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Do sintoma aos fenômenos de grupo

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Academic year: 2021

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GABRIELA DALLA VECCHIA

DO SINTOMA AOS FENÔMENOS DE GRUPO

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UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

DHE - DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA

DO SINTOMA AOS FENÔMENOS DE GRUPO

ACADÊMICA: GABRIELA DALLA VECCHIA

ORIENTADOR: NILSON HEIDEMANN

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial para a obtenção do título de Psicólogo.

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AGRADECIMENTOS

Ao final desta etapa agradeço, primeiramente, ao meu professor, supervisor e orientador Nilson Heidemann, pela grande paciência, suporte e comprometimento. Meu eterno obrigada, principalmente, por compartilhar comigo um pouco do seu saber e na forma como o transmitiu.

Meus sinceros agradecimentos a vocês que acreditaram em mim, minha família e amigos. Obrigada pela compreensão dos momentos em que me fiz ausente para tornar este sonho possível. Agradeço, principalmente, o grande suporte e apoio neste momento tão importante de minha formação.

Agradeço também ao professor Daniel Ruwer pelas grandes contribuições que complementaram no meu trabalho de pesquisa.

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RESUMO

O presente trabalho de pesquisa pretende, a partir do entendimento da constituição psíquica do sujeito, abordar os sintomas e os fenômenos de grupo. Ao ser inserido na cultura pela função paterna, os sujeitos estão destinados ao mal-estar que nela está imposto, considera-se então, que a civilização é a grande causadora dos sintomas sociais. A delinquência é um dos exemplos para se pensar no sintoma social, nela, o adolescente vem denunciar a fragilidade da imagem e da autoridade da função paterna, que está em declínio pelas condições de valor que a sociedade atual coloca aos objetos de consumo. Os sintomas, tanto individuais quanto sociais, vêm manifestar uma verdade disso que está imposto, sendo assim, fazer-se-a uma relação com o filme “A Onda”, que possibilita na sua história, trabalhar as questões que serão fundamentadas nesta pesquisa.

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ABSTRACT

This research work aims, based on the understanding of the psychic constitution of the subject, approaching the symptoms and the group phenomenon. When inserted in the culture by the paternal function, the subjects are destined to uneasiness that it is imposed, it is considered then that civilization is the major cause of social symptoms. Delinquency is a case for thinking in social symptom, on it, the teenager comes denounce the fragility of image and authority of the paternal function, which is declining value of the conditions that modern society puts to consumer objects. The Symptoms, both individual and social, come to manifest a truth that is imposed, therefore, a connection will be made with the film "The Wave" which provides in its own history, work through the questions that will be based on this research.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...7

1. SINTOMA: DA CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA À CIVILIZAÇÃO...9

2. QUE FEITOS SÃO ESSES? DA CONSTITUIÇÃO DOS GRUPOS AOS SEUS FENÊMENOS E SINTOMAS 2.1 A Constituição dos Grupos...26

2.2 “N’A Onda” do Grupo...31

2.3 Fenômenos e Sintomas de Grupo...37

CONSIDERAÇÕES FINAIS...46

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho de pesquisa propõe desenvolver a temática dos sintomas e fenômenos de grupo e as condições para a sua formação e seus movimentos a partir da constituição da estrutura do sujeito psíquico.

A escolha do tema fora a partir das vivências experienciadas nos estágios, tanto como um espaço de formação quanto de instituição. Sempre que nestes locais nos foram dadas possibilidades de escutar e trabalhar com o sujeito, muitas questões atravessavam meus pensamentos a respeito da psicologia individual e da psicologia social.

Ao passo que, se pensarmos no meio social, pensamos nos sujeitos e suas singularidades que com ele ali habitam, contudo, se pensarmos no ser individual, sobrepõe-se que, desde crianças, estamos destinados a fazer parte do social. Sendo assim, a psicologia individual é, indubitavelmente, a psicologia social e das massas.

Para o sujeito poder habitar esse meio externo, algumas condições lhe são impostas. Quem vai então conduzi-las e apresentá-las, primeiramente, ao sujeito, é a função paterna, neste, fica o encargo da privação da relação mãe-bebê, a interdição do incesto, onde, a civilização vai encarregar-se de mantê-las sob controle para o sujeito poder nela se relacionar com seus semelhantes.

Entretanto, essas proibições são a causa da infelicidade humana, estar na cultura é estar mal, porque nela o sujeito não pode satisfazer suas pulsões. A civilização se organiza frente ao discurso dominante de uma determinada época, onde antes, a sociedade era tradicional, transmitia seus valores e crenças sem que a autoridade do pai fosse questionada, atualmente, a sociedade moderna responde mais ao objeto de consumo do que ao pai, sendo assim, pode-se dizer que há uma fragilidade de sua autoridade e de sua imagem.

Ao nos depararmos com o discurso dominante atual, muitas questões se apresentam e se colocam frente a organização da vida dos sujeitos e da própria cultura. Como é o caso dos sintomas sociais e dos grupos. Os sintomas, sejam eles advindos da singularidade do sujeito, sejam eles do meio social, sempre vão

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enunciar uma verdade do mal-estar que está posto. O mal-estar produz efeitos de tal forma que acarreta em novos movimentos e fenômenos que vêm anunciá-los.

Posto isso, o trabalho de pesquisa tem por objetivo a reflexão aos estudos, onde no primeiro capítulo, será abordado sobre a constituição psíquica do sujeito, a passagem da natureza humana à civilização, a civilização e o mal-estar e, como um derivado deste mal-estar, o sintoma social. Já no que diz respeito ao segundo capítulo, serão abordadas questões referentes aos sintomas de grupo e os fenômenos grupais, a partir de uma reflexão sobre o filme “A Onda” e as relações possíveis sobre o que for trabalhado no decorrer desta pesquisa.

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CAPÍTULO 1 – SINTOMA: DA CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA À CIVILIZAÇÃO

O conceito de sintoma, como sendo parte da constituição psíquica do sujeito, é postulado por Freud baseado nos seus estudos sobre as neuroses e, principalmente, da escuta analítica do sujeito em sua essencial subjetividade. Para a psicanálise, essa subjetividade se constitui a partir da relação com o grande Outro1, pois, inicialmente quando nasce, a criança nada mais é que um

“um pedaço de carne”, é preciso que haja um desejo investido nela para que esta se constitua como sujeito desejante.

A família sempre teve papel fundamental na formação da estrutura psíquica do sujeito, sendo assim, o primeiro grupo do qual a criança vai fazer parte é o do núcleo familiar, pois é neste que lhe serão investidas as possibilidades de inserção no meio social e externo para além do corpo materno. Segundo Uziel (2002), “tradicionalmente a família tem como função proporcionar um primeiro contato com as regras sócias, inculcar hábitos, produzir e reproduzir padrões culturais para os indivíduos, enfim, ser um agente socializador”. (p. 13). Segundo Freud (2011), a psicologia individual é também a psicologia social ou das massas pois, na vida psíquica do sujeito individual ele raramente pode abstrair-se de suas relações particulares com a de outros indivíduos, “o Outro é via de regra considerado enquanto modelo, objeto, auxiliador e adversário, e portanto a psicologia individual é também, desde o início, psicologia social”. (p. 14). É a partir disso que o sujeito vai se inserir no meio social, pela via do discurso do Outro, da mesma forma como quando nasce e se estabelece um grupo, sendo assim, o individual é social.

Entretanto, para que essas possibilidades de inserção no meio social emerjam, é preciso que haja investimentos sobre o sujeito, pois, primeiramente, quando a criança nasce, ela se encontra desamparada, fragmentada, sem amarragem do corpo e sem linguagem, numa completa condição de dependência, precisando que alguém supra suas necessidades para a sua sobrevivência. Nas palavras de Ramalho (1989):

1 A palavra “Outro” quando escrito com letra maiúscula refere-se ao lugar situado como

significante daquele que vai dar lugar ao sujeito constituindo-o como sujeito desejante. (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 558).

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O bebê começa a existir bem antes de ser concebido como significante, na linguagem, quando é falado. Por exemplo: no desejo dos pais em terem um filho, na escolha do nome, etc. O seu corpo (da ordem do Real) é, o receptáculo do discurso dos pais, é o lugar de inscrição. A sua expressão corporal encontra-se assujeitada ao Outro a quem o gesto é dado a ver, assujeitada a seu olhar, assim como a palavra ao ouvido do auditor, e engajada no mesmo semblante e na mesma busca de ser compreendido, notado, amado. (p. 68).

Quando os pais (função materna e paterna) convocam e investem na criança, ela passa a ser o desejo do desejo destes, ou seja, o objeto de desejo do Outro. No momento em que usa-se os termos pai e mãe refere-se as funções, pois é um lugar que pode ser ocupado por qualquer pessoa que esteja vinculada a criança, que deseje esta, exercendo a função de cuidados físicos e emocionais, isto é, um amparo de sustentação. A constituição psíquica, a inserção no campo da linguagem e o desejo da criança, dependem destes Outros. Ou seja:

Nesse estado, o bebê expressa a necessidade de encontrar um objeto de amparo por meio de uma busca frenética de uma luz, voz, cheiro ou algum objeto sensual que prenda sua atenção e que ele vivencie como algo que una as diversas partes de seu corpo. (CAMAROTTI, 2000, p. 53).

O corpo da criança está primordialmente no discurso e no desejo do Outro, esse Outro primordial, a priori, é a função materna. Lacan (1998) denomina esse período como identificação, onde ocorre na criança uma identificação do próprio corpo e a abertura da sua estruturação do Eu que se efetua através do estágio do espelho. No primeiro momento desse estágio a criança, quando colocada frente ao espelho, não consegue ver que a imagem que está ali é sua, ela vê-se junto com o Outro, assujeitada (alienada) ao desejo do Outro. Já no segundo momento a criança percebe que o reflexo no espelho é uma imagem. E finalmente, no terceiro tempo, a criança se reconhece no espelho, a imagem que reflete é sua; há, pela primeira vez, apreensão total da

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própria imagem separada do Outro. É um reconhecimento imaginário que anuncia o início da formação do Eu.

O funcionamento psíquico do sujeito estrutura-se a partir de três registros que se articulam (entrelaçam), denominados Real, Simbólico e Imaginário. O primeiro registro no campo do Imaginário se dá pela experiência do estágio do espelho. Toda a imagem, objeto ou coisa que é captada através do olhar é inserida e registrada estruturando a dimensão do Imaginário.

O registro Simbólico é o campo da linguagem, dos signos e das significações que determinam o sujeito. Assim como o Imaginário, o Simbólico também provém do Outro primordial, sendo necessário que este Outro vá amarrando o corpo da criança à linguagem e ao Simbólico. Essa linguagem é antecipada pelo Outro, a criança está em seu discurso e em seu desejo antes mesmo de nascer. Para que a criança saia da posição de assujeitamento, Freud (1996) busca na cultura grega elementos fundamentais para a construção da sua teoria, o que chamou de Complexo de Édipo, que derivou do herói grego Édipo, que sem saber matou seu pai e casou-se com sua mãe – desejo incestuoso pela mãe e uma rivalidade com o pai.

O que organiza o Simbólico é o Complexo de Édipo. Segundo Freud (1996), ele é formado por três tempos: no primeiro tempo, a criança ocupa o lugar de falo2 da mãe em posição de assujeitamento ao desejo do Outro; já no

segundo tempo a mãe introduz o pai no seu discurso, que intervém efetivamente como privador dessa relação mãe-bebê – castra a criança e interdita a mãe privando-a de seu objeto fálico. A função paterna é um operador simbólico, ou seja, pode ser qualquer pessoa ou coisa onde a função materna invista o seu desejo. Assim, a questão de ser ou não ser o falo da mãe se coloca frente a criança que, no final desse segundo tempo, ela é “forçada” pela função paterna, a aceitar que não é o falo e nem o tem. O pai se afirma em sua presença privadora e suporte da instauração da Lei, que tira a criança dessa posição de objeto.

2 Segundo Lacan (1988), o falo é um significante que tornaria o sujeito completo; é o significante

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Já no terceiro tempo a criança faz a simbolização da Lei; a função paterna deixa traços na criança, pois separou a função materno-bebê, possibilitando que o mesmo possa se relacionar com o meio externo e não somente com o corpo da mãe. Sendo assim, produz-se uma falta nessa completude da relação mãe-bebê abrindo uma borda pulsional na criança. O discurso paterno, é a possibilidade de outras possibilidades, é o operador do Simbólico, pois tira o sujeito da condição de objeto interditando o incesto, tornando-o sujeito faltante e, portanto, desejante e inserindo-o no campo da cultura, no meio social.

A função paterna atua como separador do desejo materno barrando a criança desse campo da completude e da satisfação plena, implantando-a no campo da falta dando um novo destino à pulsão – o desejo – viabilizando a construção de uma relação com o mundo externo inserindo-a na linguagem simbólica. Nas palavras de Ribeiro (2006), “é daí que se outorga o privilégio da figura paterna, a qual constitui o núcleo do complexo de Édipo a partir da função de apresentar ao sujeito um lugar Outro”. (p.117).

Quando a criança sai dessa conflitiva edípica, ela recalca o desejo de ser objeto do desejo da mãe e a rivalidade fálica com o pai. A metáfora paterna é quem sustenta o Nome-do-Pai, ou seja, a Lei. O Nome-do-Pai é um significante3

que substitui o objeto fálico (desejo) da mãe, para que a criança, agora castrada desse desejo incestuoso, surja como um sujeito barrado produzindo significantes que tornam esse “pedaço de carne” alguém desejante e que, aquilo que fica marcado no corpo pela linguagem é recalcado pelo significante para que ela exista em seu próprio corpo. Ao deslocar a pulsão, o sujeito entra no campo da falta e do desejo – da significação – fazendo com que haja uma amarragem organizadora do saber e do mundo.

Se o sujeito não for resignado a esse processo de castração simbólica, o mesmo não entra no campo do desejo e da linguagem, não havendo falta nem significação, colocando-o numa imensa fragilidade psíquica onde seu destino pode ser patológico. Quando a Lei, a função paterna não se inscreve é a forclusão do significante Nome-do-Pai. Quando algo assim ocorre, a criança fica

3 O Significante tem por função representar o significado, ou seja, “o significante tem que

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presa a uma estrutura na qual fica ligada a demanda imaginária do Outro, mantendo-se objeto de gozo4 do Outro. Segundo Lacan (1999):

A lei da mãe [...] é uma lei não controlada. [...] A criança se esboça como assujeito. Trata-se de um assujeito porque, a princípio, ela se experimenta e se sente como profundamente assujeitada ao capricho daquele de quem depende, mesmo que esse capricho, seja um capricho articulado. (p. 195).

Aquilo que não se inscreve no Simbólico vem de fora como Real, isto é, o que resta do confronto com a linguagem que fica fora do Simbólico, resultando numa desordem entre as dimensões do Real, Simbólico e Imaginário. Dessa forma o sujeito, possivelmente, fica preso a uma estrutura psíquica no campo da psicose, onde este vai operar pelos referenciais do Real e do Imaginário, com uma cadeia Simbólica sem amarragem de um lugar central e organizador do saber e do mundo – há falta de um significante/saber central que organize e determine a relação com a linguagem, todos os significantes se equivalem, não havendo um mais importante, por isso a errância. Segundo Calligaris (1989), o que acaba sustentando e estabilizando o psicótico é uma metáfora de delírio que dá suplência à metáfora paterna que falhou, possibilitando uma significação subjetiva, “um delírio é isso: o trabalho de constituir uma metáfora paterna, então uma filiação e a sua relativa significação, lidando com uma função paterna não simbolizada, mas sim no Real”. (p. 22).

O campo do Real é um conceito que produz uma significação diferente que perpassa ao que denomina-se realidade. Para que essa realidade possa existir para os sujeitos precisa-se dos três campos denominados anteriormente como Real, Simbólico e Imaginário. O Real se basta a si mesmo, é o registro daquilo que não é nomeável e escapa da simbolização – escapa da subjetividade

4O gozo se constitui a partir da falta que o Outro produz no sujeito (gozo do Outro), visto que, a

criança constitui-se sujeito e só tem consciência de si a partir deste Outro. Quando busca-se simbolizar esta falta e essa simbolização falha/falta, comparece o gozo, ou seja, “esse movimento, ligado à busca da coisa perdida que falta no lugar do Outro, é causa de sofrimento; mas tal sofrimento nunca erradica por completo a busca do gozo”. (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 300).

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humana – não passa pelo campo da palavra. Quando a criança nasce ela só tem o Real do seu corpo, ela precisa do Outro e dos seus tesouros de significantes para se constituir como sujeito.

A fórmula lacaniana referindo-se que o Outro é tomado como tesouro de significantes, que de um significante representa o sujeito para outro significante, ficam restos deste Outro no sujeito para a constituição da sua subjetividade. Esse resto, para Lacan (2005) é o que define a impossibilidade do Real, é a partir do momento em que vivencia-se a angústia de castração, quando a criança é retirada do campo de objeto de desejo do Outro primordial pelo significante Nome-do-Pai, algo é perdido e sobram restos dessa relação, o que o autor denominou como o objeto a. Este a é o que fica no lugar do Outro para a criança, é o que anuncia a falta e, portanto, o desejo. O objeto a, é o objeto perdido, a falta e o preço que se paga para constituir-se como sujeito da linguagem.

Para explicar essa impossibilidade de atingir o Real, Lopes (2011) aponta que Lacan (2005) busca nos números um significado para o objeto a, ele “diz que o mesmo é como o conjunto dos números Reais, um conjunto no qual entre o número 0 e o número 1 se coloca uma infinidade de possibilidades, inalcançáveis, inatingíveis, portanto, o que se coloca é da ordem do impossível”. (LOPES, 2011, p. 4). Esta falta de algo que não se consegue mais atingir instalada no sujeito, vai movimentá-lo para uma busca eterna fadada ao fracasso, ao procurar esse objeto a, para tentar dar conta desse significante primordial, deparar-se-á com o que já foi perdido, não se pode mais alcançá-lo. Esse pedaço que se perde é para advir um sujeito desejante, assim, o objeto de desejo é, por natureza, o objeto perdido, que traz consigo um Real mascarado, recalcado. Recalcado pois, a Lei do significante Nome-do-Pai, separa o corpo da criança do da mãe e se recalca o desejo de “matar” quem o fez, entretanto, esse desejo urge justamente porque houve essa proibição. Como aponta Ramalho (1989):

Buracos, orifícios, lugares de entrada e saída, portam as marcas simbólicas que a função materna inscreve neles, desenhando, assim, o contorno do objeto que essencialmente permanecerá faltante,

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precisamente oferecendo seu lugar á interminável busca que se inaugura. (p.32).

Tanto o objeto a, quanto o desejo e a pulsão, estão a mercê do Outro. Essa pulsão é sempre parcial pois vai contornar o objeto que está no Outro e as marcas que este Outro deixou no corpo pela linguagem, tomadas como gozo e recalcadas pelo significante. A Lei do significante Nome-do-Pai possibilita recalcar também, todo esse processo de investimento no corpo da criança, toda essa erotização, visto que, está muito próxima do corpo materno. O processo civilizatório justamente se baseia na castração do desejo para a realização da convivência do meio externo para além do corpo materno. Portanto, o desejo da criança vai nascer e se apoiar no desejo desse Outro, permitindo um reconhecimento de sua existência, pois só existe um sujeito ali através do desejo deste Outro.

Para advir um mundo externo ao sujeito, é preciso que antes tenha recalque. Segundo Freud (1996), o inconsciente não se equivale ao conteúdo recalcado, todo o inconsciente não existe por sê-lo recalcado, entretanto, todo o recalque é inconsciente. Portanto, o recalque vai ser sempre parcial e não abrange tudo o que é inconsciente, ou seja, nunca é completo, sempre deixa restos. Estes restos é que vão dar espaços para a formação dos sintomas.

O recalque é uma transmissão não completada que impede algo do inconsciente chegar à consciência, mas que retorna nos sintomas. Sendo assim, o sintoma é uma forma de elaboração simbólica que vai substituir algo que foi recalcado. Mesmo quando os sintomas causam incômodos, eles causam algum tipo de satisfação, pois ele próprio é substituto da satisfação renunciada pelo recalque. O sintoma é uma representação, uma metáfora, que submete-se a deslocamentos e modificações, pois mesmo ele, passa pelo supereu, pela Lei, e acaba encontrando formas de satisfação sexual, entretanto, substitutivas de algo inconsciente.

Freud (1987) aponta em sua obra “Além do Princípio do Prazer” que, encontram-se forças que agem no funcionamento do aparelho psíquico do sujeito. Essas forças seriam pulsões, ao qual o autor denomina como pulsão de vida e pulsão de morte, uma impulsionando certa força de destruição e

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aniquilação da vida para abolir todo e qualquer tipo de tensão, e a outra, conservadora, impulsionando ao equilíbrio, a harmonia, tentando preservar a vida.

A partir dessas ideias do mesmo autor (1987), de que a vida tem por fim a morte, que antes do vivo quem primeiro aparece é o estado inorgânico, inanimado. Uma força externa carregada de tensões, que pode-se dizer que são os investimentos voltados a criança para que ali constitua-se um sujeito, atua no inanimado acarretando na existência da vida. Essas tensões que andam junto em consequência do surgimento do cunho da vida, do surgimento de um sujeito, provocam impulsos tentando voltar ao estado anterior, onde no inanimado não existia tensão, tentando assim, resgatar este antes.

Ao lado das pulsões de vida, atuam também as pulsões sexuais e as pulsões do Eu, e é por esta circunstância que o autor aponta que as pulsões são sempre dualistas, parciais, pelo fato de que há um esforço, uma luta constante para, pelo menos, manter o equilíbrio estável das tensões internas. Freud (1987) aponta que suas concepções “[...] desde o início, foram dualistas e são hoje ainda mais definidamente dualistas do que antes [...]”, pois agora, o autor (1987) descreve oposições não mais sobre “[...] instintos do ego e instintos sexuais, mas entre instintos de vida e instintos de morte [...]”. (p. 73). Estes impulsos movimentam o sujeito à repetição, de que a essência viva não tem por desejo mudar, mas sim o de repetir o mesmo percurso da vida a fim de alcançar o estado antigo anterior ao nascimento – o inanimado existiu antes do vivo.

Nas interpretações dos tratamentos, Freud (1987) acreditava que poderiam ser encontrados eixos, a fim de solucionar o sofrimento que o sintoma causava no sujeito, através da verdade do sintoma e sua simbolização, possibilitando que ele próprio fosse abolido. Entretanto, a verdade sobre o recalque não pode ser encontrada por completo.

Apesar de o sintoma trazer consigo uma verdade sobre o sujeito, ele não traz por completo uma tradução do recalcado à consciência, pois, segundo Silva Neto (2009), “[...] a clínica apresenta para Freud a impossibilidade da completa tradução do recalque, além da constatação de que o acesso a esta verdade só ocorre através dos derivados do recalcado”. (p. 10).

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O sintoma, então, como fazendo parte destes restos do recalque e as forças das pulsões, resistem, na maioria das vezes, ao tratamento, impossibilitando que o sofrimento psíquico e o sintoma, sejam suscetíveis de chegar a um fim. Freud (1987) aponta que:

[...] A psicanálise era então, primeiro e acima de tudo, uma arte interpretativa. [...] Contudo, tornou-se cada vez mais claro que o

objetivo que fora estabelecido – que o inconsciente deve tornar-se

consciente – não era completamente atingível através desse método. O paciente não pode recordar a totalidade do que nele se acha reprimido, e o que não lhe é possível recordar pode ser exatamente a parte essencial. (p. 31).

Ao encontrar essas dificuldades nos tratamentos de seus pacientes, o autor (1987) apresenta que certo sintoma deixa uma brecha, lacuna, suscetível de interpretação, e certo sintoma resiste ao tratamento analítico que, apesar de ser derivada de sofrimento, carrega consigo algum tipo de satisfação, pois ele próprio é substituição da satisfação renunciada.

Freud (1987) ressalta que, as pulsões se repetem para não serem esquecidas, ao passo que não se expressam pelo campo da palavra, as questões pulsionais se manifestam através de seus provenientes, como é o caso dos sintomas. Os elementos da pulsão de morte tanto não passam pela fala quanto escapam à dimensão da consciência e do inconsciente. Essas duas dimensões simplesmente respondem sobre os efeitos dessa pulsão. Para tornar-se recalque, é necessário que haja uma repetição, e é justamente essa compulsão a repetição, que torna a pulsão recalcada, “esquecida” – sendo assim, o recalque é uma parte da pulsão que procura torná-la inoperante, neutralizando-a e que não cansa de pressionar-se sobre a consciência.

É uma pulsão que age silenciosamente, nas entrelinhas, que vai se instalando através de seus derivados. Monzani (1989) aponta que “assim, a ideia de morte, sendo essencialmente negativa (não-vida, não-viver), não tem possibilidade de se inscrever no inconsciente. Nesse sentido, a pulsão de morte seria o irrepresentável por excelência”. (p. 244).

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A pulsão de morte e a sua relação com a compulsão à repetição, transferem-se ao recalcado atuando no sujeito tanto pela força constante da própria pulsão quanto pelo impulso dessa mesma pulsão em retornar ao estado anterior, ao inanimado. Segundo Freud (1987), “no caso do instinto destrutivo, podemos supor que seu objetivo final é levar o que é vivo a um estado inorgânico. Por essa razão, chamamo-lo também de instinto de morte”. (p. 174).

Freud (1987) ainda aponta que a pulsão, tanto aquela que impulsiona a vida quanto aquele que impulsiona a morte, é a mãe das atividades dos sujeitos. São elas que impulsionam a vida, mesmo que exista uma que impulsione ao estado anterior a ela. E assim se outorga, segundo Silva Neto (2009), a função das pulsões de vida e do Eu, “o trabalho de conservar-se vivo, defender-se dos perigos e descobrir a melhor forma de encontrar satisfação com um menor risco, tendo em consideração o mundo externo”. (p.47).

Sendo assim, o supereu aparece como o mediador dessa satisfação frente ao mundo externo. Ele é a herança do Complexo de Édipo – e, ao mesmo tempo, o responsável por recalcar este complexo –, a Lei, instância que acolhe as marcas deixadas pela castração, é a moral concedida pelos pais e também, pelo social, que tem função proibidora em “pôr limites à satisfação”. (SILVA NETO, 2009, p.47). A ação destruidora da pulsão de morte é, então, neutralizada por esse vivo que atua nos sujeitos.

Freud (1996) apresenta o sintoma como sendo "o verdadeiro substituto e derivativo do impulso reprimido [...] continuamente renova suas exigências de satisfação e assim, obriga o ego, por sua vez, a dar o sinal de desprazer e a colocar-se em uma posição de defesa". (p. 103). Portanto, o sintoma surge como uma das saídas que pretende (re) estabelecer o equilíbrio da vida, que teria sido quebrado pelo conflito psíquico.

O sintoma diz respeito a uma certa dimensão do desejo e a forma em que o sujeito encontrou para gozar de seu inconsciente. Há no sintoma o que não se consegue pôr em palavras, mas que de certa forma falam, manifestam-se. Ele envolve uma verdade velada do sujeito e está no lugar daquilo que não está sendo dito, é, portanto, uma representação, uma metáfora que substitui a verdade encoberta do conteúdo recalcado.

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A partir disso, o sintoma situa-se no campo do simbólico, para o sujeito tentar dar conta do seu lugar no mundo social. Mesmo que o sintoma detenha um saber que o sujeito se recusa em reconhecer – sua verdade – ele é, via de regra, a possibilidade que o sujeito encontrou para inserir-se e organizar-se frente ao laço social. Em outras palavras, o sintoma é encontrado no campo do simbólico para poder lidar com o Real, modulando as satisfações e o gozo, que estão em uma luta constante para apresentar-se ao sujeito, mas que, são negadas àqueles que inserir-se-ão na civilização.

Em “Totem e Tabu” (1996) Freud formulou a passagem da natureza humana à civilização onde, o autor traz o mito da horda primitiva para descrever esta passagem. A horda primitiva era constituída por um chefe incontestável, um pai onipotente, possuidor de todas as mulheres e do poder sobre os membros do grupo, sem restrições, ele detinha somente para si sexualidade e agressividade. Esse pai então fora assassinado e seu corpo devorado pelos filhos (membros do grupo) que estabeleceram um acordo para que nenhum deles tomasse o lugar do pai a fim de não obter o mesmo fim.

O desejo pelas mulheres foi o que acarretou no assassinato do pai, porém, os irmãos foram obrigados a renunciar o desejo de ocupar o lugar e gozar como esse pai, como aponta Silva (2007), “renunciar à onipotência e, sobretudo, cumprir uma lei fundamental: não tocarás nas mulheres da horda”. (p. 63). Assim surgindo, o início da castração, a proibição do incesto e a culpabilização, instaurando uma organização do mundo social que demarca a origem da civilização.

Segundo Enriquez (1983), a proibição do incesto além de ser indispensável para o “funcionamento da família, à aceitação da aliança e da filiação” para a constituição psíquica do sujeito, é também “a fronteira entre natureza e cultura”, e, portanto, organizadora social que transcende uma lei reguladora externa. (p. 35). Sendo assim, a civilização só foi possível e se mantém porque houve o parricídio pois, como aponta o autor (1983), ele:

É indispensável à criação da cultura: ele nos introduz no mundo da culpabilização, da renúncia (tanto à realização do desejo quanto ao seu inverso, ao desejo da realização), da instituição de uma função paterna

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na origem da humanidade da necessidade da referência de uma lei externa transcendente (impedindo a arma de guerra de ser o único

‘julgamento divino’) [...]. (ENRIQUEZ, 1983,p. 34).

As leis, proibições e restrições regulam a agressividade e a sexualidade, e são indispensáveis à cultura. São elas quem organizam a vida do sujeito frente ao núcleo familiar e social. As leis surgiram justamente porque, a princípio, existiu alguém que chegou ao ato de matar o pai e cedeu à tentação (o incesto), sendo assim, “a lei só proíbe o que os homens seriam capazes de fazer sob a pressão de alguns de seus instintos. Aquilo que a própria natureza proíbe e pune não tem necessidade de ser proibido e punido pela Lei”. (FRAZER apud ENRIQUEZ, 1983, p.44).

Ao passar do tempo primitivo – pai da horda não era representante da lei, pois ele tudo podia e de tudo gozava – ao mundo de relações sociais regidas por regras, direitos e leis, a referência paterna passa a ser a responsável por inserir o sujeito no campo da culpabilização e da renúncia, possibilitando o surgimento da cultura e da organização social. A referência paterna torna-se a instância que impede a satisfação da pulsão, concedendo assim, tanto no sujeito quanto no meio social, desejo, mas também, uma Lei reguladora deste.

Entretanto, Freud (1987) em “O mal-estar na civilização”, aponta que as questões conflituosas que estão entre as pulsões e o que está posto na cultura, são a razão primeira da infelicidade e causadora do mal-estar nos indivíduos. Para advir a civilização aos sujeitos, paga-se o preço da renúncia às satisfações pulsionais impostas pela própria cultura, que persiste em negar as satisfações das necessidades humanas da sexualidade e da agressividade.

A cultura é a principal condutora do mal-estar, estar na civilização é estar mal, no entanto, a constituição psíquica do sujeito só se dá a partir da relação com os outros, sendo assim, apesar de causar mal-estar, ela também tem função, ao que a psicanálise denomina sujeito da linguagem, do social. A civilização só é possível, justamente, a partir do laço social e não das satisfações pulsionais – do gozo.

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As possibilidades da felicidade plena em prol das satisfações que circundam o sujeito são coibidas pela cultura. Por conseguinte, Freud (1987) aponta que a infelicidade está mais próxima do sujeito, e é:

[...] muito menos difícil de experimentar. O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. (FREUD, 1987, p. 95).

Mesmo que seja no convívio com os outros homens a maior fonte de sofrimento na civilização, Freud (1987) aponta que, o melhor caminho ainda seria o de estar presente e ativo dentro da cultura, do que buscar a felicidade no isolamento e na quietude. O autor (1987) ainda ressalta que, “tornar-se membro da comunidade humana” é trabalhar “com todos para o bem de todos”. (p. 96).

Segundo Henriquez (1983), a civilização se coloca frente ao sujeito como a reguladora da agressividade e da sexualidade (das satisfações) – das pulsões – e, ao mesmo tempo, proporciona regras e satisfações substitutivas para o convívio da vida em grupo – renunciar as questões pulsionais para poder viver em grupo. Essas satisfações são substitutivas porque, a princípio, o homem renunciou a satisfação propriamente dita na morte (do mito) do pai da horda, que, a priori, foi o único a ter vivenciado essa satisfação primeira. Contudo, apesar de a civilização ser a possibilidade do convívio com os outros homens, ela é também, “em grande parte a responsável por nossa desgraça” (FREUD apud ENRIQUEZ, 1983, p. 100), pois a mesma é quem impõe ao sujeito com tanto grau a “renúncia à satisfação de nossas necessidades vitais”. (ENRIQUEZ, 1983, p. 100).

O supereu, neste momento, tanto é o herdeiro do Complexo de Édipo quanto é o herdeiro das questões pulsionais e inconscientes do sujeito, atuando diretamente no Eu como juiz repressor. Sendo assim, a função do supereu é alimentar a renúncia que ele próprio exige e reforçar as proibições impostas pela

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própria civilização. Em outras palavras, se o supereu não for constituído primeiramente pela família, o social encarregar-se-a de impô-lo ao sujeito, deixando como herança da civilização o mal-estar e suas proibições, um supereu cultural.

As leis então criadas para a vida cotidiana na civilização, os direitos que regem os indivíduos inseridos na cultura, acabam por invalidar a liberdade; “a liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização”. (FREUD apud ENRIQUEZ, 1983, p. 102). Sendo assim, a liberdade, segundo Enriquez (1983), só existe em dois casos: na afirmação de si mesmo e, ainda assim, “não pode ser considerada como liberdade verdadeira, por ser uma simples luta pela sobrevivência”; e, no outro caso, que seria aquele onde “a liberdade existe no movimento de revolta do indivíduo”. (p. 102). Neste último aspecto, onde a liberdade pode se manifestar, a fim de reivindicar as injustiças que os sujeitos (com ou sem razão) acreditam existirem, “apelam às massas para agirem contra” elas. (ENRIQUEZ, 1983, p. 102). A liberdade, principalmente aquela das satisfações pulsionais, só fora desfrutada pelo pai da horda; quanto mais renuncia-se as satisfações frente a civilização, mais aumenta o mal-estar.

Enriquez (1983) afirma que, apesar da evolução das ciências e o domínio dos homens sobre a natureza, “os homens não se tornaram mais felizes com o progresso”. (p. 101). Muito pelo contrário, esse progresso, o tão atual capitalismo, descobriu no sofrimento dos sujeitos uma forma de potencializar lucros. O sofrimento é então tamponado pelo imediatismo e variabilidade dos objetos ofertados pelo consumo.

Segundo Calligaris (1999), a sociedade moderna encontra seu valor no ter e aparecer, visto que, na sociedade tradicional, o valor estava no ser. A cultura tradicional toma como “natural” seus valores e costumes que já estão postos e não são passíveis de mudanças. A tradição é inquestionável, ou seja, o Nome-do-Pai é inquestionável, pois é este quem sustenta a tradição e a autoridade como referência da organização social.

No entanto, na sociedade moderna o Nome-do-Pai não representa mais o ordenador tanto da família quanto da sociedade, sua autoridade está em declínio. Visto que, o que está posto na modernidade é o imediatismo,

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acarretando que o presente é determinado por quaisquer que sejam as vivências, a transmissão da experiência fica pobre e a tradição perde seu valor. O que se coloca frente aos sujeitos, na sociedade moderna, é justamente o oposto da sociedade tradicional. Há uma constante variabilidade e fugacidade de objetos ditados pelo consumo.

O declínio da imagem do pai vai se efetivando a partir das mudanças ocorridas no passar dos tempos. Lacan (1987), chama esse declínio de “declínio social da imagem do pai”, o que antes era tido como experiência inquestionável na transmissão da cultura e de valores, poder absoluto e soberania, agora é tida como uma imagem fragilizada e questionável, tanto no âmbito social quanto na organização familiar. (p. 62). É justamente à vista disso que, com a imagem do pai em declínio, os sujeitos e o social precisaram encontrar formas de sustentar este pai desvalorizado, fragilizado, ou seja, encontraram novas formas de sintoma.

Sendo o referencial universal o consumismo, o Nome-do-Pai não é mais quem dá reconhecimento ao filho, mas sim, o objeto de consumo. O desejo agora passa a ser uma busca pela imagem frente aos outros, um exibicionismo do ter e do aparecer. Como aponta Freud (2011), “o objeto serve para substituir um ideal não alcançado do próprio Eu”. (p. 71). Anuncia-se assim, um dos maiores, se não o maior, causador dos sintomas sociais.

O sintoma só é social na medida em que esses sintomas articulam-se no discurso próprio de cada sujeito e acabam por encontrar uma forma de se inscreverem no discurso social dominante na época em qual se vive. Segundo Melman (1992), “é somente neste sentido que podemos falar de sintoma social. E se é um sintoma, é certamente porque este sintoma vem dizer uma verdade”, portanto, quando fala-se em sintoma social, é porque ali coloca-se uma verdade do mal-estar na civilização. (p. 66).

Um dos exemplos de sintoma social que predomina atualmente, e que cabe apontar aqui, é a delinquência. A delinquência, segundo Melman (1992), se caracteriza na relação com o objeto, não se detendo somente ao acesso, mas como esse vai ser obtido, sobrepondo-se aqui, a condição de o objeto ser raptado, tirando-o do outro, “introdução de uma falta no grande Outro”. (p. 48).

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O delinquente estima que alguma coisa no dever para com ele tenha falhado, faltado e “sua ação não faz senão responder a esta falta, esta omissão do Outro”. (MELMAN, 1992, p. 53). Fica evidente que, a delinquência corresponde em torno da castração. Por não saber a quem e o que culpar desta falha em relação a ele, ele questiona e atribui-os ao social. Como aponta Melman (1992), o que falta ao delinquente é um pai simbólico, privado de suas instâncias simbólicas, o pai, ou a lei, vai valer somente pela representação de seu “poder” pela via do real. Sem ser reconhecido em sua função propriamente dita, o pai vai ser encontrado e representado pelas vias “educativas, corretivas, policiais e judiciárias”. (p. 48).

De acordo com Melman (1992), “a relação do delinquente com seu objeto não é dual, mas se funda na anulação do terceiro paterno”, pois em sua ação o delinquente o coloca em posição de impotência, atestando-lhe que no seu agir ele nada pode. Suas ações são simbólicas de uma falta e esforços para afirmar-se enquanto sujeito, de “fazer-afirmar-se a si mesmo” fazer um nome, reconhecer-afirmar-se em: “sim, é alguém”. (p. 52).

Sendo assim, Melman (1992), ressalta que “a causa da delinquência” está “na falta de reconhecimento simbólico do Nome-do-Pai” e, as estruturas sociais se constituem, cada vez mais, pelo declínio da função paterna, “cada vez mais reais em lugar de simbólicas”. (p. 49). Ou seja, cada época vai organizar sua condição discursiva como uma forma de se referir ao pai e suas formas de gozar. Sobrepõe-se então, que o que vai sustentar simbolicamente o sujeito é sua relação com o objeto.

O laço social se organiza na internalização da Lei – função paterna – e essa Lei, esse pai, estão em declínio pelo fato de ser o objeto, agora, quem atribui reconhecimento ao sujeito. Segundo Calligaris (1999) “a modernidade segue um desejo que nenhum objeto satisfaz, um desejo de se afirmar, de ser reconhecido por seus atos”, ou seja, a busca pela satisfação nos objetos (de consumo), nunca cessará, ou ainda, não encontrará mais satisfação e assim, substituir a satisfação pela procura de reconhecimento. (p. 13). O lugar e, principalmente, a diferença social de cada sujeito “passa a ser decidido pelo reconhecimento que ele obtém dos outros, e os objetos de desejo passam a

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valer como meios para conseguir um lugar ao sol”, uma forma de se fazer valer, substituindo o ser pelo ter e aparecer. (CALLIRARIS, 1999, p. 14).

Posto isso, o que culmina sobre os sujeitos é a questão da diferença, e a sociedade agora vai estruturar-se, precisamente, pelas diferenças, pois o reconhecimento só é concedido ao indivíduo pela posse de objetos de consumo. Contudo, apesar das leis expressarem que os direitos são igualmente para todos (todos são iguais), pode-se dizer que, uns são mais iguais que os outros.

É justamente aqui que, pode-se apontar o surgimento dos grupos. Nos grupos há um apagamento dessas diferenças, pois tudo que é estranho à massa, é tido como perigoso. É imprescindível voltar ao ponto no qual, quando se fala em cultura, civilização, fala-se de relações sociais, de laço social. O sujeito só poderá constituir-se porque há esses outros, porque há social, ao passo que, só existe sujeito através do Outro e dos outros. Então, quando Freud (2011) afirma que, psicologia individual é também psicologia social, ele quer dizer que, indubitavelmente, o “pedaço de carne” torna-se sujeito porque, primordialmente, ele foi reconhecido pelo Outro.

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CAPÍTULO 2 - QUE EFEITOS SÃO ESSES? DA CONSTITUIÇÃO DOS GRUPOS AOS SEUS FENÊMENOS E SINTOMAS

2.1. A Constituição dos Grupos

A partir do que fora abordado no capítulo anterior, a questão que agora apresenta-se é: como e por que surgem os fenômenos e sintomas de grupos? E, qual sua relação com o líder?

Os grupos se constituem primeiramente pela questão da identificação, ou seja, todo e qualquer tipo de grupo fundam-se e organizam-se em prol de um objetivo em comum pela referência de um líder. Os grupos estruturam-se numa condição de alma coletiva, fazendo com que cada membro deste, aja, sinta e pense diferente da de quando os sujeitos são observados isoladamente.

As massas são poderosas influenciadoras à vida psíquica dos indivíduos. Freud (2011) então vai levantar a seguinte questão: “em que consiste a modificação psíquica que ela impõe ao indivíduo?” (p. 17). Para responder esta pergunta Freud percorre aos estudos de Le Bon e sua obra “La Psychologie des Foules”, que aponta aos fatos que “quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem” sejam os seus estilos de vida semelhantes ou não, “o simples fato de se terem transformado em massa os torna possuidores de uma espécie de alma coletiva”. Sendo, justamente, esta alma que os fazem “sentir, pensar e agir de uma forma bem diferente” da de quando estão sozinhos. (LE BON apud FREUD, 2011, p. 17).

Muitos pensamentos, ideias e ações precisam do processo grupal para se efetivarem. “Certas ideias, certos sentimentos aparecem ou se transformam em atos apenas nos indivíduos em massa”, sendo assim, o sujeito inserido na massa, passa a obter uma sensação de poder e coragem cedendo as pulsões, sendo que sozinho não alcança e as mantêm sob controle. (LE BON apud FREUD, 2011, p. 18). Nos fenômenos de grupo muitas questões até então recalcadas podem autorizar-se a vir à tona e acabam adquirindo forças – que não encontram no indivíduo só – havendo, muitas vezes, uma flexibilidade no campo do supereu. É na massa que as questões que são próprias do sujeito,

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desaparecem, “e com isso desaparece sua particularidade”. (FREUD, 2011, p. 19).

Freud (2011) apontou que, apesar de cada sujeito constituir-se de modo tão particular e diverso, nos grupos é como se essa subjetividade fosse desmontada e enfraquecida, dando forças para o inconsciente, comum a todos, vir à tona, tornando-se operante, produzindo assim, “um caráter mediano dos indivíduos da massa”. (p. 20). Ou seja, o sujeito da massa está suscetível a circunstâncias que acabam lhe permitindo liberar algumas de suas manifestações inconscientes, até então recalcadas, dos seus impulsos que são, justamente, “tudo de mau da alma humana”. (FREUD, 2011, p. 21).

A essência do supereu, da moral e das proibições, são resultados da civilização, no entanto, o sentimento de responsabilidade, a consciência, se desvanecem nos indivíduos da massa. Freud (2011) traz, nos estudos de Le Bon, três fatores que concernem estas questões: a primeira é que o sujeito inserido no grupo alcança um sentimento de poder invencível; o segundo fator seria o contágio mental que, no grupo, todo o sentimento, ato ou ação é contagioso a ponto de o sujeito sacrificar seus interesses pessoais em benefício aos interesses do grupo; já no terceiro aspecto, é a questão da sugestionabilidade, tornando o segundo fator apenas um efeito deste, que, tendo perdido suas vontades pessoais, “sua personalidade consciente”, ele acaba obedecendo “todas as sugestões do operador que o fez perdê-la”, cometendo atos que vão contra seu caráter e seus hábitos. (LE BON apud FREUD, 2011, p. 22).

O indivíduo, mergulhado há algum tempo no seio de uma massa ativa, logo cai [...] num estado particular, aproximando-se muito do estado de fascinação do hipnotizado nas mãos do hipnotizador [...]. A personalidade consciente se foi, a vontade e o discernimento sumiram. Sentimentos e pensamentos são então orientados no sentido determinado pelo hipnotizador. (LE BON, apud FREUD, 2011, p. 23).

Freud (2011) ainda aponta que, segundo Le Bon, as ações dos sujeitos não são mais conscientes. Enquanto certas questões subjetivas do próprio sujeito são anuladas, outras podem ser levadas a uma exaltação extrema no que

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diz respeito aos seus atos e pensamentos. As sugestões influenciam com uma força fascinante na realização de certos atos. Essa fascinação se torna ainda mais irresistível e ganha ainda mais força na massa, pois nelas, as sugestões manifestam-se exacerbadamente, em razão de existirem seus correspondentes, seus membros.

Sendo assim, nos grupos o que prevalece são os conteúdos inconscientes, enfraquecendo e, muitas vezes, apagando questões próprias da subjetividade consciente do sujeito. “Ele não é mais ele mesmo, mas um autômato cuja vontade se tornou impotente para guiá-lo”. (LE BON apud FREUD, 2011, p. 23).

Quando pertencente a um grupo, o sujeito acaba descendo vários níveis na escala da civilização, onde isolado poderia ser um sujeito culto e instruído; na massa é pertencente às pulsões e, consequentemente, torna-se “um bárbaro”. (LE BON apud FREUD, 2011, p. 24). Por conseguinte, os grupos são impulsivos, instáveis e excitáveis, guiados “quase exclusivamente pelo inconsciente”, tornando seus impulsos imprescindíveis, anulando todo e qualquer tipo de interesse pessoal. (FREUD, 2011, p. 25). Como aponta Freud (2011):

Os impulsos a que obedece podem ser, conforme as circunstâncias, nobres ou cruéis, heroicos ou covardes, mas, de todo modo, são tão imperiosos que nenhum interesse pessoal, nem mesmo o da autopreservação, se faz valer. Nada nela é premeditado. [...] É incapaz de uma vontade persistente. Não tolera qualquer demora entre o seu desejo e a realização dele. Tem o sentimento da onipotência; a noção do impossível desaparece para o indivíduo na massa. (FREUD, 2011, p. 25).

Segundo o mesmo autor (2011), os grupos são excepcionalmente influenciáveis, acreditam facilmente no seu líder sem qualquer tipo de crítica à ele, onde o improvável, a dúvida e a incerteza inexistem. Predisposta aos extremos, o líder não precisa medir seus argumentos, ao contrário, a massa é incentivada e “excitada apenas por estímulos desmedidos” e sem limites. (FREUD, 2011, p. 27). As influências do líder devem sempre ser repetidas com imagens e palavras fortes e exageradas, uma vez que, a massa acredita e clama

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por autoridade, exige de seu líder fortaleza, “até mesmo violência”, esperando “ser dominada e oprimida”. (FREUD, 2011, p. 27).

Os grupos são totalmente conservadores aos seus ideais e aos seus desejos, o progresso e as inovações provocam-lhes profunda repulsa. Porém, a tradição também não é seu forte e as transmissões de suas heranças e referências são limitadas. Contudo, segundo Freud (2011), pode-se falar de uma moralidade das massas, mesmo que as capacidades intelectuais da mesma estejam bem abaixo das dos sujeitos isolados, uma conduta ética e moral, um supereu, tanto pode ser em um nível bem inferior, quanto pode ser transcendente, em um nível mais elevado que a do indivíduo que a compõe.

Freud (2011) aponta que, as massas não almejam a verdade, pelo contrário, elas reivindicam ilusões das quais não podem recusar. Nelas o irreal tem vantagem sob o que é real e o não-verdadeiro influenciam-nas tanto quanto ao que é verdadeiro e, ainda, não fazem discernimento entre os dois. Essas ilusões exigidas nos grupos, são efeitos da vida psíquica do sujeito neurótico isolado, elas são sustentadas pelo processo da constituição, do desejo não realizado, de toda a renúncia das pulsões, fazendo valer a realidade psíquica e não a realidade objetiva comum.

A massa não se sustenta sem um líder porque antes de tudo, ela tem uma intensa sede pela “obediência, que instintivamente se submete a qualquer um que se apresente como seu senhor”. (FREUD, 2011, p. 30). Basta que este líder autorize-se de seus ideais, mostrando-se altamente fascinado por uma crença ou objetivo “para despertar crença na massa” e ainda, “possuir uma vontade forte, imponente, que a massa sem vontade vai aceitar”. (FREUD, 2011, p. 31).

Segundo Freud (2011), Le Bon aponta que esse líder adquire uma espécie de poder irresistível e misterioso que ele o denomina como “prestígio”. (p. 31). Esse prestígio seria o que justamente caracteriza o líder, é o domínio em que este exerce sobre seus seguidores anulando suas capacidades críticas, impondo espanto e, ao mesmo tempo, respeito. Quanto maior o poder do líder e quanto maior o número de seguidores, maior vai ser a força do contágio da sugestão. Como apontado anteriormente, as questões que tornam esses

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indivíduos membros de um grupo são seus objetivos e interesses em comum e a força do poder do líder.

Mas, para além desses fatos, Freud (2011) em seus estudos aos apontamentos levantados por McDougall, salienta que estas massas precisam de um mínimo de organização – e das questões dos ideais em comum – para se fazerem valer como tal, caso contrário, pode-se denomina-las como multidão. Em outras palavras, um aglomerado de pessoas não compõe um grupo por si só, a multidão precisa de “um esboço de organização” para tornar-se uma massa. (FREUD, 2011, p. 34). Nas palavras de Freud (2011) sobre seus estudos à McDougall, ele diz:

A condição para que se forme uma massa, a partir dos membros casualmente juntados de uma multidão, é que esses indivíduos tenham algo em comum, um interesse partilhado num objetivo, uma orientação afetiva semelhante em determinada situação e (eu acrescentaria: em consequência) um certo grau de capacidade de influenciar uns aos

outros. (FREUD, 2011, p. 34).

Segundo Freud (2011), quanto maior a intensidade dos ideais e objetivos em comum, maior é a possibilidade de fazer desses indivíduos uma massa, uma “alma coletiva”. (p. 35). Outro ponto levantado pelo autor (2011) é que, um dos maiores e mais importante fenômeno que a massa causa e desperta nos seus membros, é a questão do afeto e o aumento desse, pois, como descrito anteriormente, no processo grupal, coisas que parecem impossíveis de concretizarem-se para o sujeito isolado, na massa a afetividade, ou seja, suas paixões às crenças, ganham forças fazendo com que as proibições impostas pelo social e as questões frente ao supereu se desvaneçam, fazendo com que os indivíduos tornem-se dissolvidos na massa.

Sendo assim, a sugestionabilidade é o principal fator que faz com que os sujeitos inseridos na massa, tornam-se tão seduzidos e arrastados para seus fenômenos. De acordo com Freud (2011), McDougall apresenta o “princípio de indução direta da emoção por meio da resposta simpática primitiva”, ou seja, o

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que chamou-se anteriormente como contágio mental, ou ainda, “contágio de sentimentos” e, consequentemente, a sugestionabilidade. (p.35).

Como aponta Freud (2011), a partir do fenômeno da sugestionabilidade, pode-se dizer que, quanto maior for o número de membros do grupo e de indivíduos reproduzindo o mesmo afeto, fenômeno e sintoma, maior será o contágio da sugestão e, portanto, menor será a capacidade crítica do sujeito que deixar-se-á “levar por este afeto” e “a permanecer de acordo com a maioria”. (p. 35). É pelo fato de a massa produzir uma impressão de poder invencível, “ilimitado e perigo indomável”, que o contágio se intensifica, e por isto que opor-se ao grupo é claramente perigoso. (p. 36).

Freud diz que (2011), “sente-se mais segurança ao seguir o exemplo” e os movimentos da massa, deixando sua consciência e supereu fora de ação, entregando-se ao inconsciente da mente coletiva e rendendo-se “à atração do ganho prazeroso que certamente se obtém ao suprimir as inibições”. (p.36). Em outras palavras, o indivíduo na massa entrega-se e obedece a autoridade do líder, agindo como os outros a fim de garantir uma segurança prometida e, por conseguinte, reproduz os fenômenos e sintomas do grupo.

Com o propósito de complementar esses apotamentos, fazer-se-a uma relação entre acontecimentos, a partir do filme “A Onda”, e os conceitos até então abordados.

2.2. “N’A Onda” do Grupo

Neste momento, dedicar-se-á com o enredo do filme para, posteriormente, exemplificá-lo com a teoria abordada no decorrer desta pesquisa. O filme alemão “Die Welle”, traduzido em português para “A Onda”, foi dirigido por Dennis Gansel e estreado mundialmente nos cinemas no ano de 2008. “A Onda” conta uma história baseada em fatos reais que ocorreram na Califórnia em 1967.

“A Onda” apresenta o personagem Rainer Wenger (atuado por Jürgen Vogel), professor de ensino médio que, quando chegou na escola foi informado

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pela diretora que ele seria o responsável pelo curso de uma semana com o tema da autocracia e que, o que fora primeiramente de seu interesse, o de ministrar o curso sobre anarquia, havia ficado responsável por outro professor. Mesmo contrariado, o professor Wenger dirigiu o projeto de autocracia e surpreendeu-se com a quantidade de alunos inscritos para sua aula (essa quantidade de alunos foi pelo fato de os mesmos não gostarem do professor responsável pelo projeto da anarquia).

Wenger iniciou sua primeira aula questionando aos alunos o que significaria autocracia, onde obteve duas respostas importantes: de Lisa (atuada por Cristina do Rego), que disse que poderia ser relacionada a “ditadura”; e de Karo (atuada por Jennifer (I) Ulrich), que acreditava que autocracia era quando um indivíduo ou um grupo dominavam as massas. Ao concordar com a resposta de Karo e Lisa, Wenger ainda acrescentou que autocracia é uma palavra derivada do grego que significa autogoverno, autopoder e que, na autocracia o indivíduo ou o grupo têm o poder de mudar as leis caso acharem necessário. Ao perceber o interesse de alguns alunos pelo tema, o professor questionou-os se seria possível uma nova ditadura na Alemanha; alguns concordaram ser possível e outros não. Entretanto, ao notar o desinteresse e a dispersão da grande maioria de seus alunos, Wenger teve uma ideia e deu um intervalo para a turma a fim de mudar as carteiras de lugar para uma organização diferente.

Os alunos ao retornarem à sala de aula notaram a nova organização das carteiras e o professor propôs uma experiência prática que explicasse os mecanismos do tema “autocracia e poder”, perguntando quais os requisitos para um sistema autocrático; respostas como: ideologia, controle, vigilância, e insatisfação lhe foram dadas. Assim, Wenger afirmou que para uma ditatura se desenvolver, ela precisaria de uma figura de liderança central, interrogando os alunos de quem poderia ser este líder na sala, recebeu a resposta de que ele próprio encarnaria essa figura-líder.

Ao aceitar o desafio, Wenger apontou que o líder merece respeito, solicitando que pelo decorrer da semana os alunos se direcionassem a ele como “Senhor Wenger” e que, qualquer um que quisesse falar precisaria de sua permissão e teria que se levantar para obter a palavra. Exigiu também que os

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alunos, a partir daquele momento, sentassem corretamente em suas carteiras; enfatizou ainda, que ninguém seria obrigado a ficar em sua aula contanto que saíssem. Wenger deu continuidade à aula perguntando o que seria mais importante na ditadura; seu aluno Tim (atuado por Frederick Lau), ao levantar-se, falou que seria a “disciplina” onde, o professor ainda acrescentou: “disciplina é poder”.

O professor destacou duas condições sociais que favoreceriam uma ditadura: “muito desemprego e injustiça social”. Outros fatores foram apontados pelos alunos que, começaram a demonstrar um interesse e posicionamento diferente frente ao projeto, principalmente Tim, que sentiu-se tocado pelo movimento, pois sempre fora excluído pelos demais colegas e pelos seus pais. Após o termino da primeira aula, alguns alunos comentaram com seus familiares sobre o curso, apontando que este tinha sido como “uma energia estranha que pegou todo mundo”.

No segundo dia do projeto, Wenger propôs aos alunos que começassem a aula marchando em sincronia, tornando os passos cada vez mais fortes, a fim de demonstrar o poder da união. Salientou, também, que esse exercício tinha um objetivo, que seria o de atrapalhar a aula do professor do curso de anarquia, que localizava-se no andar abaixo deles, intitulando-os como seus inimigos. O que acabou despertando, tanto no seu grupo um passo ainda mais forte, quanto curiosidade nos alunos do projeto de anarquia.

“União é poder”, continuou o professor, explicando porque havia mudado os alunos de lugar; era com o propósito de “acabar com os grupinhos” afirmando que quanto mais unidos enquanto um todo, mais forte o grupo ficaria e tornar-se-iam uma unidade. Após sua explicação, acrescentou que os sinais visuais da união de um grupo se dão pelo modo igual de se vestirem, uma “uniformidade”. O que acabou despertando uma nova decisão no grupo, a de que todos os alunos passassem, a partir da próxima aula, a usarem camisetas brancas, a fim de o grupo ser reconhecido por sua uniformidade, eliminando as diferenças sociais – “mas eliminam a individualidade também” como apontou uma das alunas.

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Na terceira aula, a turma ficou lotada pois os alunos do curso de anarquia pediram para mudar para a aula do professor Wenger. Todos os alunos foram com a camiseta branca, exceto Karo – e os novos alunos que não sabiam da uniformização –, que passou a ser excluída pelos membros e pelo líder do grupo. Após perceberem que o grupo estava grande, chegaram à conclusão de que precisavam nomeá-lo; por meio de muitas sugestões, o nome “A Onda” ganhou.

Wenger indicou que um dos alunos criassem um logo, com o intuito de obter mais uma marca, além da uniformização, que os diferenciasse. “Ação é poder” continuou o professor, com a intenção de acentuar ao grupo de “qual o objetivo das boas ideias se não virarem ação?” O que instigou o grupo a contribuir no movimento, com ideias de outras marcas, como adesivos, cartões, bottons, um site e uma página nas redes sociais.

O aluno Tim é apresentado no filme, como alguém que está inserido numa estrutura familiar frágil e como alguém que não tem amigos. Entretanto, após o término da terceira aula, Tim foi provocado e agredido por dois alunos da escola, porém, mudando sua posição de excluído, dois membros do grupo A Onda foram lhe defender, aderindo a união esperada pelo professor.

No decorrer da noite, parte dos membros do grupo reuniram-se e, rapidamente, passaram a sentir e reproduzir o poder da união, o poder do grupo. Com o intuito de contagiar as outras pessoas e de difundir seus novos movimentos, A Onda pichou e colou em muros e paredes seu símbolo. Em seguida, Tim engajou-se na ideia de pichar a marca do grupo no topo de uma estrutura muito alta, a fim de sentir-se e de se fazer valer como A Onda.

No quarto dia do projeto, o grupo solicitou ao líder, que aprovou, que A Onde obtivesse uma saudação fazendo movimento de uma onda com o braço. Após presenciar alunos serem impedidos de entrar na escola por não fazerem a saudação e por não serem membros d’A Onda, Karo decidiu falar para o professor Wenger que a experiência estava saindo do controle, no entanto, o agora líder, não deu atenção à aluna e solicitou que a mesma mudasse de sala.

Em seguida, a diretora do colégio chamou Wenger para conversar a respeito do seu projeto; o professor justificou que seu projeto tinha um objetivo

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pedagógico e acrescentou ainda, que os alunos melhoraram e que estavam “muito motivados”, por conseguinte, a diretora o surpreendeu dizendo que alguns pais haviam ligado para ela falando que seus filhos estariam mudando positivamente, o elogiaram por seu trabalho e que ele podia contar com o total apoio dela.

Na próxima cena do filme, aconteceu uma briga entre o grupo d’A Onda e um grupo de anarquistas da cidade (não o da escola); Tim então sacou uma arma, atemorizando os anarquistas, até mesmo os membros do seu grupo que, após os inimigos irem embora, questionaram o porquê ele tinha uma arma, que justificou-se dizendo que a mesma era de festim. Depois desse ocorrido, Tim foi até a casa de Wenger e ofereceu-se para ser seu segurança, pois um líder precisava de proteção. Espantado, Wenger disse para Tim voltar pra casa, que responde imediatamente que na sua casa não havia nada para fazer, que seus pais não lhe “dão a mínima”.

O movimento d’A Onda começou a se propagar e a contagiar outras pessoas, tanto de dentro da escola quanto pessoas de fora. Mas, no último dia do projeto, Wenger, antes de chegar na escola, acabou vendo no jornal uma foto do símbolo d’A Onda que questionava o significado da marca que fora deixada numa estrutura da prefeitura da cidade. Logo, Wenger percebeu que A Onda teria ido longe demais e que a experiência proposta por ele fora levada a nível de uma crença e ideal absoluto. Ao chegar na sua sala, Wenger, alterado e furioso, disse ao grupo que eles passaram dos limites e ordenou que eles escrevessem sobre a experiência que eles obtiveram n’A Onda no decorrer da semana.

Após alguns fatos, Karo tentou alertar seu namorado Marco (atuado por Max Riemelt) sobre o seu envolvimento com A Onda e o que ela estava fazendo com as pessoas que a compunham; Marco, ao descordar de Karo, agrediu-a. Quando se deu conta do que fora capaz de fazer com sua namorada, Marco foi até a casa do professor Wenger e disse que ele havia se transformado em outra pessoa com a experiência d’A Onda e afirmou: “essa pseudo disciplina é totalmente fascista! E você tem que acabar com isso”. Espantado, Wenger

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imediatamente, convocou todos os membros do grupo para uma reunião no dia seguinte, a fim de decidir sobre o futuro d’A Onda.

Prontamente, Wenger iniciou a reunião lendo trechos das experiências escritas por seus alunos: “pertencemos a um movimento. A onda deu significado a nossa vida e ideais pelos quais lutar”. Na leitura enfatizou atuando de forma exagerada e dramática, sem que o grupo percebesse, e ainda acrescentou: “não devemos deixar ela acabar assim, A Onda é a solução” para os problemas do país; e todos os alunos o aplaudiram fascinados. Rapidamente, sem entender o que o professor estava fazendo, Marco levantou e disse que o grupo estava sendo manipulado e que A Onda tinha se tornado um grande problema.

Wenger continuou atuando e destacou: “qualquer um que se opor será levado pela Onda”; em seguida ele ordenou que levassem “o traidor” Marco até ele e questionou o grupo sobre o que “fazer com o traidor” e pediu a um dos alunos decidisse o que fazer pois ele havia levado o traidor até ele, espantado o aluno respondeu dizendo que “sim”, mas porque ele havia mandado. Assim, iniciou-se o verdadeiro propósito da reunião, Wenger questionou-os que, se ele mandasse-os matar o traidor, eles o fariam? Todo o grupo silenciou e entendeu que aquilo era uma encenação. O professor ainda salientou que “é isso que fazem na ditadura”, perguntou-lhes então: “entenderam o que aconteceu aqui?” Lembrou ao grupo, da questão que ele havia levantado no início do projeto, “se ainda seria possível uma ditadura na Alemanha?” E respondeu: “era isso que estava acontecendo aqui, fascismo”.

O movimento d’A Onda levou-os a acreditar que eram “especiais” e acabaram excluindo os que não concordavam com a ideologia do grupo e, Wenger, demonstrou que aquilo que estavam vivendo era justamente, uma ditadura. Wenger pede desculpas ao grupo por ter deixado a experiência sair fora do seu controle. Entretanto, alguns alunos, principalmente Tim, demonstraram-se incomodados com a situação dizendo que A Onda não podia acabar pois nem tudo nela era ruim, mas o professor enfatizou: “acabou”.

Desesperado com o fim d’A Onda, Tim sacou sua arma, ordenou que ninguém saísse do local e culpou o professor por ter mentido a eles; um dos

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