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NapoleãoeosonhoEuropeu

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Academic year: 2021

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Universidade Autónoma de Lisboa

Luís de Camões

RELAÇÕES INTERNACIONAIS

HISTÓRIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS I

NAPOLEÃO E O SONHO EUROPEU

Elna Calado Rui Barreiros

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Índice

1. INTRODUÇÃO...3

2. A EUROPA...5

3. A SITUAÇÃO PARTICULAR DA FRANÇA...8

4. NAPOLEÃO BONAPARTE...10 4.1 O génio militar...12 4.2 As Campanhas...15 5. O SONHO EUROPEU...15 6. O RUIR DO IMPÉRIO...17 7. CONCLUSÃO...19 Bibliografia...22

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«I closed the gulf of anarchy and brought order out of chaos. I rewarded merit regardless of birth or wealth, wherever I found it. I abolish feudalism and restaure equality to all regardless of religion and before the law. I fought the decrepit monarchies of the Old Regime because the alternative was the destruction of all this. I purified the Revolution».1

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1. INTRODUÇÃO

A vida de Napoleão Bonaparte e a forma como este interferiu na História da França, como criou alguns dos mais famosos códigos e estruturas sociais, ressalvando que alguns deles ainda vigoram no tempo presente, e ao colocar as suas capacidades de génio militar e exime estratega ao serviço duma particular visão em que a Europa se uniria sobre a égide da bandeira do seu país, constituiu um momento ímpar que nos anais irá perdurar para todo o sempre.

O presente trabalho, enquadrado na unidade curricular de História das Relações Internacionais I, visa dar a conhecer dentro da temática que nos propusemos abordar, a evolução da estratégia e das relações internacionais, caracterizadoras do século XVIII, e as quais encontraram em Napoleão Bonaparte um dos mais importantes actores.

Neste trabalho, iremos em primeiro lugar, analisar a situação global da Europa do século XVIII, com o intuito de nos entrosarmos na sua estrutura e ideário, e compreender como os Estados se encontravam e relacionavam entre si. Em acto subsequente, caracterizar-se-á uma França que se encontra primeiramente em estado de pré-revolução, e depois, de revolução. Este intróito torna-se absolutamente necessário para se poder aquilatar das razões que impenderam à entrada de Napoleão em cena, e consequentemente, do começo da sua notabilização.

Prossegue-se com uma biografia de Napoleão Bonaparte, e a exploração da parte essencial que respeita à sua capacidade e competência de militar, às reformas estruturais introduzidas na sociedade francesa, bem como nos países conquistados e que como tal passaram a fazer parte do Império, para em acto posterior se abordarem as campanhas, dada a importância que as mesmas assumem na edificação do Império.

O trabalho desenvolvido na conquista de espaços de soberania europeia servirá, para nos entrosarmos no sonho de uma Europa unida, a qual se consubstanciou durante um tempo bastante curto como uma quase realidade.

As razões da queda do Império, estão de algum modo ligadas aos elevados custos em termos de perdas de vidas humanas. Assume também um especial significado, e que será devidamente escalpelizado, o retrocesso que em muitas situações se verificou, com a assunção de certos países e Estados, antes independentes, da pretensão da obtenção da libertação do jugo do domínio francês. Para a consecução deste desiderato, através de actos de diplomacia secreta, celebraram-se Tratados, os quais foram paulatinamente minando um frágil domínio, o qual se consubstanciou com o fim do Império.

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2. A EUROPA

No século XVIII a Europa tinha muitos países em disputas, as quais tinham uma relação muito directa com os problemas territoriais e comerciais.

É nesta altura que as relações internacionais se encontram condicionadas pela ideia de que o poder do Estado é dependente, directamente, da dimensão da sua superfície, do número dos seus habitantes e dos recursos disponíveis. A supremacia militar era obtida através do emprego de forças armadas, suficientemente numerosas e equipadas, mas estas eram totalmente dependentes das capacidades financeiras do respectivo Estado, e como tal, bastante dispendiosas, o que obrigava, para a sua manutenção, a obter mais territórios e recursos. A título de exemplo, refira-se o caso da Prússia, país sem fronteiras naturais, e que para garantir a integridade do território, tinha de ter um exército forte, o que o obrigava a ter de se expandir para poder ter os recursos necessários à sua manutenção.

A emergência de potências como a Prússia e a Rússia ou o contínuo crescimento dos Habsburgos foram determinantes nas relações entre os Estados europeus.

É neste século que a luta pela hegemonia europeia passa a ser decidida por uma luta pela hegemonia mundial. Um dos exemplos claros foi o pleito sobre os direitos de propriedade dos mares, com contendas constantes. À doutrina do «mare clausum», caracterizador do império britânico, passou a impor-se a do «mare liberum».

A Guerra da Sucessão de Espanha, a qual terminou com a assinatura dos Tratados de Utreque e Rastadt (1713-1714) foi extremamente vantajosa para a Áustria, dado que lhe conferiu extensos domínios. Os estados europeus acordaram então em manter uma posição de equilíbrio de poder entre si, através da formação de alianças. A estratégia passou a ser mais importante do que a batalha propriamente dita.

Este século é dividido em 3 partes, constituindo a primeira a que medeia os anos de 1714 a 1739. Neste período, a diplomacia inglesa assume uma clara preponderância sobre as outras, europeias. Outro carácter diferenciador é o relativo aos conflitos britânicos e hispano-austríacos, e à entente anglo-francesa. A segunda parte vai de 1739 a 1763, onde a internacionalização das lutas entre a Inglaterra e a França pelo domínio marítimo e colonial assume especial significado, sendo também relevante o apoio da Espanha aos Bourbon franceses (guerra de 1739, guerra da secessão austríaca de 1740-1748 e guerra dos Sete Anos de 1756-1763). Finaliza-se com a 3.ª parte, a qual abrange 1763 a 1789, com os poderes ocidentais e os Estados orientais a seguirem rumos distintos na actividade política e militar.

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Voltando um pouco atrás, em 1717 os espanhóis tentam reaver as províncias italianas perdidas, ocupando, primeiramente, a Sardenha, e no ano seguinte, a Sicília. Contudo, e mercê da presença da frota inglesa no Mediterrâneo, os austríacos conseguem expulsar os invasores da Sicília, tendo cedido a Sardenha e a Sabóia (1720). Os espanhóis tiveram que se contentar com a promessa de D. Carlos de que receberiam Parma e Florença quando os respectivos governantes morressem.

Os franceses, em consequência destas movimentações, mostraram-se descontentes, e organizaram uma coligação antiaustríaca. Para que a Inglaterra e a Holanda se mantivessem neutrais, a França prometeu que não atacaria os Países Baixos austríacos, e aliaram-se aos espanhóis e a Sabóia. Declararam guerra (1733), a qual culminou num desastre para a Áustria. Os franceses assumiram o controlo sobre parte do Reno; em Itália os austríacos foram expulsos de quase toda a Lombardia. A França obteve então, com a paz, a Lorena, entregando Parma e Florença em troca de Nápoles e da Sicília.

É durante o período de 1731 a 1739 que a França assume um papel de árbitro nas relações entre os diferentes Estados da Europa Ocidental, algo para o qual o cardeal Fleury, como Primeiro-Ministro muito contribuiu.

Em 1740 a coroa austríaca é assumida por Maria Teresa, e Frederico II sobe ao trono da Prússia. Este resolve marchar sobre a Silésia austríaca e declará-la como sendo parte do estado prussiano. Com este acto unilateral outros países adoptam uma postura belicista. Os franceses aliam-se e auxiliam os bávaros a atacar a Áustria, enquanto os ingleses, os hanoverianos e os holandeses se opõem à invasão dos Países Baixos austríacos pelos franceses. Espanha e França atacam os austríacos e os saboianos na Itália. Esta guerra é prolongada até 1748, tendo-se destacado o marechal de Saxe e Frederico II da Prússia. O marechal de Saxe obteve vitórias sobre as forças inglesas, hanoverianas e holandesas, as quais resultaram na conquista dos Países Baixos austríacos. Frederico II revelou-se um estratega agressivo e de ideias rápidas, tendo sido ele quem realmente ficou a ganhar no final desta luta, dado que a Prússia conservou a Silésia.

A Europa aceitou a anexação da Silésia pela Prússia mas Maria Teresa não. Como a Áustria esteve envolvida em várias frentes de batalha − Países Baixos, Reno, Europa Central e Itália − não lhe foi possível enfrentar Frederico II. Mercê da paz de 1748, a recuperação da Silésia tornou-se o primeiro objectivo da política austríaca, pelo que Maria Teresa se aliou a França, e iniciou uma revolução diplomática, a qual obrigou os ingleses a unirem-se a Frederico. Com esta atitude a Prússia teve de se bater com a França, a Áustria, a Suécia e a Rússia, tendo invadido a Saxónia, e anexando-a em 1756. Neste mesmo ano foi assinado o Tratado de Versalhes entre a França e a Áustria, meio que estes dois países encontraram de contrabalançar os acordos diplomáticos celebrados entre a Inglaterra e a Prússia. No ano seguinte, Frederico II penetrou na Boémia, tendo contudo sido derrotado à entrada de Praga pelo exército austríaco, e consequentemente obrigado a

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evacuar. A guerra alastrou-se então a todas as frentes, e Frederico II foi derrotado na Prússia Oriental pelos russos. Na Silésia, perdeu com os austríacos. Os suecos atacaram na Pomerânia, e o exército anglo-alemão, com base em Hanôver, teve de capitular frente aos franceses. Todavia, Frederico II ressurgiu de novo e com toda a força do grande estratega que era, derrotou com 20.000 homens 60.000 franceses e alemães em Rossabach, e um mês depois esmagou os austríacos em Leuthen.

Em 1759 em Kunnersdorf metade do exército prussiano foi morto pelo ataque dos russos. Esta pesada derrota motivou os austríacos a invadirem a Saxónia e a Silésia. Mas foi em 1760 que Frederico, já com um novo exército de pé, o utilizou antes em manobras. Frederico foi favorecido pela sorte, porque em 1762 subiu ao trono da Rússia um Czar fanático pela sua figura. Este Czar, Pedro II da Rússia, ofereceu a Frederico uma aliança. Aliou-se a Frederico II contra os austríacos, e esta acção culminou na celebração da paz de Hubertusburg. É nesta altura que se assiste ao fim da Guerra dos Sete Anos (1763), com a Áustria a ser obrigada a reconhecer a Silésia como pertencente à Prússia.

Frederico II iniciou a partir de então uma diplomacia hábil, tendo obtido da Rússia a concordância de se subornarem as potências germânicas com pedaços de território polaco. A Áustria recebeu a Galícia, enquanto a Prússia recebeu a Pomerânia e a Prússia polaca (1772); a Rússia recebeu toda a área leste da linha Duína / Dniepre e ficou livre para agir contra os turcos.

A expansão russa nos Balcãs e ao Norte do Mar Negro, entre 1772 e 1792 acarretou algumas repercussões ao nível da diplomacia europeia ocidental. As sucessivas aquisições territoriais − 1.ª guerra russo-turca (1768-1774); a anexação da Crimeia (1782-1783); e a 2.ª guerra russo-turca (1787-1792) vão esbarrar com alguns obstáculos, e significativos. Como a Áustria e a Prússia eram rivais, não encontraram forma de cooperarem para minimizar este crescimento da Rússia. O conflito entre a França e a Inglaterra facilitou a expansão russa para oeste, à custa da Polónia, e para sudeste, à custa do império otomano. Entre 1774 e 1783 os exércitos russos conquistaram toda a região do Baixo Dniepre, da Crimeia e Norte do Cáucaso. Em 1783 foram estabelecidas as primeiras guarnições ao sul do Cáucaso pelo pedido expresso de protecção emanado pelo principado da Geórgia. A Rússia emergiu assim como uma potência dominante na Europa Oriental.

Mercê dos problemas que assolavam a França, em 1792 o exército franco-prussiano marchou sobre Paris, julgando que não iria ser encontrada resistência, dada a desordem social que vigorava. Contudo, foram obrigados a retirar pela resistência com que se depararam, dos canhões em Vaumy. Após este ataque, os franceses assumiram a ofensiva e avançaram e invadiram a Bélgica; com um outro exército foram da Alsácia para a margem esquerda do Reno; e com um terceiro ocuparam a Sabóia Alpina. Pelo ano de 1780 a França estava em situação de falência e em 1788 o rei teve de convocar os Estados Gerais.

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As convulsões surgidas neste tempo em França serão analisadas num capítulo próprio, para melhor se poder aferir das suas implicações para o surgimento de Napoleão na cena política mundial.

Em 1793 os ingleses e os holandeses juntaram-se aos austro-prussianos no Baixo Reno, tendo a Espanha lançado um ataque através dos Pirenéus orientais. Foi em 1794 que os franceses desencadearam uma ofensiva que varreu os aliados para além do Reno. O general Moreau atravessou com a sua cavalaria o Scheldt gelado e capturou a frota holandesa. A Espanha e a Prússia desistiram da guerra, enquanto os austríacos aceitaram uma trégua de seis meses no Reno, mas continuaram, contudo, a guerrear nos Alpes italianos.

Após estes factos a história da Europa fica ligada a Napoleão Bonaparte.

3. A SITUAÇÃO PARTICULAR DA FRANÇA

Após termos analisado a situação global da Europa, importa compreender, de forma sumária, o que se passava dentro das fronteiras da França.

A partir de 1730, em França, começa a operar-se uma transição demográfica evolucionária, tendo sido constatado que para uma população de 18 milhões, registada no ano de 1715, se passou para 26 milhões, em 1789. Este enorme crescimento e de algum modo excesso demográfico, à altura, acarretou naturais repercussões para os recursos financeiros do Estado. Por outro lado, a Guerra dos Sete Anos deixou a França financeiramente e de algum modo depauperada, as quais se faziam sentir ainda mais, pela perda da maior parte das suas colónias. A esta situação não era alheio o contributo dos exorbitantes gastos da Corte de Luís XV. Por outro lado, verificou-se uma fraca industrialização, e esta levou a um aumento do nível de desemprego, sendo um factor mais sentido ao nível da classe dos operários, tendo causado, inerentemente, uma crescente indigência. Para fazer face a este problema, tentou-se aumentar o volume de negócios do comércio exterior, para o qual se construíram mais navios da marinha mercante. Todavia, estas medidas não surtiram muito efeito.

Entre 1772 e 1786 a França passa por um período de forte regressão económica. Esta funciona como um rastilho para aumentar o ambiente revolucionário que estava cada vez mais vivo. A diminuição consecutiva do poder de compra das camadas mais baixas da população, conjugada com a falência da indústria, constituíram factores decisivos para a situação que surgirá de seguida. A toda esta problemática há que juntar o aumento da pressão senhorial, porque estes, ao verem diminuir as suas receitas, fizeram subir os preços. Por outro lado, com o acréscimo que o aumento da carga fiscal acarretou para as parcas finanças e posses de alguns, levou os camponeses a terem de

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se deslocar para as cidades à procura de trabalho. Como o excesso de população se repercutia, naturalmente, na falta de trabalho, a necessidade de terem de se alimentar, levou-as a organizarem-se em bandos, e a encetarem actos de roubo e violência para conorganizarem-seguirem comida.

Apesar da crise, a alta sociedade e a Corte mantinham uma vida de luxo. Para contrabalançar, o então nomeado Inspector-Geral das Finanças, nomeado em 1783, de nome Calonne, elaborou uma proposta, ou seja, um plano para recuperar as finanças, baseando-se no princípio de todos serem iguais perante o fisco. A nobreza e o clero deixavam então de ser classes isentas. Mas Calonne não conseguiu fazer valer o seu intento. Foi substituído pelo Arcebispo de Brienne. Este último conseguiu implementar os planos delineados por Calonne, tendo contudo motivado uma revolta da aristocracia parlamentar. Com o crescente estado de inactivação, Brienne foi obrigado a convocar os Estados Gerais, a 5 de Julho de 1788, realizando-se a Assembleia a 5 de Maio de 1789. A 9 de Julho nasceu a Assembleia Constituinte, e a 14 desse mesmo mês, em Paris, a multidão apoderou-se das armas guardadas nas Invalides e dirigiu-se para a Bastilha, uma prisão do Estado e o símbolo da opressão do absolutismo. A 26 de Agosto conclui-se a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão «magna carta» da Revolução. A 1 de Outubro de 1797 foi instituída a Assembleia Legislativa.

Com a formação do Directório, uma Junta de 5 membros a quem a Constituição francesa do ano III entregou o poder executivo, exerceu a sua actividade entre o 5 de Brumário do ano IV (27 de Outubro de 1795) até à sua queda, no 18 do Brumário. Esta Junta obteve inicialmente êxitos notáveis na governação, tendo conseguido malograr as tentativas jacobinas e as realistas de derrubarem o governo instituído. Conseguiu também melhorar a situação financeira da França. Em 1796 o Directório obtém um revés na sua política militar, com a derrota sofrida na Alemanha. Contudo, no ano seguinte, consegue obter êxito onde até então tinham falhado. Napoleão Bonaparte começa a aparecer em cena, com as vitórias militares obtidas em 1796 e 1797, quer em Itália quer na Áustria.

A situação volta contudo a mudar, a partir de 1797. Os partidos políticos encetaram grandes lutas, internamente, e as dificuldades financeiras que se começaram a fazer sentir acarretaram sérias dificuldades para a política externa. Toda esta situação só vai mudar com o regresso de Napoleão do Egipto e o golpe de Estado do 18 do Brumário.

O regime surgido após este golpe de Estado levou à elaboração duma nova Constituição, que Napoleão submeteu a plebiscito e obteve o sancionamento como lei suprema, em Dezembro de 1799. Nesta, o regime passava a ter uma hierarquia e estrutura piramidal, onde o cume tinha como primeiro-cônsul Napoleão. Este tinha o poder de nomear ministros, conselheiros de estado, altos funcionários, ou seja, tinha a capacidade de exercer todo o controlo do sistema legislativo − senado,

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corpo legislativo e tribunos − bem como, do judicial. Mercê desta capacidade transversal, Napoleão reestruturou toda a administração departamental, centralizando-a na figura dos prefeitos. Por outro lado, tentou normalizar as relações com a Igreja católica, tendo assinado uma Concordata com o Papa Pio VII, na qual o sumo pontífice reconhecia a validade das vendas dos bens eclesiásticos, e o chefe de estado da França reconhecia esta religião como o crédito maioritário.

Em matéria educativa, económica e cultural houve também muitas inovações, destacando-se a codificação como a principal.

Para se conhecer Napoleão Bonaparte importa analisar a sua biografia, o que iremos fazer de seguida.

4. NAPOLEÃO BONAPARTE

A personalidade e a forma como Napoleão Bonaparte se inscreveu na história da Europa e do Mundo são factores que resultam de todo um percurso a que não são alheias, naturalmente, as capacidades inatas, e para cujo desenvolvimento e real aplicação técnica e táctica muito contribuiu todo o período político que vigorava à época.

Carlos Bonaparte, um advogado bastante influente na ilha da Córsega, foi o pai de Napoleão, tendo casado a 2 de Junho de 1764 com Letícia Ramolino, conhecida como a «Pequena Maravilha de Ajaccio». Esta era filha do inspector-geral das Pontes e Calçadas, e descendente dos condes de Coll’Ato. É esta pequena nobreza, por parte de Carlos Bonaparte e de Letícia que vai permitir a Napoleão ser admitido nas escolas militares criadas por Luís XV para os filhos das famílias nobres e pobres.

Abordando um pouco da história do local onde nasceu Napoleão, poderemos afirmar que a Córsega foi conquistada por Roma cerca de 494 a.C., tendo durado esta situação cerca de 100 anos. O território da Córsega foi sempre um local de mistura de povos, como os Vândalos de Genseric, os árabes, os godos, e os sarracenos, os quais foram reinando sem imporem uma

civilização. É uma terra com uma história de rebeldia permanente. Em 1739 Génova, que detinha a posse da colónia Córsega, teve de pedir o auxílio das tropas francesas, 5 Regimentos os quais foram obrigados a capitular e reembarcar. A França em 1788 recebe a Córsega entregue por Génova, o que vai fazer com que Napoleão venha a nascer já francês, com Luís XV.

Napoleão Bonaparte nasceu a 15 de Agosto de 1769 em Ajaccio, na ilha mediterrânea da Córsega. Em 1779, então com dez anos de idade, ingressou

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na escola militar de Brienne. No decorrer da sua estadia nesta instituição de ensino militar, desde cedo demonstrou possuir um carácter difícil e uma clara inclinação para algumas matérias estritamente militares, como a cartografia.

Entre 1784 e 1785 Napoleão especializou-se em artilharia na escola militar de Paris. A sua patente era de subtenente. Cumpre, após este curso, uma pequena comissão de serviço em Valence.

O regresso de licença à Córsega, sempre que se fartava de estar ao serviço, foi uma característica do desenraizamento e desadequação à situação militar vigente, com a qual ele não concordava muito.

Quando se deu a Revolução Francesa, em 1789, Napoleão assumiu um papel activo na resistência, inicialmente como admirador dos jacobinos mais radicais, mas sem que com esta sua simpatia se comprometesse com a chamada classe dos «sans culottes». A sua mentalidade militar e hierarquizada levou-o a conservar-se afastado da plebe, da canalha e das turbas. Em 1793 e no comando de um batalhão de artilharia em Toulon, cidade esta ocupada pelos ingleses, teve um dos seus primeiros grandes feitos e que lhe permitiu notabilizar-se. Um ano depois foi promovido a Brigadeiro, promoções estas típicas de tempos revolucionários, e nomeado responsável pela artilharia do exército de Itália, como recompensa pelo serviço prestado ao Directório. Nesta sua prestação derrotou uma sublevação dos seguidores do realismo, quando em 1795 se encontrava no comando da Guarda de Paris. Destruiu, então, a insurreição monárquica do 13 Vindimário, conseguindo salvar a Convenção. Esta designa-o como General-em-Chefe do exército do interior. É na situação de Comandante do exército de Itália que empreende campanhas fulgurantes que o tornam merecedor de ser seguido com mais atenção, e a ser uma figura incontornável da história da França e do Mundo.

Na campanha que o levou a ter de desembarcar no Egipto, Napoleão defrontou-se com um dos maiores obstáculos que o iriam perseguir em toda a sua vida, o poderio naval inglês. Aqui, ele perdeu a batalha que teve de travar no mar de Abukir. Contudo, mas em terra, ganhou a batalha das Pirâmides. No regresso a Paris foi apoiado por Talleyrand, Sieyès e o exército. Desencadeou o golpe de Estado − 18 Brumário (9 de Novembro de 1799).

Napoleão foi um dos maiores comandantes militares da História, e tinha uma enorme ânsia de poder. Argumentava, em acto de contestação, que estava a construir uma federação de homens livres numa Europa unida sob um governo liberal. No entanto, nos Estados que criou, Napoleão implementou constituições, introduziu leis, aboliu o feudalismo, criou um governo eficiente e apostou forte na educação, ciência, literatura e arte.

Provou, em toda a dimensão, ser um excelente administrador civil.

A 2 de Dezembro de 1804, e na famosa igreja da Notre-Dame, Napoleão transformou-se no imperador de França. Perante toda a família Bonaparte, a mãe, os irmãos e as irmãs, os cunhados e

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contrariando o que aconteceu com Carlos Magno, o qual teve de se deslocar a Roma para ser coroado imperador, Napoleão mercê do poder de que dispunha exigiu que o Papa Pio VII se apresentasse em Paris, ao que este obedeceu.

Exige-se agora conhecermos uma das suas mais importantes facetas, e que marcou de forma indelével a história, a sua capacidade e competência militar.

4.1 O génio militar

O conhecimento desta personagem só se completa, se entendermos como ele desenvolveu todo um novo conceito de estrutura e organização das Forças Armadas, como aplicou a estratégia e chamou a si todo o povo francês, que o passou a idolatrar. Estes são factores intrínsecos ao seu génio militar que iremos abordar.

A forma como as Forças Armadas (FA) nos dias de hoje se movimentam no terreno advém do contributo introduzido por Napoleão. A remodelação que ele introduziu permitiu-lhe preparar os franceses para conquistar a Europa.

As guerras napoleónicas foram o ponto de partida para o nascimento no séc. XIX do paradigma da guerra industrial entre Estados, a qual se desenvolveu em 2 sentidos, os Estados e a Indústria.

Napoleão adequou a estrutura e o conceito operacional das FA em duas vertentes essenciais: uma organização dotada de grande mobilidade aliada a uma flexibilidade operacional permanente.

Ele conseguiu introduzir o conceito de recrutamento como universal, para o cumprimento do serviço militar em tempo de necessidade, tal como foi feito no antigo Egipto, enquanto ideia de que cada cidadão tem o dever de servir o Estado como soldado, no seguimento dos ideais resultantes da Revolução Francesa, ou seja, a «liberdade, igualdade e fraternidade». Esta alteração ao modo de servir a França permitiu engrossar as fileiras e ter uma força, em 1793, de 300.000 homens. Neste ano Napoleão foi promovido a General.

O Directório votou a Lei de Jourdan-Delbel, a 5 de Setembro de 1798, na qual foi determinada a norma de que todos os franceses com idade compreendida entre os 20 e os 25 anos de idade teriam, obrigatoriamente, de cumprir o serviço militar. Esta Lei enquadrou-se no artigo 9 da Constituição Francesa de 1795, onde se abordam os deveres dos cidadãos. Nasceu assim o Exército dos Cidadãos.

A 29 de Dezembro de 1804, encontrando-se já Napoleão na função de Imperador de França, quando mandou publicar um Decreto, no qual era detalhado o processo de recrutamento nos Departamentos Franceses, os quais são as áreas administrativas equivalentes aos distritos em Portugal. Com esta nova alteração, Napoleão criou a Grande Armada, estimando-se que entre 1800 e 1814 cerca de 2 milhões de homens fossem recrutados para servir sob a bandeira francesa. Esta

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força é de tal maneira grandiosa que se considera sem precedentes em toda a história da humanidade.

Há quem tenha pensado que Napoleão apenas queria ter um Exército numeroso. Tal foi um erro crasso. Napoleão entendia e trabalhou para que para além da grandiosidade, esta força tinha de estar também permanentemente disponível, e esse era um factor que o diferenciava de todos os outros. Conseguiu transmitir a ideia, em todos os discursos que ia proferindo, que um Imperador tem de confiar nos seus soldados, naqueles que defendem e lutam pela França, como franceses, e não naqueles que são apenas mercenários, clamando pela participação activa de todos como cidadãos de pleno direito.

Um exemplo da sua forma de trabalhar e apelar directamente às tropas, foi na Batalha de Austerlitz, quando percorreu 50 quilómetros a cavalo para informar, de forma pessoal e directa, qual era o plano da batalha do dia seguinte. Com este tipo de atitude, de forte liderança, demonstrava a cada um como eram importantes, quer individualmente, quer como força, que todos tinham um objectivo a cumprir, mostrando a confiança que tinha no trabalho que eram capazes de desenvolver, elevando enormemente o moral das tropas, factores estes que deram especial contributo para o sucesso da Batalha.

Um factor estratégico de extrema importância, que serve para complementar todas as alterações que Napoleão introduziu, foi o da utilização do poder de fogo conferido pelas armas, de forma integrada e direccionada. Este poder de fogo, conferido pela utilização das peças de artilharia, foi utilizado nas Campanhas, em cada batalha, centrando-o no eixo do ataque, o que destroçava todas as capacidades das tropas de infantaria inimigas.

Ele era mais um prático do que um teórico génio militar, e baseava-se num preceito fundamental: o de destruir decisivamente uma força oponente. Este preceito foi implementado mediante a introdução dum inovador uso da força, o atacar directamente a componente principal da força inimiga. Esta acção era desencadeada através do rodear e do destruir a componente principal duma força inimiga no terreno. Com esta sua táctica, o seu objectivo é o de destruir o equilíbrio inimigo através dum balanceamento cuidadoso entre meios e resultados, esforços e obstáculos. O objectivo central é o da aniquilação das forças no terreno, e considerava o alcançar de tal objectivo como suficiente para quebrar a vontade de resistir da força inimiga.

A partir do momento em que a Grande Armada se tornou suficientemente grande para combater em várias frentes ao mesmo tempo, em diversos Teatros de Guerra, Napoleão transformou as forças em cada local num Corpo, e estes passaram a subdividir-se em Divisões e Brigadas. Esta sua conceptualização da estrutura é a actualmente adoptada em todas as Forças Convencionais, de todo o Mundo, tendo-se tornado doutrinária. Desde o século XVII ao XVIII que os Exércitos eram constituídos por tropas de infantaria, de cavalaria, de artilharia, e as armas eram transportadas

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apeadas ou a cavalo. Napoleão alterou esta filosofia, fazendo com que cada Corpo passasse a ser auto-suficiente no tipo de composição, ou seja, tinha de ser composto por uma mistura de todas estas valências. O Corpo seria constituído por Divisões de Infantaria, de Cavalaria, de Artilharia, Comboios de Transporte de Bagagens, Ambulâncias e todos os restantes elementos necessários para uma força militar. Este tipo de formação permitia que os Corpos se ajudassem uns aos outros, se necessário, dada a composição de forças e respectiva mobilidade.

A estrutura adoptada, o conceito introduzido de aproximação, de marcha, de manobra e de batalha, baseados na flexibilidade do sistema do Corpo de Armada, conferiram uma nova utilidade para se alcançar o objectivo estratégico: o obter o objectivo político através de um simples acto de esmagamento/derrota militar.

A estratégia política de Napoleão foi a de mudar as regras e os Estados, tornando-os parte do seu Império, traduzindo-se o seu génio numa conjugação dos meios militares por ele criados, com os métodos para se atingir os fins: a derrota decisiva duma força inimiga.

Napoleão foi derrotado em Espanha porque a luta que lá se desenvolveu não foi contra forças do tipo convencional, mas sim contra pequenos bandos, numa guerra de guerrilha, contra a qual as suas forças e tácticas não estavam preparadas.

Na Rússia, em 1812, Napoleão foi novamente derrotado, porque se demonstrou ser insustentável continuar a manter uma tamanha necessidade de emprego de mais forças humanas, quando a capacidade do recrutamento se manifestava ser insuficiente para garantir o recompletamento exigível.

Foi o líder político e comandante estratégico das suas FA, sendo muitas das vezes o Comandante Operacional, das próprias forças do Teatro e muitas outras vezes, o próprio Comandante Táctico. Contudo, com esta sua intervenção, ele não podia estar encarregue, em todo o lado e ao mesmo tempo, de todas as situações, nem conseguia transmitir aos seus Generais, as regras a serem seguidas, facto este que se consubstanciou na derrota sofrida em Espanha e no mar. Só existia um Napoleão, e este não era omnipresente.

Uma das outras razões para o seu fim militar deveu-se a não fazer uso da força de forma equitativa em todos os níveis da guerra. Tinha um Exército massivo, dividido em Corpos, cujas tácticas nem sempre eram bem desempenhadas. Não se pode confundir a forma como um Exército combate, as suas tácticas e a sua capacidade ou poder de fogo, com a sua organização. Idealmente a organização deve seguir as tácticas ou, em alternativa, as tácticas devem seguir a organização. A necessidade das tácticas seguirem a organização amiudadamente foi um dos problemas da estrutura criada por Napoleão, porque deixou de haver comunicações, reabastecimento de mantimentos, e lideres desejados ao mais alto nível, ao nível das forças multinacionais.

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A Europa antes da campanha da Rússia 4.2 As Campanhas

Neste momento importará, consequentemente, apresentar as datas das Batalhas mais importantes em que Napoleão se envolveu ou como Comandante directamente responsável pelas mesmas. Assim sendo, temos:

1793 – Participa na conquista da Bélgica, da Sabóia e de Nice;

1794/95 – Participa na Campanha da Itália; comandou a guarnição de Paris; esmagou a insurreição monárquica e salvou a Convenção;

1796/97 – Nomeado Comandante-em-chefe do exército de Itália; Obtém vitórias em Nice, Lodi, Milão, Arcole e Rivoli;

1798 – Campanha do Egipto; 1800 – Batalha de Marengo;

1805 – Batalhas de Trafalgar e Austerlitz, tendo esta última constituído a maior façanha de toda a sua vida militar;

1806 – Decretado o Bloqueio Continental; consegue uma vitória sobre a Prússia em Iena; 1812 – Em Espanha as tropas de Wellington e a guerrilha obrigam os franceses a recuarem até

às suas fronteiras; o Czar Alexandre rompe o Acordo de Tilsit e o Bloqueio Continental, começando a negociar com os britânicos; Campanha da Invasão da Rússia; 1813 − 6.ª Aliança das potências europeias infligem a Napoleão a derrota na chamada «Batalha das Nações», em Outubro de 1813, em Lípsia, sendo a França invadida pelo Reno e pelos Pirenéus, pela primeira vez, desde 1793.

5.

O SONHO EUROPEU

Quando Napoleão assumiu o poder depois do golpe de Estado do 18 do Brumário, em 1799, a Europa encontrava-se numa faencontrava-se de acalmia, depois de ter estado oficialmente em guerra.

Como político, as ideias de Napoleão e o sistema por ele gizado surgiram como uma união de concreções e ambiguidades, resultando o facto de que para alcançar o poder e inaugurar o sistema do Consulado, coincide com o desejo expresso dos franceses de terem paz dentro e fora de França.

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Neste anseio, havia que consolidar internamente a revolução jacobina, e externamente, consolidar as conquistas girondinas. Napoleão era um resultado da Revolução, seguidor de Rousseau, empregando o estilo ideológico de Robespierre, mas com uma concepção do Estado e da sociedade mais próxima de Voltaire e de Montesquieu. Como General, promovido pela Revolução, tinha um móbil de unidade dos franceses e da sua continuidade da França como Estado.

Entre 1809 e 1811 o Império Napoleónico atinge a sua maior extensão. De 1810 a 1811 este Império incluía quase toda a Europa, com excepção da zona dos Balcãs. Era uma grande França, a qual tinha engolido a Bélgica e a Holanda, parte da Alemanha, e a costa italiana até Roma. Muitas das nações funcionavam como «bonecos ou peças de jogo» às mãos de Napoleão ou ao serviço dum qualquer subserviente por ele nomeado. A acrescentar a estas terras que ele governava de modo quase directo, Napoleão estabeleceu alianças com a Áustria, a Rússia, a Dinamarca, a Suécia e uma reduzida parte da Prússia. Desta forma, conseguiu fazer com que quase toda a Europa estivesse em guerra contra a Grã-Bretanha. Usou todos os recursos que a indústria e a população lhe podiam conferir, a favor do Império Francês.

Ao tentar encontrar pessoas leais pela Europa, Napoleão iniciou uma nomeação de pessoas como nobres, e isto foi feito de entre os que o serviam, o que veio a contrariar a enorme luta de duas décadas da revolução francesa contra a aristocracia. Apesar desta disseminação duma nova aristocracia pela França, os ideais da revolução francesa continuaram, contudo, a ser espalhados pela Europa continental.

Napoleão Bonaparte possuía um ideal universalista, e acreditava que era possível aplicar o mesmo sistema legal, as mesmas verdades por todo o lado, esquecendo que cada um tinha uma cultura própria, um modo particular de ver a realidade, um modo de vida que era cimentado por séculos de história. Foi devido a esta sua ideia que ele implementou o designado Código Napoleónico em todos os territórios que se encontravam sob o seu domínio. Mas apesar de Napoleão ter trazido o conflito a todo o lugar onde chegou, ele também conseguiu incrementar a ideia nestas sociedades de que todos são iguais perante a lei, e que os privilégios para certas classes sociais não podiam existir. Tentou acabar com o campesinato, mas não o conseguiu, dado que as pessoas que trabalhavam a terra continuaram a trabalhar no cultivo das mesmas, e os que eram donos continuaram a ser donos.

Adicionalmente às reformas sociais, Napoleão introduziu o sistema métrico, mais racional, que era o usado em França. Esta foi a razão que levou à sua implementação em grande medida e que ainda hoje vigora. A Grã-Bretanha como não adoptou o sistema métrico, por imposição, na altura, foi muito mais lenta na sua implementação, mais tarde.

Os Exércitos de Napoleão, passo a passo, levaram o espírito da Revolução francesa para toda a Europa, o que provocou uma espécie de revolução sem revolução no continente.

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De 1807 a 1811 Napoleão sonhou com uma Europa unida. Esta união fazia parte do ideário poético e das visões de muitos reis. Ela afigurou-se-lhe ser passível de ser obtida, apesar da ameaça constante e sempre presente que a Grã-Bretanha constitui a esta sua pretensão.

Nesta acepção, em que a conquista de Estados se configurava um meio de unificar a Europa, Napoleão defrontou-se com um outro grande problema, que era o de tornar os povos conquistados leais a um regime estrangeiro, tarefa esta que não se afigurava nada fácil, e para a qual utilizou uma solução expedita, que foi a de nomear os seus familiares para a ocupação dos diferentes cargos. Contudo esta solução não se assumiu como a desejável para manter a hegemonia do Império.

6.

O RUIR DO IMPÉRIO

Em toda a sua carreira Napoleão nunca travou uma batalha com a finalidade de se defender. Ele desencadeou-as sempre com o intuito de atacar. E dentro desta sua concepção tomava todas as decisões, ou seja, concentrava em si todo o poder de decisão, impedindo desta forma que os outros generais, os outros comandantes pudessem assumir decisões que não fossem os das suas ordens. Com esta forma de tomada de decisão, os exércitos ficaram muitas vezes impotentes, porquanto aguardavam as ordens que Napoleão iria emitir. Os generais não conseguiam assim desenvolver as suas capacidades e competências de chefia, ou seja, ficavam inábeis para o desempenho completo das missões militares. Com o decorrer dos anos, os inimigos de França foram aumentando, e os exércitos destes foram ficando cada vez maiores e melhores. Ficaram assim, consequentemente, capazes de explorar o sucesso com maior mestria, dado não terem de depender de ordens distantes e que normalmente tardam em chegar à frente de batalha. As operações militares passaram a ficar cada vez mais complexas e Napoleão começou a deixar de ser capaz de as planear a todas sozinho. A falta dum Maior fez-se sentir, para apoiar Napoleão na tomada de decisão. O Estado-Maior existia, mas como lhe foi sonegada a capacidade de preparação, de organização, de comando das forças no terreno, Napoleão foi assim vítima do seu poder e duma concepção de tomada de decisão centralizadora.

Um dos grandes erros de Napoleão foi o subestimar o poderio e a capacidade de resistência da Grã-Bretanha, país este que foi sempre o inimigo número um da França. A Grã-Bretanha foi o primeiro país do Mundo a industrializar-se, e desta forma necessitava dum mercado para se expandir, para poder colocar os bens que produzia. Esse mercado era o Europeu. Napoleão, numa tentativa de proteger a indústria francesa, e de a ver crescer, tentou fechar as portas da Europa aos produtos ingleses, com o chamado Bloqueio Continental. Com este Bloqueio, Napoleão só

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conseguiu fazer com que a Europa o visse mais como o tirano, cuja derrota passou a ser indispensável para que a paz fosse de novo uma realidade. Em 1805 foi constituída uma Aliança, a 3.ª, composta pela Grã-Bretanha, a Rússia, a Áustria e Nápoles, a qual visou, por um lado, não minimizar a hegemonia britânica nos aspectos económicos e ultramarinos, e por outro, combater a ordem internacional que alguns impérios não queriam perder e que a Rússia dos czares, com Alexandre I também não podia admitir.

O Tratado de Presburgo, assinado em Dezembro de 1805, constituiu o apogeu do Império, e o fim da 3.ª Aliança, tornando-se Napoleão dono da Itália, protector da Confederação do Reno e da Suíça, e o único imperador do ocidente, após a abolição do título de Sacro Império Romano-Germânico, em 1806.

Após a vitória obtida sobre a 3.ª Aliança, a Prússia aliou-se à Grã-Bretanha e à Rússia, dando origem à 4.ª Aliança, em 1806. As tropas prussianas foram derrotadas em Auerstedt e em Iena, indo os franceses ocupar Berlim em Dezembro de 1806. Em Tilsit, Napoleão e o Czar Alexandre I assinaram um Acordo − decretos de Berlim e Milão − em que o aspecto fundamental seria o apoio que a Rússia prestaria à França no estrangulamento económico da Grã-Bretanha.

Em 1808 foi criada a 5.ª Aliança, formada pela Áustria, pela Espanha, por Portugal e pela Grã-Bretanha, pretendendo-se com ela, e com o exemplo da sublevação verificada em Espanha, conseguir-se que os sentimentos nacionalistas recrudescessem e se voltassem contra os invasores, os franceses.

A Áustria foi novamente derrotada em Julho de 1809, em Wagran, o que despoletou outros acontecimentos como o casamento de Napoleão com a filha de Francisco I, em Abril de 1810, e a integração deste na mais ilustre casa imperial da Europa, a dos Habsburgos.

Continuando a tentar compreender as razões que levaram ao ruir do Império, encontram-se os problemas com que Napoleão se debatia em Espanha, em que o seu irmão José era apenas uma espécie de rei fantasma, e onde a manutenção da posse do país vogava entre as acções desencadeadas pelas tropas francesas contra as forças britânicas, contra as espanholas e contra as forças portuguesas, forças estas suportadas pela guerrilha espanhola. Como curiosidade, a acção, o nome de guerrilha, tal como ela é conhecida, terá nascido aqui, ou seja, com a actuação de pequenos grupos contra grandes forças, de forma não convencional, e contra a qual, as grandes forças se manifestaram incapazes de lidar.

Um outro aspecto a ter em conta foi o emergir de sentimentos nacionalistas em todo o continente, sentimentos estes que cresciam ao mesmo tempo que ia crescendo o desejo e a necessidade dos bens que a Grã-Bretanha dispunha e que eram desejados.

Na Grã-Bretanha o sentimento contra Napoleão ia também ele crescendo, muito deste sendo derivado das condições de exploração a que as mais baixas classes se tinham que sujeitar.

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Em Espanha, os Bourbon recebiam todo o apoio para recuperarem o trono, enquanto na Alemanha a Confederação do Reno e da Prússia começava a odiar cada vez mais Napoleão e os franceses.

Os intelectuais começaram a rejeitar o Iluminismo Racionalista francês, e em sua substituição, apareceu a nova variante designada de Romantismo.

Em França, muitos sectores da burguesia começaram a apresentar o seu descontentamento com a crise económica que derivava do Bloqueio Continental, e com o facto de terem que continuamente terem de suportar as levas, em termos de recursos humanos, para o recompletamento do exército imperial.

No resto da Europa os movimentos nacionalistas uniram-se aos grupos sociais e as insurreições despoletaram-se por todo o lado onde os franceses dominavam, e seguindo o exemplo da Espanha, seguiu-se a Alemanha, a Itália e a Rússia.

Após a abdicação de Napoleão, a 11 de Abril de 1814, ele ainda regressou, entre Março e Abril de 1815, para a chamada aventura do «Império dos Cem Dias». Todavia, com a pesada derrota que em Waterloo, a Junho de 1815 os aliados lhe conseguem infligir, fazem com que se conclua definitivamente a época napoleónica, a qual marcará de forma indelével um período da história europeia.

Napoleão e a sua actuação serviram para inspirar e ensinar às separadas federações alemãs, perdedoras de contendas pela sua fraca capacidade de organização hegemónica, de que o poder resultava da existência dum estado forte e centralizado, o que levou à criação anos mais tarde do Estado-Nação com Bismarck (1871).

7. CONCLUSÃO

A Europa antes de Napoleão Bonaparte vivia sob uma tensão constante, em que as lutas entre os estados eram uma realidade insofismável, imperando a celebração de Tratados e o respectivo rompimento, ao mesmo tempo que outros, de carácter secreto eram também elaborados, e minavam as relações entre todos. A França começou a assumir uma maior preponderância ao nível das forças terrestres, enquanto no mar, a Grã-Bretanha mantinha a sua enorme supremacia naval.

A Revolução francesa e todos os factores que lhe estiveram intrinsecamente ligados, contribuíram para que se criassem as condições necessárias a uma maior notabilização da personalidade de Napoleão, e consequentemente, ao seu empenhamento em algumas das fases, cujo

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culminar no golpe de estado do 18 Brumário serviram para finalmente o guindar para o primeiro plano político e militar.

Já na situação de General e Comandante máximo do exército francês, a chave do rápido engrandecimento de Napoleão baseou-se em dois pilares fundamentais: o inegável génio militar e a capacidade para apoiar um sistema de governo com princípios aceites pela maioria dos franceses.

Ele foi um estratega que utilizou métodos revolucionários na arte da guerra. Assentou a sua estratégia em princípios como a utilização de grandes mobilizações de massas, as quais lhe conferiram uma maior capacidade de concentrar as forças e romper as linhas inimigas; dotou as suas forças de grande capacidade de mobilidade e de rapidez; por outro lado, reorganizou a estrutura das unidades orgânicas. Com estas alterações, Napoleão dava as ordens directamente, nos aspectos tácticos, tendo transformado o exército numa máquina de guerra invencível, e que o levou ao domínio da Europa e à máxima glória da França.

A todo o êxito relativo às questões militares, junta-se-lhe o inegável apoio popular, conseguindo assim o regime napoleónico consolidar-se. Napoleão soube captar os anseios duma sociedade francesa cansada da anarquia e da desordem que tinham caracterizado a direcção política do Estado.

Napoleão desejou a estabilidade política e a pacificação social, sem contudo renunciar às conquistas de Revolução. Pretendeu restabelecer a unidade social e histórica de França, bem como a vontade de conseguir o reconhecimento internacional, partindo do reconhecimento pelas grandes potências das conquistas territoriais do Directório.

Um dos grandes legados de Napoleão para a posteridade foi o trabalho de codificação, o Código Civil (1804). Este documento, imposto em todos os territórios ocupados pelos exércitos imperiais constituíram um dos aspectos mais evidentes da tarefa de consolidação das principais conquistas revolucionárias por parte do regime.

O Império iniciou a sua ruína com a incapacidade de Napoleão de comandar directamente todas as suas forças, no terreno, dado que não conferia aos seus generais a competência delegada de executarem as missões que entendessem para se obter a vitória, ou seja, era um comandante que pretendia ser omnipresente. Por outro lado, subestimou em demasia o poderio e a capacidade de resistência da Grã-Bretanha, a qual soube resistir ao Bloqueio Continental, e este findou pela falta que os produtos, os bens essenciais que esta produzia se faziam sentir nos restantes estados. Outro facto foi a guerra de guerrilha que os espanhóis encetaram veementemente e contra a qual Napoleão e as suas tropas se manifestaram ser incompetentes para combater, tendo as mesmas obtido um apoio muito importante, que foi o da Grã-Bretanha. Para finalizar, o sentimento nacionalista, e a vontade de independência começaram a grassar por todo o lado, e os familiares nomeados como governantes destes estados não conseguiram combater este factor sociocultural.

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Bibliografia

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Referências

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