domina e serve de base à formação das disposições singulares de Direito de uma instituição jurídica, de um Código ou de todo um Direito Positivo.

Nas palavras de Bastos (1998, p. 154), quando conceitua os princípios elencados pela Carta Magna, nos ensina que:

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São princípios constitucionais aqueles valores albergados pelo Texto Maior a fim de dar sistematização ao documento constitucional, de servir como critério de interpretação e finalmente, o que é mais importante, espraiar os seus valores, pulverizá-los sobre todo o mundo jurídico.

Percebe-se que os princípios jurídicos assumem uma elevada condição, em razão de definir a lógica e a racionalidade de um sistema normativo. Pode-se, então, considerá-los o alicerce para o conhecimento, aplicação e proteção do direito.

De fato, consoante este entendimento, torna-se imprescindível a fiel observância aos princípios insculpidos na Lei Maior, pois são eles verdadeiros comandos ordenadores do sistema, os quais asseguram consequentemente a adoção do Estado Democrático de Direito.

A concepção estrutural do Estado Democrático de Direito gira ao redor de um eixo, ou seja, o princípio da igualdade material disciplinado na Constituição Federal de 1988 (BONAVIDES, 2003, p. 376). Foi através desse princípio que surgiu a ideia do novo Estado de Direito, ou seja, o Estado Social, preocupado com a igualdade das pessoas.

Destaca-se que a própria natureza predispõe o homem para ser desigual, já que sempre existiu e sempre existirão aqueles que são possuidores de características que os tornem inconfundíveis perante os outros. Portanto, a igualdade constitucional, diz respeito à inexistência de discriminações entre as pessoas, pois estando elas em grau de igualdade devem ser atingidas pelas normas jurídicas de forma isonômica. Assim, admite-se a desigualdade, porém ela deve ser proporcional e razoável.

Nesse sentido, Moraes (2002, p. 63) aduz que:

A desigualdade na lei se produz quando a norma distingue de forma não razoável ou arbitrária um tratamento específico a pessoas diversas. Para que as diferenciações normativas possam ser consideradas não discriminatórias, torna-se indispensável que exista uma justificativa objetiva e razoável, de acordo com critérios e juízos valorativos genericamente aceitos, cuja existência deve aplicar-se em relação à finalidade e efeitos da medida considerada, devendo estar presente por isso uma razoável relação de proporcionalidade entre os meios empregados e a finalidade perseguida, sempre em conformidade com os direitos e garantias constitucionais protegidos.

Nessa linha de entendimento, observa-se que o poder legislativo, órgão responsável pela criação das leis, deve levar em consideração o princípio da igualdade em suas

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manifestações, evitando, desse modo, que surjam preceitos normativos discriminatórios, que causem ruptura da ordem isonômica vigente no Estado Democrático de Direito previsto constitucionalmente.

Podemos dizer que a Constituição brasileira de 88 introduziu através de princípios exclusivamente penais, explícitos, e de princípios dominantes em matéria penal, implícitos, novos valores à disciplina penal. Nesse sentido, o rol de direitos fundamentais contidos no art. 5º, da CF, não é taxativo. E não o é porque o § 2º do mesmo dispositivo, estabelece que “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.”

Na mesma linha o § 3º do mesmo dispositivo, dispõe que “Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.”

Com a inserção deste parágrafo estabeleceram-se pressupostos para que tratados internacionais adquirissem status constitucional, podendo revogar norma constitucional anterior, desde que em benefício dos direitos humanos. Necessário, para tanto, é o preenchimento de dois requisitos: tratarem de matéria relativa a direitos humanos; e serem aprovados pelo Congresso Nacional, em dois turnos, pelo quórum de três quintos dos votos dos respectivos membros.

Para a concretização de um Estado Democrático de Direito, é necessário respeitar e garantir os direitos fundamentais. Na Constituição brasileira está assegurada a aplicabilidade imediata dos direitos fundamentais. O artigo 5º §1º dispõe que “[...] as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais tem aplicabilidade imediata. ” (BRASIL, 1988).

Ainda, o Código de Processo Penal Brasileiro confere indisfarçável primazia aos tratados internacionais, conforme o disposto no seu artigo 1º, inciso I: “O processo penal reger-se-á, em todo o território brasileiro, por este Código, ressalvados: os tratados, as convenções e regras de direito internacional.”

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Temos assim que os tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário constituem fonte primária do processo penal, disponibilizando um conjunto de preceitos de observação obrigatória pelos operadores e estudiosos do direito.

1.1 A dignidade da pessoa humana como direito fundamental

Os direitos humanos são os direitos dos homens, visam resguardar a vida, a igualdade, a liberdade e a dignidade humana. O direito penal juntamente com a Constituição Federal e através do Estado, visam assegurar que a aplicação das sanções não viole a condição do ser humano. Diante disso, busca na medida das igualdades proteger a condição da vítima e a do acusado, para que quem teve seu bem jurídico lesado, seja protegido pelas normas penais e que o agressor seja punido.

No contexto desse trabalho verifica-se que antes da promulgação da Lei Maria da Penha, as agressões contra as mulheres não eram identificadas como violação dos direitos humanos. O artigo 6º da Lei 11.340 de 2006 expressa taxativamente que “a violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos.”

Entende-se que a violência doméstica é uma violação dos direitos humanos, porque desrespeita a dignidade das mulheres, uma vez que sofrem agressões físicas e ou psicológicas, em uma sociedade em que o preconceito de gênero é fortemente evidenciado. O que poderia ser considerado um problema de saúde pública. Contudo, o que se percebe é que os órgãos públicos que deveriam investir em proteção, defesa e repreensão dessa violação, quase nada fazem.

De outro lado, deve-se analisar também a condição carcerária do agressor, o qual tem sua liberdade privada em virtude do descumprimento de medidas muitas vezes cautelares, como as medidas protetivas. Na sua grande maioria, as ocorrências policiais registradas pelas mulheres vítimas, são delitos de ameaça, lesões corporais, vias de fato, crimes em geral punidos com detenção, salvo, nos casos de homicídio ou tentativa de homicídio em que a pena é agravada.

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É notório o conhecimento de que tão somente a privação da liberdade do agressor, no Brasil, em momento algum irá contribuir para a solução do problema. Isso porque, nos presídios não receberão auxílio para que possam apresentar melhora em seus comportamentos, pois muitas vezes, os problemas existentes dentro das famílias seriam resolvidos com acompanhamento de assistentes sociais e psicólogas ou um tratamento para o alcoolismo.

Diante disso, percebe-se que estamos caminhando para o lado inverso, pois deixar uma pessoa privada da liberdade no sistema carcerário brasileiro é contribuir para a escola do crime. Diante da convivência com os demais detentos a “cura” não ocorre, e o problema da família nunca será solucionado.

Para Ferrajoli (2002), a violência praticada para a punição pode ser considerada mais cruel do que a violência praticada no delito, porque a primeira é presumida, enquanto a segunda é mera consequência do ato.

A história das penas é, sem dúvida, mais horrenda e infamante para a humanidade do que a própria história dos delitos: porque mais cruéis e talvez mais numerosas do que as violências produzidas pelos delitos têm sido as produzidas pelas penas e porque, enquanto o delito costuma ser uma violência ocasional e às vezes impulsiva e necessária, a violência imposta por meio da pena é sempre programada, consciente, organizada por muitos contra um. (FERRAJOLI, 2002, p. 310)

Na idade média até o fim do século XVIII, as torturas, os suplícios faziam parte da Europa, a execução das penas era realizada com as torturas, o afogamento, a asfixia na lama, o empalamento, a lapidação, a roda, o desmembramento, a incineração de pessoa viva, a caldeira, a grelha, o enclausuramento, a morte por ferro quente e outras. Tais penas eram aplicadas para punição de crimes cruéis até infrações leves, como furto, adultério. Vale ressaltar que a pena de morte infelizmente ainda é aplicada em 129 países. (FERRAJOLI, 2002).

As penas, se querem desenvolver a função social preventiva que a elas tem sido atribuída, devem ser aplicadas com quantidade e qualidade conforme a gravidade do delito. As penas devem tentar realizar com sucesso a prevenção dos crimes, ou pelo menos, tentar amenizar, devido a comoção social de algumas infrações, para que se possa evitar que as pessoas façam justiça pelas próprias mãos.

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As penas modernas são consideradas como privações a vida, a liberdade e a propriedade, “privações de direitos” que o Estado impõe ao cidadão delinquente. Os três tipos de pena consistentes na privação destes três tipos de bens ou de direitos – a pena de morte, que priva a vida, as penas privativas de liberdade, que privam a liberdade pessoal, e as penas patrimoniais, que privam de bens ou poderes econômicos aparecem, todas, como formalmente iguais, castigando na mesma medida e com o idêntico tipo de sofrimento, à margem das condições pessoais do réu e apenas sobre a base do tipo de delito. A pena mais antiga é a pena de morte.

Como já dito, as penas previstas no nosso ordenamento jurídico são embasadas na privação e para que se possa chegar em um quantum (mínimo ou máximo) da pena privativa ou pecuniária, é necessário a realização de um cálculo dirigido ao caso específico, analisa-se os mínimos e os máximos previstos para o tipo de delito, as atenuantes e agravantes, majorantes e minorantes. Assim, assegurado o caráter da pena moderna: proporcionalidade das penas à gravidade dos delitos (FERRAJOLI, 2002).

Para Ferrajoli (2002), poderia haver a substituição da pena por técnicas indeterminadas de defesa social de caráter terapêutico ou pedagógico, ao invés da condenação e privação de liberdade, que após o cumprimento terá sua liberdade recuperada. Sugere-se tratamento pedagógico diferenciado e por tempo indeterminado até conseguir a reeducação e a neutralização do réu, naturalmente a critério das autoridades.

Ferrajoli (2002, p. 317) cita em sua obra a tese segundo alguns doutrinadores, como Montesquieu, Beccaria, Romagnosi, Bentham e Carmignami, os quais defendem que “a pena [...] deve ser “necessária” e “a mínima dentre as possíveis” em relação ao objetivo da prevenção de novos delitos.”

Diante do explanado, sabe-se que as penas têm o objetivo de punir o infrator e ressocializar, porém, muitas vezes as penas são aplicadas de forma desproporcional ao dano cometido. De outra banda, é de conhecimento que a punição em forma de pena privativa de liberdade pouco surte efeito no sentido da ressocialização e reeducação do condenado.

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O princípio da humanidade das penas é caracterizado por duas vertentes, a positiva e a negativa. A primeira é referente a garantia da dignidade humana no cárcere, então, o referido princípio protege o apenado de um poder punitivo estatal desumano, ou seja, o Estado deve zelar pela proteção da dignidade da pessoa humana dos condenados. Já a vertente negativa é caracterizada pela presença constitucional que veda a pena de morte, de penas perpétuas, indignas ou desumanas.

Neste sentido o posicionamento de Franco (2005, p. 64):

O princípio da humanidade da pena, na Constituição brasileira de 1988, encontrou formas de expressão em normas proibitivas tendentes a obstar a formação de um ordenamento penal de terror e em normas asseguradoras de direitos de presos ou de condenados, objetivando tornar as penas compatíveis com a condição humana. [...]

O princípio da humanidade da pena implica, portanto, não apenas na proposta negativa caracterizadora de proibições, mas também, e principalmente, na proposta positiva, de respeito à dignidade da pessoa humana, embora presa ou condenada. A Constituição Federal prevê o princípio da humanidade da pena em seu artigo 4°, inciso II, onde se fixa o princípio da prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais da República Federativa do Brasil, "A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: II, da prevalência dos direitos humanos;"

Da mesma forma, no artigo 5º em diversos incisos há a consagração do princípio da humanidade da pena. A proibição expressa da aplicação de penas de morte, de trabalhos forçados, de caráter perpétuo, de banimento e cruéis, buscam o resguardo da dignidade da pessoa humana e a humanidade das penas.

Deve-se salientar que o princípio da humanidade da pena encontra assento não só na Constituição Federal, mas também junto a tratados internacionais e à Lei de Execução Penal. A Convenção Internacional sobre Direitos Políticos e Civis datada de 1966 prevê em seu artigo 10, I, que o preso “deve ser tratado humanamente, e com respeito que lhe corresponde por sua dignidade humana (FERRAJOLI, 2002).”

O princípio da humanidade das penas tem seu maior objetivo na fase da execução da pena, porque visa a ressocialização do preso. Então, como o direito penal busca o bem-estar

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social da coletividade, deve-se incluir também nesse rol, os condenados. Isto se deve em razão de que através do acolhimento de um sistema regressivo do cumprimento da pena, é possibilitado ao preso a liberdade, em razão de seu mérito.

A dignidade da pessoa humana, deriva de um dos fundamentos da República Federativa Brasileira, insculpido no artigo 1º, inciso III. A dignidade da pessoa humana, é considerado como valor supremo que abrange todos os direitos fundamentais do homem.

Assim, é através da pena que o Estado satisfaz a sociedade, demonstrando que com seu poder punitivo irá responsabilizar o delinquente por ter violentado o direito de alguém, para que futuramente o apenado respeite a sua comunidade.

De outro lado, o Estado tem o dever de proteger os condenados enquanto estão sob sua tutela, porque é direito do encarcerado o respeito à sua integridade física e moral. O fato de uma pessoa ter infringido a lei penal, não significa que ela deve ser tratada de forma desumana. Ao contrário, se o objetivo do direito penal é a ressocialização, o delinquente deve receber um tratamento diferenciado para que se sinta útil perante a sociedade.

1.2 A violação das garantias constitucionais frente a violência contra mulher

Notadamente, nos mais diversos meios o assunto que se faz reiteradamente presente é a escalada crescente da violência. Dentre as condutas criminosas, ganham especial destaque aquelas que atentam contra os ditos "bens jurídicos fundamentais". A vida, a integridade física, a liberdade em todas suas formas e, claro, o patrimônio.

As estatísticas apenas comprovam o momento vivido, o aumento real da criminalidade, mesmo com a implementação de mecanismos exacerbados de punição inspirados em políticas criminais radicais que se restringem a meras políticas penais, resultado da inexistência de políticas capazes de garantir a tão desejada segurança.

Por consequência, o que se percebe é a criminalização mais gravosa de determinadas condutas delituosas, sem quaisquer critérios científicos. Tudo em nome do que se julga denominar política criminal. "A Política Criminal é a ciência ou a arte de selecionar os bens (ou direitos) que devem ser tutelados jurídica e penalmente e escolher os caminhos para

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efetivar tal tutela, o que iniludivelmente implica a crítica dos valores e caminhos já eleitos" (ZAFFARONI, 1999. p.132).

O discurso de emergência que se sustenta no medo alheio e que propõe o controle efetivo da criminalidade por intermédio da elaboração de novas leis penais e recrudescimento das penas resulta em uma legislação de exceção. Como exemplo significativo elencamos as leis 8.072/90, que dispõe sobre os crimes hediondos, a Lei 11.340/06, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha. E ainda, a Lei 13.104/15, que passou a prever o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio, quando este for praticado contra mulher, por razões de sexo feminino.

Por certo que o bem jurídico tutelado na referida Lei Maria da Penha e Lei do feminicídio merece especial atenção. No entanto, não escapa de ser mais um exemplo da política de emergência que na fase legislativa tinha por interesse a proteção da mulher que sofre violência doméstica, e mais ainda quando em razão do gênero, mas em certa medida na esfera judicial, encontra dificuldade de aplicação, principalmente por afetar todas as camadas sociais, e atingir uma parcela da população que não está acostumada a responder por seus delitos, pelo menos não com a mesma proporcionalidade que responde a massa marginalizada.

Nesse sentido, importante ressaltar que um dos objetivos da Constituição Federal de 1988 é a busca pela extinção das desigualdades existentes entre homens e mulheres. Conforme artigo 5°, I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Mesmo reconhecida a igualdade entre ambos os sexos, na prática, permanecem resquícios de uma sociedade de costumes machistas. Por esse motivo a Constituição brasileira concedeu tratamento especial à mulher, facultando à legislação infraconstitucional a possibilidade de buscar diminuir os desníveis de tratamento em razão do sexo, por meio de medidas que amenizem as diferenças físicas, emocionais e biológicas entre homens e mulheres.

Esse tratamento diferenciado encontra fundamento no princípio da igualdade, que consiste em tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida em que se desigualam. Nesse sentido, proíbe-se a criação de privilégios, porém sustenta-se que dar ao maior o mesmo tratamento conferido ao menor poderia caracterizar injustiça.

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A discriminação da mulher é histórica e viola não só a dignidade da mulher, como também lhe acarreta prejuízos em relação ao trabalho, à saúde e à vida. De acordo com Silva, (1998, p. 216), "as desigualdades naturais são saudáveis, como são doentes aquelas sociais e econômicas, que não deixam alternativas de caminhos singulares a cada ser humano único. ”

Na opinião de Dias (2007) esse tratamento concedido às mulheres não afronta o princípio da igualdade, pois se trata de ação afirmativa que busca reparar injustiças sofridas pelas mulheres e que violam os direitos humanos. Sustenta Dias (2007) que demagógico, para não dizer cruel, é o questionamento que vem sendo feito sobre a constitucionalidade de uma lei afirmativa que tenta amenizar o desequilíbrio que ainda, e infelizmente, existe nas relações familiares, em decorrência de questões de ordem cultural.

A violência existe desde os primórdios da nossa história, inicialmente a agressividade instintiva era utilizada como forma de sobreviver na natureza. Anos após anos, com a formação da sociedade e a existência de desigualdades sociais, a violência e a criminalidade estão se disseminando de forma descontrolada. O Estado busca punir os agressores com penas mais severas, a fim de manter a paz social.

Antigamente a violência conjugal estava inscrita nos códigos de conduta como um ato normal, em que as mulheres tinham o dever de prestar obediência ao pai e depois ao marido. A violência doméstica que é o objeto do estudo, não é um fenômeno novo, começou a ganhar visibilidade nos anos 70 por força e iniciativa de organizações a favor dos direitos das mulheres. As mulheres avançam na busca por direitos iguais aos homens, também garantindo espaço no mercado de trabalho. E com a independência financeira e proteção do Estado passaram a realizar denúncias das violências domésticas que sofrem (DIAS, 2007).

A violência contra as mulheres é um problema social, ela está cada vez mais presente no dia-a-dia de Autoridades Policiais, Poder Judiciário e programas assistenciais. As punições e as medidas para preveni-las atualmente não possuem muita eficácia. Assim, os legisladores acreditam que com penas mais rígidas os agressores temerão as punições que serão aplicadas, diminuindo desse modo o número de assassinatos contra mulheres no âmbito doméstico.

Os agressores são punidos ou absolvidos pelos crimes que estão previstos no nosso código penal ou leis especiais. Com a necessidade prevenir e erradicar o problema, em 2006

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foi promulgada a Lei Maria da Penha nº 11.340, lei especial para a proteção das mulheres vítimas da violência doméstica. Porém, mesmo com a aplicação das medidas protetivas previstas na lei, o processo de prevenção da violência está caminhando a passos lentos.

A Lei Maria da Penha veda a aplicação da Lei dos Juizados Especiais nº 9.099/95, isto ocorre para que os casos de violência no âmbito doméstico ou familiar sejam tratados com mais rigidez, bem como, para garantir maior proteção às vítimas. Desse modo, os agressores não são beneficiados com a transação penal ou suspensão condicional do processo.

1.3 O princípio da lesividade das penas frente a necessidade do Estado em tutelar os bens jurídicos

Princípios como o da pessoalidade da pena, da intervenção mínima ou da necessidade, da individualização e da humanidade entre muitos outros restringem o poder punitivo do Estado, da mesma forma que orientam o legislador infraconstitucional para o exercício de elaboração de normas incriminadoras destinadas à proteção dos bens jurídicos neles pré-estabelecidos. Para Luisi (2003, p.176)

a proteção penal, pois, faz-se pela criminalização protetora do bem jurídico constitucional, tutelando-o não só diretamente, mas, às vezes, por necessário, penalizando condutas preparatórias que se não enfrentadas tornariam inócua a proteção do bem jurídico fim. Nesse caso a proteção penal se antecipa, criminalizando situações que põem em perigo o bem jurídico.

A Declaração Francesa dos direitos do Homem e do cidadão de 1789, em seu artigo 8º determinou que a lei apenas deve estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias e ninguém pode ser punido senão por força de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada (FERRAJOLI, 2002).

Assim, já em 1789 surgia o princípio da necessidade e da mínima intervenção, ao declarar que a criminalização de um fato prescinde da prova da necessidade da tutela jurídica que será reconhecido somente quando de outra forma menos gravosa não fosse possível a sua proteção. Declarando-se ilegítima a lei incriminadora que não observasse este princípio.

O princípio de “utilidade pública”, conforme Ferrajoli (2002), é conveniente para entender a limitação das proibições penais em coerência com a função preventiva da pena

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como precautio laesionum, considerando os comportamentos reprováveis e os seus efeitos lesivos a terceiros. A lei penal busca prevenir os efeitos lesivos, mas é somente através deles que se podem justificar as penas e proibições, como sendo uma troca, quando ocorre a lesão a consequência do ato será a pena.

Para Ferrajolli (2002), são três as classes de delitos a respeito dos quais se realiza esta função restritiva e minimizadora

A primeira restrição é de caráter quantitativo. Afeta os delitos de bagatela, que não justificam a existência nem do processo penal nem da pena: em particular, haveria possibilidade de se descriminalizar [...]

A segunda restrição é de caráter qualitativo. Dentre as inumeráveis abstrações catalogadas no Código Rocco como “bens jurídicos” e como rótulo de outras tantas classes de delitos – a personalidade do Estado, a administração pública, a atividade judicial, a religião do Estado [...], o patrimônio e, só em último caso, a integridade física das pessoas -, nosso princípio de lesividade permite considerar “bens” somente aqueles cuja lesão se concretiza em um ataque lesivo a outras pessoas de carne e osso [...].

A terceira restrição tem caráter estrutural e é consequência da modificação, também estrutural, que o requisito de lesividade impõe à maior parte dos delitos. [...] “atos dirigidos a” determinado resultado – incluindo-se, aqui, também, os atos preparatórios e a cogitação, independentemente do perigo a que os bens afetados estiveram sujeitos (2002, p. 382-384).

Percebemos então que o autor faz uma breve anotação de que o princípio da lesividade adota o critério de minimização das proibições penais, o qual foi exemplificado com os delitos de bagatela, aqueles que não causam prejuízos ao patrimônio da vítima. Diante disso, o autor faz uma breve anotação de que seria possível a descriminalização de toda a categoria das contravenções, bem como dos delitos puníveis exclusivamente com pena pecuniária, ou, alternativamente, com outra privativa de liberdade. Justifica a descriminalização de tais condutas, porque, nos presentes casos o direito penal não está agindo para preveni-lo e os legisladores consideram como contravenções, dando-se a entender que a conduta ilícita não é lesiva aos bens fundamentais.

Pena é a sanção aplicada pelo Estado a pessoa criminosa que age em desacordo às normas jurídicas vigentes, ou seja, pena nada mais é que o castigo aplicado pela atitude negativa praticada pelo autor do fato criminoso. A pena possui caráter preventivo e reeducativo, uma vez que tenta reduzir a incidência da prática de novos crimes e reforça a ideia de que o Estado através do Direito Penal eficaz aplicará a privação da liberdade do indivíduo, sendo uma resposta à sociedade, neste sentido para Nucci (2011, p. 391) pena é

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A sanção imposta pelo Estado, através da ação penal ao criminoso, cuja finalidade é a retribuição ao delito perpetrado e prevenção a novos crimes. O caráter preventivo da pena desdobra-se em dois aspectos, geral e especial, que se subdividem em outros dois. Temos quatro enfoques: a) geral negativo, significando o poder intimidativo que ela representa a toda a sociedade, destinatária da norma penal; b) geral positivo, demonstrando e reafirmando a existência e eficiência do Direito Penal; c) especial negativo, significando a intimidação ao autor do delito para que não torne a agir do mesmo modo, recolhendo-o ao cárcere, quando necessário e evitando a prática de outras infrações penais; d) especial positivo, que consiste na proposta de ressocialização do condenado, para que volte ao convívio social, quando finalizada a pena ou quando, por benefícios, a liberdade seja antecipada.

Trata-se do princípio de retribuição ou do caráter de consequência do delito que a pena tem, então, percebe-se que a finalidade da pena, seria reeducar – prevenção geral dos delitos, demonstrando ao agente criminoso que devido ao fato que lesou a integridade física da vítima e/ou seu patrimônio, a retribuição do delito é a pena, que tem a capacidade de prevenir a prática de novos fatos delituosos. Essa retribuição pode somente prevenir a prática de fatos delituosos, não a subsistência das condições pessoais ou de status, como são a periculosidade ou a capacidade de delinquir ou outras semelhantes e, por outro lado, a pena exerce uma função preventiva ou intimidatória, sobretudo se se castiga a quem “merece”.

O Código Penal brasileiro prevê três tipos de pena, as privativas de liberdade, as restritivas de direito e a pena pecuniária, as quais devem ser aplicadas pelo juiz de direito de modo a punir e evitar a ocorrência de novos crimes, nos termos do artigo 59 do Código Penal:

O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime.

Ademais, a pena a ser aplicada de acordo com o sistema penal brasileiro, tem previsão no tipo penal infringido pelo criminoso, cabendo ao juiz dosar a pena, ou aplicar pena alternativa (restritiva de direito).

Para Schafer (2013, p. 46), a escolha de uma solução pelo agente público pode ser declarada abusiva na hipótese de existirem outras, menos gravosas, que igualmente possam atingir a finalidade pretendida. Primeiro, os meios utilizados à consecução de um fim devem ser adequados e suficientes ao que se visa concretizar (adequação dos meios), restando estabelecida uma relação de conformação medida-fim. Depois, a invasão regulatória na esfera

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de direitos deve, sempre, ser a menor possível, sendo legítima somente a intervenção quando esta for estritamente necessária à proteção de um direito (necessidade). Sempre que o poder público tiver várias possibilidades concretas para atingir a finalidade, todas com mesma eficácia devem optar, obrigatoriamente, por aquela que menos agrida o direito objeto da intervenção.

Quanto à função e abrangência do princípio da proporcionalidade, vinculado à proibição de excesso e de insuficiência, diretamente ligado ao dever de proteção por parte do Estado, Carvalho (1992, p. 37-38) refere que,

a nova Constituição traz um caráter limitador das leis penais, no momento em que regula os direitos e liberdades fundamentais, contemplando, implicitamente, ou mesmo de forma explícita, os limites do poder punitivo e os princípios informadores do direito repressivo: as proibições penais não se podem estabelecer para fora dos limites que permite a Constituição, isto significando, também, que não podem ser afrontados os princípios éticos, norteadores da Lei Maior, mesmo que instituídos em dispositivos programáticos, sem regulamentações que lhes garantam uma existência real.

Na modernidade podemos dizer que o sistema de justiça constitucional não tem somente o papel de fixar limites em favor do indivíduo e contra o Estado. Sua função é muito mais complexa, integra o direito penal à novas matérias, elegendo e excluindo bens jurídicos de proteção. Ao mesmo tempo limita o direito penal a constituir ilícito tão somente os fatos realmente ofensivos ao bem jurídico tutelado. Palazzo (1989, p.80) alude que,

a nível jurisdicional-aplicativo, a integral atuação do princípio da lesividade deve comportar, para o juiz, o dever de excluir a subsistência do crime quando o fato, no mais, em tudo se apresenta na conformidade do tipo, mas, ainda assim, concretamente é inofensivo ao bem jurídico específico tutelado pela norma.

Por esse princípio, a aplicação de uma pena deve estar adequada, de acordo com a gravidade da infração penal. O quantum de pena deve ficar estabelecido de forma proporcional à gravidade do delito cometido. Não se pode aceitar o exagero, tampouco a generosidade da pena, ela deve ser proporcional.

Nesse sentido, o Estado Democrático de Direito, quando em desenvolvimento de suas atribuições jurídico estatal, há de considerar e atuar nos limites do necessário à consecução de seus fins, os quais se destaca a proteção e promoção da dignidade da pessoa humana.

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2. UM CONTEXTO MUNDIAL SOBRE O MOVIMENTO FEMINISTA

As primeiras manifestações feministas tiveram início nos Estados Unidos, tendo se estendido até a América Latina, por volta do fim do século XIX, perdurando até meados do século XX, as mulheres lutavam pela igualdade de direito entre os sexos. As mulheres eram protagonistas de uma luta em busca da igualdade de gênero como também de garantias iguais no mercado de trabalho e no direito à participação nas decisões políticas. Nesse sentido é o entendimento de Barbosa e Lage (2015, p. 93),

A primeira onda feminista surgiu em fins do século XIX e perdurou até meados do século XX em que as mulheres lutavam por garantias de igualdade de direitos entre os sexos. Essa primeira onda teve início nos Estados Unidos, tendo se estendido à América Latina. A militância do movimento feminista na América Latina caminha em torno de uma luta em que a mulher se torna protagonista, isto é, pela igualdade de gênero como também por garantias iguais no mercado de trabalho e no direito à participação nas decisões políticas. Na segunda metade do século XX [...], “en el feminismo latinoamericano se van produciendo sucesivos reagrupamentos y câmbios de visíon; los pequeños grupos de reflexíon-accíon se van transformando en organizaciones académicas, se logra la penetracíon en instituciones gubernamentales.”

Porém, o movimento feminista se irradiou na Europa por volta da metade do século XX, como consequência dos ideais propostos pela Revolução Francesa, tinha como lema a igualdade, liberdade e fraternidade. O referido movimento, então, a luta das mulheres centrava-se na busca pela obtenção de igualdade jurídica. A igualdade que se buscava era o direito das mulheres ao voto, a educação e o direito de exercer uma profissão, isto porque, queriam também as mulheres estar inseridas no contexto da sociedade, participar das diversas mudanças sociais que as revoluções buscavam, mas principalmente, objetivavam o fim das diferenças entre os sexos (BARBOSA e LAGE, 2015).

As mulheres desejavam se sentirem cidadãs em uma sociedade historicamente regida pelo patriarquismo, época em que os maridos se consideravam donos de suas esposas e de seus filhos, diante disso, diversos movimentos organizados, ganhavam força para que ocorresse a abolição das desigualdades entre os sexos. As mulheres ousavam participar da vida política, especialmente na França, juntamente com outros grupos ativistas (BARBOSA e LAGE, 2015).

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O movimento feminista é irradiado na Europa, na segunda metade do século XX, sendo um movimento de caráter emancipatório. Suas primeiras manifestações são registradas na França, quando um grupo de mulheres sai às ruas para reivindicar expressão de liberdade e gênero. As lutas do movimento feminista deste movimento tinham o caráter sufragista.

Complementa-se com a ideia de Costa e Sardenberg (1990, p. 24):

Por um lado, suas raízes se atrelam aos ideais liberais de igualdade, trazidas pela revolução democrática burguesa, que teve seu auge na Revolução Francesa de 1789. Principalmente porque se trata de um conceito limitado de igualdade, ou seja, uma “egalité, liberté, fraternité” que, apesar de clamada para todos, na prática vai-se instaurar só entre as classes dominantes e, como bem estabelece a “Declaração dos Direitos do Homem”, já no título, só entre os homens.

O movimento feminista surgiu no Brasil em meados do Século XX, desde então as mulheres vêm assumindo diversas lutas, no parlamento, nas ruas e em casa, para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. E vem lutando pela igualdade de salários e condições dignas de trabalho, pela valorização do trabalho doméstico, pelo direito sobre o corpo e pelo gozo da sexualidade.

É de se ressaltar que no Brasil ainda se vivia sob a égide do patriarquismo, época em que a mulher vivia confinada dentro de casa, sob as ordens do marido, sua principal função era a reprodução. Sua outra opção de vida era a de se recolher em um convento, pela qual muitas outras mulheres escolhiam. Enquanto que na Europa, e Estados Unidos, as mulheres já haviam conquistado participar de mudanças de comportamentos e vida social. Nesse sentido é o posicionamento de Costa e Sardenberg (1990, p. 32),

No Brasil, o pensamento feminista surge, pela primeira vez, no século passado, introduzido por Nísia Floresta Brasileira Augusta cuja publicação das obras “Conselhos à Minha Filha” (1842), “Opúsculo Humanitário” (1853) e “A Mulher” (1856), além da tradução da obra pioneira de Mary Wollstonecraft, “A vindication of the Rights of Women” (1832), marca o despertar de uma consciência crítica acerca da condição feminina na nossa sociedade.

[...]

Cumpre lembrar que, enquanto na Europa e, mais tarde nos Estados Unidos, procedia- se à revolução em todas as esferas da vida social, inclusive nas relações pessoais e na família, deslanchada pelo “novo” modo de produção que ali se estabelecia, no Brasil, como nos demais países da América Latina, ainda se vivia sob um regime colonial, escravocrata, patriarcal.

Com a vinda da família real ao Brasil no ano de 1808, aproximadamente, iniciou-se uma era de mudanças significativas no que tange a economia e política do país , como

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abertura de portos, construção de ferrovias, desenvolvimento bancário. Aliado à essas mudanças, às ideias liberais, burguesas, veio a Independência do Império (1822) (COSTA E SARDENBERG, 1990).

Em 1889 ocorre a proclamação da República e a promulgação da nova Constituição. A Constituição de 1891 foi elaborada nos moldes da ideologia liberal burguesa. A Carta Maior da época deu início a previsão aos direitos dos homens, os quais geraram diversas interpretações, considerando que não fazia referência explícita aos direitos das mulheres.

Esse processo tem como ponto de referência a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808, pois marca o início de mudanças significativas na vida econômica e política do país [...]. Com elas, cresce também o sentimento de identidade nacional que, aliado às idéias liberais, burguesas, fomentarão uma nova ordem econômica, jurídica e política no país, através da Independência do Império (1822); e, já na segunda metade do século, as campanhas abolicionistas, que culminariam com o fim do regime escravocrata, em 1888. Logo no ano seguinte, em 1889, a proclamação da República e promulgação de uma “nova” Constituição, a de 1891, elaborada segundo os moldes da ideologia liberal burguesa.

É importante notar que essa Constituição estabelecia o sufrágio universal para todos os cidadãos brasileiros, assegurando que “todos são iguais perante a lei” (Art.72). (COSTA E SARDENBERG, 1990, p. 35).

Continuando na ideia de Costa e Sardenberg (1990, p. 35), diante de tantas interpretações e da ocultação quanto aos direitos das mulheres, a igualdade de todos dava margem ao entendimento de que os direitos das mulheres estariam garantidos. Na prática, a igualdade a todos se estendia aos homens alfabetizados, excluindo não só as mulheres, mas também, boa parte de homens principalmente da classe trabalhadora.

Como não fazia referência explícita aos direitos da mulher, deu margem a diferentes interpretações, já que se poderia supor que, pelo menos os direitos políticos da mulher estariam aí garantidos na afirmação de igualdade de todos. Na prática, porém, a “igualdade de todos”, se estendia somente aos homens alfabetizados, o que excluía não só as mulheres, mas também a maior parte da população masculina, principalmente das classes trabalhadoras, não sendo, portanto, em nada diferente da “Declaração dos Direitos do Homem”, da França, ou da “Bill of Rights”, dos Estados Unidos.

Por muitos anos as mulheres pobres foram banidas de votar e escolher seus representantes, uma vez que estariam predestinadas à ignorância por sua condição econômica. Assim, o direito de voto deveria ser destinado apenas para as "mulheres instruídas". A negativa de um direito, de estudar, lhe retirava outro, de votar.

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Consequência nefasta para as mulheres, que muito embora não desistiram de continuar lutando pelos seus objetivos (COSTA E SARDENBERG, 1990)

Diante das desigualdades, surgem os movimentos das mulheres, tendo sido o direito ao voto a primeira luta e conquista das feministas, por volta da primeira metade do século XX. Diante da Proclamação da República fortaleceu o desejo das mulheres pelos direitos políticos e também forneceu argumentos para as manifestantes sobre o sufrágio, considerando que as feministas cultas se sentiam frustradas, vez que também eram alfabetizadas (COSTA E SARDENBERG, 1990).

Segundo June Hahner, a semente das aspirações femininas pela conquista de direitos jurídicos/políticos, foi lançada com a Proclamação da República: “O fermento da agitação republicana dos fins da década de 1880 não apenas fortaleceu o desejo feminista por direitos políticos como também deu às mulheres argumentos adicionais em favor do sufrágio e oportunidades de procurar o voto. A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, ofereceu inicialmente a possibilidade de uma estrutura política mais fluida e aberta, com a extensão do voto, em teoria, a todos os homens alfabetizados, a questão do sufrágio pôde tornar- se um tópico mais vital para as feministas cultas que experimentavam um sentimento de frustração e privação política. (COSTA E SARDENBERG, 1990, p. 36)

Em 1932, o Presidente Getúlio Vargas através do Decreto nº 21.076, instituiu o sufrágio universal direto e secreto e o voto para as mulheres brasileiras. Apesar de ter ocorrido a referida conquista, somente poderiam votar com a autorização dos cônjuges. No ano de 1934, tornaram-se independentes na escolha do voto. Outra restrição que ocorria era quanto ao direito de ser votada, ou seja, não podiam as mulheres assumir cargos políticos. O direito ao voto também foi autorizado para as mulheres viúvas e solteiras que possuíam renda própria (BRANDÃO, 2013).

Com a Constituição de 1934, as restrições que ainda haviam foram elididas, mas o voto continuava ainda sendo facultativo, apenas com a Constituição de 1946 tornou -se obrigatório, período o qual é considerado o mais democrático da história.

A luta pelo sufrágio feminino seguirá até 1932, quando esta reivindicação será concedida pelo novo governo implantado pela chamada “Revolução de 1930”. Esta concessão fazia parte da nova estratégia de dominação implantada. [...]. (COSTA E SARDENBERG, 1990, p. 38).

Quando o então presidente Getúlio Vargas percebeu que havia uma mobilização em defesa de transformações sociais e políticas que marcavam aquele momento, permitiu a aprovação de uma reforma eleitoral, em 1932, através do decreto de

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número 21.076, onde foram instituídos o sufrágio universal direto e secreto e o voto feminino, algo inédito no país e surpreendente [...].

O direito do voto feminino no Brasil foi exercido, a princípio, sob a tutela dos maridos, a quem cabia autorizar as mulheres a votarem. O voto também era permitido às viúvas e solteiras com renda própria, uma minoria naquela época em que o homem era o provedor universal e poucas mulheres tinham seus próprios meios de sustento. Essas restrições foram eliminadas pela Constituição de 1934, mas o voto ainda era facultativo para as mulheres, sua obrigatoriedade só viria a acontecer a partir de 1946, um período que é considerado um dos mais democráticos da história da República brasileira, antes do golpe militar de 1964. (BRANDÃO, 2013, p. 15).

Percebe-se que todas as conquistas das mulheres no Brasil, teve como início os movimentos sociais na Europa. Basicamente com a Revolução Francesa, e, devido a alguns países Europeus estarem permitindo o voto para as mulheres. Outrossim, o que para nós brasileiros parece essencial e simples, é sabido que nos países orientais ainda nos dias de hoje, as mulheres não adquiriram o direito sequer de votar, pode-se aduzir que apesar das evoluções e de todo o contexto histórico, há culturas que permanecem resistentes, a tais direitos.

Durante a Revolução Industrial e após, as mulheres já não eram mais donas de casa, eis que seus esposos foram enviados para os campos de guerra, e só por isso , elas passaram a conquistar espaço no mercado de trabalho, como operárias, enfermeiras entre outros trabalhos domésticos. Contudo, desde aquela época, já se percebeu que a força física da mulher para realização de trabalhos manuais, não se igualaria a do homem, fato que por si só já lhe retirava a isonomia salarial. Para Lopes ([s.d]),

A guerra também empurrou mais mulheres para o mercado de trabalho. Desde a Revolução Industrial, mulheres vinham ocupando postos em fábricas, além de exercer as profissões tipicamente femininas, como enfermagem e serviços domésticos. Como persiste até hoje, as diferenças brutais eram brutais nos salários de mulheres e homens.

No dia 08 de março é comemorado o dia internacional da mulher, porém, tampouco, é lembrado a história do fato ocorrido em 08 de março do ano de 1911. Nesse dia na cidade de Nova York, a luta das operárias têxteis, levou a paralisação das atividades durante aproximadamente uma semana. O objetivo era protestar contra a jornada de trabalho de 16 horas diárias e por melhores salários. O movimento como era de se esperar causou descontentamento no conglomerado empresarial e assim, patrões acompanhados de policiais colocaram fogo em uma fábrica têxtil. E nesse local muitas mulheres se encontravam

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trancadas, em virtude do manifesto. O resultado foi a trágica morte de dezenas de mulheres que ali se encontravam. Conforme Cunha (2013),

Foi em Nova York que dois episódios importantes para a conquista dos direitos das mulheres aconteceram: as greves de 1857 e 1911. A primeira aconteceu em 8 de março e está ligada à luta das operárias têxteis, que paralisaram suas atividades durante uma semana e foram duramente reprimidas pela polícia. Em 1911, uma nova greve em 25 de março terminou com a morte de 146 pessoas (mais de 100 mulheres) em um incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist Company. Tais acontecimentos acima ajudaram a instituir o março como mês da mulher e o dia 8 como o Dia Internacional da Mulher, mesmo sem relatos e documentos que comprovem o ocorrido em 1857.

As russas também tiveram papel importante para fortalecer os protestos por parte das mulheres. Em 8 de março de 1917, operárias russas foram às ruas em protesto contra o czar Nicolau 2º, a entrada do país na 1ª Guerra Mundial, contra a fome e os baixos salários.

O direito à educação para as mulheres brasileiras por muito tempo foi negado, ante a resistência de que as mulheres deveriam cuidar do lar, acreditava -se que não precisava adquirir conhecimentos, a educação básica de saber escrever o nome era suficiente.

A história dá conta de que a partir de 1875 a mulher passou a acessar à escola normal, e em 1880 inicia-se a feminização da frequência escolar. As mulheres conquistaram aos poucos a ampliação no campo de trabalho, também dentro das escolas, uma vez que as professoras e demais cargos, somente poderiam ser ocupados por mulheres. Importante ressaltar que a educação para época, era considerada precária, porque embora professoras o conhecimento que detinham essas mulheres era ínfimo, fato que também refletia no salário que lhes era pago. Martins (2004), alude que,

Em São Paulo, a mulher teve acesso real à Escola Normal em 1875 e, só a partir de 1880 começou a feminização da frequência da Escola Normal. São várias as razões desse fato: uma delas é o tipo de pensamento dominante do final do século XIX, quando teóricos positivistas diziam que a mulher está ligada à maternidade, tem mais jeito para lidar com criança, habilidade, paciência, e que as diferenças de sexo, caráter, temperamento, tipo de raciocínio seriam capazes de socializar a criança. A boa professora é reconhecida como uma segunda mãe dos seus alunos, daí a frase elogiosa: “ela não é uma professora, é uma mãe para os alunos”

Apesar do ingresso das mulheres nas escolas, o ensino superior lhes foi negado por muitos anos, eis que o entendimento da época era de que fosse necessário ter escolas ou universidades exclusivamente frequentadas por mulheres.

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Gohn (2010, p. 89) ao citar Castells (1996), refere que o movimento de gênero, ou seja, os movimentos sociais e culturais-feminismo, os quais tinham o objetivo a luta pelos direitos humanos, direitos sexuais, tiveram um papel significativo para a formação da sociedade atual. Os movimentos sociais afro-brasileiros, os indígenas, os de jovens, os de idosos, os das mulheres, reagiam contra os arbítrios das autoridades, se revoltavam contra as injustiças e procuravam a liberdade.

Ainda, para a referida autora, as marchas das mulheres no século XXI, tem demonstrado que elas são essenciais na luta por questões coletivas. Na América Latina as feministas têm lutado pelo desemprego, misérias, são as principais atrizes, colocando os movimentos sociais novamente em cena.

A partir do ano de 2000, as mulheres têm realizado Marchas- 2001 participaram da 1ª Grande Marcha Mundial das Mulheres (MMM), com 20 mil participantes. Em 2003, na 2ª Marcha, calculou-se em 40 mil o número de participantes. Em 2005, o MMM lançou em São Paulo, no dia Internacional da Mulher, a “Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade”, com a presença estimada de 30 mil mulheres de 16 estados brasileiros. (GOHN. 2010, p. 97).

O que as mulheres vêm reivindicando atualmente é a liberdade sobre o direito de usar o seu corpo, sua sexualidade. Então, o movimento carrega a responsabilidade de inovação e de lutas, eis que, reacende discussões, no feminismo moderno. No Brasil “A Marcha das Vadias” movimento que reivindica, por exemplo, a descriminalização do aborto, a proteção à violência doméstica, o controle da sexualidade feminina, entre outros direitos sobre as mulheres e o fim de alguns padrões impostos são de certa forma a continuidade dos movimentos sociais já vivenciados no passado. Assim é o posicionamento de Medeiros (2004, p. 02),

As diversas lutas envolvendo a questão feminina, ao longo do tempo, tiveram em seu escopo a questão do corpo, desde o controle da fertilidade a políticas de aborto, violência sexual e outras formas de controle social sobre o corpo feminino, como as que envolvem a maneira de se vestir e alterações corporais marcadas pelo gênero ou relações de poder que definem os acessos geográficos permitidos às mulheres.

Para Medeiros (2014, p. 8-9) o feminismo é um movimento sem gênero, considerando que é uma luta social, em busca das desigualdades. Deve-se pensar em mulher como um sujeito instável e não permanente, a qual apenas representa a sociedade nos movimentos sociais. Conforme Butler (2003, p. 48), o seu entendimento sobre gênero é que ele é

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produzido e imposto para a sociedade, o gênero produz efeitos pode ser feminino ou masculino, mas são ficções.

O gênero, é performativo, ou seja, produzido e imposto socialmente, herdado da metafísica da substância, que concebe a identidade como algo que é. No entanto, “não há identidade de gênero por trás do gênero; essa identidade é performaticamente constituída”

Ainda, cada dia é maior também o apoio ao movimento por parte dos homens, que se intitulam ou compartilham os pensamentos feministas, uma vez que se sentem pressionados ou incomodados com as regras de comportamento social e machista. Infelizmente, nem tudo são flores, ainda é grande o número de pessoas que apoiam o sistema organizado por uma sociedade machista, não compartilhando a visão de liberdade, de direitos igualitários entre os sexos.

2.1 A criação de um novo tipo penal, sob o viés da importância da violência de gênero

Os estudos sobre gênero iniciaram no Brasil por volta dos anos 1970/1980, em torno da problemática da condição feminina. Uma das primeiras teses defendidas em nosso país foi a de Heleieth Saffioti no final dos anos de 1960 contendo como título “A mulher na sociedade de classes” focou seus estudos na opressão da mulher nas sociedades patriarcais. As mulheres acreditavam que se realizassem reuniões com a ausência dos homens, era uma forma de garantir as suas palavras. Assim, discorre Grossi (s.d, p. 2-3),

O campo de estudos que hoje chamamos no Brasil de gênero ou relações de gênero surge nos anos 1970/1980 em torno da problemática da condição feminina. Inicialmente se pensava que havia um problema da mulher que deveria ser pensado unicamente pelas mulheres, reflexo de uma das práticas do movimento feminista, a da não-mixidade. O que significava isto? Nos grupos feministas, pensava-se que era necessário que as mulheres se reunissem sem os homens pois "haviam sido silenciadas ao longo da história"; assim sendo, a ausência de homens era uma forma de se garantir a palavra das mulheres. Estes primeiros estudos, que no Brasil se iniciam com a tese defendida por Heleieth Saffioti no final dos anos 1960 intitulada A mulher na sociedade de classes, tinham como preocupação estudar a opressão da mulher nas sociedades patriarcais.

A partir de 1980 passa-se a realizar estudos sobre as mulheres, não falando somente de uma condição de classe, mas problemas regionais, etárias, entre outras. Nas teses apresentadas, apesar dos estudos terem sido focados sobre a condição feminina, percebeu-se a

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