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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
JOÃO PEDRO SPOLTI FREIRE VALDUGA
DA IMUNIDADE TRIBUTÁRIA CONCEDIDA AOS TEMPLOS RELIGIOSOS E O IMPACTO NA ECONOMIA BRASILEIRA
Ijuí (RS) 2019
JOÃO PEDRO SPOLTI FREIRE VALDUGA
DA IMUNIDADE TRIBUTÁRIA CONCEDIDA AOS TEMPLOS RELIGIOSOS E O IMPACTO NA ECONOMIA BRASILEIRA
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.
UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS – Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientadora: Msc. Maristela Gheller Heidemann
Ijuí (RS) 2019
Dedico esta pesquisa a toda minha família, amigos, professores e demais incentivadores que sempre acreditaram no meu potencial durante esta longa jornada de obstáculos e desafios.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente à minha família, base do meu ensino e pilar na construção do meu caráter, nunca medindo qualquer esforço para proporcionar o máximo de conforto, tranquilidade e paz para que eu pudesse desenvolver minhas ideias e amadurecer como pessoa, seguindo sempre meus próprios ideais.
Meus amigos, pessoas de luz que acompanham a minha vida há tanto tempo que eu também posso chamar de uma segunda família. Por vezes muito distantes, mas sempre contando com a compreensão e apoio de todos, uma vez que compreendiam a razão das eventuais ausências e, ao contrário da queixa, o discurso era o de querer sempre o melhor para mim.
À minha orientadora que, sempre paciente e presente, proporcionou condições para que eu pudesse enfim concluir a pesquisa com êxito. Não faltou boa vontade e compreensão, mesmo nos momentos de dificuldades os quais enfrentei.
“Quando não há entre os homens, liberdade de pensamento, não há liberdade”.
RESUMO
A presente pesquisa, voltada à conclusão do Curso, busca conhecer um aspecto geral acerca das imunidades tributárias, a fim de proporcionar o fomento do debate quanto à necessidade real de aplicabilidade destas em razão dos templos de qualquer culto. Busca a historicidade e conceito do tema imunidade tributária, para uma melhor obtenção de análise crítica. Percorre o período de formação das civilizações para melhor entender o passo de evolução e manutenção dos tributos hoje existentes. Estuda a imunidade de templos de qualquer culto no Brasil, fazendo uma busca em Constituições e entendimentos anteriores ao que se tem hoje. Busca, ainda, o conceito de liberdade religiosa, não abandonando a miscigenação cultural na qual se está inserido. À baila disto, procura compreender esta temática junto à Constituição Federal vigente. Por meio de pesquisa de dados e coleta de informações a respeito dos valores quais os templos e seus líderes movimentam, estuda o impacto que isso gera na receita tributária nacional. Por derradeiro, reunindo ideias de renomados doutrinadores e pesquisadores do tema, bem como os dados obtidos na construção da pesquisa, contempla uma justa crítica pessoal ao sistema de desoneração contemporâneo.
Palavras-chave: Tributo. Liberdade Religiosa. Imunidade Tributária. Templos de Qualquer Culto. Crítica ao Modelo Tributário.
ABSTRACT
The present research, aimed at the conclusion of the Course, seeks to know a general aspect about the tax immunities, in order to foment the debate as to the real necessity of their applicability due to the temples of any cult. It seeks the historicity and concept of the subject tax immunity, for a better obtaining of critical analysis. It traverses the period of formation of civilizations to better understand the evolution and maintenance of the tributes that exist today. It studies the immunity of temples of any cult in Brazil, making a search in Constitutions and understandings previous to what one has today. It also seeks the concept of religious freedom, not abandoning the cultural miscegenation in which it is inserted. In the light of this, it seeks to understand this theme in the current Federal Constitution. By researching data and collecting information about the values that temples and their leaders move, it studies the impact this generates on national tax revenue. Lastly, bringing together ideas from renowned doctrines and researchers of the subject, as well as the data obtained in the construction of the research, contemplates a just personal criticism of the system of contemporary relief.
Keywords: Tribute. Religious Freedom. Tax Immunity. Temples of Any Cult. Critique of the Tax Model.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 8
1 DA IMUNIDADE TRIBUTÁRIA ... 10
1.1 Abordagem histórica da imunidade tributária ... 10
1.2 A imunidade de templos na história do Brasil ... 13
1.3 Distinções entre imunidade e isenção no direito tributário ... 15
1.4 Do conceito e das classificações de imunidade tributária ... 17
2 IMUNIDADE TRIBUTÁRIA DOS TEMPLOS RELIGIOSOS ... 23
2.1 Liberdade religiosa ... 23
2.2 Imunidade religiosa e a Constituição Federal de 1988 ... 27
2.3 O impacto da imunidade religiosa na receita tributária ... 31
2.4 Críticas ao modelo de imunidade tributária vigente ... 33
CONCLUSÃO ... 39
INTRODUÇÃO
O presente trabalho apresenta um estudo acerca das imunidades tributárias, voltando-se, sobretudo, às imunidades tributárias dos templos de qualquer culto e o impacto que a desoneração causa no sistema tributário pátrio, a fim de efetuar uma investigação em busca da construção de alternativas ao sistema vigente bem como o fomento ao debate das questões aqui postas. Faz-se necessário a busca, sobretudo em razão da crescente onda de discussões acerca do que é ter, de fato, um Estado Democrático de Direito. Se a coletividade é feita de mescla, de miscigenação, há um fato tão superveniente atrelado aos templos que estes devam ser alcançados pela benesse da desoneração tributária? Uma vez vertida na Carta Magna a laicidade do Estado, bem como a liberdade religiosa, garantias individuais e coletivas e pluralismo político, há que se fomentar o debate em cima da polêmica que gira ao redor do tema.
Este trabalho foi realizado através pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico, analisando projetos de lei, dados do IBGE e, inclusive decisões do STF que tiveram repercussão geral, objetivando o enriquecimento das informações, o que permite um aprofundamento com mais ímpeto no tema proposto, revelar a notoriedade do debate e do questionamento, bem como a importância de uma autocrítica por parte do Legislativo e Judiciário em razão da ideologia tributária contemplada hodiernamente.
De modo preliminar, o primeiro capítulo traz uma abordagem mais incisiva no que toca o período histórico e conceitual das imunidades. Como surgiu, enfim, o termo imunidade, a sua etimologia e aplicabilidade na sociedade. A diferença, quando comparada à isenção, onde muito embora parecidas, não há que se confundir ao tratar de ambas. Aborda a questão da formação da identidade cultural brasileira, contemplando um olhar voltado à cronologia e
mutação das imunidades aplicadas nos templos desde o período colonizador até hoje. Deveras importante, por final, compreender as imunidades existentes, conceituando o que de fato é uma imunidade e as classificando, para uma melhor compreensão do desenvolvimento do tema a ser estudado.
Porquanto, no segundo capítulo é possível notar a presença de uma pesquisa mais voltada à contemporaneidade e ao sistema tributário hodierno. Primeiramente, trata da liberdade religiosa de modo a introduzir os motivos pelo qual a matéria é tão delicada e deve ser tratada com cautela. Aí, uma vez compreendido o aspecto geral de liberdade religiosa (sobretudo no Brasil), é buscada a tônica da imunidade enquanto inserida dentro da Constituição Federal de 1988, compreendendo suas especificidades para a concepção e existência desta. Ademais, através da colheita de dados online, como notícias jornalísticas e dados do IBGE, abarca uma pesquisa baseada em estimativas com base de cálculo real e padronizada, para uma melhor compreensão didática do quanto é possível afetar o sistema tributário vigente.
Por derradeiro, faz-se uma análise crítica acerca da necessidade real de aplicabilidade da desoneração em questão, mostrando contrapontos e incongruências existentes enquanto Estado laico, digladiando ideias e apresentando propostas para um funcionamento mais democrático da norma imunizante.
A partir desse estudo se verifica que a imunidade tributária traz especificidades essenciais ao desenvolvimento jurídico-cultural pátrio, mas que, por outro lado, há a necessidade sempre de uma reavaliação imparcial por parte do legislador, uma vez que a história não existe para ficar no passado, mas sim, para ser contada e formada no dia-a-dia da sociedade, desapegando-se de uma etimologia pautada tão somente pelo passado. A história é mutável, a cultura é desenvolvida e a democracia é trabalhada, qualificando e unindo o pluralismo político com uma política de não favorecimentos a questões ideológicas, por óbvio, é chegado cada vez mais perto da paz e organização social.
1 DA IMUNIDADE TRIBUTÁRIA
A história de todos os povos constituídos passa pelo fenômeno da tributação, seja de forma direta ou indireta, tal instituto que mantém regulado o Estado. Dentro desta linha histórica do pagamento de tributos ao Estado, foram surgindo perdões para algumas instituições e/ou pessoas que pareciam importantes ao povo.
Esses perdões hoje são conhecidos pelo nome de imunidade tributária e basicamente ocorrem do fato da não existência de um fato gerador de tributo. É como se o Estado deixasse de olhar como obrigatória a contribuição de determinadas instituições.
Dentro de um escorço histórico, é sabido que a parte majoritária dos perdões atina aos templos religiosos, estes que sempre estão em voga nas estantes que se ocupam de livros de história. Em resumo, toda a história da humanidade pautou-se dentro de um liame religioso.
Daí que se falar na modernização dos povos e novos conceitos de sociedade, não tendo mais hoje, os templos, a relevância social que tinha em tempos passados. Na conjuntura atual de sociedade, há que se falar, sobretudo na figura do Estado Laico de Direito.
Deste modo, o fenômeno da imunidade tributária divide opiniões quanto à necessidade da sua aplicação sobre alguns institutos. Sabe-se que apesar de ter força constitucional e ser declarada como cláusula pétrea pelo STF, há que se abrir uma relevante discussão acerca da temática, vez que notoriamente fere a igualdade, democracia e proclamação de um Estado Laico de Direito.
1.1 Abordagem histórica da imunidade tributária
Para retratar tal período histórico, faz-se necessário cumprir uma certa analogia quanto ao surgimento e desenvolvimento das civilizações antigas, traçando assim um perfil sobre quais foram os povos antigos e de que modo eles evoluíram – isto desde o período pré-histórico –, compreendendo desde a transformação dos Neandertais para os Sapiens.
A referida evolução ocorreu por volta de 70 mil anos atrás, quando o Homo Sapiens começou a fazer certas coisas que até então eram estranhas àquela cultura paleolítica. Veja que os Neandertais foram expulsos – leia-se: extintos – da face da terra num movimento de domínio e adaptação de espécie, isso tudo em razão da adaptação, evolução e transformação cerebral pela qual tal espécie estava passando.
Num período compreendido entre 70 mil e 30 mil anos atrás, é possível testemunhar diversas invenções que comprovam a evolução do Sapiens enquanto ser pensante, conforme demonstra Yuval Noah Harari (2012, p. 25):
O período de 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás testemunhou a invenção de barcos, lâmpadas a óleo, arcos e flechas e agulhas (essenciais para costurar roupas quentes). Os primeiros objetos que podem ser chamados de arte e joalheria datam dessa era, assim como os primeiros indícios incontestáveis de religião, comércio e estratificação social.
Tais movimentos e adaptações percebidas pelos Sapiens, sobretudo na forma de pensar e se comunicar, são chamados de Revolução Cognitiva, o que foi um marco na história da humanidade e pode ajudar a compreender de forma mais cristalina o porquê da importância da religião e inclusive a sua ora confusão com a figura de Estado. Segundo Harari (2012, p. 27):
O surgimento de novas formas de pensar e se comunicar, entre 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás, constitui a Revolução Cognitiva. O que a causou? Não sabemos ao certo. A teoria mais aceita afirma que mutações genéticas acidentais mudaram as conexões internas do cérebro dos sapiens, possibilitando que pensassem de uma maneira sem precedentes e se comunicassem usando um tipo de linguagem totalmente novo.
Na linha do tempo da evolução do Sapiens, aparece o que se chama de Teoria da Fofoca, que nada mais é do que a forma de comunicação entre as pessoas exatamente do modo que ela realmente é. Parece brincadeira, mas a Teoria da Fofoca explica, em seu conceito, como as relações interpessoais e ligações/criações religiosas foram sendo construídas. Para o mesmo autor citado (2012, p. 29):
Ainda hoje, a maior parte da comunicação humana – seja na forma de e-mails, telefonemas ou colunas nos jornais – é fofoca. É tão natural para nós que é como se nossa linguagem tivesse evoluído exatamente com esse propósito. Você acha que quando almoçam juntos professores de história conversam sobre as causas da Primeira Guerra Mundial, ou que físicos nucleares passam o intervalo do café em conferências científicas falando sobre partículas subatômicas? Às vezes. Mas com muito mais frequência eles fofocam sobre a professora que flagrou o marido com
outra, ou sobre a briga entre o chefe do departamento e o reitor, ou sobre os rumores de que um colega usou sua verba de pesquisa para comprar um Lexus.
E é daí que se pode observar o início da relação do Sapiens com a religião, é através desses acontecimentos que a raça humana começa a inventar, a criar e se agarrar em mitos, falar que viu tal coisa e jurar que é verdade, quando a tônica da história é totalmente diversa e distorcida daquela contada. Harari (2012, p. 29) afirma que:
Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez com a Revolução Cognitiva. Antes disso, muitas espécies animais e humanas foram capazes de dizer: “Cuidado! Um leão!”. Graças à Revolução Cognitiva, o Homo sapiens adquiriu a capacidade de dizer: “O leão é o espírito guardião da nossa tribo”. Essa capacidade de falar sobre ficções é a característica mais singular da linguagem dos sapiens.
E por que importa ter conhecimento do que fora mencionado até então? Basicamente porque não existe data específica do surgimento da arrecadação pecuniária através dos tributos, sendo necessário tecer um conhecimento acerca da evolução do homem e da cidadania num contexto geral, delimitando a relação de proximidade do homem com Deus(es) e suas respectivas mitologias.
Em razão de tal informação, pode-se ter uma ideia do início de tal instituto observando que o texto mais antigo encontrado até então remete a uma placa cuneiforme de aproximadamente 2.350 a.C. Diz Rodrigo Ferreira (2015, online) que:
O texto mais antigo encontrado e que retrata a cobrança de tributos na antiguidade é uma placa de 2.350 a.C., em escrita cuneiforme, que descreve as reformas empreendidas pelo rei Urukagina na cidade-estado de Lagash [...]. O documento relata a cobrança de impostos extorsivos e leis opressivas, exploração de funcionários corruptos e confisco de bens para o rei.
Além da não existência precisa da questão tributária, inexiste a precisão quanto aos perdões tributários concedidos, estes, sendo conhecidos como imunidades tributárias. Acredita-se, no entanto, que tal benesse tenha surgido muito antes da consolidação do Estado como ente de força maior, tendo sua estrutura e poderes definidos. É nas palavras de Debora Harumi (2015, online) que se pode começar a traçar tal perfil histórico:
As Imunidades Tributárias surgiram antes mesmo de existir a estrutura do Estado, tal como hoje o conhecemos, pois já havia a cobrança de forma benéfica de valores de toda a sociedade por parte da classe dirigente desde o Império Romano. Passando
pela Idade Média, com privilégio do clero e dos nobres que ficavam afastados da cobrança, inclusive no âmbito fiscal, do poder do soberano.
Impende salientar, portanto, que dentro deste apanhado histórico se observa o nascimento não de um direito adquirido, mas sim, de um privilégio alcançado a determinadas classes/castas sociais quais eram tidas como conditio sine qua non ao funcionamento de determinadas sociedades, confundindo-se, inclusive, com a presença e atuação do Estado. Desta banda, mostra Fernando Pereira Lucena dos Santos Junior (2011, online) que tal benesse era alcançada:
Primeiro aos nobres, depois aos clérigos, as castas ditas superiores foram se eximindo do pagamento de tributos restando para os pobres tal sofrível incumbência. Assim foi com os escravos, os derrotados em guerras, os vassalos feudais, até que, pouco a pouco, com o surgimento e consolidação do liberalismo, houve uma verdadeira democratização das imunidades.
Tendo como base todo o conglomerado histórico já mencionado, não cabe aqui precisar a data inicial da tributação e das imunidades que dela advém. Cumpre dizer, apenas, o que se pode de fato observar neste curto apanhado histórico: a cidadania como um todo, no seu aspecto histórico, desenvolveu-se por meio de perdões concedidos àquelas instituições (sejam religiosas ou demais castas superiores) quais poderiam cumprir e/ou suprir o papel do Estado para a população, quase que sendo confundida com o próprio Estado.
1.2 A imunidade de templos na história do Brasil
Ao fazer um traçado histórico, observa-se a constante presença de uma relação religião-estado no Brasil. Desde a colonização em 1500 e com o advento da catequização à qual foram submetidos os nativos o Brasil tem laços estreitos com a concessão de benesses aos templos, sendo que em troca, estes apresentavam espécies de projetos para a população, como educação, saúde e até abrigo. Ou seja, na falta do Estado, era a igreja que se fazia presente, gerando deste modo uma obrigação moral da nação para com os templos no que tange a imunidade de tributos.
Inclusive, neste diapasão de reciprocidade de favores entre estado-igreja, Eduardo Sabbag (2016, p. 344) ensina que “No plano de Direito Comparado, insta registar que os
países tendem a proteger e a estimular a fé dos cidadãos, afastando a tributação das igrejas e, de modo reflexo, incentivando sua proliferação”.
Uma curiosidade acerca desse liame histórico é que, desde o período da catequização até a proclamação da República, o Brasil tinha uma religião oficial, e era o catolicismo. Inclusive, muito embora as pessoas pudessem ter a sua religião de escolha, era vedado culto ou a prática pública desta, podendo o custo ser apenas doméstico ou particular. Neste sentido, a constituição de 1824 trazia em seu bojo, mas especificamente no art. 5º que: “A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do Templo”.
Ao que se analisa a história, é de importância ressaltar que o marco inicial da constitucionalização da benesse da imunidade ocorre justamente com a Constituição da Santíssima Trindade de 1824, em que pese no art. 179:
Art. 179. A inviolabilidade dos Direitos Civis, e Políticos dos Cidadãos Brazileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual, e a propriedade, é garantida pela Constituição do Imperio, pela maneira seguinte.
[...]
XXXI. A Constituição tambem garante os soccorros publicos. XXXII. A Instrucção primaria, e gratuita a todos os Cidadãos.
Por derradeiro, quando se faz a interpretação plausível da fração da legislação supracitada, além da importância e da ligação religião/estado, percebe-se que a primeira não tem fins lucrativos, modelando assim o princípio da capacidade contributiva (inexistência desta), não suportando, portanto, a carga tributária imposta aos outros entes contribuintes.
Ainda, neste ínterim histórico, cumpre dizer que notoriamente houve uma evolução acerca da linha de raciocínio a nível social entre a constituição de 1824 e a subsequente. Isto é dizer que na Carta Magna de 1891, já contemplava o direito individual ao culto, permitindo a livre reunião de pessoas para a realização deste, direito este que era cerceado na constituição anterior. O art. 72, §3º dispunha que: “Todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer livremente o seu culto, associando-se para esse fim e adquirindo bens, observadas as disposições do direito comum”.
Entrementes, as constituições subsequentes que anteveem a hodierna, nada alteraram no escopo da imunidade tributária concedida aos templos de qualquer culto. Apenas com a redação da Constituição Federal de 1988 que a imunidade concedida ganhou autonomia no rol das imunidades. É o art. 150, VI, b, que dispõe acerca da norma imunizante, pautando que: “Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: instituir impostos sobre templos de qualquer culto”.
1.3 Distinções entre imunidade e isenção no direito tributário
Muito se discute acerca da distinção entre imunidade e isenção tributária. Os termos quase que se confundem quando o assunto é tratado com maior superficialidade, no entanto, o objetivo da presente sessão textual é tornar cristalino o entendimento da diferença de ambas.
Observe que a imunidade tributária tem força constitucional, pois o instituto dela está atribuído à Constituição Federal, porquanto, a isenção está representada por uma norma tributária. Sabbag (2016, p. 299) nos revela que:
Enquanto a norma imunizante revela uma dispensa constitucional de tributo, a regra isentiva indica uma dispensa legal, no campo da tributação.
Daí se afirmar que, no campo do tributo, a imunidade é uma forma de não incidência constitucionalmente qualificada, enquanto a isenção é uma possibilidade normativa de dispensa legalmente qualificada.
Neste diapasão, cumpre demonstrar o posicionamento do STF no que diz respeito ao tema ora suscitado. O STF corrobora a ideia de que na isenção é inibido tão somente o lançamento do tributo, pois se faz presente o fato gerador, criando uma relação jurídico-obrigacional.
Contudo, quando o tema é imunidade, não deve ser observada uma relação jurídico-tributária, pois como já fora exposto, não se trata de natureza infraconstitucional. O obstáculo legal para a prestação dos tributos é de ordem constitucional, no que diz respeito à incidência de tributos sobre determinados fatos, situações ou pessoas.
Ainda, desta banda, leciona Luciano Amaro (1991, p. 152) que “A diferença entre a imunidade e a isenção está em que a primeira atua no plano da definição da competência, e a segunda opera no plano do exercício da competência”.
Ademais, cumpre observar como os dois institutos podem se confundir inclusive no que dispõe a Constituição Federal de 1988, onde por duas vezes é utilizada a palavra “isenção”, criando uma impressão errada do que realmente quer a Carta Magna expor, devendo o texto ser corrigido para a palavra “imunidade”, vez que trata-se claramente da aplicação desta segunda via. São os artigos:
Art. 195: A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais:
[...]
§7º: São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei (grifo do autor).
Art. 184: Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei.
[...]
§5º: São isentas de impostos federais, estaduais e municipais as operações de transferência de imóveis desapropriados para fins de reforma agrária (grifo do autor).
E neste interim, segue Sabbag (2016, p. 301):
É comum a aproximação dos comandos desonerativos atrelados à imunidade e à isenção, porém não se confundem, na medida em que sinalizam o dessemelhante intento de exoneração tributária, quer seja do legislador constituinte, quer seja do legislador ordinário.
Impende salientar, finalmente, que a problemática envolvendo isenção e imunidade carece cuidado no momento de seu manejo, pois se tratam de dois institutos de fácil confusão até mesmo para alguns operadores jurídicos, como é possível notar o equívoco do legislador ao redigir o texto da carta magna quando utiliza a palavra “isenção” ao invés de “imunidade”. Carece, portanto, de uma abordagem mais incisiva quanto ao conceito e classificações das imunidades tributárias, tema a ser abordado no próximo item, a fim de expor com maior clareza e deixar menos turva a ideia do que realmente é imunidade e quais os tipos existentes.
1.4 Do conceito e das classificações de imunidade tributária
Sintetizando o objeto do tema, pode ser observado que a maioria das normas imunizadoras estão elencadas na Constituição Federal. Sabbag (2016, p. 295) que “Decorre dos sublimes princípios e garantias constitucionais, que, dotados de expressiva carga axiológica, são vocacionados a limitar o poder de tributar”.
O fenômeno da imunidade tributária contempla a exclusão do fato gerador, não em razão da sua inexistência, mas porque a Constituição cerceia a obrigação principal do fato gerador. Ela ocorre quando a Constituição, no momento em que realiza a repartição de competência, concede privilégios a certos objetos do campo da obrigação de tributar, tais como bens, pessoas, patrimônios ou serviços.
Paulo de Barros Carvalho (2004, p. 172) ensina que “A imunidade não exclui nem suprime competências tributárias, uma vez que estas representam o resultado de uma conjunção de normas constitucionais, entre elas, as de imunidade tributária”.
Observa-se, portanto, que a Constituição colocou a responsabilidade ao legislador ordinário quanto à possibilidade de ele definir o alcance das normas jurídicas que criam o tributo, vez que na Carta Magna está disciplinado o exercício das competências tributárias.
Neste diapasão, conceitua Amílcar de Araújo Falcão (2002, p. 64) que a imunidade:
É uma forma qualificada ou especial de não incidência, por supressão, na Constituição, da competência impositiva ou do poder de tributar, quando se configuram certos pressupostos, situações ou circunstâncias previstas pelo estatuto supremo.
Busca-se ainda o entendimento do doutrinador Sabbag (2016, p. 298) que conceitua a imunidade como sendo:
A norma constitucional de desoneração tributária, que, justificada no conjunto de caros valores proclamados na Carta Magna, inibe negativamente a atribuição de competência impositiva e credita ao beneficiário o direito público subjetivo de “não incomodação” perante o ente tributante.
Veja que apesar das variadas definições do conceito real do que é imunidade tributária, não é possível chegar a um conceito pleno do fenômeno. Entretanto, é notório que todas elas rumam para o mesmo lado: à supressão e o perdão de caráter impositivo adotado pela Constituição àqueles que ela julga isentos da obrigatoriedade de tributar.
No que diz respeito à sua natureza, a imunidade tributária pode ser vista sobre dois prismas, seja ele formal ou substancial. Corrobora isso, o fato de que por um lado ela se apresenta como norma constitucional demarcatória, a qual visa provocar a intributabilidade e, por outro, se observa a figura do direito público subjetivo das pessoas que são favorecidas por ela, direta ou indiretamente.
Regina Helena Costa (2016, p. 104) leciona sobre os dois aspectos citados:
Sob o prisma formal a imunidade, em nosso entender, excepciona o princípio da generalidade da tributação, segundo o qual todos aqueles que realizam a mesma situação de fato, a qual a lei atrela o dever de pagar tributo, estão a ele obrigados, sem distinção. Assim, sob esse aspecto, a imunidade é a impossibilidade de tributação – ou intributabilidade – de pessoas, bens e situações, resultante da vontade constitucional.
Sob o aspecto material ou substancial, por sua vez, a imunidade consiste no direito público subjetivo, de certas pessoas, de não se sujeitarem à tributação, nos termos delimitados por essa norma constitucional exonerativa.
Resta cristalina, portanto, a definição do que é imunidade tributária, sendo esta inconfundível com a isenção como já demonstrado. Para esclarecimento final, Costa (2016, p. 105) afirma que:
A imunidade tributária, então, pode ser definida como a exoneração, fixada constitucionalmente, traduzida em norma expressa impeditiva da atribuição de competência tributária ou extraível, necessariamente, de um ou mais princípios constitucionais, que confere direito público subjetivo a certas pessoas, nos termos por ela delimitados, de não se sujeitarem à tributação.
No que alcança a classificação das imunidades tributárias, pode-se classificá-las de diversas formas e maneiras, cada uma com sua peculiaridade e características. Assim, primeiramente pode ser feita uma análise da Carta Magna, sobretudo no art. 150, IV, alíneas a e e. É o que consta:
Também podendo ser classificadas segundo a ordem doutrinária como: Quanto aos valores constitucionais protegidos ou quanto ao grau de intensidade e amplitude.
Neste sentido, pode-se verificar que as imunidades estão diretamente ligadas à Constituição, contemplando o seu alcance, amplitude e intensidade do grau protecionista para com os alvos protegidos. Desta banda, é possível vislumbrar as imunidades de ordem gerais ou as de ordem especiais.
Quanto às imunidades gerais Costa (2016, p. 105) ensina que:
As imunidades gerais ou genéricas, contempladas no art. 150, VI, dirigem vedações a todas as pessoas políticas e abrangem todo e qualquer imposto que recaia sobre o patrimônio, a renda ou os serviços das entidades mencionadas – daí a denominação de recebem. Protegem ou promovem valores constitucionais básicos, têm como diretriz hermenêutica a salvaguarda da liberdade religiosa, política, de informação etc. São dotadas de intensa carga axiológica [...].
E corrobora os dizeres de Costa o disposto na Carta Magna:
Art. 150 – Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
[...]
VI – instituir imposto sobre:
a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; b) templos de qualquer culto;
c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei;
d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão;
e) fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil contendo obras musicais ou literomusicais de autores brasileiros e/ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros bem como os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham, salvo na etapa de replicação industrial de mídias ópticas de leitura a laser.
De outra banda, as imunidades tópicas, também conhecidas como específicas, representam valores um tanto quanto mais limitados e não dizem respeito ao alcance geral da norma, podendo tratar das pessoas políticas. É exemplo de imunidade tópica o IPI das operações com produtos industrializados que tem destino ao exterior, para o que dispõe o art. 153, §3º, III, CF/88:
Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre [...]
§3º. O imposto previsto no inciso IV: [...]
III – não incidirá sobre produtos industrializados destinados ao exterior.
Neste diapasão, Costa (2016, p. 105) ensina que:
As imunidades específicas, tópicas ou especiais, por sua vez, são circunscritas, em geral restritas a um único tributo – que pode ser um imposto, taxa ou contribuição -, e servem a valores mais limitados ou conveniências especiais [...] É o caso, por exemplo, da imunidade ao IPI das operações com produtos industrializados destinados ao exterior.
A doutrina costuma classificar as imunidades para melhor estudá-las. Assim, na modalidade “quanto a forma de previsão ou modo de sua incidência”, as imunidades se dividem em objetivas e subjetivas, aceitando e recebendo outorgas conforme o seu papel socialmente relevante. Cumpre utilidade, tal classificação, quanto à determinação da extensão dos efeitos da exoneração constitucional.
Costa (2016, p. 106) leciona que “As imunidades subjetivas ou pessoais são aquelas outorgadas em razão da condição de determinadas pessoas; recaem sobre sujeitos. [...] é, assim, atributo da personalidade jurídica de certos entes”.
Ou seja, aqui vale o que está disposto no art. 150, §§2º e 4º da Constituição Federal, observando certa familiaridade com os elementos objetivos (como patrimônio, renda, dentre outros). Contudo, embora objetivos, tais elementos aparecem tão somente como norte à subjetividade considerada. Ainda, sobre imunidade subjetiva, cumpre dizer que as pessoas de direito que estão a ela vinculadas, segundo Costa (2016, p. 106), “não possuem capacidade tributária para figurar no polo passivo de relações obrigacionais tributárias concernentes a imposições fiscais abrangidas pela vedação”.
No que tange à questão objetiva, estas estão ligadas às coisas, ao mundo dos fatos, ao mundo “palpável” por assim dizer. Tal imunidade aparece no bojo do art. 15, VI, d, da Constituição Federal, por exemplo, quando trata da imunidade instituída sobre livros, jornais e periódicos, bem como sobre o papel destinado à sua impressão. Leciona Costa (2016, p. 106) que “As imunidades objetivas ou reais, por seu turno, são aquelas que recaem sobre coisas. É certo que também beneficiam pessoas, mas não são outorgadas em razão delas”.
Outrossim, cumpre ainda dizer sobre a possibilidade de aparição de uma terceira subclassificação neste quesito, qual seja, a imunidade mista. A imunidade desta natureza está associada – como é possível imaginar – à mistura das duas imunidades supracitadas, ou seja, ela faz uma conexão entre a razão da natureza jurídica de certas pessoas e ainda está relacionada a determinados fatos, bens ou situações. À luz disso, é o que dispõe o art. 150, VI, §4º, CF/88, que dispõe acerca da exoneração sobre o Imposto Territorial Rural (ITR), como ensina Costa (2016, p. 106):
A imunidade mista, determinada em razão da natureza jurídica de certas pessoas e relacionadas a determinados fatos, bens ou situações. [...] Interessante observar que a imunidade subjetiva é mais ampla que a imunidade objetiva, pois envolve quaisquer impostos que poderiam, em tese, ser exigidos de determinado sujeito.
Há ainda as imunidades ontológicas e as imunidades políticas, que são ainda designações oriundas das imunidades subjetivas (que são muito mais amplas que as objetivas, conforme supramencionado), estando assim dispostas por serem ou não consequências necessárias de um princípio. Tais imunidades têm, como princípio norteador, o princípio da isonomia, em suas variadas manifestações, podendo ser sob a égide do princípio da capacidade contributiva ou mesmo em razão do princípio da autonomia das pessoas políticas, sendo a isonomia quem impõe a identificação da natureza ontológica.
A doutrinadora cuida ao tratar da imunidade ontológica, pois ao não possuir capacidade contributiva, considera como sendo a de imunidade recíproca das pessoas políticas. Ainda, cumpre dizer que em razão dos princípios edificadores desta, a exoneração tributária se torna uma consequência necessária, e, à esta, é indiferente que sua previsão seja suprimida do texto constitucional. Acerca disto, Costa (2016, p. 107) leciona:
A imunidade ontológica por excelência é a imunidade recíproca das pessoas políticas, visto não possuírem capacidade contributiva, pois seus recursos destinam-se ao custeio da prestação dos destinam-serviços públicos que lhes incumbem. Também, cuidando-se de um Estado Federal, tal imunidade é decorrência lógica dessa mesma igualdade, agora voltada às pessoas políticas.
As imunidades políticas, por sua vez, prestigiam princípios constitucionais e inexiste nelas a consequência necessária de um princípio, alcançando benefícios àquelas pessoas com poder contributivo. Aqui, por exemplo, está inserido o escopo da presente pesquisa, uma vez
que a imunidade dos templos de qualquer culto faz parte desta espécie de imunidade. Assim, Costa (2016, p. 107) afirma que:
Podem ser retiradas do Texto Fundamental – tão somente mediante o exercício do Poder Constituinte Originário –, não podendo ser conhecidas ante a ausência de preceito expresso que as acolha – o que equivale a dizer que a competência tributária pode voltar a ser exercida nessas situações.
A imunidade tributária sempre esteve presente na história da sociedade, mesmo que sendo compreendida com outros nomes, e de modo geral serviu para conceder regalias a determinadas instituições de diferentes espécies, sendo religiosas ou não. Hodiernamente, é contemplada de modo fiel junto à Constituição Federal de 1988, sendo objeto de estudo e debate constante entre os legisladores no que diz respeito a real necessidade da sua existência e/ou de como fazer para que a sua aplicabilidade se dê num modo mais harmonioso.
Por assim dizer, é necessário absorver uma gama de conhecimento irrestrita e desapegada tão somente do viés jurídico, olhando mais a fundo questões antropológicas e históricas, questões quais são formadoras da sociedade como ela é hoje. Portanto, agora, voltam-se os olhos ao estudo da liberdade religiosa e de que modo isso interfere na formação do estado de direito pátrio, trazendo à baila a relação Imunidade x Constituição, o impacto econômico (fato social concreto) suportado pela receita tributária e algumas críticas ao modelo de imunidade tributária que existe contemporaneamente.
2 IMUNIDADE TRIBUTÁRIA DOS TEMPLOS RELIGIOSOS
O tema abordado está em voga na sociedade contemporânea e é amplamente debatido, sobretudo por duas frentes: os conservadores (aqueles que são pró-imunidade) e por uma frente mais libertária, que defende o direito ao livre exercício e prática/culto da religião de cada um – mas que critica o modelo vigente, vez que é alcançado um privilégio exacerbado e desnecessário aos templos de todos os cultos.
Abre-se espaço para uma análise com foco voltado à contemporaneidade, fazendo um traçado que vai desde a liberdade religiosa existente, passando diretamente por apontamentos e estudos da Constituição Federal hodierna e, por fim, analisando o impacto no setor tributário em razão da norma imunizante, bem como as críticas ao modelo de imunidade proposto atualmente.
Não há, portanto, a busca incessante em um fim concreto e específico, mas sim, a procura e o combustível necessário para uma ampliação do conhecimento e fomento do debate acerca de um instituto já defasado e que divide opiniões mesmo nos dias atuais.
2.1 Liberdade religiosa
A liberdade religiosa sempre foi tema de muita discussão e nem sempre foi tema pacífico no Brasil (como já estudado no capítulo anterior), inclusive sendo a religião Católica, até não muito tempo atrás, considerada a religião oficial da pátria. Neste apanhado histórico, pode-se evidenciar considerada evolução quando comparada a Constituição Federal de 1988 em relação às mais antigas, bem como os costumes, interesses e crenças da população hodierna quando comparada ao século passado.
Corrobora o supracitado o comparativo entre os censos do IBGE dos anos 2000 e 2010, em %:
Nota: os dados sobre Umbanda e Candomblé, por consistirem em 0,3% em ambos censos, não demonstrando alteração, foram classificados como “Outras crenças” apenas para fins didáticos.
Do gráfico é possível observar uma maior secularização na cultura brasileira. Inclusive com uma diminuição do Catolicismo e eventual ascensão da religião Evangélica, onde segundo o demógrafo José Eustáquio Diniz Alvez (O Globo, 01/07/2012):
A dinâmica das filiações religiosas no Brasil entre 2000-2010 afirma que mantendo-se o ritmo atual, até 2030 os católicos mantendo-serão menos de 50% da população e até 2040 católicos e evangélicos vão empatar na preferência dos brasileiros com uma mínima vantagem evangélica de 42% sobre 40% para os católicos.
Muito embora a religião oficial brasileira um dia fora reconhecidamente católica, sabe-se que o Brasil é fruto de uma enorme miscigenação cultural, agregando na nação diversas crenças e não crenças. Assim, tem-se que se vive em uma nação que goza do pluralismo religioso, onde Estado e religião (templos) ficam equidistantes, formando assim, “um dos pilares do liberalismo e do estado de Direito” (TORRES apud SABBAG, 2016, p. 345).
Neste interim, importante compreender que a liberdade religiosa está diretamente atrelada a um modelo democrático de direito, onde os cidadãos gozam de direitos individuais e têm, na figura da Constituição Federal, o escudo contra a tirania religiosa. De modo a conceituar, “A liberdade religiosa significa que o cidadão poderá professar a fé, no culto e
templo que lhe aprouverem, ou, ainda, não devotar preces a nenhuma religião, em livre escolha” (TORRES apud SABBAG, 2016, p. 346).
Portanto, importa analisar a Constituição Federal no bojo do art. 1º em seus incisos III e V, no que se refere a dignidade da pessoa humana bem como ao pluralismo político:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...]
III – a dignidade da pessoa humana; [...]
V – o pluralismo político.
No que tange ao inciso III, separa-se inicialmente os termos “pessoa humana” e “dignidade”, para uma melhor compreensão e, a posteriori, a união dos dois conceitos para uma melhor compreensão do inciso. Assim, é possível observar na filosofia de Emmanuel Kant que o homem (pessoa humana, ser racional) não pode ser tratado como um meio, mas sim como um fim em si, tendo valor existencial absoluto, sendo que este representa a sua própria existência. Deste modo, Emmanuel Kant (1992, p. 106) afirma que “[...] o homem não é uma coisa, não é, por consequência, um objeto que possa ser tratado simplesmente como meio, mas deve em todas as suas ações ser sempre considerado como um fim em si”.
Superada a questão da pessoa humana, dignidade consiste no fato da honradez, é uma qualidade cujo valor não é quantificado, pois não o tem e, neste diapasão, Kant (apud VICTOR SANTOS QUEIROZ, 2005) afirma que:
No reino dos fins, tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem preço, pode ser substituída por algo equivalente; por outro lado, a coisa que se acha acima de todo preço, e por isso não admite qualquer equivalência, compreende uma dignidade. (...) o que se faz condição para alguma coisa que seja fim em si mesma, isso não tem simplesmente valor relativo ou preço, mas um valor interno, e isso quer dizer, dignidade. Ora, a moralidade é a única condição que pode fazer de um ser racional um fim em si mesmos, pois só por ela lhe é possível ser membro legislador do reino dos fins. Por isso, a moralidade e a humanidade enquanto capaz de moralidade são as únicas coisas providas de dignidade.
Por qual razão, pode-se concluir que a dignidade da pessoa humana se concentra na essência de cada um, na razão de ser um fim em si. Está ligada a um emaranhado de direitos, princípios, valores atinentes a cada cidadão, a cada ser humano, devendo estes serem
respeitados tanto pela sociedade em geral quanto pelo Estado, garantindo assim uma nação de bem-estar social.
O que implica diretamente na questão da liberdade religiosa, pois como é possível observar, é dever do Estado garantir a dignidade de todos os cidadãos a ele tutelados, incluindo, per si, a liberdade ao culto que melhor entender a pessoa em questão.
E é deste entendimento que vem a ligação com o disposto no inciso V que trata do pluralismo político. Aqui, cuida-se para que não haja confusão de seu significado com o “pluripartidarismo” (este que é a diversidade de partidos políticos). O pluralismo político trata da existência da liberdade de ideias, ideais, crenças e quaisquer outras coisas, desde que nos termos da lei. Portanto, traz consigo o fato de que “o indivíduo tem a máxima possibilidade de participar na formação das deliberações que lhe dizem respeito” (NORBERTO BOBBIO, 1999, p. 16).
É neste sentido da livre expressão que Gilmar Ferreira Mendes (2012, p. 361) traz a importância dos logradouros públicos, estes que “não são, por natureza, locais de culto, mas a manifestação religiosa pode ocorrer ali, protegida pelo direito de reunião, com as limitações respectivas”. Ou seja, a população em geral é livre para cultuar suas crenças em locais públicos com a condição de não ultrapassar os limites do razoável que são delimitados na lei.
Nota-se, portanto, que o conceito de liberdade religiosa está para além de uma compreensão rasa e demagoga, muito embora o conceito, per si, é pautado no fato de que todos são livres para professar a sua fé em Deus(es), qualquer que seja. É, nas palavras do ministro e doutrinador Mendes (2012, p. 365):
A liberdade religiosa consiste na liberdade para professar fé em Deus. Por isso, não cabe arguir a liberdade religiosa pra impedir a demonstração de fé de outrem ou em certos lugares, ainda que públicos. O Estado, que não professa o ateísmo, pode conviver com símbolos os quais não somente correspondem a valores que informam a sua história cultural, como remetem a bens encarecido por parcela expressiva a sua população – por isso, também, não é dado proibir a exibição de crucifixos ou de imagens sagradas em lugares públicos.
Muito embora seja tema controverso, no supracitado, o ministro cuida de tratar dos símbolos (crucifixos) expostos em repartições públicas, símbolos esses que outrora
constituíam, além do valor cultural, um peso constitucional de força de lei pela qual garantia o Brasil como sendo oficialmente católico.
Portanto, neste tocante, corrobora André Puccinelli Júnior (2012, p. 223) que “a liberdade religiosa não materializa um direito absoluto e, portanto, não deve ser convertida num véu para encobrir atividades ilícitas”. É neste sentido que o STF em sua RTJ 51 em razão do RMS 16.857/MG, na palavra do Min. Relator. Eloy da Rocha, já em 1969, trouxe que: “Mandado de Segurança deferido em parte, para assegurar, exclusivamente, o exercício do culto religioso, enquanto não contrariar a ordem pública e os bons costumes”. Ainda neste sentido, porém mais contemporizado o STJ por meio da RT 699/376 afirmou que: “[...] a questão das pregações e curas religiosas deve ser analisada de forma a não obstaculizar a liberdade religiosa garantida constitucionalmente, nem tampouco acobertar práticas ilícitas”.
Por derradeiro, apesar de algumas controvérsias de ordem pública (como o uso de crucifixos e o preâmbulo constitucional), é fato concreto que a miscigenação cultural é pilar formador da sociedade brasileira. As evoluções – se comparar às Constituições antecessoras – foram muitas, daí que se falar em liberdade religiosa, haja vista que atualmente a sociedade é livre para professar e cultuar qualquer que seja a sua crença religiosa.
2.2 Imunidade religiosa e a Constituição Federal de 1988
A imunidade religiosa está presente na Constituição Federal forte no art. 150, VI, b, e é classificada como sendo uma imunidade genérica. Neste sentido, dispõe o referido dispositivo que:
Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
[...]
VI – instituir impostos sobre: [...]
b) templos de qualquer culto.
Na seara das imunidades de templos, pode-se destacar três correntes teóricas existentes, sendo elas: a) Teoria restritiva (Templo-coisa); b) Teoria
Clássico-liberal (Templo-atividade); c) Teoria Moderna (Templo-entidade), sendo esta última a que interessa, vez que é a aplicada na realidade constitucional do Brasil.
É caracterizada como sendo a teoria mais aceita em razão da amplitude com que é trabalhada, desprendendo-se das acepções restritiva – que caracteriza o templo como local do culto – e liberal – onde o conceito de templo é tudo que viabiliza o culto, direta ou indiretamente. Em um olhar mais receptivo, a Teoria Moderna indica um “estado de ser, a existência, vista em si mesma” (SABBAG, 2016, p. 349), ou seja, retomando as filosofias Kantianas, é falar que tal qual a dignidade da pessoa humana, o homem é um fim em si mesmo, a igreja/templo/entidade é, tal qual. Completa Sabbag (2016, p. 350):
[...] a concepção moderna tem-se mostrado a mais adequada à satisfação da problemática que circunda a tributação dos templos religiosos que, em virtude do dinamismo que tem orientado a atividade, com questões jurídicas as mais variadas possíveis, requerem do exegeta um certo desprendimento das estruturas formais, a fim de atingir a ratio legis e propor a justiça fiscal aos casos concretos.
Compreende-se que imunidade é semelhante a exclusão e, conforme já mencionado, é concedida “por razões de privilégio, ou considerações de interesse geral (neutralidade religiosa [...]) e excluem o poder de tributar” (JOSÉ AFONSO DA SILVA, 2013, p. 719), ou seja, é falar que mesmo com a incidência e existência do tributo, o seu pagamento é dispensado por força constitucional. Nesta seara, a imunidade religiosa abriga tanto uma questão de privilégio – uma vez que imunidade per si, é vista como tal – bem como abarca o interesse geral – este em razão de toda a conotação histórica na qual o país está inserido.
Contextualizando, tudo aquilo que for comprovadamente utilizado com o fim religioso em si não será alvo de tributo. É dizer que não é só o templo que é imune, mas sim, toda a entidade religiosa, o que abriga por debaixo de sua capa impostos de bens móveis, como veículos automotores (IPVA), desde que comprovadamente seja vinculado como atividade essencial, bem como o aluguel de imóveis (IPTU) – valendo-se do mesmo pretexto. A respeito disso, cuida Mendes (2012, p. 1528):
Quanto à extensão, a imunidade prevista no art. 150, VI, b, CF, abrange não apenas os prédios destinados ao culto, também, o patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as finalidades essenciais das entidades nela mencionadas.
O §4º do art. 150 da CF cuidou de compreender a norma imunizante, trazendo em seu texto que “As vedações expressas no inciso VI, alíneas ‘b’ e ‘c’, compreendem somente o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com as finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas”. Impende salientar, portanto, que além da vedação imposta aos supracitados, fica exonerado, o templo, de contribuir tributariamente em razão de ITCD, ITIV (ITBI), IR, ISS e quaisquer outros impostos, conforme Sabbag (2016, p. 351):
À guisa de exemplificação, levando-se em conta os signos “patrimônio”, “renda”, e “serviços”, fácil perceber que não deve haver a incidência dos seguintes impostos sobre o templo: IPTU sobre o prédio utilizado para o culto, ou sobre o convento; IPVA sobre o veículo do religioso utilizado no trabalho eclesiástico, ou sobre o chamado templo-móvel; ITBI sobre a aquisição de prédio destinado ao templo; IR sobre as doações, dízimos ou espórtulas dos fiéis, ou sobre as rendas oriundas de aplicações financeiras do templo; ISS sobre o serviço religioso (batismo e conversões); etc.
Por maior que seja o alcance do §4º, estes devem estar em conformidade com a atividade-fim da entidade – o legislador é cauteloso ao utilizar “entidade ‘por se referir a rendas e serviços’, e, como é sabido, o templo, em si, não os possui [...]” (SABBAG, 2016, p. 352) – uma vez que a exoneração será conhecida em razão de comprovada finalidade essencial do templo. É neste sentido o que leciona Costa (2001, p. 159):
Se os recursos obtidos com tais atividades são vertidos ao implemento das finalidades essenciais do templo parece difícil sustentar o não reconhecimento da exoneração tributária, já que existe relação entre a renda obtida e seus objetivos institucionais, como quer a norma contida no §4º do art. 150.
Não obstante, Sabbag (2016, p. 353) traz à tona decisão do juízo a quo de São Paulo, na figura do magistrado Luiz Sergio Fernandes de Souza em relação a um pedido de aplicabilidade da norma imunizante em razão de 96 imóveis localizados em uma mesma cidade. São as palavras do magistrado:
[...] mesmo que se admita o emprego da metonímia (utilização do sinal, templo, no lugar da coisa significada, religião, pregação, difusão do evangelho, etc.), há de se ter em conta a atividade-fim da corporação religiosa e não a atividade-meio, como são os diversos negócios mobiliários e imobiliários, ou mesmo o patrimônio não consagrado, imediatamente, à finalidade religiosa. [...] É claro que, para cumprir seus objetivos religiosos, a Igreja depende de meios. Não importa quais sejam (investimentos no mercado de capitais, concessão de rádio e televisão, investimento em imóveis, indústria, comércio etc.), certo é que, em relação a estes, não se aplica a imunidade constitucional.
É de suma importância a decisão do magistrado, pois exsurge o fato de que não são absolutamente todas as atividades que são vinculadas à norma, mas sim, as essenciais. Complementa Costa (2016, p. 111) que “Finalidades essenciais dos templos de qualquer culto, portanto, são o culto, a formação de religiosos, o exercício de atividades filantrópicas e a assistência moral e espiritual aos fiéis”.
Ainda no tocante ao §4º, é possível fazer a caracterização de uma imunidade relacionada, uma vez que os bens de aproveitamento indireto estão a ela relacionados (como um prédio alugado a terceiros), pois “se há um imóvel, de propriedade de entidade assistencial, locado a terceiras pessoas, com os aluguéis sendo usados como fonte de custeio para cumprir as finalidades essenciais, não se tem este bem como vinculadamente imune, mas relacionadamente imune” (SABBAG, 2016, p. 353).
É possível observar, portanto, a presença de dois requisitos elementares em razão da abrangência desonerativa que traz a Teoria Moderna, isso porque na “concepção do templo-entidade, a referida expressão – relacionados com as finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas” – Sabbag (2016, p. 353) coloca tais interpretações.
O primeiro requisito elementar versa sobre o reinvestimento, como já descrito, é resultar na atividade-fim da entidade religiosa. O valor arrecadado em determinada atividade deve ser “em prol de uma correspondência fática, que utiliza a destinação dos recursos como fator determinante” (SABBAG, 2016, p. 354). Pode, portanto, haver ajuda criativa para o levantamento dos recursos necessários à manutenção do exercício do culto e das assistências pela entidade prestada. É exemplo disso “renda de alugueres de prédio locado, de propriedade do templo, aplicada nos objetivos institucionais da Igreja; renda da comercialização de objetos sacros vertida para os propósitos religiosos etc.” (SABBAG, 2016, p. 354).
Por sua vez, o segundo requisito traz como escopo a “inexistência de prejuízo a livre concorrência, vedando-se o cunho empresarial na atividade econômica desempenhada” (SABBAG, 2016, p. 354), isso porque, diante da não concordância material no que se refere o citado, a entidade religiosa não estaria realizando a sua atividade-fim, valendo-se assim da inocência dos fiéis para haver para si um lucro de caráter exploratório, ofendendo diretamente o princípio da isonomia tributária.
Conclui-se, portanto, que a imunidade tributária concedida aos templos de qualquer culto (leia-se: entidades religiosas) no que toca a Constituição Federal, está para além de uma análise simplória, carregando consigo diferentes analogias e teorias para chegar a um fim específico. Importa saber, portanto, que somente haverá aplicabilidade da norma imunizante em razão da atividade-fim do templo, não sendo permitido desvio de função da verba arguida.
2.3 O impacto da imunidade religiosa na receita tributária
Deveras importante traçar uma estimativa de prejuízo causado a receita tributária em razão da imunidade tributária alcançada aos templos de qualquer culto, uma vez que é fato que diante da incidência de tal benesse, sempre haverá a falta de arrecadação. Entretanto, é de difícil acesso os dados de arrecadação de cada templo, uma vez que, via de regra, são mantidos em sigilo pela Receita Federal, abrindo cancela para que possa ser trabalhado não com a exatidão total que o tema carece, mas sim, com uma estimativa necessária e aproximada da realidade. Não obstante, é de conhecimento geral o clamor por uma reforma tributária no sistema vigente.
O valor em arrecadação nas entidades beira o inimaginável. Somente em 2011, as igrejas arrecadaram o montante de R$ 20,6 bilhões “valor superior ao orçamento de 15 dos 24 ministérios da esplanada. [...] Equivale a metade do orçamento da cidade de São Paulo” (FOLHA DE SÃO PAULO, 2013). Os dados foram colhidos pela Folha junto à Receita Federal através da Lei de Acesso à Informação.
Estima-se ainda, que no Brasil inteiro, deixa-se de arrecadar algo na casa dos R$ 10 bilhões só em contribuições pela qual são protegidas as entidades sem fins lucrativos, isto no ano de 2013 (FOLHA DE SÃO PAULO, 2013) que cita: “Essa isenção (sic) passa pela Constituição de 1988, que proíbe cobrar impostos de igrejas, entidades sindicais e ONGs voltadas à assistência social e à educação”.
Não obstante, no ano de 2016 mais um dado levantado pela Folha de São Paulo mostra que, diante da suposta arrecadação dos tributos em IPTU, só na cidade de São Paulo, é alcançado um perdão no valor de R$ 90 milhões, segundo o próprio Município de São Paulo. Neste diapasão, observa ainda que “a igreja mais beneficiada pelo não pagamento de tributos é a Católica. [...] ela tem 730 imóveis cadastrados como templos na cidade – renderiam R$ 17 milhões ao ano em IPTU” (FOLHA DE SÃO PAULO, 2016).
Diante dos dados obtidos e, fazendo uma estatística de estimativa sobre esses valores, é possível dizer que em razão dos R$ 10 bilhões de reais que não são alvos de tributação, aproximadamente R$ 1,5 bilhões de reais seriam tributos provenientes dos templos religiosos.
Para melhor ilustrar o valor e a percentagem acima exposta, é necessário elucidar que se trata de um cálculo estimativo, onde se leva em conta a população total da cidade de São Paulo em razão da população do Brasil. Se, na cidade de São Paulo, o impacto econômico para aproximadamente 12 milhões de pessoas gira na casa dos R$ 90 milhões de reais, em um país com aproximadamente 209 milhões de habitantes, o impacto final fica na casa dos R$ 1,5 bilhões, como mostra o comparativo a seguir:
Insta salientar que para a análise do gráfico supra, uma vez que é trabalhado, fora utilizada como base de cálculo as alíquotas de tributos de São Paulo de modo geral a fim de nivelamento estatístico, uma vez que em algumas regiões estaria para mais e outras para menos.
Diante disso, restam dúvidas apenas quanto à “legalidade moral” com a qual os templos de qualquer culto têm o privilégio da norma imunizante, uma vez que inseridos dentro do texto constitucional são imunes sob a égide legal. Em contrapartida, é cristalino o impacto gerado na receita tributária nacional, impacto este que, conforme demonstrado, cresce exponencialmente sem a menor previsão de até onde pode chegar.
2.4 Críticas ao modelo de imunidade tributária vigente
É necessário o esboço de críticas ao sistema de imunidade tributária vigente no Brasil contemporaneamente. Vê-se um modelo ultrapassado e falido no que diz respeito às diferenças e respeito a um Estado de Direito que se diz laico – muito embora no preâmbulo da Carta Magna conste “sob a proteção de Deus”.
Muito embora haja tal discrepância, a laicidade do Estado é contemplada no do art. 19 da CF/88 que pauta a relação que existe entre Estado e Religião, de modo que o primeiro não possa ser influenciado e tampouco exercer influência sobre o segundo, primando assim por uma equidistância entre as duas instituições onde “mantendo total independência em relação aos dogmas religiosos, tende a rechaçar, ao menos teoricamente, a ingerência direta de qualquer organização religiosa nos assuntos de Estado” (SABBAG, 2016, p. 345).
Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – Estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;
II – Recusar fé aos documentos públicos;
III – Criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.
A começar daí, a ingerência referida pelo doutrinador, de fato se fortalece tão somente dentro do aspecto teórico, bem como o mesmo elucida. É nítida a atuação de organizações religiosas dentro do lugar que deveria respeitar os dizeres da Constituição Federal, onde
descaradamente se intitulam como a “Bancada Evangélica” dentro da Câmara dos Deputados, defendendo preceitos religiosos com total parcialidade e debochando do preceito fundamental do estado-laico pautado na Carta Magna.
O crescimento do número de entidades religiosas é massivo, sendo de conhecimento geral a constante realização de negócios fraudulentos por parte das igrejas e de seus líderes, sendo rotineira a exploração escancarada de fé por falsos profetas em razão de pessoas hipossuficientes, onde constroem impérios de dinheiro em seus templos através destes. Avalia a situação Kyoshi Harada (2001, p. 293) ao dizer que:
Os atos de mercancia, praticados por algumas seitas, ainda que disfarçadamente, e que contribuem para erguer rios e montanhas de dinheiro com a inocência de seus fiéis, não podem continuar à margem da tributação, sob pena de ofensa ao princípio da isonomia tributária.
Ainda, apesar do debate ser técnico e moralmente complexo, a intributabilidade das religiões passa a ser questionada no campo ético quando se vislumbram algumas questões, quais sejam, segundo Sabbag (2016, p. 363):
a) À riqueza dos templos diante da falta de recursos dos fiéis.
b) À existência de milhares de brasileiros que não professam qualquer religião e que, de forma indireta, custeiam as atividades dos cultos, em face da desoneração de impostos a estes afeta e do princípio da generalidade da tributação que a todos atrela. c) À conduta discriminatória de muitos cultos religiosos, colocando em xeque a isonomia preconizada no texto constitucional (v.g., condenação do homossexualismo) e a política de saúde pública (e.g., boicote ao uso de preservativos e à doação de órgãos).
d) À falta de controle sobre a arrecadação de recursos, facilitando a evasão de divisas e outros ilícitos.
Soma-se a isso a riqueza, não somente dos templos, mas dos líderes religiosos que extrapolam o censo do ridículo e de modo completamente imoral (muito embora esteja sob a égide legal), literalmente constroem fortalezas de dinheiro às custas da fé. Neste diapasão, a Forbes cuidou de citar os 5 líderes mais ricos do Brasil, conforme consta no periódico da Infomoney (2013, online), conforme gráfico reproduzido.
O patrimônio de Edir Macedo é tão gritante que supera a estimativa da – em havendo – arrecadação nacional com tributos oriundos das Igrejas, conforme demonstra o gráfico a seguir:
Nesta discussão acerca da desoneração da imunidade em razão das entidades religiosas, uma vez que, muito embora exista a liberdade religiosa, o Estado é neutro quanto a identificação com qualquer religião, conforme dispõe o art. 19, I, CF. Não obstante, à luz da suposta laicidade em que estamos inseridos, imperioso ressaltar a diferença do tratamento para com as entidades, gerando um não cumprimento do Estado com a própria palavra.
Deste modo, abre passagem para uma análise no que toca a alínea c do inciso VI do art. 150 da Constituição Federal concomitante ao que alcança no art. 14 do CTN, que pauta determinados requisitos para a chancela da imunidade pretendida. Trata-se de uma imunidade